sábado, 23 de maio de 2015

Lido: O Último Anel

O Último Anel (bibliografia) é um romance do russo Kiril Yeskov que constitui uma espécie de anti-fan-fiction de J. R. R. Tolkien. Yeskov pega na Guerra do Anel descrita na trilogia do Senhor dos Anéis, e subverte-a, apresentando-nos, basicamente, o outro lado da história, o lado dos derrotados.

Existem, no entanto, diferenças entre as duas obras ainda mais significativas do que isso. Embora se possa dizer que Tolkien descreve a Guerra do Anel, a verdade é que o faz muito parcialmente, visto que se concentra fundamentalmente na viagem da Irmandade e nas peripécias que vão acontecendo a cada um (ou a cada grupo) dos seus membros, durante as quais o caos generalizado da guerra está quase sempre algo longínquo. Há, por exemplo, pouquíssimos soldados comuns na obra de Tolkien, e só não digo que não há nenhum porque já a li há bastante tempo e posso estar a ser traído pela memória (aliás, julgo que estou; surgiu-me agora de repente uma vaga recordação de soldados orcs a tentar apanhar Frodo e Sam). Tudo, ou quase, se passa entre as altas esferas, no seio dos líderes ou dos heróis.

Yeskov, pelo contrário, apresenta bastante melhor esse caos, mostrando-nos uma quantidade razoável de pessoas (ou criaturas) comuns, a tentar safar-se o melhor possível no meio da confusão, e criando no processo um ambiente mais texturado e por isso mais sólido do que o de Tolkien.

Embora ambas as histórias nos mostrem protagonistas perseguidos por forças na aparência infinitamente superiores, a história de Tolkien é no fundamental uma história de superação pessoal, ao passo que a de Yeskov é principalmente uma história de espionagem.

Tolkien também escreve uma história inteiramente maniqueísta, com o bem e o mal bem identificados e separados, até racialmente. Yeskov é muitíssimo diferente. Não só o bem e o mal de Tolkien não são, necessariamente, os mesmos de Yeskov, como o livro deste último nada tem de maniqueísta: Yeskov recusa ver as coisas a preto e branco, apresentando em vez dessa dicotomia uma série de tonalidades de cinzento, o que também contribui para a construção de um mundo significativamente mais complexo, e por isso mais interessante, que o de Tolkien.

Por outro lado, falta a Yeskov uma componente que é muito importante em Tolkien. Um dos principais interesses do autor britânico foi a criação de toda uma mitologia que, embora seja baseada nas sagas escandinavas e no folclore céltico, acaba por aparecer aos olhos do público como criação original bem sucedida. O russo, pelo contrário, não tem qualquer interesse pela criação de uma mitologia; o seu romance é declaradamente referencial e irónico, até iconoclasta (Yeskov não se limita a mudar o ponto de vista; altera também a própria história da Guerra do Anel). À para-mitologia tolkieniana contrapõe com realismo e até com um certo materialismo, apesar de este livro não deixar de ser uma obra de fantasia, visto que, por exemplo, as realizações de Mordor são apresentadas não como o resultado do poder mágico do mal (ou do bem), mas de uma civilização tecnológica e industrial, cética em relação a todas as superstições mágicas, e significativamente mais avançada do que os obscurantistas que a combatem, embora ainda primitiva para os nossos padrões.

Ou seja: O Último Anel é um livro melhor do que os de Tolkien? Será isso que estou a dizer?

Não, e digo-o mesmo não tenho gostado por aí além dos livros de Tolkien. É um livro mais terra-a-terra, é um livro mais texturado, é um livro mais sólido em termos de tridimensionalidade de personagens e ambientes, mas contrapõe a essas qualidades alguns defeitos bastante visíveis. Para começar, a própria história.

Um dos grandes predicados de Tolkien, e, julgo eu, uma das principais razões do seu sucesso, é a clareza da história. Não há dúvidas sobre que história está ali a ser contada. Não se pode dizer o mesmo de Yeskov. A história que este conta é bastante menos clara e a ideia que fica é que ao esforçar-se para conferir solidez ao ambiente e às personagens ele se esqueceu um pouco de escorar convenientemente a história.

Também no que toca à qualidade literária propriamente dita Tolkien parece levar clara vantagem. E escrevo "parece" porque, infelizmente, esta tradução, baseada não diretamente no original russo mas numa tradução espanhola cuja qualidade desconheço, e ainda por cima repleta de espanholismos, ficou muito, muito longe de me convencer. Mas mesmo muito. Ao ponto de eu não conseguir avaliar a qualidade literária de Yeskov por aquilo que li. A única coisa que posso dizer é que Tolkien é, mesmo em tradução, muito melhor, literariamente, do que esta versão portuguesa de Yeskov.

O resultado destas qualidades e defeitos é um livro que poderia ser muito interessante, em especial para todos aqueles que tenham lido a trilogia de Tolkien sem se prenderem demasiado a ela, mas que fica bastante aquém do seu potencial. Não o recomendaria a verdadeiros fãs tolikienianos, visto que Yeskov toma liberdades com a história que poderão para eles ultrapassar o limiar da heresia. Mas quem tiver uma costela iconoclasta e não tenha gostado assim tanto da trilogia do anel é capaz de gostar, em especial se conseguir fechar os olhos às falhas literárias (ou de tradução?) que o livro contém.

Para mim, foi um livro razoável. Longo, alternando trechos interessantes com outros bastante aborrecidos, com algumas qualidades fortes e alguns defeitos igualmente fortes. Mediano, portanto.

Este livro foi comprado.

Lido: Electrodependência

Electrodependência (bibliografia) é um conto de Ana C. Nunes que força um bocado a capacidade de suspensão de descrença do leitor, visto que a ideia básica tem a ver com pessoas viciadas em choques elétricos (ou em certo tipo de choques elétricos) e outras pessoas, os "electrokinéticos", com uma capacidade especial para manipular mentalmente a eletricidade, que as leva a tornarem-se valiosos... como escravos. E claro que, como consequência, os electrokinéticos (porquê o k?!) que não queiram acabar escravizados têm de mergulhar na clandestinidade. Essa parte não exige suspensão rigorosamente nenhuma da descrença.

No entanto, se a descrença for suspensa a contento, o leitor acaba por ser presenteado com um bom e movimentado conto, protagonizado por um telekinético clandestino, que ganha a vida a traficar eletrodrunfos (a Ana não lhes dá este nome, mas podia perfeitamente ter dado) junto da dissoluta nobreza da capital e de súbito se vê descoberto, não só como traficante, mas como telekinético. Segue-se a fuga e uma série de peripécias, bem construídas (à parte, talvez, um infodump demasiado longo que interrompe a ação durante demasiado tempo) e bem escritas, culminando num final francamente bem conseguido.

Gostei.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Lido: The Secret

The Secret, de autor anónimo (consta por aí que é de um tal G. W. Thomas) é um continho muito curto sobre a coisa mais importante do mundo. E também sobre o que move as pessoas a fazer o que fazem, tudo o que fazem. O ambiente é de fantasia mas esta pouco passa de acessório, e a conversa entre mestre feiticeiro (um tal "homem arco-íris") e aprendiz que percorre todo o conto podia ter sido tida por um mais-velho e um mais-novo quase em qualquer tempo, lugar ou ambiente. E tudo porque o aprendiz está num afã para domar um penteado rebelde que não se deixa enfiar no redil da última moda.

Trata-se de um conto moral, sim. Há quem deteste contos morais, e eu próprio confesso que não morro de amores por eles. Também não me agrada muito o uso tão cosmético das características da literatura fantástica. No entanto, o conto é divertido e isso compensa muita coisa.

Longe de ser o melhor desta publicação, este não deixa no entanto de ser um conto com o seu interesse.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: 1º Concurso Cultural Cranik

1º Concurso Cultural Cranik é uma antologia virtual de literatura fantástica (incluindo fantasia, ficção científica e horror) organizada por Ademir Pascale, reunindo os contos premiados no dito concurso que, apesar de ser declaradamente o primeiro de um projeto que, segundo o organizador, pretendia ter continuidade, terá, tanto quanto sei, ficado por aqui.

E compreende-se bem porquê.

De facto, não só estes 11 contos, escolhidos, segundo nos é dito no prefácio, de entre mais de oitenta, nunca chegam a atingir uma qualidade suficiente para que se lhes possa chamar bons, apesar de um se aproximar bastante e mais dois ou três serem um pouco mais que interessantes, como a própria ordenação é, a meu ver, peculiar. Sim, é certo que a qualidade média decresce do princípio até ao fim (os onze contos estão ordenados do 1º ao 11º, e o livro respeita essa ordenação), mas há coisas estranhas, como o melhor conto não ter sido mais que 7º e o que ganhou nem me parecer merecer uma posição na metade superior da tabela.

