A Lâmpada Mágica
sábado, 21 de Novembro de 2009
 
Lido: O Livro dos Guerrilheiros
O Livro dos Guerrilheiros é um pequeno livro do escritor angolano José Luandino Vieira, composto por um conjunto de narrativas focadas no lado angolano da guerra colonial, e que se segue a O Livro dos Rios numa trilogia dedicada ao tema, por agora ainda incompleta, intitulada De Rios Velhos e Guerrilheiros. Apresenta-nos a vivência da guerrilha, e o modo como esta via a tropa colonial portuguesa que a combatia. Curiosamente, tanto as populações autóctones de Angola como as populações de colonos estão muito pouco presentes nestas histórias, que nos mostram uma guerrilha muito fundida com o mato e frequentemente muito isolada. Essa foi uma das surpresas que o livro me causou, mais pela abordagem do escritor do que por uma questão de realidade factual, pois não há qualquer dúvida histórica de que as guerrilhas nacionalistas tinham fortes ligações com as populações. Que Luandino tenha escolhido mostrar-nos pouco essa faceta surpreendeu-me, ainda mais tendo em conta as suas conhecidas convicções políticas.

Mas o que mais se destaca neste livro é o uso dado à linguagem. Não é, muito longe disso, um livro de leitura fácil para o leitor português típico. A linguagem adquire por vezes um tom quase quinhentista, que remete para as epopeias narradas por um Fernão Mendes Pinto, e essa é a parte mais acessível. Pior é a profusão de termos em kimbundu que são totalmente desconhecidos a quem não tem vivência de Angola. É um choque. Um glossário ajuda a atenuá-lo, e há notas de rodapé quando surgem falas inteiras em kimbundu, mas mesmo assim é um choque. Para muita gente, pode ser um forte empecilho à leitura. Mas para quem se interessa pela língua que partilhamos é um choque com muito de saboroso, porque há como que a sensação de se estar a assistir ao nascimento de mais uma variante do português, a qual, entre vestígios de um português antigo caídos em desuso naquele que falamos hoje, e novas palavras e conceitos provenientes das línguas indígenas angolanas, se irá impor a breve trecho como mais uma fonte enriquecedora de cultura lusófona. Por mais que isso faça doer a xenofobia linguística de certos setores.

Para mim, este livro valeu a pena ser lido principalmente por isso. Comparadas com o uso dado à língua, as histórias da guerrilha acabaram por ser secundárias, embora seja sempre bom ter acesso ao outro lado. Sim, que a literatura portuguesa dedicada a África e às guerras coloniais se tem focado quase exclusivamente no lado português. Como é natural, aliás.

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sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
 
Lido: Ol' Fairies Bar
Ol' Fairies Bar, apesar do título, nada tem a ver com fadas e é uma história de língua castelhana. Trata-se de uma noveleta do chileno Luis Saavedra V. que parte de uma premissa semelhante à da série Heroes e de muitas histórias de banda desenhada (e dos filmes e outros artigos que destas brotaram): a emergência de seres humanos com capacidades extraordinárias, os meta-humanos, ou metas. Apesar do tema ser algo batido, o modo como Saavedra constrói a sua história — cada um dos quatro capítulos é composto por uma primeira parte "jornalística" que situa o leitor nos factos básicos do universo ficcional, uma segunda parte composta por um depoimento de um criminoso meta, e uma terceira narrada por um humano vulgar e alcoólico — e o tratamento que dá ao texto são francamente bons, transmitindo-nos uma imagem duma sociedade cujas contradições em nada foram realmente melhoradas com o surgimento dos metas e com aquilo que a sua presença impôs ao planeta. É uma história complexa e matizada, bem longe do simplismo tantas vezes presente na literatura fantástica, e com uma atmosfera francamente distópica. Pode desapontar quem gosta de ler histórias cheias de ação, porque de facto a maior parte da noveleta se circunscreve a uma conversa num bar, mas tenho a certeza de que quem preferir uma boa construção de ambientes ou a exploração psicológica das personagens a lerá com agrado. Eu, por minha parte, gostei bastante.

Quem quiser avaliar por si próprio, siga até aqui.

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Lido: In Father Christmas's Court
In Father Christmas's Court, de Tavis Allison, é um conto de ficção científica razoavelmente hard, que se desenrola numa Terra que não se percebe muito bem se é pós-apocalíptica se é "apenas" ambientalmente devastada. A premissa da história é a existência de um robot enlouquecido e gigantesco, dotado de inteligência artificial e produzido num habitat orbital não se chega a perceber muito bem para que fins, que quando enlouquece escapa ao controlo dos seus criadores. Estes enviam técnicos para a Terra a fim de tentar retomar o controlo do robot, que entretanto estabeleceu uma espécie de tribo, consigo à cabeça, e exige ser tratado por Pai Natal.

É uma premissa curiosa, mas não gostei muito do modo como foi posta em prática. Senti falta, principalmente, de algum desenvolvimento de motivações, de perceber o que levou o orbital a fabricar o robot e a enviá-lo para a Terra, para começar, e como é que de repente a civilização humana de cariz tecnológico se desloca para órbita deixando o planeta entregue à bicharada e a luditas. Há qualquer coisa aqui que não me fez na cabeça aquele clique que diz que o cenário foi bem construído e é credível, permitindo que a descrença se suspenda eficazmente.

Mas apesar disto, é um conto razoável.

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quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
 
Lido: A Sereia de Curitiba
As histórias de Rhys Hughes de que tenho vindo a falar aqui pertencem a este livro, A Sereia de Curitiba, uma coleção de cerca de dez contos interligados dividida em quatro partes. Sim, os contos são cerca de dez, pois, dependendo de como se olha para o livro, pode encontrar-se entre oito e doze. Alguns não são bem contos, ainda que o sejam, outros são contos dentro de contos (ou de notas, que talvez também possam ser vistas como contos de direito próprio), enfim, o que é conto ou deixa de ser é uma das convenções que o livro pretende pôr em cheque. E consegue.

Como terão percebido se leram o que fui dizendo sobre cada um dos contos, o tom geral é surrealista. Pessoalmente, gostei mais do resultado quando o foram menos, o que corresponde à primeira das quatro partes, cujos três contos seguem todos uma história de amor com a sereia de Curitiba que intitula todo o livro e são por ela enquadrados. Dessas histórias gostei muito. Das outras, nem tanto, porque foi frequente sentir que o autor estava a levar tão longe o absurdo, as ligações oníricas, os elementos de enredo que nascem de trocadilhos e elementos de linguagem, etc., que perdia demasiado o controlo sobre elas. E digo demasiado porque é evidente que nunca foi intenção de Hughes controlar estas histórias. Ou seja, conseguiu fazer precisamente aquilo que pretendia. Mas, para satisfação do meu gosto, um pouco mais de controlo teria sido desejável.

