domingo, 14 de outubro de 2012

Lido: À Boleia Pela Galáxia

À Boleia Pela Galáxia (bib.) é um famoso pequeno romance de ficção científica humorística do inglês Douglas Adams. Contrariamente ao que é normal acontecer com os romances, e em especial os de ficção científica, a fama deste livro antecede o filme que o adapta, embora esta edição da Saída de Emergência seja contemporânea do filme, o que é vagamente sugerido pela capa. Mas este caso é ainda mais incomum do que isso porque a fama do livro antecede o próprio livro, e não é preciso ter-se em conta os efeitos de nenhum motor de improbabilidade para explicar o facto. É prosaicozinho. Invulgar, mas prosaicozinho. É que tudo isto começou no rádio, como um programa de comédia radiofónica emitido no final dos anos 70, que só mais tarde — mas não muito mais tarde — deu origem ao livro. Ou melhor, aos livros. Uma trilogia de cinco livros, como geralmente se lhe chama. Foi no rádio que começou a nascer este fenómeno de culto, que entretanto se transformou em fator de identificação e celebração da cultura geek por todo o mundo.

Mas antes de mais, uma promessa solene: prometo não fazer aqui nenhuma referência a toalhas.

Oh, esperem lá... Bolas!

Enfim, adiante. Para mim, esta foi uma releitura parcial. Tinha lido a maior parte do livro há anos largos, em inglês, e ainda me lembrava das cenas mais marcantes mas já me tinha esquecido dos detalhes. O problema, claro, é mais ou menos o mesmo que vai cair em cima de quem for ver o filme antes de ler o livro: muito do humor que ele contém, tão britânico como a parelha entre chapéus de chuva e de coco, depende da surpresa para ser eficaz. E quando esta não existe porque a memória do leitor tem registado o que se segue, a coisa perde potência. Ou por outra: não lhe achei tanta piada como da primeira vez.

Como não quero que os eremitas que ainda não tiverem ouvido falar de Douglas Adams e do Hitchhiker's Guide to the Galaxy (título original da coisa, para os mais distraídos entre esses eremitas) fiquem impotentes, não vou dizer quase nada sobre o enredo. Digo apenas que tudo começa quando o planeta Terra é demolido para abrir caminho a uma autoestrada espacial, levando consigo toda a gente menos um dos protagonistas, obviamente inglês e não tão obviamente chamado Arthur, que é levado para a galáxia por um amigo seu, extraterrestre. Não há cá homens de negro nem apagadores de memória, temos pena. Todos nós, mas em especial o próprio Arthur.

E o resto do livro é sobre as andanças deste Arthur e dos companheiros de viagem, enquanto vão a pouco e pouco e por puro acaso investigando as origens de tudo e tudo e tudo, como dizia a outra senhora. O leitor faça o obséquio de inserir aqui um número entre zero e cem. 42, por exemplo.

Uma coisa que me chamou a atenção nesta segunda leitura, e que não notei na primeira, foi as semelhanças que há entre as atmosferas do romance e da série Dr. Who. É provável que isso se deva a agora já ter visto alguns episódios da série, ao passo que aquando da primeira leitura ainda só a conhecia de nome, e vagamente. Seja como for, há semelhanças entre as duas coisas. Poder-se-ia achar que claro que há, meu palerma, então o Adams não trabalhou na série como argumentista? Pois trabalhou. E nos Monty Python. Oh, sim! Só que já havia Dr. Who mais de uma década antes de haver gente e não gente a andar à boleia pela galáxia, portanto se influências existem a setinha sai do Doctor para o Mr. Adams e não ao contrário. Bem, ao contrário também, mais tarde, fechando o círculo, mas vocês percebem o que eu quero dizer.

E também há semelhanças entre este livro e outra série televisiva, bastante mais chalada que o Dr. Who. Refiro-me a uma coprodução germano-canadiana chamada Lexx. Uma maluqueira pegada com estreia em 1997, portanto se houve aí influências foram certamente de sentido único.

Quanto à literatura propriamente dita, e à FC propriamente dita, enfim, não se pode dizer que quer uma quer outra tenham aqui um dos seus grandes representantes. O livro é divertido? É. O sorriso é mais ou menos constante, e há uma ou outra gargalhada, mesmo em releitura. Mas não tem nenhum brilhantismo especial enquanto ficção científica e não está lá muito bem escrito. Aliás, um dos seus maiores defeitos, se não for mesmo o maior, é literário, e prende-se com um certo caráter episódico e algo desconexo que terá sem dúvida sido herdado das origens radiofónicas da coisa. Mas a verdade é que nunca foi objetivo de Adams fazer grande FC ou grande literatura. O que ele queria era deixar os bifes bem dispostos. E nisso teve um sucesso maior do que estava à espera, pois aos bifes juntaram-se outros tipos de carne. Os tugas, por exemplo. Alguns tugas, vá. Os geeks. Nós.

Pessoalmente, não lhe peço mais.

Este livro foi comprado.

Sem comentários:

Enviar um comentário