Febre Fantasma (bib.) é uma vinheta de Bruce Holland Rogers que mimetiza a descrição de uma doença num almanaque médico. Não costumo achar grande interesse a este tipo de artifício, mas Rogers inclui, em "etiologia popular" e "tratamento popular", uma deliciosa historinha de fantasmas — ou de amor fantasmagórico... ou talvez seja mais certo falar de desejo fantasmagórico — ambientada na Amazónia brasileira que, para mim, vale o conto. Não o levará ao "muito bom", talvez, mas certamente o leva ao "bom".
segunda-feira, 9 de julho de 2012
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Lido: Contos Galácticos
Contos Galácticos (bib.) é uma coletânea de contos de ficção científica, de James Blish. Trata-se de histórias já antigas, com mais de meio século de existência, e por vezes isso nota-se demasiado. Resta nestas histórias muito pouca frescura; a maioria das ideias já está algo bafienta, e o estilo em que foram escritas é, em quase todas, demasiado campbelliano para delas se conseguir obter muito mais que a ideia.
Apesar disso, apesar de dois destes contos serem, hoje, leitura penosa, há aqui um par de histórias francamente boas, e uma terceira que lhes é apenas um pouco inferior. Na globalidade, portanto, a leitura vale a pena, em especial para quem consiga abstrair-se da tradução à Argonauta e dos sinais de idade que mesmo as boas histórias mostram. Ler este livro sem essa perspetiva histórica talvez não seja boa ideia, e isto vale, aliás, para qualquer livro de ficção científica não contemporânea porque não há género literário que se torne obsoleto mais depressa. Mas com ela a qualidade das histórias que a têm pode ser bem apreciada.
Sem os dois contos mais fracos teria visto aqui uma boa coletânea de ficção científica, bem representativa da FC que se fazia na década de 1950. Com eles, porém, acho que não passa do razoável.
Eis o que achei de cada um dos cinco contos e noveletas:
Este livro foi comprado.
Apesar disso, apesar de dois destes contos serem, hoje, leitura penosa, há aqui um par de histórias francamente boas, e uma terceira que lhes é apenas um pouco inferior. Na globalidade, portanto, a leitura vale a pena, em especial para quem consiga abstrair-se da tradução à Argonauta e dos sinais de idade que mesmo as boas histórias mostram. Ler este livro sem essa perspetiva histórica talvez não seja boa ideia, e isto vale, aliás, para qualquer livro de ficção científica não contemporânea porque não há género literário que se torne obsoleto mais depressa. Mas com ela a qualidade das histórias que a têm pode ser bem apreciada.
Sem os dois contos mais fracos teria visto aqui uma boa coletânea de ficção científica, bem representativa da FC que se fazia na década de 1950. Com eles, porém, acho que não passa do razoável.
Eis o que achei de cada um dos cinco contos e noveletas:
Este livro foi comprado.
Lido: O Figurão Espanhol
O Figurão Espanhol é um conto de Honoré de Balzac, ambientado durante a Guerra Peninsular e a ocupação francesa de Espanha. Nele se relata uma história rocambolesca, com algumas semelhanças com O Mistério da Estrada de Sintra, de Eça e Ortigão, que provavelmente não serão casuais, entre múltiplas referências ao caráter fogoso dos espanhóis. Um médico francês é raptado por um misterioso indivíduo para proceder a um parto clandestino, e no decorrer da trama vêm a descobrir-se uma série de detalhes sobre amores ilícitos e traições, tanto pessoais como nacionais. Deixou-me bastante indiferente. Achei algo curioso o retrato de uma época, e um pouco mais o viés chauvinista que o retrato denuncia no escritor, mas tirando isso pouco interesse vi no conto. É um bom conto, parece-me, mas não corresponde aos meus gostos.
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domingo, 1 de julho de 2012
Lido: Bip
Bip (bib.) é uma longa noveleta de ficção científica de James Blish que, apesar de um certo clima space-operático (há batalhas espaciais a decorrer em pano de fundo), é altamente filosófica e se debruça sobre o conceito de destino e o determinismo ou o livre arbítrio. Tudo gira em volta de um tal comunicador de Dirac, que permite a comunicação instantânea a distâncias interstelares... e não só. Este comunicador é fulcral para o funcionamento de um serviço secreto que promove o estabelecimento de uma civilização galática unificada, não só na sua função primária de comunicação em tempo real entre pontos imensamente distantes, como no curioso efeito secundário que o seu funcionamento desvenda.
Trata-se de um típico conto "de ideia", pouco interessado na elaboração de personagens ou ambiente social, concentrado quase em exclusivo na ideia em si mesma, em algumas das suas consequências, e na forma como aconteceu a descoberta do efeito secundário. Para isso, Blish socorre-se de uma longa analepse, com um clima quase policial, e o conto funciona em boa medida por causa disso. O modo como o Serviço funciona é um mistério, que se mantém de pé quase até ao fim, e o autor mostra-se hábil a geri-lo, deixando pistas subtis aqui e ali. Que a ideia ainda não se tenha esgotado também ajuda. Sim, a noveleta é antiga: já tem mais de meio século. Mas a discussão sobre se o nosso universo é determinístico ou não mantém-se válida, ainda que certos fenómenos já largamente comprovados, como a mecânica quântica, forneçam fortes indícios de que não o é. Tudo somado, faz com que esta história se mantenha de pé e me pareça ser das melhores do livro.
Contos anteriores desta publicação:
Trata-se de um típico conto "de ideia", pouco interessado na elaboração de personagens ou ambiente social, concentrado quase em exclusivo na ideia em si mesma, em algumas das suas consequências, e na forma como aconteceu a descoberta do efeito secundário. Para isso, Blish socorre-se de uma longa analepse, com um clima quase policial, e o conto funciona em boa medida por causa disso. O modo como o Serviço funciona é um mistério, que se mantém de pé quase até ao fim, e o autor mostra-se hábil a geri-lo, deixando pistas subtis aqui e ali. Que a ideia ainda não se tenha esgotado também ajuda. Sim, a noveleta é antiga: já tem mais de meio século. Mas a discussão sobre se o nosso universo é determinístico ou não mantém-se válida, ainda que certos fenómenos já largamente comprovados, como a mecânica quântica, forneçam fortes indícios de que não o é. Tudo somado, faz com que esta história se mantenha de pé e me pareça ser das melhores do livro.
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Lido: Post Mortem
Post Mortem, de Pedro Medina Ribeiro é mais um conto de terror em que finalmente se abandona o século XIX, ou anterior, e se dá um salto a tempos mais modernos, já providos de automóveis e computadores. Não por coincidência, é também dos contos de que mais gostei até agora. Um homem chega às instalações da Polícia Judiciária, onde é informado de que foi inocentado da suspeita que sobre ele pesava de um crime de morte, algures no interior do Alentejo. E mostra ao inspetor responsável pela investigação um texto que pretende fazer publicar, no qual se relatam as fantasmagóricas circunstâncias que rodearam a sua participação no caso, texto esse que acaba por constituir a porção mais extensa do conto de Ribeiro. Não é uma estrutura propriamente original — por coincidência eu tinha lido pouco antes este conto de Maupassant que tem uma estrutura muito semelhante... e a desenvolve melhor —, tal como não é original o final do conto. Mas pese embora seguir por caminhos já trilhados, estes não são muito comuns e o conto constrói de forma eficaz a atmosfera inquietante que pretende criar, além de estar bem escrito. É, pois, um bom conto, parece-me.
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Lido: A Maravilhosa História do Internamento
A Maravilhosa História do Internamento (bib.) é um conto fantástico de Carlos Wallenstein sobre relações de trabalho e de poder numa empresa industrial. Contado na primeira pessoa por um autodesignado "industrial honesto", que se apresenta com o pseudónimo de Benjamim Elefante para, como afirma, tentar evitar manchas na sua reputação, relata uma série de peripécias, traições e crimes de que terá sido vítima, trazidos ao seu conhecimento por uma operária, de nome Marta, que lhe vai um belo dia bater à porta. Tudo isto com fantasmagorias à mistura. No fim, acabamos por descobrir que das duas uma: ou o "industrial honesto" é um biltre com um ténue vestígio de bom coração, ou um louco. Talvez as duas coisas. E o mesmo se pode dizer dos sócios e provavelmente de toda a classe de que faz parte.
O conto é basicamente uma sátira sociológica com ideologia clara. Até um pouco panfletário. Ou mais que um pouco. Isso tem consequências na unidimensionalidade das personagens, e essa unidimensionalidade contribui para tornar a história previsível. Mas Wallenstein acaba por subverter a previsibilidade com a introdução do elemento fantástico, o qual só surge perto do fim. É uma forma inteligente de dar algo mais a um conto que podia ter sido muito banal. Assim sempre se eleva acima da mediania, muito embora não me tenha agradado muito. Não me parece que chegue a ser um bom conto, mas aproxima-se disso.
O conto é basicamente uma sátira sociológica com ideologia clara. Até um pouco panfletário. Ou mais que um pouco. Isso tem consequências na unidimensionalidade das personagens, e essa unidimensionalidade contribui para tornar a história previsível. Mas Wallenstein acaba por subverter a previsibilidade com a introdução do elemento fantástico, o qual só surge perto do fim. É uma forma inteligente de dar algo mais a um conto que podia ter sido muito banal. Assim sempre se eleva acima da mediania, muito embora não me tenha agradado muito. Não me parece que chegue a ser um bom conto, mas aproxima-se disso.
Lido: O Monstro de Trapos
O Monstro de Trapos (bib.) é uma vinheta de Bruce Holland Rogers, com um pé no horror e o outro na banalidade do quotidiano. Fala de uma mulher que queria fazer uma colcha de trapos e para isso passou a vida a acumulá-los, aos trapos, sem nunca chegar a fazer a colcha. E depois de morrer, os trapos ganham vida. Talvez. Não é das histórias que mais me tenham agradado, mas tem aquela relação de uma narrativa económica com a procura de soluções inesperadas para obtenção de um máximo de efeito que é habitual no autor. E que faz com que muitas vezes seja difícil falar dos seus textos sem estragar a experiência a quem ainda não os leu.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Lido: A Cabeleira
A Cabeleira, de Guy de Maupassant, é um daqueles contos fantásticos que pretendem deixar o leitor na dúvida sobre se o que é nele contado é ou não verdade. Tem a curiosidade de ser narrado ao mesmo tempo na primeira pessoa, na terceira e de novo na primeira. Confusos? É caso para isso. É que o narrador, que obviamente fala de si próprio na primeira pessoa, quase se limita a passar ao papel uma história que lhe é transmitida por um médico psiquiatra, ao qual se refere na terceira pessoa. Mas este não conta a história de memória; lê-la de um depoimento escrito pelo punho de um dos seus pacientes. E este, o verdadeiro protagonista do conto, descreve uma relação que terá tido com um fantasma, o fantasma de uma mulher que se mantém presa à sua antiga cabeleira (daí o título). Descreve-a, está bom de ver-se, na primeira pessoa.
A história de fantasmas (d)escrita pelo louco — e será mesmo louco? — tem o seu interesse, mas o que realmente se destaca neste conto é a sua estrutura, particularmente complexa para história tão curta. Maupassant era um escritor e peras, e esta história é disso prova. Muito bom.
Conto anterior desta publicação:
A história de fantasmas (d)escrita pelo louco — e será mesmo louco? — tem o seu interesse, mas o que realmente se destaca neste conto é a sua estrutura, particularmente complexa para história tão curta. Maupassant era um escritor e peras, e esta história é disso prova. Muito bom.
Conto anterior desta publicação:
Lido: Aliens
Aliens é um poema de ficção científica, de Joe Haldeman, que eu achei bem interessante dada a forma como sugere, num número muitíssimo limitado de palavras, tanto um futuro longínquo e radioso para a espécie humana como a existência de outra espécie inteligente, os aliens do título, com uma opinião algo divergente da nossa sobre esse futuro. Aprovado.
Lido: Nem Barras de Ferro
Nem Barras de Ferro (bib.) é uma noveleta de ficção científica de James Blish ambientada no mesmo universo ficcional de Tempo Normal. Os enredos, aliás, têm alguns pontos de contacto. Aqui, o leitor depara de novo com uma nave interstelar equipada com um motor experimental, embora desta vez não se trata de um voo de teste, mas uma expedição de colonização. E de novo algo acontece de muito inesperado, algo que vai colocar a tripulação da nave numa situação para a qual não estava preparada: é que algo na interação entre os mundos relativísticos e quântico vai fazer com que a nave e tudo o que contém como que mingua até que um único eletrão se agiganta na sua frente como se fosse um pequeno planeta, ao mesmo tempo que todas as pessoas na nave dão por si a partilhar os pensamentos com todas as outras.
Gostei muito menos desta história do que de Tempo Normal. Porquê? Pensei bastante nisso, e creio que consegui pôr o dedo mental na resposta. Mas vou ter de fazer um preambulozito antes de lá chegar.
Tal como a anterior, esta é uma daquelas histórias de ficção científica que se centram na resolução de problemas. A FC é rica em histórias deste género, e houve autores, como Isaac Asimov, que construíram carreiras inteiras quase exclusivamente com base nelas. São histórias em que algo acontece de inesperado, e nas quais as personagens têm a responsabilidade de compreender o problema e de tentar arranjar solução para ele. E, o que é fulcral, são histórias que dependem de uma certa verosimilhança para funcionarem. Se o leitor não acredita no problema, não terá grande interesse na busca da solução, logo não terá grande interesse na história como um todo.
E é aqui que esta história de Blish falha comigo. Por imaginativa que ela seja, não consegue levar-me a acreditar no problema em que mergulha as personagens. Por demasiados motivos que não me parece que valha a pena escalpelizar, mas que começam logo por Blish se servir da velha e estafada analogia planetária para o átomo, proposta por Ernest Rutherford por volta de 1910 e ultrapassada ainda nos anos 20. Ora, o conto foi escrito 30 anos mais tarde.
Quer isto dizer que achei este conto bastante fraco, o pior do livro até agora.
Contos anteriores desta publicação:
Gostei muito menos desta história do que de Tempo Normal. Porquê? Pensei bastante nisso, e creio que consegui pôr o dedo mental na resposta. Mas vou ter de fazer um preambulozito antes de lá chegar.
Tal como a anterior, esta é uma daquelas histórias de ficção científica que se centram na resolução de problemas. A FC é rica em histórias deste género, e houve autores, como Isaac Asimov, que construíram carreiras inteiras quase exclusivamente com base nelas. São histórias em que algo acontece de inesperado, e nas quais as personagens têm a responsabilidade de compreender o problema e de tentar arranjar solução para ele. E, o que é fulcral, são histórias que dependem de uma certa verosimilhança para funcionarem. Se o leitor não acredita no problema, não terá grande interesse na busca da solução, logo não terá grande interesse na história como um todo.
E é aqui que esta história de Blish falha comigo. Por imaginativa que ela seja, não consegue levar-me a acreditar no problema em que mergulha as personagens. Por demasiados motivos que não me parece que valha a pena escalpelizar, mas que começam logo por Blish se servir da velha e estafada analogia planetária para o átomo, proposta por Ernest Rutherford por volta de 1910 e ultrapassada ainda nos anos 20. Ora, o conto foi escrito 30 anos mais tarde.
Quer isto dizer que achei este conto bastante fraco, o pior do livro até agora.
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quinta-feira, 28 de junho de 2012
A minha nota de rodapé nas ciências astronómicas
Quem topar por um improvável acaso com este minúsculo cantinho da vasta internet e, em vez de se ir imediatamente embora, passar os olhos pela longa lista de apelidos que lá se encontra, é possível que repare que perdido no meio daquele matagal de letras se podem ler as seguintes: "J. Candeias."
Sim, sou eu.
Para quem olha para ali e não percebe do que se trata, eu explico. É a publicação científica respeitante à descoberta de dois pequenos mundos, e eu estou listado como co-descobridor por ter colaborado com o projeto Ice Hunters (entretanto fechado), uma iniciativa de "ciência cidadã" que propunha aos cibernautas passarem a pente fino imagens captadas por alguns dos melhores telecópios do planeta em busca dos pontinhos e dos traços que indicam a presença de objetos do cinturão de Kuiper (KBO) ou de asteroides. Ou de estrelas variáveis, a praga do projeto.
Foram achadas algumas dezenas de objetos novos, mas por enquanto só aquelas duas descobertas foram publicadas. Os dois mundinhos têm os "nomes" de 2004 LV31 e 2004 LW31, na velha tradição astronómica de dar maus nomes às coisas. Não se sabe quase nada sobre eles, claro; afinal, acabaram de ser descobertos. Mas já se lhes conhecem as órbitas e a luminosidade, o que permite ter uma vaga ideia do seu tamanho.
2004 LV31 é o mais pequeno e o mais próximo de nós. Orbita o Sol a uma distância média de 43,95 unidades astronómicas (ou seja: quase 44 vezes mais longe da nossa estrela do que a Terra) e dá-lhe uma volta a cada 291 dos nossos anos. Calcula-se que terá uns 30 ou 40 km de diâmetro, embora a palavra "diâmetro" não deva aplicar-se, porque o mais certo será nada ter de esférico. Não deve ultrapassar o tamanho do satélite de Saturno Pandora, mas deve ter uma superfície menos lisa; a de Pandora é suavizada por material que cai dos anéis.
O outro, 2004 LW31, é maior e mais longínquo. Orbita a 46,39 unidades astronómicas do Sol e dá-lhe uma volta a cada 316 anos. Terá entre 75 e 110 km de diâmetro, embora também se aplique ao diâmetro o que disse acima. Ou seja: não deve ser maior que outro satélite de Saturno, Febe, e é bem capaz de ser muito parecido com ele, visualmente falando: deve ter forma de batata e ser pejado de crateras.
Porreiro, hã?
Uma nota: eu não tenho a certeza de ter realmente detetado estes dois mundos em concreto. Sei que detetei pelo menos três novos KBOs, mas parece-me que aquela lista de co-descobridores não se refere àqueles que viram os mesmos objetos que eu, mas sim a todos os que descobriram alguma coisa no decorrer do projeto. Se assim for, é provável que todas as publicações resultantes do projeto venham com o meu nome lá perdido no meio. Já perguntei a quem geria o Ice Hunters se assim é, mas o forte deles não é a comunicação e ainda não obtive resposta. Parece-me, contudo, que tenho razão, e por isso podem vir aí mais notinhas de rodapé. Por um lado acho que é pena: gostava de saber o que foi, ao certo, que vi. Por outro... pá... sou oficialmente um descobridor de mundos! Se isto não é completamente do caraças (sim, é o termo técnico), não sei o que é.
Se quiserem tentar ter também as vossas notinhas de rodapé na ciência, o Ice Hunters tem sucessor. Chama-se Ice Investigators e está aqui. Boa sorte.
Sim, sou eu.
Para quem olha para ali e não percebe do que se trata, eu explico. É a publicação científica respeitante à descoberta de dois pequenos mundos, e eu estou listado como co-descobridor por ter colaborado com o projeto Ice Hunters (entretanto fechado), uma iniciativa de "ciência cidadã" que propunha aos cibernautas passarem a pente fino imagens captadas por alguns dos melhores telecópios do planeta em busca dos pontinhos e dos traços que indicam a presença de objetos do cinturão de Kuiper (KBO) ou de asteroides. Ou de estrelas variáveis, a praga do projeto.
Foram achadas algumas dezenas de objetos novos, mas por enquanto só aquelas duas descobertas foram publicadas. Os dois mundinhos têm os "nomes" de 2004 LV31 e 2004 LW31, na velha tradição astronómica de dar maus nomes às coisas. Não se sabe quase nada sobre eles, claro; afinal, acabaram de ser descobertos. Mas já se lhes conhecem as órbitas e a luminosidade, o que permite ter uma vaga ideia do seu tamanho.
2004 LV31 é o mais pequeno e o mais próximo de nós. Orbita o Sol a uma distância média de 43,95 unidades astronómicas (ou seja: quase 44 vezes mais longe da nossa estrela do que a Terra) e dá-lhe uma volta a cada 291 dos nossos anos. Calcula-se que terá uns 30 ou 40 km de diâmetro, embora a palavra "diâmetro" não deva aplicar-se, porque o mais certo será nada ter de esférico. Não deve ultrapassar o tamanho do satélite de Saturno Pandora, mas deve ter uma superfície menos lisa; a de Pandora é suavizada por material que cai dos anéis.
O outro, 2004 LW31, é maior e mais longínquo. Orbita a 46,39 unidades astronómicas do Sol e dá-lhe uma volta a cada 316 anos. Terá entre 75 e 110 km de diâmetro, embora também se aplique ao diâmetro o que disse acima. Ou seja: não deve ser maior que outro satélite de Saturno, Febe, e é bem capaz de ser muito parecido com ele, visualmente falando: deve ter forma de batata e ser pejado de crateras.
Porreiro, hã?
Uma nota: eu não tenho a certeza de ter realmente detetado estes dois mundos em concreto. Sei que detetei pelo menos três novos KBOs, mas parece-me que aquela lista de co-descobridores não se refere àqueles que viram os mesmos objetos que eu, mas sim a todos os que descobriram alguma coisa no decorrer do projeto. Se assim for, é provável que todas as publicações resultantes do projeto venham com o meu nome lá perdido no meio. Já perguntei a quem geria o Ice Hunters se assim é, mas o forte deles não é a comunicação e ainda não obtive resposta. Parece-me, contudo, que tenho razão, e por isso podem vir aí mais notinhas de rodapé. Por um lado acho que é pena: gostava de saber o que foi, ao certo, que vi. Por outro... pá... sou oficialmente um descobridor de mundos! Se isto não é completamente do caraças (sim, é o termo técnico), não sei o que é.
Se quiserem tentar ter também as vossas notinhas de rodapé na ciência, o Ice Hunters tem sucessor. Chama-se Ice Investigators e está aqui. Boa sorte.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Lido: Mandrágora
Mandrágora é um conto curto de terror de Pedro Medina Ribeiro em que finalmente desaparece a sensação de estar a ler pastiches de contos do século XIX, apesar de existirem algumas semelhanças entre este conto e o anterior. O ambiente continua antigo; o conto ambienta-se algures, num reino não identificado no qual o povo mantém intacta a ligação ao sobrenatural. Um agrimensor aproxima-se de uma aldeia e, pouco antes de chegar à vista do povoado, aceita, quase por reflexo, uma caixa que uma estranha velha lhe entrega, seguindo depois caminho. Mas ao chegar à aldeola acaba por descobrir que talvez não devesse tê-lo feito.
O conto está bastante bem concebido e é eficaz, incluindo o final que, embora não seja supreendente, acentua a sensação de ameaça que a história pretende criar. Pareceu-me um bom conto, provavelmente o melhor do livro até agora.
Contos anteriores desta publicação:
O conto está bastante bem concebido e é eficaz, incluindo o final que, embora não seja supreendente, acentua a sensação de ameaça que a história pretende criar. Pareceu-me um bom conto, provavelmente o melhor do livro até agora.
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Lido: Trânsito
Trânsito (bib.) é um conto curto de Urbano Tavares Rodrigues que, numa prosa poética e elaborada, basicamente descreve uma caminhada que leva o protagonista da normalidade da vida urbana quotidiana a um território estranho, uma parte da cidade que não reconhece e, provavelmente, nem faz parte da cidade. "Entrámos numa praça," diz-se a dado passo, "de uma geométrica monumentalidade — formas elípticas, fachadas de mármore sobre pilares, temas espaciais de livres diafragmas suspensos." E por aí vai. Há aqui algo de ficção científica, algo de sonho (ou pesadelo), mas o elemento mais forte é de terror; o conto termina em aberto, mas com uma forte sugestão de que algo de infernal se passa ali.
Muito bem escrito, é, no entanto, daqueles contos que me parecem francamente bons ao mesmo tempo que não me agradam por aí além. Depressa comecei a esquecê-lo. Há algo nele que não ressoa no leitor que sou. Conter um claro predomínio da forma sobre o conteúdo, certamente. Mas não só; há algo mais, algo que não consigo definir. Um dia talvez o releia por causa disso.
Muito bem escrito, é, no entanto, daqueles contos que me parecem francamente bons ao mesmo tempo que não me agradam por aí além. Depressa comecei a esquecê-lo. Há algo nele que não ressoa no leitor que sou. Conter um claro predomínio da forma sobre o conteúdo, certamente. Mas não só; há algo mais, algo que não consigo definir. Um dia talvez o releia por causa disso.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Lido: Terrortório
Terrortório (bib.), antologia de terror publicada no final dos anos 80 do século passado, parece ter tido como principal critério uma tentativa de delimitação de um território, e ao mesmo tempo criar uma espécie de seleção nacional de escritores capazes de escrever no género, misturando-os com grandes autores consagrados de outras literaturas, especialmente da americana. Não me convenceu. Vários foram os contos que não me agradaram, e também foram vários os que não me pareceram ter grande coisa (ou coisa nenhuma) a ver com o terror. Há aqui contos de terror, sim, mas também há contos que hoje seriam vistos como fantasia urbana, há um conto humorístico sem nada de assustador (um conto de terrir?), e há até um, ainda por cima muito fraquinho, cuja inclusão em qualquer das literaturas do imaginário me desperta as maiores dúvidas.
Os melhores contos, como talvez fosse inevitável, foram os estrangeiros, e os piores portugueses, embora a fronteira não seja estanque e haja ali uma faixa mediana em que uns e outros se misturam. Não sei se este tipo de mistura é boa ideia. Sim, uma literatura precisa de espaço para se desenvolver, os autores precisam de ser publicados e de dar pelo menos alguns ouvidos ao seu público para irem afinando alguns pormenores. Mas pô-los assim lado a lado com referências internacionais do género é um pouco maltratá-los. Todas as fragilidades saltam mais à vista. Toda a juventude, inexperiência e sobretudo falta de familiaridade com o género em que supostamente estariam a escrever também. Sim, que metade dos autores portugueses estava, à época, apenas no início das respetivas carreiras, e dos outros não conheço nada ligado ao género além do que aqui publicaram.
Mas apesar de tudo isto, não se trata duma má antologia. Há aqui bons contos, e isso, para mim, chega para ter valido a pena a leitura. Seria bom que todos o fossem, mas o mundo não é perfeito.
Eis o que achei de cada um:
Este livro foi comprado.
Os melhores contos, como talvez fosse inevitável, foram os estrangeiros, e os piores portugueses, embora a fronteira não seja estanque e haja ali uma faixa mediana em que uns e outros se misturam. Não sei se este tipo de mistura é boa ideia. Sim, uma literatura precisa de espaço para se desenvolver, os autores precisam de ser publicados e de dar pelo menos alguns ouvidos ao seu público para irem afinando alguns pormenores. Mas pô-los assim lado a lado com referências internacionais do género é um pouco maltratá-los. Todas as fragilidades saltam mais à vista. Toda a juventude, inexperiência e sobretudo falta de familiaridade com o género em que supostamente estariam a escrever também. Sim, que metade dos autores portugueses estava, à época, apenas no início das respetivas carreiras, e dos outros não conheço nada ligado ao género além do que aqui publicaram.
Mas apesar de tudo isto, não se trata duma má antologia. Há aqui bons contos, e isso, para mim, chega para ter valido a pena a leitura. Seria bom que todos o fossem, mas o mundo não é perfeito.
Eis o que achei de cada um:
Este livro foi comprado.
Lido: Efemérides
Efemérides (bib.) é um conto curto de ficção científica, de João Barreiros. Num universo alternativo em que ao programa Apollo se seguiu a colonização da Lua e Kennedy não foi morto pelo atentado de Dallas, um jovem colono prepara-se para um dia de festa, entre vívidas descrições do seu ambiente, o qual está muito longe da perfeição um dia sonhada por quem concebeu um futuro longe do planeta natal. É um conto principalmente sitacional, como aliás é comum acontecer na FC mais curta (textos muito curtos não dão para grande enredo), cuja grande força está no final, que obviamente não revelarei. Um conto muito curto — dos mais curtos que Barreiros já escreveu — mas bastante bom.
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terça-feira, 19 de junho de 2012
Lido: Barroco Tropical
Barroco Tropical, romance de José Eduardo Agualusa, leva-nos a Luanda. Não à Luanda de hoje, mas à Luanda de um futuro próximo, numa Angola liderada por uma mulher (Agualusa nunca lhe dá nome, mas não me surpreenderia se ao escrevê-la tivesse em mente a filha do atual presidente, Isabel dos Santos), dividida entre o caos da corrupção social e política e arremedos interrompidos de desenvolvimento e de alguma megalomania. Os protagonistas são dois: Kianda, uma cantora "do regime" e tremendamente bem sucedida tanto em Angola como fora dela, e uma mulher problemática por natureza, e Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, talvez um pouco alter ego do próprio Agualusa.
O ambiente é, portanto, o de uma certa camada social angolana, que paira entre o mundo artístico e a elite política, com ocasionais incursões por faixas menos privilegiadas da sociedade. Kianda e Falcato são amantes, com uma relação que não é propriamente fácil, e boa parte do romance centra-se superficialmente nessa relação. Mas é só superficialmente, pois ela é afetada pelas pessoas com quem um e outro se vão cruzando, e estas pintam um colorido fresco das contradições e convulsões de toda uma sociedade. Agualusa utiliza a relação como coluna vertebral do romance, mas nunca é ela o que mais lhe interessa. Cavando um pouco mais fundo, para lá dessa camada narrativa superficial, encontram-se muitas outras coisas.
Entre essas coisas destaca-se um retrato sombrio de uma Angola futura, que vai vivendo sob uma espécie de ditadura mansa movida a petrodólares, na qual a violência e a barbárie se exercem com suavidade, quase com simpatia, com um sorriso nos lábios. Um retrato, também, de uma sociedade em desagregação, na qual as velhas superstições africanas se entrelaçam de forma tensa com uma modernidade e um desenvolvimento muito ligados ao exterior. Um retrato de uma sociedade dilacerada por cismas, na qual as questões colonial, racial e linguística continuam mal resolvidas. Um retrato distópico de uma sociedade, da sociedade do seu país, uma espécie de grito de alerta como quem diz "cuidado; é neste sentido que caminhamos." O mesmo grito de tantas outras distopias.
Barroco Tropical é um livro de ficção científica social, com muito de ciberpunk, mesmo que a tecnologia e o ciberespaço tenham nele um papel reduzido. É isto um paradoxo? É. Mas é um paradoxo perfeitamente resolúvel nesse continente de paradoxos que é África.
Mais: Barroco Tropical é um bom livro de ficção científica social. Muitíssimo bem escrito, muito bem idealizado e realizado, aqui e ali divertido, acolá a abrir portinholas para o horror, um horror bem concreto e por vezes a roçar (apenas a roçar) o sobrenatural. É por tudo isso um livro fascinante, que para mim mais fascinante se tornou por ser o primeiro livro angolano de FC que tive o prazer de ler, embora eu duvide que Agualusa o assuma como tal. Mas quer o assuma, quer não, é isso que ele é. E eu recomendo-o sem reservas. Muito bom.
Este livro foi comprado.
O ambiente é, portanto, o de uma certa camada social angolana, que paira entre o mundo artístico e a elite política, com ocasionais incursões por faixas menos privilegiadas da sociedade. Kianda e Falcato são amantes, com uma relação que não é propriamente fácil, e boa parte do romance centra-se superficialmente nessa relação. Mas é só superficialmente, pois ela é afetada pelas pessoas com quem um e outro se vão cruzando, e estas pintam um colorido fresco das contradições e convulsões de toda uma sociedade. Agualusa utiliza a relação como coluna vertebral do romance, mas nunca é ela o que mais lhe interessa. Cavando um pouco mais fundo, para lá dessa camada narrativa superficial, encontram-se muitas outras coisas.
Entre essas coisas destaca-se um retrato sombrio de uma Angola futura, que vai vivendo sob uma espécie de ditadura mansa movida a petrodólares, na qual a violência e a barbárie se exercem com suavidade, quase com simpatia, com um sorriso nos lábios. Um retrato, também, de uma sociedade em desagregação, na qual as velhas superstições africanas se entrelaçam de forma tensa com uma modernidade e um desenvolvimento muito ligados ao exterior. Um retrato de uma sociedade dilacerada por cismas, na qual as questões colonial, racial e linguística continuam mal resolvidas. Um retrato distópico de uma sociedade, da sociedade do seu país, uma espécie de grito de alerta como quem diz "cuidado; é neste sentido que caminhamos." O mesmo grito de tantas outras distopias.
Barroco Tropical é um livro de ficção científica social, com muito de ciberpunk, mesmo que a tecnologia e o ciberespaço tenham nele um papel reduzido. É isto um paradoxo? É. Mas é um paradoxo perfeitamente resolúvel nesse continente de paradoxos que é África.
Mais: Barroco Tropical é um bom livro de ficção científica social. Muitíssimo bem escrito, muito bem idealizado e realizado, aqui e ali divertido, acolá a abrir portinholas para o horror, um horror bem concreto e por vezes a roçar (apenas a roçar) o sobrenatural. É por tudo isso um livro fascinante, que para mim mais fascinante se tornou por ser o primeiro livro angolano de FC que tive o prazer de ler, embora eu duvide que Agualusa o assuma como tal. Mas quer o assuma, quer não, é isso que ele é. E eu recomendo-o sem reservas. Muito bom.
Este livro foi comprado.
domingo, 17 de junho de 2012
Lido: O Ouro
O Ouro (bib.) é uma vinheta de Bruce Holland Rogers muito semelhante a As Pervincas. De novo, a história desenrola-se em diálogo puro entre quem quer contar a parábola e um interlocutor cético e bastante falho de inteligência. Desta vez, a parábola é sobre a nobreza de caráter e a possibilidade ou impossibilidade de ser comprada com ouro. De novo temos nela uns pozinhos de perlimpimpim fantástico, e de novo nada direi além disto. Acrescento apenas que, embora tenha gostado mais da primeira história, até por nesta já não existir muito de inesperado visto seguir tão de perto o esquema da outra, esta também me pareceu boa.
Lido: As Tumbas de Saint-Denis
As Tumbas de Saint-Denis é um conto de Alexandre Dumas ambientado em Paris na época do Terror, que se seguiu à revolução francesa. Com um fundo político que quanto melhor se conhecer a história do período (e da França em geral) melhor se será capaz de apreender, embora seja fácil descobrir nele a crítica aos excessos das épocas revolucionárias, o conto é também uma história de fantasmas, de maldições e de vingança. O que despoleta a história é o excesso de um homem que, enquanto os cadáveres dos outros reis de França eram exumados das suas luxuosas sepulturas e voltados a enterrar numa vala comum, resolve dar um estalo no cadáver de Henrique IV, um dos mais populares reis que França teve (o conto apelida-o de "o rei do povo"). E a partir daí vê-se perseguido por azares e pela rejeição de todos.
Gostei bastante. Dumas é um grande escritor, e este conto está bem escrito, bem construído e bem rematado. Em suma: é bom.
Gostei bastante. Dumas é um grande escritor, e este conto está bem escrito, bem construído e bem rematado. Em suma: é bom.
Lido: As Despesas da Festa
As Despesas da Festa (bib.) é um conto de ficção científica pós-apocalíptica, de James Blish, que descreve, com abundância de infodumps, a vida nos abrigos subterrâneos enquanto continua a travar-se na superfície uma guerra de destruição total entre os dois blocos da Guerra Fria. Que no conto, claro, se tornou quente anos antes. Ao contrário do que é habitual nos contos desta época, porém, trata-se mais de uma guerra biológica do que de uma guerra nuclear, e todo o conto gira em volta de conceitos médico-biológicos que, lidos hoje, só me conseguiram fazer pensar na imensa evolução que as ciências biológicas tiveram desde a década de 50 do século passado até aos nossos dias. Todas as ideias de base em que Blish fundamenta a história estão erradas. Todas. E como o conto pouco tem além de ideia, visto que é composto quase inteiramente por pessoas a explicar coisas umas às outras, é um daqueles contos de FC que já morreram mesmo que ainda não tenham consciência disso. Não creio que alguma vez tenha sido um bom conto (os infodumps encarregam-se de lhe baixar a qualidade) mas, mesmo que o tivesse sido um dia, envelheceu de forma irrecuperável. É de longe o pior do livro até agora. Paz à sua alma.
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Lido: Dos Anéis do Poder e da Terceira Era
Dos Anéis do Poder e da Terceira Era é mais uma noveleta de J. R. R. Tolkien que, num estilo intermédio entre o registo de caráter histórico e a ficção propriamente dita, faz a ponte entre os acontecimentos antigos relatados no Quenta Silmarillion e nos demais textos anteriores do livro e aquilo que é relatado n'O Senhor dos Anéis.e n'O Hobbit. Fornece uma série de informações que para qualquer fã da série são um autêntico tesouro, embora deixe por esclarecer a origem dos hobbits, o que me parece algo estranho visto que todos os outros povos da Terra Média têm as suas origens e histórias escalpelizadas de forma mais ou menos detalhada ao longo das várias histórias deste livro. Para um não fã volta a ser um texto sem grande interesse (a menos, talvez, que se tenha particular predileção por exercícios de worldbuilding), e para alguém que não tenha lido O Senhor dos Anéis suponho que chegue mesmo a ser bastante confuso. E como eu não sou fã, não gostei muito.
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sábado, 16 de junho de 2012
Lido: O Caminheiro
O Caminheiro é um conto de horror de Pedro Medina Ribeiro, bastante bem construído apesar de manter o ambiente novecentista de contos anteriores, o qual continua a levantar-me dúvidas. Desta feita, a maior parte do conto é ocupada com a reprodução de uma lenda — que julgo ter sido inventada por Ribeiro, embora se baseie fortemente em lendas que de facto existem, aparentadas com as do vampirismo — segundo a qual existiria algures na Alemanha um tal Caminheiro, entidade sobrenatural que calcorrearia as estradas e atacaria viajantes solitários. E à parte a reprodução da lenda o resto do conto consiste de um relato em que, como é vulgar acontecer neste tipo de história, o narrador cético é confrontado com o sobrenatural, perdendo assim o ceticismo.
Gostei bastante mais deste conto do que do anterior, embora continue a não me agradar que Pedro Medina Ribeiro tenha decidido (começa a parecer-me claramente tratar-se uma decisão consciente) fazer dos seus contos pastiches de contos novecentistas. Está bem construído e bem escrito, o que compensa até certo ponto o cliché do estilo e do ambiente, e tem um remate eficaz.
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Gostei bastante mais deste conto do que do anterior, embora continue a não me agradar que Pedro Medina Ribeiro tenha decidido (começa a parecer-me claramente tratar-se uma decisão consciente) fazer dos seus contos pastiches de contos novecentistas. Está bem construído e bem escrito, o que compensa até certo ponto o cliché do estilo e do ambiente, e tem um remate eficaz.
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Lido: A Aparição das Trevas
A Aparição das Trevas (bib.), noveleta de horror de H. P. Lovecraft, surpreendeu-me pela positiva. Não sei se por intermédio de uma tradução capaz de limpar a prosa de Lovecraft daquilo que ela tem de pior, se por, no fim da vida e da carreira, o autor americano ter finalmente aprendido a escrever sem sobrecarregar o texto de adjetivos e advérbios, o facto é que não vi aqui aquela verdadeira selva palavrosa que normalmente faz com que me seja tão penoso ler a prosa do senhor Howard Phillips. E isso é ótimo, porque, despida desse peso, a história consegue vir ao de cima.
Trata-se de um conto do Cthulhu Mythos, embora isso só se torne inteiramente claro no fim, apesar de todo o texto mostrar sinais. O fulcro da história é uma estranha igreja abandonada em Providence, Rhode Island, e a não menos estranha morte de um tal Robert Blake, escritor, pintor, e estudioso de mitos e lendas. Isto é-nos dito logo no início, de modo que nem sequer se pode dizer propriamente que o conto é previsível. Sim, não só o conto começa logo com a revelação de que Robert Blake está morto, como quem conheça alguma coisa de Lovecraft depressa adivinha o que se passa na tal igreja; os sinais estão todos lá. Mas apesar disso a história consegue sustentar o interesse.
E eu, que geralmente acho Lovecraft ilegível, gostei. Mais: parece-me que este é um dos melhores contos do livro. E vivam as surpresas agradáveis.
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Trata-se de um conto do Cthulhu Mythos, embora isso só se torne inteiramente claro no fim, apesar de todo o texto mostrar sinais. O fulcro da história é uma estranha igreja abandonada em Providence, Rhode Island, e a não menos estranha morte de um tal Robert Blake, escritor, pintor, e estudioso de mitos e lendas. Isto é-nos dito logo no início, de modo que nem sequer se pode dizer propriamente que o conto é previsível. Sim, não só o conto começa logo com a revelação de que Robert Blake está morto, como quem conheça alguma coisa de Lovecraft depressa adivinha o que se passa na tal igreja; os sinais estão todos lá. Mas apesar disso a história consegue sustentar o interesse.
E eu, que geralmente acho Lovecraft ilegível, gostei. Mais: parece-me que este é um dos melhores contos do livro. E vivam as surpresas agradáveis.
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Lido: FC, o Banho e Não Só
FC, o Banho e Não Só (bib.) é uma vinheta de Mário-Henrique Leiria (aqui, bizarramente, identificado como "Mário Henriques Leiria") que, realmente, junta no mesmo texto ficção científica, um banho e não só. O (primeiro) protagonista está calmamente a tomar um banho de imersão quando o ralo da banheira se transforma num portal interdimensional e o atira para um areal sem horizonte e iluminado por dois sóis. Do banho, portanto, passa-se à FC. Mas eis que surge o não-só sob a forma de um ministro, e o conto acaba em plena ironia.
É um conto bastante típico de Leiria, e bastante bom também: ficção científica somada a abundantes quantidades de surrealismo e de um humor irónico e corrosivo, profundamente político. Dificilmente poderiam ter escolhido para esta antologia conto mais representativo da obra do autor. Não será o melhor — e não seria fácil escolher o melhor — mas Leiria é aquilo. Não há que enganar.
É um conto bastante típico de Leiria, e bastante bom também: ficção científica somada a abundantes quantidades de surrealismo e de um humor irónico e corrosivo, profundamente político. Dificilmente poderiam ter escolhido para esta antologia conto mais representativo da obra do autor. Não será o melhor — e não seria fácil escolher o melhor — mas Leiria é aquilo. Não há que enganar.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Lido: As Anémonas-do-Mar
As Anémonas-do-Mar (bib.) é uma vinheta de Bruce Holland Rogers que explica a origem das anémonas-do-mar. Parece que é bicho de criação recente, e que o seu surgimento se deve a Cupido. Esse mesmo, o rechonchudinho do arco e das setas mágicas, que parece não ser exatamente tão queriducho como o retrata o folclore moderno, mas temperamental e dado a irritações. E que parece que um belo dia se irritou com uma congregação religiosa puritana e resolveu dar-lhe uma lição. A começar pelo pregador, bem entendido.
É um continho iconoclasta, vagamente blasfemo e carregado de ironia, que se lê de sorriso nos lábios. É também algo previsível, principalmente por causa do título, bastante revelador, mas essa previsibilidade acaba por ter muito pouca importância. Muito bom.
É um continho iconoclasta, vagamente blasfemo e carregado de ironia, que se lê de sorriso nos lábios. É também algo previsível, principalmente por causa do título, bastante revelador, mas essa previsibilidade acaba por ter muito pouca importância. Muito bom.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Lido: Uma Obra de Arte
Uma Obra de Arte (bib.) é um muito melómano conto de ficção científica de James Blish. Algures no futuro, Richard Strauss (sim, o compositor alemão) desperta para uma pós-vida que o confunde, recordando-se de estar a morrer, e depressa toma conhecimento com Barkun Kris, escultor de mentes, o qual lhe explica que de facto está morto mas a sua personalidade foi como que enxertada num novo corpo. Depois desta introdução, o conto prossegue descrevendo as surpresas com que Strauss depara no fantástico mundo do seu futuro e a sua luta por regressar à atividade nesse futuro em que por vezes parece não ter lugar. E isto com grande riqueza de pormenores musicológicos que me deixaram aqui e ali um pouco perdido mas contribuem sobremaneira para emprestar credibilidade à história. No fim, Strauss tem uma última e grande surpresa... maior, aliás, que a do leitor.
Gostei muito deste conto, apesar da tradução "à Argonauta". Está muito bem concebido, e combina de forma quase exemplar a exploração da mentalidade obsessiva do compositor no ato de criação com a ficção científica, género que não é conhecido pela sofisticação de caracterização das suas personagens. Muito bom.
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Gostei muito deste conto, apesar da tradução "à Argonauta". Está muito bem concebido, e combina de forma quase exemplar a exploração da mentalidade obsessiva do compositor no ato de criação com a ficção científica, género que não é conhecido pela sofisticação de caracterização das suas personagens. Muito bom.
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