sábado, 28 de Junho de 2014

Sobre os ditos 800 anos da língua portuguesa

Anda por aí toda a gente muito eufórica porque ah e tal e viva a língua portuguesa porque faz 800 anos.

Não faz nada, desculpem lá rebentar-vos a bolha da chiclete.

O que faz 800 anos é um documento. Dizem que é o primeiro escrito em português, mas não só não é porque há outros mais antigos e muito provavelmente outros mais antigos ainda existiram mas se perderam entretanto, como aquilo não é português no sentido moderno do termo: é galaico-português. Podemos considerar que é a mesma coisa, mas para isso teremos de integrar o galego moderno na família da língua portuguesa. E eu até concordo com essa integração, mas a verdade é que isso é irrelevante.

É que as línguas não nascem quando são escritas. Nascem, ou melhor, "nascem" quando as pessoas começam a falá-las. E meti nascem em aspas porque mesmo isto é errado: à parte as línguas que são invenções motivadas por política, internacionalismo, nacionalismo ou linguística, e que são uma minoria muito reduzida, as línguas não nascem. Vão, isso sim, evoluindo devagar de outras línguas mais antigas, num processo que demora séculos. Foi o caso da nossa, que evoluiu devagarinho do velho latim, primeiro diferenciando-se em dialeto e mais tarde em língua propriamente dita, processo que demorou ao todo cerca de um milénio.

Falar-se do nascimento da língua portuguesa é, portanto, um absurdo. Querem comemorar o papel que faz agora 800 anos? Comemorem o papel. Mas deixem a língua em paz.

sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Lido: O Nome do Rei

O Nome do Rei (bibliografia) é um conto de história alternativa, de Bruno Martins Soares, sobre um regicídio. Não aquele que existiu na história real, entenda-se, visto que este, no universo alternativo que Soares nos apresenta, nunca chegou a existir, mas outro, quase um século mais tarde, num Portugal que entrou em monarquia pelo século XXI dentro. Narrado na primeira pessoa por um jornalista a quem foi atribuída a responsabilidade de cobrir a o assassínio do rei, e por extensão a sua vida, é um conto que começa lento e um pouco mole, com demasiado infodump e uma voz insuficientemente consistente, mas vai ganhando solidez ao longo das páginas até acabar bastante bom, numa reflexão muito interessante e bem conseguida sobre a morte, a história e a condição humana. Embora aquele início talvez merecesse uma revisão, e apesar do Bruno Martins Soares cair na armadilha lógica de manter as mesmas personalidades da nossa linha temporal num mundo profundamente alterado, em que é comum os escritores de história alternativa caírem, o final é suficientemente forte para elevar este conto acima da mediania. Claramente o melhor do livro até agora.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Os Operadores Humanos

Os Operadores Humanos (bibliografia) é um conto de ficção científica escrito a quatro mãos por A. E. Van Vogt e Harlan Ellison e é, de muito longe, o melhor conto do livro de que faz parte. Leva-nos ao espaço profundo, algures entre galáxias nunca identificadas, a bordo de uma nave que, com algumas outras, terá escapado do controlo humano e fugido após ganhar senciência. A bordo, além do leitor, encontra-se apenas um homem, o operador humano, necessário para desempenhar tarefas que a nave é incapaz de levar a cabo sozinha, mas mantido firmemente controlado e ignorante, não vá ter oportunidade de pôr em prática as tendências malignas inerentes à humanidade. Sim, que já se passou muito tempo desde a fuga e este operador humano que conhecemos está muito longe de ser o original, antes é resultado de um programa de reprodução levado a cabo pelas naves. Ora, para haver reprodução é necessário haver fêmeas, e é precisamente quando o protagonista é visitado por uma fêmea (sim, fêmea, não mulher), a primeira que vê na vida, que as coisas se desenlaçam.

Trata-se de um conto muito bom, tanto no que toca às ideias propriamente ditas como sobretudo na forma como elas são executadas. Ao contrário do que acontece em contos anteriores, e pese embora notar-se aqui e ali o efeito Saló, tudo está no sítio certo e há um equilíbrio praticamente perfeito entre a entrega da informação necessária ao leitor e o avançar da narrativa. A melhor forma possível para concluir este livro. Ou até para o salvar.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Lido: Peixe Para Eulália

Peixe Para Eulália é mais um belo continho fantástico de Mia Couto, daqueles que transbordam ternura e poesia. Tudo se passa algures, sob uma seca das tremendas, famintas e aparentemente insolúveis. O povo da aldeia, não por desespero de causa mas por causa do desespero procurar alívio no humor e na troça, decide um belo dia perguntar a um tal Sinhorito, com fama de tresloucado, como resolver a questão sequiosa. Sinhorito pensa e emite sentença. E todos se riem, menos a Eulália a que o título faz referência.

Só que nos universos de Mia Couto as coisas nunca ficam assim. Em lugar de enfiar viola em saco, portanto, logo Sinhorito põe a sua ideia em prática. E quem tiver paciência, na aldeia e fora dela, atrás das páginas e da capa deste livro, mais tarde descobrirá se o Sinhorito conseguiu ou não ir buscar peixe e água para a sua amiga Eulália, a única que nele acreditou o suficiente para não rir.

Em resumo: mais um contossim.

Contos anteriores deste livro:

Lido: U Disscurssu de Karluss Karvalhass

U Disscurssu de Karluss Karvalhass é mais um texto de blogue, desta feita criado por Celso Martins, que tenta gozar simultaneamente com o cerrado sotaque beirão do antigo secretario-geral do PCP e com a tendência comunista de repetir sempre (roboticamente?) os mesmos clichés (se não formos simpáticos) ou ideias (se formos)... a célebre cassete. Não o achei lá muito eficaz. Em parte porque a toda esta distância já poucos se lembrarão de quem foi Carlos Carvalhas, provavelmente o mais apagado dirigente que o PCP já teve, e por outro porque o humor se perde um bocado num certo excesso de palhaçada.

Aliás, nunca é bom sinal quando o autor da piada se sente na obrigação de a explicar no fim, como acontece aqui. Um texto muito dispensável, este.

Textos anteriores deste livro:

Lido: ΘΑΛΑΣΣΑ ΤΟΥ ΠΡΩΙΟΥ

ΘΑΛΑΣΣΑ ΤΟΥ ΠΡΩΙΟΥ, assim mesmo, em grego e em maiúsculas (o itálico é meu... achei graça à ideia de usar grego itálico), é um texto de Daniel Oliveira que goza descarada e divertidamente com Pacheco Pereira e uma certa tendência que este tem para se encher de arrogâncias intelectualizantes, o que o torna não só muito ridículo como extremamente ridicularizável. No caso, Pereira terá transcrito para o seu blogue Abrupto um poema. Nada de mais, não fosse um detalhezinho sem importância... ou com toda: o autor é grego, o poema é grego, e Pacheco Pereira transcreveu-o... em grego. Acrescentando-lhe uma ridícula notinha a alfinetar as pessoas que "se vão irritar com o grego". E Daniel Oliveira responde-lhe com uma ironia demolidora, transcrevendo poema e notinha e acrescentando uma breve nota sua.

Gargalhei, sim.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Pedrito de Portugal

Pedrito de Portugal é um texto de Rui Tavares, típico texto de blogue político em que se faz uso do sarcasmo para contestar afirmações de um adversário. No caso, o adversário é Pedro Santana Lopes, que teria dito um monumental disparate sobre a Constituição da República Portuguesa o que, tendo em conta que esta refutação data de 2003, mostra bem desde que longínquas eras pretéritas a tendência para o asneiredo constitucional impera no PSD. Não tem muita graça, ou então sou eu que já deixei há algum tempo de conseguir achar graça a esta corja, mas a leitura deste texto tem a utilidade de mostrar que não, não é de agora. Não é coisa de Coelhos e seus acólitos. A parvoeira vem de longe. Pelo menos desde Santana Lopes, mas certamente desde ainda antes.

A extrema-direita atualmente no poder tem raízes fundas.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 16 de Junho de 2014

Lido: Desconversa da Treta

Desconversa da Treta é o argumento de um sketch que qualquer português que não tenha passado a última década e picos enfiado debaixo dum calhau conhece perfeitamente. É, como é evidente, uma conversa da treta, sobre coisa nenhuma, entre o Zézé e o Toni. Tem graça, não digo que não, mas o contraste entre o texto a seco e a imagem do José Pedro Gomes, com os seus fatinhos todos pipis, e o António Feio, com o sem eterno colete de pele de vaca, é demasiado forte para não deixar nesta leitura um valente sabor a pouco. Nestas coisas do humor há textos que resultam perfeitamente deixados a si próprios. Outros, no entanto, só fazem realmente sentido quando recebem a vida que lhes emprestam os atores. E a Conversa da Treta sempre viveu da forma como o Gomes e o Feio (e acima de tudo a interação entre o José Pedro e o Antómio) davam corpo aos textos absurdos e muitas vezes parvos que lhes serviam de base. Sem eles, pura e simplesmente não é a mesma coisa.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 15 de Junho de 2014

Lido: O Demiurgo

O Demiurgo é um divertido conto de José Eduardo Agualusa, de novo baseado em notícia que terá encontrado numa publicação oitocentista angolana, que nos leva até uma terra que, apesar de estar razoavelmente identificada na notícia (tanto quanto o pode estar uma terreola pequena para alguém que desconhece os detalhes da geografia de Angola), na verdade pouco importa qual é. Pois acontece que na igreja dessa terra começam mais ou menos de repente a surgir umas estranhas manchas na parede. A princípio tomadas por efeitos de humidade e bolores, depressa as formas debochadas que as manchas tomam levam o padre a mandar pintá-las, não fosse escandalizar a freguesia do templo. Só que as manchas teimam em reaparecer, cada vez mais pornográficas, cada dia mais detalhadas. Repetidamente.

Trata-se de um conto engraçado, com o seu quê de conto de fantasmas, embora muito pouco vitoriano, escrito em tom de realismo fantástico. E bem escrito. Não haverá nele propriamente grande surpresa, que não é a primeira vez que na literatura mundial surgem cenas estranhas nas paredes mais variadas, mas há muitos outros motivos de interesse. É um bom conto. Mais um.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 14 de Junho de 2014

Lido: Mighty Fine Days

Mighty Fine Days, de autor anónimo (coff - é do Anthony Mann - coff), é um conto de horror sobre um homem que se vai perdendo de si mesmo e do mundo. Apesar de parecer à primeira vista ser surrealista, o impacto maior do conto acontece quando nos apercebemos de que até pode não o ser. De que esta história e esta situação são possíveis quando algo de grave acontece à memória. Quando objetos, pessoas e lugares familiares vão perdendo substância, se vão tornando irreconhecíveis, porque deixa de existir conexão entre a sua existência exterior e a representação que delas mantemos no cérebro. Neste conto, tudo começa (muito inglesmente, diga-se) com a transformação do jornal da manhã numa pilha de folhas em branco, mas não fica por aí, e o mundo, tal como é visto pelo protagonista, vai-se tornando cada vez mais estranho e incompreensível.

Digo que este conto é de terror porque é francamente incómodo. Mas igualmente lhe poderia chamar surrealista ou realista mágico. Weird fiction. Esta é daquelas histórias que transcendem os rótulos simples. Tem essa qualidade. E tem outras, também. É um bom conto.

Conto anterior deste livro:

sexta-feira, 13 de Junho de 2014

Lido: Missão 121908

Missão 121908 (bibliografia) é um conto de ficção científica de Luísa Marques da Silva sobre um duo de temponautas agentes secretos (e irmãos) que voltam a 1908 para tentar impedir o Regicídio. É que, na sua linha temporal, este nunca aconteceu e, na verdade, não deveria acontecer nunca. Mas houve uns terroristas, também temponautas, que resolveram fazer um atentado retroativo e assim criaram uma linha temporal divergente. Ou então não exatamente. Se calhar nem atentado nem missão aconteceram de facto. Se calhar tudo não passa de outra coisa.

É um conto com um certo interesse, prejudicado por duas coisas: um tom humorístico que me pareceu francamente mal conseguido (pelo menos um dos agentes é tão imbecil que se torna inverosímil) e, acima de tudo, a Intempol.

A quê?

A Intempol. Trata-se de um universo partilhado brasileiro baseado numa polícia temporal que tem como base precisamente este tipo de missão. E quem o conheça não consegue evitar fazer comparações. Ora, ao fazê-lo vai encontrar diferenças, particularmente na sofisticação conceptual e no grau de maturidade das histórias... em desfavor desta. Embora este conto tenha de facto um certo interesse, e apesar de estar razoavelmente bem escrito, fica aquém da maioria das histórias da Intempol. É uma leitura agradável, mas há nele uma certa fragilidade, uma certa insegurança, que sugere uma autora pouco à vontade com os conceitos e enredos inerentemente complexos a que decidiu deitar as mãos. Por isso, mais trabalhada, esta história poderia vir a ser boa, mas como está não me parece que o seja. O conto não é mau mas tampouco é bom.

Conto anterior deste livro:

sábado, 31 de Maio de 2014

Lido: O Detective não Aristotélico

O Detective não Aristotélico (bibliografia) é mais um conto algo estranho de A. E. Van Vogt. Trata-se de um policial de ficção científica, caso se considere que especulações à volta de uma ciência como a lógica semântica, tão afastada do núcleo das ciências duras que costumam inspirar a FC, podem incluir-se no campo da ficção científica. Porque é disso mesmo que se trata.

O enredo é bastante simples: uns polícias, bastante broncos, por sinal, descobrem no jornal um anúncio a um alguém que chama a si próprio "detetive não atistotélico" e decidem ir desafiá-lo com um caso não resolvido, pensando desmascará-lo como charlatão. Só que este decifra a coisa em dois tempos, por entre umas teorias razoavelmente rebuscadas sobre mapas e territórios e lógica e semântica, fazendo lembrar um pouco o protagonista da série televisiva O Mentalista.

O conto poderia ser interessante, mas a verdade é que não é. Bem mais de metade é gasta em conversas entre os polícias, cuja repetida incapacidade de pronunciar a palavra "aristotélico" depressa se torna cansativa, e a parte potencialmente mais interessante, isto é, a exploração das teorias subjacentes à atividade do tal detetive, é despachada em duas ou três páginas. Somando a isso um texto insípido, o resultado deixa muito a desejar.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 30 de Maio de 2014

Lido: Uma Questão de Honra

Uma Questão de Honra, mais um conto de Mia Couto, é uma história tragicómica sobre dois amigos que há anos se encontram quotidianamente para uma partida de damas, sempre com vencedor antecipado e garantido à partida. Até que um dia acontece o inesperado: as damas, ou porque alguém as tivesse mudado de sítio, ou porque o sistemático derrotado tivesse aprendido jogadas novas, favorecem quem até aí sempre tinha ficado desfavorecido. As coisas começam a correr mal com desconfianças de batota e daí, passo largo a passo largo, vão malapiorando até ao desfecho final.

Não sendo dos contos que mais me agradou, por vários motivos, não deixa por isso de ser um bom conto. Mia Couto não parece ser capaz de os fazer maus.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 29 de Maio de 2014

Lido: O Menino que Escrevia Versos

O Menino que Escrevia Versos é mais um continho de Mia Couto que, sem surpresa, está carregadinho de poesia. O protagonista principal (sim, que há um secundário) é, claro está, o menino que escrevia versos, para grande escândalo e medo da família, o pai mecânico de automóveis, a mãe doméstica. Que essa coisa de escrever versos não é certamente normal, que alguma coisa deve haver com o miúdo, que o melhor é levá-lo ao médico. Dito e feito, ainda que o médico (cá está o protagonista secundário) não dê ao caso a solução que a família do miúdo pretendia.

É um conto divertido, muito embora seja também de certa forma previsível, sendo Mia Couto quem é e o tema qual é. É por demais evidente que o escritor e poeta da língua portuguesa que Couto é só poderia tomar o partido de um miúdo que escreve versos.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 28 de Maio de 2014

Lido: Carta VII

Carta VII é um texto epistolar não se sabe bem se de Abel Barros Baptista, se de Luísa Costa Gomes, se de ambos, que conta uma historieta burguesa decaída, entre morgados e marquesas, e bastante anacrónica dado que a "carta" está datada de 1995 mas todo o ambiente, e até boa parte do estilo literário, é muito oitocentista. É uma abordagem à literatura que não me costuma agradar muito e, realmente, também aqui não agradou. A ironia que contém é tão bem-comportada, mas tão, tão bem-comportada, que não tem graça alguma. Salva-se a qualidade da escrita, que existe, porque de resto...

É dos tais textos que tão depressa se leem como se esquecem sem deixar qualquer rasto na memória, sem fazer a mínima marca.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 27 de Maio de 2014

Lido: Há Outras Forças

Há Outras Forças é mais um conto de José Eduardo Agualusa para o qual o realismo mágico, ou até mesmo o fantástico propriamente dito, é central. A história debruça-se sobre um tal Carlos Marimont, janota oitocentista que, apesar do apelido francês, é português, e chega um não muito belo dia à colónia de Angola para aí tomar contacto com os negócios do tio Joaquim, que pretende fazer dele herdeiro. Mas o Carlos enceta nesse preciso instante uma relação de desamor à primeira vista com África que vai acabar por ter o seu desenlace mais ou menos inevitável a páginas tantas, mais especificamente a páginas penúltimas. Até aí, o conto parece nada ter de fantástico; parece ser um conto histórico bastante comum. Mas depois, a páginas últimas, o caso reviravolta.

É mais um bom conto: interessante, bem escrito e concebido com mestria. Aqui o tipo da Lâmpada aprova.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Lido: Climbing the Tallest Tree in the World

Climbing the Tallest Tree in the World é um pequeno conto surrealista, de autor não creditado (não digam a ninguém: é o Rhys Hughes), sobre um grupo de gozões que num ataque de folia decide subir uma árvore. Só que a árvore não é como as outras e a subida leva-os a deparar com o inesperado e torna-se infinita, pelo menos para um deles. Muito onírico, tanto no mundo simplificado que apresenta como naquela espécie de impotência e isolamento, de repetição implacável da mesma situação insolúvel, façamos o que fizermos, que tão comuns são nos pesadelos, o conto vale principalmente, a meu ver, pela forma como está escrito. É incómodo, como um pesadelo é incómodo. Termina-se a leitura com aquela espécie de nervoso miudinho de um despertar banhado em suor. Tudo devido à forma como o conto está escrito.

Sim, gostei.

Como decidi o meu voto nestas eleições

Os portugueses têm uma relação doentia com a política e muito em especial com os partidos políticos. Não raro, dizem que “não se reveem” nos partidos e que por isso não participam, como se para participar no processo político fosse necessário ter nas lideranças partidárias espelhos de si próprios. Esta atitude é doentia porque é a raiz dos maiores sectarismos. Alguém que por “não se rever” é incapaz de participar do processo político, vendo todos aqueles em que “não se revê” como igualmente maus, igualmente incapazes ou igualmente corruptos, é alguém que não tem capacidade para colaborar e fazer pontes. É alguém que só entra em esforços unitários por vantagens próprias ou para impor a sua agenda aos outros. E é alguém que, no momento em que encontra algum partido em que “se revê”, algum espelho em que se admirar, perde o sentido crítico para com “os seus” e se encerra com eles numa bolha que exclui todos os outros.

Pessoalmente, tenho uma atitude bem diferente e que me parece muito mais saudável. Não sei bem se não me revejo em nenhum partido ou se me revejo em vários, mas o certo é que isso nunca me impediu de participar, quer com o voto, quer de formas mais profundas.

Consoante os assuntos, tanto me sinto mais próximo do PCP como do LIVRE ou do PAN, ou mesmo, em duas ou três questões, do PS. Na vasta maioria das questões, no entanto, a minha proximidade maior é para com o Bloco de Esquerda. Por isso sou eleitor do Bloco desde a sua formação e por isso aderi ao Bloco há alguns anos. No entanto, estar num partido nunca será para mim sinónimo de apoiar esse partido em toda e qualquer situação. Votei no Bloco em quase todas as eleições desde que o Bloco se formou, mas houve um ou dois casos em que votei noutros partidos ou em candidatos diferentes dos que o BE apoiava.

Isso aconteceu e continuará a acontecer quando as questões mais importantes no momento forem algumas em que tenho divergências com a linha escolhida pelo BE, quando não acredito que os candidatos apoiados pelo BE sejam os mais adequados ou até por questões de voto útil, apesar de só muito raramente achar os “votos úteis” realmente úteis. Estar no partido ou fora dele não muda nada a esse respeito. Estar no partido não implica fidelidade canina. Continuo a pensar pela minha cabeça e a ter opiniões próprias. Sou fiel ao Bloco na medida em que essa fidelidade não violentar a minha consciência e estou no Bloco, também, para o puxar um pouco mais para o meu lado das ideias. Não “me revejo” mais no partido estando dentro do que “me revia” estando fora.

E por isso, decido o meu voto eleição a eleição. Quase sempre no Bloco. Ocasionalmente não.

Este ano, vi-me num daqueles momentos em que divirjo da linha do Bloco numa questão muito importante. A questão essencial da nossa vida coletiva no momento atual e no futuro próximo: o que fazer com a Europa. Portanto estive muito, muito indeciso quanto ao que fazer com o meu voto.

Para explicar porquê e como acabei por me decidir, voltemos atrás.

Fui convictamente europeísta. Achava excelente, e na verdade ainda acho, a ideia duma Europa unida e solidária, na medida em que permitia a todos os países europeus ultrapassar a sua relativa pequenez e criar sinergias que propiciassem o desenvolvimento mútuo, afastando ao mesmo tempo o espectro da guerra, que como sabemos está sempre presente na Europa. Notem que a expressão “Europa unida” não está isolada nesta frase, vem em conjunto com a palavra “solidária”. E é aí que temos o grande busílis dos tempos que correm.

Pois o que a crise económica veio revelar é que a Europa está pouco unida e não é nada solidária. Com o rebentar da crise, a primeira coisa que os países do norte fizeram, liderados pela Alemanha, foi massacrar economicamente os do sul para salvar os seus próprios bancos, ainda para mais atirando-lhes para cima com as culpas por uma crise que foi criada, precisamente, por esses bancos. Convém sublinhar sempre este facto histórico, tantas vezes deturpado: quem criou esta crise foi a grande finança internacional, não o “despesismo” dos Estados.

Ora, ao sacrificarem a periferia europeia, atirando-a aos lobos, assassinaram toda e qualquer ideia de união europeia.

E por isso, eu sou hoje claramente eurocético. Porque uma Europa sem solidariedade não é uma união, é um império. E um império só se mantém de pé com prosperidade ou à força; quando aquela desaparece, desagrega-se, a menos que esta o mantenha violentamente unido. E apenas durante algum tempo, pois a violência só gera as condições para mais violência futura e, tarde ou cedo, o processo termina com uma desagregação tanto mais sangrenta quanto mais sangue for derramado para a evitar.

Uma gigantesca Jugoslávia.

Mesmo a prosperidade nem sempre é eficaz. De nada serve uma prosperidade assimétrica, em que o centro vampiriza as periferias para se manter próspero enquanto estas definham. Pelo contrário: isso só serve para apressar a desintegração ou para aumentar a necessidade de uma brutalidade cada vez maior para a evitar. Impérios pacíficos são aqueles em que o fluxo financeiro se faz ao contrário, do centro (que tem vantagens pelo simples facto de ser centro) para as periferias. Assim, talvez um império europeu funcionasse. Mas de qualquer forma não seria a união europeia que nos foi prometida.

Eu não quero nada disto. Sem verdadeira solidariedade, a UE é um cadáver adiado e quanto mais depressa nos desligarmos dele, melhor.

Mas o Bloco não pensa assim.

Durante muito tempo, confesso, não percebi bem o que o Bloco pensa. Sempre compreendi a exigência de renegociar a dívida, que é correta, urgente e cada vez mais consensual não só em Portugal como lá fora, mas a partir daí o discurso oficial deixava-me confuso. Até que entendi. E, ao entender, decidi o meu voto.

A posição do Bloco é suficientemente complexa para não ser fácil de explicar em meia dúzia de slogans de campanha. O que o BE quer é tentar recuperar a solidariedade, tentar devolver a UE ao seu espírito inicial (ou tentar criá-lo, talvez… talvez ele nunca tenha existido, talvez não tenha passado de uma ilusão). Para isso, quer mais Europa em certas coisas e muito menos Europa noutras. Exemplos? Quer muito menos Europa no controlo antidemocrático das finanças nacionais por via de tratados orçamentais e outras coisas que tais mas mais Europa em coisas como o acolhimento a refugiados e a imigrantes ilegais, que na prática significam um alívio da tensão a que estão sujeitas as periferias por onde essas pessoas tentam entrar. A tal solidariedade.

E quer, caso não seja possível convencer os outros de que se exige muito mais solidariedade para conservar a UE como projeto político minimamente viável, preparar Portugal para todos os cenários.

Foi isto que me decidiu. Porque sei que o abandono do euro ou até da UE não é coisa que se faça sem consequências negativas para nós e que por isso só se justifica quando as consequências negativas de não o fazer são maiores, estou disposto a aceitar que se tente revolucionar as regras antes de tomar medidas drásticas. Mas é preciso estar preparado para tomar mesmo as medidas drásticas, se necessário. Porque estou plenamente convencido de que será. E porque se não estivermos preparados para sair mesmo do euro, ou até, numa situação extrema, da própria UE, não teremos nunca força para a duríssima negociação que é preciso fazer. É esta a grande fragilidade da posição dos federalistas de esquerda: ficam sem opções se a resposta que obtiverem às suas exigências, que na base pouco se diferenciam das do resto da esquerda, for um não. Depois do não fazem o quê? Só podem ceder, não têm outra alternativa. O recuo na integração, seja em que aspeto for, não faz parte dos seus planos.

Até porque numa negociação das duras, entre inimigos (e é esse o ponto em que estamos), é sempre melhor começar por exigir o impossível para obter o possível do que abrir logo com concessões.

O PCP faz um pouco isso com a sua posição de abandono do euro. Cheguei, por isso, a pensar dar-lhes o meu voto nestas eleições. O problema é que tenho enormes dúvidas de que os comunistas tenham a flexibilidade necessária para aceitar o possível se este lhes for apresentado. A história mostra que se há algo que não abunda por aqueles lados é a flexibilidade. E o isolacionismo de que o PCP dá continuamente mostras é contraproducente: a negociação que teremos de fazer é dura o suficiente para precisarmos de todas as alianças que conseguirmos encontrar e o PCP nem sequer apoiou o candidato a presidente da Comissão que foi escolhido pelo Grupo da Esquerda Europeia, de que o partido faz parte.

Portanto não, não é uma opção que me sirva.

Vou mesmo votar no Bloco nestas eleições. De pé! É a escolha mais acertada.

quarta-feira, 21 de Maio de 2014

Lido: Seis Momentos em Tempo Real

Seis Momentos em Tempo Real (bibliografia), de João Aguiar, foi uma enorme desilusão. Tinha-o em muito boa conta — gostei imenso de livros como A Voz dos Deuses — mas neste conto faz quase o pleno do que sai mal ao escrever ficção curta. É um conto apressado, muitíssimo apressado. Não só porque Aguiar procura encaixar meio século de uma história alternativa em que o Regicídio falha e a monarquia perdura em apenas quinze páginas, mas também porque o faz sem manter um foco claro, antes sobrecarregando o texto de personagens (e de nomes, de muitos, muitos nomes) como se este conto não passasse de um romance esboçado. Até a própria execução dá alguns sinais de pressa: não estava à espera de encontrar num texto de um autor tão experiente a velhíssima e muito desagradável técnica conhecida como "as-you-know-bob", personagens a explicar umas às outras factos que ambas conhecem, com datas e tudo, apenas para "instrução" do leitor.

Acresce a tudo isto, que já basta e sobra para tornar o conto fraco, um retrato de algumas personagens históricas no mínimo distorcido. Toda a família real é retratada como se, em vez de gente de carne e osso, fossem alguma espécie de heróis mitológicos, com destaque para D. Carlos, que, ferido nas costas (no mundo real, ficou morto logo ali), ainda tem tempo de se virar, pegar numa arma e responder ao fogo. Certeiramente. Soem fanfarras: para-pariii.

Enfim. Talvez a desilusão tenha carregado de sombras mais densas a opinião com que saí da leitura deste conto, mas a verdade é que o achei mesmo mauzinho.

terça-feira, 20 de Maio de 2014

Lido: Os Outros Dois

Os Outros Dois é um conto de Edith Wharton que tem tudo para me desagradar. Detesto histórias mais ou menos fúteis de alta sociedade, as suas subtilezas sociais enchem-me de um sono imenso, abomino histórias centradas em triângulos ou quadriláteros amorosos, enfim, seria um milagre gostar desta história.

Porque ela é tudo isso.

Passa-se há coisa de um século, na mais alta das sociedades novaiorquinas do tempo, entre banqueiros e empresários, e gira em volta de uma mulher que enfrenta e afronta a moralidade do tempo por já ir no terceiro marido, depois de dois divórcios, tendo até uma filha do primeiro. O protagonista não é ela, mas o terceiro marido, que se vê confrontado com os outros dois. Um por causa da filha, o outro porque acaba por ter negócios com ele. E é o seu lento processo de mudança entre a revolta e repugnância interior perante a ideia de ter o mínimo contacto com qualquer desses homens e uma aceitação descomplexada de ambos que o conto mostra.

Compreendo perfeitamente a relevância, e até o caráter subversivo, que esta história terá tido na época (o conto é de 1904). Mas é das tais histórias que mostram que não é só a ficção científica que pode envelhecer de uma forma quase violenta. Hoje, enredos como este estão remetidos para a banalidade sensaborona da literatura cor de rosa ou das telenovelas, os dilemas morais do homem já pouco ou nada dizem aos de hoje e a atitude da mulher, tão irreverente na época, hoje chega a irritar de tal modo tempera essa irreverência com uma enorme submissão. Poderá, suponho, ser interessante lê-la para ver até que ponto as mentalidades mudaram em cerca de um século. E a história está escrita de forma competente. Mas a verdade é que, comigo, e apesar de tudo isso, o milagre não aconteceu: não gostei mesmo.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Herdade da Pegada

A Herdade da Pegada (bibliografia), outro conto de ficção científica de A. E. Van Vogt é, mais uma vez, sobre alienígenas. A princípio não parece: somos apresentados a uma família em disputa, entre um pai quinteiro que gosta da quinta, uma mãe que a detesta e uma filha pequena que, a princípio, é como se não contasse. A quinta seria uma herdade vulgaríssima se não se desse o caso de estar embutida num vale e ter a forma de uma pegada, daí o seu nome. O calcanhar da pegada, segundo depressa ficamos a saber, corresponde a uma cratera de impacto, onde teria caído um meteorito um par de séculos antes.

Esta informação depressa leva o leitor com alguma experiência a perceber o que ali se passa — afinal, há muitas histórias destas, tanto na literatura como na televisão ou até no cinema. O ambiente cedo toma um ar declaradamente Twilight Zone... o que não é bom, visto que a série de TV é uns 20 anos mais antiga que esta história. Tudo aqui soa a batido, a velhos clichés reaproveitados de forma pouco inspirada. Nada contra reaproveitar velhos clichés... mas convém que o reaproveitamento seja bem feito. Aqui não é. E até o próprio texto, não sei se por culpa de Van Vogt se de Saló (mas tenho suspeitas), é muito mauzinho.

Em suma: fraco. Muito fraco.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Avó, a Cidade e o Semáforo

A Avó, a Cidade e o Semáforo é mais um dos poéticos continhos do Mia Couto. Desta feita trata-se de um conto sobre o choque entre o urbano e o rural, entre a modernidade e as velhas culturas e mundovisões do mundo antigo. A protagonista é uma velhota, avó do narrador, que terá passado a vida inteira na sua aldeia, mergulhada na sua cultura africana ancestral, sem saber, ou talvez mais propriamente sem querer saber, que lá fora as coisas são muito diferentes, que uma cultura bem diferente e cada vez mais globalizada — e uniformizada — aí predomina. É a esse "lá fora" citadino que o neto-narrador é chamado, e ela decide acompanhá-lo. Sem admitir contestação.

Não sendo dos contos que mais me agradou, achei-o apesar disso muitíssimo interessante de um ponto de vista, digamos, sociológico. Não me custa muito imaginar uma história semelhante a ter lugar no Moçambique natal de Mia Couto. Nem sequer me custaria imaginar uma história muito semelhante a ter lugar no Portugal de há algumas décadas, à parte um punhado de diferenças entre as culturas africanas e a nossa cultura europeia. Porque a civilização urbana global é muito semelhante no mundo inteiro e as velhas culturas rurais, apesar das diferenças, também têm muito de comum umas com as outras. Esta história é, pois, muito moçambicana, mas ao mesmo tempo universal.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 18 de Maio de 2014

Lido: Onanismo e Pornografia

Onanismo e Pornografia é uma espécie de ensaio, ou pelo menos de artigo de opinião, de Rui Zink, onde o autor discorre sobre o onanismo, a pornografia e as relações entre ambos e a sociedade em geral. É um texto altamente subversivo, em especial para a época em que foi escrito (1984), afrontador da moral e dos bons costumes e irónico desde o início, mas até mesmo ao fim (e ele ainda é bastante longo, talvez o mais longo de toda a antologia) não percebi por que motivo haveriam de o ter escolhido para integrar uma antologia de humor. Pois, ironias à parte, parecia-me uma opinião honesta e até razoavelmente fundamentada.

Mas depois, mesmo a chegar ao fim, Zink apresenta-nos uma sua utopia pessoal quase de ficção científica (ou não tão quase como isso: falha fortemente na parte da verosimilhança), descrevendo um Portugal idealizado enquanto pornódromo da Europa e enriquecido com isso. Aqui sim, o humor é claro e desbragado. E tão subversivo como o resto do texto. Ou mais ainda.

Não que concorde inteiramente com a tese do autor, não que gostasse de viver no Pornotugal que ele descreve (sem lhe chamar isso; esta é minha), mas gostei do texto. É interessante e, mais importante do que isso, desafiador.

Textos anteriores deste livro:

Lido: A Queda de Santa-Maria

A Queda de Santa-Maria é um conto curto de José Eduardo Agualusa que parte de uma notícia insólita de um jornal angolano de 1882. O conto, esse, movido a imaginação e humor, é ainda mais insólito. Um desgraçado escriturário vai andando a pé pelo mato nos arredores de uma terra chamada Pungo Andongo quando de repente a terra o engole e se vê mergulhado num buraco cheio de aranhas e formigas nauseabundas. Aí sobrevive durante meses até que alguém o descobre e o salva. Mas o que acontece em seguida é completamente inesperado. Para todos os envolvidos.

Trata-se de um conto com forte pegada fantástica, mas principalmente muito divertido, sobre azares, incompreensões, medos e superstições. O que acontece ao bom do escriturário não lembra ao diabo. Mas lembrou a Agualusa, que além do mais escreve bem que se farta. Muito bom.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Depois

Depois é um conto curto de Guy de Maupassant sobre uma trajetória de vida. Trata-se, no fundamental, de um estudo de personagem, de uma visita ao funcionamento interno de uma personalidade, àquilo que nessa personalidade leva às escolhas que se fazem ao longo da vida e às consequências que essas escolhas têm. Maupassant descreve-nos, por intermédio de uma conversa, os motivos que levam alguém a optar pela vida monástica. Curiosamente, ou talvez não, deus não tem grande relevância. Os motivos são outros.

Maupassant era um grande escritor e este é mais um dos seus bons contos. Mesmo não tendo eu grande interesse pessoal pelo tema, a sua concretização tem tudo no lugar certo. Uma das definições possíveis de grande escritor é alguém capaz de tornar interessante o desinteressante. Para mim, é o que acontece com este conto.

Conto anterior deste livro: