sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Lido: Travessa de André Valente
Travessa de André Valente é uma crónica de José Saramago. Ou por outra, é uma vinheta, um pequeno bocadinho de ficção, no qual o narrador, presumivelmente o próprio Saramago, se encontra com Bocage numa interseção do espaço-tempo numa travessa de Lisboa. Há histórias de ficção científica feitas com base nesta mesma ideia, e a de Saramago é mais uma. Muito curta, muito bem concebida, dos bocadinhos de prosa mais interessantes que tenho lido no livro de que faz parte. Não existe propriamente uma história, mas nem sempre é necessário que haja história. É um conto de momento, feito de perplexidades e francamente bom.
Lido: O Deserto
Mais um conto de Bradbury, este O Deserto (bib.) é tão 1950 que hoje em dia, nesta época pós-emancipação em que vivemos, pode parecer algo ridículo. Ou algo mais que algo. Mostra-nos o momento em que uma candidata a noiva de um dos colonos de Marte decide, entre hesitações, partir atrás do seu homem para um mundo novo, deixando o seu para trás, e faz um paralelismo com o que acontecia na época da conquista do Oeste americano. É das tais histórias de FC que dizem ao leitor atual mais sobre a sociedade da época em que foram escritas do que sobre qualquer outra coisa. O Bradbury de 1950 partia do princípio de que os conquistadores de Marte seriam inevitavelmente homens, e que as mulheres ficariam para trás, de olhos em alvo e coraçõezinhos apertados de medo pela segurança e sobrevivência dos seus bravos machos alfa. Hoje, que temos a presença corriqueira de mulheres no espaço, isto parece um anacronismo sem pés nem cabeça, e esse facto poderia ter assassinado o conto sem remissão, até porque para lá do conflito da candidata a mulher de colono o seu enredo pouco mais nos oferece.
Ah, mas está escrito com tamanha magnificência que tudo o mais empalidece em comparação. É que o Bradbury de 1950, por misógino e conservador que se mostrasse, era acima de tudo um escritor e peras.
Ah, mas está escrito com tamanha magnificência que tudo o mais empalidece em comparação. É que o Bradbury de 1950, por misógino e conservador que se mostrasse, era acima de tudo um escritor e peras.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Lido: Mr. Pale
Mr. Pale (bib.) é um conto de fantasia científica de Ray Bradbury, passado numa nave espacial de partida da Terra, na qual aparece um muito estranho e moribundo passageiro clandestino. Dizer mais desvenda demasiado da história, que se apoia fortemente no lento desvendar da identidade do passageiro clandestino e daquilo que o traz à nave, de modo que direi apenas que, contrariamente ao que possa parecer à primeira vista, este conto é uma reflexão sobre a mortalidade. Uma reflexão sobre a mortalidade escrita por um escritor idoso, que vê claramente na sua frente o fim da vida a aproximar-se e procura reconciliar-se com ele. Apesar do ambiente de ficção científica (nave espacial, e tal) não se trata de um conto de ficção científica e, na verdade, se for olhado apenas sob esse prisma estreito é bem capaz de parecer bastante mau. Mas abrindo-se os horizontes é, talvez, o melhor conto do livro em que se insere, pelo menos até agora.
Lido: Desgraça
Desgraça, do sul-africano J. M. Coetzee, é um grande romance.
Descrevendo a vida de um professor de literatura na Universidade do Cabo depois de se entregar a uma relação com uma aluna, o livro é uma dura reflexão sobre as relações de poder numa sociedade à deriva e em transição entre o poder repressivo duma minoria e o poder da maioria pós-apartheid, e onde o racismo nunca se encontra coberto por mais do que uma fina película de recém-adquirida tolerância, quando está coberto por alguma coisa.
O protagonista começa o romance no topo da escala social, como professor respeitado, pelo menos na aparência, ainda que tenha a sensação de que na realidade não está a ensinar nada a ninguém. Divorciado, encontra em prostitutas a forma de dar vazão às suas necessidades sexuais, até que uma das suas alunas lhe desperta a atenção. Sedu-la, valendo-se para isso do poder que detém enquanto professor. Não chega propriamente a violá-la, mas não anda longe. E cai em desgraça quando a rapariga faz queixa.
Começa logo aqui o jogo de Coetzee com as relações de poder na sociedade em que vive (ou vivia, quando escreveu o romance; hoje vive na Austrália e tornou-se entretanto cidadão australiano), mas ele leva-as muito mais longe. O professor, caído em desgraça (embora lhe tenha sido oferecida a oportunidade de se redimir com um pedido público de desculpa, que ele não aceita), vai viver com a filha lésbica que tem terras e uma espécie de canil numa zona rural distante. Aí conhece um dos vizinhos da filha, antigo empregado e recente proprietário que está em plena ascenção social. Negro, claro. E é na dinâmica da relação entre a filha (e o próprio professor) e este vizinho que Coetzee baseia a sua analogia com a África do Sul como um todo.
Numa sociedade em mudança, o burguês intelectual, que nunca escondera o seu snobismo, e a sua filha, proprietária rural, dois tipos naturais de repressores de tempos idos, acabam na condição de vítimas quando um grupo de criminosos viola a filha (engravidando-a) e espanca e quase queima vivo o pai. Criminosos que, marcados pela sua antiga condição de vítimas, se acham agora no direito de passar a repressores, desencadeando uma violência que é como um espelho daquela a que foram antes sujeitos. Têm desculpa? Será preciso, ou até possível, levá-los à justiça e fazê-los pagar pelos seus atos? É nesta discussão que se abre um abismo entre o pai e a filha. Aquele procura vingança, ainda que duma forma inconsequente e ineficaz; esta prefere esquecer, e prepara-se para ter o filho e cuidar dele, aceitando a proteção do vizinho (familiar de um dos agressores) e a sua nova condição de impotência.
Escrito num estilo adequadamente seco e objetivo, nu de rodriguinhos, este livro é grande literatura, sem sombra de dúvida. Uma história interessante e bem contada, personagens credíveis, diálogos verosímeis, um estilo adequado e, acima de tudo, muitíssimo conteúdo. É verdade que eu prefiro outras literaturas à realista, como esta, mas não é menos verdade que livros como este quase me levam a fazer as pazes com o mainstream literário. Muito bom.
Descrevendo a vida de um professor de literatura na Universidade do Cabo depois de se entregar a uma relação com uma aluna, o livro é uma dura reflexão sobre as relações de poder numa sociedade à deriva e em transição entre o poder repressivo duma minoria e o poder da maioria pós-apartheid, e onde o racismo nunca se encontra coberto por mais do que uma fina película de recém-adquirida tolerância, quando está coberto por alguma coisa.
O protagonista começa o romance no topo da escala social, como professor respeitado, pelo menos na aparência, ainda que tenha a sensação de que na realidade não está a ensinar nada a ninguém. Divorciado, encontra em prostitutas a forma de dar vazão às suas necessidades sexuais, até que uma das suas alunas lhe desperta a atenção. Sedu-la, valendo-se para isso do poder que detém enquanto professor. Não chega propriamente a violá-la, mas não anda longe. E cai em desgraça quando a rapariga faz queixa.
