sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Lido: Foi Assim a Guerra das Trincheiras

Foi Assim a Guerra das Trincheiras, de Tardi, é uma reconstituição obsessiva da I Guerra Mundial, contada sob o ponto de vista de quem combatia nas trincheiras. Quem julgue que este álbum, por ser banda desenhada, traz para o tema alguma espécie de leveza, desengane-se. Ao esforçar-se por retratar com a maior crueza e realismo o quotidiano da guerra, e em especial de uma guerra tão cruel e sem sentido como a primeira grande guerra, Tardi criou um livro duríssimo, ora revoltante, ora comovente, em que as grandezas e misérias da condição humana são expostas até ao osso.

Nem todos os leitores terão a mesma impressão, pois nem todas as pessoas leem as mesmas coisas, mas eu fui-me lembrando várias vezes, vivamente, do romance A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque. Quem julga que a experiência da guerra é dominada pelo lado em que se está pode achar isto estranho, pois Remarque retrata-a pelo lado alemão e Tardi pelo francês, mas encontrei uma identidade quase absoluta no que as duas obras retratam. A mesma desesperança, a mesma miséria humana, os mesmos truques nascidos do desespero, a mesma camaradagem e, acima de tudo, a mesma irracionalidade. Em um e no outro, não há bons nem maus. Há homens encurralados, mergulhados no horror de uma situação sobre a qual não têm qualquer espécie de controlo e lhes vai roubando as vidas aos bocados até que um tiro, um obus ou uma nuvem de gás lhas rouba de vez. E tudo para quê?

Foi Assim a Guerra das Trincheiras tem de ser lido sem flacidez na boca do estômago, porque este álbum pretende no-la esmurrar e fá-lo com regularidade ao longo das suas pouco mais de 100 páginas. Com o texto, sim, mas sobretudo com as imagens. Não que eu perceba muito disto, mas parece-me que no caso deste livro é sobretudo a violência do que se vê que contribui para a violência do todo (ao contrário, por exemplo, do álbum de Altarriba, cuja componente literária me parece preponderante).

O resultado é, julgo, muito bom. Um livro cheio de conteúdo, uma obra de arte claramente pacifista, ao ponto de alguns patetas poderem até chamar-lhe panfletária, mas que no entanto consegue transmitir com total clareza a ideia de que a guerra é absurda sem recorrer a mais do que à ilustração o mais realista possível dos seus absurdos. Recomendo-a sem reservas, muito em especial a todos aqueles que gostam de falar com leveza da guerra e dos que dela fogem.

Gostei. Francamente. Dei por muito bem empregue o dinheiro gasto a comprar este livro.

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