sábado, 12 de novembro de 2011

Lido: Ao Acaso

Ao Acaso é um continho de Miguel Cruz, cheio de angst, que trata das ruminações poéticas do protagonista sobre um amor perdido. É ficção científica, mas apenas de uma forma incidental; há coisas como "materializadores de comida" e "holo-livros", mas nada disso tem a mínima relevância para a história. Mais importante é Cruz cair numa armadilha muito comum nos escritores iniciantes: a tentativa de fazer literatura antes de ter realmente uma história para contar, e o pouco que desta aparece se perder entre frases de efeito que soam a postiço e nada adiantam. Achei muito fraco, e o conto é demasiado curto para avaliar se o autor teria ou não tido potencial, uma vez que tivesse ganho alguma experiência na arte de contar histórias.

Lido: Os Primeiros Aztecas na Lua

Os Primeiros Aztecas na Lua (bib.), de Flávio Medeiros, Jr., é uma movimentada história de espionagem cuja galeria de personagens é composta em grande medida por Júlio Verne, H. G. Wells e respetivas criações. O clima é de guerra fria, entre uma França muito inchada com as suas conquistas na Europa e nos impérios coloniais das potências que engoliu (especialmente o português), e uma Inglaterra hegemónica nas Américas (onde controla pelo menos a maioria do território que no nosso mundo foi espanhol) e na Ásia. Nessa guerra fria têm grande relevo os dois monstros sagrados da ficção científica do século XIX e do início do século XX, ambos com altos cargos nos respetivos governos. As personagens de um e do outro também se mostram relevantes, ainda que nem sempre do mesmo lado dos seus criadores; Para dar um exemplo, Robur, personagem de Verne, lidera as forças aéreas inglesas.

A mim, a noveleta fez imediatamente lembrar o romance de Octavio Aragão, A Mão que Cria, onde também existe esta mistura entre personagens reais e de ficção, mas acima de tudo a novela Não Estamos Divertidos, de João Barreiros. Com efeito, tanto a história de Medeiros como a de Barreiros se focam na rivalidade entre Wells e Verne. Tanto numa como na outra, as personagens de um e de outro têm existência "real" no contexto das histórias e interagem com os seus criadores. Tanto uma como a outra envolvem viagens espaciais, pelo menos em aparência; a trama de Medeiros gira em volta de uma viagem à Lua, a de Barreiros em volta de uma viagem a Marte. Tanto numa como na outra, a cavorite (elemento fictício, criado por Wells, que não é afetado pela gravidade como a matéria normal) é relevante.

Mas esta noveleta é mais movimentada do que a de Barreiros, é muito mais rica em personagens e referências, embora não jogue com a dependência da criação relativamente ao criador com que a novela do português joga e que lhe confere outra profundidade. Apesar da ideia-base ser no fundamental idêntica, a abordagem que sofre é diferente. O facto de ler uma delas tornará a outra reconhecível nos seus elementos-chave, mas não a torna previsível.

Gostei bastante da história de Flávio Medeiros, apesar de um ou outro detalhe que forçou um pouco em demasia o meu sentido de verosimilhança. A páginas tantas, por exemplo, uma personagem enfia as mãos nas entranhas de um cadáver e, embora nunca chegue a limpá-las, a história prossegue como se o homem tivesse acabado de sair do banho. Mas mesmo com um ou dois detalhes deste género, a história é bastante interessante, tem um bom ritmo, e está bem concebida e bem escrita.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Lido: Abraços em Contra-Luz

Abraços em Contra-Luz é um texto estranho de Marina Tavares, algo como uma crónica fantasiosa e íntima, na primeira pessoa, muito feminina, sobre lugares domésticos e o modo como a luz com eles interage, tratando-a, à luz, quase como se de um ser com vontade própria se tratasse (o que a traz para o âmbito do fantástico, suponho). O texto está escrito com uma prosa bastante poética (embora, de novo, mal revista ou não revista de todo) que mostra potencial no uso da língua, mas que usa esse potencial para fazer algo que não me agrada. Por vezes, muitas vezes, a simplicidade é o verdadeiro segredo da literatura. O rebuscamento só atrapalha, em especial quando é exagerado. E aqui pareceu-me exagerado. Achei fraco.