Começa logo aqui o jogo de Coetzee com as relações de poder na sociedade em que vive (ou vivia, quando escreveu o romance; hoje vive na Austrália e tornou-se entretanto cidadão australiano), mas ele leva-as muito mais longe. O professor, caído em desgraça (embora lhe tenha sido oferecida a oportunidade de se redimir com um pedido público de desculpa, que ele não aceita), vai viver com a filha lésbica que tem terras e uma espécie de canil numa zona rural distante. Aí conhece um dos vizinhos da filha, antigo empregado e recente proprietário que está em plena ascenção social. Negro, claro. E é na dinâmica da relação entre a filha (e o próprio professor) e este vizinho que Coetzee baseia a sua analogia com a África do Sul como um todo.
Numa sociedade em mudança, o burguês intelectual, que nunca escondera o seu snobismo, e a sua filha, proprietária rural, dois tipos naturais de repressores de tempos idos, acabam na condição de vítimas quando um grupo de criminosos viola a filha (engravidando-a) e espanca e quase queima vivo o pai. Criminosos que, marcados pela sua antiga condição de vítimas, se acham agora no direito de passar a repressores, desencadeando uma violência que é como um espelho daquela a que foram antes sujeitos. Têm desculpa? Será preciso, ou até possível, levá-los à justiça e fazê-los pagar pelos seus atos? É nesta discussão que se abre um abismo entre o pai e a filha. Aquele procura vingança, ainda que duma forma inconsequente e ineficaz; esta prefere esquecer, e prepara-se para ter o filho e cuidar dele, aceitando a proteção do vizinho (familiar de um dos agressores) e a sua nova condição de impotência.
Escrito num estilo adequadamente seco e objetivo, nu de rodriguinhos, este livro é grande literatura, sem sombra de dúvida. Uma história interessante e bem contada, personagens credíveis, diálogos verosímeis, um estilo adequado e, acima de tudo, muitíssimo conteúdo. É verdade que eu prefiro outras literaturas à realista, como esta, mas não é menos verdade que livros como este quase me levam a fazer as pazes com o mainstream literário. Muito bom.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Lido: 333
Peguei em 333 muitíssimo desconfiado, julgando tratar-se de mais uma da miríade de histórias secretas mais ou menos cabalísticas, mais ou menos templárias, que tem proliferado no mundo literário desde que Dan Brown cometeu o seu Código Da Vinci, e das quais tenho lutado, com sucesso e diligência, por me manter bem afastado. Não só o título, que remete imediatamente para o famigerado Número da Besta, mas também o grafismo da capa, faziam temer o pior. Mas este livro apareceu de paraquedas cá por casa, de modo que resolvi lê-lo, com desconfiança e tudo.
E descobri que se trata, realmente, duma história secreta, mas não propriamente do mesmo género. Pedro Sena-Lino, o autor, não escreveu um romance, propriamente, mas sim uma compilação de historietas sobre o que aconteceu aos 333 exemplares que foram impressos de um livro antigo e razoavelmente maldito, cujo principal crime é versar o amor e o desejo vistos sob o ponto de vista duma mulher, que além de mulher era freira. A semelhança com a soror Mariana Alcoforado e suas romanticíssimas cartas não é coincidência, pura ou impura. Sena-Lino estuda a literatura feminina de tempos idos, e procura de facto com o seu livro fazer uma homenagem à velha freira alentejana.
Mas fá-lo duma forma que, embora a princípio pareça apenas algo desconcertante, depois se torna aborrecida de tão monótona. Ao seguir a "vida" de cada um dos 333 exemplares, Sena-Lino descreve-nos uma sucessão de acidentes, percalços, incêndios, inundações, o diabo a quatro, que vão destruindo quase metodicamente toda a edição. Concomitantemente, os donos dos livros vão também tendo os fins mais variados, transformando o livro (o de Sena-Lino, não o dos 333 exemplares) numa longa sucessão de tragédias. Não há exemplar e respetivo dono que mereça mais do que meia dúzia de páginas, de modo que não há história que sofra desenvolvimento suficiente para agarrar o leitor, e não há personagem que ultrapasse o esboço. Nem poderia haver, visto que o autor se auto-impôs a tarefa de se desembaraçar de 333 livros ao longo de menos de 200 páginas.
Quem não quiser spoilers sérios faça favor de saltar o próximo parágrafo, porque vou ter de desvendar nele o final de 333 a fim de referir algo de relevante. Aviso feito, avante.
No seu desfecho, 333 acaba por adquirir tons de fantástico, na vertente todoroviana da palavra, embora haja também nele muito de alegoria. Ao ser destruído o último dos 333 exemplares do livro, o fantasma da autora é libertado, fazendo-nos reavaliar todos os acontecimentos passados. A parte alegórica é óbvia e algo banal, e parte da velha ideia de que o escritor coloca parte da alma naquilo que escreve. Mas esse final parece-me mais interessante por sugerir (e apenas sugerir) que a destruição dos 333 exemplares se fica de facto a dever à ação do fantasma da autora, aflito por ganhar a liberdade por que ansiava há muito.
Em suma, não posso dizer que tenha gostado deste livro. Um final com algum interesse não compensa de forma alguma a monotonia das muitas páginas que a ele levam, e confesso que o usei por mais do que uma vez como forma de curar insónias. Mas acredito plenamente que haja quem se delicie com todas as historietas que o compõem. É a velha questão de gostar-se de amarelo. E eu, não gosto.
E descobri que se trata, realmente, duma história secreta, mas não propriamente do mesmo género. Pedro Sena-Lino, o autor, não escreveu um romance, propriamente, mas sim uma compilação de historietas sobre o que aconteceu aos 333 exemplares que foram impressos de um livro antigo e razoavelmente maldito, cujo principal crime é versar o amor e o desejo vistos sob o ponto de vista duma mulher, que além de mulher era freira. A semelhança com a soror Mariana Alcoforado e suas romanticíssimas cartas não é coincidência, pura ou impura. Sena-Lino estuda a literatura feminina de tempos idos, e procura de facto com o seu livro fazer uma homenagem à velha freira alentejana.
Mas fá-lo duma forma que, embora a princípio pareça apenas algo desconcertante, depois se torna aborrecida de tão monótona. Ao seguir a "vida" de cada um dos 333 exemplares, Sena-Lino descreve-nos uma sucessão de acidentes, percalços, incêndios, inundações, o diabo a quatro, que vão destruindo quase metodicamente toda a edição. Concomitantemente, os donos dos livros vão também tendo os fins mais variados, transformando o livro (o de Sena-Lino, não o dos 333 exemplares) numa longa sucessão de tragédias. Não há exemplar e respetivo dono que mereça mais do que meia dúzia de páginas, de modo que não há história que sofra desenvolvimento suficiente para agarrar o leitor, e não há personagem que ultrapasse o esboço. Nem poderia haver, visto que o autor se auto-impôs a tarefa de se desembaraçar de 333 livros ao longo de menos de 200 páginas.
Quem não quiser spoilers sérios faça favor de saltar o próximo parágrafo, porque vou ter de desvendar nele o final de 333 a fim de referir algo de relevante. Aviso feito, avante.
No seu desfecho, 333 acaba por adquirir tons de fantástico, na vertente todoroviana da palavra, embora haja também nele muito de alegoria. Ao ser destruído o último dos 333 exemplares do livro, o fantasma da autora é libertado, fazendo-nos reavaliar todos os acontecimentos passados. A parte alegórica é óbvia e algo banal, e parte da velha ideia de que o escritor coloca parte da alma naquilo que escreve. Mas esse final parece-me mais interessante por sugerir (e apenas sugerir) que a destruição dos 333 exemplares se fica de facto a dever à ação do fantasma da autora, aflito por ganhar a liberdade por que ansiava há muito.
Em suma, não posso dizer que tenha gostado deste livro. Um final com algum interesse não compensa de forma alguma a monotonia das muitas páginas que a ele levam, e confesso que o usei por mais do que uma vez como forma de curar insónias. Mas acredito plenamente que haja quem se delicie com todas as historietas que o compõem. É a velha questão de gostar-se de amarelo. E eu, não gosto.
Lido: Os Filhos Madraços
Os Filhos Madraços é um conto razoavelmente curto em que Italo Calvino nos descreve uma família de mãe, pai e dois filhos adultos, os quais, para desapontamento e fúria dos pais, se estão nas tintas para trabalhar, preferindo passar os dias a mandriar. É um dos primeiros contos de Calvino e ainda está muito longe daquilo a que o autor nos habituou mais tarde, os seus contos e romances fantásticos que por vezes chegam mesmo a roçar-se com grande entusiasmo na ficção científica. Longe no tema, mas também longe, parece-me, em qualidade. É um conto sem história propriamente dita, um conto de situação e de construção de personagens, mas só uma das personagens está razoavelmente bem construída, não passando as outras de esboços. A mãe é quase inexistente, o pai existe apenas no esforço que faz para arrancar a prole à inércia e na irritação que manifesta pela atitude dos filhos, o irmão do narrador resume-se à preguiça, e só o narrador se mostra com alguma profundidade: é mandrião, sim senhores, mas pelo menos tem alguns pruridos de consciência pelo facto. Mas como está bem escrito, o conto acaba por ser razoável, embora eu de Calvino espere sempre muito melhor do que isto.
domingo, 29 de novembro de 2009
Lido: Provável Aventura de Três Homens de Letras
O improvável título de Provável Aventura de Três Homens de Letras corresponde a um conto muito curto (três páginas) de fantasia de Lorde Dunsany, no qual assistimos a uma tentativa de achar, e roubar, uma tal Caixa Dourada por parte de uns nómadas e do ladrão que eles contratam. Porém, como acontece com frequência, os planos não saem bem como quem os faz pretende, e a coisa dá barraca.
Da ironia contida no título e detetável também em partes do texto, ficou-me a forte impressão de que o nosso lorde está a troçar de alguém bem real, pertencente ao seu círculo de conhecidos, embora decerto que não de amigos. Mas é só impressão: confesso com toda a honestidade que nada sei sobre a vida de Dunsany.
Da ironia contida no título e detetável também em partes do texto, ficou-me a forte impressão de que o nosso lorde está a troçar de alguém bem real, pertencente ao seu círculo de conhecidos, embora decerto que não de amigos. Mas é só impressão: confesso com toda a honestidade que nada sei sobre a vida de Dunsany.
sábado, 28 de novembro de 2009
Coisas da imaginação

À quase totalidade do universo, isto não interessa nada. Mas a quem está em São Paulo ou nas imediações e gosta de ler coisas cheias de imaginações, pode interessar bastante. E como talvez interesse a mais gente além dessa, cá vai.
É que às 4 da tarde, hora local, é lançada a coleção Imaginários, da Draco, e os seus dois primeiros volumes.
O primeiro volume é exclusivamente brasileiro, contando com nomes conhecidos do público português graças à coleção de FC da Caminho, como Gerson Lodi-Ribeiro ou Roberto de Sousa Causo, e outros mais desconhecidos do lado de cá do Atlântico (embora alguns tenham participado numa antologia ou outra): Giulia Moon, Jorge Luiz Calife, Ana Lúcia Merege, Carlos Orsi, Flávio Medeiros, Osíris Reis, Martha Argel, Davi M. Gonzales e Richard Diegues.
O segundo volume é transatlântico, contando com quatro autores portugueses e cinco brasileiros. Os portugueses são Luís Filipe Silva, João Barreiros, Sacha Ramos e eu próprio, os brasileiros são os organizadores das duas antologias, Tibor Moricz, Saint-Clair Stockler e Eric Novello e ainda Alexandre Heredia e o decano da FC brasileira (e nunca publicado em Portugal, o que tem em si um mundo de significados) André Carneiro.
E já há uma primeira resenha, de Antonio Luiz M. C. Costa, no site da revista Carta Capital. Para quem quiser saber de que se trata.
Os votos de um bom lançamento do lado de cá do oceano para o de lá.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Por outro lado...
Por outro lado, se os valores avançados aqui pelo Miguel Madeira são verdadeiros, o caso muda de figura. As notícias da comunicação social tinham-me levado a crer que a quantidade de grávidas vacinadas era significativa, e não os menos de 10% que ele refere. Julgava que por esta altura andasse pela metade. E, que eu saiba, o número de mortes de fetos referidos pelos media é de 3, não de 4. Mesmo assim, é o dobro do esperado com um nível de vacinação tão baixo. Isso pode querer dizer que há realmente qualquer coisa ali, mas também pode ser simples acaso. Por mais que se publiquem livros a dizer que não há coincidências, elas existem mesmo. E quando os números são muito baixos, e 3 ou 4 são números muito baixos, é praticamente impossível fazer inferências estatísticas com um mínimo aceitável de solidez.
De resto, mesmo que haja algum fogacho a causar este fumo, não se justifica de forma nenhuma o alarmismo que tem sido gerado por certos media. Mesmo se todas as mortes de fetos fossem provocadas pela vacina, que comprovadamente não são, estamos a falar de 3 ou 4 mortes fetais em cinco mil grávidas. Mantendo embora em mente a advertência sobre a nula solidez de inferências estatísticas com números destes, eles parecem indicar que a probabilidade do mesmo acontecer a qualquer grávida vacinada nem a 0,1% chega.
De resto, mesmo que haja algum fogacho a causar este fumo, não se justifica de forma nenhuma o alarmismo que tem sido gerado por certos media. Mesmo se todas as mortes de fetos fossem provocadas pela vacina, que comprovadamente não são, estamos a falar de 3 ou 4 mortes fetais em cinco mil grávidas. Mantendo embora em mente a advertência sobre a nula solidez de inferências estatísticas com números destes, eles parecem indicar que a probabilidade do mesmo acontecer a qualquer grávida vacinada nem a 0,1% chega.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Péssimo jornalismo
Muitas vezes, ao assistir a telejornais ou enquanto lemos jornais, somos confrontados com informações e abordagens à informação que nos parecem duvidosas, mas somos obrigados a ficar na dúvida porque não sabemos o suficiente sobre o tema para decidir com certeza.
Mas noutras vezes basta fazer contas.
É o caso do muito que se tem falado nas últimas semanas sobre uma "relação" entre mortes de fetos e a vacina contra a gripe A que tem sido dada às grávidas. Não raro, sugere-se que é a vacina que causa essas mortes, ou pelo menos lança-se a dúvida. Será? Não será? Não perca as notícias de amanhã para mais pormenores.
Ora isto é péssimo jornalismo.
Péssimo.
Porquê? Porque não se destina a informar, mas sim a vender jornais e anúncios nos intervalos dos telejornais e noticiários radiofónicos. Porque cria uma suspeita sem qualquer razão de ser, disseminando entre as pessoas a incerteza e o medo. Porque é sensacionalista, mesmo nas suas versões mais suaves. E porque basta fazer contas para se ver que o assunto é uma não-notícia.
Fetos morrem durante a gestação. Sempre morreram, e sempre morrerão. É um processo biológico inteiramente normal, e que nunca desaparecerá. Por muito que custe aos pais que não o serão, por muito que possamos solidarizar-nos com a sua dor, há fetos que simplesmente não são viáveis. Há fetos que dão nós no cordão umbilical que interrompem o fornecimento de sangue. Há fetos com doenças genéticas que não permitem um desenvolvimento normal. Há uma série de motivos que desembocam todos num resultado comum: a morte do feto.
Ora, em Portugal sabe-se que esse desfecho acontece a cerca de 300 gravidezes todos os anos. É quase um feto morto por dia. De modo que agora que se está a vacinar primordialmente as grávidas, continua a morrer cerca de um feto por dia, e inevitavelmente alguns morrerão pouco depois da mãe ser vacinada. É evidente, é óbvio, é claro. De tal modo claro que a única notícia que se justifica é relatar este facto e passar à frente.
Mas não. O péssimo jornalismo que vamos tendo tem feito disto tema de notícias atrás de notícias, reportagens, o diabo a quatro.
Depois admiram-se.
Mas noutras vezes basta fazer contas.
É o caso do muito que se tem falado nas últimas semanas sobre uma "relação" entre mortes de fetos e a vacina contra a gripe A que tem sido dada às grávidas. Não raro, sugere-se que é a vacina que causa essas mortes, ou pelo menos lança-se a dúvida. Será? Não será? Não perca as notícias de amanhã para mais pormenores.
Ora isto é péssimo jornalismo.
Péssimo.
Porquê? Porque não se destina a informar, mas sim a vender jornais e anúncios nos intervalos dos telejornais e noticiários radiofónicos. Porque cria uma suspeita sem qualquer razão de ser, disseminando entre as pessoas a incerteza e o medo. Porque é sensacionalista, mesmo nas suas versões mais suaves. E porque basta fazer contas para se ver que o assunto é uma não-notícia.
Fetos morrem durante a gestação. Sempre morreram, e sempre morrerão. É um processo biológico inteiramente normal, e que nunca desaparecerá. Por muito que custe aos pais que não o serão, por muito que possamos solidarizar-nos com a sua dor, há fetos que simplesmente não são viáveis. Há fetos que dão nós no cordão umbilical que interrompem o fornecimento de sangue. Há fetos com doenças genéticas que não permitem um desenvolvimento normal. Há uma série de motivos que desembocam todos num resultado comum: a morte do feto.
Ora, em Portugal sabe-se que esse desfecho acontece a cerca de 300 gravidezes todos os anos. É quase um feto morto por dia. De modo que agora que se está a vacinar primordialmente as grávidas, continua a morrer cerca de um feto por dia, e inevitavelmente alguns morrerão pouco depois da mãe ser vacinada. É evidente, é óbvio, é claro. De tal modo claro que a única notícia que se justifica é relatar este facto e passar à frente.
Mas não. O péssimo jornalismo que vamos tendo tem feito disto tema de notícias atrás de notícias, reportagens, o diabo a quatro.
Depois admiram-se.
Lido: Vénus
Vénus (bib.) é um romance de ficção científica hard, de Ben Bova, que descreve uma expedição ao segundo planeta para tentar recuperar os restos de uma malograda expedição anterior. Tal como faz em Regresso a Marte, que também li há relativamente pouco tempo, e cujo original data do ano anterior, Bova apresenta-nos em Vénus protagonistas em conflito com pais controladores e absurdamente ricos, e uma abordagem mais ou menos ecológica da exploração planetária, ainda que em doses diferentes. Esta última estava mais presente no romance marciano do que no venusiano, ao passo que os conflitos pai-filho, que em Regresso a Marte se circunscreviam a um par de personagens secundárias (ainda que importantes), em Vénus transformam-se no principal motor do enredo e no motivo que leva o protagonista e narrador a embarcar na expedição. A somar a isso, temos um ambiente planetário extraordinariamente exigente, como é sabido, que acrescenta um forte elemento de perigo à missão, e uma segunda expedição liderada por uma espécie de capitão Nemo do espaço, igualmente autoritário, igualmente violento e ditador duma tripulação igualmente exótica, embora muito mais centrado em si próprio, nos seus agravos e raivas, do que a personagem de Verne. E, tal como em Regresso a Marte, temos a descoberta de vida autóctone a dar um sabor especial (e mais perigo ainda) à expedição.
Como já saberão se tiverem lido uns artigos que escrevi ultimamente, eu nada tenho contra clichés, desde que os veja a ser usados com inteligência e subtileza. A profusão de "capitães Nemos" que houve na FC do século XX em nada impede que um escritor que resolva arranjar mais um se saia bem da tentativa. O mesmo poderá dizer-se sobre os muitos milhares de histórias baseadas em relações difíceis com pais controladores, na FC e fora dela. E etc. Mas infelizmente, não encontrei essa inteligência e subtileza neste livro. Clichés, tem-nos em grande profusão (não, não falei já de todos... ainda há a única mulher que acaba como interesse romântico do herói, ainda há o fracote que se supera — e a todos os demais — quando posto à prova, e mais, e mais), mas não me parece que chegue a tratar algum com subtileza, apesar de haver uns quantos que até são tratados com uma certa inteligência. Aquilo que os clichés fazem logo prever que aconteça, acontece mesmo, apesar das reviravoltas do enredo, e isso torna o livro aborrecido. Não é um mau romance, propriamente, mas é bastante fraquinho. Um romance de aventuras, cuja principal personagem acaba por ser o planeta apesar de o livro dar mais atenção às relações humanas, talvez por ainda se saber tão pouco sobre aquele.
Francamente má só mesmo a tradução. De cada vez que via "asteroid belt" a ser traduzido como "Asteróide Belt" em vez do correto "cinturão de asteróides" (ou cintura), só me apetecia mandar o livro pela janela, e esse crasso disparate apareceu inúmeras vezes. E esteve longe de ser o único. É verdade que as asneiras foram mais comuns em detalhes mais ou menos básicos de cultura geral astronómica, o que é mais responsabilidade do editor do que do tradutor por não ter tido a inteligência de escolher o tradutor certo para o trabalho certo (nenhum tradutor do mundo sabe o suficiente sobre tudo), mas também existem na língua portuguesa propriamente dita. Não há desculpa nem justificação possível para coisas como "começei", por exemplo. Para esquecer.
Como já saberão se tiverem lido uns artigos que escrevi ultimamente, eu nada tenho contra clichés, desde que os veja a ser usados com inteligência e subtileza. A profusão de "capitães Nemos" que houve na FC do século XX em nada impede que um escritor que resolva arranjar mais um se saia bem da tentativa. O mesmo poderá dizer-se sobre os muitos milhares de histórias baseadas em relações difíceis com pais controladores, na FC e fora dela. E etc. Mas infelizmente, não encontrei essa inteligência e subtileza neste livro. Clichés, tem-nos em grande profusão (não, não falei já de todos... ainda há a única mulher que acaba como interesse romântico do herói, ainda há o fracote que se supera — e a todos os demais — quando posto à prova, e mais, e mais), mas não me parece que chegue a tratar algum com subtileza, apesar de haver uns quantos que até são tratados com uma certa inteligência. Aquilo que os clichés fazem logo prever que aconteça, acontece mesmo, apesar das reviravoltas do enredo, e isso torna o livro aborrecido. Não é um mau romance, propriamente, mas é bastante fraquinho. Um romance de aventuras, cuja principal personagem acaba por ser o planeta apesar de o livro dar mais atenção às relações humanas, talvez por ainda se saber tão pouco sobre aquele.
Francamente má só mesmo a tradução. De cada vez que via "asteroid belt" a ser traduzido como "Asteróide Belt" em vez do correto "cinturão de asteróides" (ou cintura), só me apetecia mandar o livro pela janela, e esse crasso disparate apareceu inúmeras vezes. E esteve longe de ser o único. É verdade que as asneiras foram mais comuns em detalhes mais ou menos básicos de cultura geral astronómica, o que é mais responsabilidade do editor do que do tradutor por não ter tido a inteligência de escolher o tradutor certo para o trabalho certo (nenhum tradutor do mundo sabe o suficiente sobre tudo), mas também existem na língua portuguesa propriamente dita. Não há desculpa nem justificação possível para coisas como "começei", por exemplo. Para esquecer.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Lido: A Morte de Ivan Ilitch
A Morte de Ivan Ilitch é uma novela de Lev Tolstoi que trata daquilo que o título indica: a morte de um tal Ivan Ilitch, juiz, membro da pequena e provinciana burguesia russa da época czarista, cuja vida é passada entre repartições e cargos, a procurar por todos os meios trepar a escada social, no mais profundo respeito por todas as convenções.
A história arranca com Ilitch já morto e a ser velado, rodeado por toda a hipocrisia de que ao longo da vida se foi cercando, e depois conta-nos os acontecimentos que o levaram até lá. O casamento feliz na aparência mas na verdade infernal, os jogos de favores que propiciaram a subida do protagonista na vida, a queda que lhe desarranja qualquer coisa no corpo na altura em que Ilitch prepara a sua nova casa na capital, que corresponde à sua chegada ao patamar mais elevado da carreira, e a doença que se desenrola a partir daí e que acaba por lhe causar a morte, etc. Ao leitor português, mostra um Ivan Ilitch com muito em comum com aquilo que pode ver todos os dias na televisão, entre as personagens mais ou menos sinistras que se movem pelos cargos, entre a política, a justiça e as empresas, públicas e privadas. E mostra-as sem contemplações.
Tolstoi nem tenta esconder o desprezo que sente por aquele tipo de gente. Por toda a urdidura de conveniências que as rodeia, pela falsidade de que são compostas as suas vidas, pelos pensamentos, sentimentos e ideias que os movem. Especialmente quando coloca o Ivan Ilitch moribundo a pôr tudo em causa, a fazer uma reavaliação radical da vida que viveu. Mas como Tolstoi não é um escritor de panfletos e sim de literatura, e um grande escritor, ainda por cima, o final do livro é suficientemente ambíguo para gerar as mais díspares interpretações. Mas inteiramente apropriado.
Gostei muito deste livro. O suficiente para o ler de fio a pavio numa única sessão, coisa que já não fazia com nenhum há muito, muito tempo. Claro que ser tão pequeno ajudou, mas a verdade é que já tenho levado semanas a conseguir chegar ao fim de novelas deste tamanho.
Muito recomendável.
A história arranca com Ilitch já morto e a ser velado, rodeado por toda a hipocrisia de que ao longo da vida se foi cercando, e depois conta-nos os acontecimentos que o levaram até lá. O casamento feliz na aparência mas na verdade infernal, os jogos de favores que propiciaram a subida do protagonista na vida, a queda que lhe desarranja qualquer coisa no corpo na altura em que Ilitch prepara a sua nova casa na capital, que corresponde à sua chegada ao patamar mais elevado da carreira, e a doença que se desenrola a partir daí e que acaba por lhe causar a morte, etc. Ao leitor português, mostra um Ivan Ilitch com muito em comum com aquilo que pode ver todos os dias na televisão, entre as personagens mais ou menos sinistras que se movem pelos cargos, entre a política, a justiça e as empresas, públicas e privadas. E mostra-as sem contemplações.
Tolstoi nem tenta esconder o desprezo que sente por aquele tipo de gente. Por toda a urdidura de conveniências que as rodeia, pela falsidade de que são compostas as suas vidas, pelos pensamentos, sentimentos e ideias que os movem. Especialmente quando coloca o Ivan Ilitch moribundo a pôr tudo em causa, a fazer uma reavaliação radical da vida que viveu. Mas como Tolstoi não é um escritor de panfletos e sim de literatura, e um grande escritor, ainda por cima, o final do livro é suficientemente ambíguo para gerar as mais díspares interpretações. Mas inteiramente apropriado.
Gostei muito deste livro. O suficiente para o ler de fio a pavio numa única sessão, coisa que já não fazia com nenhum há muito, muito tempo. Claro que ser tão pequeno ajudou, mas a verdade é que já tenho levado semanas a conseguir chegar ao fim de novelas deste tamanho.
Muito recomendável.
sábado, 21 de novembro de 2009
Lido: O Livro dos Guerrilheiros
O Livro dos Guerrilheiros é um pequeno livro do escritor angolano José Luandino Vieira, composto por um conjunto de narrativas focadas no lado angolano da guerra colonial, e que se segue a O Livro dos Rios numa trilogia dedicada ao tema, por agora ainda incompleta, intitulada De Rios Velhos e Guerrilheiros. Apresenta-nos a vivência da guerrilha, e o modo como esta via a tropa colonial portuguesa que a combatia. Curiosamente, tanto as populações autóctones de Angola como as populações de colonos estão muito pouco presentes nestas histórias, que nos mostram uma guerrilha muito fundida com o mato e frequentemente muito isolada. Essa foi uma das surpresas que o livro me causou, mais pela abordagem do escritor do que por uma questão de realidade factual, pois não há qualquer dúvida histórica de que as guerrilhas nacionalistas tinham fortes ligações com as populações. Que Luandino tenha escolhido mostrar-nos pouco essa faceta surpreendeu-me, ainda mais tendo em conta as suas conhecidas convicções políticas.
Mas o que mais se destaca neste livro é o uso dado à linguagem. Não é, muito longe disso, um livro de leitura fácil para o leitor português típico. A linguagem adquire por vezes um tom quase quinhentista, que remete para as epopeias narradas por um Fernão Mendes Pinto, e essa é a parte mais acessível. Pior é a profusão de termos em kimbundu que são totalmente desconhecidos a quem não tem vivência de Angola. É um choque. Um glossário ajuda a atenuá-lo, e há notas de rodapé quando surgem falas inteiras em kimbundu, mas mesmo assim é um choque. Para muita gente, pode ser um forte empecilho à leitura. Mas para quem se interessa pela língua que partilhamos é um choque com muito de saboroso, porque há como que a sensação de se estar a assistir ao nascimento de mais uma variante do português, a qual, entre vestígios de um português antigo caídos em desuso naquele que falamos hoje, e novas palavras e conceitos provenientes das línguas indígenas angolanas, se irá impor a breve trecho como mais uma fonte enriquecedora de cultura lusófona. Por mais que isso faça doer a xenofobia linguística de certos setores.
Para mim, este livro valeu a pena ser lido principalmente por isso. Comparadas com o uso dado à língua, as histórias da guerrilha acabaram por ser secundárias, embora seja sempre bom ter acesso ao outro lado. Sim, que a literatura portuguesa dedicada a África e às guerras coloniais se tem focado quase exclusivamente no lado português. Como é natural, aliás.
Mas o que mais se destaca neste livro é o uso dado à linguagem. Não é, muito longe disso, um livro de leitura fácil para o leitor português típico. A linguagem adquire por vezes um tom quase quinhentista, que remete para as epopeias narradas por um Fernão Mendes Pinto, e essa é a parte mais acessível. Pior é a profusão de termos em kimbundu que são totalmente desconhecidos a quem não tem vivência de Angola. É um choque. Um glossário ajuda a atenuá-lo, e há notas de rodapé quando surgem falas inteiras em kimbundu, mas mesmo assim é um choque. Para muita gente, pode ser um forte empecilho à leitura. Mas para quem se interessa pela língua que partilhamos é um choque com muito de saboroso, porque há como que a sensação de se estar a assistir ao nascimento de mais uma variante do português, a qual, entre vestígios de um português antigo caídos em desuso naquele que falamos hoje, e novas palavras e conceitos provenientes das línguas indígenas angolanas, se irá impor a breve trecho como mais uma fonte enriquecedora de cultura lusófona. Por mais que isso faça doer a xenofobia linguística de certos setores.
Para mim, este livro valeu a pena ser lido principalmente por isso. Comparadas com o uso dado à língua, as histórias da guerrilha acabaram por ser secundárias, embora seja sempre bom ter acesso ao outro lado. Sim, que a literatura portuguesa dedicada a África e às guerras coloniais se tem focado quase exclusivamente no lado português. Como é natural, aliás.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Lido: Ol' Fairies Bar
Ol' Fairies Bar, apesar do título, nada tem a ver com fadas e é uma história de língua castelhana. Trata-se de uma noveleta do chileno Luis Saavedra V. que parte de uma premissa semelhante à da série Heroes e de muitas histórias de banda desenhada (e dos filmes e outros artigos que destas brotaram): a emergência de seres humanos com capacidades extraordinárias, os meta-humanos, ou metas. Apesar do tema ser algo batido, o modo como Saavedra constrói a sua história — cada um dos quatro capítulos é composto por uma primeira parte "jornalística" que situa o leitor nos factos básicos do universo ficcional, uma segunda parte composta por um depoimento de um criminoso meta, e uma terceira narrada por um humano vulgar e alcoólico — e o tratamento que dá ao texto são francamente bons, transmitindo-nos uma imagem duma sociedade cujas contradições em nada foram realmente melhoradas com o surgimento dos metas e com aquilo que a sua presença impôs ao planeta. É uma história complexa e matizada, bem longe do simplismo tantas vezes presente na literatura fantástica, e com uma atmosfera francamente distópica. Pode desapontar quem gosta de ler histórias cheias de ação, porque de facto a maior parte da noveleta se circunscreve a uma conversa num bar, mas tenho a certeza de que quem preferir uma boa construção de ambientes ou a exploração psicológica das personagens a lerá com agrado. Eu, por minha parte, gostei bastante.
Quem quiser avaliar por si próprio, siga até aqui.
Quem quiser avaliar por si próprio, siga até aqui.
Lido: In Father Christmas's Court
In Father Christmas's Court, de Tavis Allison, é um conto de ficção científica razoavelmente hard, que se desenrola numa Terra que não se percebe muito bem se é pós-apocalíptica se é "apenas" ambientalmente devastada. A premissa da história é a existência de um robot enlouquecido e gigantesco, dotado de inteligência artificial e produzido num habitat orbital não se chega a perceber muito bem para que fins, que quando enlouquece escapa ao controlo dos seus criadores. Estes enviam técnicos para a Terra a fim de tentar retomar o controlo do robot, que entretanto estabeleceu uma espécie de tribo, consigo à cabeça, e exige ser tratado por Pai Natal.
É uma premissa curiosa, mas não gostei muito do modo como foi posta em prática. Senti falta, principalmente, de algum desenvolvimento de motivações, de perceber o que levou o orbital a fabricar o robot e a enviá-lo para a Terra, para começar, e como é que de repente a civilização humana de cariz tecnológico se desloca para órbita deixando o planeta entregue à bicharada e a luditas. Há qualquer coisa aqui que não me fez na cabeça aquele clique que diz que o cenário foi bem construído e é credível, permitindo que a descrença se suspenda eficazmente.
Mas apesar disto, é um conto razoável.
É uma premissa curiosa, mas não gostei muito do modo como foi posta em prática. Senti falta, principalmente, de algum desenvolvimento de motivações, de perceber o que levou o orbital a fabricar o robot e a enviá-lo para a Terra, para começar, e como é que de repente a civilização humana de cariz tecnológico se desloca para órbita deixando o planeta entregue à bicharada e a luditas. Há qualquer coisa aqui que não me fez na cabeça aquele clique que diz que o cenário foi bem construído e é credível, permitindo que a descrença se suspenda eficazmente.
Mas apesar disto, é um conto razoável.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Lido: A Sereia de Curitiba
As histórias de Rhys Hughes de que tenho vindo a falar aqui pertencem a este livro, A Sereia de Curitiba, uma coleção de cerca de dez contos interligados dividida em quatro partes. Sim, os contos são cerca de dez, pois, dependendo de como se olha para o livro, pode encontrar-se entre oito e doze. Alguns não são bem contos, ainda que o sejam, outros são contos dentro de contos (ou de notas, que talvez também possam ser vistas como contos de direito próprio), enfim, o que é conto ou deixa de ser é uma das convenções que o livro pretende pôr em cheque. E consegue.
Como terão percebido se leram o que fui dizendo sobre cada um dos contos, o tom geral é surrealista. Pessoalmente, gostei mais do resultado quando o foram menos, o que corresponde à primeira das quatro partes, cujos três contos seguem todos uma história de amor com a sereia de Curitiba que intitula todo o livro e são por ela enquadrados. Dessas histórias gostei muito. Das outras, nem tanto, porque foi frequente sentir que o autor estava a levar tão longe o absurdo, as ligações oníricas, os elementos de enredo que nascem de trocadilhos e elementos de linguagem, etc., que perdia demasiado o controlo sobre elas. E digo demasiado porque é evidente que nunca foi intenção de Hughes controlar estas histórias. Ou seja, conseguiu fazer precisamente aquilo que pretendia. Mas, para satisfação do meu gosto, um pouco mais de controlo teria sido desejável.
Além do surrealismo, há outras coisas presentes em todo o livro.
De braço dado com ele vem necessariamente o humor, mas desengane-se quem pense que é humor de gargalhada. Não é. É humor de sorriso razoavelmente contemplativo e muito mais intelectual do que emocional. Feito de ironia, muita, e algum sarcasmo.
