quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Lido: A Ética da Traição

A Ética da Traição (bib.) é outra noveleta de Gerson Lodi-Ribeiro, pertencente à sua série de história alternativa Pax Paraguaya, tal como Crimes Patrióticos. Mas é uma daquelas histórias alternativas que podem enquadrar-se com igual propriedade na ficção científica. A ação decorre muitos anos depois da de Crimes Patrióticos, em pleno século XX, mas num século XX necessariamente diferente do nosso. O protagonista é um genial físico brasileiro, negro, que decide desertar do seu país após ter destruído a pesquisa que aí realizara porque os seus governantes estavam a pretender usá-la para fins que não considerava éticos. Há esta continuidade de tema entre os dois trabalhos: as decisões individuais sobre lealdade e identidade e aquilo que está certo, postas em confronto com o comportamento que a sociedade como um todo (ou cada sociedade individual, pelo menos) espera dos seus membros.

Mas aqui é dada ao argumento uma volta muito ciencio-ficcional. O trabalho do físico desertor tinha a ver com o tempo. Primeiro em teoria e depois na prática, ele tinha construído uma espécie de "janela" que lhe fornecia uma visão de outros períodos históricos... só que quando apontava essa janela para o seu próprio tempo não via o mundo que o rodeava, aquele em que o Paraguai ganhou a guerra da tríplice aliança, mas sim o nosso, em que a perdeu. Universos paralelos? Precisamente. O Brasil dele é muito mais pequeno do que o nosso, mas ao mesmo tempo muito mais justo. E quando as autoridades brasileiras procuram levá-lo a investigar uma forma de transformar a linha temporal em que vive na nossa, ou em algo de parecido à nossa, ele vê-se confrontado com um dilema.

Esse dilema é a parte mais interessante da história, aquilo que lhe confere coluna vertebral e estrutura. O resto, a camada superficial da noveleta, é uma história de espionagem. Logo ao iniciarmos a leitura encontramos o físico incógnito num barco fluvial que o levará ao Paraguay, mas rodeado de agentes secretos das várias nações interessadas no desenlace da história. E esses agentes não vão ficar de braços cruzados, naturalmente.

É uma história excelente. Se não for a minha história preferida do Gerson, está certamente num top qualquer. Muito bom.

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