Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Transignorâncias (2): E o mais importante é?...
Para alguns, é simples: o mais importante na literatura é, sem sinal de sombra de dúvida, o tratamento dado à língua. Tendem a ser fãs de escritores como o Lobo Antunes, a quem elogiam profusamente a pureza da frase ou a qualidade poética das imagens, e parte deles tende também a desprezar com grande empenho toda a literatura (frequentemente esmagada sob o peso de epítetos vários, entre os quais o de subliteratura não será o mais violento) que se preocupa mais com outros aspetos da arte de narrar através de palavras do que propriamente com o encadeamento que estas tomam nas frases.
Mas estes são só um bando no grande aviário dos literatos. Existem também os que se preocupam primordialmente com a história; existem os que têm na mensagem o seu principal foco de interesse; existem aqueles que se deliciam acima de tudo com as personagens, outros ficam de beicinho com a construção de mundos que subjaz às histórias, outros com a imaginação de que o autor dá mostras, outros com a falta dela (sim, há quem prefira a falta de imaginação à imaginação, a adesão às fórmulas à inovação), e etc., e etc., e variadíssimos eteceteras.
Tudo isto estaria muito bem, muito certo, muito correto, muito
ainda bem que assim é, se cada um destes bandos não possuísse em si uma fação mais ou menos talibânica e frequentemente muito ruidosa, que reivindica para a
sua forma de olhar a literatura a
VERDADE, assim mesmo, em maiúsculas e negrito, ao mesmo tempo que lança
fatwas contra todas as outras heresias… digo… literaturas.
E depois, claro, seguem-se as guerras santas.
Pessoalmente, enquanto fã de longa data de ficção científica, sou um passaroco que tende a esvoaçar por perto dos bandos da história e da construção de mundos. Ou, dito de um modo mais genérico, sinto-me mais à vontade no superbando do conteúdo do que no da forma. É por isso que só com dificuldade trago Lobo Antunes, mesmo reconhecendo e dando valor à qualidade formal daquilo que produz. É porque o conteúdo dele não me interessa, porque não desenvolve, porque rumina e rerrumina sem sair do mesmo sítio do princípio ao fim dos seus livros. É por isso que detestei os contos que Isabel Cristina Pires incluiu n’
A Casa em Espiral. Porque, independentemente de estarem bem escritas ou deixarem de o estar, achei aquelas histórias absolutamente vácuas. Lê-las foi, para mim, pura perda de tempo. E podia dar dezenas de outros exemplos de coisas
formalmente boas, ou até muito boas, que não despertam em mim a mais pequena vontade de aplaudir.
Mas estou muito longe de encarar esta preferência como a
VERDADE.
Já foi tempo. Entretanto cresci.
Isto voltou a ficar claro esta semana, ao ler o conto de Asimov de que falo uns posts mais abaixo. É um conto que, como disse na opinião sobre ele, corporiza uma abordagem específica à ficção científica. Não se limita a ser cem porcento conteúdo, preocupando-se pouco ou nada com a forma, mas recorre a um tipo específico de conteúdo, a ideia, como força motriz quase exclusiva. Foram contos deste género que levaram alguns a chamar à FC a “literatura das ideias” (expressão que me parece muito disparatada, mas isso ficará para outra altura). E eu, sempre que leio um conto destes, penso com os meus botões: “Daquilo que acabei de ler, que resta quando a ideia se esgotar?”
É que as ideias se esgotam. Esgotam-se quando são tantas vezes usadas que se transformam em clichés. Esgotam-se quando a evolução da ciência, da tecnologia, de qualquer ramo do pensamento humano, as torna obsoletas, coisas do passado. Esgotam-se, em suma, quando deixam de ser válidas. E isso é algo que, temo bem, acaba por acontecer a todas. Nenhuma ideia dura para sempre. Chega um dia em que se descobre que morreu. E que as histórias-ideia baseadas nela morreram com ela.
A não ser que tenham em si alguma coisa além da ideia.
Por exemplo, consideremos outro conto de ficção científica escrito mais ou menos na mesma época, por outro monstro sagrado, o Clarke.
A Estrela. Trata este, caso não o conheçam, de um padre cristão que regressa de uma viagem interestelar ao sistema de uma estrela que teria explodido como supernova por volta do ano zero da nossa era, tornando-se assim a Estrela de Belém. O conto tem a ideia, brilhante, e ainda aditivada por aquilo que a expedição descobre a orbitar essa estrela (não vou dizer o que é; leiam o conto, que vale bem a pena). Mas além disso está bem escrito, com uma qualidade de prosa bastante superior à do Asimov. E para além
disso, tem um protagonista que, no contexto de um conto, com as limitações inerentes ao formato e à dimensão, está muito bem construído enquanto personagem. É um conto que, posso apostar já aqui, perdurará durante muito mais tempo do que o de Asimov.
Ou consideremos outro ainda, também da mesma época, escrito por mais um dos monstros sagrados da FC, o Bradbury.
