A Lâmpada Mágica
Um blogue de candeias às avessas, para agitar o conteúdo das vossas cabeças
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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2004
 
Estamos a 123 dias do europeu de futebol...
... e eu já estou fartinho dele até à medula.

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Spamesia (279)
No sábado, foram mais 75 os spams e os vírus que me chegaram através dos filtros. Desses três quartos de centena, escolhi um que vinha intitulado "give", e escrevi uma historinha do quotidiano urbano numa qualquer sociedade de consumo:



Dá!, diz o puto de braço estendido
e dedo espetado como minúscula
mas afilada lança capaz de matar
os dragões de todas as carteiras

E o pai, dá, cabisbaixo e cansado
sorrindo sorrisos que julga alegres
arrastando pelo chão os palpos
moles das olheiras e dos músculos
flácidos dos trinta e tal anos como
se a vida que teve outrora lhe
estivesse agora a ser sugada por
pequenos mas implacáveis vampiros

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Spamesia (278)
Na sexta-feira, farto de apagar vírus, e depois de ficar sem receber email pela segunda vez, instalei um filtro anti-spam que também identifica uma parte dos vírus e os apaga antes de eles atravessarem os portões do servidor. Resultado: a quantidade de lixo caiu para metade, o que mesmo assim ainda significou 75 mensagens. Uma dessas mensagens vinha intitulada "demonstrable", e eu escrevi esta patetice que se demonstra alguma coisa é que eu não sou o José Sesinando:

Demonstrável

Demonstra o sável
com pele de monstro
que o monstro estável
não mostra o rosto
e é demonstrável
que a cor do mosto
é insuportável
pra qualquer monstro

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Spamesia (277)
Tinha-vos deixado a pensar sobre a quarta-feira e os seus 133 spams e vírus, e regresso falando-vos da quinta e dos seus 139 spams e vírus. Vou-me tentando manter à tona deste mar de lixo que me entra todos os dias pelo cano aberto do correio, e desta vez escolhi um spam russo que anunciava "Бижутерия":

Bijuteria

Tratas os afectos como se fossem simples bijuteria
penduras sentimentos das orelhas como qualquer quinquilharia
por isso deixei-te só para não te dizer coisas que nunca te diria

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Efeitos secundários do vírus
Já conheço o email (privado?) do Vital Moreira.

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O que realmente aconteceu ao Spirit...
... está aqui, em rigoroso exclusivo. Aviso: exige Quicktime.

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Voltei
... e em breve voltarão os spamemas, que o lixo acumulado nas minhas caixas de correio já é demasiado.

(e o w.bloggar deixou de funcionar)

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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2004
 
Post só para visitantes regulares do blog e dos comentários
Realmente, a Nádia... nham... e com um bocadinho mais de carne... nham, chlép!

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Spamesia (276)
Quem se admirou dos 70 mails de terça, fique sabendo que nesse dia começaram os meus problemas de email (provocados directamente, sei agora de ciência feita, pelo vírus), e que só tive tanto spam porque o único dos meus endereços que não foi afectado foi um, antigo, de onde me chega a maior parte do lixo. E decerto ficará mais sossegado se lhe disser que na quarta, ao chegar todo (espero eu) o mail que tinha ficado retido, algures, veio com ele todo o lixo que não chegou na terça. Resultado? 133 mensagens. Ah pois! A vantagem é a do costume: bons títulos. Desta vez foi "contrite"...

Contrito

Contrito fito teus olhos belos
admito tudo o que eles me gritam
e espero que o mero acto de baixar o rosto
te mostre tudo o que eu digo, mudo

Submisso sou só um suspiro teu

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Spamesia (275)
Já gostei mais do título que me chegou na terça-feira, embrulhado em 70 fragmentos de lixo elecrónico: "Your year":

O teu ano

Esperas do teu ano que seja breve de tão cheio
de todas aquelas coisas
que fazem com que a vida seja leve
Esperas do teu ano que te traga todos os remédios
e que resolva duma assentada os rancores e os ódios
Esperas do teu ano que seja um bom bissexto
e que daqui a outro ano ainda cá estejas
para esperar coisas do teu ano
Esperas do teu ano que tenha
trezentos e sessenta e seis dias
como terá o ano de todos os sobreviventes

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Spamesia (274)
Na segunda-feira, claro, continuou o dilúvio, com um total de 98 canddatos à lixeira, e com a adicional irritação de não haver um único título de que se pudesse dizer sim senhor, é isto mesmo. Lá tive de pegar num manhoso, "hate hangovers?", e escrevi:

Detestas ressacas?

Detestas ressacas?
Detestas dquela sensação de nuvem
seca a pairar sobre o teu pescoço?
Detestas enterrar os pés na terra
e senti-la fria e oscilante como o
convés de um velho navio fantasma?
Detestas sentir que os teus olhos
não estão bem presos às órbitas
e sacolejam de bordo a bordo
tilintando como as chaves num chaveiro?
Detestas tremer de frio no chuveiro?

Então, caro amigo, bebe mais
se beberes muito, deixarás de ter ressacas
ou, pelo menos, se as tiveres à mesma
já não terão a mínima importância
nada já terá a mínima importância

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Spamesia (273)
No domingo houve um bocado menos de lixo: só 86 mensagens. O principal problema é que também houve só títulos muito maus, e eu tive de pegar num "Virus Alert". Mas mesmo assim acabei por escrever uma coisa razoavelmente grande:

Alerta de vírus

Estás só entre colinas
rodeado de árvores que se movem na brisa
em movimentos harónicos simples
pássaros cantam ao longe canções repetitivas
pitii-puuu, pitii-puuu, pitii-puuu
e o único outro som que te sobe pelas pernas
é o marchar profundo de uma centopeia
que te rodeia
e rodeia
estás em paz contigo e com o mundo

Só entre colinas
onde surgem de repente manchas cristalinas
que alastram
ocupando o lugar deixado vago pelos pássaros
que se calam com um rangido de máquina
e de ferrugem

E de repente estás só
entre cadáveres pixelados de colinas
e no céu, entre nuvens de onde chovem números
letras piscam, gigantescas:

ALERTA DE VÍRUS
ALERTA DE VÍRUS

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Movimento harmónico simples
Já vos disse que este gajo é brilhante? Acho que sim, mas repito: este gajo é brilhante.

