sábado, 28 de março de 2015

Lido: A Feira dos Assombrados

A Feira dos Assombrados é um livro de José Eduardo Agualusa composto por uma novela e uma sequência de pequenos contos sujeitos a mote, todos aparentemente passados na Angola colonial de finais do século XIX, o que, conjuntamente com o caráter fantástico destas histórias, confere ao livro estrutura e unidade.

Visto por outros prismas, é um livro bastante dicotómico: por um lado uma novela, por outro uma série de contos curtíssimos; por um lado uma história sem mote, por outro uma série de histórias sujeitas a mote, o que é o mesmo que dizer baseadas em trechos insólitos de velhas notícias ou anúncios publicados em jornais angolanos da viragem do século... uma belíssima ideia, que poderia dar pano para muitas mangas, e não só para a literatura angolana, assim haja quem tenha tempo e gosto para se dedicar a essa caça de velhos tesourinhos.

Por sobre tudo isto há mais uma camada de uniformidade, ou talvez seja melhor dizer de coesão: a indiscutível qualidade literária de Agualusa. Mesmo quando as suas histórias não satisfazem totalmente, quando são demasiado curtas para terem todo o impacto que poderiam ter, ou quando trazem consigo algum déjà vu, ou tenham alguma outra insuficiência, objetiva ou subjetiva, o uso impecável da língua compensa muita coisa.

O resultado? O resultado é um muito bom livro de literatura fantástica angolana e lusófona.

Eis o que achei de cada uma das sete histórias que compõem a coletânea:
Este livro foi comprado.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Lido: Que Viva, Pelo Menos, a Democracia

Que Viva, Pelo Menos, a Democracia é um continho de Rui Cardoso Martins que arranja uma história comico-ternurenta sobre um velho monárquico, o senhor Aquino, que vai de basbaque assistir ao casamento de D. Duarte, o nosso ridículo pretendente ao trono, entre espanhóis, ativistas de Foz Côa, anarco-surrealistas e personagens variadas da política portuguesa e europeia.

A historieta é francamente divertida, em especial devido às "bocas" da variegada populaça que vê passar os famosos e pelo desconforto e indignação que elas causam ao nosso bom velhote. Cardoso Martins, que eu tantas vezes vi nas páginas da Pública mas nunca tive curiosidade de ler (Casos de tribunal?, pensava então. Meh!) e agora me arrependo, parece ter um talento especial para apanhar tiques identificativos e explorá-los com uma valente dose de piada. E este conto é, além de divertido, um saboroso retrato de certo(s) tipo(s), que provavelmente todos vamos conhecendo por aí, às vezes quase sem dar por isso.

Sim, gostei.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 24 de março de 2015

Lido: Brancos Estúpidos

Brancos Estúpidos, de subtítulo e Outras Desculpas Esfarrapadas para o Estado da Nação, é um livro de Michael Moore (exato, o cineasta, o tipo que fez Bowling for Columbine e outros documentários igualmente incisivos) na qual é implacavelmente dissecado o estado da América que levou à muitíssimo controversa eleição de George W. Bush, depois de perder o voto popular para Al Gore. Foi assumidamente a fúria sentida por Moore por aquilo que considera ter sido uma fraude eleitoral de grande escala, um autêntico golpe de estado que terá posto em causa a própria democracia americana, que o levou a escrever este livro, e nele essa eleição é central, embora não esteja a ela limitado.

O livro não é, nem pretende ser, uma análise imparcial do estado da América. É, como aliás é apanágio de Moore, um relato opinativo, por vezes até um pouco demagógico, muito embora quase todas as afirmações que Moore nele faz estejam sustentadas por dados ou por artigos saídos na imprensa. E é precisamente por isso que é tão arrasador.

Também não é um livro muito focado num tema específico. Moore preocupou-se mais em falar daquilo que lhe pareceu mais importante para explicar a ascensão e a filosofia da direita americana do tempo, direta antecessora do tenebroso Tea Party que conhecemos hoje, e explanar as consequências que vê nessa ascensão, prevenir os seus leitores para o ponto até onde essa direita está preparada para ir, do que em ser particularmente organizado ou sistemático. Os episódios, as historietas, as interligações entre um facto e outro sucedem-se numa espécie de caos vagamente organizado que, no entanto, acaba por fazer todo o sentido, intercalados por exercícios de sarcasmo, como um que ficou famoso, intitulado "Uma Oração para Atormentar os Que Vivem com Conforto."

Poucas feridas passam sem que Moore nelas espete um dedo. Ou vários.

As falhas e insuficiências da democracia americana são, claro, o alvo principal, mas Moore fala de sexismo, racismo, xenofobia relativa a comunidades de imigrantes, os media e a estupidez de que eles se alimentam e promovem, o anti-cientificismo e anti-intelectualismo, e por aí fora.

