quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Lido: Anúncios

Os almanaques de antanho incluíam sempre anúncios às coisas mais variadas. Daí que, quando o Clockwork Portugal decidiu criar um almanaque steampunk, elaborado à imagem e semelhança dos almanaques da viragem do século XIX para o XX, uma secção de anúncios não pudesse faltar, graficamente moldada à época dos almanaques originais e devidamente adaptada à temática steampunk.

Os anúncios dividem-se em dois grupos. Um logo a abrir, o outro a fechar.

Os do primeiro desses grupos são praticamente microcontos, quase sempre mais pelo que sugerem do que pelo que dizem, o que, de resto, é apanágio de quase todas as ficções ultracurtas. Anunciam-se coisas como uma Oneirocâmara (Sofia Romualdo), que promete fotografar sonhos; Termas Vaporosas (João Ventura), que garantem beneficiar a saúde com vapores sulfúreo-radioativos; Armas (Manuel Alves), que será talvez um pouco terra-a-terra em demasia para a publicação a que se destina, pois só publicita um revólver sem nada de especial, Engraxadora a Vapor Brilhantíssima (Carlos Silva), utilíssima maquineta para o cavalheiro bem calçado; uma Poção Hércules (Manuel Alves), que sofre do mesmo padecimento das armas, pois é anúncio que poderia ser encontrado em qualquer almanaque verdadeiro; Abelhas Mecânicas (Sofia Romualdo), autómatos polinizadores de primeira qualidade; Beba Elixir Milagroso Dr. António Medeia (Carlos Silva), banha da cobra da melhor para curar doenças steampunk; O Petrol Cyclo (Anton Stark), brilhante invenção automóvel que é anunciada na orthographia pré-1911, o que acaba por se tornar incongruente com o restante texto, e por fim um verdadeiro conto sob capa de anúncio, intitulado Cuide dos Seus Males com... TAURUM MÁGICO (Pedro Ferreira), sobre uma magnífica invenção "com capacidade de reestruturar os compostos magnéticos do cérebro".

São sobretudo textinhos divertidos, que sugerem — quase todos — ambientes e histórias sem chegarem propriamente a contá-las. Todos poderiam servir de eixo para ficções mais desenvolvidas, ainda que, bem entendido, nem todos em grau igual. Para isso, as ideias com menor potencial são naturalmente as menos fantasiosas, as duas do Manuel Alves, ao passo que as que o têm maior são a da oneirocâmara, a das abelhas mecânicas e a do taurum mágico. Nada de transcendente, mas engraçado.

O segundo grupo mantém o mesmo ambiente gráfico e publicitário, mas publicita coisas do mundo real, supõe-se que aquelas que contribuíram para a concretização do projeto, de editoras a criadores de roupa e acessórios steampunk, passando por revistas, fanzines, eventos, etc. Ao contrário do primeiro grupo, aqui não há literatura e há muito pouca diversão — e a que existe é sobretudo gráfica; há apenas publicidade.

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