Lido: O Homem que Via o Futuro

O Homem que Via o Futuro (bib.), tradução tipicamente Argonáutica de So Bright the Vision, é uma coletânea de contos de ficção científica, de Clifford D. Simak na qual, também muito típico da Argonauta, cada conto é apresentado como um "capítulo", fingindo que se trata de um romance. Não, quando eu digo "muito típico" não estou a fazer figura de estilo. Não se trata de caso isolado. Quem nos dias que correm barafusta contra a edição que se vai fazendo em Portugal mostra um completo desconhecimento sobre o caminho percorrido desde o tempo em que coisas destas eram norma. E nem falemos de uma capa muito pouco atraente e que, pior um pouco, nada tem a ver com o conteúdo do livro. Mas mesmo nada.

Mas falemos um pouco sobre a tradução. Eurico Fonseca (ou da Fonseca, como era apresentado sempre que ia à TV falar sobre o espaço) dispensa apresentações para leitores de FC de uma certa geração, visto que lhe passaram pelas mãos largas dezenas de livros. Nunca foi um bom tradutor, mas apresentou muitas vezes trabalho razoável. Neste livro, contudo, esteve muito, muito mal. Fiquei várias vezes com os cabelos em pé, e eu tenho cabelo comprido.

Apesar de tudo o que ficou dito acima, as histórias são em geral boas. Algo datadas, dado o seu meio século de existência, mas boas, com aquela mescla de quotidiano e banalidade e de criaturas extraordinárias que vão intrometer-se nessa banalidade, que é muito característica de Simak. Apesar das muitas falhas desta edição, achei o livro bom.

Eis o que disse sobre cada uma das histórias:

- Os Besouros de Ouro;
- Le.Pra:;
- A Mais Brilhante das Visões;
- Tesouro Galáctico;

Este livro foi comprado.

Lido: Tesouro Galáctico

Tesouro Galáctico (bib.) é uma noveleta de ficção científica de Clifford D. Simak, protagonizada por um jornalista ainda iniciante, ao qual são entregues trabalhos aborrecidos e/ou bizarros. A história, escrita na primeira pessoa, lê-se quase como uma história de detetives, pois descreve as investigações que o protagonista leva a cabo para tirar a limpo umas informações estranhas que dão conta da presença de gnomos na cidade.

Pois, gnomos.

Ou pelo menos umas criaturinhas baixinhas e bem-intencionadas, que se dedicam a limpar o que está sujo, a endireitar o que está torto, a consertar o que precisa de conserto, etc. A princípio, o jovem jornalista sente-se cético, convencido de que o chefe o está a mandar numa caça aos gambozinos, talvez para o testar, talvez para gozar com ele. Mas depois, as coisas alteram-se. E muito.

É uma história que consegue manter-se interessante mesmo estando algo datada e mesmo apesar da péssima tradução de que foi vítima. Uma história que nada tem de sombrio; bem pelo contrário, há por ali algo de conto de fadas. Quem acha que a FC para o ser tem de ser negra certamente não irá gostar. Eu, como não tenho tais ideias, gostei. Não muito, até porque a tradução não deixou, mas gostei.

Lido: Lusóluna

Lusóluna é um conto de ficção científica de Ana Rui, de 1996, muito bem escrito (embora muito mal revisto) mas deficiente no que toca à história. Passado na Lua, ou por outra, numa Lua aparentemente terraformada, conta uma história muito mundana sobre um velho moribundo que está prestes a finar-se e a odisseia em que os familiares se metem em busca de um padre que lhe dê a extrema unção. A história é confusa e pouco interessante, os elementos de FC só por vezes são bem usados, parecendo de outras vezes enfiados na história um pouco à força, mas a qualidade e o estilo do texto, a par de algum humor de facto divertido, fazem-me ter pena desta autora não ter vingado. Com mais cuidado na criação dos seus mundos ciencio-ficcionais, podia ter dado uma autora com muito interesse.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Lido: Suitable for the Orient

Suitable for the Orient é um conto de ficção científica de Karen Traviss, centrado num protagonista que explica o título. Mas a coisa é tão britânica que vou ter de a explicar. É que antigamente, nos tempos do império em que Sua Majestade dominava vastos territórios no Oriente (a Índia, claro, mas não só, longe disso), os médicos recém-licenciados eram avaliados como adequados para diferentes tipos de serviço. Numa clara expressão do colonialismo no seu pior, os mais incompetentes recebiam o carimbo de SFTO, Suitable for the Orient, Adequado Para o Oriente.