Questões de gosto pessoal, certamente? Talvez. Mas o facto é que eu acabei a leitura sem conseguir compreender os critérios utilizados para ordenar os contos. Além disso, numa avaliação de obras literárias há questões razoavelmente objetivas, como a qualidade do tratamento dado à língua, que convém que se veja ter feito parte do processo de avaliação — e no entanto, são vários os contos aqui presentes que mostram falhas a esse nível, algumas das quais gritantes.

Sem nenhum conto bom e com mais do que um francamente mau, o resultado só poderia ser uma antologia globalmente muito fraca. É perfeitamente possível que essa fraca qualidade seja um reflexo dos textos propostos a concurso, mas só se poderia ter uma noção mais concreta sobre se assim é ou não se se conseguisse compreender os critérios de avaliação. Como eles não são fáceis de compreender, nem essa atenuante pode ser utilizada.

Quem queira saber o que achei de cada um dos contos, tem quatro opiniões separadas sobre isso aqui, aqui, aqui e aqui. Quem preferir avaliar por si próprio, encontra o livro, por exemplo, aqui, em PDF.

Lido: O Fiasco do Milénio

O Fiasco do Milénio é uma crónica de Rui Tavares sobre ficção científica. Ou melhor, sobre a dessintonia entre as promessas da ficção científica, particularmente a clássica, escrita lá pelos idos dos anos 50 e 60, e as realidades do futuro de então, ou seja, do século XXI. É uma boa crónica, que espelha muitas coisas que se dizem regularmente nos meios mais ligados à FC (o Rui Tavares, que eu saiba, não faz propriamente parte deles, mas não anda muito distante — é daquelas pessoas que são ou foram fãs sem nunca terem pertencido a nenhuma espécie de fandom mais ou menos organizado), e uma preocupação que é (ou deveria ser, vá) comum entre quem escreve no género: a obsolescência rápida das ficções futurísticas.

É uma boa crónica, já disse? Então repito. Não a acho é particularmente adequada para um livro como este, francamente. Porque este texto contém alguma ironia, sem dúvida, mas está muito longe de ser um texto de humor. Muito longe mesmo.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Lido: Svengali

Svengali é uma brevíssima citação, feita por Rui Tavares, de um trecho de George du Maurier. Lamento, mas não percebo nem a relevância do trecho nem onde poderá estar a graça. Falta-me contexto, provavelmente. É uma bela coisa, o contexto.

Totalmente dispensável.

Textos anteriores deste livro:

Lido: 1º Concurso Cultural Cranik (quarta parte)

Zéfiro, de Alana Menk, é um continho delicodoce sobre uma visita feita por Zéfiro, o deus grego do vento de oeste, à superfície do planeta e à humanidade. E é mais um conto em que a autora tenta esticar a perna muito para lá do lençol que lhe coube em sorte, o que resultou num conto mal escrito, mal concebido e mal rematado. Muito, muito fraco.

Memento Mori, de Luan Montà de Castro Pereira de Souza, é um conto que até tem uma ideia com algum interesse (um velho sem idade que, por intermédio de uma misteriosa esfera mágica e de uma não menos misteriosa criatura que a transporta, suga a vida de jovens, prolongando assim a sua), embora não propriamente nova, mas que está tão mal escrito, sob todos os aspetos, que se torna quase insuportável de ler.

Lido: O Homem do 99º Andar

O Homem do 99º Andar (bibliografia) é um conto de J. G. Ballard no qual se comete um crime perfeito. Não se trata, no entanto, de uma história policial, como quem reconhecer o nome do autor (ou a coleção a que pertencem capas como esta aqui ao lado) facilmente adivinha; é uma história de uma ficção científica que lida, não com as ciências exatas, mas com a psicologia.

Toda a história gira em volta de um homem que tem uma pulsão por chegar ao 100º andar do máximo de arranha-céus possível, e tem de ser ao 100º, não pode ser qualquer outro. No entanto, devido a alguma espécie de bloqueio psicológico, nunca consegue passar do 99º. E pouco mais é possível revelar sem se desvendar aspetos fulcrais do enredo. Digamos apenas que a coisa mete hipnotismo.

Sem ser das melhores ficções de Ballard, estando até algo longe disso, não deixa de ser um conto com interesse, capaz de sustentar a curiosidade do leitor até ao fim, evitando tornar-se previsível.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Lido: 1º Concurso Cultural Cranik (terceira parte)

O Medalhão, de André Luís, é, de muito longe, o melhor conto de toda a coletânea. Bem escrito, com um estilo sincopado que, no entanto, tem a flexibilidade suficiente para intercalar frases mais longas quando necessário, e que se ajusta bem à ação violenta descrita, conta uma história sobre a força que tem o que tem de ser, misturando assaltos, medalhões mágicos e viagens no tempo. Falta-lhe corrigir algumas falhas (por exemplo, alguma inconsistência no tempo narrativo) para ser um conto realmente bom. Mas para lá caminha.

Nuada, o Lendário Rei Tuatha Dé Dannan, de Dione Maria Souto da Rosa, é um conto de fantasia céltica, bastante fraco, daquelas historinhas banais e românticas de amor instantâneo (nem é preciso juntar água), piorada com um longo infodump e diálogos pouco credíveis.

A Noite Misteriosa dos Mortos-Vivos, de Andrea Carvalho, é um conto de zombies e passa-se de noite, o que explica o título. Embora não tenha grande originalidade, pelo contrário, está razoavelmente bem escrito e, se nos abstrairmos de uma ou outra fragilidade, até que se lê com certo agrado. Não será um bom conto, mas é razoável.

Lido: Um Bom Homem é Difícil de Encontrar

Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, de Flannery O'Connor, é um conto um pouco estranho. De início parece uma sátira, mostrando-nos uma avó intratável que procura por todos os meios evitar uma viagem do Tennessee até à Florida, massacrando o juízo de toda a família, mas especialmente do filho. Cenas domésticas com ancião rabugento são coisas comuns, podem dar boas histórias e é o que parece vir daqui, apesar da incongruência que advém de um conto desses estar incluído numa compilação de histórias sobre crimes.

Às tantas, há umas referências que parecem inteiramente espúrias a um psicopata que teria fugido da prisão, mas a coisa passa como quem não dá nada por ela e lá começa a viagem com avó dentro.

Mas em breve a viagem começa a correr mal, tomam-se decisões erradas, e a partir daí o conto começa a ser previsível... mas ao mesmo tempo absolutamente terrível.

O que este conto tem de mais impressionante é a forma como O'Connor consegue escrever as cenas finais sem mudar grandemente de tom em relação à ligeireza inicial, mas transformando essa ligeireza em terror, puro e simples. Literariamente, este conto é magnífico, em grande medida por causa disso, e nem esta tradução com algumas falhas consegue maculá-lo.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 19 de maio de 2015

Lido: 1º Concurso Cultural Cranik (segunda parte)

Erra Uma Vez, de Leandro Luiz, é um continho metaliterário, com alguma graça, sobre o Capuchinho Vermelho, o Lobo Mau e outras personagens das histórias infantis. Mas não passa disso.

A Depressão da Fênix, de Adam Minhoto, é um muito mal escrito depoimento de uma fénix, chateadíssima com a imortalidade. Um conto muito mau, daqueles que esticam o pé muito para lá da manta que lhes coube em sorte, tentando ser profundos mas só conseguindo ser banalíssimos.

A Mente Eterna, de Angelo Miranda, é um conto de ficção científica que, apesar da fraca qualidade do tratamento da língua, começa razoavelmente bem, apenas para se ir desfazer no cliché mais raso (e mais antigo) das histórias de robôs. Foi contra histórias destas que Asimov se rebelou, acabando por inventar as suas celebérrimas Três Leis... em 1942 (ou até antes; as Leis foram formuladas em 42 mas já estavam implícitas em histórias que ele vinha publicando desde 1939). É pena. Podia ter sido um conto com algum interesse se não tivesse resvalado daquela forma.

Lido: A Queda da Casa de Usher

A Queda da Casa de Usher (bibliografia) é um conto de horror de Edgar Allan Poe que... hm... eu já tinha lido isto, não tinha?

Tinha, pois está claro que tinha. A última leitura data de há cinco anos, mais mês menos mês, e não tenho grande coisa a acrescentar ao que disse nessa época. Só talvez que este é um conto bom o suficiente para eu dele gostar apesar não só do cliché em que foi sendo transformado ao longo dos últimos (quase) dois séculos, mas também de ser um conto romântico com todas as marcas do estilo (e) da época, marcas essas que, como já disse variadíssimas vezes, costumam desagradar-me bastante.

E também que não me lembro da qualidade da tradução que li há cinco anos, mas esta é de se lhe tirar o chapéu. Ou, vá, a cartola.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 17 de maio de 2015

Lido: 1º Concurso Cultural Cranik (primeira parte)

Conforme ameacei prometi quando comecei a falar da IAM, eis-me a falar de outra publicação lida em 2014 e que tinha ficado esquecida (e afinal ainda há mais uma! Fica para depois), esta antologia do 1º Concurso Cultural Cranik. O esquema será o mesmo da IAM: três contos por post e um apanhado geral no fim.

O Bicho, de Ana Beatriz Cabral, é um continho romântico e fantástico sobre boas ações. A história, embora não seja nada de particularmente original (trata-se de um conto que mete metamorfoses e curativos, e a história é tão curta que dizer muito mais que isto já entra pelo terreno das revelações excessivas), está bem construída. Não gostei foi do estilo literário, que não só me pareceu desadequado da história (a sucessão de frases curtas joga razoavelmente bem com enredos de ação, o que este não é), como se tornou cansativo logo à página três.

Sopros do Mal, de Cláudia Curcio, é uma história de violência, à qual o mesmíssimo estilo do conto anterior (frases curtas e sincopadas) se ajusta bastante melhor... apesar de acabar por se tornar igualmente cansativo. Mas a história poderia ter interesse se fosse mais bem explorada: que consequências pode ter uma família desestruturada e violenta, em especial quando a homofobia se junta à homossexualidade. Este conto é realista, ainda que não deixe de conter também uma componente de horror psicológico.

Hora do Embarque, de Edweine Loureiro, é uma historinha de horror pós-morte, escrita num estilo que me agradou bastante mais, e cujas personagem são as almas penadas de pecadores, na hora de embarcar no comboio que as levará... para algures. O tema é bastante cliché, mas a autora dá-lhe uma volta curiosa e o conto, não me parecendo propriamente bom, é o melhor deste grupo de três.

sábado, 16 de maio de 2015

Lido: Contos Comédia Urbana

Contos Comédia Urbana é uma pequena antologia de dois contos, cuja identificação com a comédia urbana me deixou um pouco confuso. Em (grande?) parte por não saber lá muito bem o que vem a ser isso da comédia urbana. Será por oposição à rural? Não faço ideia.

Os contos têm alguns pontos em comum. São contos irónicos e com mais que uma pitada de melancolia, que lidam sobretudo com a natureza humana, ou pelo menos com a forma como os respetivos escritores a entendem. Contos muito pouco divertidos, nos quais a ironia que contém é bastante mais intelectual do que emocional.

São bons contos? Sim, até são. Mas não são das minhas ficções preferidas.

Eis o que achei sobre eles:
Este livro foi comprado.

Lido: As Duas Caras de António

As Duas Caras de António (bibliografia) é um mirabolante conto de Carlos Eduardo Silva que segue as peripécias de um agente germânico infiltrado numa instituição de investigação e desenvolvimento portuguesa, onde se desenrola pesquisa de ponta cheia de interesse para os militares germânicos. As coisas parecem estar a correr bem até que se dá um assassínio no laboratório. Como o morto é precisamente o homem sob cuja alçada o protagonista estava a trabalhar, e há um determinado aparelho que desaparece, este vai ser obrigado a improvisar.

É uma história com muitas ideias interessantes, que no entanto tem alguns dos defeitos que encontrei na história anterior, o que faz com que a meu ver não ultrapasse o razoável. Além de dois ou três casos de descuido na revisão, pareceu-me que o desenvolvimento da história é um pouco apressado, deixando-a com um ritmo sacudido e uma certa tendência para gerar pontas soltas. Julgo que houve pontos de enredo demasiado (e desnecessariamente) explicados enquanto outros não o foram o suficiente para evitar dois ou três casos de "de-onde-veio-isto-agora?"

Parte desta impressão vem do meu pouco gosto por histórias que se concentram mais em criar reviravoltas no enredo do que em desenvolver cada parte deste realmente bem. Peculiaridades de leitor. Quem gostar mais de enredos ziguezagueantes do que eu, certamente gostará mais deste conto. Quanto a mim, julgo que esta história se sairia melhor como argumento para uma história de BD do que como conto. Na forma de conto não ficou má, mas a verdade é que não chegou a um ponto que me satisfizesse por inteiro.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Lido: Isaac Asimov Magazine, nº 1

A Isaac Asimov Magazine (bibliografia - ainda incompleta), uma antiga revista publicada no Brasil no início dos anos 90, que começou por traduzir para português contos e artigos publicados na Asimov's Science Fiction e a dada altura começou também a publicar produção local, arrancou com este número. E arrancou de uma forma que não me parece que ultrapasse muito o razoável, ainda que seja possível que o tempo transcorrido desde a sua publicação esteja a poluir um pouco a avaliação.

De facto, dos 10 contos e noveletas que compõem este número, só dois ou três me pareceram realmente ficções de primeira água. É certo que não há nenhum conto mau, mas há vários que ficaram bem longe de me encher as medidas, enquanto a outros, apesar de serem melhores, lhes falta, a meu ver, qualquer coisa.

Seja como for, é uma publicação que vale bem a pena ser lida, e que à época, num Brasil em que coisas destas não abundavam, deve ter constituído uma verdadeira pedrada no charco. Tal como seria em Portugal caso algo assim tivesse saído por cá, sublinhe-se. Por certo este número é em tudo muito superior a adaptações semelhantes que houve por cá, anos antes, entre as quais será de destacar o Magazine do Fantástico e Ficção Científica.

Quem quiser saber o que achei de cada texto tem as respetivas opiniões distribuídas por quatro partes. A primeira está aqui, aqui a segunda, eis a terceira e por fim a quarta.

Lido: Nothing

Nothing, de autor anónimo (murmuram-me aqui ao ouvido, pedindo para não dizer a ninguém, que é de John Travis), é um pequeno e dolorido conto, tenuemente fantástico, sobre a perda. Conta a história de um homem que se recusa a aceitar a morte da mulher e da filha, de um homem cujo sofrimento o leva a mergulhar numa espiral de isolamento e autodestruição pela inércia, de resto muito comum em estados depressivos, que o vai levar a um desenlace que depressa se adivinha.

Este é daqueles contos que, por mais curtos que por vezes sejam, são dotados de uma força invulgar. É um daqueles contos que mexem bem fundo com as emoções de quem os lê, em especial se o leitor também já passou por episódios semelhantes de perda. Um conto violentíssimo sem sinal de violência que não seja a da vida banal de todos nós. Um conto muito bom.

Contos anteriores desta publicação:

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Lido: Isaac Asimov Magazine, nº 1 (quarta parte)

Patamar, de Walter Jon Williams, é um conto ciberpunk, pós-singularidade, ambientado portanto num mundo em que os sobreviventes humanos estão sob o domínio de máquinas superinteligentes. Mais propriamente, ambientado no submundo desse mundo, uma complexa teia de desesperados, traficantes e revolucionários que, cada um à sua maneira, procura reformular o que o rodeia de forma a parecer-se mais com aquilo que considera ideal. É um conto bastante bom, literariamente interessante (é escrito na segunda pessoa e funciona), embora a história que conta mostra um caráter francamente sombrio.

Carta Registrada, de Lee Walingford e Carol Deppe, é uma história futurista de espionagem, centrada num pesquisador de armas microbiológicas e numa amiga sua, professora de genética, que se acha um dia sob a mira dos serviços secretos depois do amigo ter sido assassinado. É uma história razoavelmente banal, com algumas ideias interessantes, mas nada de especial.

O Anel, de Alexander Jablokov, é um conto de viagem no tempo, no caso sem máquina (afastando-se assim da história de Wells e suas descendentes), mas com droga, no qual dois homens se perseguem entre presente, futuro e passado em busca de vingança. Mostra o enovelamento de enredo típico deste tipo de história, que, juntamente com a ação de uma longa perseguição, fará decerto as delícias de muitos leitores, mas não as minhas. Há um ponto em que este tipo de história começa a parecer-me algo gratuita. E esta, embora no fim compense um pouco, ultrapassa esse ponto.

Lido: A Rainha Adormecida

A Rainha Adormecida (bibliografia), de Cristina Flora, é talvez o mais estranho conto deste livro. Misturando algo de semelhante a ficção científica com uma espécie de fantasia hermética e sebastianista cheia de profecias e predestinações, Flora cria uma história em que a salvação do mundo num futuro longínquo depende da clonagem de uma velha rainha, obviamente portuguesa.

Apesar da ideia estapafúrdia, e embora tenha achado o conto ideologicamente lamentável, o certo é que ele está muito mais bem escrito e estruturado do que vários dos outros contos que o acompanham, o que faz com que não possa achá-lo mau. Não gostei de o ler, mas o conto não é mau.

No entanto, uma coisa é certa: esta história destoa do resto. Todas as outras são peças de história alternativa, ainda que no caso de algumas isso não passe de uma levíssima demão dada sobre as histórias a fim de as adaptar ao tema do livro. Aqui, nem isso existe. De história alternativa não há nem sinal. Esse facto não diminui em nada a história, mas torna-a pouco adequada ao volume em que veio publicada.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Lido: Um Domingo Liberal Para Você, ó Excelência!

Um Domingo Liberal Para Você, ó Excelência! é uma crónica de Rui Tavares na qual ele goza, com verve, ironia e pontaria afinada, com um jornaleco que parece ter tido vida ultrabreve e se chamava Domingo Liberal, ligando o seu título a outras coisas bizarras que tendem a aparecer aos domingos, muito em particular certo programa de TV que estava no ar na época e se chamava Diga Lá, Excelência!

É uma crónica bem escrita e francamente divertida, que chega mesmo a fazer lembrar o Miguel Esteves Cardoso de antigamente, mas em esquerda. Tenho saudades do Rui Tavares destes tempos. Gostava muito mais dele do que do de hoje. Tinha melhores ideias e era muito mais divertido.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Isaac Asimov Magazine, nº 1 (terceira parte)

Pesadelos da Mente Clássica, de Charles Sheffield, é uma noveleta de ficção científica passada numa estação espacial abandonada, criada para efeitos de propaganda por um grupo de fanáticos religiosos carregadinhos de dinheiro, uma tal Igreja da Ascensão de Cristo. Anos depois de ser abandonada pela tal igreja, após a morte do seu fundador e uma série de problemas legais e financeiros, a estação é alugada por um grupo de cientistas que pretende nela levar a cabo uma experiência para verificar se a estrutura do espaçotempo é quantizada. E no fim... bem, não posso dizer, que o final do conto tem importância decisiva para a sua (re)avaliação. Mas posso dizer que achei a noveleta bastante boa.

Um Salto de Fé, de Jack McDevitt, é um conto teológico de ficção científica, centrado numa espécie alienígena desaparecida que nunca teria tido religião... nem muitas das piores características da nossa espécie. É um conto curioso e aparentemente contraditório, sobre a fé e a sua ausência e o que isso tem a ver (ou não tem) com o sentido de moralidade. Ao mesmo tempo, é uma aventura de sobrevivência. Gostei, mas não muito.

Faith, de James Patrick Kelly, é uma fantasia aparentemente fútil sobre uma mulher que se divorcia e parte à procura de namorado. Mas também é uma curiosa história de atração e se calhar também amor, uma história sobre a peculiar raça de gente estranha que constitui a comunidade de fãs de ficção científica e fantástico (e sobre o próprio género e as qualidades que o tornam atraente) e sobre experiências com plantas. De novo interessante, mas de novo não muito, parece-me.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Lido: O Homem Superior

O Homem Superior é um conto de O. Henry, carregado com uma ironia fina e acutilante, sobre um trio de bandidos que um belo dia se encontram e, entre formas mais ou menos rápidas de ganhar dinheiro, vão discutindo qual das suas artes é a melhor.

Sim, que cada um dos bandidos é profissional de uma área bem determinada de banditismo. Um, o primeiro que conhecemos, é o Jeff, bom e honesto vigarista, que percorre a América a contar o Conto do Vigário aos patos que vai encontrando.

O segundo que aparece é um tal Bill Bassett, que viaja acompanhado pelos instrumentos do seu mister, um pé-de-cabra e outros apetrechos. Sim, o Bill é assaltante, de casas, de bancos e, em geral, do que estiver à mão.

O terceiro responde pelo nome de John D. Napoleons, e é... financeiro.

E não vos digo qual dos três ganha a discussão mas, se não forem tão patos como os do Jeff, certamente já saberão.

Um bom conto, sim senhores. E deprimentemente atual, apesar de ter sido escrito ainda no século XIX.

Conto anterior deste livro:

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Lido: Isaac Asimov Magazine, nº 1 (segunda parte)

O Matagal, de Steven Utley, é um conto de viagem no tempo protagonizado e narrado por um viajante no tempo que se vê acidentado em pleno Devónico. É um conto interessante, estrutural e tematicamente, em boa parte porque traça paralelos curiosos entre a situação em que o protagonista se encontra e experiências suas anteriores na ilha de Okinawa, no rescaldo da II Guerra Mundial.

Vício de Matar, de Richard Kadrey, é uma curiosa mistura de ficção científica com horror, com umas pitadas de policial noir, protagonizada por um ex-criminoso modificado para se transformar num vampiro mais ou menos mecanizado que funciona como assassino às ordens de uns misteriosos "Homens de Terno" (ou seja, Homens de Fato), responsáveis pela sua modificação. Mas a coisa acaba por não correr lá muito bem. Interessante.

À Sua Saúde, de Isaac Asimov, é um conto da série Azazel e, como é característico dos contos sobre o bom velho diabrete (ou será extraterrestre?), trata-se de um conto humorístico, que diverte e entretém mas pouco passa disso. Um conto bastante esquecível. De facto mal consigo lembrar-me de alguma coisa sobre ele.

Lido: O Homem que Fora Consumido

O Homem que Fora Consumido (bibliografia) é um conto de ficção científica de Edgar Allan Poe. Sim, de ficção científica, ainda que haja que ter em conta que em 1839 a FC tal como a conhecemos hoje ainda estava por inventar. Mas este conto é um claro percursor do género, mostrando várias das características que o dito viria a desenvolver mais tarde.

E também é um conto francamente divertido.

Tudo gira em volta de John A. B. C. Smith, insigne guerreiro, brigadeiro "por distinção," cujos feitos e biografia são conhecidos de todos. De todos? Não. Uma pessoa, pelo menos, não faz a mais pálida ideia de quem é tão distinto personagem e do que ele terá feito para ser tão famoso; o narrador da história, precisamente.

Curioso, o bom do narrador vai tentando informar-se e quase consegue numerosas vezes. Quase. A explicação fica-se sempre pelo quase, é sempre interrompida por uma multiplicidade de incómodos metediços, deixando o pobre franca e compreensivelmente exasperado. Até que vai diretamente à fonte, ao dito John A. B. C. Smith. E aí compreende.

Que tem isto de FC, perguntar-me-ão? Ah, é segredo. O conto não funciona sem esse segredo.

Não sendo das obras maiores de Poe, este é um bom conto, que depende da surpresa final para ter todo o impacto que pretende ter, mas até lá chegar consegue provocar um par de boas gargalhadas. Gostei. Bastante.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 10 de maio de 2015

Lido: Isaac Asimov Magazine, nº 1 (primeira parte)

Esta é uma leitura que, com uma outra de que falarei mais tarde, ficou esquecida. Já tem mais de um ano, e por esse motivo já está um pouco enevoada na memória, de modo que não irá seguir o esquema normal aqui na Lâmpada, antes será alvo de uns quantos posts em que falo resumidamente dos vários textos de que a revista é composta, aos três de cada vez, rematados por um post final e global.

Os Bons Tempos de Outrora, é o editorial, de Isaac Asimov, sobre precisamente o que o título indica. Nele, Asimov dá uma suave tareia nas pessoas que se mostram nostálgicas de tempos antigos, confrontando-as com as melhorias óbvias na qualidade de vida da generalidade da população moderna, e liga essa nostalgia ao preconceito contra a ficção científica. Um texto deprimentemente atual, apesar de já ter uns 40 anos.

Cartas, de vários. Uma secção típica deste tipo de revista, que por vezes tem bastante interesse. Não é o caso.

O Mundo Flutuante, de Victor Milán, é uma estranha noveleta, ambientada num futuro razoavelmente distante, pós-quarta guerra mundial, e num ambiente cultural muito japonês. O Mundo Flutuante é uma colónia orbital que parece assemelhar-se, até certo ponto, à estação espacial do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, e o tom da noveleta é introspetivo, apesar dos episódios de perigo iminente e ação que contém. Parte da sua estranheza vem daí. Milán parece ter querido principalmente fazer uma experiência sobre como a cultura tradicional japonesa se poderia adaptar a um futuro espacial e tecnologicamente sofisticado. Não creio que tenha sido inteiramente bem sucedido: achei esta história bastante aborrecida.