Além do surrealismo, há outras coisas presentes em todo o livro.

De braço dado com ele vem necessariamente o humor, mas desengane-se quem pense que é humor de gargalhada. Não é. É humor de sorriso razoavelmente contemplativo e muito mais intelectual do que emocional. Feito de ironia, muita, e algum sarcasmo.

E uma outra coisa de que o livro está cheio é: viagens. Viagens de todos os tipos e feitios. Ninguém para quieto um segundo que seja, e por cada chegada (invariavelmente a um sítio com algo de louco a dar-lhe um sabor especial) existe uma partida. Nisso, pelo menos, a obra é um espelho fiel do obreiro.

Avaliação geral? Gostei.

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Lido: A Gala das Canções Implausíveis
A Gala das Canções Implausíveis é mais um conto surrealista de Rhys Hughes, que tem a originalidade de vir decorado com ilustrações a propósito, num estilo que me fez lembrar as colagens dos Monty Python. Ao contrário de algumas das outras histórias deste livro, aqui a imaginação delirante do autor está orientada por um fio condutor, o que me levou imediatamente a gostar mais desta. Volta a haver viagens com fartura, mas todas têm como objetivo levar o protagonista, músico, a festivais de música particularmente bizarros. A completar o ramalhete, há uma série de trocadilhos (Phil Espectro, tradução, imagino, de Phil Spectre, trocadilho com Phil Spector) e referências musicais (uma carta dirigida a Roger Waters por um fã desapontado), e referências quer a outros contos do livro, quer a amigos que Hughes fez nas suas viagens por Portugal. Ah, sim, e uma pequena história dentro da história, à moda das Mil e Uma Noites. Intitula-se O Rei do Castelo de Cartão.

Gostei. Desta última história, tratada como se de um epílogo se tratasse (e de certa maneira até é) voltei a gostar quase tanto como das primeiras do livro. E por falar em livro, passemos ao próximo post...

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segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
 
Lido: Às Vezes a Manhã Ajuda
Às Vezes a Manhã Ajuda é uma pequena crónica de José Saramago que conta uma história muito humana sobre dois homens que se encontram num comboio e são unidos, durante um instante que como que roubam à cidade, por um pouco de música, de canto, que um trauteia sem que se chegue a saber porquê e o outro escuta. Literatura, e da boa, meus caros dois ou três leitores. Literatura, e da boa. Às vezes é necessário o constrangimento de se ter só x caracteres a antregar no jornal para levar à depuração da literatura. Quer-me parecer que esta história só pioraria se tivesse outro qualquer tamanho.

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Lido: Os Músicos
Ainda de Ray Bradbury, mas de um Bradbury muito mais novo, Os Músicos (bib.) é um conto muito curto sobre um bando de rapazes, humanos, que têm como divertimento percorrer uma das cidades mortas e abandonadas de Marte, explorando-a mas, mais do que isso, explorando as ruínas feitas de ossos e películas pretas dos marcianos que nelas habitaram. Ao contrário do anterior, é um conto de ficção científica e, ao contrário do anterior, é um conto brilhante. Brilhante pelo modo como apresenta a crueldade irracional dum certo tipo de adolescente e pré-adolescente, o seu desrespeito pelos últimos vestígios não só duma cidade, mas duma civilização inteira e o modo como se deixam prender a um fascínio destruidor pelo macabro. E também brilhante pela forma magistral como está escrito.

É demasiado curto para ser um conto realmente marcante, e no livro funciona como mais uma transição entre histórias maiores. Mas nada disso lhe tira seja o que for. É muito, muito bom.

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Lido: Virgo Resuscitas
Virgo Resuscitas (bib.) é mais um dos pequenos contos de Ray Bradbury que nada têm de fantástico. Neste caso, trata-se de uma discussão entre um homem e a sua amante que só não é inteiramente mundana, banal e desinteressante por causa da forma que a amante arranja para pôr a relação em cheque: a religião. A ironia que as interligações entre amante, relação e religião encerram é o que mantém este conto de pé, desvendando as origens profundas de algumas escolhas que as pessoas fazem nesse campo. Sem ela, desmoronar-se-ia num desinteresse total, e nem a habitual qualidade da prosa de Bradbury seria capaz de o salvar da mais absoluta mediania. Mesmo assim, está muito, muito longe das obras-primas do autor.

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domingo, 8 de Novembro de 2009
 
Lido: Aventuras
Aventuras, do polaco Witold Gombrowicz, é um conto surrealista sobre, lá está, as aventuras mirabolantes do narrador, que anda o conto todo em bolandas sujeito aos caprichos de um tal "Negro", capitão de navio carregadinho de má índole. Começa por resgatar o narrador às águas do Mediterâneo, para dentro do qual caíra de um navio com destino ao Cairo, para imediatamente o aprisionar e atirar ao Atltântico dentro de um balão de vidro. O narrador consegue ter a sorte de escapar ao balão de vidro, só para ser recapturado pelo Negro e ser atirado ao mar dentro de uma bola de aço, ou talvez um cone, desta feita no ponto mais profundo do Pacífico. Também deste triste fim o narrador se salva, apenas para embarcar em nova aventura da mesma índole, e noutra, e noutra a seguir, cada uma mais estapafúrdia do que a anterior, desenrolando-se cada uma numa paragem mais exótica do que a que lhe antecede. O conto termina com o narrador a dar cabo, sozinho, das trincheiras alemãs da Primeira Guerra Mundial.

Para apreciar este conto há que não o levar a sério. Mas mesmo assim, ele corre um certo risco de aborrecer o seu leitor, porque depois das primeiras peripécias já se está mais ou menos à espera do que aí vem, e o conto é algo longo, ainda que acabem por acontecer algumas reviravoltas mais ou menos inesperadas. Foi, confesso, o que aconteceu comigo. Se o conto fosse mais curto, teria gostado, mas sendo longo como é, não gostei lá muito. Sim, é divertido, mas às tantas dei por mim a pensar: "OK, já me ri. Mas é só isto? Não se sai desta inconsequência?"

E não sai mesmo.

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sábado, 7 de Novembro de 2009
 
Lido: A Casa da Esfinge
A Casa da Esfinge é um conto bastante curto (2 páginas) de Lorde Dunsany que nos mostra, precisamente, uma visita a uma casa onde mora uma Esfinge, no meio duma floresta. O ponto mais interessante desta história será talvez o facto de não nos mostrar a esfinge como o monstro mitológico guardião de templos ou de cidades, capaz de impedir a entrada a indesejáveis, ou o atrator de má sorte de outras histórias, mas como um ser acossado, preocupado com a aproximação duma qualquer coisa terrível vinda da floresta. O conto diz o que é, mas eu não vou dizer; digo apenas que quando essa explicação surge, a história ganha uma nova condição de ironia de que até aí não se suspeitaria.

O conto talvez seja curto demais para gerar grande impacto, mas é sem dúvida interessante.

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Lido: Cepas
Cepas, de Juan Pablo Noroña, é uma noveleta de ficção científica hard ambientada num habitat espacial, constituído por um misto de tecnologia "convencional" e biotecnologia. Esta última consiste numa espécie de planta, que pode pertencer a qualquer uma de várias linhagens diferentes. A premissa da história tem a ver com o surgimento duma doença numa dessas linhagens, e a investigação subsequente.

Um dos problemas de que a ficção científica de origem não anglófona sofre é a dificuldade que causa, a nível da própria linguagem, a quem a está a ler. É que se estamos todos mais ou menos acostumados ao estilo que os neologismos ingleses tomam, a ponto de os entendermos às vezes melhor do que os que surgem na nossa própria língua, quando saimos do âmbito anglófono e temos de lidar com os neologismos de outra língua as coisas já não correm tão bem. É que mesmo quando essa língua nos é familiar (e eu tenho-me na conta, talvez benévola, de um falante bastante razoável de castelhano), os seus neologismos de FC recorrem muitas vezes a significados mais obscuros das palavras e, para piorar as coisas, intersetam-se com os anglófonos de formas que nem sempre são óbvias a quem os olha de fora.

Já perceberam certamente que é o que se passa aqui. Os neologismos típicos da FC prejudicaram bastante a minha leitura de Cepas, conjugados com uma oralidade (o conto é composto em grande medida por diálogos) que nem sempre é compreensível por inteiro. De modo que o terminei sem saber bem o que pensar, embora me pareça que se dispersa desnecessariamente por detalhes algo desinteressantes sobre relações interpessoais, sem que com isso consiga construir personagens complexas, perdendo um pouco de vista o fio condutor da história.

Quem quiser avaliar por si próprio pode encontrá-lo aqui.

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domingo, 1 de Novembro de 2009
 
Lido: Eight Things not to Say When you Meet the Devil in Hell
Bruce Boston, o "poeta oficial" da FC americana, tem vários textos deste género: com grande humor, junta uma série de frases embaraçosas se forem ditas em circunstâncias de FC ou de fantasia, e com elas compõe uma espécie de poema. Enquanto poemas, estes textos são francamente duvidosos, mas conseguem muitas vezes ser muito divertidos. Eight Things not to Say When you Meet the Devil in Hell não chega propriamente ao "muito", fica-se pelo divertido. O que já não é mau.

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Lido: Notas
Hã? Notas? Notas são mesmo o que parece? Notas?

Bem, sim. E não. Daí vir aqui falar deste conjunto de textos. As Notas são, de facto, notas que Rhys Hughes faz sobre as outras histórias do livro em que se inserem, mas são também um objeto (meta)literário em si mesmas, quer pela sua posição no livro (não estão propriamente no fim), quer por contribuírem para toda a sua irreverência. Uma das notas, por exemplo, começa assim: "Não existem notas para esta história, mas vou tentar pensar rapidamente em alguma coisa. Não, não serve. Não consigo. Porque não escrevem a vossa própria nota, se não têm nada de melhor para fazer?"

Outra razão para vir aqui falar das Notas é elas incluirem uma história intitulada Os Sinos Imersos cuja presença é explicada, numa Nota às Notas, por não ser suficientemente boa para ser incluída no livro, mas não tão pobre que fosse excluída.

E é verdade.

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sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
 
Lido: O Inevitável Poente
O Inevitável Poente é uma crónica de José Saramago que começa com uma espécie de pedido de desculpa: "Ao menos uma vez na vida, cronista ou literato em dificuldade de tema faz a sua glosa pessoal ao pôr do Sol. Fecha os olhos ao ridículo, arrisca-se a que o apanhem em flagrante delito de plágio involuntário (ou não) — mas paga o tributo." E pronto, está a crónica explicada. O tema andava escasso, a crónica era esperada no jornal que a pagava (A Capital, no fim dos anos 60), e lá teve de ser. Saramago pede desculpa, mas como fez um bom trabalho e, com ridículo ou não, com plágios ou sem eles, a crónica se lê com agrado, está desculpado.

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quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
 
Réplica à resposta à contraposição ao post do Senhor Palomar
O Senhor Palomar achou por bem publicar uma réplica ao post que eu aqui publiquei há umas horitas. Aquece-me o coração vê-lo tão atento, e agradeço a consideração. Mas julgo ter de explicar melhor uma coisa que aparentemente deixei menos clara.

O meu problema não são as posições políticas, Palomar. Que alguém tenha ideias direitistas, esquerdistas, medianistas, alteradas, banais, radicais, etecetritais, está no seu pleno direito e tem toda a legitimidade para as divulgar quando e como muito bem entenda. Eu namorei por três anos com uma votante no CDS, e só me arrependo da segunda metade do último ano por motivos que nada têm a ver com a política. De modo que por mim, Senhor Palomar, pode ser de direita à vontade. É só através da discussão franca e honesta de ideias diferentes que se pode chegar a algum lado que se assemelhe, ainda que vagamente, a alguma espécie de verdade.

Mas é precisamente aqui que bate o ponto.

Porque não existe discussão franca e honesta de ideias diferentes quando se usam subterfúgios para tentar impôr as nossas. Subterfúgios como a omissão dum facto que, por si só, explica imediatamente toda a "incoerência" que o Senhor Palomar aparenta ver na situação em Salvaterra. Não é franco, não é honesto e, convenhamos, não é lá muito bem educado, porque está nas entrelinhas a acusar o partido e/ou a autarca de não serem sinceros nas posições que são públicas ao mesmo tempo que omite aquilo que basicamente demonstra essa sinceridade. E isso não lhe fica nada bem.

De modo que talvez não me seja necessário engolir o sapo soareiro para continuar a ler o blogue. Basta apenas que as ideias apareçam de futuro livres deste tipo de deturpações e omissões. Por mais erradas que me pareçam.

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Lido: Uma Mulher é um Piquenique Rápido
Curioso título, não? Pena é ter muito pouco a ver com o título original, A Woman in a Fast-Moving Picnic, e não, a tradução não foi feita por nenhum perigoso misógino, daqueles ainda de bigode farfalhudo e brilhantina no cabelo. O tradutor é uma tradutora.

Uma Mulher é um Piquenique Rápido (bib.) é um conto curto de Ray Bradbury, ambientado numa Irlanda muito presente no imaginário americano: a Irlanda dos bêbados, dos bares e dos pântanos, onde os homens se desafiam, e ao álcool que cada um contém, a penetrar no pântano, sobre o qual se contam histórias e cantam canções sobre desaparecimentos e afogamentos. Não sendo propriamente um conto fantástico, está repleto da atmosfera misteriosa das histórias de fantasmas, e o desenlace, apesar de racional e explicado, não deixa de conter em si também algum mistério. É uma história interessante, embora não chegue nem perto das melhores histórias de Bradbury.

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É a chamada honestidade dos direitinhas. Nada que surpreenda, portanto. O costume. Mais do mesmo. Enfim, é o que é.
O Senhor Palomar tem um blogue porreiro. Quando fala de literatura é uma voz digna de ser ouvida, e já tem escrito e publicado coisas em que eu dou por mim a responder a cada palavra com um "pois é" interno. E não foi uma nem duas vezes que isso aconteceu.

O problema é que não se fica pela literatura. E em coisas como esta, entra política dentro. Se o fizesse decentemente, tudo bem, mas não o faz. Fá-lo enviesadamente, com deturpações grosseiras da verdade e com insultos implícitos.

Senão, vejamos.

Insinua ele que é exemplo da "coerência habitual" do BE que o partido tenha uma posição oficial sobre as touradas e outros espetáculos de degradação taurino-equestre, enquanto a presidente-candidata à câmara de Salvaterra de Magos, eleita nas listas do BE, se manifeste favorável a tais espetáculos.

Ora, o Senhor Palomar, que é óbvio que não é nem inculto, nem burro, nem mal informado, sabe perfeitamente que Ana Cristina Ribeiro não é militante do BE. Talvez seja o BE o partido com que mais se identifica, razão pela qual se sentirá bem concorrendo nas suas listas mas, se não é militante, é porque tem pontos de divergência com a linha oficial do partido que considera suficientemente relevantes para impedir que nele se inscreva. Eu sei como é: é o que acontece comigo, com a diferença de eu não ser candidato a nada. Mas não me inscrevo no partido em que tenho votado quase sempre nos últimos anos e com o qual mais me identifico no geral porque há coisas em que discordo por completo dele. Assim são todos os não-militantes partidários, suponho eu. Ou pelo menos aqueles que têm algumas ideias políticas na cabeça.

Ora bem: pelas posições tomadas publicamente por ambas as partes, é evidente que um dos pontos de discórdia entre partido e candidata independente é o modo como devem ser encarados pela sociedade no seu todo os espetáculos tauromáquicos. Ambas as partes aceitam essa divergência como parte inevitável e natural de se lidar com pessoas que pensam pela própria cabeça, e nenhuma das partes ousa tentar reprimir ou suprimir as ideias discordantes da outra, o que é sintoma de espírito tolerante e democrático, que qualquer pessoa que fosse realmente tolerante e democrática só poderia saudar.

Sabendo o Senhor Palomar disto, como certamente sabe, como se explica aquela tentativa patusca de associar uma posição da independente que é candidata a presidente duma câmara a pretensas "incoerências" num discurso partidário, suprimindo precisamente a parte da história que explica as divergências? Sim, que o Senhor Palomar fala como se Ana Cristina Ribeiro e o BE fossem uma e a mesma coisa, e sabe perfeitamente que isso é uma deturpação desonesta da realidade.

Mas não é nada que surpreenda. Mesmo. A nossa lamentável direita é quase toda assim. Só tenho pena é de que o síndroma ataque desta forma devastadora um blogue que, em geral, até se pode ler.

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quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
 
Ainda a abstenção
Na sequência deste post, publicado antes da cavacal excelência nos tentar atirar para os olhos aquele inenarrável monte de areia de ontem, mas que parecia que estava a prevê-lo, pus-me a fazer umas contas e tive mais algumas ideias sobre o sistema eleitoral e a abstenção. Isto porque se estivermos à espera que certos políticos ganhem algum nível, bem podemos esperar sentados. Se alguém ainda tinha dúvidas, a comunicação ao país da pessoa mais séria de Portugal dissipou-as: é mais seguro procurar combater a abstenção reforçando o sentimento de representação das pessoas do que estar a contar com algum nível por parte dum conjunto alargado dos políticos que temos.

De modo que fiz contas e tive ideias. As contas foram rápidas, aquilo a que os físicos e engenheiros anglófonos chamam, numa tradução literal, cálculos de costas de envelope. Fiz, por exemplo, uma redistribuição dos deputados por círculo não a partir do número de recenseados, como devia ser, mas a partir do número atual de deputados; deu-me mais jeito assim e o resultado é suficientemente próximo daquele que se obteria se tivesse ido buscar os números dos recenseados para ilustrar eficazmente o ponto. Para que fiz essa redistribuição? Para ver o que aconteceria com os resultados de domingo se tivéssemos o sistema de 115 deputados eleitos nos círculos e outros 115 eleitos num círculo nacional de compensação, de que falei no post de segunda-feira. Obriguei os círculos a eleger no mínimo 2 deputados, uni os dois círculos da emigração num só, e redistribuí o resto até perfazer 115. Quanto aos outros 115, resolvi seguir um caminho diferente do que sugeri na segunda-feira. Um caminho que exige alguma explicação.

O ideal, para reduzir as distorções à proporcionalidade e potenciar as hipóteses de mais sensibilidades políticas se verem representadas no parlamento é, como eu disse, um único círculo nacional. Com 230 deputados, esse círculo único teria eleito no domingo 89 deputados do PS, 70 do PSD, 25 do CDS, 24 do BE, 19 da CDU, 2 do MRPP e 1 do MEP, isto é, iriam 38,7% dos deputados para o PS, 30,4% para o PSD, 10,9% para o CDS, 10,4% para o BE, 8,3% para a CDU, 0,9% para o MRPP e 0,4% para o MEP. Se compararem estas percentagens com as percentagens dos votos válidos e não brancos obtidos por cada formação política (37,7%, 30%, 10,8%, 10,2%, 8,1%, 1,0% e 0,4%, respetivamente) verão bem como as diferenças são mínimas. As percentagens de deputados são apenas ligeiramente superiores, com um muito ligeiro, e na minha opinião muito aceitável por ser tão ligeiro, benefício do partido mais votado, devido em grande medida aos votos entregues a formações que não chegam aos cerca de 23 mil votos que marcam a fronteira entre os partidos parlamentares e os outros. Ora, não há nenhuma maneira de fazer com que através dos restos do método de Hondt, como eu sugeri na segunda-feira, se chegue a este nível de precisão. As distorções são sempre maiores. Mas eu gosto da ideia de eleger os quadros nacionais dos partidos por intermédio de um círculo nacional, deixando os círculos regionais para gente com ligação às terras. Como conciliar as duas coisas?

É muito simples. Na verdade, explicar o sistema é bastante mais complicado do que o próprio sistema.

O total de deputados que cada força elege corresponde àqueles que lhe caberiam se no país houvesse um único círculo com 230 deputados. A origem desses deputados é que pode encontrar-se nos círculos regionais ou no círculo nacional de compensação: o número de deputados eleitos através deste é o número total subtraído do número de deputados eleitos pelos círculos. E é só isto. Não perceberam? OK, então exemplifiquemos.

Olhem para os números que pus ali em cima. São esses os totais a atingir e, para os atingir, vão eleger-se 115 deputados pelos círculos e mais 115 pelo círculo de compensação. Fazendo as contas aos resultados de domingo, verifica-se que os 115 deputados eleitos pelos círculos ficariam assim distribuídos: 52 para o PS, 37 para o PSD, 9 para o CDS, 8 para o BE e 7 para a CDU. Isto soma 113: faltam ainda os da emigração, que neste sistema seriam só dois. Suponhamos que vai um para o PS e o outro para o PSD (é bastante natural que seja sempre assim), subindo os totais destes dois partidos para 53 e 38. E quantos deputados cabe a cada um pelo círculo nacional de compensação? Simples: vão 36 para o PS (89-53), 32 para o PSD (70-38), 16 para o CDS (25-9), outros 16 para o BE (24-8), 12 para a CDU (19-7), 2 para o MRPP e 1 para o MEP. Os partidos maiores elegem mais pelos círculos do que pelo de compensação, os médios elegem mais pelo de compensação do que pelos círculos, e os pequenos partidos só elegem pelo de compensação. A distorção da proporcionalidade criada pelos círculos é assim anulada, e o resultado é inteiramente proporcional, ao mesmo tempo que se mantém a representatividade territorial. Ouro sobre azul.

Note-se que isto não funciona com círculos uninominais. Com círculos uninominais é teoricamente possível que um partido "limpe" mais lugares através dos círculos do que os que a proporcionalidade lhe atribuiria. Mas com um sistema em que os círculos têm entre 2 (todo o interior, os Açores e a emigração) e 24 mandatos (Lisboa), funciona às mil maravilhas. E cada voto conta e vale o mesmo, independentemente do local onde é enfiado na urna, porque o número de deputados de cada força é determinado pelo total de votos que ela obtém. Se alguém quer votar no partido xis que sabe que, pelo seu círculo, tem poucas ou nenhumas hipóteses de eleger alguém, tem sempre a certeza de que o seu voto conta para eleger pelo círculo nacional de compensação. Sente-se representado, seja qual for a escolha que faça. Logo, é mais provável que vá votar em vez de ficar em casa a engrossar o número dos abstencionistas.

E outra coisa: o número de deputados por círculo, no sistema que temos, é determinado pelo número de eleitores que cada círculo tem recenseados. Mas há erros nos cadernos eleitorais, erros esses que têm influência direta na composição do parlamento, conforme está exemplarmente exemplificado aqui (incrível: fiz um link para o Blasfémias, e a falar bem!). E que tal esta ideia maluca: deixem lá os eleitores, e passem a fazer as contas com base nos votantes, brancos e nulos incluídos. Se querem ter o número de deputados por círculo definido à partida, usem os votantes das legislativas anteriores; se não for preciso, usem o número das próprias eleições e distribuam os deputados assim que for conhecida a afluência às urnas. Aposto que muita gente, se soubesse que o simples facto de ir ou não votar poderia influenciar a quantidade de gente que é eleita pela sua região, passaria a pensar duas vezes quanto a ficar em casa ou ir à praia. Talvez engrossem o voto em branco, e as frases célebres, mas irão lá. Provavelmente.

São só umas mudançazinhas que podem ser feitas para tentar diminuir a abstenção. E, de passagem, tornar o sistema mais democrático. São só vantagens, parece-me.

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quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
 
Blogtailor attitudes
O blogue Blogtailors publicou ontem uma nota que remete para e cita uma notícia a respeito de indefinições na adoção do acordo ortográfico em Portugal. Em apenas cinco linhas, a citação consegue a proeza de divulgar duas informações erróneas, e eu decidi escrever um comentário a dar conta dessas incorreções. Reconstruo de memória, mas tanto o conteúdo como o tom eram estes:

Há aqui várias incorreções.

Em primeiro lugar, é falso que a reforma ortográfica tenha sido ratificada por quatro países. Além dos quatro que a nota refere, também Timor-Leste assinou e ratificou o acordo, ficando a faltar apenas a Guiné-Bissau, Angola e Moçambique.

Em segundo lugar, não foi só Brasil, Portugal, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe que assinaram o acordo. Todos os países lusófonos o assinaram, bem como aos protocolos modificativos. O que falta não é a assinatura, mas a ratificação dessa assinatura.


Resultado do meu comentário? A sua não publicação. E a alteração da nota com a inclusão daquele "[SIC]" que agora lá se encontra. Não é uma atitude bestial?

Não é a primeira vez que tal coisa me acontece, e sei de outras pessoas que foram tratadas com igual desrespeito. Mas a verdade é que quem se prejudica são os próprios blogtailors. O que eles conseguem com este tipo de atitudezinha prepotente é que ou as pessoas os mandam à fava, ou então deixam de lhes comentar os disparates discretamente nas caixas de comentários, onde ficam escondidos de quase toda a gente, para passarem a fazê-lo em público noutros blogues indexados por motores de pesquisa (coisa que ou não acontece com os comentários ou acontece com a atribuição de um page-rank bem mais baixo, que faz com que esses resultados sejam empurrados bem para o fim da lista), associando eficazmente o seu nome a posts como este.

É uma escolha que os Blogtailors têm feito. Assim seja.

Adenda, 4 de Outubro: Fui alertado por uma série de três comentários anónimos aqui na Lâmpada (todos publicados imediatamente, claro, apesar do insulto implícito) para o curioso facto do meu comentário ter sido entretanto publicado. Não sei quando. Sei que não foi quando o fiz, a 28 de Setembro. Sei que não foi no dia seguinte, 29 de Setembro. Sei que não foi a 30 de Setembro, data deste post, e data em que reparei que o tal "sic" tinha sido adicionado ao post original, o que prova que já nesse momento o meu comentário tinha sido lido e não publicado. Sei que nem sequer a 1 de Outubro foi, porque fui lá ver. Pode ter sido noutro dia qualquer desde então, mas o que mais provável me parece é ter sido hoje e o anónimo não ser propriamente anónimo.

Note-se que não fui só eu a constatar a ausência do comentário. Aliás, o link para o post está ali em cima para isso mesmo: para as pessoas comprovarem por si essa ausência. Foram várias as que o fizeram. De modo que se alguém sente alguma tentação de tentar passar a ideia de que isto que aqui está é uma "difamação", desiluda-se: ninguém acredita.

Isso não me leva a mudar uma vírgula a este meu post. Só o futuro dirá se ele serviu para os Blogtailors perceberem os tiros no pé que têm vindo a dar e os levou a mudar de atitude, se a publicação tardia do comentário serviu apenas para dar motivo a um "anónimo" para me vir aqui tentar puxar as orelhas. Se se der o primeiro caso, ótimo, fico contente; se se der o segundo, é uma crapulice sem nome. Seja qual for o caso, caro "anónimo", se alguém deve desculpas a alguém são, ainda, os Blogtailors. A mim e a todos os outros que têm sido alvo do mesmo tipo de atitude.

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segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
 
Eleições e sistemas
Ia escrever umas coisas sobre as eleições de ontem, focando-me em resultados, vitoriosos e derrotados, esses pormenores tão originais, mas não vale a pena: já houve quem dissesse basicamente o que eu queria dizer. Mas o que o Daniel Oliveira ali escreve não esgota o assunto, e portanto aqui fica o que eu diria depois de falar sobre os resultados propriamente ditos.

Toda a gente fala de abstenção. Para quase toda a gente, esta é sintoma de que algo vai mal no sistema político, de que as pessoas estão alheadas da democracia, não respeitam as instituições democráticas nem as pessoas que por elas se movimentam, etc. E é verdade. Mas convenhamos: com campanhas como aquela a que assistimos é difícil continuar a respeitar certa gente, em particular quem faz da aldrabice, da calúnia e da insídia armas para a conquista do poder. As pessoas muito sérias que apregoam políticas de verdade e depois mentem com um ar muito sério e quantos dentes têm na boca, manuseando os fantoches que têm nos jornais com o único objetivo de iludir o zé pagode.

Felizmente, nem todo o zé pagode se deixa iludir dessa maneira. O crime até pode compensar durante algum tempo, mas no fim das contas feitas as pessoas muito sérias que agem desta forma acabam quase sempre por se revelar como aquilo que são. E o zé pagode que não é estúpido interioriza que antes os palhaços do que pessoas assim tão sérias. O zé pagode que não é estúpido mil vezes votaria nos Gato Fedorento antes de dar um voto a uma certa senhora muito séria e àquele mar de gente tenebrosa que governa um certo partido que eu cá sei, apesar de ser assustador pensar que, mesmo assim, ele tenha quase chegado aos trinta por cento. E que seja também uma pessoa assim tão séria a ocupar poleiro em Belém.

Presidente de todos os portugueses, my ass.

Qual é, portanto, a surpresa por as pessoas não irem votar? Quem vê comportamentos como aqueles e não tem discernimento para não generalizar a toda a classe política, ou até toda a atividade política, fica em casa, claro. Ou, se quer mesmo protestar, vai à mesa de voto juntar-se aos quase 100 mil camaradas que deixaram o boletim em branco, ou aos quase 75 mil que preferiram votar nulo (o que, pela experiência que tive numa mesa, há anos, rende algumas frases bastante elucidativas quanto ao sentimento do votante). São cento e setenta mil pessoas que, se estivessem organizadas numa espécie de "Partido do Contra", teriam eleito um grupo parlamentar capaz de encher um táxi.

E depois há outros fatores. No meu círculo eleitoral, não houve um único partido com hipóteses de eleger deputados que não tivesse resolvido meter à cabeça da lista um paraquedista qualquer, gente sem nenhuma identificação com esta região que ultrapasse o vir cá de vez em quando passar férias. Nem um. Qual a surpresa por as pessoas pensarem que eles vão para o parlamento defender não os nossos interesses, mas os dos respetivos partidos? Qual a surpresa por se achar que eles não fazem a mínima ideia dos nossos problemas?

Francamente? Se é para candidatarem a deputados pessoas sem a menor ligação aos círculos por que se candidatam, melhor seria que acabassem com os círculos e elegessem os deputados por um círculo único, nacional. Não ficaríamos a conhecê-los pior do que conhecemos agora, não ficaríamos menos próximos deles do que estamos agora, e com um círculo único o nosso sistema eleitoral tornar-se-ia realmente proporcional, em vez desta mixórdia que temos agora, que beneficia sistematicamente os dois maiores partidos. Com 230 deputados eleitos por lista única, o parlamento teria representação de mais correntes de pensamento da sociedade portuguesa, o que quem é realmente democrata só poderá aplaudir. Com os resultados de ontem, isso significaria eleger um deputado com cerca de 24 mil votos, o que somaria aos 5 partidos atualmente representados o MRPP e o MEP.

É que, sabem?, o nosso sistema atual distorce a representação parlamentar. Os 37,7% de votos que contam para a eleição de deputados que o PS obteve (isto é, os votos expressos menos os brancos e os nulos) transformam-se em 42,5% dos deputados; os 30% do PSD viram 34,5% dos deputados; os 10,8% do CDS, os 10,2% do BE e os 8,1% da CDU são reduzidos a 9,3%, 7,1% e 6,6% dos deputados, respetivamente. É fácil de ver que a força que as diversas formações políticas obtém no parlamento não corresponde à vontade dos eleitores. É mais ou menos semelhante, anda por aí. Mas a forma de eleição de deputados distorce a vontade do eleitorado. E, como foi dito várias vezes ontem na TV, não estamos livres de acontecer um cenário de distorção absoluta, em que um partido menos votado acaba mais representado do que outro mais votado.

Admiram-se por o eleitorado olhar de viés para o sistema?

Ainda por cima, a ideia teórica de que todos os votos valem o mesmo é falsa. Ontem houve quase 150 mil votos que, apesar de serem válidos e terem sido entregues a formações concorrentes, não serviram para eleger ninguém. São as sobras do método de Hondt. São 150 mil eleitores que, para todos os efeitos práticos, se veem privados de fazer ouvir a sua voz no próximo parlamento, durante o tempo que ele durar. Pior: se o círculo do Porto tivesse mais um deputado, ele teria sido eleito com 23200 votos (e seria do BE); se o círculo dos Açores tivesse mais um deputado, bastariam 11400 (e seria do PSD). Ou seja: um votante do Porto tem menos de metade do poder que tem um votante açoreano. Todos os votos contam? Longe disso. Todos os votos são contados, isso sim. E o valor que cada um tem depende do ponto do país em que é introduzido na urna. Como na história do George Orwell, todos os votos são iguais, mas há uns mais iguais do que outros.

Se as pessoas interiorizam que a sua voz não vai ser ouvida, que o seu voto de nada serve e não obterá representação na AR, que há uns mais iguais do que outros, que os políticos são todos uma cambada de gente sem espinha dorsal que procura o poder não para governar mas para governar-se, onde está a surpresa por a abstenção ser a que é? Por um terço dos eleitores não estar para se incomodar e ficar em casa?

Se querem realmente diminuir a abstenção, meus senhores, tirem a cabeça da areia e façam alguma coisa que contribua para isso. Aumentem o nível do combate político discutindo política em vez de tentar conquistar o poder com golpes sujos. E deem voz a quem não a tem, transformando o sistema que temos num sistema realmente proporcional. Pode ser por círculo único, mas também pode ser doutras maneiras. Por exemplo, se aos 226 deputados eleitos ontem (faltam ainda os da emigração) se somassem 50 eleitos por um círculo nacional para o qual só contassem as sobras do método de Hondt, os tais 150 mil votos deitados à rua, o PS ficaria com 39,1% dos deputados, o PSD com 32,2%, o CDS com 10,9%, o BE com 9,1%, a CDU com 8% e o MRPP elegeria dois, isto é, 0,7% dos deputados (a votação foi de 0,96%). Veem como as percentagens de deputados se aproximam logo das de votantes? Continua a não ser perfeito, mas é muito menos imperfeito do que o que temos agora. E quanto maior, em proporção, fosse o círculo nacional, mais proporcionais os resultados finais seriam.

Para mim, o ideal seria metade-metade. Metade dos deputados eleitos nos círculos atuais, talvez com algumas fusões nos círculos mais pequenos para evitar que se tornassem pequenos demais (não há nada que distorça tanto como círculos em que só se elegem 2 ou 3 deputados... e quanto aos uninominais, nem se fale), e a outra metade no círculo nacional. 115 para cada lado. Pelos círculos eleger-se-iam pessoas que também fossem capazes de apresentar no parlamento os problemas específicos de cada zona; o círculo nacional ficaria para os quadros dos partidos, que eles hoje em dia distribuem por todo o lado ao sabor das suas conveniências.

Iam ver se a abstenção não diminuía logo. Desde que o sistema adotado fosse suficientemente simples para que as pessoas o compreendessem.

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quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
 
Lido: O Regresso do Filho Pródigo
O Regresso do Filho Pródigo, de André Gide é, como se diz na contracapa da publicação em que ele é publicado, "um texto de natureza quase teatral, constituído por sucessivos diálogos" que tematiza "o conflito entre o conservadorismo e o hedonismo". Nem mais. Fica apenas a faltar dizer que se baseia no episódio bíblico com esse nome e que é, à semelhança deste, mais um dos tais textos que, mais do que verdadeiras peças de ficção, constituem uma reflexão íntima do autor, uma forma dele tentar tirar conclusões para si próprio. Tenho a certeza de que quem sofre do mesmo tipo de conflito interior, entre o conservadorismo e o hedonismo, lhe verá bastos motivos de interesse, o mesmo acontecendo com quem se pela por histórias inspiradas na Bíblia, ou quem adora diálogos empolados e com tanto de literário como de pouco natural. Infelizmente, não é o meu caso; não encontrei o mínimo interesse no conto. Poucas vezes um texto composto quase exclusivamente por diálogos conseguiu aborrecer-me tanto. Às vezes o mainstream literário é assim.

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quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
 
Lido: A Angustiante História de Thangobrind, o Joalheiro
Um título tão longo como A Angustiante História de Thangobrind, o Joalheiro poderia talvez fazer supor que Lord Dunsany escreveria uma história que não fosse só angustiante mas também comprida. Crasso engano. Trata-se de um continho de fantasia com apenas três páginas que, com uma ironia muito bem apanhada, nos conta a história de — adivinharam — Thangobrind, um — a-ha! Aqui já não — ladrão de jóias de grande qualidade que um dia decide roubar uma jóia mágica chamada Diamante do Morto, com o resultado que logo se supõe. O mais interessante desta história, para mim, foi o quanto ela me fez lembrar os ambientes e enredos de escritores americanos bastante posteriores, como o Robert E. Howard das histórias de Conan, ou o Fritz Leiber das do Fafhrd e do Rateiro Cinzento. É um pouco como se Dunsany tivesse escrito um contito rápido delineando um território e dito aos outros "OK, tomem lá, desenvolvam lá isto".

Curioso, muito curioso.

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Lido: Paradojas
Paradojas, de José Brox (que pode ser lido aqui) é um conto curto muito surreal que não me agradou particularmente. Bem, na verdade não me agradou mesmo nada. Explico porquê:

Como sabe quem tem lido estas notas de leitura, eu gosto de alguns contos surrealistas. Até já escrevi alguns. Mas para que me agradem, há uma coisa de que não prescindo. Ou melhor: há duas. Uma é estarem bem escritos. Outra é que, apesar do onirismo inerente à escrita surrealista, tenham um fio condutor qualquer, uma estrutura, uma coluna vertebral.

E é precisamente aqui que me parece que Paradojas falha. Não me parece que essa coluna vertebral exista neste caso, ou pelo menos que seja eficaz. E isso deixa o humor que o conto contém assim um bocadinho a pairar no nada, pronto a estampar-se ao comprido se o leitor não tiver o sentido de humor retorcido do autor. Parece que eu não tenho.

Outros terão, evidentemente.

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Lido: Solaris
Lido, que é como quem diz relido.

Reler um romance muitos anos depois da primeira leitura — e neste caso foram mais de duas décadas — é uma experiência curiosa. Por um lado, há aquela familiaridade, aquela sensação de dejà vu, que impede a frescura da primeira leitura. Por outro, essa familiaridade é enganosa: há sempre algo que surpreende, pormenores esquecidos, coisas que não acontecem exatamente como a memória as recorda. Parte dessas surpresas podem inclusive ser mais do que um simples reavivar da memória, podem ser coisas que nos tinham passado despercebidas na primeira leitura. É que a pessoa que relê nunca é a mesma que leu — nem o Peter Pan fica absolutamente imutável — e olha para a obra com olhos que são sempre diferentes.

Já não sei bem o que pensei deste livro há vinte e tal anos. Sei que me embasbacou, que me deixou siderado, que o achei na altura das melhores coisas que me passaram pelos olhos, mas nada recordo dos pormenores.

Após a releitura, continuo a achar o Solaris do Stanislaw Lem (bib.) dos melhores romances de ficção científica de todos os tempos. Embora esteja já algo envelhecido, esse envelhecimento acontece apenas nas margens do romance, no envoltório tecnológico que lhe serve de cenário. O fulcro, aquilo que constitui a sua espinha dorsal, é tão novo hoje como foi em 1961, ano em que saiu em polaco, ou em 1983, ano da sua primeira edição portuguesa.

O título do romance revela o assunto: Solaris é um planeta, mas também um oceano vivo que cobre o planeta por completo e se comporta como uma imensa entidade inteligente, capaz das coisas mais mirabolantes e incompreensíveis. É a esse oceano que os cientistas terrestres dedicam décadas de estudo sem, no entanto, chegarem a nenhuma conclusão realmente definitiva, e o outro protagonista da história é precisamente um desses cientistas, que chega a uma estação de investigação que flutua na atmosfera acima do oceano e é confrontado com o desconhecido.

E aqui está a camada subjacente a esta história complexa: o desconhecido e a incapacidade humana para realmente passar a conhecê-lo, o incompreensível e a nossa perplexidade quando deparamos com ele, a futilidade dos esforços que fazemos para desvendar o que nele se esconde. No fundo, é este o verdadeiro tema deste romance, e, aliás, nesse aspeto Solaris não está isolado no contexto da obra de Lem. Romances como A Voz do Dono ou Fiasco andam também muito por esses territórios, cada um à sua maneira. Mas é Solaris a sua obra mais famosa e marcante.

Porquê?

Em grande medida por causa dessa criação magistral que é o oceano. E porque funciona mesmo violando sistematicamente todos os mandamentos que se ensinam nos ateliers de escrita criativa formatados à americana. Ação, por exemplo, quase não há; o romance é fundamentalmente contemplativo. O mandamento que reza "show, don't tell", é esfrangalhado por longas digressões teóricas sobre o oceano, contando muito e não mostrando nada. E no entanto, deve haver muito poucas pessoas com gosto por algum conteúdo na sua FC que não considerem o todo magnífico. Esta ideia é, aliás, comprovada por Solaris ser dos poucos — muitas vezes o único — livros de origem não anglófona a conseguir sistematicamente lugar nas listas de clássicos da FC, sejam eles escolhidos pelos leitores, sejam escolhidos por estudiosos do género.

Solaris não é um romance emocionante. Também não é, com duzentas e poucas páginas, um romance grande. Mas é sem sombra de dúvida um grande romance, e um romance que perdurará durante muito, muito tempo.

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sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
 
Lido: Ar
Ar, de Geoff Ryman (bib.), é um romance feito de encruzilhadas. Para começar desenrola-se num país fictício, o Karzistão, localizado algures na Ásia Central, naquela região por onde, no mundo não fictício, passou em tempos a Rota da Seda e onde se encontram a China, o Paquistão, o Afeganistão, o Cazaquistão e mais alguns países saídos do colapso da União Soviética. No mundo fictício de Ar, cruzam-se aí três povos: os chineses, os karzistani e os eloi, minoria étnica que procura reafirmar-se e sair da alçada dos seus vizinhos mais poderosos. Cruzam-se aí também religiões, pois essa é a zona de encontro do Islão com os budismos e outras religiões orientais, embora este aspeto tenha pouca relevância para a história.

Mas a encruzilhada mais importante é a encruzilhada entre o passado e o futuro. O cenário de quase toda a história é uma aldeia, perdida nas montanhas, cujos habitantes praticam quase todos uma agricultura de subsistência e vivem na pobreza e ignorância do mundo que esse facto sugere. E é sobre essa aldeia antiga que vem cair subitamente o futuro sob a forma de Ar, uma espécie de internet universal, transmitida diretamente para o cérebro das pessoas. Primeiro, é realizada uma experiência, um teste, e é durante esse teste que algo corre terrivelmente mal: uma velhota morre de choque e a sua personalidade, ou parte dela, acaba alojada na cabeça da heroína do romance, uma mulher interessada no mundo, mas principalmente na moda que o mundo lhe traz, chamada Chung Mae. Em resultado do acidente, Mae obtém uma quantidade de informações que não são disponibilizadas às outras pessoas da aldeia, e vai caber-lhe a tarefa de arrancar os vizinhos ao passado, preparando-os o melhor possível para um futuro que acabará por chegar, quer eles queiram quer não.

O romance vai repescar alguns temas típicos do ciberpunk: a computação omnipresente e a manipulação de sistemas informáticos, claro, mas também a Ásia, suas culturas e povos. Mas tem uma estrutura muito pouco ciberpunk, antes aproximando-se do romance mainstream na descrição da complexa teia de alianças e inimizades da aldeola onde Mae vive, na elaboração da personagem de Mae, que é muito mais sólida do que é hábito encontrar-se na FC, ainda que a maior parte das personagens secundárias não cheguem nem perto dessa tridimensionalidade, na ausência daquela ação violenta tipicamente ciberpunk, etc. Também aí encontramos nele uma encruzilhada, entre a FC e a literatura "lá de fora", que é acentuada ainda mais quando, a partir de cerca de meio do romance, começamos a encontrar coisas que estaríamos mais à espera de ver em histórias de realismo mágico ou de horror: Mae engravida mas, duma forma cuja explicação nunca chega sequer a ser esboçada, o embrião aloja-se não no útero, como a natureza manda, mas sim no estômago.

Curiosamente, ou talvez não, apesar de toda a disparidade e confluências que contém, o livro funciona. É, no fundamental, uma história sobre a evolução das coisas, sobre o caráter mutante da vida, sobre o modo como a tecnologia e a ciência, a capacidade de olhar objetivamente para o mundo, usando da melhor forma possível as ferramentas que temos à disposição e que vamos criando, acaba sempre por melhorar a vida da maioria das pessoas, ou até de as salvar. Imagino que haja leitores mais amigos de enredos enrodilhados e cheios de ação que se aborreçam com este livro, que de facto não é nada disso. Uns podem achá-lo pastelão e lento, outros ou, quiçá, os mesmos, podem achar certas passagens demasiado inverosímeis para um livro de FC, mas duvido de que quem seja sensível às questões filosóficas que ele tem subjacente possa não acabar a leitura com um saldo francamente positivo.

Eu, que até concordo com a objeção sobre a inverosimilhança, certamente que acabei. O livro é bom, e vale bem a pena ser lido.

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