sábado, 11 de abril de 2015

Lido: Ligeia

Ligeia (bibliografia) é um conto de Edgar Allan Poe que... hm... que eu já tinha lido, e há relativamente pouco tempo. Terei falado aqui dele?

Ora pois falei, sim senhores. Está aqui, a opinião que tive então. E que devo dizer que é, sem tirar nem pôr, a mesmíssima que tive agora.

Às vezes acontece que diferentes leituras das mesmas obras dão origem a opiniões diferentes, em especial se se trata de traduções, e de traduções diferentes por tradutores diferentes, ou quando o período decorrido entre uma e outra é suficiente para o leitor já não ser propriamente o mesmo. Não foi o que aconteceu aqui, apesar de temos traduções diferentes e quatro anos e meio de intervalo entre leituras.

Mérito do Poe, claro.

Conto anterior deste livro:

Lido: Os Filhos do Fogo

Os Filhos do Fogo (bibliografia) é uma curiosa noveleta de Jorge Palinhos que me fez lembrar um pouco O Prestígio, de Christopher Priest. O protagonista, também narrador, é um homem de certas posses, como costumava dizer-se nas histórias de antigamente, amigo da cultura e de tertúlias, que a páginas tantas, numa dessas tertúlias, conhece um tal Casimiro Gonçalves, poeta de vulto e de mérito. Nada de mais? Não tanto assim. Qual não é o seu espanto quando, dias mais tarde, acorda a meio da noite com o mesmíssimo Casimiro no seu quarto, em cima de si, a tentar sufocá-lo com uma almofada.

Palinhos arranca daqui para construir uma história mirabolante, num ambiente e num estilo muito oitocentistas. O que a faz mover é, claro, o mistério em volta de Casimiro Gonçalves, e por isso mesmo não o irei detalhar. Direi apenas que o ambiente oitocentista inclui também uma certa abordagem um pouco, digamos, "etérea" às questões físicas e que isso tem relevância central para o enredo, além de ser aquilo que mais me levou a recordação até ao romance de Priest.

A noveleta é boa. Bastante, mesmo. Poderá exigir um certo esforço para suspender a descrença mas, uma vez esse esforço bem sucedido, fica-se livre para apreciar uma história muito bem estruturada e bem escrita, com toques de humor nos lugares certos.

A única coisa que me deixou algumas dúvidas foi a forma como ela se encaixa nas restantes que compõem o livro. Pareceu-me destoar um pouco; as duas histórias lidas antes dela nada têm dos toques novecentistas que Palinhos inculcou na sua, o que faz com que esta última tenha um certo ar de corpo estranho. Mas a verdade é que pode perfeitamente ser só impressão ilusória e passageira; afinal de contas, é apenas a terceira história em 17.

Contos anteriores deste livro:

Lido: The Drowned

The Drowned é um conto de (Joel Lane) autor anónimo, contado na primeira pessoa, sobre uma relação amorosa entre dois homens, um dos quais HIV-positivo. À primeira vista pouco parece ter de fantástico (o que só tem relevância porque é nisso -- e no anonimato provisório dos autores -- que se centra esta revista). A história vai-se desenrolando, da sedução à paixão, desta a uma vida em comum entre aberta e clandestina, e pelos altos e baixos de qualquer relação sentimental entre duas pessoas, embora carregada pelo facto de uma delas estar doente.

Até que entra o tema da água. O protagonista-narrador, ao ficar a saber que o namorado tem medo de água e não sabe nadar, decide que há de o ensinar para lhe afastar os receios. E consegue. E passado algum tempo vai com ele de férias para o litoral, onde pretende acabar-lhe com o resto da fobia com uma sessão de natação no mar. E é aí que se dá um primeiro desenlace (a história ainda se prolonga relatando superficialmente o resto da relação), com a irrupção de um fantástico muito todoroviano numa história que até então era inteiramente realista.

Trata-se de mais um bom conto. Bem escrito, bem desenvolvido e bem concluído. Não aconselhável a homofóbicos (e daí...), mas bom.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: A Encenação

A Encenação (bibliografia), conto de José Manuel Lopes, é outra história alternativa com bastante interesse (duas de seguida! uau!), principalmente porque não se conforma ao plano ficcional específico de si própria, se me perdoarem a frase bombástica.

É que a história tem vários níveis. No primeiro, é uma história relativamente simples na qual se conta com detalhe como, por que motivo e através de que personagens falhou uma conspiração que pretendia matar o rei no ano de 1908, com o objetivo último de acabar com a monarquia. Quem saiba algo da história de Portugal, sabe que essa conspiração não falhou, o que nos coloca na alternativa histórica que é imagem de marca do género história alternativa.