E uma outra coisa de que o livro está cheio é: viagens. Viagens de todos os tipos e feitios. Ninguém para quieto um segundo que seja, e por cada chegada (invariavelmente a um sítio com algo de louco a dar-lhe um sabor especial) existe uma partida. Nisso, pelo menos, a obra é um espelho fiel do obreiro.
Avaliação geral? Gostei.
Como terão percebido se leram o que fui dizendo sobre cada um dos contos, o tom geral é surrealista. Pessoalmente, gostei mais do resultado quando o foram menos, o que corresponde à primeira das quatro partes, cujos três contos seguem todos uma história de amor com a sereia de Curitiba que intitula todo o livro e são por ela enquadrados. Dessas histórias gostei muito. Das outras, nem tanto, porque foi frequente sentir que o autor estava a levar tão longe o absurdo, as ligações oníricas, os elementos de enredo que nascem de trocadilhos e elementos de linguagem, etc., que perdia demasiado o controlo sobre elas. E digo demasiado porque é evidente que nunca foi intenção de Hughes controlar estas histórias. Ou seja, conseguiu fazer precisamente aquilo que pretendia. Mas, para satisfação do meu gosto, um pouco mais de controlo teria sido desejável.
Além do surrealismo, há outras coisas presentes em todo o livro.
De braço dado com ele vem necessariamente o humor, mas desengane-se quem pense que é humor de gargalhada. Não é. É humor de sorriso razoavelmente contemplativo e muito mais intelectual do que emocional. Feito de ironia, muita, e algum sarcasmo.
E uma outra coisa de que o livro está cheio é: viagens. Viagens de todos os tipos e feitios. Ninguém para quieto um segundo que seja, e por cada chegada (invariavelmente a um sítio com algo de louco a dar-lhe um sabor especial) existe uma partida. Nisso, pelo menos, a obra é um espelho fiel do obreiro.
Avaliação geral? Gostei.
Lido: A Gala das Canções Implausíveis
A Gala das Canções Implausíveis é mais um conto surrealista de Rhys Hughes, que tem a originalidade de vir decorado com ilustrações a propósito, num estilo que me fez lembrar as colagens dos Monty Python. Ao contrário de algumas das outras histórias deste livro, aqui a imaginação delirante do autor está orientada por um fio condutor, o que me levou imediatamente a gostar mais desta. Volta a haver viagens com fartura, mas todas têm como objetivo levar o protagonista, músico, a festivais de música particularmente bizarros. A completar o ramalhete, há uma série de trocadilhos (Phil Espectro, tradução, imagino, de Phil Spectre, trocadilho com Phil Spector) e referências musicais (uma carta dirigida a Roger Waters por um fã desapontado), e referências quer a outros contos do livro, quer a amigos que Hughes fez nas suas viagens por Portugal. Ah, sim, e uma pequena história dentro da história, à moda das Mil e Uma Noites. Intitula-se O Rei do Castelo de Cartão.
Gostei. Desta última história, tratada como se de um epílogo se tratasse (e de certa maneira até é) voltei a gostar quase tanto como das primeiras do livro. E por falar em livro, passemos ao próximo post...
Gostei. Desta última história, tratada como se de um epílogo se tratasse (e de certa maneira até é) voltei a gostar quase tanto como das primeiras do livro. E por falar em livro, passemos ao próximo post...
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Lido: Às Vezes a Manhã Ajuda
Às Vezes a Manhã Ajuda é uma pequena crónica de José Saramago que conta uma história muito humana sobre dois homens que se encontram num comboio e são unidos, durante um instante que como que roubam à cidade, por um pouco de música, de canto, que um trauteia sem que se chegue a saber porquê e o outro escuta. Literatura, e da boa, meus caros dois ou três leitores. Literatura, e da boa. Às vezes é necessário o constrangimento de se ter só x caracteres a antregar no jornal para levar à depuração da literatura. Quer-me parecer que esta história só pioraria se tivesse outro qualquer tamanho.
Lido: Os Músicos
Ainda de Ray Bradbury, mas de um Bradbury muito mais novo, Os Músicos (bib.) é um conto muito curto sobre um bando de rapazes, humanos, que têm como divertimento percorrer uma das cidades mortas e abandonadas de Marte, explorando-a mas, mais do que isso, explorando as ruínas feitas de ossos e películas pretas dos marcianos que nelas habitaram. Ao contrário do anterior, é um conto de ficção científica e, ao contrário do anterior, é um conto brilhante. Brilhante pelo modo como apresenta a crueldade irracional dum certo tipo de adolescente e pré-adolescente, o seu desrespeito pelos últimos vestígios não só duma cidade, mas duma civilização inteira e o modo como se deixam prender a um fascínio destruidor pelo macabro. E também brilhante pela forma magistral como está escrito.
É demasiado curto para ser um conto realmente marcante, e no livro funciona como mais uma transição entre histórias maiores. Mas nada disso lhe tira seja o que for. É muito, muito bom.
É demasiado curto para ser um conto realmente marcante, e no livro funciona como mais uma transição entre histórias maiores. Mas nada disso lhe tira seja o que for. É muito, muito bom.
Lido: Virgo Resuscitas
Virgo Resuscitas (bib.) é mais um dos pequenos contos de Ray Bradbury que nada têm de fantástico. Neste caso, trata-se de uma discussão entre um homem e a sua amante que só não é inteiramente mundana, banal e desinteressante por causa da forma que a amante arranja para pôr a relação em cheque: a religião. A ironia que as interligações entre amante, relação e religião encerram é o que mantém este conto de pé, desvendando as origens profundas de algumas escolhas que as pessoas fazem nesse campo. Sem ela, desmoronar-se-ia num desinteresse total, e nem a habitual qualidade da prosa de Bradbury seria capaz de o salvar da mais absoluta mediania. Mesmo assim, está muito, muito longe das obras-primas do autor.
domingo, 8 de novembro de 2009
Lido: Aventuras
Aventuras, do polaco Witold Gombrowicz, é um conto surrealista sobre, lá está, as aventuras mirabolantes do narrador, que anda o conto todo em bolandas sujeito aos caprichos de um tal "Negro", capitão de navio carregadinho de má índole. Começa por resgatar o narrador às águas do Mediterâneo, para dentro do qual caíra de um navio com destino ao Cairo, para imediatamente o aprisionar e atirar ao Atltântico dentro de um balão de vidro. O narrador consegue ter a sorte de escapar ao balão de vidro, só para ser recapturado pelo Negro e ser atirado ao mar dentro de uma bola de aço, ou talvez um cone, desta feita no ponto mais profundo do Pacífico. Também deste triste fim o narrador se salva, apenas para embarcar em nova aventura da mesma índole, e noutra, e noutra a seguir, cada uma mais estapafúrdia do que a anterior, desenrolando-se cada uma numa paragem mais exótica do que a que lhe antecede. O conto termina com o narrador a dar cabo, sozinho, das trincheiras alemãs da Primeira Guerra Mundial.
Para apreciar este conto há que não o levar a sério. Mas mesmo assim, ele corre um certo risco de aborrecer o seu leitor, porque depois das primeiras peripécias já se está mais ou menos à espera do que aí vem, e o conto é algo longo, ainda que acabem por acontecer algumas reviravoltas mais ou menos inesperadas. Foi, confesso, o que aconteceu comigo. Se o conto fosse mais curto, teria gostado, mas sendo longo como é, não gostei lá muito. Sim, é divertido, mas às tantas dei por mim a pensar: "OK, já me ri. Mas é só isto? Não se sai desta inconsequência?"
E não sai mesmo.
Para apreciar este conto há que não o levar a sério. Mas mesmo assim, ele corre um certo risco de aborrecer o seu leitor, porque depois das primeiras peripécias já se está mais ou menos à espera do que aí vem, e o conto é algo longo, ainda que acabem por acontecer algumas reviravoltas mais ou menos inesperadas. Foi, confesso, o que aconteceu comigo. Se o conto fosse mais curto, teria gostado, mas sendo longo como é, não gostei lá muito. Sim, é divertido, mas às tantas dei por mim a pensar: "OK, já me ri. Mas é só isto? Não se sai desta inconsequência?"
E não sai mesmo.
sábado, 7 de novembro de 2009
Lido: A Casa da Esfinge
A Casa da Esfinge é um conto bastante curto (2 páginas) de Lorde Dunsany que nos mostra, precisamente, uma visita a uma casa onde mora uma Esfinge, no meio duma floresta. O ponto mais interessante desta história será talvez o facto de não nos mostrar a esfinge como o monstro mitológico guardião de templos ou de cidades, capaz de impedir a entrada a indesejáveis, ou o atrator de má sorte de outras histórias, mas como um ser acossado, preocupado com a aproximação duma qualquer coisa terrível vinda da floresta. O conto diz o que é, mas eu não vou dizer; digo apenas que quando essa explicação surge, a história ganha uma nova condição de ironia de que até aí não se suspeitaria.
O conto talvez seja curto demais para gerar grande impacto, mas é sem dúvida interessante.
O conto talvez seja curto demais para gerar grande impacto, mas é sem dúvida interessante.
Lido: Cepas
Cepas, de Juan Pablo Noroña, é uma noveleta de ficção científica hard ambientada num habitat espacial, constituído por um misto de tecnologia "convencional" e biotecnologia. Esta última consiste numa espécie de planta, que pode pertencer a qualquer uma de várias linhagens diferentes. A premissa da história tem a ver com o surgimento duma doença numa dessas linhagens, e a investigação subsequente.
Um dos problemas de que a ficção científica de origem não anglófona sofre é a dificuldade que causa, a nível da própria linguagem, a quem a está a ler. É que se estamos todos mais ou menos acostumados ao estilo que os neologismos ingleses tomam, a ponto de os entendermos às vezes melhor do que os que surgem na nossa própria língua, quando saimos do âmbito anglófono e temos de lidar com os neologismos de outra língua as coisas já não correm tão bem. É que mesmo quando essa língua nos é familiar (e eu tenho-me na conta, talvez benévola, de um falante bastante razoável de castelhano), os seus neologismos de FC recorrem muitas vezes a significados mais obscuros das palavras e, para piorar as coisas, intersetam-se com os anglófonos de formas que nem sempre são óbvias a quem os olha de fora.
Já perceberam certamente que é o que se passa aqui. Os neologismos típicos da FC prejudicaram bastante a minha leitura de Cepas, conjugados com uma oralidade (o conto é composto em grande medida por diálogos) que nem sempre é compreensível por inteiro. De modo que o terminei sem saber bem o que pensar, embora me pareça que se dispersa desnecessariamente por detalhes algo desinteressantes sobre relações interpessoais, sem que com isso consiga construir personagens complexas, perdendo um pouco de vista o fio condutor da história.
Quem quiser avaliar por si próprio pode encontrá-lo aqui.
Um dos problemas de que a ficção científica de origem não anglófona sofre é a dificuldade que causa, a nível da própria linguagem, a quem a está a ler. É que se estamos todos mais ou menos acostumados ao estilo que os neologismos ingleses tomam, a ponto de os entendermos às vezes melhor do que os que surgem na nossa própria língua, quando saimos do âmbito anglófono e temos de lidar com os neologismos de outra língua as coisas já não correm tão bem. É que mesmo quando essa língua nos é familiar (e eu tenho-me na conta, talvez benévola, de um falante bastante razoável de castelhano), os seus neologismos de FC recorrem muitas vezes a significados mais obscuros das palavras e, para piorar as coisas, intersetam-se com os anglófonos de formas que nem sempre são óbvias a quem os olha de fora.
Já perceberam certamente que é o que se passa aqui. Os neologismos típicos da FC prejudicaram bastante a minha leitura de Cepas, conjugados com uma oralidade (o conto é composto em grande medida por diálogos) que nem sempre é compreensível por inteiro. De modo que o terminei sem saber bem o que pensar, embora me pareça que se dispersa desnecessariamente por detalhes algo desinteressantes sobre relações interpessoais, sem que com isso consiga construir personagens complexas, perdendo um pouco de vista o fio condutor da história.
Quem quiser avaliar por si próprio pode encontrá-lo aqui.
domingo, 1 de novembro de 2009
Lido: Eight Things not to Say When you Meet the Devil in Hell
Bruce Boston, o "poeta oficial" da FC americana, tem vários textos deste género: com grande humor, junta uma série de frases embaraçosas se forem ditas em circunstâncias de FC ou de fantasia, e com elas compõe uma espécie de poema. Enquanto poemas, estes textos são francamente duvidosos, mas conseguem muitas vezes ser muito divertidos. Eight Things not to Say When you Meet the Devil in Hell não chega propriamente ao "muito", fica-se pelo divertido. O que já não é mau.
Lido: Notas
Hã? Notas? Notas são mesmo o que parece? Notas?
Bem, sim. E não. Daí vir aqui falar deste conjunto de textos. As Notas são, de facto, notas que Rhys Hughes faz sobre as outras histórias do livro em que se inserem, mas são também um objeto (meta)literário em si mesmas, quer pela sua posição no livro (não estão propriamente no fim), quer por contribuírem para toda a sua irreverência. Uma das notas, por exemplo, começa assim: "Não existem notas para esta história, mas vou tentar pensar rapidamente em alguma coisa. Não, não serve. Não consigo. Porque não escrevem a vossa própria nota, se não têm nada de melhor para fazer?"
Outra razão para vir aqui falar das Notas é elas incluirem uma história intitulada Os Sinos Imersos cuja presença é explicada, numa Nota às Notas, por não ser suficientemente boa para ser incluída no livro, mas não tão pobre que fosse excluída.
E é verdade.
Bem, sim. E não. Daí vir aqui falar deste conjunto de textos. As Notas são, de facto, notas que Rhys Hughes faz sobre as outras histórias do livro em que se inserem, mas são também um objeto (meta)literário em si mesmas, quer pela sua posição no livro (não estão propriamente no fim), quer por contribuírem para toda a sua irreverência. Uma das notas, por exemplo, começa assim: "Não existem notas para esta história, mas vou tentar pensar rapidamente em alguma coisa. Não, não serve. Não consigo. Porque não escrevem a vossa própria nota, se não têm nada de melhor para fazer?"
Outra razão para vir aqui falar das Notas é elas incluirem uma história intitulada Os Sinos Imersos cuja presença é explicada, numa Nota às Notas, por não ser suficientemente boa para ser incluída no livro, mas não tão pobre que fosse excluída.
E é verdade.
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