Neste caso, porém, já não estamos nesses tempos, mas sim no futuro. E no futuro, o "Oriente" é outro planeta, no qual existe uma colónia humana, tolerada por uma espécie nativa primitiva (os "minkies"), vista pelos "nossos" como possuidora de inteligência sub-humana, e eternamente mergulhada em brigas internas. O protagonista é um médico, dos incompetentes, cuja tarefa principal é tratar os alienígenas que lhe aparecem no consultório, feridos em consequência dessas brigas.

Até que um dos humanos caça um dos alienígenas. Aí a coisa muda de figura.

A colonização humana de mundos habitados por espécies alienígenas com um nível de desenvolvimento inferior ao humano é um tema bastante batido na FC, mas apesar disso é frequente render boas histórias. Às vezes são mesmo excelentes; lembro-me, por exemplo, de Floresta é o Nome do Mundo, de Ursula K. Le Guin. Mas aqui, a história não me pareceu mais que razoável, sem grandes surpresas, sem nada que a faça sobressair das outras. Uma historiazinha mediana, que se lê bem mas não passa daí.

Lido: O Nautilus

O Nautilus (bib.) é um conto de Maria Adelaide Couto Viana que adapta partes do romance 20.000 Léguas Submarinas, de Júlio Verne. Trata-se, basicamente, da descrição do submarino Nautilus, feita pelo Capitão Nemo ao seu hóspede forçado, Aronnax, e da engenharia empregue na sua conceção e construção. Se bem me lembro do romance, a intervenção de Couto Viana consistiu em fundir numa só partes de várias conversas que as duas personagens foram tendo ao longo da viagem e que eram frequentemente interrompidas de forma abrupta. Talvez como efeito secundário dessa fusão, talvez por decisão consciente da autora, Nemo aparece aqui bastante mais tratável do que eu recordo, e a tensão entre os dois quase desaparece. A ideia foi claramente realçar as capacidades antecipatórias do escritor francês, e isso é meritório, mas parece-me que se perde demasiado do tom de Verne, ou seja, que ao ler este texto o leitor não fica com uma ideia correta do livro completo. E isso é mau.

Lido: A Estranha Morte do Professor Antena

A Estranha Morte do Professor Antena (bib.) é uma noveleta de Mário de Sá-Carneiro que até se poderia enquadrar numa certa proto-FC, visto que pega em vários dos mecanismos da ficção científica do início do século XX (principalmente o cientista louco, ou pelo menos incompreendido), embora os use de uma forma muito própria. O que afasta este conto da proto-FC da época é o seu ênfase na descrição dos meandros filosófico-esotéricos, da mundovisão repleta de transmigrações e planos de existência, que terá estado na base da morte do Professor Antena, em detrimento da história propriamente dita dessa morte, ou das investigações que a ela terão levado. E em parte por isso, achei este conto bastante aborrecido, apesar da sua inegável qualidade literária. É com contos como este que eu melhor reparo que as minhas preferências caem mesmo para o lado do "mostrar em vez de contar", embora seja nisso bem menos radical do que outros leitores de género. Também terá contribuído para o aborrecimento o facto de todo aquele modo esotérico de olhar o mundo colidir fortemente com a minha própria mundovisão. Quando os contos são tão descritivos como este, não ajuda nada à experiência de leitura que o leitor a passe quase toda a achar as ideias disparatadas.

Tenho a certeza de que leitores mais dados a hermetismos e a deambulações filosóficas se deliciarão ao ler esta história, até porque ela é boa, literariamente falando. Mas eu não gostei. Fiquei curioso com o resto da obra em prosa de Mário de Sá-Carneiro, que ainda não li (mas hei de ler, talvez em breve; há cá por casa um livro que a tem toda), mas deste conto em concreto não gostei.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Vaporpunk / Dieselpunk outra vez

Finalmente, depois duma longa odisseia alfandegária, chegaram cá a casa os Vaporpunks e os Dieselpunks. Quem se mostrou interessado nos livros (nos comentários daqui, no twitter e por email) já foi contactado por email com as condições, e perguntando se o interesse se mantém. Com uma exceção por não ter conseguido encontrar o endereço dele: o Jauch, ao qual peço que me contacte pelo endereço que está ali do lado direito (--->) no caso do interesse se manter.