Mas por trás desse nível, há outro. Um subtil jogo com a ideia de universos paralelos, e até mesmo algumas alusões metaficcionais, que o autor introduz no texto por intermédio de sonhos e devaneios. É coisa arriscada, que nem sempre sai bem. Na verdade, na maior parte das vezes sai mal. Mas o resultado, aqui, é interessante, porque Lopes consegue inverter a situação bem o suficiente para que o leitor como se se entreveja nos interstícios da história e ache isso natural.

Não me parece que seja conto que agrade a toda a gente, mas a mim agradou.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Lido: As Unhas dos Pés

As Unhas dos Pés é outro texto do Nuno Markl, com o muito em comum com o anterior que seria de esperar, mas que funciona melhor enquanto texto lido. O motivo é duplo: por um lado, o texto em si está menos dependente da voz do Markl para funcionar, é um texto menos radiofónico; por outro, vem acompanhado de bonecada ilustrativa (feita pelo próprio, claro, e quem já viu os desenhos do Markl pode ter uma ideia bastante concreta do que aqui se pode encontrar), que o complementa bastante bem.

O tema são, claro, as unhas dos pés, mais propriamente as unhas de pés masculinos. Não propriamente enquanto tal, mas enquanto barómetros do estado da relação do feliz possuidor das unhas (que são, como toda a gente sabe, uma chatice do caraças para cortar) com a respetiva cara metade. E tem graça, sim senhor. Tem bastante graça.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Lido: Manuscrito Encontrado Numa Garrafa

Manuscrito Encontrado Numa Garrafa (bibliografia) é um conto de horror de Edgar Allan Poe, escrito em forma de depoimento pelo protagonista, que, como o título indica, o terá lançado ao mar dentro de uma garrafa na esperança de um dia alguém o encontrar. Nesse depoimento é relatada uma mirabolante história de naufrágios, salvamentos in extremis e misteriosas viagens por um mundo e num navio alterados e mais que um pouco fantasmagóricos, principalmente o navio, visto ser tripulado por marinheiros que são descritos como homens (serão homens?) quase incompreensivelmente envelhecidos.

É um conto excelente, como seria de esperar de Poe, e que põe em cheque alguns clichés sobre a arte da escrita que se têm tornado populares nos últimos tempos. De facto, aqui Poe não mostra nada, conta tudo. E no entanto não há neste conto nada fora do sítio, o que indica que não é no contar ou mostrar que está a questão, mas na qualidade do texto e na perícia com que o autor transmite ao leitor o que pretende transmitir.

Um conto de leitura muito aconselhável, em particular aos que pensam que as receitas que aprendem em cursos de escrita criativa são o alfa e o ómega da criação literária.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Lido: Venha a Mim o Nosso Reino

Venha a Mim o Nosso Reino (bibliografia) é um conto eletropunk do estreante Ricardo Correia sobre a queda e morte (ou será que não?) de um tal Luís Couto, supremo reverendo da Igreja do Deus Eletromagnético.

O conto começa bastante bem, com uma boa descrição de quem Couto foi antes de ter "encontrado a vocação", intercalada por cenas em que se mostra quem ele é: um arrivista ambicioso, que se serve da religião e das ligações ao mais alto nível que a sua condição de líder lhe traz para obter informações e, consequentemente, poder. E também sexo, muito sexo.

No entanto, se nos abstrairmos da condição de estretante do autor, e apesar de conter várias ideias interessantes, o desenvolvimento da história deixa algo a desejar, desembocando numa cena de violência sem grande profundidade e repleta de exageradíssimas onomatopeias que poderão ficar bem numa BD mas em texto corrido se tornam... bem... ridículas. ("VvvvrrrrrrrBRRRRAAAAMM"? A sério?)

Mas a verdade é que Correia é estreante na literatura propriamente dita, embora já tenha experiência na arte de contar histórias através da BD. Portanto, sendo certo que ainda tem muito a aprender, não é menos certo que a estreia é auspiciosa. O conto não é mau, tem trechos até bastante bons, e poderia mesmo ser globalmente bom com um pouco mais de solidez literária. Também é algo prejudicado por se seguir a um bom conto do Barreiros, mas nisso a culpa não é dele.

É, decididamente, autor a manter debaixo de olho.

Conto anterior deste livro:

Lido: Estacionamento Proibido

Estacionamento Proibido (bibliografia) é um conto de Maria de Menezes, no qual um polícia extraordinariamente obtuso, dividido entre o afã de passar multas aos muitos prevaricadores automóveis da capital e a falta de vontade de andar de um lado para o outro no meio da chuvada que vai caindo, depara com um veículo invulgar. E, pouco depois, com o não menos invulgar dono do veículo.