É um livro datado? Sim, em certa medida é; afinal de contas foi lançado em 2001 e 2001 foi há já 14 anos. Sim, o tempo voa mesmo. Mas a verdade é que muito daquilo por que estamos a passar hoje, com a crise financeira que fez estoirar as dívidas soberanas, com o florescimento de um conservadorismo extremo e asqueroso, tanto nos EUA como na Europa, que tantas vezes traz à memória ecos tenebrosos de um passado que devia estar morto, enterrado e coberto com cal-viva, têm sólidas raízes em gente, factos e atitudes que Moore aqui descreve à sua maneira colorida.

Não é um livro sisudo para sisudos historiadores. Na verdade, creio que não serão muitos os historiadores capazes de ler isto sem sentirem desconforto na sua costela académica. É, sim, um livro cujo objetivo foi ter impacto junto do público em geral e que foi nisso tão bem sucedido que ainda hoje continua a tê-lo.

Eu, que não sou nem sisudo nem historiador, e que além disso conhecia a história mas não todas as histórias que Moore aqui conta, gostei bastante deste livro. Também me assustei com ele.

Era mesmo essa a ideia, suspeito.

Este livro veio da biblioteca dos pais, mas de certeza que foi comprado.

terça-feira, 17 de março de 2015

Lido: Cristo em Casa de Marta e de Maria

Cristo em Casa de Marta e de Maria é um conto bastante feminino de A. S. Byatt sobre amor-próprio. Partindo de uma história bíblica, como aliás o título já indica, é protagonizado por Dolores, irascível e feiíssima cozinheira que, após um ataque de mau-génio acaba por aceitar ser pintada por um artista amigo de uma sua colega. E no processo, e ao terminar o processo, vem a descobrir com surpresa e alegria uma faceta de si que desconhecia.

É um conto suave, bem escrito e bem desenvolvido, cuja parte menos agradável, para mim, é a prisão ao superficial que revela talvez na autora, talvez na sociedade que ela pretende retratar. Dolores, aparentemente, é especialmente dotada para as suas artes culinárias, mas daí não retira qualquer orgulho ou melhoria no amor-próprio. Porquê? Porque é feia. Porque não pode vestir os vestidos das senhoras finas que, acha ela, a poriam bonita. E por isso é só quando o artista consegue retirar beleza da sua fealdade e transpô-la para a tela que ela faz as pazes consigo mesma.

É uma forma fútil de ver o mundo, esta, a que coloca a beleza (e o dinheiro, já agora) acima de qualquer outro talento ou habilidade que as pessoas possam ter. Este conto baseia-se nela, e num conformismo, num conservadorismo, que reduz a questões de feiúra e ciúme a humaníssima aspiração por uma vida melhor. E assim, este conto até pode ser literariamente bom mas não fui capaz de gostar dele.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 16 de março de 2015

Lido: Pêndulo

Pêndulo (bibliografia) é uma coletânea de contos de ficção científica, de A. E. Van Vogt, que não só é, de origem, razoavelmente medíocre, como foi ainda piorada na edição portuguesa pelo facto de a tradução ter sido entregue a Eduardo Saló.

A coletânea é de 1978, tal como quase todos os contos, mas a verdade é que parece ser mais antiga. Sim, há algumas ideias interessantes, ainda que raramente me pareçam bem executadas, mas é mais frequente que estas histórias me cheguem com um certo ranço mais característico da FC de décadas anteriores do que da do fim dos anos 70. Se é uma lapalissada dizer-se que toda a FC envelhece mais rapidamente do que a generalidade da outra ficção, este livro parece sugerir que o envelhecimento daquela que nunca chegou a ultrapassar a mediocridade é ainda mais rápido.

Mas nem tudo aqui é mau ou mauzinho. Há contos razoáveis e há um, o último, que só por si salva a coletânea e faz com que o livro valha a pena. Por coincidência, ou talvez não (não, certamente que não), é o único que não é só de Van Vogt; trata-se, isso sim, de uma colaboração de Van Vogt com Harlan Ellison, e Ellison transparece com grande clareza no esforço conjunto.

Tudo somado, este é um livro fraco que, graças àquele último conto, consegue atingir o patamar do razoável.

Eis o que achei sobre cada uma das sete histórias:
Este livro foi comprado.

Lido: Eyes Like Water Like Ice

Eyes Like Water Like Ice, é uma pequena historinha de uma espécie de horror brando, escrito por autora anónima (discretamente revelo aos entendidos, mas só aos entendidos, que é de Jai Clare), que nos descreve uma apresentação de místicos indianos para um público muito ocidental, ou talvez se deva mesmo dizer muito britânico. Os místicos têm, de facto, poderes, entre outros o de controlar o fogo, e a plateia assiste, contente e plácida, à exibição desses poderes. Até que um homem decide participar.

Claramente inspirado pelas imagens de gurus a imolar-se pelo fogo e escrito numa prosa bastante poética, este continho muito oblíquo trata principalmente da perda e da incapacidade que cada um de nós tem para impedir aqueles que nos são queridos de partir quando e como a sua própria vida, não a nossa vontade, determina.

