sábado, 1 de agosto de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Lisa Bolekaja

Lisa Bolejaka aparece com um único conto, intitulado

The Saltwater African. É uma história de fantasia, fortemente tingida de horror como é inevitável numa história sobre a vida dos negros nos anos de escravatura do Sul do continente norte-americano, e que descreve essa vida e as violências e os sonhos de liberdade que vinham com ela. A protagonista é uma mulher, escrava, cuja vida é sacudida pela chegada à plantação de um novo escravo, recém-chegado de África, trazendo ainda consigo, até, o seu nome africano. É um bom conto, com violência, sexo, sonhos e amor, repressão e liberdade. Bom e incómodo. E também bom porque incómodo.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Brooke Bolander

Brooke Bolander está presente com três contos.

Her Words Like Hunting Vixens Spring. Trata-se de um conto de fantasia, ou talvez de horror, ambientado algures no Oeste norte-americano, protagonizado por uma mulher que persegue a cavalo um antigo noivo, em busca de vingança pelo que lhe terá feito e por lhe ter matado os irmãos. Uma caçada difícil, que o homem é hábil, mas para a qual conta com a ajuda de raposas que vai misteriosamente vomitando. Um conto literariamente muito forte, com menos ação e mais situacional do que esta breve sinopse pode levar a crer, mas com ritmo e uma boa estrutura. Francamente bom.

Sun Dogs. Este é um conto de ficção científica, ou talvez seja mais adequado chamar-lhe fantasia espacial, também muito forte literariamente e muito situacional, sobre a viagem espacial da cadela Laika. Não sabem que cadela é? Tsc tsc tsc. Imperdoável. É outro conto muito bom, que se põe no lugar da cadela de uma forma tão eficaz que consegue levar quem lê à acanhadíssima cápsula Sputnik, embora tome algumas liberdades com a sua estrutura: aqui, uma janela tem importância fundamental no enredo, quando na verdade os primeiros Sputnik eram basicamente esferas de aço, sem qualquer espécie de janela.

The Beasts of the Earth, the Madness of Men. Trata-se de um conto obsessivo, muito semelhante ao primeiro no sentido em que também aqui a protagonista é uma caçadora destroçada que persegue a sua presa apesar de todos os obstáculos. Mas enquanto no primeiro o motor era o ódio, aqui é uma estranha espécie de amor, como se estivéssemos na presença de uma versão feminina do capitão Ahab de Melville... e, de facto, a presa (será realmente uma presa?) é uma baleia. Mais um conto literariamente muito forte, mais um conto sobretudo situacional, situado algures entre a fantasia e o horror.

Brooke Bolander é uma boa escritora.

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Erik Bear et al

Segue-se um grupo de quatro autores, Erik Bear, Joseph Brassey, Nicole Galland e Cooper Moo, presentes com mais um excerto de romance, escrito com autores já estabelecidos (Neal Stephenson, Greg Bear e Mark Teppo) e intitulado

The Mongoliad. Book One. Trata-se de uma fantasia histórica, ambientada na Europa oriental durante a época das invasões mongóis, que faz parte de um projeto de universo partilhado (o que explica o número elevado de autores), não limitado à literatura e que, nesta, pretendeu (e pretende, visto que continua em atividade) explorar formas de publicação alternativas à tradicional, muito embora este livro tenha acabado também por sair numa edição normal. E o excerto é interessante, apesar de parecer seguir um tipo de estrutura bastante banal na fantasia comercial — um grupo variegado de aventureiros junta-se e põe-se em viagem por territórios assolados por violências de vários tipos, a fim de alcançar algum objetivo. Mas tudo isto é algo incerto, pois o excerto, comporto pelos três primeiros capítulos do livro, pouco ultrapassa a caracterização inicial das personagens e dos ambientes.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Kelsey Ann Barrett

Kelsey Ann Barrett está presente nesta antologia com um único conto, intitulado:

My Teacher, My Enemy. Trata-se de um conto bizarro, brutal e sanguinário sobre um aprendiz de guerreiro que para se tornar guerreiro tem de sobreviver a uma última caçada... mas uma caçada humana, de matar ou ser morto, contra outros candidatos a guerreiros. É um conto de horror, no sentido em que tudo aquilo que é descrito é horrendo, incluindo o modo como, após cada morte, o protagonista obtém os conhecimentos de quem acabou de matar vestindo a sua pele. E também é um conto francamente bom. Um conto cheio de ritmo, bastante bem escrito numa primeira pessoa bem construída e cheia de personalidade, que vai entregando a informação necessária nos momentos e nas quantidades certas. Poderá repugnar os menos inclinados a este tipo de prosa, mas a ideia é precisamente essa. Aprovado.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Mark T. Barnes

Mark T. Barnes está presente com dois excertos de romances, muito semelhantes um ao outro, uma vez que fazem ambos parte da mesma série. Intitulam-se:

The Garden of Stones e The Obsidian Heart

Trata-se de fantasias ambientadas num mundo onde existem restos de construções e misteriosa maquinaria de antiquíssimas civilizações, o que traz à memória a célebre frase de Clarke sobre a tecnologia suficientemente avançada ser indistinguível da magia e levanta suspeitas sobre podermos estar perante uma ficção científica fortissimamente disfarçada. No entanto, se assim é, o disfarce é tão carregado que as suspeitas não conseguem ser mais que ténues. Pelo menos nestes excertos, a fantasia parece ser razoavelmente pura. E bastante banal, também, pois a escrita nunca ultrapassa a mera competência e o enredo obedece fielmente às características básicas da fantasia de inspiração feudal, com os seus heróis e vilões, reinos, nobres e mercenários, aventuras e maquinações.

Foram, pois, dois longos excertos que não me despertaram interesse quase nenhum pelos livros completos. Ou seja: não cumpriram a sua função.

domingo, 19 de julho de 2015

Lido: Chamada

Chamada é outro texto do Nilton, bastante mais curto mas com bastante mais graça do que o primeiro. Usando eficazmente o absurdo para obter humor, conta a história de Alcides, um homem que tenta contactar telefonicamente consigo próprio. Nonsense quanto baste, esta historinha, quando vista sob outro prisma, também pode ser facilmente enfiada na gaveta do surrealismo. Faz lembrar um pouco alguns contos do Mário-Henrique Leiria, pela extensão e em parte pela atmosfera, se bem que ao Nilton falte a irreverência política de que Leiria raramente se afastava.

Bonzinho.

Textos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - James Bambury

James Bambury também só está presente nesta antologia com uma história, de título...

Thirteen Generations. Este é um conto de ficção científica laboratorial onde se mistura a evolução biológica com a dos algoritmos genéticos. É uma história curiosa, com uma certa profundidade, que pode levar o leitor a isso inclinado a refletir sobre as virtudes e a condenação que existem na consciência de si mesmo e da finitude da vida. O conto é bastante inverosímil enquanto futuro desenvolvimento científico, postulando uma consciência de nível humano, ou até talvez superior, em organismos (totalmente artificiais?) aquáticos e presumivelmente bastante pequenos, que comunicam com o experimentador através de batimentos de cílios, mas a verdade é que o que o autor pretende com esta história está bem longe desse tipo de considerandos. Não foi conto que me tivesse enchido as medidas, talvez devido em parte à sua brevidade, mas é uma história com interesse.

Lido: Vozes

Vozes é uma historieta do Nilton sobre um homenzinho, um tal Frederico, que tem a singular característica de ouvir vozes. Podia ser uma historieta sobre a loucura ou sobre qualquer coisa de paranormal, sobrenatural, etecetera e tal, mas o final, a punchline da piada, transforma o texto noutra coisa. Nada de errado nisso, note-se, não fosse o facto de se tratar de um final tão anticlimático, tão seco, que nem para sorrir chega.

Fraquito.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Lido: A Corte a Dinah Shadd

A Corte a Dinah Shadd, conto razoavelmente extenso de Rudyard Kipling, é daqueles contos que das duas uma: ou têm de ser lidos na língua original, de tal forma peculiares são as soluções estilísticas usadas pelo autor para chegar aos resultados que pretende, ou então têm de passar por uma tradução feita com pinças, imaginação, muito talento e as adaptações necessárias para trasmitir para a língua de destino, se não exatamente o efeito pretendido, pelo menos algo de muito semelhante. A história divide-se entre uma primeira parte em que são relatadas algumas movimentações militares, e uma segunda que consta de uma conversa entre o narrador e um seu camarada de armas, durante a qual este lhe conta como fez aquilo a que o título faz referência: a corte a uma tal Dinah Shadd, arrebatadora de corações castrenses.

Kipling usa extensamente uma grafia e estruturas gramaticais que se destinam a plasmar no texto os oralismos do dialeto irlandês, o que só por si transforma este conto num pequeno pesadelo de tradução. O resultado, no original, provavelmente será bom (afinal de contas, Kipling é escritor nobelizado), mas a verdade é que não sei porque a camioneta da tradutora ficou positivamente soterrada por baixo de uma gigantesca montanha de areia e aquilo que aparece nesta tradução portuguesa é um bom bocado tosco. Não foi leitura que me deixasse bem impressionado.

Conto anterior deste livro:

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Lido: O Pianista

O Pianista (bibliografia) é um conto curto de Ana Cristina Luz que a princípio parece mainstream mas mais para o fim se revela pertencente a um fantástico próximo do realismo mágico, e que é de caras o melhor conto do livro até agora (e atendendo ao facto de ser o penúltimo, provavelmente será mesmo o melhor conto do livro). Romântico, como parece ser comum a todos estes contos, tem como protagonista uma mulher que chora uma perda num bar em algum dos vários São Pedros que existem espalhados pelo país (ou pela imaginação da autora, o que também é possível). Coincidentemente, a esse bar chega outro espírito perturbado, um homem que, sem dizer nada a ninguém, se senta ao piano e se põe a tocar, e de imediato se estabelece uma ligação entre os dois, ou pelo menos entre a mulher e a música que o homem toca. Lírico, bem escrito, com um ritmo que, ao contrário do que aconteceu em todos os outros contos, nunca fraqueja, e bem rematado, este é um conto realmente bom.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Lido: Os Óculos da Charlita

Os Óculos da Charlita é outra historieta de juventude de Ondjaki, de novo ternurenta, agora sobre uma família de vizinhos cujas filhas viam todas muito, muito mal, mas só uma, a Charlita, tinha óculos, com os quais conseguia ver decentemente a telenovela. E praticamente é só isto, o conto. Ao contrário de alguns dos outros, cujas histórias são muito maiores do que o texto em que estão contidas, a deste é, parece-me, bastante mais pequena. O que a meu ver o torna pior que os outros, sim.

Contos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Jeffrey A. Ballard

De um Ballard para outro e de uma publicação para outra, Stewart C. Ballard está presente com uma só história intitulada:

The Highlight of a Life. Trata-se de um conto de laboratório bastante clássico, muito típico de uma certa abordagem à ficção científica, desenvolvendo uma história tipicamente convoluta em volta de experiências ligadas a viagens entre universos... pelo menos em teoria. A complicar as coisas, a tornar tudo mais pesado, há também uma história de tragédia pessoal à mistura.

As ideias neste conto não são más, mas tampouco são tão frescas como poderiam ser. Pior, no entanto, é a execução, que deixa demasiadas pontas soltas e é demasiado óbvia na tentativa de puxar ao sentimento para realmente resultar. Pelo menos para este leitor que aqui escreve.

Lido: Escape

Escape (bibliografia) é um conto de uma ficção científica algo surreal, de J. G. Ballard, que se desenrola em ambiente doméstico. Um casal está pacatamente a ver televisão quando o homem se começa a irritar com uma avaria que parece não ter sido detetada pela emissora: como se fosse um velho vinil riscado, a gravação do programa chega a um certo ponto e volta para trás, recomeçando normalmente a partir de algo que já tinha sido emitido cerca de quinze minutos antes.

Só que se calhar não é na emissora que está a avaria; é no próprio tempo.

A FC tem relativa abundância de histórias sobre anomalias espaçotemporais, em que aparecem portais, ciclos mais ou menos fechados, toda uma panóplia de alterações topológicas no espaçotempo, que muitas vezes se abatem sobre cidadãos desprevenidos, deixando-os não raro tão confusos e à deriva como ao leitor. Muitas vezes esse tipo de alteração dá boas ou excelentes histórias. E esta é uma dessas histórias.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Retrato Oval

O Retrato Oval (bibliografia) é um conto curto de horror de Edgar Allan Poe que... hm... acho que este é mais um dos tais casos de... sim, é mesmo, foi outro conto que já tinha lido e comentado, este há quase cinco anos. E sim, o que penso agora é basicamente o que escrevi então, com uma agravante: desta vez lembrava-me de o ter lido, o que tem como consequência que o final surpresa, que é o fulcro de todo o conto, perde ainda mais impacto.

Há contos que se releem muito bem, por um motivo ou por outro. Há contos que a cada releitura se desvendam um pouco mais ou apresentam facetas um tudo-nada diferentes ou que são uma delícia de ler e reler pela pura qualidade que apresentam. Este não. Este é conto de uma leitura só.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Stewart C. Baker

Stewart C. Baker é simultaneamente o primeiro homem a aparecer na sequência (alfabética de apelido) da antologia e o primeiro autor a estar presente com mais do que um texto. Nomeadamente:

Behind the First Years é um conto de ficção científica ambientado no futuro distante, depois de alguma calamidade indefinida ter praticamente esvaziado a Terra, a bordo de uma nave-geração, talvez de refugiados, prestes a chegar a um destino potencialmente habitável... ou será que não? Ou será que tudo isto é mentira? Não se trata de uma ideia nova (ainda há dias li uma história de Ballard com muitos pontos de contacto), mas o conto, bastante melancólico, está muito bem escrito e concebido.

Raising Words é um conto de fantasia, ambientado no seio de uma espécie de tribo pouco sofisticada, que traz consigo todo o poder das coisas profundamente sentidas. De novo muito bem escrito e concebido, o conto é construído com uma série de analepses encadeadas, compostas pelas memórias da jovem protagonista relacionadas com a vida e a morte do pai. Bom. Francamente bom.

Lido: Tratado das Paixões Mecânicas

Tratado das Paixões Mecânicas (bibliografia) é uma noveleta de João Barreiros que quase bastaria dizer que é de João Barreiros para já se saber o que nela se vai encontrar. No ambiente eletropunk desta antologia, Barreiros traz-nos uma invasão vinda do Norte de África, por parte de uma Matriz cibernética coadjuvada por escravos (semi-)humanos, algures na zona da Costa da Caparica. O eixo principal do conto, como em tantos outros contos do autor, é a incompetência. A incompetência da inflexibilidade da programação mecânica, sobretudo, muito à semelhança do que acontece em histórias como Se Acordar Antes de Morrer... ou Quatro Milhões de Lolitas, mas também a incompetência dos defensores que, como em tantas outras histórias, disparam primeiro e pensam depois. Também o ambiente de território sitiado é comum a uma quantidade de outras histórias, em particular as pertencentes à série Fortaleza Europa, e o conceito de subunidades semiautónomas foi anteriormente explorado em histórias como LisCon 2060, entre outras. A novidade quase se resume à adaptação de todas estas ideias já vistas e já exploradas ao novo ambiente aqui criado, de uma espécie de história alternativa de base retrofuturista, mas por outro lado também nesta história é verdadeira a ideia de que, por mais que Barreiros se repita, fá-lo muitíssimo bem. O contraste em qualidade literária entre esta história e algumas das anteriores é quase gritante.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 13 de junho de 2015

Lido: O Ginásio

O Ginásio, de Pedro Mexia, é um texto de baralhar e voltar a dar. Pega no tema de Nós, os Gordos, baralha com a humilhação ritual e sentido de ridícula irrealidade de A Pátria em Cuecas e distribui para jogo. O resultado é uma sensação de remastigação da mesma coisa, com dois ou três achados bem desarrincados a temperar a salada. O Mexia escreve bem? Escreve, sim senhor. Tem piada? De vez em quando sim, tem. É tragável? Aí é que a porca torce o rabiosque, que ao fim de três ou quatro textos temo bem que já não. Não há paciência que resista a tanta mesmice. Ou se calhar até há, eu é que sou rezingão. Mas como isto é o meu blogue com as minhas opiniões, o veredicto que este texto daqui leva é um aborrecido meh.

Textos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Athena Andreadis

Athena Andreadis é mais uma autora (e não, não são só mulheres) que está presente com um único texto. Este:

The Wind Harp é uma space opera bastante tosca que pretende gerar interesse no leitor recorrendo a convolutas politiquices, cheias de traições, subterfúgios e tentativas de assassínio, nas altas esferas de domínios planetários inteiramente medievaloides. Não consegue. Pelo menos com este leitor que aqui está, decididamente, não consegue. Tudo isto é demasiado básico, demasiado cliché, demasiado sumário, para me despertar o mínimo interesse. Se penso que reduzir-se sociedades inteiras a intrigas de corte ou medições de forças entre exércitos é uma forma de destruir o que de complexo e fascinante um mundo de fantasia pode ter, por maioria de razão o mesmo penso quando se trata de ficção científica (ou de algo aparentado, pelo menos). Quando há mais do que isso (uma teoria do desenvolvimento das sociedades, como na Fundação de Asimov, preocupações ecológicas como nas Dunas de Herbert, e por aí fora), a coisa pode funcionar. Quando não há, e aqui não há mesmo, o resultado é mau. Muito mau.

Lido: O Tiro

O Tiro é um conto de Alexandr Pushkin que, embora se desenrole em ambiente militar, pouco tem a ver com a guerra, em mais um exemplo de tiro mais ou menos ao lado dado por quem escolheu os textos para estas pequenas antologias.

É um conto interessante sobre a vingança e, mais ainda, sobre as limitações da violência para resolver questões de honra e, por extensão, quaisquer outras. Como muitos outros contos oitocentistas, este é contado na primeira pessoa por um narrador-testemunha, em jeito de depoimento sobre factos acontecidos. O protagonista é um soldado, particularmente reverenciado pelos camaradas de armas pela sua intrepidez que, no entanto, deixa passar sem o duelo que se diria inevitável um insulto à sua honra. Isto na primeira parte do conto. Passam-se anos. Na segunda parte vamos reencontrar o narrador noutra fase da vida, já não soldado mas agricultor pobre, e é-nos revelada o resto da história de uma forma algo inverosímil, diga-se, por um certo excesso de coincidência.

Um conto bastante típico de uma época (está incluído num livro editado em 1831) e que por isso poderia talvez correr o risco de ficar algo datado, mas que quando se escava um pouco mais consegue conservar a relevância razoavelmente intacta até aos dias de hoje porque embora os homens já não resolvam todas as questiúnculas com duelos, a violência persiste e mantém as suas limitações como forma de resolver problemas.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Laurel Amberdine

Laurel Amberdine também só está presente com um texto, uma vinheta intitulada:

Airship Hope. Trata-se de uma vinheta de fantasia sobre a fé e a dúvida, centrada na vontade de fazer um estranho artefacto, feito de seda de aranha e sustido pela fé, voar por sobre uns certos picos gelados. Um continho muito bem escrito, e que me parece até ter o tamanho rigorosamente certo para contar a história que quer contar, mas que, à semelhança do de Alering, também não deixa grande marca.

Lido: Condução Perigosa

Condução Perigosa (bibliografia), conto curto de Ana Cristina Luz, é uma história de horror que, curiosamente dado eu ter falado há tão pouco tempo de outra, acompanha uma viagem noturna que corre mal. No caso desta história o viajante é um empresário, egoísta e arrogante, que segue ao volante de um topo-de-gama e não está com contemplações para com os outros (poucos mas estranhos) utentes da estrada.

O conto não está mal escrito, mas tem problemas sérios, o mais importante dos quais talvez seja a forma nada verosímil como o protagonista reage às ocorrências insólitas que o vão cercando. Por exemplo? A páginas tantas, o homem convence-se de que está com visões. Qualquer pessoa que fosse ao volante de um carro, e ainda por cima de noite, e sequer aventasse a hipótese de estar com visões, a primeira coisa que faria era dirigir-se a uma berma qualquer e estacionar, fosse em estrada normal, fosse em via rápida, fosse em autoestrada.

E são várias as reações inacreditáveis deste género, o que faz com que a suspensão de descrença, indispensável para se apreciar devidamente qualquer história deste tipo, se desfaça. A consequência? Uma experiência de leitura coxa, um conto que acaba por ser fraco.

Conto anterior deste livro:

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Alisa Alering

Alisa Alering está presente com um conto chamado:

The Wanderer King. Trata-se de um conto algo onírico, com o seu quê de  surrealista, sobre um pequeno grupo de sobreviventes numa paisagem pós-apocalíptica, devastada por uma guerra entre os "Wanderers" e os "Fixers," que procuram arranjar maneira de chegar ao "mundo de cima." É uma história bizarra, perdida num território obscuro situado algures entre a FC e a fantasia e que, embora se leia bem, não deixa grandes marcas.

Lido: Jerri Quan e os Beijinhos na Boca

Jerri Quan e os Beijinhos na Boca é outra historinha de infância de Ondjaki, na qual o jovem e muito inocente Ndalu vai servir de pau-de-cabeleira a um namoro interracial, proibido mas protegido pelos pais dele, Ndalu, que nada são a nenhum dos namorados, com as consequências que não será muito difícil imaginar. É um continho bastante divertido, mais pelo que deixa por dizer do que propriamente por aquilo que diz. É bastante interessante como Ondjaki conseguiu com uma historinha tão breve sugerir tantas coisas. Muito bom.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Ania Ahlborn

Vou começar a falar aqui de uma gigantesca antologia que tenho vindo a ler aos poucos desde novembro do ano passado. E quando digo "gigantesca" não estou a exagerar. É um ebook, mas se fosse livro físico, com uma paginação normal, chegaria quase às 2500 páginas e não, não meti aqui nenhum zero a mais.

Reúne obras dos autores elegíveis para o Prémio Campbell de 2014, que é atribuído aos melhores novos autores, os quais se mantêm elegíveis durante dois anos, e está organizado autor a autor. Será também assim que falarei deles, começando pela primeira, Ania Ahlborn, que está presente com:

Seed, um excerto de um romance de horror que começa de uma forma já vista, com uma viagem rodoviária noturna, uma súbita aparição no meio da estrada, e um acidente. Até o nosso velho Hugo Rocha tem uma história com uma premissa semelhante. No entanto, ajuizando pela amostra aqui contida, Ahlborn tem uma prosa eficaz, que constrói e sustenta bastante bem a tensão de um romance centrado no medo. Interessante. Não o suficiente para me levar a comprar o livro, mas interessante.

Lido: Uma Questão de Reingresso

Uma Questão de Reingresso (bibliografia) é uma extensa noveleta de ficção científica de J. G. Ballard que se ambienta na Amazónia brasileira. Este ambiente, bastante semelhante ao do romance O Mundo de Cristal, serve de palco a uma investigação muito pouco detetivesca, por paradoxal que isso possa parecer, destinada a localizar uma cápsula que, depois de ir à Lua, se teria extraviado no regresso à Terra, acabando por se despenhar numa região remota da Amazónia, habitada apenas por índios. Talvez. Ninguém sabe bem.

A busca, que já decorre, infrutífera, há algum tempo, tem dois objetivos principais: recuperar os dados trazidos pela cápsula, e descobrir se o seu único tripulante teria sobrevivido ou não, devolvendo-o "à civilização" em caso afirmativo.

No entanto, não parece ser bem a questão da cápsula e da viagem lunar o principal interesse de Ballard. Esta história parece bastante mais interessada em debruçar-se sobre a natureza dos povos "primitivos," as suas superstições e a forma como o conhecimento e a tecnologia podem ser usados por brancos sem escrúpulos para os levar à certa. No entanto, Ballard fá-lo de uma forma tão eurocêntrica, retratando os índios como canibais, incapazes de prover ao próprio sustento, apenas à espera da comida que lhes seria entregue pelo governo, que torna a leitura algo penosa em certos trechos. Fruto do tempo, talvez, embora em 1963, data da primeira edição desta noveleta, já houvesse ideias bastante mais avançadas sobre este tipo de questões etnográficas do que aquelas que aqui são refletidas.

Não me parece que este seja dos melhores contos de Ballard. Trata-se de uma noveleta que manuseia as técnicas e ideias da ficção científica de uma forma invulgar, como é costume do autor, e isso é o que tem de melhor, bastando por si só para fazer com que não seja um mau texto. Mas, além das reservas que deixa no que toca a questões mais ideológicas, a noveleta também não me parece particularmente bem sucedida enquanto história. Ballard tem muito melhor.

Contos anteriores deste livro: