sexta-feira, 31 de outubro de 2003

Spamesia (177)

Na terça, o zigue prosseguiu até, imaginem, aos 49 spams. Lá no meio apareceu-me um de título "cowpox". Achei curioso. "Cowpox" é a designação inglesa duma espécie de sarampo das vacas — que relevância pode tal coisa ter para um spammer? Mas depois pensei melhor: e isso que interessa? Não é muito mais interessante inventar? Achei que sim, e inventei uma epidemia causada por uma doença humana (e inventada, claro) com um nome que não é mais que a tradução literal de "cow pox". Ou seja, chamada...

Pústulas de vaca

Do telhado escorre um fado, quase calado
murmurado por um vulto encapuçado
a noite também escorre do telhado
numa cascata de fogo fátuo azulado
e do céu escorre a Lua e desta caem gotas de luz
uma luz branca e fria, envolta em nevoeiro

No fim do fado, o vulto olha em volta
e só vê o silêncio, que escala chaminés
e o rastejar do musgo entre as telhas
Um gato salta, pardo, mas o vulto não o vê
pardo também ele, envolto em treva

Começa outro lamento, sem cor nem fingimento
e por um momento vem de algures um raio de luz
que lhe atravessa a defesa do capuz
e a dor que o vulto canta toma forma

Uma manta de retalhos de manchas retalhadas
é tudo o que resta de uma pele que já tivera
em si a suavidade de um poema
que pena que a doença a enfraqueça
que pena que a cidade desapareça
a pouco e pouco, devorada devagar
pela morte da caveira das manchas negras

Do telhado volta a escorrer um fado, quase chorado
acompanhado de um manto de silêncio
só ao longe, muito ao longe, é ouvido
por outro vulto, também ele encapuçado
tem nas mãos o vulto em gota de uma guitarra
e nos dedos a vontade de fechar os olhos
e não voltar a ver a luz do dia

Dois vultos na última noite da cidade antiga
entre eles, um fado improvisado

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