sábado, 21 de fevereiro de 2009

Semana

Eis-nos no fim de mais uma semana, a primeira com um certo cheirinho a primavera. Já há luz lá fora, já os dias se esticam. Até já andei na rua de manga curta, sem sofrer com isso espirros ou arrepios.

Mas a maior parte do tempo é passada aqui, com este livro que tenho em frente aberto na minha frente, a tratar de transformar páginas bem escritas em inglês em páginas o mais bem escritas possível em português. A semana terminou com 231 páginas em falta, o que quer dizer que ao longo dela se traduziram 44. Só. Pouco, muito pouco, graças a dois dias em que não me deixaram dormir e estive, na prática, com o cérebro desligado.

Há vizinhos que deviam ser mergulhados em alcatrão e penas e corridos da cidade à pedrada.

Outra parte do tempo é passada às voltas com o wiki, que está neste momento com 15 604 páginas, o que significa 86 novidades relativamente a uma semana atrás. Foram vários autores, vários romances e uma antologia e respectivo conteúdo, basicamente.

Outra parte do tempo é passada a ler. Ler, que é ao mesmo tempo prazer e trabalho, porque para um tradutor ler na sua língua é fundamental para a manter oleada e livre de impurezas, para evitar que nela se vão insinuando aos poucos expressões e modos de dizer característicos da língua de origem.

Não que tenha lido muitas coisas. Mas ainda li Cidade Verde, Algures em Marte; Marte Algures no Egipto, uma introdução que Bradbury escreveu muitos anos depois das Crónicas Marcianas, e que é uma leitura interessantíssima por mostrar o modo como o autor concilia para si próprio o seu Marte imaginário com o Marte muito diferente que nos é revelado pela ciência. Pode não se concordar com algumas das afirmações que ele ali faz, e eu não concordo, mas achar-se na mesma este pequeno texto fascinante.

Ainda li O Alpendre, de Herman Melville, um conto que me parece cumprir à risca os preceitos do fantástico todoroviano, por deixar o leitor na dúvida sobre a realidade daquilo que lhe é contado. Um grande aplauso à tradução é inevitável, embora não tenha gostado particularmente do conto em si.

Ainda li Junk DNA, de Rudy Rucker e Bruce Sterling, uma noveleta de ficção científica sobre as peripécias que rodeiam a descoberta de uma forma de expressar o ADN lixo, isto é, aquelas porções do nosso código genético que separam (e unem) os genes e aparentemente estão desprovidas de informação útil. Também não gostei lá muito: a maior parte do texto é dedicado às peripécias que rodeiam a criação e manutenção de uma empresa de tecnologia de ponta criada para explorar essa descoberta, que espelham rigorosamente o ambiente das dot-coms no início do século XXI, um ambiente que de FC nada tem, apesar de apimentado por quantidade apreciável de termos em jargão de geneticista, e o final pareceu-me forçado e algo disparatado.

E li Casa Dividida, um conto inclassificável de Ray Bradbury, que conta um momento de passagem num grupo de jovens amigos que se costumam juntar para contar uns aos outros histórias de terror. Mas a noite que o conto descreve é uma noite especial, por marcar a iniciação sexual de um desses jovens ao mesmo tempo que acontece uma morte na família. Historia belissimamente bem construída, plena de subtileza, e francamente perturbadora.

E foi só isso. Espero que a semana que agora começa seja (bastante) mais produtiva. Para já, tenho aqui quatro páginas que sobraram de ontem.

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