sexta-feira, 16 de julho de 2010

Lido: A Lei da Vida

A Lei da Vida, de Jack London, é um conto sobre um velho índio que é abandonado pela tribo para morrer, como era tradição entre certos povos ameríndios. O conto acompanha os pensamentos do velho, aparentemente cego, dependente dos ouvidos para tirar sentido do mundo que o rodeia, que passa em revista alguns episódios da sua longa vida antes de enfrentar o seu fim. É um conto muito interessante, que faz lembrar, pelo ambiente e envolvência, a história de London que toda a gente conhece, O Apelo da Selva. O que não percebo é o que faz neste livro. Afinal, trata-se de um conto escolhido para integrar um livro que se destinava desde o início a uma "coleção de literatura fantástica dirigida por Jorge Luis Borges", e não vi nele nada de fantástico. É um conto muito bom, sem dúvida, mas fantástico? Nem na mais todoroviana aceção do termo. O único ponto onde poderá, eventualmente, pairar em certos espíritos a dúvida sobre a realidade ou fantasia dos acontecimentos é o desfecho, mas a mim parece absolutamente claro não só que os acontecimentos são reais, como que o autor, ao escrever o conto, nunca pretendeu levantar aí qualquer dúvida. É a lei da vida que ele descreve. A lei natural, que leva os velhos indivíduos a morrer para dar lugar aos jovens, e os débeis a servir de alimento aos fortes. Tudo para que as espécies sobrevivam. Tudo isto é até explicado por Jack London durante o conto, portanto não faz qualquer sentido levantar dúvidas todorovianas sobre o desfecho. E também não é um conto de horror psicológico. Há a perspetiva da morte, é certo, mas ninguém a teme. Ela é apresentada como algo de natural, que por isso mesmo deve ser encarado com naturalidade. Está-se nos antípodas da abordagem do horror.

Para mim, este é um belo conto realista. Gostei muito de o ler, mas neste contexto é um erro de casting.

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