terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Lido: Escola de Mulheres / Dom João

Ler teatro é sempre uma experiência com o seu quê de bizarro: temos as palavras, temos um punhado de indicações cénicas, mas falta-nos tudo o resto. O texto, se visto sob o ponto de vista estrito da literatura, tende a ficar algo coxo. Havendo imaginação suficiente, ou talvez seja mais adequado dizer havendo experiência suficiente de teatro e do que lhe é inerente, calculo que seja possível suprir mentalmente o que falta ao texto, mas isso não invalida que ao texto falte mesmo alguma coisa. Sempre.

Mesmo assim, as duas peças de que se constitui este livro, Escola de Mulheres e Dom João, duas comédias de costumes mais ou menos moralistas, constituíram, cada uma à sua maneira, uma surpresa para mim. Uma por ser quase um texto feminista com mais de trezentos anos, escrito por um Molière que pelos vistos estava bem à frente do seu tempo. Outra por conter algo que não esperava de todo encontrar aqui: elementos claros de fantástico.

No final da leitura, percebi por que motivo Molière é tido como o pai do teatro moderno. Mesmo sabendo eu muito pouco sobre teatro. Mesmo tendo um apreço limitado pela arte (sempre me desagradou um certo artificialismo que parece ser inerente ao teatro). O facto é que, tendo em conta a época em que foram escritas, estas peças são de se lhe tirar o chapéu. E o gosto pessoal que vá dar uma voltinha pelo quarteirão.

Eis o que achei mais desenvolvidamente sobre as duas peças:
Este livro foi rapinado à biblioteca dos meus pais (para onde voltará de seguida).

Lido: Estação Morta

De Maria Ondina Braga julgo que só tinha lido uns contos infantis, na época em que a idade era a própria, e dessas leituras ficou-me na memória sobretudo o nome da autora, portanto ler este Estação Morta foi praticamente uma estreia. Esta história, no entanto, não é uma história infantil. Trata-se de um conto adulto, uma daquelas histórias de veraneio, que se servem da muito comum técnica de arrancar as pessoas aos seus lugares e gestos rotineiros para dar o pontapé de saída em histórias que se pretendem interessantes. Neste caso, estamos perante a história de uma mulher que se aloja num hotel semivazio, algures no norte, perto da praia mas fora de época, e aí é confrontada com os mistérios do lugar e com um homem, bronco, retornado, salazarento, por quem sente um misto de repugnância e atração. Bem escrito, introspetivo, o melhor do conto são as suas subtilezas, suficientes para o arrancar a uma mediania a que a banalidade de cenários e personagens poderiam tê-lo condenado. Não que o arranquem com grande força ou de uma forma muito definitiva. Mas arrancam o suficiente para se terminar a leitura com opinião positiva.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: Caim

Já se escreveram rios de tinta, virtual e real, sobre Caim, o último romance de José Saramago, que, como sempre aconteceu quando o nosso nobel tocou a religião, gerou apreciável polémica. Para isso, teria bastado a humanização das figuras bíblicas, como se verificou com outro livro muito atacado por setores ligados à igreja católica, O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Teria bastado que reconhecesse aos homens dos mitos cristãos a soma de defeitos, virtudes, acertos e falhas que cabem a qualquer ser humano. Mas em Caim Saramago vai mais longe e deita o seu olhar implacavelmente crítico de todas as injustiças e crueldades sobre a figura divina propriamente dita... que não sai nada bem no retrato.

O enredo do romance descreve-se rapidamente. O protagonista é Caim, filho primogénito de Adão e Eva e o primeiro homicida da história tal como esta vem descrita nas mitologias abraamicas. Começa o romance em pleno Paraíso, depressa passa ao crime de Caim, que assassina o irmão, Abel, e por isso é marcado por deus (em minúscula, sempre, ao longo de todo o romance), e segue-se depois uma longa deambulação por diversos lugares e tempos, nos quais é Caim testemunha de variados episódios bíblicos.

Um detalhe relevante: nunca se chega a sair do Antigo Testamento, e o deus com que Caim contacta, e de que Saramago assim fala, é o deus colérico, vingativo, cruel e de uma forma geral desumano dessa coleção de textos bíblicos. Caim odeia-o, e a cada episódio de crueldade a que assiste mais se aprofunda esse ódio. Perante os crimes de deus, argumenta, o seu (de que, de resto, rapidamente se arrepende) é uma insignificância. Assim sendo, como pode deus arrogar-se a ter a legitimidade de o condenar ou absolver?

(Um parêntesis: se pusermos de parte por um momento que estamos a falar de deus, não seria uma ideia muito semelhante aplicável aos estados?)

Esta é a tese do livro, e é uma tese que, enquanto ateu, não partilho. Para um ateu, todos e quaisquer deuses não passam de invenções humanas, e portanto são tão cruéis como quem os criou queira. Deus não é mais culpado das qualidades e defeitos que lhe inculcam do que qualquer outra personagem de ficção. O deus do Antigo Testamento, como todos os seus pares, serviu (e continua a servir) um propósito, não tem existência autónoma nem vontades próprias. A sua crueldade fala-nos da sociedade que o criou e daquelas que o perpetuaram, não de si próprio. Esta seria, a meu ver, a abordagem realmente ateia à mitologia abraamica, mas não é a que Saramago aqui usa. Saramago, aqui, é cristão. Iconoclasta, talvez, mas cristão.

E é isto o que os que o odeiam por causa deste livro não perdoam.

Quanto ao livro propriamente dito, não é das melhores obras de Saramago. As alegorias têm sempre qualquer coisa de tese, mas esta pode estar mais ou menos bem embrulhada numa história, pode estar mais ou menos bem construída. As melhores põem a tese em segundo plano, visível mas não intrusiva. Saramago sabia disso, tanto assim que em nenhuma das suas alegorias dispensa a construção de uma história propriamente dita... mas aqui quase o faz. Talvez por estar a sentir o tempo a esgotar-se-lhe, talvez por estar já diminuído (afinal de contas, publicou o livro aos 86 anos, um ano antes de morrer), o facto é que o livro é mais uma coleção de episódios dispersos e debilmente interligados, destinados a vincar uma ideia, do que uma história propriamente dita. As deambulações de Caim, que não só é dotado de uma vida extraordinariamente longa, como salta no tempo de uma forma quase ciencioficcional, são reminiscentes das do grupo que protagoniza A Jangada de Pedra mas enquanto neste livro o motor narrativo e principal personagem é a própria Península Ibérica à deriva no Atlântico, em Caim não existe nada de semelhante que lhe forneça estrutura, e até a voz narrativa está algo distante do melhor a que Saramago habituou os seus leitores.

Por outro lado, é um livro de Saramago e isso diz muito. A qualidade literária está lá, quase intacta, o característico estilo, aquela forma tão sua de tornar o texto ao mesmo tempo simples e complexo também, o que é notável para a idade do autor. Até há algum humor e certamente há bastante amor no meio de toda a raiva. Mesmo não sendo do melhor que Saramago nos deu, Caim está muito longe de ser um mau livro.

Mais um livro comprado.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Lido: Venha ao Meu Porão

De Venha ao Meu Porão (bibliografia) é bastante fácil falar, pois este conto em que Ray Bradbury mistura a ficção científica com o horror foi lido há relativamente pouco tempo, noutra edição, e comentado aqui na Lâmpada. E nada tenho a acrescentar agora ao que escrevi há três anos: o conto que então era muito bom, muito bom continua a ser agora. Só a edição difere, o que inclui a tradução. E aí, entre as duas, prefiro claramente a de há três anos.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Ficções, nº 9

A Ficções, nº 9 talvez seja o número mais irregular, e também mais fraco, da revista Ficções que já me passou pelos olhos. Com efeito, embora seja comum e até natural que os vários contos sejam de diferentes qualidade ou adequação ao meu gosto de leitor, não é comum que o sejam tanto, tal como não é comum que se quedem tanto por uma mediania razoavelmente sensaborona.

Mas lá está, volto a dizer o que digo sempre nestas circunstâncias: em antologias e em revistas como esta basta que seja incluído um conto realmente bom para já valer a pena. O todo pode não ser grande coisa, mas basta publicar-se nele uma história de qualidade que sem ele não veria a luz do dia para que seja bom ter-se feito a edição.

O ideal seria que se pudesse sempre dizer mais do que isto em abono destas edições. Mas nem sempre é possível. E deste número na Ficções só posso dizer que é razoável mas ainda bem que foi publicado. Ah, e inclui fantástico. É sempre um bónus positivo, pela parte que me toca.

Eis o que achei dos contos que o constituem:
Esta revista foi comprada.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Lido: Um Homem de Carreira

Em Um Homem de Carreira (bibliografia), Telmo Marçal leva-nos a Marte, acompanhando um destituído da vida que para lá emigra a fim de sobreviver trabalhando como mineiro, em contratos de dois anos (marcianos, dizem as letras miudinhas). É mais um conto bastante típico das ficções do Telmo: sombrio, profundamente distópico, protagonizado por alguém cuja única ambição na vida é conseguir safar-se no salve-se-quem-puder cruel a que chama sociedade. No caso, vai-se safando emigrando, por períodos de quatro anos (terrestres), e regressando no fim de cada período para um lugar sempre pior, cada vez mais miserável e desumano, cada vez mais mar de portas fechadas. A única porta entreaberta é voltar a emigrar. Mas mesmo essa...

É mais um conto francamente bom, sim. E neste caso, para mim, tratou-se de uma releitura de um conto especial. É que nos idos tempos do E-nigma tive a ideia de publicar em papel uma ampliação da antologia O Planeta das Traseiras, idealmente com histórias mais elaboradas do que as da antologia em ebook. Abri submissões e este conto foi o primeiro conto aprovado... e o único. Não houve contos candidatos em quantidade e qualidade suficiente e o projeto morreu, adiando por alguns anos a publicação desta história, que pode ter sido escrita especialmente para ele, não sei. Felizmente, acabou por ver a luz do dia. É sempre um prazer quando isso acontece porque é demasiado comum dar-se a tristeza de boas histórias ficarem enterradas nos labirintos da edição.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Viajantes do Tempo

Clifford D. Simak é um dos escritores de ficção científica mais originais de meados do século XX, com um conjunto de obras singulares que por vezes não passam disso, de obras singulares, mas por vezes ascendem à condição de clássicos. E Viajantes do Tempo (bibliografia) é, certamente, uma obra singular.

Tudo gira em volta do "Anzol", um misto de empresa de investigação e desenvolvimento e laboratório público, num planeta Terra (ou nuns Estados Unidos, o que demasiadas vezes na FC americana é uma e a mesma coisa) resignado a nunca poder partir realmente para o Espaço. Mas felizmente foi possível encontrar uma maneira alternativa de explorar o universo, através de pessoas especiais, dotadas de capacidades paranormais amplificadas por maquinaria.

Shepherd Blaine é uma dessas pessoas. Mas um belo dia, ao explorar um planeta distante, é "infetado" por uma criatura alienígena que se aloja (parcialmente, pelo menos) no seu cérebro. E a partir desse momento passa a fugitivo.

Segue-se uma história contada mais ou menos em jeito de thriller, movida pelas peripécias da fuga de Blaine, pelas suas dificuldades em adaptar-se à sua nova natureza dual, ou pelo menos em gerir a presença alienígena em si, enquanto as pessoas do Anzol procuram apanhá-lo e pô-lo de quarentena. Mas também, e é isto o mais interessante no livro, pela lenta revelação da verdadeira natureza do Anzol (uma corporação que se serve da exploração do espaço por via extrassensorial para pôr no mercado inovações tecnológicas exclusivas), e da sua condição de corpo estranho numa sociedade que o olha, e a todos os que lá trabalham, com sentimentos que vão da desconfiança à aberta hostilidade. Hostilidade essa que se estende a todos os que revelem possuir dons.

Uma hostilidade claramente xenófoba.

O grande problema deste livro é ter um enredo bastante pobre. É a fuga de Blaine e pouco mais, mesmo havendo também umas reviravoltas que vão além disso, pois Blaine é ajudado (ou desajudado, depende) por um grupo que se opõe ao Anzol por motivos diferentes da generalidade das pessoas. Isso torna-o um pouco aborrecido, por vezes. Mas tem bastantes pontos de interesse, em especial quando pensamos que nos dias que correm uma história baseada em parte em sentimentos xenófobos que levam à perseguição intolerante do diferente tem absoluta relevância. É um bom livro. Mas será bom o suficiente para ascender a clássico?

Não, não creio que o seja.

Este livro foi comprado.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Lido: O Menino Invisível

O Menino Invisível (bibliografia) é um conto sobre a solidão. A história, à primeira vista, é de fantasia: um miúdo, porque os pais vão de viagem, vai passar uns dias com uma velha tia excêntrica mas esta, porque nesses dias ganhou gosto a ter o miúdo por perto, decide fazer com que ele fique consigo, desejavelmente para sempre, pelo menos durante mais algum tempo. E para isso convence-o de que é bruxa, capaz de fazer feitiços. E o rapaz pede-lhe para ser invisível, desejo que ela prontamente concede.

Ou pelo menos ele julga que sim.

O conto é divertido, coisa que não é muito comum em Ray Bradbury, pois boa parte dele é composto pelos problemas que a pobre velha tem com as travessuras do miúdo "invisível", às quais não pode responder como desejaria para não destruir a ilusão de que não o consegue ver. Mas no fim o conto muda de caráter, porque ela acaba derrotada e sozinha, talvez até meio enlouquecida, acompanhada apenas por um rapaz não só invisível mas só existente na sua imaginação.

É um conto de ambiente fantástico que no entanto não tem realmente fantástico na história que conta, ainda que também possa haver argumentos para manter uma certa dúvida no ar, à maneira todoroviana. Um conto sensível e humano. Não dos melhores contos de Bradbury, mas um conto bom.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Atlas das Nuvens

Tenho uma forte desconfiança, formada e reforçada por anos de leitura das coisas mais variadas, por aqueles livros de que toda a gente fala e (diz que) lê, especialmente quando a sua adaptação ao cinema é rápida e só reforça o hype. É raro agradarem-me de todo e, quando agradam, mais raro ainda é agradarem muito.

Há exceções a essa regra, claro. Assim de repente, vem-me à memória O Perfume como um exemplo de exceção, pois quando li o livro já toda a gente parecia tê-lo lido e achado maravilhoso (bem... atendendo à história "maravilhoso" talvez não seja o qualificativo mais adequado) e, ao contrário do que é hábito, também eu terminei a leitura plenamente satisfeito. Mas o hábito é outro.

Atlas das Nuvens de David Mitchell chegou-me também dessa forma, recomendadíssimo por todos e um par de botas, com atores famosos na capa armada em poster (ou vice-versa), e foi de nariz firmemente torcido que me lancei à leitura.

Trata-se de um romance em mosaicos que só não é bastante típico porque as histórias se entrelaçam em camadas, como uma espécie de grande cebola literária. São seis ao todo, todas com dimensões que, se encaradas como histórias autónomas, as situariam perto da fronteira entre a novela e o romance, e quase todas (a exceção é a história central) divididas em duas partes.

Estão interligadas por uma continuidade de personagens, que parecem funcionar como uma só personagem recorrente, talvez reencarnada, uma espécie de cometa humano (embora não tão regular), e cujas vidas se interligam de formas subtis. Alguém escreve um diário; décadas mais tarde, outro alguém (ou outra encarnação do mesmo alguém, quiçá) lê esse diário e escreve cartas que incluem menções ao diário; passam-se mais décadas, e alguém tem nas cartas um motivo de investigação. E por aí fora, de meados do século XIX ao futuro distante e depois de volta até meados do século XIX para concluir as histórias que foram ficando a meio ao longo do mergulho no futuro.

O que se segue, avisa-se desde já, contém abundância de spoilers. Não é possível falar do modo como todas estas histórias se interligam sem revelar os seus enredos e desfechos.

O livro começa (e acaba) no Pacífico, com o Diário da Travessia do Pacífico de Adam Ewing. Este, Adam Ewing, é um pacato notário de São Francisco, em viagem pela Polinésia, um homem cuja decência intrínseca vai pôr em sarilhos, devido em boa parte à sua recusa em aceitar as atrocidades cometidas contra os nativos das ilhas, mas também a doses saudáveis de curiosidade e de inocência. Esta história lê-se quase como um dos romances de aventuras em paragens exóticas, que tão comuns foram no século XIX.

É o diário que Ewing escreve durante a viagem, ou pelo menos parte dele, que o protagonista da segunda história vai encontrar (e roubar) em 1931 numa biblioteca particular. Cartas de Zedelghem, a segunda história, é uma novela epistolar que consiste em cartas enviadas por Robert Frobisher a Rufus Sixsmith, seu antigo amante. Frobisher é um músico inglês deserdado, bissexual e sem vintém que arranja trabalho como amanuense de um velho compositor belga que vive doente e recolhido na sua propriedade, a quem Frobisher ajuda a compor enquanto vai também tentando compor as suas próprias obras. As cartas contam a vida e preocupações do jovem músico e as variadas dificuldades e prazeres nas relações pessoais e profissionais com o compositor (Vyvyan Ayrs) e a sua família e terminam com uma carta de despedida, uma obra musical que ele considera prima intitulada Sexteto do Atlas das Nuvens, e o diário de Ewing. Esta história lê-se como um dos romances mundanos do período entre guerras.

A terceira história, Vidas a Meio - O Primeiro Mistério de Luisa Rey, é um thriller quase policial passado em 1975 e protagonizado por Luisa Rey, uma jornalista californiana cuja vida muda quando conhece Rufus Sixsmith. O velho inglês trabalha agora numa central nuclear na cidade ficcional de Buenas Yerbas e prepara-se para fornecer a Luisa provas de que a central não é segura quando é assassinado. A história segue depois as peripécias por que Luisa passa ao tentar descobrir a verdade, pois isso leva-a a também ser alvo de tentativas de assassinato. Mas acaba por descobrir mais do que procurava. Descobre também as cartas de Frobisher e a sua obscura peça Sexteto do Atlas das Nuvens.

Na história seguinte desaparecem as datas. A Terrível Provação de Timothy Cavendish passa-se num presente não concretizado e é protagonizada por Timothy Cavendish, inglês já bastante entradote e muito pretensioso, editor de uma vanity press, por cujas mãos passa, sem lhe causar grande entusiasmo, o manuscrito de Vidas a Meio - O Primeiro Mistério de Luisa Rey. Infelizmente, Cavendish é obrigado a lidar com gente pouco recomendável devido a certos — e temporários, evidentemente — reveses financeiros, e acaba por fugir, ajudado pelo irmão. Só que a fuga vai levar a que seja internado num lar para idosos mais ou menos taralhocos, cujos dirigentes não consegue convencer de que está ali por engano, e de onde acaba por fugir. É uma história cómica, mas ao mesmo tempo opressiva.

A quinta história, Um Orison de Sonmi ~ 451, leva-nos pela primeira vez ao futuro. Passa-se numa Coreia transformada numa distopia corporativa, num futuro posterior a um desastre de grande monta (provavelmente uma guerra) que não é identificado. Sonmi ~ 451, a protagonista, é uma mulher geneticamente alterada e fabricada para ser servidora dos "puros sangues" (pessoas não fabricadas), que acaba por tomar consciência da sua condição subalterna e por se envolver com uma conspiração revolucionária que a ajuda a ascender a todo o seu potencial. Durante a fase de estudo que essa ascenção implica, Sonmi assiste a um filme antigo intitulado A Terrível Provação de Timothy Cavendish. Mas acaba capturada e a relatar a história da sua vida a um arquivista. É esse relato, gravado num instrumento de registo futurista chamado "orison", que constitui esta história.

Por fim, a história central (a única que é contínua, não dividida em duas partes), Sloosha's Crossin' e Tudo o Que Aconteceu Depois, passa-se no Havai, num futuro ainda mais longínquo e ainda mais distópico, em que a civilização se desfez em barbárie em quase todo o planeta com a exceção de um povo tecnologicamente avançado, identificado como "prescientes". Uma mulher desse povo visita a Ilha Grande do Havai, movida aparentemente por um interesse sociológico, onde contacta uma das várias tribos locais, que adora uma deusa chamada Sonmi. Desperta curiosidade e desconfiança nos membros da tribo, que veem a sua tecnologia como magia e por isso a temem (um dos exemplos dessa tecnologia, diga-se, é um dispositivo holográfico e de comunicação chamado — isso mesmo — orison), e vê-se mergulhada em peripécias perigosas, em parte por isso, em parte porque outra tribo da ilha, mais agressiva, mais bárbara, se lança à conquista, espalhando a morte e a destruição por toda a parte. Esta história é contada pelo filho de um dos membros da tribo visitada pela mulher, que só sobreviveu porque os dois se fizeram ao mar e navegaram até outra das ilhas do arquipélago, e conta-a como uma espécie de lenda, coisas contadas pelo pai, coisas em que ninguém acreditava.

Fim de spoilers.

Este livro conquistou-me por completo. Não só pelas histórias em si mesmas, todas elas complexas e interessantes, nem mesmo pela forma como se interligam, pela estrutura em camadas ao jeito de cebola literária de 600 páginas, mas sobretudo pela forma soberba como Mitchell soube adaptar o seu estilo às exigências de cada história. É quase como se cada uma das partes fosse escrita por um escritor diferente, do bárbaro praticamente analfabeto da história central, ao literato petulante e presunçoso que passa pela sua terrível provação, da ação direta em volta de Luisa Rey aos pensamentos contemplativos de um burguês oiticentista em viagem, chocado pelas crueldades humanas, da precisão quase robótica de uma mulher artificial coreana aos arroubos românticos de um jovem músico inglês.

E pela forma igualmente soberba como Mitchell consegue fazer ao mesmo tempo uma série de homenagens a vários géneros literários. Sendo o livro de ficção científica, porque é a ficção científica que estrutura o mosaico literário que o constitui, encontramos aqui uma série de piscadelas de olho a outros géneros, do policial ao mainstream, à comédia de costumes, à história de aventuras.

Este livro é grande literatura. Grande literatura de ficção científica. De se lhe tirar o chapéu.

Foi uma bela compra.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Lido: Palha, Carvão e Feijão

Embora alguns dos contos dos Irmãos Grimm sejam bastante elaborados, Palha, Carvão e Feijão está bem longe disso, não passando de um sumário continho de pouco mais de uma página sobre as desventuras de uma palha, um carvão e um feijão (obviamente) que se salvam quase milagrosamente da cozinha de uma velha e decidem partir juntos pelo mundo. E digamos que não vão longe.

O mais interessante nesta história, mais do que a antropomorfização típica das fábulas, talvez seja o seu caráter de lenda de origem, pois se explica através dele uma certa característica dos grãos de feijão. Mas o interesse é escasso, no que toca à história em si. Mais interessantes, ou pelo menos mais curiosas, são as ligações com histórias das mais variadas origens que os Grimm estabelecem na nota que acompanha o conto, que levam a supor que estamos perante uma variante teutónica de uma história antiquíssima e proveniente de paragens longínquas.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Lido: Saudações, e Adeus

Saudações, e Adeus (bibliografia) é um conto fantástico de Ray Bradbury sobre um homem de quarenta e três anos que não envelhece, mantendo-se inalteravelmente amarrado a um corpo pré-pubescente. Para escapar à curiosidade dos outros, e a coisas piores, vive uma vida nómada, disfarçado da criança que é, não sendo, saltando de família em família e de cidade em cidade e ficando junto de cada uma até começar a notar-se que o tempo não passa por ele.

É mais um bom conto, com uma pegada muito próxima do realismo mágico (embora este movimento tenha surgido mais tarde e noutras paragens), mas que por outro lado mantém alguns dos temas típicos de Bradbury: a cidadezinha americana como ambiente, e a infância, ou neste caso a pré-adolescência, como momento. Mas é também uma exploração, pouco importa se consciente ou não, da dificuldade inerente a ser-se diferente numa região em que o conformismo é um valor social forte e a xenofobia violenta nunca anda por longe.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Colhereiro

O Colhereiro é um conto tradicional português que parece não ter sido recolhido por Adolfo Coelho em Coimbra, como vem indicado neste livro, mas nalguma versão das Mil e Uma Noites. E se calhar até é daí que ele vem — As Mil e Uma Noites são uma das lacunas centrais na minha cultura geral literária, que terá de ser colmatada um destes dias.

O colhereiro do título, que não é a ave do mesmo nome mas fabricante de colheres de madeira, é um homem humilde com três filhas que tem a desdita de ser curioso e de essa curiosidade o levar a tomar contacto com um mouro encantado. Um mouro encantado com palácio e exigências e castigos cruéis a quem se deixar vencer pela curiosidade. Acontece que, pelas reviravoltas típicas destas histórias, as filhas do colhereiro vão sendo sucessivamente acolhidas no palácio do mouro e, sendo filhas de quem são, e porque quem aos seus sai não degenera, são umas criaturinhas curiosas. A mais nova, contudo, além de curiosa é inteligente, e daí vem o desfecho da história.

Este é dos contos mais bem amarrados que esta coletânea apresentou até aqui, com princípio, meio e fim bastante sólidos. Uma história com moral clara mas também algo ambígua: a curiosidade matou o gato... mas se tiveres uma boa cabeça em cima dos ombros és capaz de te conseguires desenrascar. Sherazade não o diria melhor, suponho.

Um bom conto.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Pedestre

Sabem como é quando lemos a obra Xis do autor Ipsilon, de que gostamos imenso, e depois vamos ler textos anteriores do mesmo autor e neles encontramos como que sinais percursores dessa obra? Quem lê A Guerra dos Tronos, de Martin, e depois vai ler os seus contos anteriores certamente conhece a sensação. E quem lê este O Pedestre (bibliografia) depois de ler uma das mais marcantes obras de Ray Bradbury, e na verdade de toda a ficção científica, Farenheit 451, também a deverá reconhecer.

Não é nada demasiado óbvio. Aqui não temos nem bombeiros incendiários nem uma resistência organizada. Mas os sinais estão todos lá. Estamos em 2053 e um homem anda a pé, à noite, por uma cidade vazia. Porquê? Porque é um escritor (é o quê?, perguntaria quem com ele se encontrasse, se alguém com ele se encontrasse, sem reconhecer a palavra) e andar à noite dá-lhe prazer. E porque ninguém mais o faz, entretidos que estão todos em casa com os seus écrans.

Portanto estamos na presença de um desviante, o único homem não alienado no meio de um mundo ambiguamente utópico, cuja população está demasiado entretida para fazer seja o que for. E claro que acaba por ter problemas com a polícia — com o único carro de polícia que resta na cidade inteira —, pois numa sociedade perfeita tendências atávicas como andar em pé, sozinho, à noite, são perigosas. Ainda mais se enquanto o faz deixa a imaginação correr solta. Trata-se, claramente, de um elemento perturbador.

Soa-vos familiar, leitores do F451? Soa, não soa?

Mas não se entusiasmem demasiado. O conto, embora bom, está longe de causar o impacto do romance, está muito longe de ser tão bom como ele. É apenas uma primeira exploração de algumas das suas ideias. Uma primeira tentativa, que tem com o romance uma ligação temática mas não de enredo. Não temos aqui propriamente uma prequela; temos um conjunto de ideias idênticas exploradas de forma diferente. Mas interessante, francamente interessante.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 20 de novembro de 2016

Lido: Cabeças Cortadas

Há histórias que exigem a leitura prévia de outras histórias para o seu pleno desfrute. É o que acontece com Cabeças Cortadas, uma vinheta de Luiz Bras que homenageia o romance Macunaíma, de Mário de Andrade. Tendo ouvido falar deste último livro, localizei facilmente a referência, mas, não o tendo lido, não posso avaliar em que grau, ou até de que modo, o conto de Bras lhe presta homenagem.

Assim coxo, só posso dizer que apesar da coxeadura achei a vinheta bastante interessante. Macunaíma, o herói, causa a inveja do pajé da tribo, que por isso lhe corta uma perna, que ele substitui por uma outra perna, biónica. Não satisfeito, o pajé continua a cortar-lhe bocados, depressa substituídos por equivalentes biónicos, e do desfecho da história não falarei porque não me apetece.

É uma espécie de mistura entre conto tradicional, com a sua estrutura simples e repetitiva, e ficção científica, com as suas soluções tecnológicas para os problemas criados pela narrativa. Uma fantasia científica bem apanhada.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 19 de novembro de 2016

Lido: Um Erro do Sol

Um Erro do Sol (bibliografia), noveleta de horror de David Soares, leva os leitores a uma ilhota ficcional na Islândia onde, como os protagonistas da história — uma família em férias, cujo pai é presidente de uma empresa dinamarquesa concorrente da Lego — descobrem, são produzidos uns bonecos francamente estranhos. Feitos de plástico, aparentemente, os brinquedos têm a peculiaridade de se moverem autonomamente quando contactam com alguém. Mas quando o olho para o negócio do pai de família o leva a partir um, para ver como é feito, descobre com surpresa que o sistema mecânico que esperava encontrar não existe e o boneco é uma peça única. Espanto: como se move isto?

Segue-se a decisão de ir visitar a tal ilhota e uma aventura por um território misterioso, habitado por um povo conhecido como "os Esquivos," onde o terror acontece.

Quer dizer...

OK, o conto está razoavelmente bem concebido e bem escrito, percebe-se que procura causar algum impacto mais ou menos terrorífico no leitor, mas, nisso, falha por completo. Ou por outra, talvez não falhe com alguém, talvez haja alguém, algures, que se assuste ao lê-lo, mas comigo certamente falhou. Pelo menos este leitor que aqui escreve não sentiu a mais pequena inquietação, nem um vestígio de susto, nem o mais leve incómodo, nada.

É um conto entre o razoável e o bom. Um conto bonzinho.

Conto anterior deste livro:

Lido: Fuga no Tempo

Poucas coisas há mais adequadas para histórias nostálgicas de um tempo idealizado do que as viagens no tempo. Fuga no Tempo (bibliografia), conto curto de Ray Bradbury, é uma dessas histórias, regressando a vários temas recorrentes na sua obra: a cidadezinha quintessencialmente americana, a nostalgia da infância, o apelo ao deslumbramento e o elogio do folclore relacionado com as histórias de horror e o Halloween, em oposição a uma atitude mais racional perante a vida e o mundo, um passado feito de doçura por oposição a um futuro frio e deprimente, por aí fora.

Aqui vamos encontrar um futuro desprovido de toda a poesia do passado mas possuidor de tecnologias avançadas como a da máquina do tempo. De facto, estas máquinas não só existem como são banais o suficiente para serem até usadas na escola para visitas de estudo. E é precisamente o que aqui temos, uma visita de estudo ao ano longínquo de 1928, ano em que, não por coincidência, Bradbury tinha 8 anos, mais ou menos a idade dos seus protagonistas. Uma visita de estudo em que os miúdos deparam primeiro com um circo — outra aparição frequente nos contos de Bradbury —, depois com os fogos de artifício do 4 de Julho e por fim com as brincadeiras macabras do Dia das Bruxas, ficando tão fascinados com tudo que fogem do professor e da máquina do tempo, preferindo ficar no passado longínquo a voltar para casa.

A história, como é costume, está muito bem escrita. Também está bastante bem elaborada, embora depressa se torne previsível para quem já conhecer razoavelmente bem Bradbury. E é este o seu principal ponto fraco: quem depressa percebe o que vai aqui encontrar não só perde parte do interesse na leitura como também percebe depressa que o autor tem outras histórias bastante melhores sobre os mesmos temas. É o lado mau de se ter escrito obras primas: o que é meramente razoável, ou até bom, acaba por parecer insuficiente.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Viagem de Inverno

Ao ler A Viagem de Inverno, conto do francês George Perec publicado originalmente em 1980, senti-me a caminhar por territórios não apenas conhecidos mas percorridos há muito pouco tempo. Não que já o tivesse lido, entenda-se. Mas este conto é de tal forma borgesiano, e eu tenho o Ficções de Borges tão fresco na memória, que foi quase como regressar a um lugar onde tinha estado não muito antes.

Trata-se de um conto pseudofactual centrado em questões literárias, cujo protagonista, Vincent Degraël, professor de literatura, descobre por acaso um livro de um autor que até aí desconhecia e que lhe vai alterar a vida. É que, ao lê-lo, descobre citações textuais de autores que conhece bem. E depois de um estudo mais detalhado conclui que todo o livro é composto por citações de nomes maiores, ou não tanto, das literaturas francófonas. Pastiche genial, conclui. Mas quando vai aprofundar a investigação sobre autor e obra, descobre, assombrado, que esta tinha sido publicada antes de qualquer das obras que inicialmente suposera terem sido copiadas. Depois vem a II Guerra Mundial e estraga tudo.

Fantástico borgesiano puro, como se percebe. E eu, que não gosto particularmente de histórias pseudofactuais e geralmente acho os escritores que Borges influenciou bem piores do que o original, até gostei bastante desta história. Ponto para Perec.

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domingo, 13 de novembro de 2016

Lido: Eu Sou um Carrasco

Eu Sou um Carrasco (bibliografia) é um conto curto de Telmo Marçal que, ao contrário da vasta maioria das suas histórias, tem com a ficção científica uma relação algo distante, composta integralmente pela distopia política típica nele. A história em si é a de um depoimento, de uma confissão, a de um verdugo com gosto na sua profissão. Podia facilmente ser um torturador da PIDE ou de qualquer outra das muitas máquinas de arrancar confissões (falsas ou verdadeiras, pouco importa) que foram montadas ao longo da vasta história da crueldade humana, desde os sistemas de poder mais distantes no tempo a Abu Ghraib e ao mais que adiante se saberá. O local não está identificado, a época também não, com o objetivo, claro, de tornar a história universal. E esta, como ficou dito acima, é a de um verdugo com gosto na sua profissão, a do seu trabalho num prisioneiro especial, a do que acontece por causa desse trabalho. Não vos direi o que é — não creio que valha a pena — digo só que mais do que uma personagem desta história vai aprender que no reino da arbitrariedade que acompanha sempre sistemas de poder absolutos a segurança é sempre muito relativa.

Que fique como lição a quem gosta de votar em fascistas.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 12 de novembro de 2016

Lido: Planeta Incorruptível

Planeta Incorruptível (bibliografia) é também, à semelhança do de Bradbury de que falo aqui por baixo, um conto de fundo cristão e com base, pelo menos em parte, na ficção científica. Mas as semelhanças acabam aí. Ao contrário de Bradbury, que tem na poesia da prosa e na filosofia do texto os seus principais pontos de apoio, Richard Diegues, o autor desta história, inspira-se muito mais nos thrillers de fundo religioso que tão populares têm sido ao longo das últimas duas décadas, e nas histórias sobre o arrebatamento cristão. Uma inspiração muito mais desinteressante, convenhamos.

A história que conta parte de uma invasão alienígena cujo objetivo é exterminar a humanidade a fim de se apropriar da Terra e dos seus recursos. Uma invasão alienígena bem sucedida, sublinhe-se, que só tem um verdadeiro percalço quando é descoberto em Nevers, França, o corpo incorrupto de Santa Bernardete. Para os menos versados na mitologia católica (como eu; tive de me ir informar), Bernadette Soubirous foi a responsável pelas aparições marianas de Lourdes e o seu corpo ter-se-á mumificado, o que levou à lenda de incorruptibilidade que lhe é atribuída. Ora, Diegues explica essa lenda com a permanência da alma no corpo (os ETs têm uns aparelhómetros que detetam a presença das almas), e isso vai ser muito, muito mau para os mauzões dos invasores.

Não é grande coisa, este conto. O texto é competente mas disso não passa, e a estrutura perde por uma incompreensão fundamental do que é a base de um thriller: a criação de uma ligação emocional entre o leitor e as personagens, que aqui pura e simplesmente não existe. Ainda por cima, há a velha pecha das ficções cristãs: tornar-se muito depressa óbvio que, por mais voltas que se dê ao texto, no fim deus resolve. Talvez resolva à sua maneira, mas acaba por resolver. E isso, como se sabe, torna todas as reviravoltas bem menos apelativas do que se o final estivesse realmente em suspenso.

Em suma: um conto dispensável.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Homem

O Homem (bibliografia) é um conto de ficção científica de Ray Bradbury que, não se passando em Marte, tem muito a ver com os seus contos marcianos, em especial alguns dos coligidos nas Crónicas Marcianas. Num planeta distante identificado sumariamente como o "planeta quarenta e três do Terceiro Sistema Estrelar", aterra uma nave vinda da Terra e é recebida não com as fanfarras e festejos que seriam de esperar mas com a mais absoluta indiferença. Porquê? Entre reflexões filosóficas sobre a pulsão humana para a exploração, que Bradbury encara sistematicamente (em especial na fase de que data esta história, o pós-guerra, os anos 40-50) como uma espécie de profanação de uma pureza ancestral, vamos encontrar a religião.

É que o planeta acabou de ser visitado pelo Messias.

Segue-se uma história em boa parte movida a diálogos, que põe em confronto a crença e a descrença, o materialismo e o espiritualismo, a aceitação passiva e a fúria da ação. É claríssmo o lado que Bradbury prefere, a ideologia que defende. Sim, leram bem, ideologia. É disso que se trata.

Por mais que eu esteja distante desta mundovisão que aqui Bradbury apresenta, por mais negativos que me pareçam vários dos seus aspetos, por mais que alguns pormenores do enredo me pareçam desajustados se olharmos o conto à luz da ficção científica e não da mera alegoria, não posso deixar de reconhecer que este é um bom conto, muito bem construído e bastante bem escrito. É Bradbury do início da sua melhor fase, a fase em que se inventava, antes de começar a remoer-se.

Este é um caso exemplar de uma verdade demasiadas vezes esquecida: não é preciso gostar-se das ideias que a literatura apresenta para se gostar da literatura, mesmo sendo bem mais satisfatório, reconheça-se, quando se gosta de ambas.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Serpente Branca

A Serpente Branca é um conto dos Irmãos Grimm sobre um criado que, tomado pela curiosidade, prova um prato secreto do rei, uma serpente branca, ganhando assim a capacidade de compreender a língua dos animais e compreendendo de súbito como estava o rei sempre tão bem informado sobre tudo. A partir daí, o enredo segue caminhos típicos dos contos de fadas, acabando o criado, depois de várias peripécias e perigosas provações, nas quais faz amplo e bondoso uso da capacidade ganha ao comer a serpente, por conquistar (magicamente, claro está) o coração da princesa e casar-se com ela.

Não é dos contos mais interessantes dos Grimm, o que é pena porque a ideia base dá pano para mangas. De facto, já deu pano para muitas mangas, incluindo comédias cinematográficas de grande sucesso. Mas não conheço (o que não quer dizer que não exista, claro) nenhuma obra que tenha pegado no seu potencial político, e isso foi o que achei mais interessante e mais mal explorado no próprio conto.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Lido: Academia de Vampiros

Academia de Vampiros (bibliografia), de Richelle Mead, é um romance de fantasia urbana sobre as lutas e rivalidades que vão tendo lugar numa espécie de liceu vampiresco e razoavelmente clandestino, a Academia de São Vladimir, situado algures nos EUA. E basta esta brevíssima descrição para se perceber que se trata de um romance juvenil, coisa que o autocolante que na capa faz referência a Stephenie Meyer sublinha, e quer a ambiência, quer a própria história, fazem claramente lembrar obras audiovisuais como os "filmes de escola secundária" que Hollywood produz com regularidade ou séries como Buffy the Vampire Slayer.

Ou, dito de outra forma, eu não faço parte do público alvo.

Apesar disso, até achei o livro razoavelmente interessante. Claro, não é nenhuma obra-prima. Trata-se de um livro comercial, que vale mais pelo valor de entretenimento do que por qualquer outro. Não é nem particularmente original nem uma grande obra de literatura. Mas está escrito de forma eficaz, com uma prosa bem ritmada e escorreita, e a história, sem ser muito complexa, está bem concebida, o que é precisamente o que se pretende num livro deste género. Leitura rápida. Leitura que prenda o interesse do leitor com um mistério, a sustenha com peripécias em torno desse mistério, e remate de forma satisfatória.

A protagonista/narradora, Rose, é uma dampira, portanto membro de uma raça de criaturas híbridas, fruto da união entre um vampiro e um humano, que, na sociedade descrita por Mead, são educadas, treinadas e usadas como protetoras dos vampiros verdadeiros. A sua melhor amiga e protegida (ou mais que protegida, visto que com ela partilha um vínculo telepático), Lissa, que a acompanha no protagonismo nesta história, é não só uma verdadeira vampira, mas uma princesa, a última descendente de um poderoso clã vampírico de origem russa. Atormentada pelo assassínio da família, Lissa rebelou-se e fugiu para o mundo dos humanos, levando Rose consigo, e a história começa quando as duas são apanhadas e levadas de volta.

O que se segue é uma história de escola secundária sob o efeito de esteroides porque ao drama juvenil típico, com as suas rivalidades, as suas paixões, os seus disparates adolescentes, as suas crueldades e as suas atrações sexuais, se soma uma violenta e mortífera subtrama de rivalidades políticas entre os ramos rivais da realeza dos vampiros. Há pancada, há perigo, há sacanice e gentileza, há manipulação, há um pouco de muita coisa, mas há sobretudo adolescência. Tudo muito americano, por um lado, mas por outro também bastante eslavo, pois Mead parece querer fazer uma homenagem à geografia de origem da maioria das lendas que deram origem ao subgénero dos vampiros e enche o seu livro com ligações ao Leste da Europa.

Ou seja, julgo que este é um livro mais que razoável para quem fizer parte do público alvo porque faz com competência aquilo que se propõe fazer. Mas eu não faço parte desse público. Já passei a adolescência há umas décadas, já tenho pouca paciência para toda a banalidade dos dramas juvenis. Fazem parte da vida, sim, mas a vida tende a deixá-los para trás. E nem a camada vampírica que lhes é posta por cima me interessa lá muito. Portanto, tendo achado o livro mais que razoável, a roçar o bom, não gostei lá muito dele. É a vida.

Este livro foi-me enviado pela editora.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lido: Hora Zero

Hora Zero (bibliografia), por contraste com o conto anterior deste livro, é um dos contos realmente bons de Ray Bradbury, fundindo na perfeição a ficção científica com o horror. É daquelas histórias das quais depressa se torna difícil falar sem fazer revelações sobre o enredo que podem estragar a experiência de leitura a quem é mais sensíveis a essas coisas, portanto fica o aviso de que daqui em diante este texto tem spoilers. Se não querem apanhar com coisas dessas, parem de ler agora!

Aos resistentes, explico: trata-se de uma história de invasão alienígena, mas não de uma invasão alienígena qualquer. É uma invasão de uns alienígenas particularmente inteligentes e conhecedores da psicologia humana, pois se servem da tendência muito adulta de menosprezar as imaginativas histórias das nossas lindas crias, e da pulsão que estas últimas têm para a brincadeira, o segredo conspirativo e as construções, para as levar a criar portais por onde as hordas invasoras pudessem chegar para tomar conta do nosso planeta.

A grande mestria de Bradbury neste conto é colocar-nos a meio caminho entre os miúdos, que funcionam sem saber (ou sabendo e não se importando porque é divertido) como uma quinta coluna dos invasores e detêm toda a informação, e os pais, alheios a tudo, que encaram como fantasias os bocadinhos de informação que os miúdos vão deixando cair aqui e ali, informando-nos a nós, que estamos no meio, e, ao contrário dos pais, acreditamos neles, daquilo que está a acontecer.

Aquilo que faz com que uma história funcione mesmo bem pode ser uma miríade de coisas. Nesta, como em alguns dos outros contos de Bradbury (e estou a lembrar-me do conto Virão Chuvas Suaves como outro exemplo), é o ponto de vista.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Carneirinho Branco

O Carneirinho Branco é mais uma das historinhas populares recolhidas por Adolfo Coelho. Trata-se de uma fábula um bom bocado desconexa, que parece ser resultado ou da amputação de uma história maior, ou da amálgama de elementos díspares provenientes de histórias diferentes. A hipótese que me parece mais provável é a primeira.

Além disso, também tem clara influência católica, mesmo que possa ser influência secundária, acrescentada a uma história mais antiga para a tornar mais palatável à religiosidade dominante.

O carneirinho branco do título é fruto de um milagre, tendo sido dado à luz por uma rainha que não conseguia ter filhos e rezou muito por eles, e a história conta as suas várias tentativas para arranjar noiva — princesa, evidentemente — e assim se metamorfosear no belo príncipe do costume. O que acaba por conseguir, e vivem muito felizes para sempre. E tudo isto em três páginas.

Não é das histórias mais interessantes que aqui se encontram, longe disso. É demasiado banal.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 5 de novembro de 2016

Lido: Pilar de Fogo

Pilar de Fogo (bibliografia) é uma noveleta de Ray Bradbury que mescla o horror e a ficção científica. Ambientada no futuro, mais propriamente no ano de 2349, a história tem como protagonista um homem nascido em 1898... e falecido em 1933. Um morto, portanto. Mas um morto de que repente dá por si vivo, ou pelo menos animado, numa sociedade utópica (ou distópica?) do futuro longínquo que desconhece a morte e os rituais que a acompanham no nosso tempo, ou pelo menos no tempo da nostalgia de Bradbury, uma sociedade desprovida de cemitérios, na qual o fim de vida se faz em crematórios.

Quem conhece a obra deste autor americano depressa reconhece nesta história vários dos seus temas mais típicos. O outono como época de morte e renascimento, perfeitamente exemplificado pela celebração do Halloween e tudo o que esta tem de macabro. A desconfiança perante a tecnologia, que por vezes roça a tecnofobia, e perante a racionalidade, postas em confronto, de forma desfavorável, com a magia de tudo o que é irracional, fonte da poesia. O americanismo quase quintessencial. A homenagem a escritores que Bradbury admira.

Nesta história, o morto-vivo chega carregado de ódio ao admirável mundo do futuro, não o compreende e não é por ele compreendido. E mata. Mata, e em série, e cada vez mais, mas não é por Bradbury apresentado como mau; é apenas alguém apanhado numa situação impossível, alguém que procura recuperar a pureza e a poesia do passado da única forma que consegue imaginar.

É uma história estranha, esta. De novo não é das melhores histórias de Bradbury, arrastando-se em demasia em vários trechos, e trazendo ideias que serão provavelmente vistas por muita gente como francamente bizarras, pelo menos até se saber em que ano foi escrita: 1946. Um ano após o fim da II Guerra Mundial, quando era máximo o impacto do Holocausto, com a sua morte industrializada e tecnológica, os seus crematórios, o seu friso de horrores. Este número explica muita coisa, torna a história muito mais compreensível. Mas não creio que chegue para torná-la realmente boa. É razoável, apenas isso.

Conto anterior deste livro: