sábado, 3 de maio de 2003

OT

Deixem-me confessar um dos meus prazeres culposos: sou espectador fiel da Operação Triunfo, um programa que funde conceitos como os de concurso, programa musical e big brother (na sua abjecta versão televisiva, não na sua extraordinária origem literária) num todo surpreendentemente coerente.

Para quem não conhece a coisa, dezasseis jovens e não tão jovens competem entre si e principalmente contra si próprios num esforço de melhoria das suas capacidades vocais, fechados num híbrido de casa-big-brother e escola de música, sujeitos domingo a domingo a serem postos na rua através da votação telefónica dos espectadores.

Há aspectos muito desagradáveis naquele programa, é verdade. Tudo o que ele tem de big brother me deixa no mínimo incomodado. As legiões de fãs fanáticos que gera também me deixam muito incomodado, até porque no fundo são esses fãs a principal razão que o programa tem para existir. São eles quem gasta dezenas de euros todas as semanas a votar nos seus "favoritos", ou a salvar da saída o concorrente A ou o concorrente B. São eles quem leva os discos aos tops. São eles quem compra o merchandising da coisa. E serão eles quem irá decidir, em última análise, se aquelas 16 pessoas terão ou não mais do que os seus 15 minutos de fama, se serão ou não esquecidas para sempre mal o programa acabe.

Mas apesar de tudo isto, gosto daquilo. Para começar, a escola de música é dirigida por uma enorme senhora da música portuguesa, a cantora jazz Maria João. E também, ou talvez principalmente, porque em cada um daqueles 16 se vê, por vezes em alguns, quase sempre noutros, brilhar bem forte o fogo do talento. E a mim, o talento comove-me.

Agora, o programa aproxima-se do fim. E eu começo a estar na expectativa. Não de quem vai ser o vencedor, porque para mim isso é inteiramente secundário e não tem o mínimo interesse. Mas sim acerca de quais daqueles jovens de olhos brilhantes irão manter esse brilho no olhar depois da OT.

É que neste país, o talento verdadeiro é quase sempre olhado com desconfiança e chega a ser activamente sabotado pela massa abjecta dos medíocres. E eu pergunto a mim próprio quantos daqueles rapazes e raparigas sabem disso. Quantos sabem que entraram voluntariamente numa máquina muito capaz de trucidá-los, mastigá-los e cuspi-los sem o menor remorso, sem um último olhar. E quantos, ao aperceber-se disto, são capazes de encontrar forças para se manterem puros.

É isto que me preocupa no pós-OT. E a vocês?

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