quinta-feira, 27 de abril de 2017

Lido: Abismos do Tempo

Aqui na Lâmpada já por várias vezes se falou do projeto Intempol, criado por Octávio Aragão, um universo partilhado centrado numa patrulha temporal brasileira que tenta, sem grande sucesso, manter as linhas temporais mais ou menos intactas, em eterno confronto com um grupo vilanesco chamado Meggido e com outros malfeitores temporais. Muito ativo durante vários anos, com dezenas de autores (quase todos brasileiros) a escrever para ele, o projeto deu origem a uma série de publicações, ora profissionais, ora amadoras, ora em papel, ora digitais, incluindo quatro romances.

Abismos do Tempo (bibliografia), de Lúcio Manfredi, é um desses romances.

Os brasileiros têm uma expressão que, por vários motivos, serve a este romance como uma luva. Desconheço a origem, desconheço até se carrega em si alguma pitada de racismo ou não, mas o facto é que esta rocambolesca história de perseguição merece em pleno a etiqueta de "samba do crioulo doido".

Uma das coisas que mais divertia os autores da Intempol, de resto desde que a série viu pela primeira vez publicação no conto Eu Matei Paolo Rossi, de Aragão, era brincar com personagens reais. Uns transformavam-nos em agentes da Intempol (muito à semelhança do que estão agora a fazer os argumentistas da série televisiva Ministério do Tempo, que tem vários pontos de contacto com a Intempol), outros vestiam-lhes as roupas de antagonistas, outros faziam as duas coisas. Manfredi é adepto desta última seita; Yeats, o poeta, é agente, e Lucy, a australopiteca cujo fóssil foi o primeiro esqueleto completo da sua espécie a ser descoberto, também o é. Do outro lado encontramos nomes como o de Adolf Hitler (que até tem honras de capa; aquela ilustração é dele) ou do ocultista Aleister Crawley.

E é precisamente uma longa e movimentada perseguição a Aleister Crawley, aqui retratado como um psicopata perigoso que arranjou forma de viajar pelo tempo, que este romance relata, protagonizada por agentes da Intempol que não são propriamente exemplos de virtude e competência, numa prosa ritmada e ágil, com claras referências pulp, mas com um enredo tão complexo e tão repleto de referências culturais e históricas que se afasta muito do simplismo típico dos velhos pulps. Manfredi leva o leitor numa louca correria por tempos e lugares, do passado longínquo ao não menos longínquo futuro, misturando alegremente tecnologias e jargão característicos da ficção científica com o ocultismo e a magia (de resto, um dos departamentos da Intempol, o Departamento M., dedica-se precisamente às artes mágicas).

O que é realmente estranho é que toda esta salganhada resulta. Lê-se este romance de um fôlego só, sempre à espera da maluquice seguinte, de surpresa em surpresa até à surpresa final, num romance que no fim de contas é tão bom que se torna bizarro nunca ter tido edição mais convencional do que o ficheiro PDF original e bastante amador que ainda se consegue encontrar algures na internet (não deixo link porque não faço ideia se a sua disponibilidade é ou não de vontade do autor).

Não sei é se resultará tão bem para quem nunca tenha tido contacto com a Intempol como comigo, que já acompanho o projeto praticamente desde o início. Suspeito que haverá várias referências que passarão ao lado do leitor neófito, ainda que este deva mesmo assim ser capaz de acompanhar a vasta maioria do enredo. A Intempol talvez lhe pareça uma coisa misteriosa e nebulosa, mas não há nisso nenhum mal, pois julgo que ela é assim até para o próprio Octávio Aragão, que a congeminou.

Seja como for, comigo resultou. Achei este livro francamente bom. Surpreendentemente bom, até.

Este livro foi descarregado legalmente da internet.

2 comentários:

  1. Oi, Jorge! O Samba do Crioulo Doido é uma canção satírica composta por Sérgio Porto ao final dos anos 60, visando ironizar a obrigatoriedade das escolas de samba em terem um enredo histórico relacionado ao Brasil. Fica aqui o clipe: https://www.youtube.com/watch?v=P-5LLSWkf-A

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    1. Ah, boa. Não sabia. E conhecendo a canção entende-se bem a origem da expressão. A bagunça é muita.

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