segunda-feira, 22 de maio de 2017

Lido: O Confronto dos Reinos

Quando ouvi falar da proposta Solapunk vinha de ter tido uma novela e uma noveleta publicadas nos volumes anteriores desta série (Vaporpunk e Dieselpunk) e arregacei as mangas para completar a tríade com mais uma história ambientada no mesmo universo. Mas deparei com um problema: a proposta Solarpunk era tendencialmente otimista e a minha história estava a afastar-se bastante daí. E, pior, não tinha ideias para histórias otimistas de futuros radiosos e ecologicamente sustentáveis. Às tantas, já perto do fim do prazo, dei-me por vencido e decidi que não iria submeter nada à Solarpunk.

Foi por isso com alguma surpresa que, quando surgiram os nomes dos autores selecionados, encontrei o de Telmo Marçal. Não que duvidasse da sua capacidade para escrever um conto bom o suficiente para ser selecionado, entenda-se; quanto a isso não há qualquer dúvida. Mas já conhecia razoavelmente bem o seu estilo e a espécie de histórias que gosta de escrever e não estava nada a vê-lo escrever uma história otimista. O Telmo é escritor de histórias bem negras, bem cínicas, bem violentas, que gosta de ambientar em sociedades ultradistópicas das quais a esperança está ausente. De repente sai-se com uma história radiosa ambientada numa sociedade repleta de futuro? Não pode ser, pensei.

E agora que li O Confronto dos Reinos vejo que tinha razão nas minhas dúvidas, ainda que não uma razão absoluta. Marçal faz, de facto, algumas cedências à proposta Solarpunk tal como a entendi: não só a sociedade que aqui apresenta está algo longe de ser tão negra como as que desenvolveu n'As Atribulações de Jacques Bonhomme, como imagina que num futuro não muito longínquo algumas pessoas, por intermédio de tratamentos não detalhados, passam a incluir clorofila nos seus corpos, tornando-se portanto capazes de se autossustentar, pelo menos em parte. Lá está o tal futuro ecológico e sustentável.

Mas tirando isto, o tom noir é tal e qual se esperaria. O texto é o habitual: duro e seco, carregado de oralismos, gírias e calão, relatado em primeira pessoa pelo protagonista-narrador. E este é um agente da polícia, extremamente perconceituoso contra os "folhas de couve", um dos vários epítetos "carinhosos" com que mima as pessoas alteradas, que é acometido por dois azares de monta: um, ainda que não o primeiro, é ser encarregado de ir investigar, discretamente e acompanhado por uma colega, alguns desaparecimentos que teriam ocorrido numa espécie de reserva de clorofilizados que o governo cria na zona de Sintra. E o outro é apaixonar-se. Precisamente por essa colega.

E claro está que as coisas não correm nada bem, ou não estaríamos perante um conto de Telmo Marçal. Ou seja: embora a sociedade não seja tão negra como é hábito, há nela suficiente ambiguidade, e até suficiente cinismo, para poder criar para algumas pessoas negríssimas distopias pessoais.

Isso, creio, cria um elemento de subtileza e também de incerteza, que sob um certo ponto de vista melhora a ficção de Telmo Marçal. Enquanto nas ficções mais antigas o leitor tem desde o início a certeza de que tudo é negro e irredentível, o que diminui o elemento surpresa que é combustível para todas as ficções, aqui a dúvida insinua-se, o que tem o resultado de aumentar o interesse pela história. Mas por outro lado, acontece-lhe o que acontece a todos os especialistas quando saem da sua zona de conforto: ao abandonarem, mesmo que parcialmente, aquilo que fazem realmente bem, surge alguma insegurança, a firmeza narrativa atenua-se. Nada que não se resolva com a prática. Mas aqui, onde a prática ainda não existe, estes dois fatores equilibram-se e o resultado final não é melhor do que nas ficções anteriores. A qualidade é mais ou menos igual. Ou seja: o conto é bom, e melhor seria se alguns abrasileiramentos que a edição provavelmente exigiu não entrassem tanto em choque com a grande portugalidade da maioria dos oralismos, mas não chega ainda ao melhor da ficção de Marçal, e muito menos o ultrapassa.

Conto anterior deste livro:

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