terça-feira, 2 de março de 2004

Os fins, os princípios, as motivações e os amigos delas

No mesmo dia em que em publiquei o 300º spamema, o Henrique fechou o blog. Não há nisso nada de espantoso nem de invulgar, para além de o Henrique ter chegado à blogosfera depois de mim e entretanto se ter tornado visitante mais ou menos habitual aqui das caixas azuis. O facto é que blogs começam e acabam todos os dias e a blogosfera continua, num espelho acelerado da própria vivência humana. Portanto, o facto não deveria ter tido importância.

Mas teve. Ou pelo menos deixou-me a pensar. Mas antes de continuarem a ler, fiquem avisados de que se seguem doses invulgares de umbiguismo.

Eu sou um tipo que tem uma deficiência: preciso de sentir uma utilidade qualquer, uma qualquer relevância, em quase tudo aquilo que faço. O prazer não me chega, nem o próprio nem o alheio. O simples passar de tempo, de uma forma mais ou menos agradável, também não. E se me falta esse estímulo, se perco de vista a utilidade, se sinto que no fundo o que estou a fazer é irrelevante, torno-me desleixado, incompetente, indiferente. E isto é assim quer falte a sensação de utilidade, quer pareça que as chatices que as coisas dão (e tudo dá chatices, em maior ou menor grau) são maiores que o resultado que delas se obtém.

Este blog, de vez em quando, sempre que é abandonado às baratas durante vários dias, sofre um pouco com isso. O E-nigma, até porque dá mais chatices e mais trabalho, tem sofrido mais.

Mas depois acontecem as tais coisas: alguém deixa cair uma palavra que, sozinha, compensa todas as dificuldades, ou atinge-se o 300º texto baseado noutros tantos spams, ou um projecto por que se tem lutado intermitentemente durante meses começa finalmente a tomar forma. E nessas alturas dou por mim a amaldiçoar as horas de desânimo, todo o tempo desperdiçado a fazer outras coisas, que na altura me pareceram mais relevantes e que de repente passaram a parecê-lo menos, ou as horas sentadas no sofá a ver televisão. É um regresso repentino da motivação, um assalto às ameias abandonadas do castelo, um dar ordens a torto e a direito, um reavivar de todos os interesses.

O pior é quando, no auge do desânimo ou da irritação, os afastamentos acabam em roturas. O E-nigma, por exemplo, esteve para acabar várias vezes. Mas se tivesse mesmo acabado, não estaria agora à procura de bons contos sobre Marte para editar num livro "a sério", em papel.

O pior é quando não há regresso. Há quem nunca aprenda isso e passe a vida queimando pontes. Conheço algumas pessoas assim. Eu próprio tenho um passado cheio de tocos enegrecidos. Mas hoje estou contente por ter poupado, por exemplo, a ponte do E-nigma.

E por isso garanto que mesmo que possa passar uns tempos vazia e apagada, de vez em quando, mesmo que venha a mudar de rumo, mesmo até que pareça andar perdida no oceano blogosférico, a Lâmpada continuará.

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