Virão Chuvas Suaves. É um conto, para os infelizes que não o conhecem, que leva quem o lê por uma viagem pelos automatismos em falha de uma casa automática e que termina com uma das imagens mais terrivelmente belas que a ficção científica alguma vez produziu, esclarecendo o porquê dos automatismos da casa estarem em falha. A ideia, apesar de ótima, talvez não seja tão arrebatadora como as dos outros dois. Mas este conto é eterno. Porque lê-lo é como dançar uma valsa, tal é o ritmo que ele tem. Porque está muito, muito, muito bem escrito. Porque nos fala de um momento da história da nossa civilização, um momento em que havia um medo muito real de que algo como aquilo poderia de facto vir a acontecer, e remete para um outro momento em que algo como aquilo realmente aconteceu, apesar de então ainda não existirem casas automáticas. Dos três, será sem qualquer dúvida este a perdurar por mais tempo. É o mais completo enquanto objeto literário. Além de conteúdo tem também forma. Ambos ótimos.
O que eu quero dizer com isto é que quando os escritores se limitam a explorar uma única faceta da sua arte até podem explorá-la muito bem, até podem ganhar assim o seu público, mas só muito dificilmente chegarão à verdadeira grandeza. Para o fazerem só com a ideia, esta tem de ser absolutamente extraordinária. Se a ideia não for assim tão extraordinária, terão de lhe acrescentar qualquer coisa, personagens, mensagem,
worldbuilding, tratamento da linguagem, seja o que for. E se o que acrescentarem também não for assim tão extraordinário, terão de lhe acrescentar mais uma demão, e assim sucessivamente.
Sublinho, porque julgo ser necessário, que aqui os termos são quase inteiramente intermutáveis. Não importa qual das facetas se usa como exemplo, pois todas elas poderiam servir. Comecei pela ideia como poderia ter começado pelas personagens ou por qualquer outro dos eteceteras com que abri este texto. E só está ali o
quase, as facetas só não são mesmo inteiramente intermutáveis, porque julgo haver algumas mais fundamentais do que outras, isto é, algumas cuja ausência, ou cuja presença abaixo de uma quantidade mínima, é capaz de estragar até as mais talentosas explorações das demais. Para mim, sem uma competência mínima no manejo da língua em que se escreve, por exemplo, nada resulta. Sem um mínimo de conteúdo, tudo é perda de tempo. E eis a resposta à pergunta que intitula este texto. O mais importante é o que é imprescindível, aquilo que, quando está ausente, faz com que o edifício desmorone. Para mim, essas coisas são a competência no uso da língua e o conteúdo. Sem isso presente, pelo menos até certo ponto, nada feito. Sem isso presente, nem vale a pena começar.
Para o leitor que sou, são essas as fundações da literatura que me interessa. Havendo esse mínimo de competência no uso da língua e esse mínimo de conteúdo pode-se então começar a adicionar outras coisas, a tornar o edifício cada vez mais alto e complexo. Personagens, mais competência no uso da língua, enredo, umas ideias espalhadas aqui e ali, mais competência no uso da língua, coisas mais imponderáveis, mais fantasmagóricas, mais subjetivas, como o sentido de maravilha, ritmo, descrições, mais competência no uso da língua, cenário e assim por diante. Por outras palavras, pode-se ir acrescentando qualidade global através de sucessivos incrementos em todas estas qualidades parcelares.
No extremo, chegamos à literatura ideal, aquela que me agrada
mesmo. Esta possui
tudo isto. Não só ideias, não só personagens, não só novidade, não só qualidade no manejo do português (ou seja de que língua for, entre aquelas que eu entendo), não só enredo, não só isto ou aquilo. Tudo. É raro, mas já tenho lido coisas assim. E, antes que perguntem, em vários géneros, incluindo aquele saco de gatos chamado
mainstream literário.
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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
Lido: Reencontro
Reencontro (
bib.) é um conto curto de horror (ou algo assim) de Diogo Falcão que esteve bastante longe de me agradar. Começa logo por o texto propriamente dito não me convencer por completo. Não é mau, mas podia ser melhor, e tem alguns pormenores que beiram o ridículo. Um exemplo destes últimos, provavelmente o pior: às tantas alguém "baba-se pela boca". Pois por onde haveria de se babar?! Pelas orelhas?!
Acresce a isto uma história pouco firme, que começa como uma simples noite de copos para depois entrar numa espiral de criaturas malfazejas de uma forma que me pareceu bastante gratuita, até que para de repente.
Mesmo de repente. Aquilo nem final em aberto é. Ainda virei a página para ver o que ainda aí viria, mas a página seguinte está em branco.
Enfim, achei este continho
bastante fraco.
Conto anterior desta publicação:
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Leituras de 2011
Em 2011, voltei a ler bastante menos do que costumava ser hábito em mim. O principal motivo para isso foi não ter lido praticamente nada durante os três primeiros meses do ano, mas também contribuiu ter tido entre mãos um número invulgarmente elevado de livros volumosos, incluindo dois com mais de 900 páginas cada. Mas mesmo assim, li mais do que
há dois anos. Na verdade, tirando três anos que passei fora do país e tinha dificuldade em arranjar leituras em português, 2009 deve ser o ano em que menos li desde que me tornei leitor a sério, no início da adolescência.
Este ano, as leituras foram menos ecléticas do que no ano passado, com menos mainstream e muito mais fantasia. Mas vamos às listas.
Os livros propriamente ditos, lidos por lazer mas todos comentados na Lâmpada ao longo do ano, não passaram de 18 e, entre estes, 12 têm qualquer coisa de ficção científica. A lista completa é a seguinte:
1-
O Livro das Configurações, de Mário Cabral (novela de fantasia mística);
2-
O Jardim de Infância, de Geoff Ryman (romance de ficção científica);
3-
O Homem que Perdeu o Cérebro, do Repórter X (contos de aventuras e mistério);
4-
Una Luz en la Noche, de Daniel Mares (dois romances de ficção científica);
5-
Golfinho de Júpiter, de Mary Rosenblum /
Pela Sombra Morrerão, de Carla Ribeiro (uma novela de ficção científica e outra de horror);
6-
Pago Para Esquecer, de Philip K. Dick (contos principalmente de ficção científica);
7-
Novas Cosmicómicas, de Italo Calvino (contos surrealistas com toques de ficção científica);
8-
O Lagarto do Âmbar, de Maria Estela Guedes (noveleta fantástica com toques de ficção científica);
9-
E Outros Belos Contos de Natal, organizado por Miguel Neto (contos humorísticos, muitos deles fantásticos, sobre o Natal);
10-
Imaginários 2, organizado por Tibor Moricz, Saint-Clair Stockler e Eric Novello (contos de fantasia, ficção científica e terror);
11-
A Canção de Kali, de Dan Simmons (romance de horror);
12-
Os Marcianos Divertem-se, de Fredric Brown (romance satírico de ficção científica);
13-
O Homem que Via o Futuro, de Clifford D. Simak (contos de ficção científica);
14-
Uma Récita do Roberto do Diabo, de Júlio César Machado (conto fantástico);
15-
Darwinia, de Robert Charles Wilson (romance de ficção científica);
16-
História de Portugal, Director's Cut, de Renato Carreira (livro de humor);
17-
15 Histórias de Ficção Científica, organizado por Bertrand Solet e Maria Adelaide Couto Viana (contos de ficção científica);
18-
A Mão Esquerda das Trevas, de Ursula K. Le Guin (romance de ficção científica).
A acrescentar aos livros li também revistas, que funcionam praticamente como se fossem antologias periódicas e portanto também contam para o total. E já tinha dito isto no ano passado. São mais 4:
19- Ficções, nº 16 (contos mainstream e fantásticos);
20- Mundos, nº 1 (contos de ficção científica);
21- Asimov's, nº 325 (contos de ficção científica);
22- Samizdat, Especial 1 (contos de ficção científica).
Este ano, li vários livros por motivos laborais que, no entanto, não teria sido obrigatório ler. Refiro-me aos volumes já publicados de
As Crónicas de Gelo e Fogo, que reli para voltar a entrar no mundo martiniano, antes de deitar mãos à nova tradução. Lembrar-me de como traduzi certas coisas, voltar ao ambiente de escrita e história, etc. São mais 8:
23-
A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
24-
A Muralha de Gelo, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
25-
A Fúria dos Reis, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
26-
O Despertar da Magia, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
27-
A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
28-
A Glória dos Traidores, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
29-
O Festim dos Corvos, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
30-
O Mar de Ferro, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica).
Por fim, e de novo tal como no ano passado, também li alguns livros por obrigação laboral, mas este ano foram só 2, ainda que ambos bem gordos. Na verdade, foram os dois livros mais extensos do ano. Ei-los:
31-
A Dance with Dragons, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
32-
Fool's Fate, de Robin Hobb (romance de fantasia).
Este ano não me é tão fácil decidir o livro do ano como foi
no ano passado. Tirando destas contas as minhas traduções (aí,
A Glória dos Traidores destaca-se), tenho um trio de livros de que gostei particularmente:
A Canção de Kali,
A Mão Esquerda das Trevas e
A Dance With Dragons. Não foram muitos mais os que me agradaram mais do que a média; nisso, o ano não foi famoso, até por causa da relativa escassez da escolha, mas posso citar o
Darwinia, as
Novas Cosmicómicas e
Os Marcianos Divertem-se. Provavelmente por esta ordem.
Quanto aos piores do ano, houve dois que se destacaram dos demais:
O Livro das Configurações e
O Lagarto do Âmbar. Somando-se a estes dois o nº 1 do Mundos, fico com um triozinho de leituras que me desagradaram bastante, seguido de não muito longe pelo Samizdat, Especial 1.
E é isso. Para o ano, provavelmente, haverá mais.
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Lido: A Mão Esquerda das Trevas
A Mão Esquerda das Trevas (
bib.) é um magnífico romance de ficção científica de Ursula K. Le Guin. Pertencente à série Hainish, conjunto de histórias independentes, unidas por terem lugar no mesmo universo ficcional, e à qual pertence também um dos meus livros favoritos seja de que género for,
Os Despojados, este romance planetário ambienta-se num planeta remoto e frio (adequadamente apelidado de Inverno), no qual se desenvolveu um ramo da Humanidade com uma característica única: a divisão entre sexos não existe. Em vez de serem durante uma vida inteira homens ou mulheres, como é hábito, os indivíduos passam a maior parte do tempo como seres andróginos e assexuados, um pouco como as crianças, entrando de vez em quando numa espécie de cio, o
kemmer, durante o qual se tornam muito mais subjugados pela motivação sexual do que nós. Durante esse período, um dos parceiros desenvolve características de um dos sexos e induz no outro as características do sexo oposto, permitindo-se assim a reprodução.
Ao planeta que serve de cenário chega um emissário dos mundos unidos no Ecuménio, uma espécie de confederação comercial e filosófica de planetas humanos, a fim de avaliar a capacidade e a vontade dos povos de Inverno virem a aderir a essa confederação. Emissário esse que é, está bom de ver-se, um humano como nós. Ou seja: uma aberração aos olhos dos habitantes de Inverno.
Com este material de base, Ursula Le Guin constrói uma fascinante especulação sociológica sobre como se desenvolveria uma (ou várias) sociedade sem ter subjacente a dicotomia de género que domina as nossas, e como essas sociedades encarariam o súbito desafio que é tomar consciência de que lá fora, entre as estrelas, existem dezenas de planetas ocupados por uma humanidade diferente da sua. Para isso, conta a história quer através dos olhos do emissário, quer através dos de um seu aliado local, que quando o romance começa ocupa um alto cargo no governo de uma das principais protonações do planeta mas rapidamente cai em desgraça e é obrigado a exilar-se.
É também uma história de descoberta dos limites da humanidade, do substrato comum que une esses dois homens (o emissário pensa no seu aliado como homem, embora este só o seja no sentido de "membro da espécie humana") apesar das suas diferenças. E também é uma história de sobrevivência, pois boa parte do fim do romance conta a longa travessia de um dos grandes glaciares do planeta que os dois amigos fazem depois do exílio não ter corrido lá muito bem.
A Mão Esquerda das Trevas é um livro e peras, de uma época em que ainda se conseguia contar uma história complexa e inteligente em menos de 300 páginas. Muito bom.
Este livro foi comprado.
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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
Lido: Para Leste
Para Leste (
bib.) é um conto curto de Bruce Holland Rogers que descreve uma viagem que uma família faz para leste, no carro, depois do último negócio do pai ter ido à falência. Trata-se de um conto quintessencialmente americano, um daqueles contos de estrada que há tanto tempo permanecem na psique americana e até chegaram várias vezes ao cinema. O mais curioso nestas histórias é muitas vezes o contraponto e o contraste entre o intimismo dos pequenos mundos que rodeiam os viajantes e a vastidão das paisagens por onde esses pequenos mundos nómadas vão passando. Isso existe neste conto, mas também nele existe algo que me fez lembrar agudamente dos contos americanos de Ray Bradbury: poesia. Uma poesia contida, mais presente nos gestos do que nas palavras com que esses gestos nos são revelados, mas muito real. Para ela contribui que a história seja contada sob o ponto de vista do filho do casal, na primeira pessoa, um filho que já é suficientemente velho para se aperceber do que implica a família ficar sem meios de subsistência, mas ainda suficientemente novo para ficar empolgado com a aventura que a viagem traz consigo. É um belo conto, sim senhor.
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Domingo, 1 de Janeiro de 2012
Lido: A Extinção das Espécies
A Extinção das Espécies (
bib.) é uma noveleta retrofuturista de Carlos Orsi que acompanha a viagem de um certo e determinado jovem cavalheiro, nunca nomeado mas inglês, a bordo de um navio chamado
Beagle, ao longo da costa oriental da América do Sul, com escalas no Brasil e na Argentina. Já sabem quem é? Claro: Charles Darwin. Porém, ao contrário do que aconteceu com o "nosso" Charles Darwin, este não se deixa seduzir pelas espantosas adaptações dos animais e plantas ao seu meio, antes mergulha a sua insaciável curiosidade na análise de uns curiosos autómatos auto-replicantes, com os quais toma contacto pela primeira vez no Rio de Janeiro mas cujo potencial só compreende por completo quando chega à Patagónia argentina. Máquinas prodigiosas, que obtém a energia que as alimenta diretamente do sol através da exploração de um tal "efeito Waldman-Ingolstadt", que retira do nosso astro uma tal "
vis viva" que pode ser transformada com grande eficiência em eletricidade. Com base nisto, Orsi desenvolve uma história muito bem construída e cheia de referências, que especula sobre as utilizações e consequências do desenvolvimento de nanotecnologia autorreplicante antes mesmo de ter sido criada uma teoria evolucionária para os seres vivos. Mais: embora esta noveleta seja inteiramente satisfatória enquanto história independente, abre portas para a criação de histórias adicionais no rico universo ficcional que delineia.
Dá para ver que gostei muito desta noveleta? Pois gostei, sim senhor. Achei-a excelente. Entre a melhor ficção curta que li no ano passado.
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Lido: 15 Histórias de Ficção Científica
15 Histórias de Ficção Científica (
bib.) é um livro já velhote, pertencente a uma coleção juvenil da Verbo que reunia em cada livro 15 pequenas histórias, ficcionais ou não, sobre um tema comum. Aqui, o tema é a ficção científica, ainda que com um pendor fortemente francófono, uma vez que se trata de uma adaptação de uma coletânea francesa, e também bastante mais dedicada à proto-ficção científica, do início do século XX e do século XIX, principalmente, mas também contendo um texto que nos chegou daqueles tempos antigos em que Roma era a grande superpotência do planeta. Também é, em grande medida, uma antologia destinada a abrir o apetite dos jovens para outras coisas. Atesta-o a grande percentagem de excertos de romances que contém, devidamente identificados com a obra de que foram extraídos, como que a dizer "vá, meu jovem, agora vai à procura do resto."
E posso dizer que, mesmo passados todos estes anos, e mesmo tendo já lido a maioria dos livros de onde foram retirados os excertos, a tática continuou a mostrar-se eficaz. Apeteceu-me reler alguns e sobre outros, que nunca li, fiquei curioso.
Provavelmente deviam continuar a fazer-se edições como esta hoje em dia. Talvez fosse uma boa maneira de voltar a criar público para a FC, desde tenra idade.
Outra forma de encarar este livro é como uma boa introdução, não à FC como um todo, mas àquela literatura que lhe serviu de raiz. Porque inclui os "papás" Wells e Verne, porque inclui outros autores antigos. E porque a maioria dos bons textos da antologia pertence justamente a estes autores. Os fracos, que também existem, pertencem invariavelmente a autores mais recentes. Da nossa FC é que o leitor fica apenas com uma pálida ideia. O conto português que vem incluído, da Natália Correia, mais ou menos contemporâneo à edição, talvez seja representativo da FC que se fazia na época em Portugal, mas pouco ou nada tem a ver com os trabalhos mais recentes, dada a tradicional amnésia geracional de que a nossa FC sempre padeceu.
Em suma, quem procura FC moderna não a encontra aqui, obviamente. Mesmo quem procura a FC da época em que este livro foi editado pouca encontra, e a que encontra está muitos furos abaixo da melhor. Mas o livro não deixa de ter o seu interesse, principalmente histórico.
Eis o que achei dos 15 textos:
Este livro foi comprado em segunda mão.
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Sábado, 31 de Dezembro de 2011
Lido: O Socorro Inesperado
O Socorro Inesperado (
bib.) é um conto de ficção científica de Avram Davidson sobre um vigarista, enrascado por ter vendido antiguidades falsas a quem sabia o suficiente do assunto para ter detetado a marosca, que procura socorro num lugar inusitado: o passado. Como? Através de uma espécie de telefone, acompanhado por um tal "compendio dos nomes, rezidencias e ciphras dos dignos e ilustres patronos da machina de communicação magnetica", que tem a peculiar característica de fazer ligações telefónicas com o passado. E claro que não é com pessoas quaisquer; afinal, trata-se de tecnolocia em tempos sofisticada, só ao alcance das bolsas mais abonadas e dos espíritos mais esclarecidos. Cheia de referências a figuras da história americana, é uma historinha divertida e irónica (e também um pouco terrível) sobre o desespero. Gostei bastante, mesmo sem ter apanhado todas as referências.
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Lido: Samizdat Especial 1
O Samizdat Especial 1 (
bib.) é um fanzine em PDF que se propôs juntar a alguns escritores com nome firmado na FC brasileira outros que da escrita de FC têm pouca ou nenhuma experiência. É uma experiência. Já foi feita por diversas vezes e em várias latitudes e, embora seja raro, por vezes até dá bons resultados.
O mais habitual, contudo, é que os novatos mostrem claramente que o são, caindo nas armadilhas que a ficção científica arma aos iniciantes (quer sejam, ou não, também iniciantes na atividade de escrita em geral), e que os não-novatos apresentem textos muitos furos acima dos demais.
E é quase precisamente o que acontece aqui. Os melhores contos pertencem a autores com nome, e os piores a novatos, mas há uma zona intermédia de contos razoáveis que contém tanto contos de gente experiente como de gente inexperiente. A média, contudo, é bastante baixa. Há alguns contos que eu nunca publicaria nem mesmo num fanzine e, dos doze, só dois me pareceram mais que razoáveis.
Por outro lado, é mais ou menos isso o que se espera de um número de fanzine. Este não foi o melhor que eu li, mas também não foi o pior; andou pela média, ou talvez um pouco menos. E isso quer dizer que, no fundo, cumpriu aquilo que dele se esperava.
Eis o que achei dos contos:
Caso estejam interessados, podem encontrá-lo
aqui.
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Lido: A Princesa nº 46734
A Princesa nº 46734 (
bib.), de José Gomes Ferreira, é um conto curto maravilhoso que faz parte das Aventuras de João Sem Medo, de que
falei aqui no ano passado. Esta versão que li agora corresponde à incluída no romance
fix-up, e não à que saiu originalmente n'
O Senhor Doutor, e é pena. Teria preferido ler a versão original, uma vez que também essa foi publicada sob a forma de conto independente, e portanto não teria, suponho eu, alguns pormenores que nesta indicam tratar-se de um fragmento de uma obra maior. Contudo, isso é um pormenor. Esta história é saborosa mesmo assim. O autor brinca com as convenções dos contos de fadas e subverte-as, pondo um João Sem Medo aborrecido, sem aventura que o anime, a desejar poder pelo menos salvar uma princesa, ou coisa que o valha. Mas as princesas estão todas ocupadas... exceto a número 46734, será que o João a aceita? Pois está claro que sim! E lá vai ele por montes e vales em busca da dita princesa, acabando por encontrar um desfecho bastante irónico. Um continho divertido, bem escrito e bem concebido. (Re-)aprovado.
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
Lido: Asimov's, nº 325
O número 325 da revista Asimov's, já com bastantes aninhos em cima (é de 2003) mas que só agora li, está muito longe de ser dos melhores. Na verdade, é bem capaz de ser a pior Asimov's de sempre para as minhas papilas gustativas literárias. Normalmente acabo a leitura de uma destas revistas com nota positiva em pelo menos metade dos contos nela incluídos. Às vezes em mais. Nesta, só um conto me caiu mesmo bem ao palato, e vários, incluindo, por sinal, o maior de todos, pareceram-me vários furos abaixo de muitas coisas da FC lusófona que tenho lido nos últimos tempos.
Convenhamos, para uma revista que tem a tradição e os pergaminhos que esta tem, isso é francamente mau. A não-ficção é interessante, em especial o olhar de Silverberg sobre a forma como a língua inglesa vai contaminando as outras (ele aponta a espanhola como exemplo). Mas a Asimov's é fundamentalmente uma revista de contos, e os contos deste número deixam muito a desejar. E os poemas também, já agora.
Eis o que achei de cada um deles:
Esta revista foi comprada por assinatura.
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Lido: Guerrilha Urbana
Guerrilha Urbana (
bib.), de Giselle Natsu Sato, é uma vinheta de ficção científica que descreve um futuro próximo, num cenário profundamente distópico de autêntica guerra civil que começa entre o exército brasileiro e traficantes de droga, mas depois escala, atingindo proporções muito maiores. É um cenário que dá pano para mangas, e o conto acaba, por isso mesmo (mas também porque a autora mostra qualidades no manejo da língua), por ser dos mais interessantes de toda a publicação em que se insere. Ainda assim, pareceu-me que esta ideia e este cenário seriam muito melhor explorados num texto mais extenso e mais visceral, que contasse menos e mostrasse mais, que permitisse ao leitor vivenciar o que a autora imagina em vez de estar na posição de observador externo de algo que já a própria protagonista basicamente observa. Mas não desgostei.
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Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
Lido: Hambre
Hambre é um pequeno conto de horror da mexicana Doris Camarena que, confesso, senti dificuldade em entender com uma leitura apenas mas não chegou a interessar-me o suficiente para uma releitura. Acabei-o com a sensação de que há ali subtilezas a que o meu castelhano não chega. Mas chega para perceber que está muito bem escrito e fala de uma série de assassínios com um final surpresa francamente bem conseguido, daqueles que nos forçam a reavaliar tudo o que ficou para trás, ao mesmo tempo que não viola nenhuma das premissas básicas do texto. Subtilezas. Tudo indica que é um bom conto. Mas não garanto.
Se quiserem, podem lê-lo
aqui. É o sexto.
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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011
Lido: Natal®
Natal
® é um conto de ficção científica de Carlos Silva sobre a artificialidade do mundo futuro, o que é o mesmo que dizer sobre a artificialidade do mundo presente. Ou talvez seja apenas sobre a artificialidade das mulheres. Tudo regado a simbolozinhos de marca registada, cuja função é clara mas que são bastante desnecessários, em especial em tal profusão.
O conto descreve uma cena mundana, na qual uma mulher prepara um natal especial para o marido, em rigorosa imitação de um natal tradicional, e este não reage propriamente como ela esperava. O tom é de história exemplar, de apelo ao regresso àquilo que é tradicional e verdadeiro. Nada tenho contra, em princípio, mas achei este conto demasiado óbvio, sem subtilezas. E isso, a somar a um texto que é razoável mas disso não passa (funcionalização não é sinónimo de funcionamento, já agora; significa "tornar operacional"), fez que não gostasse particularmente do conto.
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Lido: Morella
Morella (
bib.) é um conto curto de horror, de Edgar Allan Poe que, ao contrário de contos mais tardios do autor, incorpora todos os vícios do romantismo. A história é um drama de faca e alguidar, contado de forma sentimental e na primeira pessoa, por um homem que se apaixona por uma mulher que descreve como inteligentíssima mas mórbida, com ela se casa, e a perde quando morre ao dar à luz uma filha. E esta, por seu lado, desde cedo vai mostrando todos os traços da mãe, o que enche o pai de espanto e de algo mais. De tal forma que o desfecho acaba por não ser de todo inesperado.
Dos contos de Poe que li, este é bem capaz de ser o de que gostei menos. Aquele excesso de sentimentalismo típico dos textos românticos, que faz palpitar de deleite alguns leitores, comigo funciona como repelente bastante eficaz. Mesmo quando não chega propriamente à pieguice, como aqui. Por outro lado, está muito bem escrito. Olhando-o apenas por esse prisma reconheço que é um bom conto.
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Lido: Termo de Recriação
Termo de Recriação (
bib.), vinheta de Marcia Szajnbok, é outro dos tais contos que se nota demasiado terem sido escritos por alguém pouco familiarizado com a escrita de ficção científica. Trata-se de um continho muito católico que ficciona um relatório, que se percebe ser de deus muito antes da assinatura, sobre, obviamente, a experiência Homem. Fica a perplexidade: a
quem apresenta deus relatórios?! Que objetivo leva a personagem-narrador, omnipotente, omnipresente e omni-mais-uma-porção-de-coisas a passar a papel esta narração?!
O conto é
infodump puro, claro, e está repleto de ideias muito simplistas e banais sobre a espécie humana. E também de alguns rotundos disparates. Exemplo: às tantas o omnisciente narrador diz que a Terra é um lindo planeta porque é azul, e acrescenta que "nenhum outro jamais fora azul". Neptuno e Urano,
hello? Azulados por aquele processozinho físico básico chamado dispersão de Rayleigh, que também é responsável pelo azul dos céus terrestres, e por consequência dos nossos mares? E que portanto terá criado biliões e biliões de planetas azuis por este universo fora?
Enfim...
O texto, em si mesmo, não é mau, mas temo bem que seja o que o conto tem de melhor. Achei tudo o resto muito, muito fraco.
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Lido: O Corcel
O Corcel (
bib.) é uma vinheta de Bruce Holland Rogers sobre um cavalo que não se deixa domar. Ou pelo menos que contrapõe à teimosia dos cowboys em tentar montá-lo uma teimosia idêntica em não se deixar montar. E em suma é isso. O conto está muito bem escrito, claro, mas não gostei muito dele; achei que esta ideia talvez fosse explorada de forma mais eficaz num texto de maior extensão que contasse mesmo uma história de obstinação em vez de nos traçar um simples retrato de um fim de dia de trabalho.
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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011
Transignorâncias: Compasso de espera
Tinha planeado, visto os feriados que se seguem coincidirem com fins de semana, publicar as transignorâncias desta semana e da próxima a meio da semana, por volta da quarta ou quinta-feira. Até já tinha texto pronto e tudo. Mas a verdade é que...
... nesta altura do ano ninguém as leria, não é? Não vale grandemente a pena estar a publicá-las agora se não vão ser lidas (ou pelo menos só o vão ser mais tarde), certo?
Então faz-se assim: faz de conta que o anúncio foi uma espécie de número zero e a coisa só começa mesmo a sério em 2012.
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Sábado, 17 de Dezembro de 2011
Lido: Pão de Laranja à Lydia
Pão de Laranja à Lydia (
bib.) é uma deliciosa vinheta, digo, uma deliciosa receita de Bruce Holland Rogers que descreve o modo de preparação de pão de laranja, quer sendo-se uma pessoa qualquer, quer sendo-se Lydia e tendo-se acabado com Jamil Becker, esse traste. De novo, o que torna este continho delicioso é a abordagem, a forma como Rogers escolhe o ponto de vista para contar esta história de vingança, e também a suavidade e limpeza com que tudo fica claro para o leitor. Altamente recomendável, em especial àqueles escritores que não sabem transmitir ao leitor a informação que lhe faz falta a não ser através de
infodumps e de diálogos improváveis.
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Lido: O Pequeno Guia do Céu, de Tristan de Sapincourt
O Pequeno Guia do Céu, de Tristan de Sapincourt é um pequeno conto surrealista de Afonso Cruz, que fala, marginalmente, de uma viagem espacial feita pelo protagonista em 1613 a bordo de um aparelho por si concebido. Mas o que realmente interessa Cruz neste texto é criar uma atmosfera que remete para os mais antigos percursores da ficção científica (e lhes faz diretamente referência, aliás) e para as suas histórias movidas a imaginação pura e não contaminada pelos subprodutos da Revolução Científica e Tecnológica que são o combustível da ficção científica propriamente dita. Isto equivale a dizer que quem esperar encontrar aqui verosimilhança, ambientes planetários tais como eles são, enfim, essas coisas palpáveis da FC, desengane-se. Não há cá nada disso. O conto faz lembrar alguns dos contos das
Cosmicómicas de Calvino, e faz lembrar também (na verdade faz lembrar
mais) alguns dos contos de Rhys Hughes, muito em especial
Os Tritões Lunares. Como eles, está muito bem escrito, como eles roça a ficção científica sem realmente o ser, como eles usa a erudição como pedra de toque.
Gostei, mas não posso dizer que tenha gostado muito. Porque sou daquelas pessoas que acham muitíssimo mais interessante e repleto de maravilhas o universo visto através de lentes de vidro do que da cabeça de Tristan de Sapincourt. O universo, o verdadeiro e palpável, tem revelado assombros que estão muito para além da imaginação seja de que Tristan for. E não há desenho de Saturno feito no século dezassete que chegue sequer perto de uma única das fotografias da sonda Cassini.
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Lido: Um Universo Submarino
Um Universo Submarino (
bib.) é um conto curto de ficção científica, de Christian Grenier, que faz lembrar um pouco filmes como
O Abismo (filmado muitos anos mais tarde, é bom sublinhar-se, e também com uma abordagem bem diferente). Uma expedição desce num submarino a uma fossa oceânica para avaliar as condições aí existentes e determinar se é, ou não, adequada à instalação de um gerador de energia de tipo revolucionário. Mas o que encontra, para sua enorme surpresa, é uma civilização subaquática, completa com cidades e tudo, e habitada por uma espécie até então desconhecida de criaturas telepáticas semelhantes a tartarugas.
Apesar de ser pouco sofisticado e estar algo datado, é um conto com o seu interesse, em especial tendo em conta que se destina a um público juvenil. Não o recomendo a todos; aqueles que acham que a literatura não pode transmitir mensagens claras, em particular, devem manter-se bem longe dele. Mas quem não se incomoda com mensagens talvez leia com agrado este pequeno exemplo de ficção científica ecológica. Eu não gostei lá muito, mas também não desgostei de todo.
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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011
Lido: A Última Pergunta
A Última Pergunta (
bib.) é um célebre conto de ficção científica de Isaac Asimov, já com mais de meio século de existência, sobre uma série de pessoas (e
transpessoas, digamos) que, ao longo dos muitos milénios que vão de um futuro razoavelmente próximo até ao fim térmico do universo, vão perguntando a uma série de computadores cada vez mais sofisticados se é possível reverter a entropia. E a respsta é sempre a mesma. Até que deixa de o ser.
Trata-se de um conto bastante típico de uma certa forma de fazer FC: sem personagens dignas de nota, quase tosco no que toca à escrita propriamente dita, possui, contudo, uma vastidão de cenários quase impossível de atingir noutros géneros e uma profundidade filosófica rara. Debruça-se, tão-só, sobre a origem, vida e morte do Universo. Coisa pouca.
E este conto em concreto consegue ainda manter-se atual. Apesar da idade, apesar dos sinais de obsolescência que nele abundam (numa época em que andamos com computadores no bolso, ligados à internet, os "avançadíssimos"
multivacs gigantescos dos anos 50 soam ridículos de tão anacrónicos), apesar das teorias cosmológicas terem nas últimas décadas sofrido fortes reviravoltas, apesar, até, de mostrar algumas das características mais insuportáveis da FC clássica (a tendência para o
infodump e alguns diálogos em que as personagens dizem coisas que nunca diriam porque
nós, os leitores, precisamos dessa informação) a pergunta que se faz neste conto permanece sem resposta, e por isso ele mantém-se relevante. Entre os contos-ideia é raro isso acontecer, mas Asimov, apesar dos muitos defeitos que tinha nas outras vertentes da literatura, suficientes para tornar as suas obras ilegíveis para muito boa gente, era um mestre neste tipo de história, e mostra-o aqui.
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011
Lido: O Senhor dos Navegantes
O Senhor dos Navegantes (
bib.) é um conto fantástico de Ferreira de Castro repleto de entrelinhas. À primeira vista, trata-se de uma história sobre um homem que vai passear para o campo, levando consigo um livro, e para numa capela isolada, sobranceira ao mar, dedicada ao Senhor dos Navegantes do título. Aí, encontra um estranho homem que mete conversa com ele, afirmando tratar-se do Senhor dos Navegantes, ele próprio (ou de deus, mais genericamente), e lhe descreve, com abundância de pormenores e de exasperação com a parvoíce das pessoas, a vida atribulada que foi tendo ao longo dos séculos. Ou por outra: as vidas, pois aparentemente terá ido reencarnando em vários indivíduos.
Mas se cavarmos mais fundo encontramos um apelo à luta contra as injustiças e a opressão. Um apelo à abertura dos olhos, ao fim da resignação com sortes tristonhas. Um apelo claro, sem qualquer ambiguidade, ainda que o resultado desse apelo a tenha. Pois às exortações do Senhor dos Navegantes para que as pessoas agarrem nas rédeas das suas vidas e decidam por si próprias os seus destinos responde a populaça com gritos de "ladrão" e "louco" e completa rejeição.
É um conto filho do seu tempo salazarista, sem dúvida. Mas, para mal dos nossos pecados, está hoje tão atual como no dia em que foi escrito. Devia ser lido, muito lido. Muito bom.
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Lido: O Botão
O Botão (
bib.), vinheta de José Espírito Santo, é outro dos tais continhos que parecem ter sido escritos por alguém com pouca ou nenhuma prática na escrita de ficção científica. Aqui vamos encontrar um escritor em pleno ato de escrita de uma história de FC, numa cena doméstica, completa com mulher, filhos e alimentação em família e tudo, embora pontuada aqui e ali por termos que sugerem tecnologia avançada e futurista. E logo em seguida temos
infodump, um longo
infodump. É citação da história que a personagem do conto escreve, é certo, mas não é menos
infodump por isso. E depois, o final surpresa que colide de frente com o que ficou escrito antes. E isso transforma-o num desastre. Não é assim que se concebem finais surpresa. A arte está em fazer com que eles sejam inteiramente coerentes com o que ficou para trás, mas mesmo assim apanharem o leitor de surpresa. O conto podia ser razoável sem este final desastrado, mas com ele torna-se muito, muito fraco. É pena.
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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
Lido: Rumores
Rumores é um pequeno conto de ficção científica de Néstor Darío Figueiras. Ao mesmo tempo humorístico e inquietante, mostra um mundo em que receber telefonemas para estudos de opinião é ainda menos seguro do que no nosso. Especialmente para homens facilmente influenciáveis pelas inflexões sedutoras das vozes femininas. É difícil suspender a descrença ao lê-lo, a ideia parece demasiado improvável e não achei o ambiente suficientemente bem construído, mesmo tendo em conta que o que aqui se pretende é principalmente a sátira à prática do telemarketing, levando-a às últimas consequências. Não achei o conto mau, mas tampouco o achei bom. Está disponível para leitura,
aqui. É a quinta história.
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