quarta-feira, 14 de junho de 2017

Tempo Quente na Ilha Calma (excerto)

Tempo Quente na Ilha Calma será um romance de ficção científica, parte de um universo que venho desenvolvendo devagarinho há anos e do qual ainda só publiquei um continho muito curto chamado Miel Lê. Acompanha o nascimento, crescimento e dilemas de um miúdo nascido numa sociedade voluntariamente atrasada. Tenho escritas cerca de 21600 palavras, e estimo que isso corresponda a uns 10% do total.

O que se segue é o início.

Tempo Quente na Ilha Calma

Prólogo

De certa maneira, pode dizer-se que as viagens de Zel começaram no momento preciso do Big Bang, quando, segundo certifica a cosmologia, do nada surgiu num rompante toda a matéria, toda a energia e todo o espaço e tempo de que o Universo se compõe. Zel faria assim parte, através dos átomos e moléculas de que foi sendo constituído ao longo da vida, da grande viagem universal, que durará o tempo que demorar até que o todo se transforme de novo em nada, ainda ninguém sabe muito bem como nem quando. Uma etapa insignificante, perdida num minúsculo recanto do cosmos, que começa e acaba tão depressa que no grande esquema das coisas nem se dá por ela.
Mas poucas pessoas decidem pensar a escalas tão incompreensivelmente vastas, e as que o fazem são olhadas com estranheza pelos demais, que incompreendem esta maneira de olhar para a vida e o mundo. Preferem outras mais pragmáticas, que afirmam que as viagens de Zel começaram na verdade no momento em que a mãe, Riia, soltou um grito que ressoou num misto de dor e alívio, e o pôs no mesmo mundo em que ela nascera duma forma muito idêntica algumas dezenas de anos antes, ainda que não no mesmo local desse mundo.
Entre uma e outra perspetiva a ligação parece impossível de tão ténue, mas, bem vistas as coisas, Riia só solta o tal grito porque está na ponta duma longuíssima cadeia de relações de causa e efeito que, se puxasse por ela com força e tempo suficiente, lhe traria até à porta de casa o próprio Big Bang em pessoa.
De modo que se pode afirmar com toda a propriedade que, entre o longínquo Big Bang e o pequeno bang que foi o grito da mãe, qualquer momento serve para se dizer que é aqui que começa a história de Zel e das suas viagens. Esse momento é arbitrário. Podíamos fechar os olhos, apontar para um ponto e dizer “é aqui”, e não erraríamos, pois a verdade verdadeira é que Zel começa muito antes de começar.
Contudo, também é verdade que não temos tempo nem, com toda a franqueza, paciência para percorrer toda a eternidade. Esqueçamos, pois, tudo o que aconteceu entre o Big Bang e uns dias depois de Zel ser concebido. Esqueçamos o período inicial de expansão acelerada do Universo, esqueçamos a solidificação dos primeiros átomos, a formação das primeiras moléculas, a condensação das primeiras estrelas e sua organização nas primeiras galáxias. Deixemos de lado a explosão das primeiras estrelas gigantescas e os elementos pesados que estas espalharam para irem formar as gerações seguintes de estrelas e planetas antes de se engolirem a si próprias e se transformarem nos primeiros buracos negros. Não nos interessa aquele planeta azul em que a vida surgiu, os milhões e milhões de anos que ela levou a evoluir até dar origem a uma bizarra criatura com dois braços e duas pernas e uma grande cabeça redonda empoleirada no topo de um pescoço que parece fraco demais para a suster. Deixemos em paz os avanços e tropeços da sua ascensão a animal civilizado e tudo o mais que daí se seguiu. Nada disso nos importa agora. Interessa-nos, sim, chegar a um ponto no espaço e no tempo em que…


Noite Longa

… Ton baixa a cabeça para não bater com ela na soleira e entra na taberna. Nesse momento Ton já tem um filho, a começar as primeiras fases do seu crescimento numa bolha protegida no interior do útero da mãe. Mas ainda não o sabe. Se soubesse, o mais certo seria não entrar na taberna com aquela expressão calma que tanto tempo demorara a readquirir, mas sim com o ar torturado que fora sua imagem durante bastante tempo. Não nos adiantemos ao desenrolar próprio da história, porém. Ton está agora a entrar na taberna. Para no átrio, fecha firmemente a porta exterior atrás de si, trancando lá fora a ventania, faz o sinal do Triângulo, abre a porta interior e entra na sala a passos decididos. Lá dentro estão cinco homens, todos robustos, bem mais do que ele, todos de rostos tisnados pelo sol, tanto como ele, todos vestidos apenas com uns calções e uns suspensórios de couro por cima duma camisa justa, tal como ele. O interior da taberna está comparativamente fresco, e Ton passa a mão pela testa, sacudindo o suor e respirando fundo. É com alívio que ergue uma mão calejada para cumprimentar Seg, o taberneiro, o qual passa um pano mosqueado de antigas nódoas por um conjunto acabado de lavar de canecas de barro, e se vai sentar sozinho numa mesa de canto. Ainda nenhum dos amigos chegou, e Ton recusa-se sequer a reconhecer a presença dos quatro homens que ocupam uma mesa na outra ponta da sala.
Todos aqueles anos depois, e apesar de todos os esforços, quer do próprio Ton, quer da mulher e respetiva família, quer mesmo do padre, há ainda quem o olhe com a desconfiança que se reserva aos forasteiros, e não perca uma oportunidade para fazer-lhe sentir que continua a não ser bem-vindo ali. De nada adianta mostrar provas de devoção ao Santíssimo Triângulo, de nada serve ser dos homens mais assíduos aos serviços no templo, presente mesmo quando o tempo das colheitas ou das sementeiras aperta, é inútil até que a sua devoção ao Triuno seja atestada pelo próprio padre. Para alguns, uma vez forasteiro, forasteiro para sempre, e nada do que diga ou faça alterará isso. Para quê, portanto, prestar-lhes atenção?
Claro que o que acontecera também não ajudara nada.
Mas não. Esse é caminho que Ton não voltará a trilhar. Ele e Riia não têm filhos, ponto, parágrafo. Nada mais há a dizer.

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