domingo, 22 de dezembro de 2013

Lido: A Irmandade

A Irmandade (bibliografia), de Carlos Patati, é um conto algo inclassificável sobre uma irmandade informal de pessoas unidas por duas coisas: ouvem vozes, que não se chega nunca a perceber bem se fantasmagóricas se oriundas de algum bizarro fenómeno de sobreposição de realidades, e possuem umas tatuagens peculiares, que surgem ligadas a um medalhão. É tudo muito vago.

Essa falta de clareza é, aliás e a meu ver, o ponto mais interessante do conto. Julgo que só funciona porque este está bastante bem escrito (pesem embora algumas gralhas) e tem uma estrutura episódica, de coleção de depoimentos em primeira pessoa. Porque nenhuma daquelas pessoas parece saber bem o que lhe está a acontecer, todas lidam com o fenómeno de uma forma ligeiramente diferente, e portanto nós, os leitores, também ficamos sem perceber bem o que se passa. Funciona. Acaba-se a leitura desejando saber mais, sim, mas com a consciência de que, da forma que Patati escolheu para elaborar a história, provavelmente não haverá mais a saber.

Por outro lado, seria bom que Patati tivesse individualizado melhor as vozes de cada uma das suas personagens. Não as que elas têm nas cabeças, mas as delas, as que nos contam as histórias. Sim, a individualidade e a personalidade de cada uma transparecem no modo como reagem às tatuagens e ao que estas trazem consigo, mas o impacto seria maior se também transparecesse no modo como falam, escrevem ou pensam, nas palavras que usam para nos contar o que se está a passar com elas. Um pouco à semelhança com o que acontece com O Pico de Hubert, de Telmo Marçal.

Mas isso não é suficiente para fazer com que este não seja um bom conto. É, ainda que me pareça que não será conto capaz de agradar à generalidade da massa leitora. Talvez seja um pouco elaborado em demasia (ou experimental em demasia) para isso.

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