Não foi conto que me absorvesse, até porque não tem tamanho suficiente para tanto, mas é um bom conto.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 14 de março de 2015

Lido: O Fio das Missangas

O Fio das Missangas é uma coletânea de pequenos contos de Mia Couto que, para quem conhece o autor, não traz nada de muito inesperado. São contos carregados de poesia, repletos dos seus característicos neologismos, sempre tão cheios de significados, ajoujados de humanidade. Muitos são contos fantásticos, chegando alguns, até, a passear-se por territórios próximos da ficção científica. Muitos, também, são contos em que a mulher, a sua vida, os seus problemas, as suas ideias e aspirações, é tema e fulcro. A mulher ou o povo. Ou a mulher do povo.

As melhores destas histórias são pequenas maravilhas, com tudo no sítio certo, tão próximas da perfeição como é possível ao engenho humano. São raras as apenas medianas, embora também haja duas ou três; histórias em que a poesia é levada longe demais, perdendo-se a história pelo caminho, ou histórias cuja ideia não se ajusta bem ao tamanho exigido a todas elas (de três a cinco páginas; o tamanho de uma crónica de jornal). A maioria, no entanto, está entre o "meramente" bom e o muito bom, ainda que se considerarmos apenas o tratamento dado à língua portuguesa ele seja, em quase, quase todas, excelente.

Ao todo são vinte e nove continhos, vinte e nove pequenos retratos de humanidade, num livro que nem chega às 150 páginas. África está muito presente, como não podia deixar de ser, e tantas vezes em confronto, direto ou indireto, com uma modernidade importada que é recebida e incorporada de uma forma muito própria na teia de raízes e influências que constitui o ambiente de Mia Couto. Não são vinte e nove obras-primas? Não, não são; ninguém é capaz de transformar em prima cada obra que produz. Mas há aqui obras-primas, e o livro, globalmente, é bastante bom.

Eis o que achei das histórias, uma a uma:
Este livro vem da biblioteca dos meus pais; o mais certo é ter sido comprado.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Lido: Ao Serviço de Sua Majestade

Ao Serviço de Sua Majestade (bibliografia) é um conto de Luís Richheimer de Sequeira, de uma espécie de ficção científica ufológica à X-Files, de um modo geral bem escrito que, para "caber" numa antologia como esta, enfia a páginas tantas uma brevíssima menção a uma tal "amada Rainha D. Maria III" e... mais nada.

Essa é menos importante das suas duas grandes falhas. Menos importante porque só é falha no contexto da proposta temática do livro em que se integra, servindo-se de uma habilidadezinha para se enquadrar formalmente no tema, apesar de, no fundo, não o fazer. E porque, retirando-se este conto deste livro em concreto, a falha desaparece.

O conto descreve com um detalhe digno de romance uma tal Subdivisão de Crimes Extraordinários da Polícia Judiciária, dedicada à investigação de bizarrias variegadas, e as características e idiossincrasias do punhado de agentes que a compõem. Passa depois à apresentação de um caso novo, coisa oriunda da força aérea, depressa nos informando que envolve OVNIs e uma área secreta na Base Aérea de Beja, uma espécie de versão reduzida e alentejana da Área 51 dos americanos. E de seguida...

Pois de seguida, infelizmente, acaba.

E é essa a segunda e mais importante das suas falhas. No momento em que o conto ameaça ganhar algum interesse, em que se passa da descrição de ambiente e personagens a alguma ação, surge inopinadamente o ponto final a dar-lhe fim.

O caso é que Luís Sequeira não escreveu um conto, chame-lhe o que chamar; escreveu o início de uma novela ou romance. Apresentá-lo como conto é outra habilidadezinha que, sobretudo esta, corre francamente mal, transformando o que podia ser um bom início de um texto no mínimo agradável num bocado de prosa francamente insatisfatório. É pena.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Lido: Contos Dramáticos

Contos Dramáticos, mais uma das pequenas antologias distribuídas com o DN e o JN, reúne três textos que, na minha avaliação, começam muito bem e acabam muito mal. E como, além disso, mais uma vez me parece que os conteúdos não se ajustam inteiramente bem aos títulos e temas que estas antologias propõem, embora o conceito de drama tenha uma amplitude bastante grande e possa aplicar-se a quase tudo, a avaliação global da antologia não passa do razoável.

Por outro lado, este livrinho teve para mim a vantagem, relativamente a vários dos outros, de me ter proposto três contos que nunca tinha lido, o que me proporcionou uma experiência mais fresca do que aconteceu com os Contos Imaginários ou os Contos Fantasmas, entre outros. Suponho que por se debruçar sobre um tipo de história que não costumo consumir e portanto conheço pior. São as vantagens da ignorância.

É livro que vale a pena ser lido? Para ser fiel à minha velha ideia de que basta conter uma história realmente boa para valer a pena, só posso responder que sim, é. Não me agradou muito, é certo, mas valeu a pena.

Eis o que achei dos três contos:
Este livro foi comprado.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Lido: O Senhor das Aranhas

O Senhor das Aranhas (bibliografia) é um pequeno romance de uma ficção científica retro de Michael Moorcock, o segundo (ou o primeiro, dependendo do ponto de vista) da sua série sobre as viagens marcianas do herói Michael Kane. Escrito como óbvia homenagem (ou será pastiche?) ao Barsoom de Burroughs, é tão pulp como o original mas falta-lhe toda a sua frescura (hoje já algo bafienta) e originalidade. Pelo contrário, este Marte de Moorcock tem um forte sabor a requentado.

Tudo neste livro é antiquado. O expediente literário, que coloca a história na condição de relato de segunda mão, feito por alguém a quem o protagonista terá contado as suas aventuras, é algo que nos chega já do século XIX e foi muito comum muito antes de 1965, data de publicação original deste romance. O ambiente e até o próprio herói remontam às aventuras de Edgar Rice Burroughs, que começaram a aparecer em 1912, e têm também ligações com os romances de aventuras pelas paragens exóticas do nosso mundo, entre estranhos povos e animais mais estranhos ainda, muito comuns mais cedo ainda.

O que é mais curioso é isto ter sido escrito por Michael Moorcock, um dos expoentes da New Wave britânica (pode mesmo argumentar-se que foi o principal), um movimento de escritores de ficção científica e fantasia que, descontente com o estado do género nos anos 60, que achavam estagnado e demasiado conservador, o revolucionou e refrescou. Geralmente considera-se que o momento em que esse movimento nasceu foi quando Moorcock se tornou editor da revista New Worlds. Ora isso aconteceu em 1964... e este livro foi publicado no ano seguinte.

É possível que Moorcock tenha achado graça a estar a revolucionar o género ao mesmo tempo que fazia publicar, sob pseudónimo (os livros de Kane surgiram originalmente assinados como Edward P. Bradbury), trabalhos que já então estavam décadas fora de moda. Por outro lado, a tendência para o pastiche de velhos monstros sagrados do pulp é mais ou menos constante na sua obra; a sua série mais bem conhecida, Elric, é uma fantasia de espada e feitiçaria inspirada por Robert E. Howard.

Seja como for, o resultado é muito mauzinho. Tudo é mais ou menos previsível, os bons são bons, os maus maus, as aventuras peripeciosas, o herói desenrascado e bom rapaz e acaba inevitavelmente por trocar umas beijocas com a mocinha (que neste caso é alienígena e bem grande) e a leitura, por conseguinte, bocejante.

Se pulp é em geral mau e formulaico (ou é mau porque formulaico), pulp que se resume à mera aplicação de fórmulas criadas décadas antes é-o dupla ou triplamente. E eu posso ter alguma simpatia por homenagens a velhos heróis literários ou por piscadelas de olho aos conhecedores e graças privadas, mas no fim de contas o que realmente importa é o que disso sai. E o que disso saiu, neste caso, não é nada famoso.

Por outro lado, lá está, há quem goste. Eu não.

Este livro foi comprado.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Lido: Agenda de Paulo Portas

Agenda de Paulo Portas é a terceira (e última) das agendas criadas pelo José de Pina para algumas das peculiares criaturas da nossa vida político-mediática de há 10 anos, algumas das quais, como se vê, continuam ainda hoje alaive-ende-quiquingue, como se diz em práquistanês. Esta é como as outras, só que mais divertida, talvez porque a própria personagem é mais divertida. E eu, que não me lembro do Portas ter tido tanto cuidado com o peso, ri-me, pois então. Fazer o quê?

Esta quase merece o epíteto de hilariante. Quase.

Textos anteriores deste livro:

Lido: Engenhos Mortíferos

Engenhos Mortíferos (bibliografia) é um romance de ficção científica pós-apocalíptica, de Philip Reeve, que, pese embora uma pegada algo juvenil e o enredo aventuresco que ela traz consigo, é muitíssimo interessante. Diria mesmo que é francamente bom.

Em boa medida porque parte de um magnífico "e se".  E se, num tempo futuro indeterminado, a maioria das pessoas vivesse não já em cidades estáticas, sedentárias, mas em urbes móveis, transformadas em gigantescos veículos que percorrem os continentes em busca de presas, outras cidades e povoamentos mais pequenos, móveis ou não, que, à falta de outras fontes de recursos, servem para as alimentar de matérias-primas para o seu crescimento e sobrevivência?

O cenário é a Europa, mas uma Europa irreconhecível, despovoada, reduzida por séculos desta estranha espécie de "darwinismo municipal" a ermos quase desabitados, marcados pelos gigantescos rastos entrecruzados deixados pelas lagartas das cidades vencedoras, ou pelo menos sobreviventes. Entre estas, uma das maiores e mais poderosas é, claro, Londres, ou não fosse o autor britânico, e é aí que a história arranca.

No entanto, a civilização do "darwinismo municipal" não é a única a sobreviver no planeta. Bárbaros vagueiam também pela Terra, esquivando-se e escondendo-se como ratos frente a esta nova espécie de superdinossauros mecânicos, alimentando-se dos seus restos. E há boatos, transmitidos de boca em boca, no ocidente, com um misto de assombro e descrédito, histórias de ouvir contar que provavelmente serão apenas mitos, de que algures a oriente cidades sedentárias ainda resistem aos novos tempos.

O cenário é soberbo, um cozinhado de diversos temas e influências, entre os quais a abordagem steampunk ganha relevo apesar de este não ser um livro steampunk (a maquinaria tem tudo a ver com o subgénero, mas nada existe aqui do retrofuturismo que lhe está inerente), que Reeve enriquece com uma história de amizades (ou será amores?) improváveis, um velho mistério que envolve antigos crimes e que põem os protagonistas em perigo mortal e numa fuga repleta de peripécias, acasos e azares, e uma velha superarma, encontrada por um explorador dos territórios selvagens, que o dirigente supremo de Londres procura a todo o transe fazer funcionar para... para quê? Isso já será dizer demasiado.

Não encontramos aqui uma ficção científica sofisticada, hipertecnológica, daquela FC que coloca questões relevantes para o presente e o futuro e se debruça profundamente sobre elas. Mas este livro também não tem nada de pulp à moda antiga. É uma história de ficção científica de aventuras, baseada num cenário original e muito bem concebido, com uma ideia base de se lhe tirar o chapéu e que, se faz lembrar alguma coisa, é, pelo cenário, pelo ritmo, pela abordagem ao ato de contar histórias, as antigas histórias extraordinárias de Júlio Verne.

Bom. Realmente bom.

Este livro foi comprado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Lido: A Menina Grande do Papá

A Menina Grande do Papá é um conto de Ursula K. LeGuin sobre a vida de uma rapariga invulgar que pura e simplesmente não para de crescer. Algures entre a fantasia, o realismo mágico e o horror, é uma boa história, como seria de esperar de LeGuin, embora não chegue à magnificência das suas melhores obras.

É difícil falar desta história sem a revelar demasiado, pois parte do seu encanto reside no lento desvendar da evolução da "menina grande" desde a miúda pequena que nos é apresentada no início do conto, apenas um pouco maior que a irmã mais velha, até... àquilo em que ela acaba por se transformar quando o texto chega ao fim. Digo-vos apenas que não se trata de um mero caso simples de gigantismo, de alguém que atinge os dois metros, dois metros e picos. Não, não é só isso.

Sem dúvida um belo conto. Sobre a invulgaridade e a marginalização que ela implica, sobre a família, sobre o amor, sobre mais algumas coisas. Se puderem, leiam-na.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: Showcase

Showcase, de autora anónima (mas há insistentes boatos de que se trata de Sarah Singleton), e sim, o facto de ser uma autora é bastante evidente mesmo sem se conhecer o nome, é um daqueles contos que se leem mesmo até ao fim sem se perceber muito bem o que terão de fantástico, só para aparecer a meras dezenas ou centenas de palavras do derradeiro ponto final um "ah!" de entendimento. Até aí, trata-se de um conto muito mainstream sobre desencontros de vontades, centrado numa mulher que espera o namorado para ir ver um filme e sofre sucessivas indignidades, calada ou protestando apenas debilmente, quando ele primeiro chega atrasado e logo encontra um amigo que lhe vai fazer descarrilar definitivamente os planos.

Está bem escrito, sim, mas não gostei muito deste conto. Tem demasiada banalidade e o final não é surpreendente o suficiente para que essa banalidade se dissipe ou perca importância.

Contos anteriores desta publicação:

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Lido: O Patriota Improvável

O Patriota Improvável (bibliografia) é um conto de Maria de Menezes ambientado num presente alternativo de um Portugal em que, claro (visto ser esse o tema do livro), a monarquia não chegou ao fim. Bem escrito, em ambiente de comédia social, o conto poderia ser bom se dedicasse um pouco mais de espaço e tempo ao enredo e um pouco menos às crises e angústias causadas ao protagonista (um burguesito com vapores aristocráticos, enfadado e blasé, centrado apenas e só em si mesmo) pela doida da ex-mulher (doida e esquerdista caviar e ainda por cima (já disse?) doida... pelo menos sob o ponto de vista do protagonista, que também é narrador e sem qualquer dúvida vota naquilo que no seu mundo alternativo equivale ao nosso CDS), que até seriam interessantes como construção das personagens mas vão muito além disso; o suficiente para se tornarem uma chatice.

Mas com um bom desbaste nessa parte, uma página, página e meia, a menos, e com uma exploração um pouco menos banal e mais profunda da ideia base, o efeito e a importância da imagem para os titulares de cargos institucionais (no caso os membros da família real), que apesar de ser o mais importante é introduzido na narrativa tardiamente, o conto seria bom. O texto propriamente dito é de qualidade, o que torna o conto agradável; só o conteúdo é que não o é lá muito, o que o impede de ir além disso. Pena.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Lido: Contos Imaginários

Contos Imaginários (bibliografia) é mais uma das pequenas antologias que aqui há anos foram publicadas em conjunto com o DN. Desta feita, o tema é ficção científica, e os contos são apenas dois, muito diferentes um do outro; um de uma ficção científica já centenária e por isso mesmo bastante envelhecida, ainda que de certa forma seja também estranhamente moderno, o outro de uma FC bem mais contemporânea, que se serve da linguagem da FC para refletir sobre a religião, a sua origem e a sua razão de existir, com um certo caráter metaliterário, pois essa reflexão é indissociável de uma outra, sobre o poder das histórias.

É uma boa antologia, das melhores de toda esta série, em parte por não se resumir ao cânone e apresentar em vez disso ao leitor duas histórias que não costumam constar das listas de obras incontornáveis (e sucessivamente republicadas) do género. É certo que nos dias que correm é difícil encontrar alguma obra de ficção científica que seja publicada, quanto mais "sucessivamente republicada," mas não deixa de ser também verdade que, mesmo em épocas mais recuadas em que a FC era presença regular nas livrarias, estas duas histórias ficaram de fora da edição portuguesa. E são ambas histórias interessantes, ainda que para o meu gosto pessoal a de Martin seja muito superior à de Pollack.

Eis o que achei sobre as duas histórias:
Este livro foi comprado.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Lido: Agenda de Freitas do Amaral

Agenda de Freitas do Amaral é como a de Santana Lopes, só que de Freitas do Amaral. E agora vocês dizem "Duh!". Mas esperem, mas esperem, eu explico! O autor é o mesmo, o estilo é o mesmo, a piada é a mesma, ou um pouco maior porque, segundo a agenda do bom do Freitas, ele está sempre ao telefone a manifestar apios vários, começando no CDS e indo por aí fora. Quem saiba alguma coisa sobre a política portuguesa dos últimos anos bem sabe para onde. Portanto é a mesma coisa, mas nem por isso.

Sim, francamente divertido.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Lido: Agenda Política de Santana Lopes

Agenda Política de Santana Lopes é uma lista cronológica de atividades políticas (e "políticas") de um Santana Lopes de há 10 anos. O seu autor é José de Pina e não é possível falar muito dela sem estragar a piada a quem for lê-la. Digamos apenas que tem graça, e que nos mostra um Santana a obedecer fielmente àquilo que a vox populi pensa(va) dele, também hoje, mas especialmente na época da sua fugacíssima e não menos atabalhoada passagem pelo cargo de Primeiro Ministro.

Divertido. Bastante divertido.

Textos anteriores deste livro:

Lido: O Jardim Diabólico

O Jardim Diabólico (bibliografia) é uma antologia temática, já de idade algo avançada, que colige histórias de ficção científica e horror sobre estados vegetais alterados, mais ou menos inexplicados ou inexplicáveis e por isso mesmo perigosos. Com alguns nomes sonantes e alguns ilustres desconhecidos, é daquelas antologias que logo à partida se encaram com interesse porque o tema comum é interessante mas também com cautela porque o conjunto de autores faz temer que seja desequilibrada.

E é mesmo.

Há aqui contos de quase todas as qualidades, do excelente ao francamente mau, só faltando mesmo uma história péssima para deixar o ramalhete completo. Mas, além de ser desequilibrada, é também uma antologia que vale a pena ser lida: sou há muito de opinião que basta conter um conto francamente bom para que uma antologia valha a pena, e esta não é exceção. Vale pelo conto de Bradbury e por mais alguns, apesar dos dois ou três contos muito dispensáveis que também contém.

Também é uma antologia curiosa porque mostra com grande clareza algo sobre a psique humana. É curioso que em tantos destes contos a vegetação ameaçadora seja uma vegetação luxuriante, agigantada, descontrolada, que derrota o esforço "civilizador" do homem através da força pura do crescimento. É a selva invasora, com os seus horizontes limitados e a sua abundância de esconderijos onde podem estar ocultos perigos de todos os géneros, a criar inquietude e ameaça. É curioso que isto se possa encontrar em tantos dos contos, independentemente da qualidade de cada um e independentemente também de serem modernos (em relação à publicação original da antologia em 1976, bem entendido) ou não.

Não é uma boa antologia? Não, não é. Mas é uma antologia razoável e com um interesse muito próprio.

Eis o que achei das histórias individualmente consideradas:

Este livro foi comprado.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Lido: Dia de Celebração na Sala de Reuniões

Dia de Celebração na Sala de Reuniões é um conto de James Joyce que, apesar do subtítulo do livro em que foi incluído, nada tem de caricato. Trata-se de um conto sobre a pequenez, no qual Joyce olha com ironia para o ambiente político do seu país e para a mesquinharia das campanhas políticas, do diz-que-disse, dos "grandes homens" que tantas vezes o são tão pouco, por aí fora. Apesar de ser um conto muito britânico, pois as tradições políticas nas ilhas têm características muito específicas, é um conto que até diz bastante a um leitor português porque a pequenez que tem na sua base nos é demasiado familiar. Faz ocasionalmente lembrar Eça.

Está é longe de ser um conto de "comédia urbana." Tem ironia, é certo, mas subtil, e o humor que ela traz é mais compreendido com a frieza do intelecto do que sentido. A reação típica é mais a de "ah, sim, isto é uma ironia do autor" do que a do sorriso espontâneo. Isso não é mau, evidentemente, mas não me custa imaginar que alguém que pegue num livro que promete comédia se sinta defraudado ao ler um conto destes. Nenhuma culpa de Joyce, toda de quem o escolheu.

Já agora, sim, o conto é bom. Esteve longe de me encher as medidas, mas é bom.

Conto anterior deste livro:

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Lido: FC — O Melhor da Ficção Científica, nº 1

FC — O Melhor da Ficção Científica, nº 1 (bibliografia) é o primeiro número de uma das várias efémeras e grandemente infrutíferas tentativas de implantar em Portugal uma revista de ficção científica à semelhança da Asimov's ou do Magazine of Fantasy and Science Fiction. Sem data, contém dois contos, um conto curto e duas primeiras partes de romances, de longe os textos maiores, tudo datado originalmente, de 1967, o que faz supor que a edição portuguesa datará talvez de 1968 ou 1969. Que eu conheça, esta tentativa em concreto teve apenas dois números publicados, morrendo quase antes de nascer.

Vejo dois grandes problemas neste número 1, que provavelmente explicarão boa parte do falhanço.

Um é a péssima qualidade das traduções que, embora oscile, chega a ser em alguns textos desastrosa.

Outro é a revista se reclamar de "o melhor da ficção científica" mas depois apresentar nomes como B. K. Filer, completamente desconhecido e com muito bons motivos para isso, Keith Laumer, autor mediano nos seus melhores momentos, Terry Carr que, embora fosse excelente antologista, deixava muitíssimo a desejar enquanto escritor, A. Bertram Chandler, outro autor que também nunca ultrapassou a mediania e, finalmente, Vernor Vinge, o melhor dos cinco, mas que nesta época estava mesmo no início da carreira, muito longe do que viria a ser mais tarde.

Os textos são, em geral, maus. Dos contos completos quase nada se aproveita, seja por o material de origem ser fraco, seja porque a tradução consegue estragá-lo ainda mais. E quanto aos inícios de romances, o de Chandler é uma space opera à antiga (já em finais dos anos 60 era à antiga), um dos seus livros sobre as aventuras do soldado Grimes, completamente pulp, tão desinteressante ou tão interessante como será de esperar consoante o leitor goste ou não goste de pulp (e como eu não gosto...).

O texto mais interessante é o início do romance Homem do Espaço, de Keith Laumer, um romance planetário que de início parece ser uma espécie de Robinson Crusoe no espaço. Lê-se com certo agrado, apesar de ser necessário dar o desconto necessário aos ataques de machismo de que autor e herói (um tal Billy Danger... e com este nome já nem é preciso explicar que também esta história é pulp, não é verdade?) sofrem com irritante regularidade... mas depois acaba sem acabar. O leitor terá de ficar à espera do número seguinte da revista e este leitor que aqui vos escreve, como é óbvio, não o tem.

Ora, batatas.

Em suma: esta revista falhou porque, com tão pouca qualidade, nunca poderia não falhar.

Eis o que achei das histórias completas:
Esta revista foi, se bem me lembro, oferecida.

Lido: Egnaro

Egnaro (bibliografia) é um conto de fantasia de M. John Harrison, muito bem escrito, muito bem concebido, sobre uma espécie de lugar intersticial que como que existe oculto entre as malhas do tecido da realidade e ao qual só algumas pessoas têm acesso. Egnaro, assim se chama esse lugar, que nunca chegamos propriamente a ver (a menos que a história que aqui se conta nos leve a vê-lo... levará?) mas do qual vamos ouvindo falar ao longo de toda a história.

De certa forma, trata-se de um exercício metaliterário, sobre os lugares inexistentes que só existem nas histórias que lemos e que tão reais, tantas vezes, se tornam para nós, leitores. Uma reflexão sobre como a literatura transmite de pessoa em pessoa a ideia desses lugares, como se se tratasse de um qualquer contágio infeccioso, sobre como tantos são os que neles se refugiam das insuficiências e insatisfações deste mundo palpável a que gostamos de chamar realidade.

M. John Harrison fá-lo recorrendo à história de um homem, negociante falhado, de momento dono de uma peculiar livraria cujas contas são feitas pelo narrador (em primeira pessoa), o qual, por sua vez, nos é apresentado com alguém que também vive uma existência algo precária. Duas pessoas solitárias, portanto, sem raízes que se vejam, algo marginalizadas, presas no contraste entre antigos sonhos e as realidades deprimentes dos respetivos presentes. Duas pessoas prontas para mergulhar em Egnaro e, quem sabe?, talvez não regressar.

Este é um conto muito bom, de uma fantasia que quase se aproxima, pela sua ambiência e até pela abordagem literária e pela poesia que joga às escondidas nestas páginas, de um certo tipo de realismo mágico, ainda que mais europeu do que latinoamericano. Seja como for, literatura de primeira água.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Lido: O Caçador de Étês

O Caçador de Étês é uma coletânea de José Alberto Braga que reúne, julgo eu, anos de produção humorística, entre crónicas, pequenos contos, caricaturas, listas da mais variada índole e até sketches inteiros. Braga é um jornalista português que se radicou no Brasil e aí permaneceu várias décadas antes de regressar ao país natal, colaborando numa série de publicações relevantes em ambos os países.

Neste livro, que tem prefácio de Raul Solnado e não se percebe lá muito bem onde começa mesmo, ou seja, onde das introduções e prolegómenos (tem vários e várias) se passa aos textos propriamente ditos, reúne um número elevado de obras, quase todas muito pequenas, noção que facilmente se obtém deitando uma olhadela à lista que se estende abaixo, multiplicando-a por dois, pois os textos corridos e as caricaturas estão praticamente intercaladas ao longo de todo o volume e eu das últimas não falei, e tendo em conta que o livro contém meras 165 páginas. Incluindo o índice.

Com tanta coisa misturada, é natural que haja diferenças, por vezes significativas, tanto na qualidade puramente literária, como no grau de graça ou até na inteligência do humor empregado. Não achei nenhuma destas coisas propriamente brilhante, mas houve várias de que gostei bastante... embora também tenha havido várias de que não gostei. Em geral, o humor de Braga baseia-se a meu ver demasiado em trocadilhos e há nele uma predisposição para deixar a ideia em bruto, sem lhe dar o desenvolvimento que ela por vezes pede. Há nas listas frases que dariam pequenos contos, há pequenos contos ou crónicas que os dariam grandes e por aí fora. Há, parece-me, muita palha. Mas também há algumas pedras mais ou menos preciosas lá no meio.

O título faz supor algum alinhamento com a ficção científica e com a literatura fantástica. Nisso, é um pouco enganador. Existe FC e fantástico nestas páginas, é certo, mas são escassos os textos que seguem esse caminho e entre os que o fazem nunca é esse o fulcro. O fulcro está sempre no humor, e o fantástico é mera ferramenta, usada ocasionalmente e nem sempre bem, para chegar objetivo de fazer sorrir.

Sorrir apenas. Não se acham aqui gargalhadas.

Sim, é verdade, apesar da mancheia de preciosidades não gostei muito. Principalmente porque foi demasiado frequente não achar graça o que, num livro de humor, é fatal.

Eis o que fui achando dos vários contos:
Este livro foi comprado.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Lido: Berenice's Journal

Berenice's Journal, de autor anónimo (mas se ficarem muito caladinhos eu digo-vos que é de Richard Gavin) é um conto de horror que se finge de diário. O conto é curtinho, portanto o diário não o é propriamente, não passará de um excerto, que se inicia quando um vizinho se muda para o prédio onde vive a diarista. Bonito, o homem cai-lhe no goto e ela começa a ter fantasias sobre ele, as quais, como é evidente, nunca se concretizam. Pior: depressa outra mulher aparece na história, uma rival que nem sabe que o é e que faz com o vizinho tudo aquilo que a louca queria fazer.

O horror propriamente dito está ausente até mesmo ao fim, embora haja desde o início uma atmosfera inquietante que antecipa que algo de mau vai acabar por acontecer mais cedo ou mais tarde. E este cedo ou tarde vem a ser os dois últimos parágrafos do conto/diário. O mais interessante é que este desenlace é inesperado apesar de toda a expetativa. Sim, qualquer leitor que não seja inteiramente desatento está de certeza à espera de que algo de bizarro aconteça, mas o acontecimento concreto apanha-o de surpresa... e faz-lhe percorrer a espinha por um arrepio.

É outro bom conto desta publicação, embora a meu ver não chegue ao nível de alguns dos outros.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: Contos Fantasmas

Contos Fantasmas (bibliografia) é uma pequena antologia de quatro contos sobre fantasmas, escritos por outros tantos nomes grandes da literatura. E é uma boa antologia, embora sofra de um mal de que sofrem tantas outras publicações baseadas no cânone: leitores com alguma experiência acabam inevitavelmente por nelas encontrar coisas já lidas anteriormente, o que reduz o valor que para eles acabam por ter, especialmente se, como no caso desta, nem uma tradução diferente introduz alguma novidade na leitura.

É uma boa antologia porque globalmente não desilude. Um dos contos, o de Dunsany, é excelente, outro é surpreendente, tendo em conta a escritora, o de Wells é algo banal mas também não deixa de ter qualidade e só o de Stevenson fica bastante aquém do que dele se poderia e talvez deveria esperar. Não fosse este último, a antologia subiria até ao muito bom, mas mesmo assim permanece no bom. Claramente uma das melhores destas pequenas antologias publicadas com o DN.

Eis o que achei sobre cada um dos contos:
Este livro foi comprado.