segunda-feira, 31 de julho de 2006

O homem com consciência

O homem com consciência é um ser curioso. Não é só por não funcionar bem numa sociedade em que ter-se consciência é um empecilho, em que a consciência é um peso morto que tem de arrastar atrás de si, suando de esforço, enquanto à sua volta os homens sem consciência saltitam ágeis e contentes pela vida. Não é só por hesitar em agarrar oportunidades que lhe parecem dúbias e virar as costas a outras que são declaradamente contrárias à sua consciência, mesmo que sejam óptimas, mesmo que sejam magníficas, mesmo que a alternativa seja a pobreza, o definhar aos poucos na mediocridade dos derrotados, e apenas pelo único motivo de possuir uma consciência. Não. Não é só por isso. É porque o homem com consciência julga que se conhece bem mas mesmo assim se surpreende, de vez em quando, com consequências de ser dono de uma consciência que não esperava.

Antes de mais, entendamo-nos: o homem com consciência não é perfeito. É capaz de tudo aquilo de que todos os homens sem consciência são capazes. É capaz de traições, enganos, de violência e abusos, de desleixo, de incumprimentos. De tudo. A diferença é que a consciência está lá, como uma espécie de saco onde são guardados os cadáveres ressequidos de todos os erros e falhas, de tudo aquilo que a consciência determina que deve passar a fazer peso, mais um pouco de peso, na vida do homem com consciência.

O homem com consciência sabe disto e aceita-o como uma inevitabilidade. Já aprendeu que não vale a pena tentar que as coisas sejam de outra maneira, que as tentativas geralmente não resultam em mais do que novos erros e falhas a acrescentar ao saco dos erros e falhas. A surpresa, portanto, não é essa.

A surpresa é que quando a consciência dita que não se cumpre o que se deve cumprir não permite que se faça mais nada. Que quando não se trabalha os prazeres saibam a palha seca e fiquem também abandonados, à espera de melhores dias. Mesmo que o incumprimento não seja voluntário, mesmo que tampouco seja definitivo, que haja tempo para recuperar o tempo perdido. Mesmo assim. O que se faz por gosto fica por fazer. O correio electrónico acumula-se por abrir em pilhas de centenas de mensagens. Os passeios ficam por dar. Os telefonemas ficam por fazer. E o homem com consciência deixa de viver e apenas vegeta à espera que a tempestade passe.

A surpresa é essa, embora tenha sido assim toda a sua vida, embora tudo isto seja óbvio para qualquer um com algum, mínimo que seja, talento para o reconhecimento de padrões. Sempre foi assim. Tudo o que ficou por fazer na vida do homem com consciência ficou-o porque o que era mais importante ficou também por fazer. O mais importante, é bom notar, não para ele, mas sim para a sua consciência. Aquilo que ela decide, com os misteriosos critérios que lhe pertencem, que é mais relevante. Quem domina aquela relação desigual é ela, não ele. A consciência é rainha. O homem com consciência é apenas um joguete, um fantoche, um títere nas suas mãos de fantasma. No fundo, uma irrelevância.

O que os salva a ambos, o que os reconcilia, são os dias em que o que a consciência dita que se faça se cumpre. Nesses dias, o homem com consciência é livre e faz muito mais coisas do que aquelas que tem de fazer. A produtividade sobe em flecha. É como se o tempo de repente se dilatasse e cada hora passasse a valer duas, ou três, ou até mais. Como se se abrissem reservatórios de tempo até aí escondidos na malha do universo.

Nesses dias, o homem com consciência é feliz. Ou, pelo menos, faz a sua mais próxima aproximação à felicidade.

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