sábado, 2 de janeiro de 2010

Lido: Conduzindo às Cegas

O último post fala do último conto deste livro, que é, assim, o primeiro livro cuja leitura foi concluída nesta década. E, como marco, podia ser bastante melhor.

Conduzindo às Cegas (bib.), coletânea de 21 contos e, principalmente, contos curtos, de Ray Bradbury, é um livro de velho. Bradbury mostra-se nele uma sombra do que foi, revisitando territórios já percorridos décadas antes, por vezes sem chama, outras com ela reduzida a um pálido reflexo daquilo que o transformou num dos monstros sagrados da literatura fantástica americana. Os contos são frequentemente melancólicos e reflexivos, e o autor olha através deles muito mais para trás do que para o futuro. Bradbury sempre olhou para trás, para os tempos da sua infância, mas normalmente compensava essa nostalgia com brilhantes fábulas sobre futuros possíveis ou apenas sonhados. Aqui, o futuro quase não existe, e quase todo o livro é uma espécie de janela para um mundo moribundo. O seu.

Não quero com isto dizer que não há alguns bons contos, que há. Mas nenhum tem a força de outros tempos, nenhum é genial, como o Bradbury de décadas atrás sabia ser. Bradbury foi um grande escritor, e por isso, mesmo na decadência, ainda consegue por vezes uma qualidade que escritores medíocres só alcançam no seu auge, e como que por acidente. Mas só por vezes. Doutras vezes, cai numa mediania e irrelevância que não lhe fazem justiça. Também por isso, ler este livro se torna algo melancólico.

O tempo não poupa ninguém.

Em termos de géneros, o livro é mais mainstream do que qualquer outra coisa, apesar de vir publicado na coleção Argonauta. Há alguns contos fantásticos, é certo, noutros o fantástico surge sugerido duma forma mais atmosférica apesar de não estar realmente presente, mas a maioria são contos realistas. O que me leva a perguntar a mim próprio se alguns editores lêem mesmo os livros que publicam. A verdade é que há pouca justificação para publicar este livro na Argonauta; será talvez, entre todos os livros da coleção, aquele que menos tem a ver com ficção científica. Não será mau, tanto para a coleção como para o próprio autor, colar tudo o que escreve a um género? No caso de Bradbury, parece-me que essa etiquetagem e todos os preconceitos que com ela vêm (de parte a parte) foi muitíssimo perniciosa, e este livro é um claro exemplo disso. Julgo que teria uma aceitação muito maior junto do público mainstream do que do de FC.

Mas o que está feito, feito está.

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