segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Lido: Por Outros Mundos

Quando leio um livro, seja de que género for, há poucas coisas que me irritam mais do que sentir que o autor está a gozar com a minha cara, que está a escrever disparates com plena consciência de que é isso que está a fazer, cinicamente convencido de que para quem é bacalhau basta, de que os leitores não são suficientemente conhecedores ou inteligentes para detetar as asneiras.

Justamente ou não, foi assim que me senti ao ler este Por Outros Mundos (bib.), de A. A. Attanasio.

O romance está cheio de referências, é certo. Há quem ache que isso é uma qualidade em si mesma, mas para mim só o é se essas referências se integrarem num todo válido. São referências à banda desenhada, são referências às histórias aventurescas da era da FC pulp, são referências ao surrealismo, em particular ao pictórico, etc. O núcleo é o de uma história de fantasia caótica, daquelas carregadinhas de deus ex-machina, daquelas em que sempre que surge no enredo alguma complicação súbita o autor arranja mais um passe de mágica, mais um abracadabra, para que a história possa prosseguir. Literalmente. Há partes da história em que o protagonista anda pela Terra (ou por uma Terra alternativa) revestido por uma "armadura" mágica e de varinha igualmente mágica na mão. A cobrir este núcleo de fantasia, há uma camada extremamente disparatada de FC. O protagonista é sugado para o interior da singularidade dum buraco negro, onde há umas ilhas flutuantes (skyles, ilhas de céu, que o tradutor, João Barreiros, resolveu deixar em inglês) e vivas, uma espécie de aranhetas (dez anos antes das do Barreiros, pois) más como as cobras que se alimentam duma espécie de pessoas que não são bem pessoas (e porque raio haveria de haver pessoas num buraco negro?! Ou aranhetas? Ou ilhas flutuantes?!) e onde alguém se esqueceu de que devia haver também uma gravidade tão forte que nem a luz de lá consegue sair. Pois é essa a definição de buraco negro.

Tenho uma enorme dificuldade em entender como é possível que se teça rasgados elogios a uma coisa destas ao mesmo tempo que se ataca ferozmente o pobre autor X ou Y por ter tido o desplante de escrever contos passados na superfície de Júpiter. Pois o calibre da asneira, aqui, consegue ser ainda maior.

O que mais irrita é que o cenário construído para o interior do tal buraco negro é imaginativo e consegue, a espaços, ser fascinante. Podia ter sido o melhor do livro. Podia até tê-lo salvo, talvez. Tivesse o autor evitado colocar a ténue pátina da FC sobre a história de fantasia que queria contar, tivesse tratado este livro como a história de fantasia que realmente é, tivesse metido as ilhas flutuantes num qualquer universo paralelo imaginário em vez dum buraco negro, tivesse removido toda a muito pateta pseudociência com que o encheu, muito mais facilmente se suspenderia a descrença, não haveria o choque da asneirada porque esta não existiria, e toda a história seria bastante mais palatável. Mas não. Resolveu fazer um daqueles livros que surgem em lugar de destaque naquelas prateleiras para onde os cientistas apontam quando querem mostrar até que ponto a FC consegue ser parva e representar mal o mundo real. Com fórmulas e tudo, bendito seja o Monstro do Esparguete Voador! Se calhar achou que enfiando à pressão umas fórmulas sem nada a ver não nos aperceberíamos do disparate. Não resultou.

A isto soma-se uma história de amor artificiosa — e também aqui o adjetivo é literal pois o amor é inculcado no protagonista por uma das ilhas flutuantes — uns esboços sociológicos sobre como seria uma Terra mais pacífica e unida do que a que temos no mundo real, uns toques de universos paralelos e viagens no tempo, umas personagens que nem de cartolina são, pois a cartolina tem duas dimensões e não apenas uma, e tem-se um livro demasiado ambicioso que procura tratar demasiados temas ao mesmo tempo e não consegue tratar bem nenhum deles, que portanto falha catastroficamente e me deixou uma fortíssima impressão de desonestidade, de não tratar os leitores com um mínimo de respeito. Talvez seja injusta, esta impressão, admito. Mas foi a que ficou. Achei o livro quase detestável. Não fora o cenário surreal das ilhas voadoras e correntes de fluxo, que como disse chega a ser fascinante (embora surja sempre a lembrança: "mas isto está supostamente num buraco negro, raios partam o Attanasio!"), e sê-lo-ia mesmo. Para mim. Mas eu sei o que é um buraco negro; quem não saiba ou esteja disposto a ignorar esse tipo de detalhes talvez até consiga gostar desta história.

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