Desvio Inesperado é um conto da escritora austríaca Vicki Baum que vai buscar aos contos de fadas exclusivamente aquilo que eles têm de pior. Passado nos Estados Unidos, aparentemente em meados do século XX, os protagonistas do conto são um escritor de auto-ajuda, cuja fama benigna não corresponde à verdadeira personalidade, mesquinha e caprichosa, e a sua eficiente secretária/assistente/motorista/faz-tudo. Em viagem de carro pelo Oeste dos EUA, a caminho de uma palestra em Los Angeles, os dois são obrigados a desviar-se do caminho por uma tempestade e pela ameaça de rotura de uma barragem, acabando por ficar presos numa cidadezinha rural. Aí, em menos de um dia, tudo nas suas vidas vai virar-se de pantanas. E quem não quiser spoilers é bom parar de ler agora mesmo.
O conto até podia ter algum interesse se não fosse tão estúpido. Mas a autora foi buscar aos contos de fadas o simplismo moralista das personalidades e das relações humanas e o "e viveram felizes para sempre", deitando fora tudo o resto. A secretária começa o conto solteirona e acaba-o noiva de um homem que conheceu horas antes e, claro, sem emprego. Afinal, mulher casada não trabalha. E, pelos vistos, noiva também não. O escritor, esse, sofre uma epifania qualquer, vê o erro do seu caráter mesquinho, e altera-o de um dia para o outro, acabando também ele noivo duma mulher que tinha acabado de conhecer. E coraçõezinhos cor-de-rosa esvoaçam por todo o lado por entre os chilreios dos passarinhos. Mas não, não esvoaçam, que o conto é deprimentemente realista, se desconsiderarmos o irrealismo de toda a premissa, personagens e situação. Não há nele magia. Mas há muita parvoíce. Muito conservadorismo bacoco. Muito romantismo de pacotilha.
Não sei se se nota que detestei esta coisa. Foi o primeiro texto que li de Vicki Baum. E vai ser, com toda a certeza, o último.
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quinta-feira, 16 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Lido: Manuscrito Encontrado Numa Máquina do Tempo Abandonada
Manuscrito Encontrado Numa Máquina do Tempo Abandonada (bib.) é um conto particularmente bizarro de Robert Silverberg. Um pouco à semelhança de O Templo da Ficção Científica, é um conto nada tradicional. Fragmentário e fragmentado, sem história mas cheio de história e também de História, fala sobre viagens no tempo, sobre as suas consequências e problemas, mas sobretudo fala do presente do particular momento histórico em que foi escrito (1973, para quem tiver preguiça de seguir o link ali em cima) e do país em que foi escrito. Um momento turbulento na história americana, com a Guerra do Vietname ainda a decorrer mas já a ser ganha pelo Vietcong, marcado por uma violenta colisão entre visões do mundo diametralmente opostas, no qual uma significativa corrente, constatando o ponto miserável a que as velhas formas de agir tinham levado os EUA e o mundo, procurava alternativas. Neste conto, Silverberg fala de alterar a História, mas na verdade é da História que fala, e do que fez com que ela fosse o que foi, mas sobretudo fala dessa busca por alternativas. Não é conto para qualquer pessoa, mas quem o souber enquadrar no tempo e no espaço provavelmente gostará.
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Harrison
E lá se foi o Harry Harrison, mais um velhinho da ficção científica. Aos 87 anos. Nestas idades, a morte não é nem chocante nem inesperada, bem pelo contrário, e o género, que, apesar de haver quem o queira restringir ao tempo e ao estilo de Campbell, já é mais que centenário, já perdeu e irá continuar a perder os seus praticantes mais idosos com toda a naturalidade. Harrison era um deles e chegou a sua hora. Ad astra.
Quem quer saber o que ele foi, para a FC e não só, leia este artigo do Carlos Orsi. Está lá tudo. Escuso de reinventar a roda. Mas quero manifestar aqui algo que já manifestei no twitter.
Cada um gosta do que gosta. Ponto. É assim que as coisas são, e ainda bem que assim são. Mas entristece-me que haja tanta gente a gostar de merdas descartáveis, fúteis e estúpidas, enquanto bons autores como o Harrison acabam a vida esquecidos por quase todos. Entristece-me ver os Harrisons deste mundo sumir-se na obscuridade, enquanto as Meyers e as EL James e tantas outras escritoras e escritores de treta ficam milionários. Entristece-me ver que foi preciso morrer para o Harry Harrison encontrar um cantinho na lista de autores mencionados ao longo dos últimos meses por quem fala de ficção científica literária na internet em português. Nisso, também eu sou culpado: apesar de ter lido vários dos seus livros, já se passaram muitos anos desde que li o último. Tantos anos, na verdade, que nunca cheguei a falar de nenhum deles, seja aqui na Lâmpada, seja no E-nigma.
Harrison está razoavelmente bem publicado em Portugal. Tem livros publicados pelos Livros do Brasil (na Argonauta, claro), pela Caminho e pela Gradiva. Mas há já um par de décadas que ninguém publica nada dele, e é pena. Porque foi um bom autor de FC, por vezes um autor muito bom, outras vezes um autor hilariante. Dos livros que li, aquele de que gostei mais foi À Beira do Fim, um soberbo romance sobre a sobrepovoação e os perigos que ela acarreta. Datado? Sim, um pouco. Mas mesmo datado é um romance que devia ser obrigatório para ver se as pessoas percebem melhor certos fenómenos bem presentes no nosso presente. Não é literatura da treta. É literatura relevante. Ou que o devia ser, pelo menos.
Talvez a morte do homem sirva para que haja quem redescubra o autor ou o descubra pela primeira vez. É um fenómeno comum, que costuma repugnar-me. Mas neste caso parece-me que seria bom.
Quem quer saber o que ele foi, para a FC e não só, leia este artigo do Carlos Orsi. Está lá tudo. Escuso de reinventar a roda. Mas quero manifestar aqui algo que já manifestei no twitter.
Cada um gosta do que gosta. Ponto. É assim que as coisas são, e ainda bem que assim são. Mas entristece-me que haja tanta gente a gostar de merdas descartáveis, fúteis e estúpidas, enquanto bons autores como o Harrison acabam a vida esquecidos por quase todos. Entristece-me ver os Harrisons deste mundo sumir-se na obscuridade, enquanto as Meyers e as EL James e tantas outras escritoras e escritores de treta ficam milionários. Entristece-me ver que foi preciso morrer para o Harry Harrison encontrar um cantinho na lista de autores mencionados ao longo dos últimos meses por quem fala de ficção científica literária na internet em português. Nisso, também eu sou culpado: apesar de ter lido vários dos seus livros, já se passaram muitos anos desde que li o último. Tantos anos, na verdade, que nunca cheguei a falar de nenhum deles, seja aqui na Lâmpada, seja no E-nigma.
Harrison está razoavelmente bem publicado em Portugal. Tem livros publicados pelos Livros do Brasil (na Argonauta, claro), pela Caminho e pela Gradiva. Mas há já um par de décadas que ninguém publica nada dele, e é pena. Porque foi um bom autor de FC, por vezes um autor muito bom, outras vezes um autor hilariante. Dos livros que li, aquele de que gostei mais foi À Beira do Fim, um soberbo romance sobre a sobrepovoação e os perigos que ela acarreta. Datado? Sim, um pouco. Mas mesmo datado é um romance que devia ser obrigatório para ver se as pessoas percebem melhor certos fenómenos bem presentes no nosso presente. Não é literatura da treta. É literatura relevante. Ou que o devia ser, pelo menos.
Talvez a morte do homem sirva para que haja quem redescubra o autor ou o descubra pela primeira vez. É um fenómeno comum, que costuma repugnar-me. Mas neste caso parece-me que seria bom.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Lido: Only Partly Here
Only Partly Here é uma noveleta de Lucius Shepard sobre o 11 de Setembro. Ou melhor: sobre aquilo que os novaiorquinos e os americanos em geral sentiam nos meses que se seguiram aos atentados. Apesar da publicação em que vem inserida ser uma revista de FC, esta história nada tem de FC (embora seja uma história fantástica). É uma história muito concreta sobre pessoas muito concretas, afetadas até ao âmago por um acontecimento que lhes caiu em cima com o peso de uma montanha.
O protagonista é um dos trabalhadores que passaram meses na zona de impacto a remover o entulho e os bocados de corpos em que as Torres Gémeas se transformaram, e a história passa-se quase toda num bar, onde este vai passar alguns momentos de descontração com os colegas, depois do trabalho, e onde conhece uma mulher misteriosa com quem vai encetar uma relação. Shepard usa este cenário para criar um retrato de dinâmica disfuncional nas relações entre pessoas profundamente traumatizadas, numa espécie de exorcismo dos fantasmas deixados pelos atentados. E fá-lo com uma prosa elegante e rica, na qual mistura muito bem o oralismo dos diálogos. O resultado é um conto francamente bom.
Outra questão é se terá sido publicado na publicação mais adequada para ele. Afinal de contas, na Asimov's os leitores esperam encontrar FC, não contos basicamente mainstream com um pé no realismo mágico. Pode ter alienado alguns leitores mais puristas no que toca ao género, e certamente perdeu muitos outros que desdenham a FC. Mas no fundo, o que conta é a obra. E essa é boa.
Textos anteriores desta publicação:
O protagonista é um dos trabalhadores que passaram meses na zona de impacto a remover o entulho e os bocados de corpos em que as Torres Gémeas se transformaram, e a história passa-se quase toda num bar, onde este vai passar alguns momentos de descontração com os colegas, depois do trabalho, e onde conhece uma mulher misteriosa com quem vai encetar uma relação. Shepard usa este cenário para criar um retrato de dinâmica disfuncional nas relações entre pessoas profundamente traumatizadas, numa espécie de exorcismo dos fantasmas deixados pelos atentados. E fá-lo com uma prosa elegante e rica, na qual mistura muito bem o oralismo dos diálogos. O resultado é um conto francamente bom.
Outra questão é se terá sido publicado na publicação mais adequada para ele. Afinal de contas, na Asimov's os leitores esperam encontrar FC, não contos basicamente mainstream com um pé no realismo mágico. Pode ter alienado alguns leitores mais puristas no que toca ao género, e certamente perdeu muitos outros que desdenham a FC. Mas no fundo, o que conta é a obra. E essa é boa.
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Lido: A Noite e o Sobressalto
A Noite e o Sobressalto é o livro de estreia de Pedro Medina Ribeiro. Trata-se de uma coletânea de contos de horror, fortemente inspirada pela obra de Poe e de outros autores fantásticos do século XIX. Não só os temas e ambientes são quase invariavelmente novecentistas, como o próprio estilo que o autor emprega também o é. Os contos leem-se como se tivessem sido escritos há cem anos ou mais. Talvez por uma necessidade de emular os mestres, talvez por decisão consciente de fazer um pastiche, o que é certo é que ao acabar a leitura a sensação que fica é de não se saber onde está Pedro Medina Ribeiro. É que nestas páginas ele escasseia.
Os contos, em si, não são maus. Vários até estão bem concebidos, com reviravoltas de enredo interessantes e uma escrita que, não sendo perfeita, mostrando aqui e ali sinais de alguma inexperiência ou de insuficiente revisão, é contudo competente. Simples, mas quase sempre eficaz. Mas a verdade é que aquilo que Ribeiro aqui fez já tinha sido feito, e melhor, pelos precisos mestres que ele procura emular. Há cem anos ou mais. E, entre eles e nós, há milhões de páginas de literatura que Ribeiro pura e simplesmente decidiu ignorar. É uma opção, suponho. Mas é uma opção criticável e que a mim, pessoalmente, desagrada.
Mas o pior é mesmo a ausência do autor nestas páginas. Sim, é verdade que ao escrever se começa sempre pela cópia, mas tem de chegar um momento em que se arranja uma voz própria, caso contrário a coisa não funciona a contento. De preferência antes de publicar um livro. Ora, essa voz, aqui, só com dificuldade se vislumbra nos interstícios da cópia/pastiche/seja o que for. E isso faz com que o livro, que até tem qualidades suficientes para não ser um livro mau, também não seja bom. É mediano.
Pedro Medina Ribeiro, parece-me, tem talento. Não sei se muito, se pouco, mas ele parece-me estar lá. Mas se a melhor coisa que se pode dizer do que alguém escreve é que "lembra Fulano", há algo que não está a fazer bem. Portanto, só se Ribeiro se libertar das influências para ser ele próprio poderá ser mais do que alguém com algum talento que escreve umas coisas parecidas com as de outros. Só assim poderá ser realmente Pedro Medina Ribeiro, alguém que escreve coisas suas.
Vamos ter de esperar pelas próximas obras para ver se chega lá. Nesta não chegou. E eu não terei desgostado dela, propriamente, mas também não gostei.
Eis o que achei de cada um dos contos:
Este livro foi comprado.
Os contos, em si, não são maus. Vários até estão bem concebidos, com reviravoltas de enredo interessantes e uma escrita que, não sendo perfeita, mostrando aqui e ali sinais de alguma inexperiência ou de insuficiente revisão, é contudo competente. Simples, mas quase sempre eficaz. Mas a verdade é que aquilo que Ribeiro aqui fez já tinha sido feito, e melhor, pelos precisos mestres que ele procura emular. Há cem anos ou mais. E, entre eles e nós, há milhões de páginas de literatura que Ribeiro pura e simplesmente decidiu ignorar. É uma opção, suponho. Mas é uma opção criticável e que a mim, pessoalmente, desagrada.
Mas o pior é mesmo a ausência do autor nestas páginas. Sim, é verdade que ao escrever se começa sempre pela cópia, mas tem de chegar um momento em que se arranja uma voz própria, caso contrário a coisa não funciona a contento. De preferência antes de publicar um livro. Ora, essa voz, aqui, só com dificuldade se vislumbra nos interstícios da cópia/pastiche/seja o que for. E isso faz com que o livro, que até tem qualidades suficientes para não ser um livro mau, também não seja bom. É mediano.
Pedro Medina Ribeiro, parece-me, tem talento. Não sei se muito, se pouco, mas ele parece-me estar lá. Mas se a melhor coisa que se pode dizer do que alguém escreve é que "lembra Fulano", há algo que não está a fazer bem. Portanto, só se Ribeiro se libertar das influências para ser ele próprio poderá ser mais do que alguém com algum talento que escreve umas coisas parecidas com as de outros. Só assim poderá ser realmente Pedro Medina Ribeiro, alguém que escreve coisas suas.
Vamos ter de esperar pelas próximas obras para ver se chega lá. Nesta não chegou. E eu não terei desgostado dela, propriamente, mas também não gostei.
Eis o que achei de cada um dos contos:
Este livro foi comprado.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Lido: Liscon 2060
Liscon 2060 (bib.), conto curto de ficção científica de João Barreiros, é uma espécie de avô de Fantascom. Mas um avô muito melhor que o neto. Trata-se também de uma sátira centrada na relação entre a literatura de que Barreiros gosta e aquela de que não gosta, e também de novo visa em especial uma pessoa que quem esteja atento ao fandom português de FC&F depressa reconhece. Este é, aliás, um conto particularmente polémico: o visado ofendeu-se e as ondas de choque desse ataque e consequente ofensa fazem-se sentir até hoje, mais que uma década depois da sua publicação original. Mas pondo isso de parte, lendo este conto percebe-se bem o quão medíocre é Fantascom. Porque Liscon 2060 é um Fantascom em estado concentrado, eficaz, com tudo no sítio certo, no qual a escrita nervosa de Barreiros é congruente com a história nervosa que conta, sem nada daquela história empastelada que não avança por páginas e páginas, a história de um autor de FC que tem de fazer uma perigosíssima viagem do Porto a Lisboa para apresentar uma sua obra a um congresso literário, num Portugal futuro em que as Beiras foram invadidas e dominadas por uma biosfera alienígena hiperpredatória mas os preconceitos literários estão tão vivos como hoje em dia. Ou talvez mais ainda.
Ataques pessoais à parte, este é um dos bons contos da FC portuguesa.
Contos anteriores desta publicação:
Ataques pessoais à parte, este é um dos bons contos da FC portuguesa.
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quarta-feira, 8 de agosto de 2012
E ele cresce...
Parece que foi ontem que falei pela última vez do Infinitamente Improvável aqui na Lâmpada, mas a verdade é que não foi. Se fosse ontem, o mais certo seria o site estar precisamente na mesma; como não foi, não está. Na verdade, duplicou de tamanho desde então. Em vez dos cinco contos que tinha naquela altura, tem agora dez.
Começou por crescer com um continho meu, Testemunhas, sobre umas ovelhinhas que me vieram bater à porta enquanto eu estava a almoçar. É uma coisa que me chateia, que ovelhas me venham bater à porta enquanto eu estou a almoçar, de modo que escrevi o conto. Depois, mantendo-se em volta das refeições (o que já é uma forma de diálogo, suponho), cresceu com um continho do Tiago Martins Gama, adequadamente intitulado O Jantar, sobre um momento de perplexidade familiar. Seguiu-se O Gafanhoto, um conto um pouco mais extenso, de Álvaro de Sousa Holstein, no qual Zeus, ou algo por ele, resolve proteger a bicharada rastejante da forma mais radical possível. O conto seguinte veio do Brasil, o que fica claro logo no título: O Pacto Macabro da Velha Antonha. Ôxente! Parece que vem lá coisa braba, visse? E veio mesmo, que o Afonso Luiz Pereira faz um belo tratamento do dialeto nordestino que forçou aqui o pobre editor a matutar sobre como fazer com que algo de semelhante a notas de rodapé funcionasse em hipertexto. Acho que não me saí mal da empreitada, mas o importante é mesmo o conto. E por falar em conto, já só falta falar aqui do décimo, A Rapariga de Areia, de G. B. Nunes. É um conto que se vai inspirar no realismo mágico e, provavelmente, na época estival que atravessamos.
São todos contos que se enquadram na proposta do zine: escrever sobre o infinitamente improvável. Mas confesso que, tomados em conjunto, não estão a corresponder inteiramente ao que eu tinha em mente para o zine. Ainda não decidi se acho isso bom ou não. Seja como for, não vou recusar bons contos que respeitam a proposta só porque não a respeitam exatamente como eu estava à espera. O máximo que farei, se o chegar a fazer, será publicar contos meus que se aproximem mais do que queria, para ver se inspiram a malta.
E, por falar nisso, continua sem haver o tal diálogo. Tirando a coincidência de terem sido publicados consecutivamente dois contos com ambientes domésticos e centrados em refeições (e não passa de coincidência; o conto do Tiago já estava escrito antes do meu ser publicado), não me chegou ainda nenhum inspirado noutro dos contos II. Os motivos? Vocês saberão quais são. Mas o que eu quero mesmo saber é: quem será o primeiro a atrever-se? Hm? Quem será o destemido?
Não me obriguem a ser eu, vá lá.
Começou por crescer com um continho meu, Testemunhas, sobre umas ovelhinhas que me vieram bater à porta enquanto eu estava a almoçar. É uma coisa que me chateia, que ovelhas me venham bater à porta enquanto eu estou a almoçar, de modo que escrevi o conto. Depois, mantendo-se em volta das refeições (o que já é uma forma de diálogo, suponho), cresceu com um continho do Tiago Martins Gama, adequadamente intitulado O Jantar, sobre um momento de perplexidade familiar. Seguiu-se O Gafanhoto, um conto um pouco mais extenso, de Álvaro de Sousa Holstein, no qual Zeus, ou algo por ele, resolve proteger a bicharada rastejante da forma mais radical possível. O conto seguinte veio do Brasil, o que fica claro logo no título: O Pacto Macabro da Velha Antonha. Ôxente! Parece que vem lá coisa braba, visse? E veio mesmo, que o Afonso Luiz Pereira faz um belo tratamento do dialeto nordestino que forçou aqui o pobre editor a matutar sobre como fazer com que algo de semelhante a notas de rodapé funcionasse em hipertexto. Acho que não me saí mal da empreitada, mas o importante é mesmo o conto. E por falar em conto, já só falta falar aqui do décimo, A Rapariga de Areia, de G. B. Nunes. É um conto que se vai inspirar no realismo mágico e, provavelmente, na época estival que atravessamos.
São todos contos que se enquadram na proposta do zine: escrever sobre o infinitamente improvável. Mas confesso que, tomados em conjunto, não estão a corresponder inteiramente ao que eu tinha em mente para o zine. Ainda não decidi se acho isso bom ou não. Seja como for, não vou recusar bons contos que respeitam a proposta só porque não a respeitam exatamente como eu estava à espera. O máximo que farei, se o chegar a fazer, será publicar contos meus que se aproximem mais do que queria, para ver se inspiram a malta.
E, por falar nisso, continua sem haver o tal diálogo. Tirando a coincidência de terem sido publicados consecutivamente dois contos com ambientes domésticos e centrados em refeições (e não passa de coincidência; o conto do Tiago já estava escrito antes do meu ser publicado), não me chegou ainda nenhum inspirado noutro dos contos II. Os motivos? Vocês saberão quais são. Mas o que eu quero mesmo saber é: quem será o primeiro a atrever-se? Hm? Quem será o destemido?
Não me obriguem a ser eu, vá lá.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Lido: Teorema
Teorema (bib.), de Herberto Helder, é um estranho, mas eficaz, conto curto que joga com o tempo e com as noções de crueldade, de bem e de mal. Na aparência mais superficial, trata-se de um conto de tribunal, embora este seja um tribunal medieval presidido por D. Pedro I, de cognome O Cruel, e o conto seja narrado por um acusado que, nas suas próprias palavras, "gosta bastante deste rei". Ou seja: vê-o como uma espécie de irmão espiritual; revê-se na sua crueldade. Mas o conto está repleto de anacronismos, que julgo serem uma forma do autor dizer que o que então se terá passado e ali relata passou-se igualmente em todas as épocas, das mais remotas às mais modernas. E termina em pleno horror, bastante sangrento por sinal. O mal, talvez seja esse o teorema que Helder se propõe provar, é omnipresente e eterno, e acomete igualmente pessoas de baixa extração social e os ricos e poderosos que as desprezam.
Não sendo daqueles contos que me enchem as medidas, este Teorema pareceu-me francamente bom, com muita leitura para tão curta prosa.
Não sendo daqueles contos que me enchem as medidas, este Teorema pareceu-me francamente bom, com muita leitura para tão curta prosa.
Lido: Mistério
Mistério (bib.) é uma vinheta de Bruce Holland Rogers que começa logo por dizer ao que vem. "Este é um mistério policial", diz, logo a abrir. Mas depois prossegue, fazendo fintas ao leitor, enquanto descreve a cena. Sempre que julgamos já ter percebido o que se passa, de que tipo de mistério ali se fala, não é bem isso, é outra coisa. E depois, esta história que não tem muito de fantástica deixa um sorriso no rosto mas apesar disso não julgo que seja das melhores de Rogers. Ah, sim, e há qualquer coisa a respeito de cores.
domingo, 5 de agosto de 2012
Lido: A Herança
A Herança é uma noveleta de Pedro Medina Ribeiro que me deixou particularmente ambivalente. De novo em toada novecentista, mesmo vitoriana, tanto no tema como no próprio estilo literário que o autor emprega, conta uma história centrada na comunidade de armadores navais londrinos, dominada por um deles, indivíduo particularmente intratável que a todos odeia e que todos odeiam, e uma herança que deixa aos demais após morrer em circunstâncias misteriosas: detalhadas miniaturas dos barcos que os outros possuem, daquelas que se costumam ver dentro de garrafas.
Apesar de a princípio parecer excessivamente previsível, porque se torna demasiado fácil adivinhar o motivo por que o tal armador terá deixado aos demais as miniaturas, a história acaba por ter interesse pois, embora a princípio pareça, esse motivo não é o centro da trama, ou pelo menos não o é da forma que o leitor está à espera. Por aí, portanto, muito bem. O problema é que esta história foi aquela que me pareceu menos bem escrita, ou talvez menos bem revista. Há gralhas ou pequenas falhas de português aqui e ali, há uma personagem que "está remetida ao seu proverbial silêncio" logo depois de largar uma tirada em latim, há coisas assim, que não permitem a devida fruição da história.
E há aquele estilo em pastiche/homenagem dos escritores fantásticos do século XIX. É uma opção, talvez, e se o for até está bem conseguida. Mas decididamente não me agrada.
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Apesar de a princípio parecer excessivamente previsível, porque se torna demasiado fácil adivinhar o motivo por que o tal armador terá deixado aos demais as miniaturas, a história acaba por ter interesse pois, embora a princípio pareça, esse motivo não é o centro da trama, ou pelo menos não o é da forma que o leitor está à espera. Por aí, portanto, muito bem. O problema é que esta história foi aquela que me pareceu menos bem escrita, ou talvez menos bem revista. Há gralhas ou pequenas falhas de português aqui e ali, há uma personagem que "está remetida ao seu proverbial silêncio" logo depois de largar uma tirada em latim, há coisas assim, que não permitem a devida fruição da história.
E há aquele estilo em pastiche/homenagem dos escritores fantásticos do século XIX. É uma opção, talvez, e se o for até está bem conseguida. Mas decididamente não me agrada.
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sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Lido: Os Sonhos do Jovem Rei
Os Sonhos do Jovem Rei é um conto de Oscar Wilde, em toada de conto de fadas, que no entanto tem um substrato político muito forte. Um príncipe, em vésperas de ser coroado rei, é apresentado como um esteta, desligado do mundo, absorvido apenas com a busca da beleza nas coisas que o rodeiam. Mas eis que a dada altura algo lhe acontece: começa a visitar em sonhos as vidas de alguns dos seus súbditos que contribuem com trabalho, suor e cansaço para o fausto e o luxo de que desfruta, fabricando e recolhendo os apetrechos do poder. E, tomando consciência do privilégio em que vive e da dureza das vidas de quem para si trabalha, fica chocado e decide renunciar a tudo, o que vai ter consequências que não esperava. No fim, são os mais pobres dos pobres que o fazem mudar de ideias e regressar ao fausto.
A mensagem é altamente conservadora: sim, há desigualdade e injustiça, sim, há dor e sofrimento entre os desfavorecidos e luxo e divertimento entre os favorecidos, sim, tudo isso é verdade, mas as coisas são como são porque assim têm de ser, porque alguém tem de governar, porque alguém tem de viver bem para que os outros tenham algumas migalhas de que viver. É um conto de um privilegiado a afagar as consciências, a sua e as dos outros privilegiados, seus leitores, como quem diz: "é horrível, bem sei, coitados dos pobrezinhos, mas sem nós eles morreriam à fome portanto ainda bem que existimos e temos tudo". Ajuizando por esta história, se fosse vivo e português, hoje, Wilde votaria no CDS.
Mas é um bom conto. Detesto a mensagem, não gosto das divagações estéticas do dândi, mas o conto é bom.
A mensagem é altamente conservadora: sim, há desigualdade e injustiça, sim, há dor e sofrimento entre os desfavorecidos e luxo e divertimento entre os favorecidos, sim, tudo isso é verdade, mas as coisas são como são porque assim têm de ser, porque alguém tem de governar, porque alguém tem de viver bem para que os outros tenham algumas migalhas de que viver. É um conto de um privilegiado a afagar as consciências, a sua e as dos outros privilegiados, seus leitores, como quem diz: "é horrível, bem sei, coitados dos pobrezinhos, mas sem nós eles morreriam à fome portanto ainda bem que existimos e temos tudo". Ajuizando por esta história, se fosse vivo e português, hoje, Wilde votaria no CDS.
Mas é um bom conto. Detesto a mensagem, não gosto das divagações estéticas do dândi, mas o conto é bom.
Lido: O Templo da Ficção Científica
O Templo da Ficção Científica (bib.), conto de FC de Robert Silverberg, é uma magnífica homenagem irónica à ficção científica, e acima de tudo à ficção científica da idade de ouro, e também uma reflexão bastante profunda sobre a psicologia do fã de FC. Estruturalmente, o conto é sofisticado, entrecortando a história principal (ou a não-história, visto que esta consiste basicamente em reflexões e reminiscências do protagonista) com fragmentos de histórias de FC, ou até mini-contos completos, as quais fazem uso abundante dos mais usuais clichés do género. Assim, Silverberg consegue pintar um retrato do género, ainda que algo caricatural, ao mesmo tempo que põe o protagonista a contar a vivência de um fã de FC americano dos anos 60/70 do século passado e a analisar o que tanto o atrai nessas histórias. O resultado é uma espécie de declaração de amor crítico em que julgo que qualquer verdadeiro fã de FC se conseguirá rever. É, claramente, um conto de um fã para fãs, pejado de referências que quem está de fora dificilmente compreenderá, ainda que não me pareça que seja difícil compreender o protagonista propriamente dito. Muito bom.
Conto anterior desta publicação:
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domingo, 29 de julho de 2012
Lido: Cycle
Cycle é um bizarro poeminha de Bonita Kale sobre uma máquina de lavar roupa daquelas das lavandarias self-service, apaixonada por um rapazinho que lhe enfia as moedas na ranhura, com roçadelas e vibrações eróticas à mistura. Não achei grande coisa, confesso, e tampouco vi nele grande coisa da FC que se esperaria encontrar na Asimov's.
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sexta-feira, 27 de julho de 2012
Lido: Contos Espantosos
Contos Espantosos é uma pequena antologia que reúne quatro contos novecentistas, três dos quais fantásticos e um quarto que se aproxima mais do insólito, embora seja no fundamental um conto mainstream. Todos de autores de grande qualidade, referências nas literaturas francesa e americana, os contos são quatro belos exemplos da arte de contar histórias, e mostram traduções que não os desmerecem. Quando vistos como um todo, a uniformidade de época e, até certo ponto, de abordagem, gera um conjunto coeso. E se somarmos tudo isto, o resultado é uma antologia que se revela francamente boa, embora breve. Gostei bastante.
Eis o que achei dos contos, um a um:
Este livro foi comprado.
Eis o que achei dos contos, um a um:
Este livro foi comprado.
Lido: No Restaurante
No Restaurante (bib.), vinheta fantástica de Ana Hatherly, tem na subtileza o seu ponto forte. Numa prosa elaborada, burilada, parte duma situação banal — alguém que observa uma mulher nas suas visitas rotineiras a um determinado restaurante — e leva o leitor a recuar pelo tempo fora, transformando a mulher noutras mulheres de outras épocas e lugares, sem no entanto a fazer deixar de ser ela própria. É uma pequena história sem grande história, com muito de surreal, mas sobretudo com muito de poético. Com muito mais forma do que conteúdo, na verdade, o que à partida, dir-se-ia, a afastaria dos meus gostos. Mas a verdade é que a forma é tão perfeita, o artifício literário está tão bem executado, que acabei por gostar bastante deste continho. Muito bom.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Lido: Don Ysidro
Don Ysidro (bib.) é mais um continho fantasmagórico de Bruce Holland Rogers. Desta feita ambientado no México, é contado em primeira pessoa por um artesão muito conhecido pelos seus trabalhos em cerâmica, que se encontra moribundo. E depois morre, transformando-se em fantasma. Não contarei o resto da história, mas digo que está escrita com a mestria habitual de Rogers, e que o que acontece ao fantasma é curioso, mesmo não me tendo agradado tanto como algumas das anteriores.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Lido: Os Jogos do Capricórnio
Os Jogos do Capricórnio (bib.) é um conto de Robert Silverberg que carrega consigo, em cada página, as marcas da época em que foi escrito, o início dos anos 70. Muito literário, é lídimo representante da ficção científica New Wave, tanto no que ela teve de bom como no que teve de menos bom. O conto passa-se todo numa festa de gente fina, no futurista (à época) ano de 1999, cujos principais motivos de interesse são a presença de um homem multicentenário, possivelmente imortal, e de um telepata. No fundo, hoje este conto seria mais depressa visto como fantasia urbana do que como ficção científica.
O tom é mais fútil do que introspetivo, como cai bem ao ambiente. Mesmo assim, Silverberg, com um estilo quase psicadélico, consegue roçar por uma reflexão sobre a mortalidade humana, ainda que pouco aprofundada, e a sua prosa é tão evocativa que é até capaz de chegar ao leitor através dos estragos que o nosso velho amigo Euriico da Fonseca lhe causa. Mesmo não tendo gostado muito do conto não consegui evitar perguntar a mim próprio como se leria ele bem traduzido, ou no original, porque me pareceu que a sua principal força está, precisamente, no tratamento da língua, não no enredo, personagens ou ambiente.
O tom é mais fútil do que introspetivo, como cai bem ao ambiente. Mesmo assim, Silverberg, com um estilo quase psicadélico, consegue roçar por uma reflexão sobre a mortalidade humana, ainda que pouco aprofundada, e a sua prosa é tão evocativa que é até capaz de chegar ao leitor através dos estragos que o nosso velho amigo Euriico da Fonseca lhe causa. Mesmo não tendo gostado muito do conto não consegui evitar perguntar a mim próprio como se leria ele bem traduzido, ou no original, porque me pareceu que a sua principal força está, precisamente, no tratamento da língua, não no enredo, personagens ou ambiente.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Lido: O Barril de Amontillado
O Barril de Amontillado (bib.) é um dos contos de Edgar Allan Poe que mais aparece em coletâneas do autor e antologias, um dos seus grandes clássicos. Não será surpreendente, portanto, que esta tenha sido uma releitura, e até que já tenha falado do conto na Lâmpada. Por vezes, as releituras trazem algo de novo, pormenores que as leituras anteriores neglicenciaram, coisas assim. Mas desta vez não. Nada tenho de significativo a acrescentar ao que escrevi há dois anos.
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domingo, 22 de julho de 2012
Lido: Shepherded by Galatea
Shepherded by Galatea é uma noveleta de ficção científica bem dura, de Alex Irvine, cujo protagonista é um mineiro de diamantes em Neptuno. Começa com um imenso infodump sobre as condições ambientais no quarto gigante gasoso e o funcionamento da nave mineira que o protagonista pilota, o qual se lê quase como um manual técnico. Sim, o infodump não se limita a ser imenso; também é muito aborrecido. Normalmente, os autores que optam por despejar informação desta forma fazem-no por falta de habilidade e talento, mas não creio que seja propriamente o caso de Irvine. Pareceu-me que neste conto a ideia foi algo como "OK, vamos ver-nos livres desta parte logo de início para podermos contar a história decentemente depois." Ou seja, creio que se trata de estratégia, não de azelhice. Uma estratégia arriscada, mas que compensou o suficiente para ele se ver publicado numa boa revista do género. E a história que conta depois do infodump tem, de facto, algum interesse.
Mesmo assim, não gostei muito. Por causa do infodump, claro, mas não só. Também porque na história de Irvine os mineiros arriscam a nave e a vida a cada mergulho na atmosfera de Neptuno e me custa ultrapassar a inverosimilhança inerente a ter naves tripuladas a fazer um trabalho que sairia muito mais barato e seria muito mais seguro e até, provavelmente, mais eficiente, fazer com robôs. Por outras palavras, não vejo grande sentido na premissa básica, e esse sentido tem tanto mais importância quanto mais dura a FC pretende ser. E também porque a história que é contada depois do infodump tem algum interesse, mas não assim tanto quanto isso. Tem até muito de banal: há um triângulo amoroso, há mentalidade e atitudes de fronteira, há heroísmo e superação, há uma série de coisas já muito vistas, noutras histórias, e não só de FC. A originalidade está na mistura dos ingredientes, não nos ingredientes em si mesmos. E isso é pouco para compensar os defeitos da história. Esta não me parece que ultrapasse a mediania.
Texto anterior desta publicação:
Mesmo assim, não gostei muito. Por causa do infodump, claro, mas não só. Também porque na história de Irvine os mineiros arriscam a nave e a vida a cada mergulho na atmosfera de Neptuno e me custa ultrapassar a inverosimilhança inerente a ter naves tripuladas a fazer um trabalho que sairia muito mais barato e seria muito mais seguro e até, provavelmente, mais eficiente, fazer com robôs. Por outras palavras, não vejo grande sentido na premissa básica, e esse sentido tem tanto mais importância quanto mais dura a FC pretende ser. E também porque a história que é contada depois do infodump tem algum interesse, mas não assim tanto quanto isso. Tem até muito de banal: há um triângulo amoroso, há mentalidade e atitudes de fronteira, há heroísmo e superação, há uma série de coisas já muito vistas, noutras histórias, e não só de FC. A originalidade está na mistura dos ingredientes, não nos ingredientes em si mesmos. E isso é pouco para compensar os defeitos da história. Esta não me parece que ultrapasse a mediania.
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sexta-feira, 20 de julho de 2012
Lido: Fantascom
Fantascom (bib.) é uma muito longa sátira de ficção científica, de João Barreiros, ambientada numa convenção de fantasia numa Lisboa futura e alternativa na qual a fantasia é o género literário por excelência, e os escritores que a escrevem são superestrelas. Especialmente um escritor, claramente inspirado em Filipe Faria.
Nesta novela, Barreiros diverte-se a gozar com Faria, com a fantasia enquanto género, com os editores, com os fãs, até consigo próprio e com os amigos que qualquer pessoa minimamente atenta ao fandom identifica sem nenhuma dificuldade e que constituem um grupo de "anarco-terroristas", escritores de FC frustrados e sem público, que procuram, naturalmente, destruir tudo. Fá-lo para se divertir, sim, mas também para transmitir as suas ideias sobre a relação entre a FC e a fantasia, os leitores e as editoras, enfim, o meio em que se move literariamente há algumas décadas.
O problema é que qualquer pessoa minimamente atenta ao fandom já está farta de conhecer essas ideias. Porque assomam à superfície à mais leve oportunidade e porque há pelo menos vinte anos que se mantém inalteráveis. E isto é problema porque contribui para tornar a história chata. Não está em causa concordar-se com elas ou não — pessoalmente, concordo com algumas, e acho outras perfeitamente disparatadas — apenas a repetição, o reiterar da mesma conversa de sempre, a total ausência de novidades.
E não é só isso a tornar a história chata. As personagens, compreensivelmente caricaturais numa história como esta são, todavia, adjetivadas de forma desnecessariamente repetitiva. Uma é sempre cruel, outra invariavelmente bondosa, outra não aparece sem que esteja a comer ou tenha acabado de o fazer, entre arrotos, e etc. Mas pior é a quase ausência de história ao longo de muitas, muitas páginas. O Barreiros de antigamente, com as suas histórias repletas de uma ação quase barroca, só assoma à superfície perto do fim; o resto é um nunca acabar de descrições e conversas em que quase nada acontece.
Cada um destes problemas, individualmente, seria coisa de pouca monta. Mas juntos tornam este texto medíocre. Reduzido a metade, concentrado, podia ter sido um bom conto, talvez até excelente; assim, está muito longe disso. E ainda é piorado por uma péssima revisão, que deixa passar dezenas de calinadas. Página sim, página não, mais coisa menos coisa, lá vem uma daquelas de torcer o nariz, quando não é mesmo de bradar aos céus. Pura e simplesmente não é desculpável que palavras como "começe" acabem publicadas. Já não o era antes de todos os computadores estarem equipados com corretores ortográficos, e muito menos o é agora que estão.
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Nesta novela, Barreiros diverte-se a gozar com Faria, com a fantasia enquanto género, com os editores, com os fãs, até consigo próprio e com os amigos que qualquer pessoa minimamente atenta ao fandom identifica sem nenhuma dificuldade e que constituem um grupo de "anarco-terroristas", escritores de FC frustrados e sem público, que procuram, naturalmente, destruir tudo. Fá-lo para se divertir, sim, mas também para transmitir as suas ideias sobre a relação entre a FC e a fantasia, os leitores e as editoras, enfim, o meio em que se move literariamente há algumas décadas.
O problema é que qualquer pessoa minimamente atenta ao fandom já está farta de conhecer essas ideias. Porque assomam à superfície à mais leve oportunidade e porque há pelo menos vinte anos que se mantém inalteráveis. E isto é problema porque contribui para tornar a história chata. Não está em causa concordar-se com elas ou não — pessoalmente, concordo com algumas, e acho outras perfeitamente disparatadas — apenas a repetição, o reiterar da mesma conversa de sempre, a total ausência de novidades.
E não é só isso a tornar a história chata. As personagens, compreensivelmente caricaturais numa história como esta são, todavia, adjetivadas de forma desnecessariamente repetitiva. Uma é sempre cruel, outra invariavelmente bondosa, outra não aparece sem que esteja a comer ou tenha acabado de o fazer, entre arrotos, e etc. Mas pior é a quase ausência de história ao longo de muitas, muitas páginas. O Barreiros de antigamente, com as suas histórias repletas de uma ação quase barroca, só assoma à superfície perto do fim; o resto é um nunca acabar de descrições e conversas em que quase nada acontece.
Cada um destes problemas, individualmente, seria coisa de pouca monta. Mas juntos tornam este texto medíocre. Reduzido a metade, concentrado, podia ter sido um bom conto, talvez até excelente; assim, está muito longe disso. E ainda é piorado por uma péssima revisão, que deixa passar dezenas de calinadas. Página sim, página não, mais coisa menos coisa, lá vem uma daquelas de torcer o nariz, quando não é mesmo de bradar aos céus. Pura e simplesmente não é desculpável que palavras como "começe" acabem publicadas. Já não o era antes de todos os computadores estarem equipados com corretores ortográficos, e muito menos o é agora que estão.
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quinta-feira, 19 de julho de 2012
Mais dois contos no II
Desde que falei dele, aqui, o Infinitamente Improvável cresceu. Recebeu uma vinheta de João Ventura, Sem Maneiras, sobre... bem... sobre excessos e as suas consequências, numa escala verdadeiramente cósmica. E uma noveleta (sim, sim, noveleta) de Tibor Moricz, a primeira participação brasileira. Esta, intitulada Variável da Imponderabilidade, é uma história de ficção científica que nos apresenta uma sociedade organizada de forma infinitamente improvável e nos mostra aquilo que um homem tem de fazer para ganhar as eleições. Ou não.
Contava ter por esta altura duas ou três histórias lá publicadas. Tenho cinco. Há aqui um certo ultrapassar de expetativas. Se perdurar, será excelente.
O que ainda não há é nenhuma história inspirada noutra. O tal diálogo ainda não se estabeleceu. Sempre achei que seria essa a parte mais complicada da ideia — suficientemente complicada para fazer com que alguns autores pusessem logo de parte a ideia de participar — e parece confirmar-se, embora ainda seja cedo para o afirmar taxativamente.
A ver vamos...
Contava ter por esta altura duas ou três histórias lá publicadas. Tenho cinco. Há aqui um certo ultrapassar de expetativas. Se perdurar, será excelente.
O que ainda não há é nenhuma história inspirada noutra. O tal diálogo ainda não se estabeleceu. Sempre achei que seria essa a parte mais complicada da ideia — suficientemente complicada para fazer com que alguns autores pusessem logo de parte a ideia de participar — e parece confirmar-se, embora ainda seja cedo para o afirmar taxativamente.
A ver vamos...
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Lido: O Silmarillion
O Silmarillion (bib.), de J. R. R. Tolkien, é uma coletânea reunida após a morte do autor pelo filho, Christopher Tolkien, o qual pegou numa variedade de textos dispersos do pai e fez de uns algo semelhante a contos, amalgamando os outros numa longa narrativa episódica que tem semelhanças com um romance. Todos esses textos se referem a acontecimentos que terão decorrido no universo ficcional tolkieniano antes dos tempos d'O Hobbit e d'O Senhor dos Anéis, servindo como uma espécie de história, ou de mitologia prévia, de grande pano de fundo contra o qual decorrem as histórias mais bem conhecidas.
E na verdade, a forma como o leitor encarar esta coletânea irá depender diretamente da forma como saiu da leitura das histórias de Bilbo e de Frodo. Nem se pense ler O Silmarillion sem se ter antes lido pelo menos a trilogia em que Frodo transporta o anel. Porque embora aqui se incluam dois textos que funcionam bem enquanto objetos literários, dois textos que mimetizam bem antigos mitos de criação e são autonomamente interessantes por causa disso, estes são os textos mais pequenos e todos os outros pouco passam de exercícios de worldbuilding sem grande interesse intrínseco. Um leitor tão interessado na construção de mundos que dispense as histórias que esses mundos contêm talvez se contente com as narrativas dispersas e apressadas que poderá encontrar aqui, mas não creio que os leitores comuns sejam capazes de tanto.
Por outro lado, para quem leu O Senhor dos Anéis e se tornou aí fã de Tolkien, e em especial para aqueles que ficaram enfeitiçados pelo mundo que ele cria, este livro é um prato cheio. Porque aqui se explicam muitas coisas que são apenas sugeridas na trilogia e n'O Hobbit, porque, apesar das lacunas, é aqui que todo o substrato histórico-mitológico fica desenhado, e porque este livro enquadra a trilogia no esquema mais vasto da grande narrativa baseada no combate entre as forças do bem e as do mal que constitui a história do mundo tolkieniano desde o seu surgimento.
Mas para alguém como eu, que leu O Senhor dos Anéis e não se tornou fã de Tolkien, O Silmarillion é uma leitura bastante aborrecida. Se vos desagradou o maniqueísmo da trilogia, aqui vão encontrá-lo elevado ao cubo. Se acharam a escrita de Tolkien maçuda, aqui ela vai sê-lo muito mais. Se todos aqueles nomes de criaturas e lugares vos confundiram ou aborreceram na trilogia, aqui vão encontrá-los multiplicados por dez, e sem mapa que vos oriente (bem, há um mapa, mas está muito, muito longe de bastar).
Sim, há algumas histórias com interesse, os dois contos-mitos mais pequenos que já referi e alguns dos fragmentos que constituem o texto maior. Mas dão quase todas uma sensação de esboço apressado e incompleto de algo que nunca chegou a ser escrito. Espinhas dorsais, mais ou menos elaboradas, não verdadeiras histórias. E é precisamente isso, claro, o que são, tanto as histórias mais desenvolvidas e interessantes como as que o estão menos. Para os fãs chegam, porque lhes amplificam e desenvolvem a experiência d'O Senhor dos Anéis. Compreendo perfeitamente que assim seja. Mas quem, como eu, não achou essa experiência grande coisa precisaria de mais para conseguir gostar deste livro; não é amplificando uma experiência pouco agradável que se conquista alguém.
Em suma: não gostei deste livro. Mas aconselho sem grandes reservas a sua leitura a todos aqueles que já leram Tolkien e gostaram: acho bastante provável que vos agrade.
Eis o que achei de cada um dos textos individualmente considerados:
Este livro foi comprado.
E na verdade, a forma como o leitor encarar esta coletânea irá depender diretamente da forma como saiu da leitura das histórias de Bilbo e de Frodo. Nem se pense ler O Silmarillion sem se ter antes lido pelo menos a trilogia em que Frodo transporta o anel. Porque embora aqui se incluam dois textos que funcionam bem enquanto objetos literários, dois textos que mimetizam bem antigos mitos de criação e são autonomamente interessantes por causa disso, estes são os textos mais pequenos e todos os outros pouco passam de exercícios de worldbuilding sem grande interesse intrínseco. Um leitor tão interessado na construção de mundos que dispense as histórias que esses mundos contêm talvez se contente com as narrativas dispersas e apressadas que poderá encontrar aqui, mas não creio que os leitores comuns sejam capazes de tanto.
Por outro lado, para quem leu O Senhor dos Anéis e se tornou aí fã de Tolkien, e em especial para aqueles que ficaram enfeitiçados pelo mundo que ele cria, este livro é um prato cheio. Porque aqui se explicam muitas coisas que são apenas sugeridas na trilogia e n'O Hobbit, porque, apesar das lacunas, é aqui que todo o substrato histórico-mitológico fica desenhado, e porque este livro enquadra a trilogia no esquema mais vasto da grande narrativa baseada no combate entre as forças do bem e as do mal que constitui a história do mundo tolkieniano desde o seu surgimento.
Mas para alguém como eu, que leu O Senhor dos Anéis e não se tornou fã de Tolkien, O Silmarillion é uma leitura bastante aborrecida. Se vos desagradou o maniqueísmo da trilogia, aqui vão encontrá-lo elevado ao cubo. Se acharam a escrita de Tolkien maçuda, aqui ela vai sê-lo muito mais. Se todos aqueles nomes de criaturas e lugares vos confundiram ou aborreceram na trilogia, aqui vão encontrá-los multiplicados por dez, e sem mapa que vos oriente (bem, há um mapa, mas está muito, muito longe de bastar).
Sim, há algumas histórias com interesse, os dois contos-mitos mais pequenos que já referi e alguns dos fragmentos que constituem o texto maior. Mas dão quase todas uma sensação de esboço apressado e incompleto de algo que nunca chegou a ser escrito. Espinhas dorsais, mais ou menos elaboradas, não verdadeiras histórias. E é precisamente isso, claro, o que são, tanto as histórias mais desenvolvidas e interessantes como as que o estão menos. Para os fãs chegam, porque lhes amplificam e desenvolvem a experiência d'O Senhor dos Anéis. Compreendo perfeitamente que assim seja. Mas quem, como eu, não achou essa experiência grande coisa precisaria de mais para conseguir gostar deste livro; não é amplificando uma experiência pouco agradável que se conquista alguém.
Em suma: não gostei deste livro. Mas aconselho sem grandes reservas a sua leitura a todos aqueles que já leram Tolkien e gostaram: acho bastante provável que vos agrade.
Eis o que achei de cada um dos textos individualmente considerados:
Este livro foi comprado.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Infinitamente Improvável
Tenho um anúncio a fazer: abri um webzine. Chama-se Infinitamente Improvável.
O Editorial explica tudo, como a ideia surgiu, porque foi posta em prática, etc. Também remete para a página mais importante da moldura do zine, esta, que explica em linhas gerais o que se pretende. Como lá vem escrito, "o Infinitamente Improvável publica contos e outras coisas literárias que sejam... infinitamente improváveis." Isto é vago? É. Mas foi deixado vago de propósito. Mesmo a informação complementar que essa página contém é algo vaga. Porquê?
É frequente a criatividade precisar de estímulo, de um arranque. Mas também é frequente ficar abafada quando se lhe são impostos limites demasiado estreitos, embora o que seja "demasiado" varie muitíssimo de autor para autor (e até de momento para momento). Por isso, quando concebi o zine tomei algumas decisões.
A primeira, e mais importante, foi criar uma delimitação que o individualizasse. Compreendo bem a necessidade que as publicações dirigidas ao mercado genérico têm de tentar agradar ao máximo possível de públicos, maximizando assim a visibilidade e, por vezes, o retorno financeiro. Mas sinto falta de publicações com individualidade forte, especialmente em Portugal. É isso que o II pretende ser.
Por outro lado, não quis afunilar demasiado o âmbito do zine. Daí a vagueza.
Mas por outro lado ainda, pareceu-me que talvez alguns autores precisassem de algo mais concreto que os auxiliasse a perceber, mais ou menos, o que se pretendia. Portanto decidi começar por publicar dois contos meus que se encaixassem no que pretendo. No editorial chamei-lhes balizas, mas pensando melhor creio que a imagem mais adequada é a de escoras. Um par de estacas que atraiam e solidifiquem a duna de histórias que desejavelmente se irá ali construir.
Esses contos já lá estão. Um, A Injeção Financeira, já tinha sido aqui publicado na Lâmpada, e fala de um tipo que anda a precisar de meter finanças para a veia. O outro, Pandorama, é novo e vai buscar um certo mito grego, misturando-o com cosmologia, extraterrestres e universos alternativos.
Não planeava passar tão depressa da criação do espaço ao seu anúncio oficial. Mas as submissões começaram a chegar, e isso levou-me a acelerar tudo. Inclusive a publicação da primeira dessas submissões, de Miguel Hernâni Guimarães. Intitula-se Decepções da Paternidade e é uma ficção científica carregadinha de ironia, na qual se reconhecem certas figuras e instituições muito presentes nos últimos tempos nos noticiários portugueses.
Mas o pormenor mais original na proposta que ali é feita é este: "o Infinitamente Improvável não só autoriza como encoraja que as histórias [lá] publicadas sejam usadas como fonte de inspiração para novas histórias. Satirizando-as, levando-as por outros caminhos, qualquer coisa menos copiando-as." A ideia é que o II não seja apenas um repositório de histórias, mas sim uma rede de textos que dialogam uns com os outros. Bem sei que não o será por completo, que haverá histórias que permanecerão sozinhas e isoladas, mas a ideia é que essa rede surja. Até porque isso mostrará que as histórias são realmente lidas, não se limitam a estar lá. E propiciará que o todo ultrapasse a mera soma das partes que o compõem.
Mas agora é com vocês, autores e leitores. A primeira metade da minha parte está feita. Abri o espaço e fiz a proposta. Cabe agora a vocês aceitá-la. Ou não.
O Editorial explica tudo, como a ideia surgiu, porque foi posta em prática, etc. Também remete para a página mais importante da moldura do zine, esta, que explica em linhas gerais o que se pretende. Como lá vem escrito, "o Infinitamente Improvável publica contos e outras coisas literárias que sejam... infinitamente improváveis." Isto é vago? É. Mas foi deixado vago de propósito. Mesmo a informação complementar que essa página contém é algo vaga. Porquê?
É frequente a criatividade precisar de estímulo, de um arranque. Mas também é frequente ficar abafada quando se lhe são impostos limites demasiado estreitos, embora o que seja "demasiado" varie muitíssimo de autor para autor (e até de momento para momento). Por isso, quando concebi o zine tomei algumas decisões.
A primeira, e mais importante, foi criar uma delimitação que o individualizasse. Compreendo bem a necessidade que as publicações dirigidas ao mercado genérico têm de tentar agradar ao máximo possível de públicos, maximizando assim a visibilidade e, por vezes, o retorno financeiro. Mas sinto falta de publicações com individualidade forte, especialmente em Portugal. É isso que o II pretende ser.
Por outro lado, não quis afunilar demasiado o âmbito do zine. Daí a vagueza.
Mas por outro lado ainda, pareceu-me que talvez alguns autores precisassem de algo mais concreto que os auxiliasse a perceber, mais ou menos, o que se pretendia. Portanto decidi começar por publicar dois contos meus que se encaixassem no que pretendo. No editorial chamei-lhes balizas, mas pensando melhor creio que a imagem mais adequada é a de escoras. Um par de estacas que atraiam e solidifiquem a duna de histórias que desejavelmente se irá ali construir.
Esses contos já lá estão. Um, A Injeção Financeira, já tinha sido aqui publicado na Lâmpada, e fala de um tipo que anda a precisar de meter finanças para a veia. O outro, Pandorama, é novo e vai buscar um certo mito grego, misturando-o com cosmologia, extraterrestres e universos alternativos.
Não planeava passar tão depressa da criação do espaço ao seu anúncio oficial. Mas as submissões começaram a chegar, e isso levou-me a acelerar tudo. Inclusive a publicação da primeira dessas submissões, de Miguel Hernâni Guimarães. Intitula-se Decepções da Paternidade e é uma ficção científica carregadinha de ironia, na qual se reconhecem certas figuras e instituições muito presentes nos últimos tempos nos noticiários portugueses.
Mas o pormenor mais original na proposta que ali é feita é este: "o Infinitamente Improvável não só autoriza como encoraja que as histórias [lá] publicadas sejam usadas como fonte de inspiração para novas histórias. Satirizando-as, levando-as por outros caminhos, qualquer coisa menos copiando-as." A ideia é que o II não seja apenas um repositório de histórias, mas sim uma rede de textos que dialogam uns com os outros. Bem sei que não o será por completo, que haverá histórias que permanecerão sozinhas e isoladas, mas a ideia é que essa rede surja. Até porque isso mostrará que as histórias são realmente lidas, não se limitam a estar lá. E propiciará que o todo ultrapasse a mera soma das partes que o compõem.
Mas agora é com vocês, autores e leitores. A primeira metade da minha parte está feita. Abri o espaço e fiz a proposta. Cabe agora a vocês aceitá-la. Ou não.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Lido: O Monstro Marinho
O Monstro Marinho é mais uma pequena história de Pedro Medina Ribeiro. A atmosfera volta a ser antiga, mas o estilo nem tanto. É um conto que joga com velhas lendas de marinheiros, misturando-lhe uma história de naufrágio, mas de uma forma algo estilhaçada que não me agradou muito. Compreendo a motivação e a experiência, mas julgo não ter sido inteiramente bem sucedida. Isto, sublinhe-se, refere-se ao corpo do conto, porque o fim é magnífico. Aquele final merecia um conto mais bem elaborado, provavelmente mais longo, por forma a dar tempo a fornecer toda a informação necessária de uma forma menos concentrada e melhor interligada.
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segunda-feira, 9 de julho de 2012
Lido: Nem Tudo é História
Nem Tudo é História (bib.), de David Mourão-Ferreira, é um conto curto tão onírico que se torna quase indescritível. Embora esteja muitíssimo bem escrito, e por esse lado seja irrepreensível, não me agradou. De novo voltamos à velha história da forma e do conteúdo. A forma deste conto é de primeira água? É. Mas o conteúdo é um conjunto de imagens bastante desgarradas que não me transmitiram nada. Li o conto, saboreei os pormenores na escultura da linguagem que ele me foi apresentando, mas esqueci-o tão prontamente que para escrever esta curta opinião tive de voltar a ler algumas passagens até me vir à mente alguma ideia difusa do conteúdo. Se me falarem dele daqui a uma semana será como se nunca o tivesse lido. Passou-me pelos olhos como uma aragem morna, nada mais. De que serve assim a literatura?
Dito isto, decerto que outros leitores o verão de outra forma. É mesmo assim que as coisas são. Eu não gostei lá muito. Vocês? Não sei.
Dito isto, decerto que outros leitores o verão de outra forma. É mesmo assim que as coisas são. Eu não gostei lá muito. Vocês? Não sei.
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