sexta-feira, 7 de novembro de 2003

Spamesia (184)

Acharam que segunda houve pouco spam? Eu também. Mas querem saber? Ficou todo para terça. Ah, pois! Não é por acaso que se recebem assim de repente 93 spams num só dia, mesmo com filtros a deitar automaticamente fora mais uns quantos. Claro, há a tal parte boa: uma série de títulos interessantes. Desta vez escolhi um "botch":

Remendo

O remendo vagueava pela noite
calcorreando as ruas sujas e nuas
por vezes correndo
outras parando a descansar
preso de algum arame
ondulando devagar na aragem

O remendo esvoaçava pela noite
estremecendo a cada latido
a cada rosnadela
a cada ruído de garras batendo no asfalto

O remendo arrastava-se na noite
deixando-se ensopar
pela água enlameada das sargetas

O remendo era tecido de saudade e solidão

Já a madrugada ia assomando a oriente
quando o remendo foi apanhado de repente
por um velho farrapo, esfarrapado
que o perseguiu por alguns metros
e depois, esbaforido, bafejou-o
com o seu bafo bafiento a coisa podre
Apanhou-o, mirou-o, revirou-o
e decidiu tentar mudá-lo em farrapo

O remendo resistiu
e desfiou um longo rol de argumentos
que era remendo e não farrapo
que esfarrapado deixaria de ser remendo
que a pobreza não justificava a traição
à íntima natureza de cada um

O farrapo ouviu com paciência
e quando o remendo se calou, limitou-se a notar
que o remendo, de tanto desfiar
se tinha transformado num farrapo

E foi assim que naquele bocado de alcatrão
um velho bocado de pano
ganhou uma nova alma
e um farrapo de companhia

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