quarta-feira, 1 de abril de 2015

Lido: Earthworks

Earthworks, de mais um autor anónimo (guardam segredo? Então é de Simon Kevin), é um conto muito interessante sobre uma mulher que em certa altura da sua vida se descobre alérgica ao mundo moderno. Não figurativamente (embora o simbolismo seja evidente): fisicamente. E por isso tem de se retirar para o interior de uma bolha de isolamento que a contém a ela e à sua coleção de objetos obsoletos, cortando todas as ligações com o mundo exterior e os contaminantes que ele carrega consigo.

O conto está francamente bem concebido, levando o leitor num balanço suave, em infodumps que mal se notam, sobre o passado e o presente, sobre a vida da protagonista, tanto a anterior ao isolamento como a contemporânea, sobre as pessoas que dela fazem e terão outrora feito parte.

A dar estrutura a tudo estão as escavações que ela a dada altura resolve começar a fazer em segredo e que dão título ao conto. Escavações que são uma mistura de arqueologia e fuga, uma espécie de retorno a épocas anteriores à modernidade que a põe doente. Dir-se-ia quase um regresso ao útero do tempo.

Um pouco ludita? Talvez; afinal de contas, a protagonista só no passado se encontra a si e à sua liberdade. Mas é provável que aqui se trate, mais do que de ludismo, da nostalgia pelo que já foi (e de idealização do passado, também), que constitui uma porção tão grande do apelo que a história tem na literatura e demais artes narrativas para quem dela é fã. Imagino que seja esse o caso do nosso autor anónimo, ou que ele tenha decidido escrever um conto simbólico com uma dessas pessoas como protagonista. Mas fosse esse o objetivo ou não, o certo é que o conto é realmente bom.

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