Depois das respostas que já obtive, resta 1 Vaporpunk (que irá para o Jauch, se ele não tiver mudado de ideias entretanto, portanto está disponível à condição) e 5 Dieselpunks. Os preços são um euro mais caros do que tinha indicado no post original, mais portes quando é caso disso.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Lido: Liber Beneficiorum

Liber Beneficiorum é um continho onírico de Fermín Moreno, que vagueia algures entre o horror, a FC e a fantasia. E, claro, o surrealismo, como convém a contos oníricos. Infelizmente, tem também uma outra característica dos sonhos: a incoerência: E isso que faz com que o texto acabe por ser bastante inconsequente, de tal modo que nem se consegue perceber muito bem sobre o que versa o conto. Sobre um tal Juan, talvez, habitante (provisório) de um mundo de sonhos. Não gostei, confesso. Podem avaliá-lo vocês seguindo este link. É o terceiro conto.

Lido: Os Oito Nomes do Deus Sem Nome

Os Oito Nomes do Deus Sem Nome (bib.), de Yves Robert, é uma noveleta de algo a que eu chamaria fantasia a vapor se outros não lhe tivessem já chamado steampunk. Trata-se no essencial de uma história de espionagem, na qual se veem envolvidos agentes das três grandes potências do universo criado por Robert, Inglaterra, França e Portugal, cada uma com a sua especialização particular numa área do conhecimento. Conhecimento, entenda-se, em sentido lato, pois no mundo de Robert a magia funciona mesmo.

O mistério principal a desvendar pela história é qual a especialização portuguesa, se bem que a espécie de prólogo que abre a noveleta forneça ao leitor atento pistas importantes, em especial quando conjugada com o título. As outras duas especializações, que vão sendo reveladas através da rivalidade e troça mútua dos agentes estrangeiros, funcionam como contraponto da portuguesa.

Apesar de me ter parecido um pouco ingénua e, aqui e ali, não tão "limpinha" em termos de escrita e de conceção do enredo como teria desejado, a noveleta agradou-me. Leve, com um pé solidamente implantado nos velhos pulps do início do século XX (mais, pareceu-me, do que nos grandes da proto-FC do século XIX, que normalmente são usados como referência para o steampunk), lê-se bem e diverte. E como eram claramente esses os objetivos do autor, o sucesso foi alcançado.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Lido: To a Prehistoric Huntsman Dead From Exposure

To a Prehistoric Huntsman Dead From Exposure é um curto poema de Steven Utley. Não lhe encontro grande interesse. O poema é uma pergunta, irónica, e muito pouco ciencio-ficcional, o que não teria grande importância se não se desse o caso de estar publicado numa Asimov's. Não achei nem bom, nem mau, antes pelo contrário. Achei-o muito olvidável. Numa interjeição: meh.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Lido: A Caverna do Fim do Mundo

A Caverna do Fim do Mundo (bib.) é um conto curto de ficção científica pós-apocalíptica e juvenil, de Christian Grenier. Num mundo subterrâneo que sofre com excesso de população, jovens aventuram-se a penetrar numa caverna recém-descoberta, que os mais velhos afirmam poder ser perigosa e até, terror dos terrores, ter ligação com a mortífera superfície. É um tipo de enredo bastante explorado, em especial durante os anos da Guerra Fria (e este conto data dessa época), e que até chegou algumas vezes ao cinema: num planeta cuja superfície foi de tal modo contaminada por algum tipo de apocalipse que deixou de poder suportar a vida humana, a humanidade sobrevive encerrada em bolsas no subsolo... durante tanto tempo que o medo da superfície se entranha na psique coletiva e a vida cavernícola passa a ser encarada como o estado natural da espécie. Apesar de muito explorada, a ideia pode dar boas histórias, mas parece-me que está longe de ser o caso desta. Talvez por a dirigir a um público jovem, talvez por limitações de espaço, o autor não perdeu muito tempo a desenvolver (ou até a pensar, parece-me) o ambiente e as personagens, e houve vários detalhes que me fizeram torcer violentamente o nariz. No geral, pareceu-me um conto bastante fraco.

Lido: A Reencarnação Deliciosa

A Reencarnação Deliciosa (bib.) é um conto de Aquilino Ribeiro que se ambienta algures na Palestina, possivelmente em tempos bíblicos, e trata sobre uma velha. Velha essa que era mesmo muito, muito velha. E que um belo dia é visitada por um mendigo que lhe pede abrigo. Quem tenha tido algum contacto com contos mais ou menos bíblicos e milagreiros começa logo aqui a adivinhar para onde se dirige a história, e Aquilino não desaponta. O mendigo é, de facto, um feiticeiro capaz de operar milagrosas transformações, e após ser bem atendido, sentindo-se grato, decide realmente pagar a amabilidade com a satisfação de um desejo. Que pede a velha? Ser rapariga. Mas é na concretização do desejo e no que dela resulta que surge no conto alguma surpresa e humor, arrancando-o a uma banalidade de enredo que de outro modo seria completa. Isso, e o facto de, como seria de supor atendendo ao autor, estar muito bem escrito, faz com que se trate de um conto com interesse, muito embora não me satisfaça por inteiro. Nem o gosto, nem as expetativas que sobre ele tinha.

sábado, 22 de outubro de 2011

Lido: Polvillo Verde

Polvillo Verde, da venezuelana Ruth N. Abello é um pequeno conto cujo principal interesse está no final, o que tem o efeito de dificultar o ato de se falar dele sem revelar demasiado. Gira em volta de um homem que toma pós. Toxicodependente? É o que se vai descobrir no decorrer do conto. Algures entre o realismo, a fantasia e uma ficção científica bastante suave, tem algum interesse se bem que não me pareça propriamente uma obra prima. Podem avaliar por vocês mesmos indo até aqui e descendo ao segundo conto.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

É de levar as mãos à cara e bradar aos céus

A Leya Brasil não achou por bem enviar-me exemplares da Guerra dos Tronos, depois de ter adaptado (?) ao português do Brasil a minha tradução feita para português de Portugal. É uma cortesia comum, mas eles não a tiveram. Não me perguntem porquê. Não sei. Suspeito, mas de saber sabido não sei.

Por conseguinte, da adaptação só conheço os trechos que vão vazando aqui e ali. E alguns são de levar a cara às mãos e de bradar aos céus.

Então não é que o seguinte trecho, que julgo ser inteiramente compreensível no Brasil:

Há ali cem tipos de erva, ervas amarelas como limão e escuras como índigo, ervas azuis e ervas cor de laranja, e ervas que são como arcos-íris

foi deturpado como:

Há ali cem tipos de plantas, amarelas como limão-siciliano e escuras como índigo, azuis e cor de laranja, e as que são como arco-íris.

Acredita-se?

Soube desta coisa estapafúrdia através deste blogue, cujo autor se escandaliza, e com toda a razão, com aquela estupidez do limão-siciliano num mundo onde não existe Sicília. Já para não falar da deturpação da cadência do original, que procurei preservar na tradução para português.

Decididamente, a tradução que os brasileiros estão a ler não é a minha.

PS - Dizem-me que os livros seguintes, A Fúria dos Reis e A Tormenta de Espadas já não sofrem deste tipo de problemas. Sem os livros, não posso confirmar. Mas espero bem que assim seja!

Lido: A Fazenda-Relógio

A Fazenda-Relógio (bib.) é um conto de Octavio Aragão no qual o steampunk toma um caminho muito interessante: nas plantações do interior cafeeiro do Brasil, a economia baseada no trabalho escravo é abalada pela introdução de autómatos a vapor e montados em carris. Com uma premissa tão interessante, achei pena que o conto fosse tão curto. Com toda a franqueza, o cenário e até mesmo o enredo propriamente dito (a revolta dos antigos escravos, de súbito numa situação em que não têm donos mas tampouco têm meios de subsistência, as reações da escrava de casa grande e dos fazendeiros, etc., etc.), mereciam uma concretização mais extensa, no mínimo uma noveleta longa, mas provavelmente até um romance. Porque há aqui potencial para uma obra maior, que o conto não é. Não é um mau conto, entenda-se; é até um conto de qualidade acima da média, embora não muito. Mas o material de base permitia criar algo muito melhor. O conto é apressado e, em muitos aspetos, superficial, e o autor vê-se nele obrigado a despejar informação que numa obra mais extensa podia ir sendo introduzida aos poucos, ao mesmo tempo que tudo quanto no conto é superficial poderia ser aprofundado e melhor explorado. Numa frase, há demasiado enredo e ambientação para uma obra tão curta. Como consequência, ao terminar a leitura fiquei com a sensação de ter tomado contacto com uma oportunidade mal aproveitada. Mas lá está: não seria o primeiro nem o último conto a ver-se expandido para uma obra mais ampla. Espero sinceramente que isso aconteça. A ideia merece-o.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Uma breve nota sobre feriados

Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos.

Tenho uma opinião sólida sobre a questão dos feriados, e é a seguinte: Portugal é um país laico. Como tal não devia ter feriados religiosos, a menos aqueles cuja comemoração esteja tão entranhada na cultura do país que se estende muito para lá do simples âmbito religioso. Há um, e só um, feriado religioso nessas condições: o Natal. Os outros deviam ser simplesmente suprimidos. Todos. Não porque seja preciso trabalhar mais, não por causa da economia ou da crise, mas simplesmente porque Portugal é um país laico que, como tal, não deve promover nenhuma religião, mas sim dar igual liberdade a todas elas e aos crentes de todas elas para prestarem culto quando e como muito bem entenderem. É isso que significa ser um país laico. E não é com feriados católicos que há liberdade religiosa.

O que isto também significa é que os crentes da religião X devem ter a liberdade de se ausentarem do local de trabalho quando existirem motivos (o tal culto, obviamente) sem sofrerem penalizações por isso, a menos que se entre no exagero. Isto deve incluir, claro, as datas de relevo para católicos, mas também os períodos de oração dos muçulmanos, dos judeus, dos protestantes, do diabo a quatro. Liberdade religiosa é isso. Seriam faltas justificadas. Compensadas noutras alturas, mesmo que parcialmente? Com horários adaptados a cada pessoa em concreto? Provavelmente, sim, até para evitar a tentação dos chicos espertos descobrirem de repente profundos sentimentos religiosos onde horas antes só existia interesse próprio.

Agora, quanto a mudar feriados de lugar para evitar pontes, é ideia imbecil típica deste governo de idiotas. As pontes só existem porque as entidades patronais as autorizam. A começar pelo próprio Estado. Não são um direito, são uma benesse que se dá aos trabalhadores. Nada impede que deixe de se dar, já, essa benesse, sem sermos todos obrigados a comemorar o 1 de maio a 2 ou a 3. Mas não tenho dúvidas de que, precisamente porque é ideia imbecil típica deste governo de idiotas, terá grande apoio popular. Afinal, foi o povo quem elegeu este governo de idiotas.

E era isto. Voltem lá aos vossos afazeres que eu tenho um livro para traduzir.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lido: Os Marcianos Divertem-se

Os Marcianos Divertem-se (bib.) é um pequeno romance satírico de Fredric Brown sobre uma invasão da Terra por uns marciananos muito peculiares. Até a forma de invasão é peculiar: de um dia para o outro, o planeta vê-se repleto de criaturinhas que simplesmente aparecem e para as quais as divisões materiais do espaço parecem não ter qualquer significado. Como se não bastasse, são uns sacaninhas irreverentes e insultuosos. Tratam toda a gente por "Zé", troçam abertamente das pessoas, divertem-se a divulgar segredos e a enfurecer os mais pacatos, etc. Como o próprio Brown diz, por intermédio de Mário-Henrique Leiria, o tradutor:

«Todos, sem excepção se mostravam arrogantes, atribiliários, bárbaros, contrariantes, corrosivos, diabólicos, exasperantes, execráveis, ferozes, guinchadores, grosseiros, hostis, injuriosos, impudentes, irascíveis, jactanciosos, korriganescos. Eram lúbricos, malfeitores, niilistas, odiosos, ofensivos, pérfidos, perniciosos, perversos, quereladores, rebarbativos, sarcásticos, truculentos, ulcerantes, vexatórios, visigóticos, xenófobos e zumbidores ao ponto de tornar doido todo aquele que entrasse em contacto com eles.»

Ou seja: são precisamente o tipo de criatura que hoje em dia se costuma encontrar em certos locais da internet. Trolls.

Assim descritos os marcianos, já se imagina o que o romance é: o relato do que acontece quando essas excelsas pilhas de qualidades chegam ao nosso planeta e das consequências que tem a sua permanência. Por vezes irónico, por vezes sarcástico, por vezes datado (o livro é de 1955, afinal de contas). Há, claro, crítica social e de costumes a rodos, até porque é precisamente essa a ideia, mas parte dela tinha bem mais relevância há 56 anos do que tem hoje. E trata-se mais de uma sátira do que de ficção científica propriamente dita. Mas gostei. Não me parece que o humor funcione com toda a gente, mas comigo funcionou: nunca despreguei bandeiras a rir, mas sorri várias vezes e até soltei uma ou outra gargalhadinha.

Quanto à tradução, há trechos de pura genialidade, mas globalmente desiludiu-me um pouco. Mário-Henrique Leiria era um bom tradutor, um dos melhores que passaram pelas traduções de FC em Portugal, mas aqui, à parte esses trechos, não me parece que tivesse estado ao seu melhor nível.

Acontece aos melhores.

Este livro foi comprado.

Lido: Freefall

Freefall é um conto de ficção científica de Michael Bateman que, embora difira em muitos pormenores, ressoa estranhamente com um conto meu, publicado em 2002, No Vento Frio de Tharsis. Já não é a primeira vez que me acontece ver temas que tratei em histórias minhas tratados independentemente em contos de outros autores. Desta vez a minha saiu primeiro (esta é de 2003), mas nem sempre isso acontece, e é sempre muito estranho. É como se as ideias andassem por aí a flutuar numa espécie de noosfera exterior aos nossos cérebros, à espera de serem apanhadas por qualquer autor que estenda a mão. E se forem vários a fazê-lo, elas não se fazem rogadas.

Além de estranho, é incómodo. Porque este tipo de coincidência costuma dar pratinho cheio aos idiotas da má-língua. Quantas vezes viram já acusações de plágio atiradas a torto e a direito, mesmo que não haja a mais pequena hipótese do autor X ter contactado com a obra do autor Y antes de escrever a sua? Pois.

Como é óbvio, evidente e cristalino, Bateman não me plagiou. Mas o ambiente dos desportos radicais está lá, o risco também, a ambientação em outros planetas idem aspas, as conversas com uma mulher contrária à ideia de pôr a vida em risco por algo que ela não compreende igualmente por lá andam, etc. Quase toda a base dos contos é igual, embora os pormenores sejam diferentes. No meu, o protagonista faz parapente, no de Bateman faz algo de semelhante ao bungee jumping; no meu a mulher fica na Terra, no dele parte com o protagonista para o espaço; no meu o protagonista vai para Marte, no dele para Júpiter; no meu, a história é contada do ponto de vista do protagonista, no dele do da mulher.

E sim, é claro que, apesar da estranheza e do incómodo, gostei do conto. É um bom conto de FC, bem construído e bem executado.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Lido: É Preciso Matar o Spoq

É Preciso Matar o Spoq (bib.) é um conto de uma espécie de ficção científica muito fantasiosa, de Christian Grenier, tão surreal que se torna difícil descrevê-lo de forma que lhe faça justiça. Parece (e sublinho: parece) ter lugar num universo paralelo, ou num qualquer lugar que transcende o conceito de universo, criado pelo tal spoq a que o título faz referência, onde vivem criaturas que parecem ser humanas mas que possuem poderes (de telecinese e teleportação, por exemplo), e que está cada vez mais enxameado por "spoquitos", malcheirosas criaturas de nove patas que causam problemas onde quer que apareçam e que são, também eles, criados pelo spoq. O conto acompanha a viagem de descoberta do protagonista quando parte para tentar matar o spoq. É um conto juvenil, cheio de humor e de imaginação, e como tal é interessante, embora não cumpra os requisitos mais exigentes da ficção científica "adulta" e "séria". Porque privilegia a aventura e a imaginação ao rigor científico. Mas não me parece que isso tenha muita importância. É um conto de FC juvenil interessante, e só não é mais que interessante porque não me parece que o final esteja ao nível do resto do conto.

domingo, 9 de outubro de 2011

Lido: O Mistério da Árvore

O Mistério da Árvore (bib.) é um muito poético conto curto de Raul Brandão que, em jeito de história de fadas, fala de um reino governado por um rei tão malvado que tinha feito secar a água das fontes. No reino havia uma árvore, também ela há muito seca, onde eram há séculos enforcados os condenados à morte. A esse reino chega um dia um casal de mendigos, que muito se amam, e que por isso mesmo (e por serem mendigos) afrontam o rei e são condenados a morrer enforcados na tal árvore. E é o que acontece. Mas o amor é vida e a árvore, morta, ganha vida.

