segunda-feira, 20 de março de 2017

Lido: Dicas Para Donas de Casa de Madame C.

Não poderia faltar numa publicação deste género a inevitável secção de autoajuda para senhoras, inevitavelmente machista até dizer basta. Dicas Para Donas de Casa de Madame C., a qual na realidade se chama Cláudia Sérgio, é um consultório meio mundano, meio sentimental, composto por sete perguntas e respetivas respostas sobre os mais variados problemas da vida numa sociedade steampunk. Estando longe de ser memorável, tem alguma graça, em especial quando não mete a pata na poça (viagens de dirigível à... Lua? Ui! Esta doeu.) ou quando não se vai inspirar na vida real de forma demasiado óbvia (cozinha tradicional vs. a "nova bimbautomática"? Ahem...). Quando não é o caso, aparecem aqui e ali algumas ideias curiosas que, mais uma vez, dão vontade de ver mais bem exploradas em ficções mais desenvolvidas. Em especial o dilema da Brigite, mulher com inteligência e queda para coisas mecânicas, poderia ser desenvolvido numa história bastante interessante.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 19 de março de 2017

Lido: O Duelo que não Aconteceu

Ainda incluído na secção de artigos, João Ventura apresenta uma brevíssima historinha, escrita num estilo razoavelmente semelhante ao de um artigo de jornal, sobre uma disputa entre dois cientistas que quase degenerava em duelo. Mas não, acabou por ser apenas O Duelo que não Aconteceu porque, enfim, um homem não é de ferro. Mesmo se cientista.

Quem já conhece o que Ventura escreve não se surpreenderá por encontrar aqui a sua habitual ironia e brevidade narrativa, ajudadas por um uso rigoroso das potencialidades do steampunk. Também positiva é a adequação da ideia à extensão do texto, pois aquela parece realmente não dar muito mais pano para mangas do que o que aqui se desenrola.

Por outro lado, o facto de a ideia não parecer dar para mais que página e meia (em tipo grande) ajuda a fazer com que esta história não tenha grande impacto; é uma historinha morna e divertida mas disso não passa, ficando algo longe dos melhores contos que Ventura já publicou.

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sábado, 18 de março de 2017

Lido: Salto no Tempo

A ficção científica dos anos 40 e 50 do século passado raramente envelheceu bem o suficiente para chegar aos dias de hoje ainda com alguma frescura. Em parte isso deve-se a ter sido encarada muitas vezes, tanto por gente de fora do género, como por gente de dentro, como paraliteratura, mero objeto de consumo e produção rápidas, sem grande elaboração, concentrando-se na trepidação da ação em enredos mais ou menos mirabolantes e pondo de parte quase tudo o resto que compõe a experiência literária. A famigerada abordagem pulp à coisa.

Nem toda foi assim, naturalmente. E felizmente. Mas muita foi, e nisso nem existem tão grandes diferenças entre a FC dos vários países como por vezes se apregoa. E este livro, francês, é disso um claro exemplo.

Salto no Tempo (bibliografia) não é propriamente um livro de viagem no tempo, ao contrário do que o título português (que se substitui por completo ao original Via Velpa, diga-se) sugere. Yves Dermèze cria aqui uma aventura pulp movimentada que inclui viagens no tempo mais vai além disso, metendo também ao barulho o conceito de universos paralelos. O enredo é enovelado, pois há uma rapariga vinda do futuro (que tem a função habitual das mulheres nas histórias pulp de meados do século XX, o interesse romântico do herói macho, mas é um pouco menos incapaz do que é hábito) que procura salvar a sua civilização do ataque de umas criaturas implacáveis, destruindo a civilização que lhes deu origem, para o que conta com o auxílio de um dissidente político genial de uma civilização rigidamente totalitária, que vem a descobrir que essas criaturas foram criadas pela sua própria civilização, e por aí fora.

Dermèze consegue manter este enrodilhado enredo sob controlo, criando um romance ritmado e razoavelmente interessante. Mas claro, pulp, com tudo o que isso implica. Acaba-se a leitura, chega-se ao final que, como é habitual neste tipo de história, soa a conto de fadas, e descobre-se que enquanto ela durou se esteve entretido mas não se obteve mais do que isso do tempo gasto. Este livro é literatura-chiclete assumida e, sob esse ponto de vista, até se poderá considerá-lo bonzinho. Mas esteve longe de me agradar. Leu-se. E só.

Este livro foi comprado.

Lido: O Vapor do Chique

Ao mesmo tempo semelhante e completamente diferente da Carta Anónima que o antecede, O Vapor do Chique é mais um texto ficcional epistolar, escrito por uma tal Madame S., que na realidade é Rogério Ribeiro. Conta a breves pinceladas três historinhas do "social", às quais falta a solidez que se encontra no texto anterior, apesar de estarem razoavelmente bem escritas. A futilidade, embora presente, não é tão grande como talvez fosse de esperar de uma espécie de crónica social, ainda que o tom genérico seja de comédia de costumes, como num texto deste género teria sempre de ser. Nesse sentido, o autor foi bem sucedido no que se propôs fazer.

Este texto tem também em comum com o anterior (e com vários dos outros, diga-se) a característica de despachar em dois tempos temas e personagens que deixam entrever potencial para ficções mais longas, as quais provavelmente teriam o seu público, ainda que neste caso eu não pertencesse a esse público — a minha paciência para comédias de costumes centradas nas andanças da alta sociedade, sejam steampunk ou quaisquer outras, tende para zero.

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sexta-feira, 17 de março de 2017

Lido: Carta Anónima

Ainda no setor deste almanaque destinado a ficções inconvencionais no sentido de não se aterem ao formato tradicional do conto, encontra-se esta Carta Anónima, que só o é em contexto ficcional, pois na realidade foi escrita por André Nóbrega. É a carta de um revoltado contra a maquinização e automatização, um descendente steampunkiano dos luditas do mundo real, radicalizado ao ponto de ameaçar combatê-las à bomba. E é, por isso, não só um exemplo interessante de reflexão sobre o ambiente social resultante da evolução tecnológica inerente ao steampunk e sobre as suas contradições, bastante sólida em termos de construção de um universo ficcional, como um texto bastante atual devido aos paralelos óbvios com a informatização em curso no mundo real. Um texto bastante bem sucedido, portanto.

Por outro lado, o sucesso deste texto é também a sua mais clara insuficiência, pois abre portas a (e gera interesse por) uma exploração do universo criado que aparentemente nunca chegará a existir, tendo em conta que esta publicação data de há cinco anos e não há notícia de o autor se ter entretanto dedicado a explorar as histórias interessantes que esta carta deixa entrever. Potencial desaproveitado. A FC&F portuguesa está cheia dele.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Noite de Walpúrgis na Brain-Net

Alguns dos textos deste livro de Luiz Bras são razoavelmente clássicos enquanto contos, ainda que breves, e muitos têm até características de género bastante bem identificáveis. Outros há, porém, que ocupam territórios bastante mais mistos, seja em termos genéricos, seja mesmo no que toca à sua caracterização como prosa ou poesia. Noite de Walpúrgis na Brain-Net é um destes últimos, com uma prosa muito poética e bastante expressiva, que me fez lembrar os arroubos tecnófilos do engenheiro pessoano Álvaro de Campos. Há também nele muito de borgesiano, o que é a maior obviedade que se pode dizer sobre este texto, e há também muito de ciencio-ficcional, o que é bastante menos óbvio porque o texto não obedece a praticamente nenhuma das características convencionais da ficção científica, ainda que lhe faça referência com alguma insistência. É que, segundo creio, uma das principais inspirações para esta história, além do referencialismo literário que está muito evidente desde o título até às últimas frases-parágrafos, é o ciberpunk e a forma como os ciberespaços tendem a pixelizar as coisas. Trata-se, em suma, de uma experiência. Bem sucedida? Creio que sim, que o autor conseguiu fazer precisamente o que pretendia.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 16 de março de 2017

Lido: Décimo Nono Teste de Competência Robótica

Embora ainda não seja um conto na completa aceção da palavra, o que é sublinhado pela sua inclusão numa secção de "artigos" (após um verdadeiro artigo que explica o conceito de steampunk), Décimo Nono Teste de Competência Robótica é um texto de ficção plena, no qual a autora, Débora Fortunato Moreira, encarna um robô escritor chamado Bartholomew Keylock e apresenta uma espécie de relatório da sua tentativa de criação literária, repleta dos inevitáveis automatismos e picuinhices desnecessários causados pela condição da personagem. "O céu está aproximadamente da cor #42c7fe", escreve-se a dado passo, um exemplo entre muitos.

É uma historinha razoavelmente divertida mas sem grande originalidade, com uma ligação ténue ao steampunk (pouco há que diferencie este robô de tantos outros robôs da FC não steampunk) e com alguns pormenores que destoam do rigor que a personagem pretende evidenciar, o que prejudica a verosimilhança. Não é credível, por exemplo, que um maquinismo tão obcecado com a precisão trate a mulher como subespécie do homem, chamando-lhe "Homo Sapiens Mulier", pelo menos sem um pano de fundo que o justifique. Lineu, morto em 1778, logo bem antes da época em que o steampunk de inspiração vitoriana tende a ambientar-se, definiu bem as regras da sua nomenclatura sistemática. Embora o humor não tenha de se submeter sempre à verosimilhança, estas coisas funcionam melhor quando as piadas que a atacam são fulcrais para a história, o que lhes dá uma razão para existir, do que quando são meros apartes que podem ser removidos sem a prejudicar em nada, caso em que passam uma imagem de descuido ou desatenção que pode prejudicar o próprio humor que se pretende alcançar.

Em suma, esta história deixa a desejar, aparentemente em resultado da inexperiência da autora.

Textos anteriores deste livro:

Lido: De Manhã à Beira Mar

Afastando-se um pouco do terror clássico do primeiro conto, Ricardo Lopes Moura relata em De Manhã à Beira Mar a história de um homem que tem como rotina matinal ir assistir à alvorada ao paredão da marginal, enquanto atira pão às gaivotas. Até ao dia em que acaba testemunha de um assassínio, com as consequências funestas que isso costuma acarretar.

Não sei bem se a ideia do autor era criar um clima inquietante, de algum terror psicológico, transmitindo ao leitor o medo do protagonista do conto perante o acontecimento que se desenrola a seu lado e vai inevitavelmente ter implicações para a sua vida. É possível que fosse, mas também é possível que pretendesse apenas contar uma história, sem se prender nesse tipo de planeamento. Se assim foi, isto é, se a ideia era criar um clima inquietante, não foi bem sucedida, talvez em parte pela brevidade do texto (três páginas). Caso contrário, a história está razoavelmente bem contada. Não posso dizer que tenha gostado muito deste conto, mas lê-se bem.

Conto anterior deste livro:

quarta-feira, 15 de março de 2017

Lido: Homem das Cavernas

(Ainda aí andam? Desculpem lá a ausência, mas isto foi duro. Trabalho intenso, longo, sem pausas, que me fez ir pondo de lado tudo o não essencial à medida que o cansaço se foi avolumando. Agora que a parte mais exigente terminou, voltamos à programação normal.)

Homem das Cavernas (bibliografia) não se diferencia muito da maioria dos outros contos que Telmo Marçal reuniu neste volume. Trata-se, naturalmente, de mais uma distopia negra, protagonizada por um homem que é vítima das mais abjetas torturas mas acaba por aceitá-las com fleuma, pragmatismo e capacidade de adaptação porque é assim que as coisas são. Já noutros contos se encontra o mesmo tipo de ambiente e protagonista, e as diferenças são de pormenor. Aqui encontramos uma sociedade fechada num vasto complexo de grutas, que sobrevive graças em parte ao que (e aos que) nelas vai penetrando vindo do exterior. Como o protagonista, que um belo dia resolve fazer um bocadinho de espeleologia improvisada e acaba capturado, sujeito a um teste de sobrevivência que envolve ficar sem olhos (e quem precisa de olhos num sítio onde a luz nunca penetra, não é?), que ultrapassa, o que o leva a ser integrado na sociedade em vez de devorado. Depois, segue-se a história da sua vida nas grutas, contada a traços largos e na primeira pessoa, em jeito de depoimento, e do atribulado regresso à superfície.

Não me pareceu ser dos melhores contos de Marçal, este. Creio que o principal motivo para isso é não ser muito credível enquanto possibilidade real. Julgo compreender a inspiração básica, uma adaptação ao tipo de mundos e ambientes que Marçal cria das histórias sobre criaturas perdidas (ou não) nas profundezas das cavernas que surgem com alguma frequência nas histórias tradicionais. No entanto, o motivo por que a maior parte das histórias dele funciona bem é serem credíveis enquanto possibilidades reais. Extremas, certamente, mas há na maioria das histórias um toque de verosimilhança que aqui falta. Ao ler a maior parte das outras histórias, conseguimos imaginar um mundo realmente transformado naquilo no caso de tudo correr horrivelmente mal. Ao ler esta, nem tanto.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Lido: O Alfaiatinho Valente

Se julgam que a chico-espertice é coisa exclusivamente portuguesa, desenganem-se. O Alfaiatinho Valente, teutónica história construída a partir de elementos razoavelmente díspares — mas nos quais a chico-espertice já estava bem presente — pelos não menos teutónicos Irmãos Grimm, demonstra cabalmente que o fenómeno está bem disseminado e é antigo. Pois o alfaiatinho que protagoniza esta história é, além de valente, coisa que realmente até é, um chico-esperto do mais típico que existe, intrujão e gabarolas como poucos. E, pior, sai-se bem de todas as peripécias, sempre tingidas de vigarice, meio por mérito próprio, por uma questão de agilidade mental, autoconfiança e até agilidade física, meio por pura sorte. Sai-se tão bem, na verdade, que de modesto alfaiate acaba em rei, depois de intrujar gigantes — que mata —, soldados, o próprio rei, toda a gente e alguma não gente.

Para mim, o mais interessante desta história são as conclusões a que se chega quando se coloca nos pratos da balança ideológica a sua óbvia imoralidade de base com a vontade, claramente expressa pelos autores destas histórias, de criar uma espécie de corpus de histórias exemplares, com propósitos educativos, baseadas nas lendas e histórias folclóricas que foram encontrando pela Alemanha fora. Torna-se premente a interrogação: que exemplo pretenderiam eles dar com uma história destas? Que a ambição justifica todos os meios? Que ser espertalhão é uma virtude superior a qualquer outra... desde que não se seja apanhado?

E refiro-me aqui aos Grimm, mas podia referir-me de forma igualmente apropriada ao caldo cultural que produziu tais pérolas, pois através das notas que acompanham o conto (como é de norma nesta edição) percebe-se claramente que esse elogio à chico-espertice inescrupulosa já estava bem presente no material de base, embora os Grimm nada tenham feito para a atenuar, muito pelo contrário.

Pensando bem, isto é capaz de explicar uma parte razoável da Europa de hoje.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Horóscopo

Depois do Calendário aparece mais um texto mestiço, desta feita uma espécie de Horóscopo. Sim, só "uma espécie de". É que aqui, Sofia Romualdo mostra muito mais interesse em criar um ambiente steampunk, servindo-se de alguma da parafernália típica do subgénero (goggles, dirigíveis, por aí fora), e um texto divertido, do que em apresentar um texto credível enquanto horóscopo, pois falta-lhe, em quase todos os signos, o tipo de informação que os fiéis destas coisas mais habitualmente procuram: relações, saúde, finanças, etc. Por outro lado, por vezes tem verdadeira piada, especialmente quando insulta — é o termo — o gentil leitor.

Digamos que, assim, o Astrólogo Sepharial, em nome do qual este horóscopo vem assinado, não tem grande futuro na... hm... bem, chamemos-lhe arte. Mas entrevê-se nestas curtas linhas uma personagem interessante. Talvez desse umas histórias curiosas, o amigo Sepharial. Deste "seu" texto é que não gostei lá muito.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Lido: Os Meninos Perdidos

Quem conhecer alguma das versões de Hänsel und Gretel, que eu li há pouco tempo porque é um dos contos recolhidos e reconstruídos pelos Irmãos Grimm, pega em Os Meninos Perdidos, história que na versão de Adolfo Coelho ocupa apenas duas páginas, e depressa percebe estar perante uma variante. Aqui se encontra a mesma bruxa, aqui se encontram as mesmas crianças perdidas na floresta, aqui se encontra o mesmo encarceramento e engorda com vista a um futuro pitéu canibal, aqui se encontra o mesmo rasto de objetos na floresta, para ser seguido e fornecer orientação, ainda que neste caso não sejam migalhas de pão mas cascas de tremoço a construí-lo, aqui se encontra a mesma estrutura básica. Mas há suficientes detalhes divergentes para que a história acabe por ser outra. Existe, por exemplo, uma velhinha bondosa e igualmente mágica (ou pelo menos com conhecimentos de magia alheia) que acaba por ajudar a resolver o problema dos miúdos, personagem que não existe na versão alemã. Esta é uma história muito curiosa em si mesma e curiosíssima enquanto contraponto à versão dos Grimm.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Calendário

Este almanaque inclui vários textos mestiços, entre a ficção e a não ficção. Os Anúncios de que já aqui se falou são um exemplo, e pouco depois vem outro, o Calendário. Trata-se basicamente de um calendário de eventos futuros do mundo real, ligados de alguma forma — mesmo que ténue; inclui informação astronómica, por exemplo — ao steampunk, mas está escrito como se esse mundo real fosse um parque de diversões vitoriano, com dirigíveis por todo o lado. Não achei grande piada, em parte, confesso, por não fazer a mínima ideia de como vou categorizar este texto quando chegar o momento de o incluir no Bibliowiki. Meter-me em assados não tem graça, menina Joana Neto Lima.

Texto anterior deste livro:

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Lido: Anúncios

Os almanaques de antanho incluíam sempre anúncios às coisas mais variadas. Daí que, quando o Clockwork Portugal decidiu criar um almanaque steampunk, elaborado à imagem e semelhança dos almanaques da viragem do século XIX para o XX, uma secção de anúncios não pudesse faltar, graficamente moldada à época dos almanaques originais e devidamente adaptada à temática steampunk.

Os anúncios dividem-se em dois grupos. Um logo a abrir, o outro a fechar.

Os do primeiro desses grupos são praticamente microcontos, quase sempre mais pelo que sugerem do que pelo que dizem, o que, de resto, é apanágio de quase todas as ficções ultracurtas. Anunciam-se coisas como uma Oneirocâmara (Sofia Romualdo), que promete fotografar sonhos; Termas Vaporosas (João Ventura), que garantem beneficiar a saúde com vapores sulfúreo-radioativos; Armas (Manuel Alves), que será talvez um pouco terra-a-terra em demasia para a publicação a que se destina, pois só publicita um revólver sem nada de especial, Engraxadora a Vapor Brilhantíssima (Carlos Silva), utilíssima maquineta para o cavalheiro bem calçado; uma Poção Hércules (Manuel Alves), que sofre do mesmo padecimento das armas, pois é anúncio que poderia ser encontrado em qualquer almanaque verdadeiro; Abelhas Mecânicas (Sofia Romualdo), autómatos polinizadores de primeira qualidade; Beba Elixir Milagroso Dr. António Medeia (Carlos Silva), banha da cobra da melhor para curar doenças steampunk; O Petrol Cyclo (Anton Stark), brilhante invenção automóvel que é anunciada na orthographia pré-1911, o que acaba por se tornar incongruente com o restante texto, e por fim um verdadeiro conto sob capa de anúncio, intitulado Cuide dos Seus Males com... TAURUM MÁGICO (Pedro Ferreira), sobre uma magnífica invenção "com capacidade de reestruturar os compostos magnéticos do cérebro".

São sobretudo textinhos divertidos, que sugerem — quase todos — ambientes e histórias sem chegarem propriamente a contá-las. Todos poderiam servir de eixo para ficções mais desenvolvidas, ainda que, bem entendido, nem todos em grau igual. Para isso, as ideias com menor potencial são naturalmente as menos fantasiosas, as duas do Manuel Alves, ao passo que as que o têm maior são a da oneirocâmara, a das abelhas mecânicas e a do taurum mágico. Nada de transcendente, mas engraçado.

O segundo grupo mantém o mesmo ambiente gráfico e publicitário, mas publicita coisas do mundo real, supõe-se que aquelas que contribuíram para a concretização do projeto, de editoras a criadores de roupa e acessórios steampunk, passando por revistas, fanzines, eventos, etc. Ao contrário do primeiro grupo, aqui não há literatura e há muito pouca diversão — e a que existe é sobretudo gráfica; há apenas publicidade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Lido: 2014 Campbellian Anthology

Há antologias que têm uma estrutura; outras, e por vezes as mesmas, incluem uma componente editorial forte. O primeiro caso exemplifica-se com antologias temáticas, e em especial antologias de universo partilhado, como a brasileira Intempol ou a portuguesa Lisboa no Ano 2000. O segundo caso pode ter como exemplo qualquer antologia em que o ou os organizadores selecionem aqueles que lhe(s) pareça(m) ser os melhores contos e novelas para a publicação que organizam.

Outras antologias existem, contudo, que têm muito pouco de uma coisa e outra, limitando-se a englobar tudo o que aparece dentro das balizas razoavelmente latas da proposta de publicação. É, pelo lado negativo, o caso das antologias pagas pelos autores. E é também, pelo lado positivo, o caso de publicações como esta 2014 Campbellian Anthology, compilada por David M. Blake.

Trata-se de uma gigantesca edição em ebook que, se se tratasse de livro físico, chegaria quase às 2500 páginas de contos, novelas e excertos de romances. Sim, a sério.

E pretende reunir exemplos, supostamente os melhores, do trabalho dos autores elegíveis em 2014 — ou pelo menos daqueles que desejaram a sua inclusão — para o Prémio John W. Campbell para o Melhor Novo Escritor, atribuído anualmente a um escritor que tenha tido a sua primeira publicação profissional de ficção científica, fantasia ou horror, em língua inglesa, no decurso dos dois anos civis anteriores.

E é o que faz, de facto. Reúne tudo: o bom, o mau, o ótimo, o péssimo, o assim-assim, de continhos de uma página a excertos de romances ou novelas com quase 50, ficção científica, fantasia, horror, das coisas mais tradicionais às mais experimentais, das mais juvenis às mais adultas.

E ao fazê-lo, apresenta-nos um interessantíssimo panorama do que se anda a fazer nos três géneros (e arredores) e das abordagens que autores acabados de chegar trazem para cima da mesa. É uma vasta janela sobre os géneros fantásticos e o seu futuro. E, em grande medida por isso, é uma publicação francamente boa, mesmo que parte do seu conteúdo esteja longe de o ser. Pena é só se terem publicado duas destas antologias, em 2013 e 2014, tendo a ideia de publicar a de 2015 sido assassinada pelos puppies e existindo uma iniciativa semelhante em 2016, organizada por outras pessoas e intitulada Up and Coming. E mais pena ainda eu só ter conseguido agarrar esta, só tendo dado pelas outras já depois do período de disponibilidade ter chegado ao fim. Bolas! E mais bolas! Porque sim, valem bem a pena.

Abaixo encontram a longa lista dos autores presentes na antologia, com ligações para posts dedicados a cada um, onde falo brevemente do que achei das respetivas histórias.
Este livro foi descarregado legalmente da web.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lido: A Viagem do Elefante

No contexto da obra de José Saramago, A Viagem do Elefante é uma raridade: um romance histórico, como alguns dos outros, mas que, ao contrário destes, não contém nenhum elemento fantástico se descontarmos algumas passagens em que o narrador especula sobre que pensamentos passarão pela cabeça do elefante que o protagoniza. E podemos fazê-lo sem dificuldade, pois o elemento fantástico que em tais passagens se contém é no máximo tenuíssimo.

Relata, como se sabe, a viagem do elefante Solimão, originário da ilha de Ceilão e dado de presente pelo rei português ao arquiduque da Áustria, no já distante século XVI, época em que Portugal era superpotência global e a Áustria lhe ficava bem abaixo na hierarquia dos poderes. Ora, oferecer como presente um elefante implica que este viaje de casa de quem oferece até à casa de quem recebe a oferta, e um elefante, mesmo sendo asiático e por isso mais pequeno que os primos africanos, não é propriamente coisa que se enfie num bolso ou numa mala.

Daí que Solimão tivesse sido obrigado a atravessar meia Europa, quase sempre a pé, causando grande comoção e sensação em todos os locais que atravessa, pois a Europa do século XVI já havia há muito esquecido as legiões cartaginesas de Aníbal e não se lembrava da existência de tão assombrosos animais. Uma viagem fantasticamente épica, em sentido próprio. E tudo isto é história histórica, realmente acontecida na realidade factual das coisas, não só na realidade da ficção.

Saramago pega nessa história e conta-a à sua maneira, dividindo o protagonismo entre Solimão, o elefante, e o seu cornaca, pois para que tão grande animal viaje para onde se deseja é sempre preciso que haja quem saiba conduzi-lo para lá. Subhro, assim se chama o cornaca, é a voz do povo, e portanto a voz da razão, é aquela pessoa que sabe o que há que fazer e porquê, o homem que é capaz de conciliar as necessidades diplomáticas da viagem com as necessidades e capacidades mais imediatas da oferta, ajustando umas às outras conforme seja necessário.

E é esse o facto que mais é usado como motor deste romance. E é isso, mais do que a sucessão de peripécias e paisagens que inevitavelmente se sucedem numa viagem de Lisboa a Viena, mais a mais há quinhentos anos, que lhe confere interesse. São as reflexões do povo e do estrangeiro, corporizados em Subhro, em confronto com os vários poderes por cujas mãos vai passando, são as formas como se lhes vai adaptando umas vezes e impondo-lhes, de outras, a sua vontade ou necessidades, que realmente sustentam a história.

No fim, fica a ideia de que, no fundo, o que o povo quer é que o deixem em paz, que lhe permitam viver a vida sem o chatearem demasiado, e também uma ideia internacionalista, quiçá fruto parcial ou total da emigração, também sentimental, do próprio Saramago: a pátria fica onde ficam as coisas de que gostamos ou necessitamos. No caso de Subhro, a sua pátria foi o elefante Solimão; morto este, o que resta?

O que resta, aqui, é responder à pergunta: é bom, este romance? Claro que é.

Este livro veio da biblioteca dos meus pais.

Lido: Nas Catacumbas

A ficção científica está cheia de histórias em que o contacto entre civilizações oriundas de diferentes planetas resulta em invasão — ainda recentemente falei aqui de uma. Normalmente, a invadida é a Terra, o invasor é uma espécie alienígena qualquer. Mas mais raras e em geral mais interessantes são as histórias em que são os terrestres que invadem planetas distantes. Nas Catacumbas é uma dessas histórias. Talvez.

E talvez porque esta vinheta de Luiz Bras não é inteiramente clara a esse respeito. Em parte devido ao ponto de vista escolhido, a dos invadidos, que se veem obrigados a refugiar-se em catacumbas, o que explica o título, em parte devido ao tamanho do conto, página e meia, e em parte devido à sua estranheza, pois o método de invasão e combate é francamente desusado. E original, tanto quanto eu saiba.

Essa originalidade contribui para o interesse que o conto tem, mas há mais. Há aqui uma muito subtil conexão ecológica, talvez algo retirado da mundovisão de povos indígenas sul-americanos. Se encarada sob um certo ponto de vista, esta é a história não só da invasão do Novo Mundo, como a própria história da espécie humana no planeta que lhe deu origem. Se visto a esta luz, este conto é extraordinariamente sumarento para obra tão pequena. E por isso muito bom.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 15 de janeiro de 2017

Lido: A Frio

Está um tipo sossegadamente a ler, no seu casarão, enquanto lá fora o mundo se desfaz em chuva, quando lhe vem bater à porta um miúdo, ensopado que nem um pinto, e assustado porque estaria a ser perseguido. O que faz o tipo? Bem, vocês não sei o que fariam, mas o dono deste casarão em concreto, o protagonista de A Frio, já parece ter o esquema todo montado.

É um conto curioso, este. Mas não passa disso. Ricardo Lopes Moura deixa uma ou duas pontas demasiado soltas na sua narrativa e faz uso muito pouco irónico (isto é, com muito pouca consciência aparente de que está a usar clichés) de alguns clichés para que eu consiga achar o conto bom.

O pior é que sem esses clichés o truque que usa para desviar as atenções do que se estava ali a passar resultaria em pleno. Sem tantas referências ao imaginário do terror, o leitor acreditaria na generosidade do dono da casa quando deixa o miúdo sair da chuva e obter refúgio de um qualquer perigo iminente. Mas com elas, a sensação de que há qualquer coisa que não está bem e a suspeita, quase imediata, de qual é a coisa que não está bem, surge demasiado depressa. E assim, a leitura acaba com um "ora bolas" de oportunidade perdida.

Ora bolas.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Lido: Não é o que Ignoras o Motivo da tua Queda mas o que Pensas Saber

Um dos subgéneros mais comuns na ficção científica internacional, e talvez aquele que é mais maltratado por escritores que não conhecem o suficiente do género para evitar cair em todos os seus muitos clichés, é a FC mais ou menos ufológica, centrada em visitas ou invasões de criaturas extraterrestres. Não por acaso: A Guerra dos Mundos de Wells é dos tais livros que toda a gente acaba mais tarde ou mais cedo por ler, e há abundância de material audiovisual construído à volta do mesmo tema, já para não falar de todo o History Channel e da muita divulgação que tem há largas décadas a pseudociência ufológica.

Não é o que Ignoras o Motivo da tua Queda mas o que Pensas Saber (bibliografia), o mais verborraico título que Luís Filipe Silva publicou até hoje, insere-se nessa tradição. O cenário faz lembrar um pouco o do filme Independence Day: objetos, provavelmente naves, aparecem nos céus da Terra e depressa começam a causar problemas. As semelhanças, felizmente, terminam aí. O que se segue é uma história que tem mais a ver com a noção de incompreensibilidade da inteligência alienígena, muito comum em Lem, e a muito citada frase de Clarke sobre a tecnologia suficientemente avançada ser indistinguível da magia, do que com o cliché habitual deste tipo de história. Além disso, trata-se de um conto bem escrito, não só no que toca simplesmente ao uso da língua, como, até certo ponto, na construção do protagonista e de algumas das outras personagens, mas também, ou talvez sobretudo, em certos detalhes estruturais que são fundamentais para sustentar o interesse do leitor até ao fim, pequenas frases ou fragmentos de frases que vão sucessivamente entreabrindo portinholas para o futuro narrativo, fornecendo vislumbres do que aí vem e voltando a fechar-se imediatamente a seguir. De bónus, um final que, apesar de todos estes vislumbres, consegue ainda surpreender.

Como consequência, esta é de caras a melhor história desta curta antologia. Uma noveleta realmente boa, para variar.

Contos anteriores deste livro:

Lido: The Heisenberg Mutation and Other Transfigurations

Esquece-se com demasiada frequência que, lado a lado com a literatura comercial (e não me refiro aqui à que é vulgarmente conhecida desta forma, a literatura formulaica destinada a vender muito, mas sim à literatura que é comercializada através dos circuitos da edição profissional) existe, sempre existiu e provavelmente sempre existirá uma outra, uma espécie de irmão pobrezinho da primeira, que sobrevive de edições pequeninas, de edições amadoras, de autoedições e de edições pagas do bolso dos próprios autores. E que embora seja verdade que a qualidade média é superior na primeira que na segunda, não é menos verdade que na primeira encontramos também material inenarravelmente mau, ao passo que na segunda também existem algumas pérolas de considerável calibre.

The Heisenberg Mutation and Other Transfigurations é um cadernito de 36 páginas, publicado não se sabe quando por uma microeditora de certeza amadora chamada D-Press, escrito por Steve Redwood e ilustrado por Carole Humphreys, e pertence sem qualquer máscara ou simulação ao segundo grupo, mesmo que o objetivo tenha sido, como parece que foi, mais fazer uma ediçãozinha de alguns contos para divulgar gratuitamente junto de eventuais interessados, ligados de uma ou de outra forma ao mundo da edição, do que fazer com que esta edição valesse por si mesma. Mas seja qual for o objetivo, o facto é que este é um bom livrinho, claramente melhor do que muitos dos livros publicados profissionalmente que li no ano passado.

Os seus quatro contos, que oscilam entre a ficção científica soft e uma weird fiction absurdista e surreal, são todos textos bastante interessantes, razoavelmente bem servidos pelas ilustrações de Humphreys e, embora não se possa dizer que o conjunto supera a soma das partes, estas são boas o suficiente para ter sido um prazer ler este livro.

E já que se fala das partes, eis o que achei delas:
Este livro foi-me oferecido pelo autor e passou demasiados anos na pilha dos livros a ler um dia.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Lido: A Saga de Alex 9

De vez em quando aparecem no rarefeito panorama da literatura fantástica produzida em Portugal umas edições invulgares. A Saga de Alex 9 (bibliografia) é uma dessas edições, e por vários motivos.

É invulgar, em primeiro lugar, por se tratar de um tipo de edição que só muito raramente acontece por cá: aquilo a que no mundo anglófono se dá o nome de omnibus, uma compilação, completa ou não, dos romances que compõem uma série, quase sempre após terem sido publicados isoladamente. Além deste livro, que me lembre, só a duologia Galxmente de Luís Filipe Silva recebeu recentemente idêntico tratamento, e neste caso tratou-se de uma obra inicialmente pensada como romance unitário que, com a edição em volume único, terá recuperado a estrutura original. Parece claro que, pelo contrário, Bruno Martins Soares pensou a sua obra como trilogia e dois dos três romances saíram autonomamente, assinados sob o pseudónimo anglófono de Martin S. Braun.

É invulgar, em segundo lugar, porque mistura de uma forma também muito pouco comum entre nós a fantasia e a ficção científica. Não pela mistura em si — ela existe em vários exemplares da ficção fantástica portuguesa, de Tércio a Macedo e até, por vezes, ao próprio Barreiros, ainda que aqui se encontre mais horror do que propriamente fantasia — mas pelos ingredientes postos na mistura: fantasia épica e space opera. Não me consigo lembrar de nenhum outro exemplo que tenha lido.

É também invulgar pela dimensão. Na ficção científica portuguesa, só o Terrarium da dupla Barreiros-Silva e, mais recentemente, o já referido Galxmente, atingem dimensões próximas das 600 páginas.

E é invulgar, enfim, por se inserir numa corrente pulp que tem muito poucos cultores em Portugal, e os que tem muitas vezes dão a impressão de não conhecerem o suficiente do género para o explorarem bem. Não é o caso de Soares.

Este cria uma história complexa, fundada num fascínio evidente pelas artes marciais japonesas, pela estratégia militar e pela forma pulp de contar histórias, suspeito que mais influenciada por formas não literárias de contar histórias (cinema, anime, BD) do que propriamente pela literatura, e na qual se mistura num todo nem sempre harmonioso um futuro de space opera com claros elementos cyberpunk e um passado com muito de medieval, ainda que em mundo secundário. O fulcro, como é de norma nas coisas pulp, é posto na ação, ainda que vá sendo dada mais atenção a outros elementos com o decorrer da história. A abordagem é declaradamente juvenil; não por acaso os dois romances que tiveram edição autónoma saíram numa coleção chamada TEEN.

Bastam muitas destas coisas para transformar esta obra num livro importante no contexto da FC portuguesa. Mas isso não quer dizer que seja um livro sem problemas.

Para começar, há o problema do primeiro romance. É pena que a reedição dos três livros em um só não tenha sido aproveitada para uma revisão aprofundada do primeiro romance, cuja qualidade geral fica bastante abaixo da dos outros dois. Depois, há o problema das pontas soltas que ainda ficam soltas ao concluir-se a leitura, apesar da tentativa de as amarrar, no fim, com um grande infodump em forma de epílogo. E depois há problemas que decorrem da abordagem pulp e talvez fosse difícil evitar mantendo essa abordagem. O maior desses problemas é a previsibilidade.

Uma das grandes qualidades que tem George R. R. Martin é ter compreendido que uma história de ação em que os heróis estão identificados desde o início e têm por isso a sobrevivência assegurada até ao fim é uma história amputada. Que o impacto emocional que os perigos e problemas por que passam causam no leitor é significativamente reduzido quando este sabe à partida que nada de realmente sério vai acabar por lhes acontecer. Mas nas histórias pulp, o herói é o herói e no fim vence, ficando com a heroína e vivendo com ela feliz para sempre. O desfecho está definido de antemão e assim a leitura acaba por ganhar um caráter significativo de ruminação. Ora, apesar do que a editora resolveu pôr na capa deste livro, Bruno Martins Soares decididamente não é "o George R. R. Martin português". À parte o mérito de trocar o género à estrutura pulp típica, usando uma heroína em vez de um herói, tudo o resto é como vem na receita.

E este é, para mim que não gosto de pulp, o grande pecado original deste livro. Mais do que as fragilidades de escrita, mais do que as pontas soltas, mais que o infodump, foi sobretudo isto que não me permitiu usufruir a leitura de forma plena. E foi por isso que, tendo acabado por gostar do livro, e apesar de, como digo acima, o achar importante, não gostei muito.

Para mais detalhes sobre os três romances considerados individualmente, seguir os respetivos links:
Este livro foi comprado.

Lido: Ícaro Montgolfier Wright

Outra faceta na obra de Ray Bradbury, menos numerosa mas que também inclui várias histórias, são as homenagens a heróis pessoais, sejam estes literários, científicos ou exploradores. Ícaro Montgolfier Wright (bibliografia) insere-se nessa faceta, como de resto o próprio título já indica. Trata-se de um conto curto muito poético, praticamente um poema em prosa, muito onírico, desprovido daquilo a que propriamente se possa chamar uma história, que presta homenagem aos três grandes sonhadores e pioneiros do voo referenciados no título e, por seu intermédio, a todos os outros, e faz a ligação aos pioneiros futuros, pois ainda o eram na época em que o conto foi escrito, do voo espacial.

Este é daqueles contos que irá agradar sobretudo a quem é mais sensível à forma literária, pois é nisso que é mais forte. Aqueles que prefiram conteúdo, e sobretudo os que, entre eles, tenham pouca paciência para onirismos poéticos, mais que provavelmente não gostarão, a menos que a homenagem, muito explícita, os consiga sensibilizar. Quanto a mim, gostei. Não muito, sobretudo quando comparo este conto com o melhor que Bradbury fez nos anos 40-50 do século passado, mas gostei.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Lido: A Máquina Voadora

Com A Máquina Voadora (bibliografia), Ray Bradbury leva-nos a um passado já bastante distante, ao ano de 400 AEC, e à China. Mais especificamente, a um momento concreto em que pela primeira vez um homem teria conseguido voar, amarrado a um papagaio de papel. A história que conta é a do que acontece depois a esse homem, quando o seu feito chega ao conhecimento do imperador, e trata-se de mais um dos muitos contos bradburianos em que o tema é a inovação tecnológica e a responsabilidade que ela acarreta.

Trata-se, portanto, de uma abordagem diferente para um tema bastante habitual no autor americano, num conto curto que se pode enquadrar, com boa vontade, na ficção fantástica ou até, com mais boa vontade ainda, na ficção científica, mas é sobretudo filosófico. Por vezes Bradbury parece tecnofóbico, parece — por paradoxal que isso seja num escritor de ficção científica — aconchegar-se a uma noção nostálgica de um passado mítico de infância em que tudo era puro e ainda não tinha sido corrompido pela crueldade da Máquina... ou pelo menos de uma Máquina mais sofisticada do que as que já eram conhecidas nesse passado. Mas neste conto curto transparece aquilo que deverá ser o verdadeiro núcleo dessa aparência de tecnofobia, a ideia de que a tecnologia é uma ferramenta, que pode ser bela, é certo, mas tem um imenso potencial para, nas mãos de gente má, se tornar devastadora.

O conto, esse, é bastante bom. Tão bem escrito como é habitual e com um sumo invulgarmente denso para história tão curta. E, sim, mantém-se muitíssimo atual.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Prosa

Todos os leitores são diferentes. Cada um procura nos livros a satisfação de um conjunto muito próprio de necessidades ou apetites e é em boa parte daí que vem a variedade de públicos que a literatura serve. Raramente é possível reduzir esse conjunto a uma ou duas coisas, ainda que haja sempre algo que predomina. No meu caso, o predomínio cabe ao gosto de aprender, ao gosto pelo poder da imaginação e ao gosto por uma boa história, servida pela prosa que seja mais adequada a essa história em concreto.

Quando acabei de ler este Prosa, de Mário de Sá-Carneiro, parte de uma edição dupla que reúne em dois volumosos volumes a obra completa deste célebre poeta do início do século passado, fiquei a pensar nestas questões. Porque se por um lado já antes tinha lido algumas coisas de Sá-Carneiro com um prazer significativamente menor do que o que tive ao lê-las agora, por outro, e apesar do dito acima, há entre a grande qualidade literária da maioria destes textos e o gosto que a sua leitura me causou um considerável fosso.

A questão, acabei por concluir, é a prosa de Sá-Carneiro pouco me ensinar, amarrada como está a uma conceção hiperromântica do mundo e da vida que nada me diz. Que, para ser brutalmente honesto, me parece até bastante ridícula, o que o narcisismo ora implícito ora explícito na maioria dos contos só piora. Para alguns leitores imagino que baste a literatura para ultrapassarem repulsas semelhantes pelas ideias e filosofia de base dos textos, mas para mim não basta. Mesmo pertencendo a grande maioria destas histórias à grande família da literatura fantástica sensu latu, que é aquela que costumo preferir.

Por outro lado, esta espécie de edição, em que se reúne num só volume a obra completa, todos os contos, novelas e romances, conjugada com a natureza idiossincrática da grande maioria dos textos, permite outra espécie de aprendizagem. Permite compreender bastante bem o autor e os motivos por que escrevia o que e como escrevia. E é por isso, parece-me agora, que a leitura destas histórias, aqui, me agradou significativamente mais do que quando li as que li dispersas. Esse foi o ensinamento mais relevante que retirei desta experiência: alguns autores só se compreendem verdadeiramente quando se lê tudo o que escreveram. Ou pelo menos tudo o que escreveram dentro de certos limites, mais ou menos latos, de técnica e/ou género literários (afinal, aqui só se encontra a prosa).

Daí que o veredicto final que a edição me deixa seja francamente positivo.

Quanto ao que achei individualmente das várias histórias, aqui vai a lista completa, dividida nas partes em que se divide o livro, as quais, à exceção da primeira, correspondem aos livros de prosa que Sá-Carneiro fez publicar:
Este livro pertence à biblioteca dos meus pais.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Lido: O Bonde

Quando a tecnologia evolui, há inevitavelmente um elemento de nostalgia no que é deixado para trás. Ray Bradbury deu muitas vezes voz a essa nostalgia, pondo frequentemente em contraponto uma imagem idílica dos usos, costumes e aparelhos da infância com o caráter frio e impessoal que via na modernidade ou pós modernidade, presente ou futura. Trata-se, naturalmente, de uma ideia conservadora por natureza: nem o mítico outrora teve alguma coisa de idílico, nem o presente (ou o futuro) é despido da sua própria poesia.

O Bonde (bibliografia) é um conto curto de uma fantasia quase mainstream que se insere nessa vertente da obra bradburiana. O enredo centra-se numa última viagem feita por um grupo de miúdos no elétrico (ou bonde, nesta edição brasileira) que costumava levá-los para a escola e vai fechar para ser substituído por autocarros. É um conto bonito, muito bem escrito, com as imagens poéticas certas nos sítios certos e uma dose muito ligeira de fantasmagoria a acentuar-lhe o sabor. Mas não é um grande conto. É bom: bonito, simpático e nostálgico, mas está longe de atingir o patamar do inesquecível.

Contos anteriores deste livro: