sexta-feira, 22 de julho de 2016

Novo projeto - Fantástico Algarve

Cheguei a uma conclusão existencial: não sei ficar quieto. Pior: quando me vem uma ideia ela leva-me a chatear, e a chatear, e a chatear, até que a ponha em prática. Portanto, olhem, aqui está mais uma, o Fantástico Algarve:

Trata-se, desta vez, de um site bibliográfico algo especial, porque se destina a reunir sob um mesmo teto toda a produção fantástica que eu consiga encontrar vinda de autores nascidos ou radicados no Algarve. O objetivo último é tentar uma aproximação a uma resposta à pergunta feita no cabeçalho, mas isso é coisa de longo prazo. Até porque este projeto deverá avançar lentamente e manter-se parado durante períodos razoavelmente longos. E estará, claro, sempre incompleto.

Este é, de certa forma, um projeto derivado do Bibliowiki, e foi em parte criado com o objetivo de contribuir para o próprio Bibliowiki, numa retroalimentação circular que se espera produtiva.

Depara desde logo com um problema: a informação biográfica disponível sobre os autores lusófonos em geral e portugueses em particular é quase sempre bem mais escassa do que a dos seus congéneres estrangeiros, sobretudo dos americanos. Como consequência, procurando neste momento por "Algarve" na base de dados do Bibliowiki, chega-se a apenas 18 pessoas e, entre estas, só 10 são autores de ficção (os restantes são tradutores, ilustradores, autores de não-ficção, etc.). Em parte, isto deve-se a não contar com os radicados, em parte deve-se a lacunas na informação do Bibliowiki, que ainda tem bastantes autores e obras em falta, mas, mesmo assim, entre os autores já presentes no wiki e que não dispõem de nenhuma informação biográfica, e são muitos, deve haver certamente algumas dezenas com relação com o Algarve.

Parte do objetivo do Fantástico Algarve é, pois, suprir essas lacunas. A outra parte é identificar mais rapidamente o conjunto de obras fantásticas (em sentido amplo, englobando o fantástico propriamente dito, o maravilhoso, a ficção científica, o horror, a fantasia, o surrealismo, etc.) produzidas, total ou parcialmente, por estas pessoas. E com o tempo, talvez seja possível encontrar o que há (ou não) de Algarve nelas.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Brian Trent

Brian Trent é mais um autor presente nesta antologia com três contos.

Sparg é um conto de ficção científica sobre um polvo inteligente, geneticamente melhorado, antigo animal de estimação de uma família, que tenta sobreviver sozinho depois de a família ter desaparecido sem que ele perceba como nem porquê. A referência a (ou inspiração em) Virão Chuvas Suaves de Bradbury é muito clara, mas não é isso que retira potência a esta história, até porque Trent se limita a inspirar-se, não copia, e intercala a história que conta no presente com momentos em que o polvo se recorda da família, tornando-a assim de certa forma presente e fazendo com que a sua ausência pareça ainda mais terrível. E o polvo, na sua inadequação para o que tenta fazer, é uma personagem mais patética e digna de dó do que os automatismos da casa inteligente de Bradbury. Por outro lado, não há aqui nenhuma imagem tão inesquecível como a sombra branca no muro enegrecido. Mas mesmo assim este conto é bastante bom.

War Hero é outro conto de ficção científica, este ambientado em Marte, que tem como protagonista um soldado incumbido após uma revolução da missão de assassinar o antigo ditador que, apesar de ter morrido, foi clandestinamente ressuscitado (neste futuro longínquo as pessoas fazem gravações periódicas das personalidades, as quais podem ser incorporadas no mesmo corpo ou em corpos diferentes no caso de alguma coisa lhes acontecer) num corpo novo escondendo-se à vista de todos. Mas as coisas não correm exatamente como planeado. É uma história inteligente de FC hard, que explora bem a tecnologia em que se baseia e tem um enredo cheio de reviravoltas sem que, no entanto, nenhuma destas pareça gratuita.

The Nightmare Nights of Mars é outra história de ficção científica que regressa a Marte, mas este Marte é um planeta bem diferente, em plena terraformação, no qual já crescem florestas e a fauna respetiva. A protagonista é uma mulher, presa de uma relação abusiva com outra mulher, que é a primeira a descobrir que algo de anormal se passa com os insetos marcianos, não só em termos de tamanho como também de comportamento. Esta, que além de FC também é horror é, julgo eu, a pior das três histórias, pois não me parece que funcione lá muito bem. A parte biológica do enredo é tremida e em boa medida por isso a descrença tem dificuldades em suspender-se para que o desfrute seja pleno. Mesmo assim, tem o seu interesse.

Lido: O Milagre Secreto

O Milagre Secreto é mais um dos contos de Jorge Luís Borges em que o protagonista é um escritor a debater-se por levar até ao fim um projeto literário particularmente espinhoso. No caso, um drama em verso sobre a eternidade, adequadamente circular, do qual teria completado o primeiro e o terceiro atos, mas não o segundo. Problema: ele é judeu checo, a ação tem lugar em 1939, ano da invação da Checoslováquia pelos nazis, e por isso é preso e condenado à morte por fuzilamento. Até aqui nada de fantástico, tudo tristemente realista, mas, desesperado pela impossibilidade de concluir aquela que, para ele, seria a sua obra-prima, o protagonista recorre a medidas extremas, suplicando a deus mais um ano. Só mais um. E deus concede-lhe esse ano, mas não exatamente como estava à espera.

Este é outro dos grandes contos de Borges. Um conto que compacta em poucas páginas uma quantidade assombrosa de referências a questões tão profundas como a noção de eternidade em vários dos seus aspetos (a eternidade do círculo, a eternidade dos instantes, etc.), a política e a guerra, a relação do artista com a sua própria obra e as dos outros, por aí fora. E ironia, uma dose razoável de ironia.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Lido: Rapúncia

Rapúncia é um dos contos célebres desta compilação dos Irmãos Grimm, tornado famoso, sobretudo, através das suas numerosas adaptações ao cinema e à televisão que, no entanto, só costumam apanhar a ideia romântica da protagonista encerrada na torre que deixa cair o seu longuíssimo cabelo para que o príncipe apaixonado suba para ir ter com ela. O conto original, que nesta edição ocupa meras quatro páginas, é menos desenvolvido nessa parte do que as adaptações (apesar de o cabelo e o príncipe constarem), e inclui uma primeira parte, de página e meia, sobre como Rapúncia (vocês devem conhecê-la como Rapunzel) vai parar à torre, e também umas crueldades feiticeiras sofridas pelo príncipe antes do felizes-para-sempre final. Para quem só conhece as adaptações, o conto original dos Irmãos Grimm que, de resto, já é também uma adaptação, é ao mesmo tempo mais desenvolvido e menos desenvolvido do que elas, e isso é em si mesmo interessante. Pessoalmente, não gosto muito desta história; sou demasiado sensível a buracos de enredo, mesmo quando se trata de contos de fadas, e ela tem alguns. Mas é indiscutível que contém elementos muitíssimo eficazes a gravar-se no imaginário dos povos europeus.

Contos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Grace Tang

Grace Tang é mais uma autora presente nesta antologia com três contos, que no caso dela são todos bastante curtos.

Ghost in the Machine é uma história de ficção científica contada na primeira pessoa por um marido que se descobre recorrentemente abandonado. Ou melhor: pela consciência de um marido morto, uma espécie de fantasma instalado no sistema informático da casa, na altura em que a mulher, sobrevivente, se vai libertando do passado e recomeçando a viver. É um conto curto mas interessante.

White Lies é uma história com muitos pontos de contacto com a anterior, pois também se desenvolve em torno de uma consciência em suporte informático, ainda que desta feita se trate de uma inteligência artificial, que não sabe que o é mas vai deparando com pequenas estranhezas no mundo e em si própria, o que lhe desperta dúvidas razoavelmente metafísicas. Seria um conto meramente interessante sem aquele final surpresa, tão bem executado que o faz subir de nível. Bom.

Man's Best Friend é outro conto de ficção científica, este de uma natureza um pouco diferente. Aqui a história, uma ficção científica de laboratório razoavelmente típica, tem por tema melhoramentos cibernéticos destinados a melhorar a capacidade intelectual dos que se submetem às experiências, que basta o título para se perceber que são cães. Mas também aqui existe um final surpresa francamente bom, que eleva o conto da mera razoabilidade. Não é tão bom como o segundo, mas também é bom.

Lido: Mais Vale Quem Deus Ajuda que Quem Muito Madruga

Mais Vale Quem Deus Ajuda que Quem Muito Madruga é mais uma história popular recolhida por Adolfo Coelho com bastante mais interesse sociológico do que literário. Conta o que acontece a dois almocreves depois de se terem posto a discutir a propósito do ditado popular que intitula a história, defendendo um que ele é verdadeiro e afirmando o outro que é falso. Sem chegarem a nenhuma conclusão, vai cada um para seu lado agir em concordância com as suas ideias, e aquele que fica a contar com a ajuda divina prospera e o outro, o que aposta no trabalho, acaba morto à paulada. Moral da história: faças o que fizeres, trabalhes ou fiques deitado de papo para o ar, a única coisa que interessa é a intervenção divina. Suponho que a ideia dos padres que certamente fizeram espalhar histórias como esta teria sido incutir a ideia de que tudo acontece porque e como deus manda, mas a verdade é que elas acabam por funcionar como perfeitos elogios à preguiça. Nada contra, por princípio — a indolência, se bem usada, se bem explorada, é um magnífico incentivo à criatividade e até à produtividade. Mas quer-me parecer que houve demasiada gente a encarar demasiado literalmente histórias destas. Não basta armarmo-nos de indolência e ficarmos à espera do que deus manda: é preciso, lá está, sabermos usá-la.

Ah, sim, já me esquecia: o conto é fantástico, claro.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 19 de julho de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Bogi Takács

Bogi Takács está presente nesta antologia, mais uma vez, com três contos.

Recordings of a More Personal Nature é uma história de ficção científica muito interessante sobre um povo razoavelmente primitivo, que no decorrer da história vai ficando cada vez mais provável tratar-se de descendentes mais ou menos longínquos de uma raça antiga, bem mais avançada tecnologicamente. Uma raça capaz de criar nos seus descendentes um vínculo mental com uns "arquivos" que estes não compreendem, mas onde apesar disso armazenam (de forma inconsciente) uma porção considerável das suas personalidades. E o que dá origem à história é essa ligação começar a falhar, sendo depois o que a sociedade e os seus membros fazem para tentar suprir essa falha que a sustenta. Uma ideia base interessantíssima, bastante bem executada.

The Tiny English-Hungarian Phrasebook for Visiting Extraterrestrials é uma vinheta irónica e muito crítica da Hungria atual, que consiste, precisamente, do que o título indica: um guia de expressões inglesas, com tradução para húngaro e transcrição fonética, a ser usado por ETs de visita a uma Hungria proto-fascista e xenófoba. E consegue contar uma história. Bom.

Mouse Choirs of the Old Mátra é um conto de fantasia, uma fábula com todo o ar de conto tradicional, sobre um velho que parte a correr mundo em busca do melhor dos melhores para casar com uma sua sobrinha (que não é bem sobrinha). É daquelas histórias repetitivas que o povo conta, circulares, meio lengalengas, nas quais, apesar de variarem nos pormenores, as situações são sempre as mesmas no fundamental, até que o contador se cansa, ou repara que quem o ouve se cansa, e remata então a história. Não sei se este conto tem base numa história tradicional verdadeira ou se é integralmente invenção de Takács, e isso afeta a avaliação que dele faço. Se se der o primeiro caso, é um conto curioso; se se der o segundo, é francamente bom.

Lido: Exames

Exames é mais um miniconto de ficção científica distópica de Luiz Bras, mas este, ao contrário da vasta maioria dos restantes, não me convenceu. Consiste de um diálogo entre um paciente e quem lhe contesta a autoavaliação com os resultados dos exames endócrinos realizados, supõe-se, pouco antes. E não há nada a fazer, realmente: os resultados não deixam margem para dúvidas.

O principal problema desta história é depender em demasia de um efeito surpresa, no final, que o resto do texto se encarrega de destruir, fazendo com que quando o fim revela o que se passa já o leitor que não esteja inteiramente distraído percebeu tudo. Bras tem muito melhor do que isto.

Textos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Tim Susman

Tim Susman também está presente nesta antologia com três contos.

Erzulie Dantor é uma história de horror ambientada no Haiti pós-terramoto e tendo como pano de fundo o peculiar tipo haitiano de magia negra. Bem escrito, com uma prosa elaborada que consegue bastante bem evitar cair na caricatura floreada da purple prose, o conto relata a história da rivalidade de duas irmãs, uma das quais, enlouquecida, se serve das superstições do povo, ainda para mais atiçadas pela catástrofe que se abatera pouco antes sobre o país, para levar ao linchamento da outra. Mas as forças do sumbundo estão sempre atentas e cada ato tem as suas consequências. Um conto bastante bom.

Diamonds Are Forever é uma vinheta de ficção científica, mas também de horror, que tem como protagonista um androide cujo processador central é feito de matriz de diamante artificial. E, como se sabe, os diamantes são eternos. Mesmo que as juntas metálicas, os cabos e tudo o resto que forma um corpo robótico se degrade e deixe de funcionar. Brrrr.

Gondeneye também é uma vinheta de ficção científica com toques significativos de horror, passada na Lua, num futuro em que o nosso satélite já está colonizado permanentemente, e conta uma historinha sobre uma rapariga que, depois de perder um olho num acidente, coloca um olho artificial de ouro... que não é tão inerte como se poderia supor. Interessante, mas creio que este é o pior dos três contos.

De qualquer forma, este Tim Susman despertou-me interesse.

Lido: O Paciente

O Paciente (bibliografia) é um conto de ficção científica de Telmo Marçal sobre um homem que encontra num hospital a sua razão de existir. Irónico, corrosivo como ácido sulfúrico quase puro, o conto mostra-nos os truques, as doenças inventadas, que o paciente arranja para conseguir dar entrada no hospital e aí ficar alguns dias internado. Porquê? Porque do lado de fora não tem nada e do lado de dentro tem tudo, as tradicionais cama, comida, e roupa lavada e ainda a companhia dos outros pacientes que (literalmente) o rodeiam por todos os lados. Mesmo se isso implicar a perda de uma perna... ou coisas piores. Este é um dos bons contos da ficção científica portuguesa e, como muita da melhor ficção científica, exagera e extrapola para o futuro circunstâncias bem reais para melhor as iluminar. Pois todos sabemos, ou se não sabemos devíamos, que as visitas de indigentes aos hospitais são, realmente, no mundo contemporâneo, no mundo real, uma forma não só de serem tratados de mazelas reais ou imaginárias, mas também de alcançarem um breve alívio da vida que lhes coube em sorte.

Conto anterior deste livro:

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Bonnie Jo Stufflebeam

Bonnie Jo Stufflebeam está presente nesta antologia com dois contos e um poema.

The Wanderers é um conto de ficção científica forte e corrosivamente irónico que consiste numa mensagem dirigida à humanidade por um grupo de alienígenas que, como eles dizem, "vieram para o nosso planeta por terem compreendido que nós, os povos de Kill Bill, Saw, Vietnam e Columbine Massacre os compreenderíamos." É uma história de contacto humano-alienígena que usa os malentendidos para nos criticar, ou pelo menos a algumas das nossas realizações e/ou características. E isso é bom, ainda que esta minha opinião possa ser suspeita pois escrevi uma história dessas, o que é capaz de mostrar um certo gostinho especial por elas.

The Siren não é um conto sobre uma sirene, mas sim um conto sobre uma sereia. Fantasia, portanto. Ou talvez horror, pois já desde os gregos se sabe bem como o canto das sereias pode levar os homens a cometer quaisquer loucuras. Ou, como neste caso, as mulheres. O conto é mais uma vez bom, e o complicado enredo sentimental que a sereia origina, com lesbianismo misturado com uma problemática rivalidade entre uma mãe e uma filha pelo afeto da sereia, confere-lhe níveis acrescidos (e crescentes) de tensão.

The Ferryman, é um poema bastante curto que sugere uma história de horror nos pântanos do delta do Mississípi e consegue criar com bastante eficácia uma atmosfera opressiva e... bem... húmida. Vale o que vale, mas também gostei.

Lido: Por Toda a Eternidade

Por Toda a Eternidade (bibliografia) é um belíssimo conto curto de ficção científica hard, de Carlos Orsi, sobre um convoluto crime perfeito. Com meras três páginas (nesta edição nem chega, mas este livrinho usa um tipo de letra muito pequeno), o conto consegue misturar crime passional com ganância, com simulação e engano, com campos de forças, com uma espécie alienígena particularmente picuinhas com contratos, com buracos negros e o que neles se passa e com mais umas quantas coisas, e tudo isto sem nunca perder a coerência e o nexo lógico apesar das várias reviravoltas no enredo que chegam até à surpresa final, a qual remata o conto da melhor forma possível. Muito bom mesmo. O melhor conto do livro até agora.

Contos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - John E. O. Stevens

John E. O. Stevens está presente nesta antologia com um único conto, intitulado

The Scorn of the Peregrinator. Trata-se de uma história de fantasia, que tem um certo ar de excerto de obra maior apesar de não haver notícia de essa obra maior ter sido publicada entretanto, sobre os acontecimentos numa certa aldeia isolada quando um "Peregrinador" (uma espécie de mistura entre arauto, cobrador de impostos e agente de retrutamento) chega para transmitir aos habitantes as mudanças nas leis que estão em vigor no reino. E não é grande coisa. Está mesmo longe de ser grande coisa. Não será propriamente uma má história, porque o tratamento do texto é correto e há algumas qualidades, mesmo que escassas, na criação do ambiente, mas é uma história que só posso qualificar como desinteressante. Muito.

Lido: A Morte e a Bússola

A Morte e a Bússola é um conto intersticial de Jorge Luís Borges, protagonizado por um tal Lönnrot, detetive minspirado por Auguste Dupin, a personagem de Poe, a que Borges faz referência logo no primeiro parágrafo do conto. Este é a história de uma investigação, como em qualquer história policial. Só que aqui a investigação segue um caminho apropriadamente labiríntico, fantástico ainda que mais num sentido atmosférico do que propriamente de enredo. Para perplexidade geral, Lönnrot não se interessa pelo desvendar dos crimes mas do padrão geométrico que lhes está subjacente. E acaba desvendando-o ao mesmo tempo que de investigador se metamorfoseia em vítima, no meio de uma especulação intelectual sobre a dimensionalidade do mundo. É outro grande conto, um conto altamente intelectual, como de resto quase todos, com umas pitadas de alegoria à impermanência e uma generosa dose de crítica à noção de livre arbítrio. Acho eu.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 17 de julho de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Benjanun Sriduangkaew

Benjanun Sriduangkaew está presente nesta antologia com três contos.

Annex é uma história de ficção científica ambientada entre alienígenas, com um clima muito virado para a space opera. A história é de subversão, sobre uma conspiração para esconder e difundir ideias através de uma forma que escape à deteção das autoridades de um superestado autoritário chamado Hegemonia. Como? Através de uma canção. É uma ideia curiosa, mas não gostei da forma como foi posta em prática.

Vector é outra história de ficção científica, mas esta passa-se na Terra, numa Terra futura devastada mas não destruída (ainda) por uma guerra entre a China e os Estados Unidos, e descreve, numa prosa burilada, poética (até algo "purpúrea", há que dizê-lo), a autonomização de uma inteligência artificial. De novo, a ideia pareceu-me bem melhor que a concretização. Talvez alguém um dia consiga fazê-lo bem, mas até lá mantenho a opinião de que poetizar uma história distópica de guerra e IA em fuga é destruir o impacto tanto da história como da linguagem.

Paya-Nak é uma história de horror, e a melhor das três, pois não só o horror se presta bastante melhor do que a FC ao estilo rebuscado de Benjanun Sriduangkaew, como é uma história inspirada pelas lendas do sudoeste asiático sobre criaturas mitológicas serpentinas que vivem no e à volta do rio Mekong, o que ajuda sempre a conferir uma cor local interessante. A história é complexa. Há nela, além do elemento folclórico, que desconheço em que ponto acaba e se transforma em criação própria, fantasmagoria, maternidade, amor. É em grande medida a história de uma mulher que dá à luz um monstro... ou talvez seja a história do fantasma dessa mulher. Uma história razoável, que só não considero boa porque é daquelas histórias que se leem e depressa se esquecem (característica que partilha com as outras duas, de resto).


Lido: Irmãozinho e Irmãzinha

Irmãozinho e Irmãzinha é um conto dos Irmãos Grimm que pode servir de paradigma para o motivo de se encararem estes contos como contos dos Grimm e não simplesmente como contos tradicionais. É que, apesar de a maior parte dos autores das recolhas pré-científicas destas histórias tenham feito retoques aos textos a fim de os tornar literariamente mais palatáveis, o que faz com que esses autores de recolhas sejam também até certo ponto autores dos próprios textos, raros o fizeram tanto como os Grimm. Assumidamente. Este conto, por exemplo, é resultado da fusão de dois contos diferentes, considerados complementares, e isto vem dito na própria nota que os irmãos lhe anexaram.

Trata-se de um conto de fadas bastante típico, com a sua bruxa/madrasta má, que de tão maligna faz com que os dois irmãos do título fujam para a floresta, depois consegue com os seus bruxedos transformar o irmão num veado, mas tudo acaba em bem, como não podia deixar de ser. Um conto que seria ternurento se a bruxa má não tivesse acabado morta numa fogueira e a filha, igualmente má e ainda por cima feia, abandonada na floresta e aí devorada por animais selvagens.

Contos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Stephen Sottong

Stephen Sottong está presente nesta antologia com uma noveleta e um miniconto.

Planetary Scouts, a noveleta, é uma história de ficção científica bastante interessante, mesmo sendo o ambiente muito próximo da space opera, subgénero que não é dos que mais me agradam. Conta a história dos batedores planetários, um corpo de exploradores de planetas distantes cuja função é irem aos pares verificar in loco as condições de habitabilidade, ou não, desses planetas, avaliando o seu potencial para colonização, trabalho perigoso como poucos, visto que a galáxia está repleta de surpresas desagradáveis. Fá-lo descrevendo um punhado de missões de um desses batedores, veterano quase a terminar o contrato, desde que recebe um novo parceiro até que a parceria se desfaz quando a última missão sofre uma dessas surpresas. Uma história que apesar de não ser muito profunda é bastante boa.

Friends, o miniconto, é um continho de horror sobre a vingança dos nerds. Tem a ver com dragões devoradores de gente... ou talvez tenha a ver com outras coisas. Não o acho mau, mas não me impressionou.

Lido: A Afilhada de Santo António

A Afilhada de Santo António, mais um conto popular recolhido por Adolfo Coelho, é uma curiosa historinha que se por um lado parece ter inspiração cristã por outro é francamente estranha para ser uma história de inspiração cristã. A protagonista é uma rapariga protegida de Santo António, santo milagreiro, que o santo põe a servir em casa do rei... disfarçada de rapaz. A princípio as coisas correm bem, pois sempre que a rapariga tem alguma tarefa particularmente impossível lá lhe aparece o santo a fazar um milagre qualquer para que tudo se resolva, mas às tantas surge um problema mais sério: a rainha apaixona-se por ela e põe-se a persegui-la. Um conto cristão com lesbianismo acidental?! Eh lá! Andam avançados, estes católicos.

É curioso, este conto. Mais: é daqueles contos que dão pano para muitas mangas (e bem diferentes umas das outras). Daqueles contos de cujas três páginas se poderiam extrair histórias bem maiores.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 16 de julho de 2016

Lido: José no Inverno Policromático

José no Inverno Policromático é um texto (conto? poema?) de Luiz Bras, amargo, que tem de fantástico sobretudo uma certa atmosfera criada quase exclusivamente pela própria linguagem, não pelos significados que ela tem. E também é uma denúncia. Uma denúncia da condição de pobre que potencia todos os invernos que ser humano implica. Um grito de revolta das periferias, dos desfavorecidos, que evita tornar-se panfleto através do uso de uma linguagem cheia de imagens, oblíqua, vagamente surreal.

Um bom texto, mais um, mesmo não tenho sido dos meus favoritos.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Os Virtuosos

Os Virtuosos (bibliografia) é um conto de Telmo Marçal que de fantasia, fantástico ou ficção científica só tem o exagero. Não o exagero de cada ato ou personagem concretos que nos apresenta, porque todos eles, sem exceção, são absolutamente realistas, mas da junção de todos numa mesma teia de interconexões. Se é que existe aí algum exagero.

Os virtuosos têm todas as virtudes da teia corrupta que se estende entre as empresas privadas e uma certa forma de se estar na política. São venais, são egoístas, são assassinos, são putas, são tudo o que se possa imaginar ao olhá-los, e o conto descreve-os um a um (bem, com um texto de qualidade), enquanto vai contando uma história que só não é policial porque não existe aqui qualquer sinal de polícia. Nem nas entrelinhas.

No fundo, isto é um conto de horror. De horror social, digamos assim.

Lido: A Encruzilhada

A Encruzilhada (bibliografia) é um conto de fantasia de Ana Lúcia Merege, daquela fantasia que se ambienta num mundo secundário, o qual relata uma investigação levada a cabo por um tal Mestre das Águias (uma espécie de mago detetor de capacidades mágicas em coisas, lugares e pessoas), após terem chegado aos ouvidos das autoridades histórias sobre uma fonte milagrosa existente nas terras de um homem de personalidade francamente desagradável. É um conto competente, algo prejudicado pela sensação que deixa de ser parte de um todo maior, de não passar de um excerto, mas que consegue criar uma experiência de leitura interessante, graças em grande medida às suas personagens credíveis e bem caracterizadas (dentro das limitações de um texto desta dimensão, naturalmente) e à muito disfuncional dinâmica que a família do dono das terras apresenta. Deixa curiosidade sobre outras obras pertencentes ao mesmo universo. E elas existem: a série compreende três romances publicados nos últimos anos.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Jeremy Sim

Jeremy Sim também está presente nesta antologia com três contos.

Fleep é uma história de ficção científica ambientada numa pequena ilha, algures no arquipélago indonésio, e protagonizada por uma família que gere o único e minúsculo empreendimento turístico da ilha. Problema: quase não têm clientes. Aquilo que conseguem ganhar com as poucas pessoas que lá se alojam não dá para cobrir as despesas e por isso a empresa está a ponto de fechar. Até que aparecem os brindlefarbs, uma família inteira deles, que decidem alojar-se precisamente aí. E os brindlefarbs são uns extraterrestres bizarros, com necessidades muito peculiares, que se alimentam sugando o calor do ambiente, para quem uma estância tropical é, naturalmente, um sítio perfeito. Este é um conto sobretudo divertido, pois tal bizarria gera dificuldades muito peculiares.

Addressing the Manticore é uma história de fantasia urbana ambientada em Singapura, protagonizada por um rapaz capaz de invocar criaturas mitológicas que ninguém vê. Ou melhor: quase ninguém; aparece na sua escola uma rapariga que não só consegue ver as criaturas que ele invoca, como invocar também as suas... com a diferença de que as criaturas que ela invoca são monstruosas, sombrias, ao passo que as dele são bonitas e delicadas. Entre os dois desenvolve-se rivalidade, interesse, paixão adolescente, até que a família dela emigra e tudo acaba. É um bom conto, um conto cheio de sensibilidade sobre a inadequação e isolamento de quem é diferente na adolescência, e sobre a descoberta do amor. Além disso, está cheio de termos julgo que provenientes do inglês de Singapura, o que aumenta a cor local mas torna mais complicado compreender algumas coisas.

Skybreak é uma história fronteiriça, que pode ser encarada quer como FC, quer como fantasia, sobre uma sociedade pacífica de baixa tecnologia estruturada por forma a defender-se dos ataques dos akma, criaturas aladas que, de tempos a tempos, caem do céu para matarem e levarem pessoas. A história acompanha um desses ataques e o que faz o protagonista, cuja vocação é ser soldado mas a quem a posição na sociedade impõe que deixe o combate para o irmão... o qual, por sua vez, não tem vocação para soldado. No fundo, a história é sobre isto: a colisão entre a vocação individual e os papéis impostos pela sociedade, e no decorrer da narrativa acaba por se alcançar uma espécie de equilíbrio entre uma coisa e outra. Esta também é uma boa história, cuja relevância ultrapassa em muito o chavão escapista que costuma atirar-se contra as literaturas do imaginário.

Lido: Os Mastros do Paralém

Os Mastros do Paralém é mais um conto realista de Mia Couto ambientado em tempos coloniais ou, mais propriamente, em tempos de guerra colonial. E é um belo conto, não só pela poesia que Mia Couto sempre incute no que escreve, mas pelo feito de explicar o Moçambique do tempo (e o de hoje também, no fundo), a guerra e a luta pela independência com recurso a mera meia dúzia de personagens. O protagonista é um velho negro, que só quer viver em paz sem ser incomodado por ninguém, numa aldeia sujeita aos caprichos de um colono branco e Tavares, por onde um dia passa um mulato que se vai instalar numa gruta no topo da serra. E daí surgem as histórias e os boatos, inevitáveis, e aparecem as ausências de filhos e a gravidez de filha, seguida do nascimento de neto. Pele clara, a do neto. E lá vêm mais histórias e boatos que vão levar a uma cadeia de desenlaces que põem à prova condições e formas de olhar o mundo. Mas numa teia, num novelo, onde branco e preto, atração e violência, colono e guerrilheiro se entrelaçam tornando-se quase indistinguíveis uns dos outros. É outro conto brandamente potente, este, sem moralidades fáceis. Porque, no fundo, cada homem é uma raça.

Contos anteriores deste livro:

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Frances Silversmith

Frances Silversmith está presente nesta antologia com três contos.

Online War é um conto muito interessante de ficção científica pós-ciberpunk sobre o modo como um casal de jovens hackers, que antes da história começar só se conheciam online, leva a cabo a louca tarefa de impedir uma guerra particularmente perigosa. Além de conter uma história boa e bem contada, o que este conto tem de mais interessante, na minha opinião, é inverter o papel e a imagem tradicional do hacker, transformando-o na personificação da decência e do bom senso num mundo enlouquecido, mesmo mantendo-se marginal à sociedade como um todo e perseguido pelas autoridades. Um pouco à semelhança do que Cory Doctorow faz em Little Brother, só que aqui a parada é significativamente mais alta. Um conto realmente bom.

Finally Free é um miniconto de horror que, basicamente, descreve o suicídio de um vampiro. Interessante, mas não creio que passe disso.

Were é outro conto bastante curto, também de horror, que descreve uma noite de metamorfose de um lobis... hm... esperem, este termo é errado. Como se poderá chamar a isto, especialmente procurando preservar a surpresa final? Não é fácil: o título, were, é inglês antigo para "homem", mas faz referência clara ao termo werewolf, lobisomem. Em inglês funciona, dada a antiguidade e desuso do termo; em português não, porque lobo e homem têm existência contemporânea independente. Mas enfim, é um conto sobre uma noite de uma criatura que se transforma em noites de lua cheia. Um lobisomem, portanto, certo? Enfim... digamos apenas tem a ver com isso. E que o conto é bom.

Lido: Tema do Traidor e do Herói

Tema do Traidor e do Herói é outro conto bastante curto de Jorge Luís Borges que, no essencial, consiste num exercício de estilo intelectual, convoluto, no qual a realidade se mistura com a literatura, ou melhor, no qual a realidade literária, aquela realidade que encontramos nos livros, se mistura com a literatura literária, a literatura que encontramos na realidade que encontramos nos livros, se é que este labirinto faz algum sentido. Resumindo muito, descreve a história uma história que o autor-narrador terá congeminado sobre um conspirador num país subjugado — a Irlanda, mas poderia ser qualquer outro — que se descobre mera iteração de uma alma antiga, e sobre as interligações entre essa personagem e uma série de outras, reais ou imaginárias. Tal como as histórias anteriores, também esta merece profunda vénia pela experiência intelectual nela contida mas também aqui falta qualquer coisa para chegar ao nível de assombrosa perfeição de alguns dos contos da primeira parte do livro.

Contos anteriores deste livro: