segunda-feira, 15 de março de 2010

Lido: A Ignorância

A Ignorância é um romance de Milan Kundera sobre, entre outras coisas, a experiência do desenraizamento, em especial aquele provocado pela imigração. Os fios condutores do romance, bastante ténues, diga-se de passagem, são as duas personagens principais e a forma como cada uma encara o regresso à República Checa natal décadas depois de de lá terem saído, anos depois da transformação do país em mais uma pequena economia capitalista. À volta delas, Kundera tece uma teia de encontros e desencontros, entendimentos e incompreensões, intercaladas de digressões mais ou menos filosóficas sobre isto e aquilo e aqueloutro.

Tendo passado alguns anos fora do meu país, consigo compreender o que Kundera pretende aqui dizer. A experiência de desenraizamento, de se ser um estranho numa terra estranha e, pior um pouco, um estranho na própria terra quando a ela se regressa (até ao ponto de se sentir que já não se tem uma terra, propriamente) não me é alheia. Houve, portanto, alguma identificação pessoal com o livro, e julgo que qualquer pessoa que tenha passado pela mesma experiência também a sentirá.

Mas foi só isso que obtive dele. E isso é muito pouco.

Em termos puramente literários, não achei que o romance fosse mau. É um livro que apesar da profusão de apartes e rodeios acaba por ser bastante contido. Kundera nunca perde o controlo da história que quer contar, o que certamente aconteceria com um escritor medíocre que pusesse, desta forma, mãos a esta obra. A escrita não se perde em lirismos tolos e é eficaz. Ou seja, analisando as coisas friamente, o livro é bem capaz de ser bom.

Mas causou-me um alheamento que só não foi total por causa da pequena identificação pessoal de que falei acima.

Tirando isso, nada ressoou cá dentro. Absolutamente nada. O umbiguismo das personagens e da própria escrita, o olhar permanentemente apontado para dentro, tão comum num certo mainstream moderno, e de que parte do público leitor tanto gosta, entediaram-me soberanamente. As digressões "filosóficas" pareceram-me banais e desprovidas de imaginação e até, aqui e ali, de reais conhecimentos. As personagens, gente chata e sem qualquer interesse. Sim, achei o livro chatíssimo. Quase insuportavelmente chato. Nem o conservadorismo típico de Kundera conseguiu irritar-me, arrancar-me ao bocejo. Uma perfeita seca.

Mas não posso dizer que não recomendo este livro. Quem gosta de escrita umbiguista é provável que goste dele. Quem viveu ou continua a viver parte da vida longe da sua terra também. Mas sem garantias.

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