Trata-se de um conto muito bonito, muito doce, muito romântico, mas cuja verdadeira força está no magnífico uso da língua que nele é feito, não propriamente na história que conta (que nem me parece que seja nada de especial). Além disso, tem o tamanho certo. Se fosse maior sairia da dimensão típica dos contos populares de caráter maravilhoso que lhe servem de inspiração, e seria mais difícil evitar que a prosa poética começasse a cansar. Assim, tudo parece estar no sítio que lhe é próprio. Gostei bastante, mesmo não sendo este o tipo de conto que mais me costuma agradar. E recomendo, exceto a quem ache que só as histórias sombrias valem a pena.

Lido: Planetas

Planetas, do mexicano Ricardo Bernal, é um pequeno conto sobre terrestres e marcianos cujo principal interesse parece estar no texto propriamente dito. Não parece nele haver uma ideia, além de uma certa (e muito disparatada) equivalência entre ciência e magia, e tampouco existe uma história propriamente dita. Além de um texto, numa prosa algo poética, que não me parece maltratar a língua castelhana, não encontrei nada neste continho. Para alguns leitores um texto de boa qualidade é suficiente. Para mim não é. Não gostei. Não aconselho, mas se quiserem podem lê-lo aqui. É logo o primeiro.

Lido: A Canção de Kali

A Canção de Kali (bib.), de Dan Simmons, é um romance que já acabei de ler há algum tempo (praticamente dois meses) mas do qual, por um motivo ou por outro, só agora arranjei tempo para falar. Se o mesmo acontecesse com certos outros livros isso causar-me-ia problemas. Há histórias que começam a desvanecer-se da memória assim que o livro se fecha, quando não é ainda com ele aberto, e falar delas alguns meses mais tarde torna-se quase impossível. Mas não é o caso deste romance.

Como o título sugere, a ação desenrola-se principalmente na Índia. O protagonista é um americano, casado com uma emigrante indiana, que é encarregado de investigar o misterioso aparecimento de um novo manuscrito escrito por grande poeta indiano que consta estar morto. Para isso embarca com a mulher e uma filha pequena num avião para Calcutá, uma das maiores cidades da Índia (e do mundo), descrita como um lugar caótico, repleto de miséria e sujidade e centro de um culto à deusa hindu da destruição, Kali, consorte do deus da morte, Shiva.

Mas Simmons, com esta matéria-prima nas mãos, resiste à tentação da facilidade. Não mergulha o leitor de cabeça e à bruta no horror sobrenatural que se poderia supor. Pelo contrário, meio romance é passado em pleno realismo, com não mais que subtis indicações de que algo de realmente invulgar se passa naquela cidade, algo que transcende as simples consequências do sobrepovoamento e do subdesenvolvimento. Algo que não se explique apenas com crime organizado e seitas religiosas clandestinas e fanáticas.

É em boa parte por causa dessa pintura de um cenário inteiramente realista, ao mesmo tempo que vai preparando o leitor para o que está para vir, que este livro está tão bem conseguido. Por causa da subtileza que percorre todo o romance, por ter todos os fios que constituem a trama tão bem amarrados. Por estar muito bem escrito, com um ritmo impecável, com tudo no sítio. No que acontece ao protagonista e sua família, nas várias personagens que se vão cruzando com eles, no retrato — nada lisongeiro — da cidade de Calcutá e da própria Índia, não parece haver nada a mais nem nada a menos. Tudo está onde e como deve estar.

Achei A Canção de Kali dos melhores livros que li nos últimos anos. E é dos poucos livros que recomendo sem reservas a quase qualquer leitor, sejam quais forem os seus gostos, à exceção de quem não goste de livros perturbadores. Porque A Canção de Kali, pese embora toda a sua subtileza, é um livro perturbador. Ou talvez por causa dessa subtileza. É mais fácil acreditar que por trás das aparências algo de negro se move quando essas aparências são tão palpáveis do que quando a descrença é violentada desde o início com as tentativas desajeitadas de chocar com que tantos autores menores se comprazem. E Simmons, basta este livro para o dizer, e bastaria mesmo que nada mais de bom tivesse escrito ao longo de toda a carreira, não é um autor menor.

Este livro foi comprado.