quinta-feira, 10 de abril de 2014

Lido: Textos Neo-Gnósticos

Textos Neo-Gnósticos, de subtítulo Os Códigos Mistéricos da Quinta Idade, é um volume de textos de António de Macedo com um forte pendor esotérico. Num total de sete, introdução incluída, são textos sobre temas vários que têm uma coisa em comum: a tentativa de explicar pela via "mistérica" uma série de factos e factoides dispersos. Não se trata de ficção, e antes tratasse. O tom é definitivamente ensaístico, e procura mesmo ser académico, chegando a adotar do estilo de referenciação científica num livro que é fundamentalmente anticientífico.

Há nele, evidentemente, disparates com fartura, sendo talvez o mais risível a ideia peregrina de que os símios antropoides não são os ascendentes do homem (é assim que está formulado no livro... sem que fique inteiramente claro se Macedo se refere às espécies atuais, como parece, o que só amplificaria a asneira, se aos antecedentes comuns de todos os Hominidae), mas sim "homens degenerados." Porquê? Porque tal ideia se ajusta melhor à filosofia que defende. E assim pela janela voam séculos de acumulação de conhecimentos, provas fósseis, datações, etc., etc., etc.

Como este disparate há outros, mas os mais sérios surgem principalmente a talho de foice, numa espécie de apartes atirados para a página como quem diz "ora tomem lá esta ideia, mas não é disso que eu quero aqui falar." Não temos aqui propriamente um ataque claro à ciência estabelecida, embora haja nestas páginas vários ataques mais ou menos velados ao espírito científico como um todo.

O que não é de surpreender, convenhamos. A ciência, com a sua informação aberta e metodologia clara, composta por dúvida metódica, experimentação e reavaliação das ideias anteriores consoante os resultados da experimentação as confirmem ou não, está nos antípodas conceptuais de todos os ocultismos, da ideia de que a "verdade" (estas "verdades" precisam sempre de aspas) só está ao alcance de um punhado de iluminados aos quais é concedido o dom da revelação dos "mistérios", e isso independentemente de serem deste tipo esotérico ou do mais convencional género teológico. Na ciência, a palavra dos velhos mestres não é nada se não for corroborada pelos dados resultantes da experimentação ou de estudos empíricos; aqui, a palavra dos velhos mestres é tudo, e para realmente a "compreender" é necessário criar monumentais castelos de exegese assentes em coisa nenhuma. Ou por outra: assentes em ideias preconcebidas, que depois vão ser "sustentadas" escolhendo a dedo esta ou aquela passagem de um qualquer cartapácio o mais empoeirado possível, este ou aquele factoide histórico quanto mais obscuro melhor, e deitando fora tudo o resto.

São duas formas opostas de ver o mundo, de reagir a ele e de agir sobre ele. O facto de vocês estarem a ler estas palavras num écran demonstra cabalmente qual é a forma produtiva e qual a estéril.

E no entanto, continuam a escrever-se e a publicar-se livros como este. É dos tais "factos mistéricos" da nossa idade.

E, pior, eles chamam a isto ciências ocultas. Ciências. Que raio de abastardamento de tão nobre palavra!

Ah, mas esperem. Calma lá. O livro não é inteiramente desprovido de interesse. É salvo por duas coisas, uma que provavelmente o salvará para um leque mais vasto de leitores, a outra que só o salva para gente como eu. A primeira é o humor que Macedo emprega com alguma frequência, a suficiente para deixar a pairar uma certa dúvida sobre se alguns dos disparates que aqui escreve são realmente ideias suas ou tentativas de entrar pelas areias movediças do humorismo. A outra são os textos sobre a literatura fantástica portuguesa que, depois de serem bem amanhados e limpos de vísceras esotéricas, acabam por ser alimento razoavelmente suculento para quem se interessa pelo tema. Pena é constituírem uma parcela tão diminuta do conteúdo do livro. Ele poderia ser muitíssimo melhor se assim não fosse.

Sendo como é, resta o suspiro.

Este livro foi-me oferecido pelo autor, julgo que por causa do conteúdo relevante para a FC&F portuguesa. Julgo e não só: espero. Espero que não estivesse a tentar converter-me. Se estava, o tiro saiu violentamente pela culatra.

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