sexta-feira, 30 de abril de 2010

Lido: À Espera do Ano Passado

À Espera do Ano Passado (bib.) é um romance de Philip K. Dick que, não sendo dos melhores, é profundamente dickiano. Ficção científica com uns fortes toques de outras coisas, descreve um mundo futuro em que a humanidade terrestre se encontra sujeita a uma ditadura liderada pelo secretário-geral das Nações Unidas (paranoia esta que, aliás, está bem presente ainda hoje nas franjas mais direitistas da política americana), um homem profundamente neurótico e hipocondríaco a um grau quase fatal, e trava uma guerra interestelar contra uma espécie de alienígenas insectoides, os "rigues", tendo como aliada uma humanidade não-terrestre, os "'starmen" (Dick explica este segundo ramo da humanidade duma forma algo dainekeniana, mas não aprofunda essa explicação... felizmente). O protagonista é um médico, especialista em transplantes de órgãos artificiais, que a páginas tantas é chamado pelo ditador para se tornar seu médico pessoal e tentar curá-lo das múltiplas mazelas que o afligem. A este pano de fundo acrescenta-se uma droga experimental, desenvolvida como arma, que tem propriedades peculiares: vicia irrevogavelmente à primeira toma, destrói o utilizador em poucos meses... e permite viajar no tempo e para universos paralelos.

Com estes ingredientes básicos, Dick constroi uma trama sempre em convulsão, na qual nada é exatamente o que parece, nada é fiável. Nem as pessoas, nem a própria estrutura do Universo. Uma história muito típica do autor, portanto. Profundamente paranoica, sempre a pôr em causa a solidez da realidade. Os nossos aliados são na realidade os nossos piores inimigos... e daí talvez não. O mundo de todos os dias está sempre aí para fornecer uma continuidade à nossa existência... mas se calhar não está. O passado é o passado e o futuro o futuro... a menos que não sejam, a menos que se misturem e seja possível viajar por eles à vontade, bastando para tal apanhar uma valente moca.

Dick é grande porque consegue fazer isto sem parecer deixar pontas soltas pelo caminho. Ao longo deste romance, como de muitos dos outros romances do autor, o leitor é forçado a reajustar uma e outra vez a sua noção sobre aquilo que se está a passar, porquê e como, duma forma que parece quase sempre fazer sentido à sua maneira retorcida. E, se se deixar envolver o suficiente, no fim pode dar por si contaminado com a desconfiança que o autor genuinamente sentia pela realidade da realidade. É por isso que ele é muito melhor quando escreve romances do que quando escreve contos, e é isso que faz dele um autor de culto, celebrado como um dos gigantes da FC americana de meados do século XX, dotado com um tipo de imaginação que se adapta particularmente bem às características próprias da linguagem cinematográfica — razão pela qual as adaptações de Dick, mesmo quando não são particularmente fiéis às suas histórias, são-no quase sempre ao espírito dessas histórias. É uma questão de presença. Ele está, inteiro, nas suas histórias.

Com uma presença tão forte, a qualidade do texto acaba por se tornar secundária, e o mesmo acontece a fragilidades de outra índole. De facto, o texto deste romance não é grande coisa (e sofre com uma tradução que apesar de acabar bem começa fraquinha — uma revisão que a descolasse melhor do inglês e matasse falsos amigos não teria sido nada má ideia — e piora com a insuportável floresta de notas de rodapé que o tradutor decide semear pelo romance fora, embora essencialmente no início; quase 50!). E de facto seria possível pegar com detalhes que revelam a completa falta de noção do autor sobre as distâncias envolvidas nas viagens espaciais, que neste livro são tratadas como se não passassem de viagens de meia dúzia de quilómetros, uma idazinha ali aos arredores e pouco mais. Mas a presença compensa. De modo que mesmo quando se é sensível a este tipo de detalhes, como eu sou, tende-se a empurrá-los para o lado dizendo-lhes para não chatearem. E mesmo que eles tornem impossível achar-se o livro excelente, ou até muito bom, não se consegue evitar achá-lo bom.

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