sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Lido: A Mulher Adúltera

A Mulher Adúltera, conto de Albert Camus, passa-se na Argélia dos tempos do colonialismo francês, e segue um vendedor e sua mulher em viagem pela província argelina. O homem viaja em negócios, e a mulher aborrece-se, seguindo-o porque ele lho pedira, mas sem tirar da viagem o mínimo gosto. A personagem principal é, claro, a mulher, e Camus passa todo o conto a jogar com as expetativas que o título cria no leitor, mas acaba por resolvê-las duma forma excelente, ao mesmo tempo inteiramente lógica, poética e irónica. Se bem que, no fundo, a principal protagonista desta história seja a própria Argélia, a sua paisagem, tanto natural como humana, na qual o casal de franceses não passa de um intruso.

Mas para o leitor e praticante de ficção científica que escreve aqui na Lâmpada, o principal interesse deste conto, sobre o qual vou desde já adiantando que gostei bastante, em geral, é o facto de o encontrar cheio de uma coisa que a FC promete quase sempre mas com irritante frequência não entrega: o estranhamento. Este conto devia ser leitura obrigatória para tantos, tantos escritores de ficção científica, tanto novatos como experientes, tanto lusófonos como estrangeiros, para verem como se faz. Para compreenderem como se leva o leitor a sentir no âmago a estranheza de paisagens e civilizações que lhe são alheias.

E tudo com um conto inteiramente realista, puro mainstream. Sem mundos com ambientes bizarros nem extraterrestres. O estranhamento que aqui se encontra, tão mais estranho do que os alienígenas americanos de tantos romances, está já ali, a algumas centenas de quilómetros para sul. Em termos cósmicos, é mesmo aqui.

2 comentários:

  1. A mulher adultera- o título sugere que a mulher trairá o marido. mas o que Camus nos mostra é que a mulher em sua essência adultera a lógica fálica. A mulher não se ocupa totalmente do homem, nem mesmo se tivesse um filho. Há algo para além que especifica o gozo feminino como enigmático.

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    1. Sim, mas nada aí é novidade, pelo menos para mim. A mulher nunca se ocupa totalmente do homem, menos ainda se tem filhos (daí, aliás, a criação de sociedades patriarcais, numa tentativa sempre frustrada de domar o indomável), e o gozo feminino é, pela sua própria natureza distinta, sempre enigmático para qualquer homem. Portanto não foi isso que achei mais interessante neste conto.

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