O leitor, ou pelo menos o leitor que não seja tão obtuso como o guarda (e seria difícil sê-lo) depressa percebe que veículo e condutor não são deste mundo, e vai assistindo, incrédulo e divertido, aos malentendidos com que o bom do polícia vai explicando a si próprio as peculiaridades do indivíduo que lhe caiu na rifa.

E basicamente, o conto é isso. Uma história situacional, centrada nos malentendidos do polícia e na boa vontade atrapalhada do ET.

Outra vez comédia, claro. E de novo comédia com um revestimento de ficção científica razoavelmente ténue, agora pertencente à variante ufológica. Mas como desta feita a comédia tem mesmo graça, sendo nisso auxiliada pela ausência de distrações ortográficas e por uma maior agilidade e brevidade do texto, gostei bastante mais deste conto do que da noveleta de abertura.

Conto anterior deste livro:

domingo, 5 de abril de 2015

Lido: Striped Pajamas

Striped Pajamas é mais um brevíssimo conto de autor anónimo (segundo os boatos cochichados pelas esquinas é de Margaret B. Simon), contado na segunda pessoa, sobre uma despedida. Ou talvez sobre uma libertação. Sobre um suicídio?

O conto não é claro. É daqueles contos que sugerem mais do que dizem, deixando-se propositadamente ocultar atrás de um véu de ambiguidade. E fá-lo bem; nesse sentido é um bom conto. Também o é por tratar bem a língua inglesa. Mas o facto é que não gostei muito dele. É demasiado curto e demasiado vago para me ter realmente agradado. Pareceu-me ter havido muito — demasiado — que ficou só na cabeça da autora, sem sequer se deixar espreitar através do texto propriamente dito. Se fosse mais longo talvez fosse melhor. Só talvez. Mas mesmo assim não é um mau conto.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: A Noite das Marionetas

A Noite das Marionetas (bibliografia) é um conto de história alternativa de João Seixas ambientado num 1916 alternativo, num universo em que a monarquia se prolongou para lá de 1910, mas em que a instabilidade que caracterizou o início do século XX em toda a Europa não deixou de existir e de ter efeitos e consequências.

Este é, sem quaisquer reservas, um bom conto. Porque cria uma alternativa histórica credível e inteligente, sem a ultrassimplificação (ou a pura e simples ignorância do que é a história alternativa) que é imagem de marca de tantas das histórias presentes neste livro, porque está bem concebido, intercalando narração em primeira pessoa, feita por um dos principais protagonistas da ação, com depoimentos e documentos relevantes para a investigação dessa mesma ação, décadas mais tarde, que funcionam bem para dar ao leitor a informação relevante de uma forma que faz todo o sentido literário, evitando introduzir infodumps a seco e à pressão, e porque está bem escrita.

E só não é um excelente conto porque padece de um certo excesso de enrodilhamento narrativo, correndo o risco de se tornar confuso para muita gente. Tentando não revelar demasiado sobre a história, porque o seu desvendar constitui boa parte daquilo que prende o leitor ao conto, ela tem a ver com uma conspiração que envolve pretendentes ao trono, republicanos, maçons, alemães, ingleses e espanhóis, a Primeira Grande Guerra e as principais colónias portuguesas em África, alvo de cobiças variadas, cobiças essas que tanto contribuíram para a guerra. No meio de tudo isto, o protagonista, um certo Padre Marietti, comporta-se de forma muito pouco eclesiástica.

Sem dúvida a melhor história do livro, pelo menos até agora.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 4 de abril de 2015

Lido: A Educação Física

A Educação Física é uma crónica inteiramente típica de Nuno Markl. O tema é, claro, a educação física e o trauma que tal disciplina terá provocado no jovem Nuno. A coisa é mirabolante e mete humilhação e cuecas brancas. E sim, tem graça, mas a maior parte dessa graça nasce quando imaginamos a crónica a ser dita na rádio, na voz do Markl, com as suas inflexões e hesitações, com aquele tom de só-a-mim-acontecem-coisas-destas que ele tanto e tão bem usa. Duvido que quem nunca o tenha ouvido contar uma destas histórias se divirta por aí além com este texto. É texto para ser ouvido, não para ser lido. Nem que seja só no rádio da memória.

Textos anteriores deste livro:

Lido: O Turno da Noite

O Turno da Noite (bibliografia) é uma noveleta de João Barreiros, de um misto de ficção científica e horror, que segue um turno de trabalho de um revisor de caminho de ferro. Mas não de algum caminho de ferro que conheçamos, pois estamos em plena realidade paralela, num outro ano 2000, bem diferente daquele por que passámos há 15 anos. A linha em que José Silvério — assim se chama o protagonista — trabalha é a Trans-sub-Tejo, uma linha de metro escavada num longo túnel por baixo do Mar da Palha, ligando a margem norte e a margem sul de uma outra Grande Lisboa.

Para quem conheça bem a obra de Barreiros, há muito nesta história que é reconhecível. Na verdade, se crítica se pode fazer com propriedade ao autor é repetir com frequência o mesmo tipo de personagem e de circunstâncias, embora em cenários distintos. Aqui, Silvério é um vencido da vida, mais um, uma vítima das circunstâncias, um homem que procura adaptar-se o melhor que lhe é possível a uma maré irresistível de entropia que o arrasta e submerge. E a história é a história desse arrastamento e submersão, da forma como Silvério lida com o inevitável. Da forma como ele estrebucha, tantas vezes mais por vontade do que por atos, contra um universo que conspira para o derrotar.

Já lemos esta história em outras tantas histórias de Barreiros. Mas a grande vantagem que esta repetição tem é criar condições para o apuramento, para já saber de trás para a frente com que ingredientes e cozedura há que executar a receita. Barreiros pode escrever muitas vezes a mesma história, mas a verdade é que a escreve muitíssimo bem. Mais comboio, menos comboio, mais Lisboa alterada, menos Lisboa alterada, mais fantasmas, menos fantasmas, a história costuma sair eficaz, ritmada, bastante bem escrita e interessante. Boa, portanto.

E esta não é exceção.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Lido: Como Fazer Sucesso e Subir na Vida

Como Fazer Sucesso e Subir na Vida (bibliografia) é uma longa noveleta de Maria de Menezes, de algo de semelhante a ficção científica, sobre um funcionário de alto nível do governo português (ou melhor, port-uguês) que concebe e põe em prática um mirabolante plano para, precisamente, fazer sucesso e subir na vida.

Escrito em forma de diário e na primeira pessoa, a noveleta é satírica e pretende, não fazer boa ficção científica, mas sobretudo gozar com as altas figurinhas do Estado, coisa que é tão comum nas letras portuguesas que até eu tenho de me confessar culpado de já ter feito o mesmo. A história ambienta-se quatrocentos anos num futuro bastante mal caracterizado, que seria igualzinho ao presente se não fossem algumas engenhocas futurísticas e uma muito gratuita (e francamente irritante) hifenização de meia dúzia de palavras aparentemente aleatórias, embora usadas com frequência ao longo do texto. Ele é Port-ugal, ele é junh-o, ele é univ-ersidade, ele é hist-ória, por aí fora. Porquê? Para quê? Mistério.

(Mistério, sim, apesar da sarcástica referência ao "49º Acordo Ortográfico". Compreender-se-ia se esta tolice viesse acompanhada por alguma espécie de inovação linguística. Mas não, nada. O texto é linguisticamente banal, ou mesmo conservador, limitando-se o seu "futurismo linguístico" a hífenes distribuídos ao calhas. Mais valia que tivesse mantido uma banalidade completa, francamente.)

Apesar disso, a história propriamente dita tem algum interesse. O protagonista, Ze Dassilva, é um ressabiado que não suporta a supina incompetência arrogante do seu direto superior hierárquico, um muito aristocrático "Lançarote Alb-uquerque." E por isso, quando o governo encarrega o seu departamento de preparar as comemorações do quarto centenário da entrada de Portugal para a CEE e os mil anos da Batalha de Aljubarrota, e fica sabendo que vem provisoriamente até ao país um aparelhómetro sofisticado, emprestado pelos americanos, que permite viajar no tempo, concebe um plano. E põe-no em prática.

Não direi que plano é nem o que daqui sai, embora pelo título do livro de que esta história faz parte já dê para suspeitar. Digo só que quando finalmente a história engrena, o que leva tempo a acontecer, ela se torna interessante e até vagamente divertida, embora até aí seja um bom bocado aborrecida. O suficiente para, no cômputo final, a noveleta atingir um nível razoável.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Lido: Viagem a uma Rua de Paris e à Origem dos Telefones Portáteis

Viagem a uma Rua de Paris e à Origem dos Telefones Portáteis é uma historinha aparentemente autobiográfica de Enrique Vila-Matas, que relata um encontro, em Paris, com um desconhecido que decide contar a história de como Hedy Lamarr, beldade austro-americana, desmentindo todos os clichés e preconceitos sobre a relação entre a beleza (e as mulheres, há que dizê-lo) e a inteligência, inventou o sistema FHSS de comunicação por rádio que, entre outras coisas, veio a possibilitar as modernas redes de telemóveis.

O conto está bem escrito e há nele um certo encanto gerado sobretudo pelas interligações que o autor apresenta entre lugares e personagens que à primeira vista seriam totalmente díspares, mas confesso não ter gostado muito. Mesmo sendo Lamarr uma personagem fascinante. O certo é que este tipo de texto nunca me despertou grande interesse, e este não é exceção.

Idiossincrasias pessoais, é o que é.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: Earthworks

Earthworks, de mais um autor anónimo (guardam segredo? Então é de Simon Kevin), é um conto muito interessante sobre uma mulher que em certa altura da sua vida se descobre alérgica ao mundo moderno. Não figurativamente (embora o simbolismo seja evidente): fisicamente. E por isso tem de se retirar para o interior de uma bolha de isolamento que a contém a ela e à sua coleção de objetos obsoletos, cortando todas as ligações com o mundo exterior e os contaminantes que ele carrega consigo.

O conto está francamente bem concebido, levando o leitor num balanço suave, em infodumps que mal se notam, sobre o passado e o presente, sobre a vida da protagonista, tanto a anterior ao isolamento como a contemporânea, sobre as pessoas que dela fazem e terão outrora feito parte.

A dar estrutura a tudo estão as escavações que ela a dada altura resolve começar a fazer em segredo e que dão título ao conto. Escavações que são uma mistura de arqueologia e fuga, uma espécie de retorno a épocas anteriores à modernidade que a põe doente. Dir-se-ia quase um regresso ao útero do tempo.

Um pouco ludita? Talvez; afinal de contas, a protagonista só no passado se encontra a si e à sua liberdade. Mas é provável que aqui se trate, mais do que de ludismo, da nostalgia pelo que já foi (e de idealização do passado, também), que constitui uma porção tão grande do apelo que a história tem na literatura e demais artes narrativas para quem dela é fã. Imagino que seja esse o caso do nosso autor anónimo, ou que ele tenha decidido escrever um conto simbólico com uma dessas pessoas como protagonista. Mas fosse esse o objetivo ou não, o certo é que o conto é realmente bom.

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terça-feira, 31 de março de 2015

Lido: Esparguete à Carbonária

Esparguete à Carbonária (bibliografia) é um pequeno e muito disparatado conto curto de Alexandre Vieira, que nos apresenta uma reunião de um grupelho de "carbonários" de caricatura que, entre máscaras e arroubos tonitruantes sobre "a causa," vão obedecendo cegamente às paranoias de um líder doido varrido e...

E quê? Para lá da caricatura, da tentativa frustrada de ter graça, numa espécie de humor entre o apatetado e o macabro, que nem sequer começa a despertar em quem o lê (ou em mim, pelo menos) o mais ténue dos sorrisos, o que é que este contículo contém?

Rigorosamente nada.

Ainda por cima, a obediência deste conto ao tema do livro é apenas questão de interpretação. Sim, há monarquia, sim, os "carbonários" reúnem-se secretamente para "lutar" pelos ideais republicanos (será?), mas não há qualquer indicação de época. Só por imaginação se pode ver aqui história alternativa; é igualmente provável que se trate de um conto passado algures em Lisboa em pleno século XIX.

Enfim.

O melhor que se pode dizer dele é que não violenta lá muito a língua portuguesa, porque de resto...

Muito, muito mauzinho.

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sábado, 28 de março de 2015

Lido: A Feira dos Assombrados

A Feira dos Assombrados é um livro de José Eduardo Agualusa composto por uma novela e uma sequência de pequenos contos sujeitos a mote, todos aparentemente passados na Angola colonial de finais do século XIX, o que, conjuntamente com o caráter fantástico destas histórias, confere ao livro estrutura e unidade.

Visto por outros prismas, é um livro bastante dicotómico: por um lado uma novela, por outro uma série de contos curtíssimos; por um lado uma história sem mote, por outro uma série de histórias sujeitas a mote, o que é o mesmo que dizer baseadas em trechos insólitos de velhas notícias ou anúncios publicados em jornais angolanos da viragem do século... uma belíssima ideia, que poderia dar pano para muitas mangas, e não só para a literatura angolana, assim haja quem tenha tempo e gosto para se dedicar a essa caça de velhos tesourinhos.

Por sobre tudo isto há mais uma camada de uniformidade, ou talvez seja melhor dizer de coesão: a indiscutível qualidade literária de Agualusa. Mesmo quando as suas histórias não satisfazem totalmente, quando são demasiado curtas para terem todo o impacto que poderiam ter, ou quando trazem consigo algum déjà vu, ou tenham alguma outra insuficiência, objetiva ou subjetiva, o uso impecável da língua compensa muita coisa.

O resultado? O resultado é um muito bom livro de literatura fantástica angolana e lusófona.

Eis o que achei de cada uma das sete histórias que compõem a coletânea:
Este livro foi comprado.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Lido: Que Viva, Pelo Menos, a Democracia

Que Viva, Pelo Menos, a Democracia é um continho de Rui Cardoso Martins que arranja uma história comico-ternurenta sobre um velho monárquico, o senhor Aquino, que vai de basbaque assistir ao casamento de D. Duarte, o nosso ridículo pretendente ao trono, entre espanhóis, ativistas de Foz Côa, anarco-surrealistas e personagens variadas da política portuguesa e europeia.

A historieta é francamente divertida, em especial devido às "bocas" da variegada populaça que vê passar os famosos e pelo desconforto e indignação que elas causam ao nosso bom velhote. Cardoso Martins, que eu tantas vezes vi nas páginas da Pública mas nunca tive curiosidade de ler (Casos de tribunal?, pensava então. Meh!) e agora me arrependo, parece ter um talento especial para apanhar tiques identificativos e explorá-los com uma valente dose de piada. E este conto é, além de divertido, um saboroso retrato de certo(s) tipo(s), que provavelmente todos vamos conhecendo por aí, às vezes quase sem dar por isso.

Sim, gostei.

Textos anteriores deste livro:

terça-feira, 24 de março de 2015

Lido: Brancos Estúpidos

Brancos Estúpidos, de subtítulo e Outras Desculpas Esfarrapadas para o Estado da Nação, é um livro de Michael Moore (exato, o cineasta, o tipo que fez Bowling for Columbine e outros documentários igualmente incisivos) na qual é implacavelmente dissecado o estado da América que levou à muitíssimo controversa eleição de George W. Bush, depois de perder o voto popular para Al Gore. Foi assumidamente a fúria sentida por Moore por aquilo que considera ter sido uma fraude eleitoral de grande escala, um autêntico golpe de estado que terá posto em causa a própria democracia americana, que o levou a escrever este livro, e nele essa eleição é central, embora não esteja a ela limitado.

O livro não é, nem pretende ser, uma análise imparcial do estado da América. É, como aliás é apanágio de Moore, um relato opinativo, por vezes até um pouco demagógico, muito embora quase todas as afirmações que Moore nele faz estejam sustentadas por dados ou por artigos saídos na imprensa. E é precisamente por isso que é tão arrasador.

Também não é um livro muito focado num tema específico. Moore preocupou-se mais em falar daquilo que lhe pareceu mais importante para explicar a ascensão e a filosofia da direita americana do tempo, direta antecessora do tenebroso Tea Party que conhecemos hoje, e explanar as consequências que vê nessa ascensão, prevenir os seus leitores para o ponto até onde essa direita está preparada para ir, do que em ser particularmente organizado ou sistemático. Os episódios, as historietas, as interligações entre um facto e outro sucedem-se numa espécie de caos vagamente organizado que, no entanto, acaba por fazer todo o sentido, intercalados por exercícios de sarcasmo, como um que ficou famoso, intitulado "Uma Oração para Atormentar os Que Vivem com Conforto."

Poucas feridas passam sem que Moore nelas espete um dedo. Ou vários.

As falhas e insuficiências da democracia americana são, claro, o alvo principal, mas Moore fala de sexismo, racismo, xenofobia relativa a comunidades de imigrantes, os media e a estupidez de que eles se alimentam e promovem, o anti-cientificismo e anti-intelectualismo, e por aí fora.

É um livro datado? Sim, em certa medida é; afinal de contas foi lançado em 2001 e 2001 foi há já 14 anos. Sim, o tempo voa mesmo. Mas a verdade é que muito daquilo por que estamos a passar hoje, com a crise financeira que fez estoirar as dívidas soberanas, com o florescimento de um conservadorismo extremo e asqueroso, tanto nos EUA como na Europa, que tantas vezes traz à memória ecos tenebrosos de um passado que devia estar morto, enterrado e coberto com cal-viva, têm sólidas raízes em gente, factos e atitudes que Moore aqui descreve à sua maneira colorida.

Não é um livro sisudo para sisudos historiadores. Na verdade, creio que não serão muitos os historiadores capazes de ler isto sem sentirem desconforto na sua costela académica. É, sim, um livro cujo objetivo foi ter impacto junto do público em geral e que foi nisso tão bem sucedido que ainda hoje continua a tê-lo.