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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2004
 
Os nabos e os que estão em recuperação
Bem, para evitar mais mal-entendidos, que isto há por aí uns visitantes suceptíveis, vamos pôr uns termos em pratos limpos. Que é um nabo informático? Um nabo informático é um membro daquela espécie tão comum na nossa info-fauna, que não só é completamente ignorante na utilização dos computadores, como nutre uma raiva surda contra todos aqueles que sabem mais alguma coisa do que ele e se recusa terminantemente a aprender o que quer que seja. Esta espécie é particularmente perigosa (e confesso que sempre que acontecem coisas como as que têm acontecido nos últimos dias cedo à tentação de simpatizar com o extermínio) e particularmente insuportável.

Depois há os que estão em recuperação. Podem ter sido nabos que finalmente compreenderam que a sua irresponsabilidade tem consequências graves para os demais, ou podem ser novos utilizadores que podem não saber lá muito disto mas querem aprender, são curiosos e fazem perguntas a quem sabe. Estes têm a desculpa de terem acabado de chegar à cidade e de ser preciso algum tempo até atingir níveis de competência básicos.

Contra os segundos não tenho nada, bem pelo contrário. Que diabo: eu próprio já fui assim, há uns anos, e ainda hoje aquilo que não sei supera em muito aquilo que sei.

Mas contra os primeiros tenho, e muito. E se for preciso massacrá-los com as consequências dos seus actos para que finalmente compreendam, massacrá-los-ei.

Entendido?

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Béque in bizniss
OK, problema resolvido. Já tenho email outra vez Mas se por acaso me mandaram alguma coisa nos últimos dois dias e eu não responder hoje ou amanhã, voltem a mandar porque é sinal de que se perdeu algures num limbo qualquer.

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Para quem acha que não há problema em espalhar vírus, informo que...
... neste momento estou sem mail.

Escusam de me mandar correio electrónico, que a incompetência de milhares de utilizadores espalhados por esta internet fora teve como efeito secundário que eu (e provavelmente muitas outras pessoas) deixei de receber email.

Obrigado a todos os nabos que por aí há. Do coração.

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Lindo!
Não! A sério! Lindo! Lindo assim tipo lindo! Se sabem bem inglês vão rir-se até cair da cadeira. Juro!

BUAHAHAHAHAHAHA!!!

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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2004
 
Spamesia (272)
E no sábado?, perguntam vocês. Pois no sábado foram 99 mensagens de lixo, entre spams e vírus (apagados (grr) um (grr) a (grr) um (grr) à (grr) mão). Lá no meio havia um título sem grande sentido, com que eu fiz um spamema sem sentido nenhum... ou talvez não. O título era "ow dingo caricature", e o spamema foi:

Oh! A caricatura de um dingo!

Tenho um amigo australiano
que vive, coitado, todo o ano
ao contrário dos outros de nós
tem um álbum de negativos
usa maçãs como aperitivos
e chama crianças às suas avós
Nem de propósito, um dia encontrou
um governante que lhe perguntou
se o que dizia fazia sentido
O meu amigo, com ar sabedor
lá lhe foi dizendo que sim senhor
que aquele caminho que era seguido
tinha de levar até à nascente
e que ele gostava de ser presidente

Querido Dingo, amigo, my friend
suspeito que aqui ninguém te entende...

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Spamesia (271)
Sexta-feira foram menos: só 90. Muitos avisos disparatados de mensagem devolvida, muitos relatórios inúteis de servidor, enfim, muito lixo. Peguei num "You will love it" não particularmente entusiasmante e escrevi:

Vais adorar isto

Vais adorar isto!
É mesmo daquelas coisas
que te fazem sair
por um momento
da ferrugem dos teus dias
É um bocado de seda
feita de nada

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Spamesia (270)
Na quinta-feira, spam e vírus somaram 109 mensagens, gerando um atafulhamento completo na minha caixa de correio. Dez dos vírus, nada menos, traziam de título "test" (ou "Test"), e eu verguei-me a tanta insistência:

Teste

Vê se passas este teste:
Um dia houve um homem
que morreu jovem
assolado por uma insuportável
preguiça de viver
tudo nele era lento
e até a voz
tinha a forma de um lamento
Já te reconheceste?

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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2004
 
Ainda bem que não tenho de quebrar uma regra...
Ia quebrar uma regra aqui na Lâmpada. Ia escrever sobre futebol, a propósito do que se passou neste fim de semana. Até cheguei a escrever um rascunho, irritadíssimo, que guardei para suavizar mais tarde. Mas felizmente não vai ser necessário. Numa ronda pelos meus moribundos links humorísticos, descobri que estes tipos, inactivos vai para dois meses, deram finalmente sinais de vida. E logo a dizer exactemente o que eu queria dizer.

Só acrescento uma coisa: para mim, este fim de semana o futebol morreu. Da próxima vez que me aparecer à frente bola na TV, mudo de canal. Imediatamente. Seja qual for o jogo.

Tenho dito.

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Vinte mil
A Lâmpada acabou há minutos de ultrapassar a marca das vinte mil visitas desde alguns dias depois da sua fundação, no fim de Abril último, que foi quando instalei o contador. Fico contente por ver que os fãs da Carla continuam a gostar tanto da Lâmpada que chegam cá em grande número. Fico também contente por ver que até vai havendo alguns de vocês que vêm cá regularmente por causa do que o blog realmente tem (não, meus caros fãs da Carla, aqui não há fotografias de gajas nuas). Um obrigado a uns e a outros, e siga pra Bingo!

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Sábado, 31 de Janeiro de 2004
 
O primeiro defeito do w.bloggar
Ainda não há 24h que o uso, e já dei com o primeiro defeito do w.bloggar: não lida nada bem com alfabetos "estranhos", como o cirílico. Aquela coisa em russo, ali em baixo, teve de ser espetada lá usando o editor do blogger.

Bugger!...

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Spamesia (269)
Quarta-feira, já toda a gente sabe, o dilúvio de emails carregados de vírus continuou, mesmo que eu, pessoalmente, tenha recebido em menor quantidade que no dia anterior: ao todo o lixo chegou às 78 mensagens. No fim da lista, vinha uma mensagem em russo: "ЭТА ИНФОРМАЦИЯ ПОЛЕЗНА ДЛЯ ВАШЕГО ЗДОРОВЬЯ!" e foi essa que eu escolhi:

Esta informação é útil para a sua saúde

Quando andar pela rua e vir
um carro a vir
em sentido contrário
saia do caminho, caso contrário
o seu caminho poderá tornar-se
no último caminho que percorrerá

Parece inútil dizer isto, parece coisa
daquele senhor francês
cujo nome faz lembrar paliçadas
mas a verdade é que as coisas
que vemos todos os dias nas nossas estradas
fazem pensar que se calhar
é mesmo preciso
repetir e repetir e repetir
para que de tanto repetir
esta gente ganhe algum juízo

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Spamesia (268)
Na terça-feira, começou o caos. Estava-se tão bem, com cerca de meia centena de spams por dia, eis que me começa a chegar outra meia centena de vírus por dia, cujos atachos têm de ser apagados um a um. Raisparta. Mas raisparta com muita força. Quanto ao que interessa, um título, veio num spam que até se anunciou com um tag e tudo: "[spam] Error"

Erro

Aquele berro
foi um erro
mas, porra,
um homem
não é de ferro!

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Spamesia (267)
Depois do domingo, seguiu-se a segunda-feira, dia ainda calmo com 50 mensagens-lixo a chegar-me à caixa do correio e um título pequenino e agradável a rir-se para mim logo no topo da lista: "fled". Aliás, ultimamente têm-me chegado uns quantos spams simpáticos, só com uma ou duas palavras no título, mesmo porreiros para pegar neles e retorcê-los para onde mais me convém. Assim é bom. E desta vez, a minha conveniência virou para:

Fugiu

O José um dia olhou bem fundo nos olhos da Maria
leu neles tudo aquilo que ela nunca lhe diria
estremeceu e fugiu
e nunca mais ninguém o viu

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Novidade!
Usando o w.bloggar... vejamos que tal funciona...

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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2004
 
Isto é...
As linguagens mais faladas no mundo:

1. Chinês
2. Espanhol
3. Inglês
4. Bengali
5. Hindi/Urdu
6. Árabe
7. Português
8. Russo
9. Japonês
10. Alemão
11. Francês

As maiores Wikipédias:

1º Inglês
2º Alemão
3º Francês
4º Polaco
5º Sueco
6º Holandês
7º Japonês
8º Dinamarquês
9º Espanhol
10º Esperanto
11º Catalão
12º Italiano
13º Esloveno
14º Interlingua
15º Chinês
16º Finlandês
17º Romeno
18º Português

... uma vergonha!...

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Resposta ao hmbf
(ficou demasiado grande para a caixa de comentários, teve de vir para aqui. E, de resto, isto tem interesse geral)

Se o teu humilde professor de filosofia for para a estrada sem saber conduzir, o mais certo é não durar muito no meio do trânsito. Aliás, o mais certo é ir parar ao hospital (e estou a ser bonzinho) e levar alguns pobres inocentes com ele. Inocentes esses que foram suficientemente conscienciosos para aprender a conduzir antes de se meter à estrada.

A internet é exactamente igual: por causa de milhões de professores de filosofia iguais aos teus, nós, os que somos suficentemente conscienciosos para ir aprender a conduzir, temos de gramar com viroses periódicas e devastadoras. Quando escrevi aquele post, tinha acabado de perder tempo que deveria ter sido gasto a fazer outras coisas a apagar à mão algumas dezenas de anexos com vírus. Daí a irritação.

E ainda por cima, é tão (mas tão) simples! Basta (exactamente) desconfiar de todos os emails que receberes com ficheiros anexados. Todos. Nunca abrir nada automaticamente.

E depois de desconfiar, vai-se ver. É GIF? Pode-se abrir. É JPG? Pode-se abrir. É TXT? Pode-se abrir. É RTF? Geralmente pode-se abrir. É PDF? Pode-se abrir. É DOC, XLS, HTM, HTML, etc.? Se o endereço do email for de alguém confiável, e se o corpo do email contiver uma mensagem que seria de esperar dessa pessoa, pode-se abrir. É ZIP? Abre só se tiveres absoluta certeza de que quem te enviou o email sabe o que está a fazer.

É algum destes tipos de ficheiro mas com outra extensão a seguir (por exemplo: ficheiro.TXT.EXE)? Não se abre NUNCA!

É EXE, PIF, BAT, SCR, DAT? Só em situações muitíssimo especiais se deve abrir.

E é assim. Nem sequer é preciso um antivírus. É simples. Muito mais simples que o código da estrada.

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Mais uma sobre o mydoom
Mais uma sobre o mydoom: este vírus coloca muitas vezes um endereço falso (mas existente) no campo "from:" dos emails. Consequência? A esmagadora maioria das mensagens que se recebem a dizer que o vosso computador enviou um ficheiro infectado são falsas. Geralmente o que acontece é que alguém, algures, deixou-se infectar e desse computador seguem mensagens identificadas como se fossem provenientes de todos os endereços que o vírus conseguir encontrar. Um único computador infectado pode provocar alertas de infecção para centenas de endereços diferentes.

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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2004
 
Uma perplexidade que nunca me largará
Tenho uma séria deficiência: nunca deixo de me espantar com a estupidez alheia (a minha, quando ataca, não me espanta: irrita-me). Especialmente com as proporções a que ela chega.

Vem isto a propósito da última vaga de vírus, o mydoom. É vírus que só infecta quem for suficientemente idiota para ir abrir o anexozinho. E a imensidão de mensagens que têm surgido infectadas com o bicharoco (fala-se já de 30% de todo o email trocado no planeta) é sintoma claríssimo da imensidão de imbecis que enxameiam este cibermundo.

Triste humanidade, que tem um cérebro e não o usa...

ADENDA: O mydoom, tal como todos os outros vírus do género, também se espalha por causa de certos programas de email (não digo quais, para não me acusarem de fazer propaganda anti-Microsoft), que correm automaticamente todos os anexos, a não ser que os utilizadores consigam entender o caos contra-intuitivo que são as suas ferramentas de personalização e desligar essa opção. E também se espalha por causa da ilusão confortável que muita gente tem de que basta ter um anti-vírus para estar protegida. Nada há de mais errado.

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Spamesia (266)
O domingo foi ainda dia de bonança, apenas com 47 bocados de lixo electrónico a chegar-me à caixa de correio. Destes, havia um que falava de uma daquelas coisas que se usam para segurar as calças: "belt"

Cinto

Um cinto cinge a cintura
e segura
a alma que doutra forma iria nua
pela rua
sob ordem de soltura
inocente e pura
entre rios de ternura

Um cinto é coisa que perdura
Minto:
é coisa escura

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Spamesia (265)
OK... uma pausa, e um grande atraso que começa (espero) a ser agora recuperado. Estávamos na sexta, passemos ao sábado, dia em que me chegaram 54 spams. Desta vez nem li os títulos todos: abri a mailbox, li "Fluffy cat" e pensei: "é isto mesmo":

O gato farfalhudo

O gato farfalhudo ronrona
e ronda o rato que ressona
no avental da matrafona

O gato então olha em volta
a ver se o rato tem escolta
vê que não, que são só dois
os animais que ali encontra

Então o gato chega perto
em silêncio e com cuidado
da outra vez foi descuidado
e o raio do rato acordou
Agora não, já só se ouve
o bater do coração
e o ruído ressonado
do rato em respiração

Mas eis que um pio acorda o rato
num acordar nem nada suave
grita o rato “Ai deus me salve!”
salta o gato — não salvou

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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2004
 
Spamesia (264)
Na sexta-feira tive 62 spams, incluindo um de uma tal Goldie Hughes de que nunca ouvi falar a perguntar-me pela família. Ou antes, pela family. Isto é, a perguntar-me "Hows the family?", com erro e tudo. Bem, respondi-lhe. Sort of.

Como vai a família?

Olá, querido amigo
como vai a família?
Por cá todos mal
como sempre
a avó morreu
de social-democracia
dizem que é doença
que ataca muito o fígado
o mais novo
anda em pomadas
o médico diz que tem
pedofilia
a senhora, coitada
anda com umas crises
nas partes baixas
ela pensava que era
hemorroidal
mas afinal
parece que é
currupção
e quanto a mim
como não tenho luvas
apanhei um desemprego
que não há meio de passar
mesmo a pão e água
é só cabeça e barriga
a doer
Enfim, tudo normal
e tu, como tens passado?
E como vai a família?

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Sábado, 24 de Janeiro de 2004
 
Spamesia (263)
Quinta houve de novo menos spam, mas a tendência parece ser crescente: 59 mensagens-lixo. Três destas mensagens vinham intituladas "Re: STUDENTS", e eu, perante tanta insistência, cedi:

Estudantes

Recordo quando éramos estudantes
não parecia haver uma preocupação
no mundo para lá do próximo exame
nada nos vinha desassossegar o optimismo
nem propinas nem más notas
nem sequer as ressacas das noites de farra
nem sequer as descobertas
de que as mulheres com quem passámos a noite
ainda não eram quem nos iria trancar
a parte mais bela dos sonhos
num cofre de perfumes e risos

Nessa época a guerra fazia-se em paz
não provocava vítimas definitivas
e o futuro estava ali ao alcance dos dedos
pronto para nos desvendar todos os segredos

Nostalgia? Talvez, um pouco
mas acima de tudo um grande desconforto

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Menos de 40 minutos depois de eu ter escrito o post abaixo, o Frederico esclareceu que quem quer que seja a "Anabela M Ribeiro" do extraordinariamente estúpido Possibilidade do Sentir não é a Anabela Mota Ribeiro da televisão.

Ufa! Assim fico mais satisfeito!

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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2004
 
As dúvidas excruciantes da blogosfera
Esta coisa da blogosfera, às vezes, deixa um tipo perplexo. Pelos motivos mais variados e mais díspares, diga-se, mas há dois que, pela sua frequência, se destacam. Um é quando de absolutos desconhecidos surge material da maior qualidade, como (felizmente) vai acontecendo com frequência; outro é quando de figuras mais ou menos conhecidas e respeitadas, surge material relevador da mais absoluta indigência intelectual.

Um exemplo da segunda categoria pode encontrar-se neste blogue. Aparentemente, trata-se do blogue de uma senhora que, no seu estilo permanentemente algo deslumbrado e perplexo, consegue fazer das entrevistas mais interessantes que se têm visto na nossa TV. E digo aparentemente, porque não tinha a senhora na conta de imbecil, bem pelo contrário, mas aquilo que se pode ler no blogue é de bradar aos céus.

São muitas e variadas as cretinadas, mas talvez a série mais representativa seja a que tem por tema Tolkien. Escreve a senhora coisas como: "Tanta referência ao triunfo dos homens bons e justos do Oeste perante os tiranos do Leste é obviamente uma referência ao mundo em que vivemos. [...] Que Tolkien era misógino parece-me óbvio [...] mas nesta adaptação contemporânea ao grande écran não terá sido possível usar-se a liberdade artística para o tornar mais adequado à nossa realidade? Pergunto-me, Aragorn não poderia ter sido mulher, mantendo ou potenciando a sua importância como personagem fulcral? E o mesmo vale para Gandalf, Frodo ou até Gollum. A respeito deste último, há algo a dizer. A sua representação no filme é, obviamente, uma evocação do aspecto que o corpo dos doentes com SIDA em estado terminal assume. A demonização era desnecessária, quanto a mim.", ou logo a seguir: "não li os livros" e, mais à frente: "Tolkien é um autor menor. Digo-o sem quaisquer hesitações."

A estupidez expressa nestes trechos raia o inacreditável. Quer dizer: eu até concordo que Tolkien é um autor menor, pese embora ter sido dos mais influentes escritores do século XX, estendendo a sua influência muito para além da literatura. A prosa dele é pretensiosa e chata, as histórias que conta já eram anacrónicas na época em que foram escritas, enfim, é necessária uma boa dose de paciência para enfrentar com sucesso a interminável história de Frodo Baggins. Mas eu li os livros, quer esses três, quer O Hobbit (bem melhor, como literatura juvenil). E é precisamente por isso que posso formar uma opinião sobre eles. Tecer considerandos sobre autores e obras sem nunca lhes ter sequer tocado é simplesmente imbecil. Quase tão imbecil como encontrar no Gollum "uma evocação do aspecto que o corpo dos doentes com SIDA em estado terminal assume", sendo que Gollum, precisamente com aquele aspecto, é descrito em pormenor numa obra escrita algumas décadas antes do aparecimento da SIDA. Nem os mais fanáticos fãs de Tolkien acreditam que o velho senhor inglês teria dotes proféticos.

Por estas e por outras (a historieta do Malkovich também é antológica), custa-me a crer de que quem escreve a Possibilidade do Sentir (e que dizer deste título?) seja mesmo a Anabela Mota Ribeiro. Tenho cá uma desconfiança de que se trata de alguém que não gosta dela a fazer-se passar, escrevendo boutades em cima de boutades, colando-lhe fama de cretina. Parece-me ser essa a melhor explicação para aquilo. Não haverá alguém de bom coração que mande um email à verdadeira AMP, a informá-la do que andam a fazer em seu nome?

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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2004
 
Xiii! Que anedota tão foleira!...
Contaram-me agora uma anedota foleiríssima. Parece que os senhores da União Zoófila são todos activos eleitores do PSD. Porquê? Porque são muito sensíveis ao sofrimento dos animais.

Não é foleira?

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Spamesia (262)
Ontem, quarta-feira, chegaram todos os spams que não tinham chegado na terça, e mais alguns. 76, foi a conta final, e lá no meio vinha uma aldrabice que tentava disfarçar com "not a scam". Of course not!

Não é aldrabice

— Não é aldrabice! —
diz o aldrabão pondo cara de pontífice
— Este ano vamos começar a retoma
mas entretanto vamos ter de ter paciência
que isto da economia não é bem uma ciência
e às vezes falha-me um pouco a cartomância
Além disso, mesmo quando quero mesmo
quando não me interessa que isto vá tudo a esmo
quando até tento que o país saia do coma
a verdade é que não percebo muito disto
e às vezes dá vontade até de dizer que desisto.
Mas repito
não é aldrabice!
É que me engano muitas vezes
e sempre a meu favor, o que é uma chatice
mas não é aldrabice
não é aldrabice!

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Spamesia (261)
Na terça-feira só houve 43 spams aqui por estas bandas, mas mesmo assim apareceu um título engraçado: "corruptible bagatelle".

Bagatela corruptível

Por vezes, nas noites quentes de Verão
juntas-te aos mosquitos e morcegos
longe das luzes da cidade
ouvindo ziguezagues de brisas entre giestas
e o voo silencioso de mochos

Enconstas-te a rochedos limpos de orvalho
e mergulhas os olhos no universo

Pouco tempo demora até te sentires poeira
bagatela corruptível um grão de areia
menos relevante que qualquer ideia

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Surrealismo, o que é?
Aqui há dias, a Janela abriu-se para uma série de posts com este título, e deu algumas respostas. Mas nenhuma que se compare com estas. Surrealismo, meus caros, é isto:

Descrição de ocorrências nas participações de sinistro do ramo automóvel.

1. O falecido apareceu a correr e desapareceu debaixo do meu carro.
2. Para evitar bater de frente no contentor do lixo, atropelei um peão.
3. O acidente aconteceu quando a porta direita de um carro apareceu de esquina sem fazer sinal.
4. A culpa do acidente não foi de ninguém, mas não teria acontecido se o outro condutor viesse com atenção.
5. Aprendi a conduzir sem direcção assistida. Quando girei o volante no meu carro novo, dei comigo na direcção oposta e fora de mão!
6. O peão bateu-me e foi para baixo do carro.
7. O peão não sabia para onde ia, então eu atropelei-o!
8. Vi um velho enrolado, de cara triste, quando caiu do tejadilho do meu carro.
9. Eu tinha a certeza que o velho não conseguia chegar ao outro lado da estrada, por isso atropelei-o.
10. Fui cuspido para fora do carro, quando ele saiu da estrada. Mais tarde fui encontrado numa vala por umas vacas perdidas.
11. Pensei que o meu vidro estava aberto, mas descobri que estava fechado quando pus a cabeça de fora.
12. Bati contra um carro parado que vinha em direcção contrária.
13. Saí do estacionamento, olhei para a cara da minha sogra e caí pela ribanceira abaixo.
14. O tipo andava aos ziguezagues de um lado para o outro da estrada. Tive que me desviar uma porção de vezes antes de o atropelar.
15. Já conduzia há 40 anos, quando adormeci ao volante e sofri o acidente.
16. Um carro invisivel veio de não sei onde, bateu no meu carro e desapareceu.
17. O meu carro estava estacionado correctamente, quando foi bater de traseira no outro carro.
18. De regresso a casa, entrei com o meu carro na casa errada e bati numa árvore que não é minha.
19. A camioneta bateu de traseira no meu pára-brisas, em cheio na cabeça da minha mulher.
20. Disse à policia que não me tinha magoado, mas quando tirei o chapéu percebi que tinha fracturado o crânio.

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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2004
 
Spamesia (260)
Ora, ontem foi segunda-feira (não é verdade?) e mais uma vez os spams andaram pelos 50 e tal. Mais concretamente, 59. Houve vários títulos com interesse, mas por qualquer motivo que não descortino (até porque as cortinas estão pesadas e do lado de lá está um frio do caraças), resolvi escolher um que dizia "genitive". Lá fui rebuscar no fundo da memória os meus rudimentos de gramática, e:

Genitivo

A chuva de um homem
a barba do mendigo
a revolta de ontem
a mudança de amanhã

O ontem da polícia
o amanhã da política
o fim da paciência
o começo da consciência

O sorriso da tarde
o choro da manhã
o descanso do inverno
o cansaço do verão

A saudade de Marte
a caminhada da morte
a ausência da sorte
a profecia do enfarte

O prenúncio do fim
o fim do prenúncio
o fim

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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2004
 
Spamesia (259)
Ontem, domingo, tive direito, de novo, a 54 spams. Houve alguns títulos aproveitáveis, o que me permitiu escolher um dos mais curtos: "amuse".

Diverte

Se estás com falta de assunto
diverte, fala de presunto

Se estás carente de afagos
diverte, imita dois gagos

Se não arranjas genica
diverte com as crises da Chica

É esta a atitude do século vinte e um:
quando nada mais resulta, larga um belo pum

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Spamesia (258)
E para recuperar rapidamente a actualidade, passemos a sábado, dia de 54 spams, incluindo um "breeze":

Brisa

No país dos ventos é a brisa
de todos a voz mais concisa
basta um sopro e já está
disse tudo o que dirá

É um vento belo e leve
e sopra igual
sobre areia ou sobre a neve

Só nas vozes que transporta é diferente
umas vozes de animal
outras que são voz de gente

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Spamesia (257)
Na sexta-feira houve meia-dúzia de spams a mais: 60. Lá pelo meio, um título me chamou a atenção, "doorstep" e, uma vez que não há boa tradução directa desta palavra para português, fiquei-me por:

O degrau

Quem olha para ele
no relance habitual
que se concede ao que é banal
pensa decerto que não passa
de apenas mais um degrau
patamar de pedra pisada
por toda a gente que ali passa

Engano maior não existe

Aquele é degrau que resiste
e não é raro ver no pátio
fatos caros e gravatas
esquecidos por momentos
de todas as bravatas
espalhados pelo chão
entre o pó e a pedra dura

O degrau ri-se para dentro
um riso frio feito de mármore
satisfeito por levar a vida inteira
entre o descanso e a rasteira

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Spamesia (256)
Uns dias lixados, e imediatamente se me acumula uma série de spam intratado e intratável. É essa a natureza da besta, fazer o quê? Enfim... Mas vamos ao que interessa. Na quinta-feira recebi só 53, e dentro este grupo o título mais interessante foi "where?"

Onde?

Da queda o salto, onde?
Da morte a sorte, onde?
De mim o sono, onde?
De ti o corpo, onde?

De nós, o fim. Onde o início?
Onde o parapeito do precipício?
Onde a nascente do sacrifício?

De mim a calma, onde?
De mim os sonhos, onde?
De mim futuro, onde?
Abro as mãos, e tudo é escuro

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Domingo, 18 de Janeiro de 2004
 
<-------- Os livros que estão ali
Desde a última vez que nos encontrámos nesta série de posts sobre o que vou lendo, saíram dali da coluna da esquerda os livros Fronteiras (antologia muito irregular, com contos óptimos ao lado de outros muito fracos) e Lençol de Sonhos (uma boa noveleta de realismo mágico, muito bem escrita e bem construída) e o número 7 da revista Em Cena (gostei mais do número 6, mas mesmo assim este número é dos mais interessantes desta revista). Para substituí-los entraram:

- O Romance de Nostradamus — O Presságio é o primeiro volume da trilogia fantástica do italiano Valerio Evangelisti sobre a vida do Michel de Nôtre Dame (ou Nostredame). Não, não tem nada a ver com as profecias: é um romance. Edição da Editorial Presença, 325 páginas (2001)
- Beduínos a Gasóleo deu ao malogrado João Botelho da Silva o prémio Caminho de FC de 1993 e conta uma história passada num futuro em que os carros adquiriram inteligência e independência. Edição da Editorial Caminho, 278 páginas (1993)

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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2004
 
Bisnaquemos então sobre o verbo
Ora bem... vamos lá bisnacar um bocadinho acerca do verbo bisnacar. Diz a Ana, da Janela Indiscreta, que acha a ideia bonita mas que lhe provoca dúvidas delirantes. Gosto disso. O delírio, acho eu, é pré-condição para todos os avanços da humanidade, e quanto maior o putativo avanço, maior terá de ser o delírio prévio.

A primeira dúvida delirante da Ana é a seguinte: "se o que fazemos na blogosfera é bisnacar e se bisnacamos na blogosfera portuguesa, não será o verbo bisnacar uma forma polida de dizer que nos desdobramos, diluímos e dispersamos em infinitas conversas de café porém escritas, mais ou menos coerentes e geralmente isentas de erros formais? O verbo mais apropriado não seria pois bifanar?"

Vejamos. Acho que aqui há várias questões. Em primeiro lugar, eu falei especificamente de blogosfera portuguesa porque não conheço as demais, embora tudo me faça crer que nesse aspecto deverão ser iguais. Como rima, deve ser verdade. Já a minha referência a Portugal, é mesmo específica a este país pequenino de tamanho, mentalidades e vamosemborismo. Em segundo lugar, há a questão de bisnacar ser uma forma polida de dizer que nos perdemos em conversas de café. Pois é, cara Ana: acertaste na mouche à primeira seta. Já quanto ao bifanar, tal verbo não consta do Houaiss, logo para todos os efeitos formais não existe. Em todo o caso, eu considerá-lo-ia uma substituição credível para bisnacar caso a conversa não fosse de café mas sim de snack-bar e pelo menos um conviva acompanhasse o bisnacanço com valentes dentadas numa bifana, acompanhada, ou não, de uma cervejinha fresca. Isto sim, seria bifanar!

Já o Luís, depois de se lamentar sobre a sua não inclusão nos candidatos a divulgadores do novo verbo, manifesta o seu apoio à ideia, avançando, no entanto, e também ele, com uma dúvida: O verbo prometer não tem em Portugal esse mesmo significado de falar muito acerca de uma coisa sem nunca chegar a fazer algo quanto a ela?

Sim e não. É uma questão de grau. Para ilustrar o conceito, nada como as leis. As leis neste país começam a sua ida em indolentes bisnacadelas nos gabinetes ministeriais e na AR. A maior parte delas, claro, e mantendo a pureza do conceito bisnacante, nunca chega à mínima concretização (se descontarmos, bem entendido, uma avultada troca de correspondência, que no fundo é mais ou menos o que fazemos aqui na blogosfera), mas há algumas que passam á concretização, momento em que todas as conversas prévias deixam de poder englobar-se no bisnaque para se deverem passar a considerar trabalho. Acontece, porém, que as leis nunca passam de promessa, mesmo depois de aprovadas e postas em vigor, visto que ninguém as cumpre.

Ou seja: primeiro bisnaca-se, depois promete-se e de seguida incumpre-se.

A virtude do sistema é tal que permite que logo em seguida se possa recomeçar a bisnacar, agora acerca dos motivos do incumprimento, fechando-se o círculo. Perfeito.

Ah, e quanto a não te incluir na lista dos putativos divulgadores da nova palavra... mas tu pensavas mesmo que fechavas o Ene Coisas à má fila e não sofrias represálias? Ha!

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Spamesia (255)
Quarta-feira houve 56 spams e muitos títulos tão maus como "Bachelors, Masters, MBA and/or Doctorate (PhD)", "Ladies beautiful bustlines safely-- pushout tio eiuzug mkhpsg" ou "W.ant to S;p'am proof your inbo.x Jorge?". Mas o mais bizarro deve ter sido o que dizia "demurrer teal". Claro que foi este o escolhido...

O pato do contra

O pato do contra estava contra
todas as coisas
menos, claro, o seu pântano
onde nadava todos os dias
grasnando impropérios a
todas as coisas
menos, claro, ao seu ninho
onde dormia todas as noites
sonhando acabar com
todas as coisas
menos, claro, as suas coisas

O ideal para o pato do contra
era que os rios e as fontes
se regessem pelos seus desejos
e que sempre que para isso
lhe chegasse o ensejo
pudesse desfrutar de todos os ventos
sem paredes nem quebra-ventos

Bem vistas as coisas, lá bem no fundo
o pato do contra até estava a favor

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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2004
 
Spamesia (254)
Na terça-feira, ou seja, ontem, recebi apenas 52 spams. Mas mesmo assim houve um ou dois títulos com potencial, entre os quais escolhi "Letter":

Carta

Hoje sentei-me a escrever uma carta
Ainda se lembram?
É uma coisa de papel, embutida em envelope
recoberta de traços de tinta com a forma vaga de palavras
manuscritas, muitas vezes
as melhores vezes
as vezes mais puras
uma coisa com sentimentos colados às fibras de celulose
pela tinta que vai desbotando a pouco e pouco
devagarinho
à medida que os sentimentos vão envelhecendo
enchendo-se de rugas nódoas de fungos odores
até no fim não passarem de fantasmas de velhas dores
e de amores
Lembram-se, ainda?

Pois foi
hoje sentei-me a escrever uma carta
mas acabei por desistir
o peso da permanência provisória do papel
foi mais do que consegui suportar
e por isso, amarfanhei precocemente aquelas palavras
e em vez de carta, acabei
por enviar apenas um email

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Spamesia (253)
Na segunda-feira, por estranho que pareça, recebi um spam a falar, não de terça, mas de sexta-feira. Foi esse o escolhido entre a massa de 66 mensagens, e o título completo era: "RE: friday?"

Sexta-feira

Se todos os dias fossem sexta-feira
o mundo andaria um pouco mais cansado
mas também algo mais esperançado
pois não há como a expectativa do fim de semana
para fazer nascer uma nova luz nos olhos mais baços

O problema, claro, o passo em falso
o motivo por que ao fim de algum tempo
a tua alegria se dissolveria toda inteira
deixando para trás mais um corpo abandonado
é que se todos os dias fossem sexta-feira
nunca o tempo chegaria à condição de sábado

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Pela inclusão na língua portuguesa do verbo bisnacar
É perfeitamente incompreensível que num país e numa cultura como a nossa, em que aquilo que esta expressão designaria é, autenticamente, característica primordial quer da vida quotidiana de todos nós, quer da vida pública das instituições, não exista nenhuma expressão de uso corrente que signifique o que bisnacar poderá significar. Assim, proponho aqui formalmente que incluamos esta palavra, há muito necessária, na língua portuguesa. Seria óptimo ter nesta cruzada o auxílio de outros blogueiros, como os multi-culturais indiscretos da Janela, ou escritores como o Cachapa ou o Luís Filipe Silva, ou poetas/jornalistas como o José Mário Silva ou jornalistas não poetas, como o Paulo Querido, etc., etc., e nesse sentido apelo a todos estes bloggers e a todos os demais que considerem o termo adequado que o divulguem por todos os meios possíveis e imaginários.

Mas — devem vocês estar, nesta altura, a coçar a cabeça em confusão — será que este tipo está por aqui só a bisnacar?! Ou, por outra, de que raio de bicho está ele a falar?!

Para deixar tudo claro, permitam-me uma citação do último número do fanzine inglês de FC, Ansible:

Fred Lerner on the A197 Language Lesson: "Greer Gilman left out my favourite Shetland Norse word, which I learned from An Etymological Dictionary of the Norn Language of Shetland. «Bisnaak» is a verb meaning to talk a lot about something without ever doing anything about it, as in the phrase «to bisnaak aboot a t'ing». A useful addition to Fanspeak, I should think ..."

Para os menos versados em inglês, eu traduzo:

Diz Fred Lerner sobre a Lição de Linguagem na Ansible 197: "Greer Gilan não referiu a minha palavra favorita em Nórdico das Shetland, que aprendi no An Etymological Dictionary of the Norn Language of Shetland. «Bisnaak» é um verbo que significa falar muito acerca de uma coisa sem nunca chegar a fazer algo quanto a ela, como na frase «to bisnaak aboot a t'ing». Parece-me uma adição útil à gíria do fandom..."

Se a Lerner a palavra parece uma adição útil à gíria do fandom, eu vejo nela imensa potencialidade para descrever não só o fandom de FC em Portugal, como também a blogosfera portuguesa e, em geral, Portugal considerado como um todo. Passamos a vida a bisnacar indolentemente uns com os outros, e quanto a pôr as mãos na massa, népia. Acho, por isso, fundamental acrescentar esta palavra ao nosso léxico o quanto antes.

Divulguem, utilizem, adaptem! Vamos bisnacar com palavra própria!

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Spamesia (252)
No domingo, como os cristãos descansam, houve mais spam: um total de 74 mensagens. No meio de tudo isto encontraram-se alguns títulos interessantes, incluindo um típico de vendedor de banha da cobra: "Free Product Reverses Aging!" Eu por acaso até conheço um produto desses, e vou desvendar-vos o segredo, que há quem diga que é falso:

Produto gratuito inverte o envelhecimento

A notícia foi recebida com grande espanto
um produto gratuito, existente em toda a parte
teria a arte — ou a ciência — de apagar o tempo
e devolver a suavidade às marcas da idade

Pôs-se em pé um comité de gente muito séria
para ver se tudo aquilo não era apenas uma léria
uma simples invenção sem efeito nem função

A conclusão do comité, apesar da crença popular
foi de que o tal produto era falso, sim senhor
pois ninguém no comité ouvira falar de um “humor”

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2004
 
Spamesia (251)
No sábado chegaram-me 62 spams, e todos, mas mesmo todos, com péssimos títulos. O menos mau foi "Asia", e portanto lá tive de pegar nesse:

Ásia


lon-
ge
fi-
ca
a
Á-
sia

Xie-
xie

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I'm a translated coiso e tal, mas também publ
É sempre assim. Apanham um gajo distraído, pimba, catrapás! E eu, que ando por cá quase todos os dias, foi só ficar por fora um fim de semana, perdi logo o momento exacto da primeira edição em português da versão longa de O Lugar Para Onde vão as Coisas que Desaparecem, o meu primeiro conto traduzido. Está online, no Tecnofantasia.com do Luís Filipe Silva.

Leiam. E espero que gostem.

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Spamesia (250)
Na passada sexta-feira houve 68 spams, e resolvi pegar num "Daughter with Father", que é spam a anunciar sexo incestuoso e provavelmente pedófilo — coisa interessantíssima como se pode perceber —, e "purificá-lo":

Filha com o pai

Olhem bem aquele par que ali vai
é uma filha com o seu pai
aproveitem bem essa visão de ternura
— bem sei que isto é foleiro — tão pura
que faz com que qualquer coisa cá dentro
se sinta assim como pedrinhas de cimento
que esfarelam e derramam para a rua
sempre que a humanidade vai nua

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Quem vem lá?

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Contactos
ICQ: 66813967
email: jorge [em] ficcao . com . pt
spamesia s.f. (2003) poesia ou pseudo-poesia baseada em parte ou no todo em spam
O meu livro
Traduções

Nemonymous, nº 3
(The Place Where Lost Things Go)
Outras publicações em que estou incluído

Como Era Gostosa a Minha Alienígena!
(Entre a Pureza e o Desejo)

Aguasfurtadas 4+5 (revista de literatura e artes visuais do JUP)
(O Poeta)

Revista Em Cena, nº 7
(A Voz que Cantava Blues)

Revista Em Cena, nº 8
(O Escritor Contentinho e o Sapo
Crescimento)
Ficção online
Artigos

Ler, nº 57
(FC Portuguesa, Filha de Pais Incógnitos)
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