segunda-feira, 26 de maio de 2003

Spamesia (21)

Bem, isto da spamesia, originalmente, era suposto ser composta apenas por pequenos spamemas, umas quantas linhas apenas, fáceis de colocar aqui no blog e passíveis de serem lidos calmamente por eventuais visitantes com tempo nos olhos. Mas eis senão quando eu encontro no meio de um record diário de quase 50 (!) spams recebidos ontem, um de título "Hey you". A primeira coisa de que me lembrei foi da magnífica canção homónima dos Pink Floyd. A segunda, foi deste longo testamento que segue agora mesmo:

Eh, tu

Eh, tu, que vives a vida com olhos pixelados
cheios de uma alegria de plástico
experimenta agarrar no comando com as tuas mãos trémulas
e com mãos trémulas premir o botão de off
sei que sofrerás de abstinência
da companhia permanente que te faz quem nunca te viu
e nem se interessa por ti
e cuja imagem de ti é a de uma coluna de números esverdeados
que lhe indicam as probabilidades que tens
de consumir aquilo que te querem vender

Eh, tu, que recordas melhor a Cornélia
do que o rosto dos teus netos
vai à janela pela primeira vez em meses
abre-a e respira
ainda que o ar poluído te assalte os brônquios em ondas dolorosas
os teus olhos lacrimosos irão provavelmente sorrir de verdade
pela primeira vez em muitos anos

Eh, tu, que adormeces o cérebro com a última telenovela
e a comentas com as vizinhas, em sotaque brasileiro
da próxima vez que fores assaltada por uma comoção interna
por uma dúvida acerca da relevância da tua vida
experimenta não correr a ligar o écran
deixar que essa dúvida se instale, girá-la nas mãos
olhá-la de todos os ângulos possíveis
chorar, se for preciso
gritar, se te apetecer
abraçar o mundo com tudo o que ele é na realidade

Eh, tu, que foges de ti
Tu não passas de um pixel do écran da vida
e tens duas opções
ou tomas a mesma cor de todos os teus vizinhos
ajudando a criar uma imagem vazia
ou te rebelas e mudas de tom, nem que seja só um pouco
e ajudas a construir a grande obra de arte
que pode ser este planeta

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