Eu, que não sou nem sisudo nem historiador, e que além disso conhecia a história mas não todas as histórias que Moore aqui conta, gostei bastante deste livro. Também me assustei com ele.

Era mesmo essa a ideia, suspeito.

Este livro veio da biblioteca dos pais, mas de certeza que foi comprado.

terça-feira, 17 de março de 2015

Lido: Cristo em Casa de Marta e de Maria

Cristo em Casa de Marta e de Maria é um conto bastante feminino de A. S. Byatt sobre amor-próprio. Partindo de uma história bíblica, como aliás o título já indica, é protagonizado por Dolores, irascível e feiíssima cozinheira que, após um ataque de mau-génio acaba por aceitar ser pintada por um artista amigo de uma sua colega. E no processo, e ao terminar o processo, vem a descobrir com surpresa e alegria uma faceta de si que desconhecia.

É um conto suave, bem escrito e bem desenvolvido, cuja parte menos agradável, para mim, é a prisão ao superficial que revela talvez na autora, talvez na sociedade que ela pretende retratar. Dolores, aparentemente, é especialmente dotada para as suas artes culinárias, mas daí não retira qualquer orgulho ou melhoria no amor-próprio. Porquê? Porque é feia. Porque não pode vestir os vestidos das senhoras finas que, acha ela, a poriam bonita. E por isso é só quando o artista consegue retirar beleza da sua fealdade e transpô-la para a tela que ela faz as pazes consigo mesma.

É uma forma fútil de ver o mundo, esta, a que coloca a beleza (e o dinheiro, já agora) acima de qualquer outro talento ou habilidade que as pessoas possam ter. Este conto baseia-se nela, e num conformismo, num conservadorismo, que reduz a questões de feiúra e ciúme a humaníssima aspiração por uma vida melhor. E assim, este conto até pode ser literariamente bom mas não fui capaz de gostar dele.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 16 de março de 2015

Lido: Pêndulo

Pêndulo (bibliografia) é uma coletânea de contos de ficção científica, de A. E. Van Vogt, que não só é, de origem, razoavelmente medíocre, como foi ainda piorada na edição portuguesa pelo facto de a tradução ter sido entregue a Eduardo Saló.

A coletânea é de 1978, tal como quase todos os contos, mas a verdade é que parece ser mais antiga. Sim, há algumas ideias interessantes, ainda que raramente me pareçam bem executadas, mas é mais frequente que estas histórias me cheguem com um certo ranço mais característico da FC de décadas anteriores do que da do fim dos anos 70. Se é uma lapalissada dizer-se que toda a FC envelhece mais rapidamente do que a generalidade da outra ficção, este livro parece sugerir que o envelhecimento daquela que nunca chegou a ultrapassar a mediocridade é ainda mais rápido.

Mas nem tudo aqui é mau ou mauzinho. Há contos razoáveis e há um, o último, que só por si salva a coletânea e faz com que o livro valha a pena. Por coincidência, ou talvez não (não, certamente que não), é o único que não é só de Van Vogt; trata-se, isso sim, de uma colaboração de Van Vogt com Harlan Ellison, e Ellison transparece com grande clareza no esforço conjunto.

Tudo somado, este é um livro fraco que, graças àquele último conto, consegue atingir o patamar do razoável.

Eis o que achei sobre cada uma das sete histórias:
Este livro foi comprado.

Lido: Eyes Like Water Like Ice

Eyes Like Water Like Ice, é uma pequena historinha de uma espécie de horror brando, escrito por autora anónima (discretamente revelo aos entendidos, mas só aos entendidos, que é de Jai Clare), que nos descreve uma apresentação de místicos indianos para um público muito ocidental, ou talvez se deva mesmo dizer muito britânico. Os místicos têm, de facto, poderes, entre outros o de controlar o fogo, e a plateia assiste, contente e plácida, à exibição desses poderes. Até que um homem decide participar.

Claramente inspirado pelas imagens de gurus a imolar-se pelo fogo e escrito numa prosa bastante poética, este continho muito oblíquo trata principalmente da perda e da incapacidade que cada um de nós tem para impedir aqueles que nos são queridos de partir quando e como a sua própria vida, não a nossa vontade, determina.

Não foi conto que me absorvesse, até porque não tem tamanho suficiente para tanto, mas é um bom conto.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 14 de março de 2015

Lido: O Fio das Missangas

O Fio das Missangas é uma coletânea de pequenos contos de Mia Couto que, para quem conhece o autor, não traz nada de muito inesperado. São contos carregados de poesia, repletos dos seus característicos neologismos, sempre tão cheios de significados, ajoujados de humanidade. Muitos são contos fantásticos, chegando alguns, até, a passear-se por territórios próximos da ficção científica. Muitos, também, são contos em que a mulher, a sua vida, os seus problemas, as suas ideias e aspirações, é tema e fulcro. A mulher ou o povo. Ou a mulher do povo.

As melhores destas histórias são pequenas maravilhas, com tudo no sítio certo, tão próximas da perfeição como é possível ao engenho humano. São raras as apenas medianas, embora também haja duas ou três; histórias em que a poesia é levada longe demais, perdendo-se a história pelo caminho, ou histórias cuja ideia não se ajusta bem ao tamanho exigido a todas elas (de três a cinco páginas; o tamanho de uma crónica de jornal). A maioria, no entanto, está entre o "meramente" bom e o muito bom, ainda que se considerarmos apenas o tratamento dado à língua portuguesa ele seja, em quase, quase todas, excelente.

Ao todo são vinte e nove continhos, vinte e nove pequenos retratos de humanidade, num livro que nem chega às 150 páginas. África está muito presente, como não podia deixar de ser, e tantas vezes em confronto, direto ou indireto, com uma modernidade importada que é recebida e incorporada de uma forma muito própria na teia de raízes e influências que constitui o ambiente de Mia Couto. Não são vinte e nove obras-primas? Não, não são; ninguém é capaz de transformar em prima cada obra que produz. Mas há aqui obras-primas, e o livro, globalmente, é bastante bom.

Eis o que achei das histórias, uma a uma:
Este livro vem da biblioteca dos meus pais; o mais certo é ter sido comprado.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Lido: Ao Serviço de Sua Majestade

Ao Serviço de Sua Majestade (bibliografia) é um conto de Luís Richheimer de Sequeira, de uma espécie de ficção científica ufológica à X-Files, de um modo geral bem escrito que, para "caber" numa antologia como esta, enfia a páginas tantas uma brevíssima menção a uma tal "amada Rainha D. Maria III" e... mais nada.

Essa é menos importante das suas duas grandes falhas. Menos importante porque só é falha no contexto da proposta temática do livro em que se integra, servindo-se de uma habilidadezinha para se enquadrar formalmente no tema, apesar de, no fundo, não o fazer. E porque, retirando-se este conto deste livro em concreto, a falha desaparece.

O conto descreve com um detalhe digno de romance uma tal Subdivisão de Crimes Extraordinários da Polícia Judiciária, dedicada à investigação de bizarrias variegadas, e as características e idiossincrasias do punhado de agentes que a compõem. Passa depois à apresentação de um caso novo, coisa oriunda da força aérea, depressa nos informando que envolve OVNIs e uma área secreta na Base Aérea de Beja, uma espécie de versão reduzida e alentejana da Área 51 dos americanos. E de seguida...

Pois de seguida, infelizmente, acaba.

E é essa a segunda e mais importante das suas falhas. No momento em que o conto ameaça ganhar algum interesse, em que se passa da descrição de ambiente e personagens a alguma ação, surge inopinadamente o ponto final a dar-lhe fim.

O caso é que Luís Sequeira não escreveu um conto, chame-lhe o que chamar; escreveu o início de uma novela ou romance. Apresentá-lo como conto é outra habilidadezinha que, sobretudo esta, corre francamente mal, transformando o que podia ser um bom início de um texto no mínimo agradável num bocado de prosa francamente insatisfatório. É pena.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Lido: Contos Dramáticos

Contos Dramáticos, mais uma das pequenas antologias distribuídas com o DN e o JN, reúne três textos que, na minha avaliação, começam muito bem e acabam muito mal. E como, além disso, mais uma vez me parece que os conteúdos não se ajustam inteiramente bem aos títulos e temas que estas antologias propõem, embora o conceito de drama tenha uma amplitude bastante grande e possa aplicar-se a quase tudo, a avaliação global da antologia não passa do razoável.

Por outro lado, este livrinho teve para mim a vantagem, relativamente a vários dos outros, de me ter proposto três contos que nunca tinha lido, o que me proporcionou uma experiência mais fresca do que aconteceu com os Contos Imaginários ou os Contos Fantasmas, entre outros. Suponho que por se debruçar sobre um tipo de história que não costumo consumir e portanto conheço pior. São as vantagens da ignorância.

É livro que vale a pena ser lido? Para ser fiel à minha velha ideia de que basta conter uma história realmente boa para valer a pena, só posso responder que sim, é. Não me agradou muito, é certo, mas valeu a pena.

Eis o que achei dos três contos:
Este livro foi comprado.