quinta-feira, 17 de maio de 2018

"Há com cada um": Adenda

Calhou hoje ter tirado o dia para tentar pôr alguma ordem no meu email, a braços com uma invasão de spam e com milhares, literalmente, de mensagens acumuladas (e por abrir) que talvez até nem sejam spam. Não todas, pelo menos. E não é que isso levou a que tivesse uma adenda a fazer ao post de ontem?

É que parte do spam vinha de um endereço identificado no programa de email como "Jovens Escritores". Mas o endereço realmente usado como remetente (ou pelo menos aquele que se identificava como tal, porque é comum as mensagens de spam/phishing falsificarem o remetente) era um endereço do iol.pt, sempre o mesmo. Não manuelcampos @ iol.pt, não propriamente carloscampos @ iol.pt... mas carlascampos @ iol.pt.

Coincidência? Não me parece provável. As mensagens de email eram daquelas típicas mensagens com um link "esquisito", que mais que provavelmente instalaria spyware ou alguma forma de vírus ou worm no computador se o destinatário fosse tolo ao ponto de os seguir, o que me leva a crer que toda esta "família Campos" resulta da atividade de alguma espécie de bot infecioso que além de enviar spam andou a criar páginas que quem gere o Portal da Literatura não apagou.

Não que haja algum perigo em visitá-las: limita-se a ser inútil. Se o programa que andou a criar perfis falsos tentou infetar o Portal da Literatura, não teve sucesso: o Portal da Literatura propriamente dito está classificado como seguro pelos grupos que verificam essas coisas, e o código-fonte das páginas específicas do pseudoCampos não inclui nada de suspeito.

Além disso, não tenho a certeza de que as duas coisas estão relacionadas. Há sempre a possibilidade de se tratar de uma grande coincidência, e eu não sou como a outra que acha que Não Há Coincidências. Mas sem haver relação a existência daquelas páginas faz pouquíssimo sentido, ao passo que a atividade de um bot explica muita coisa. Por mim, o assunto está explicado e arrumado.


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Há com cada um!...

Volta e meia, a busca de material para alimentar o Ficção Científica Literária leva-me a sítios bem esquisitos. Hoje foi um desses casos.

Apareceu-me um link para um "livro" intitulado A Caminho de Marte. À partida nada de estranho, se não se desse o caso de se tratar, alegadamente, de um livro de ficção científica portuguesa recente do qual eu nunca tinha ouvido falar e de a "obra", apesar de ter "sinopse" não ter mais nenhum dado disponível.

A "sinopse" é a seguinte:
Um homem e duas mulheres encontram os meios para fazer a viagem a Marte. Pelo caminho vão enfrentar alguns seres espaciais contando porém com a ajuda dos jupiterianos. Uma emocionante história cheia de peripécias, que faz o leitor agarrar e só largar o livro na última página.
Achei isto muito parvo, mas interessante o suficiente (para o Bibliowiki, atenção, não para ler, que o meu grau de masoquismo tem os seus limites) para pensar em pôr aqui um apelo por informação adicional semelhante ao que deixei há dias sobre outro livro. Até porque a coisa está numa das secções do Portal da Literatura, um site com ar sisudo, cheio de nomes sonantes na página principal, apesar de embarcar em equívocos quanto à sua natureza, agindo como se fosse uma rede social sem o ser (exige login para "novas funcionalidades", não tem feed RSS, etc.).

Mas antes achei melhor tentar escavar mais um pouco. E fui à procura de mais informação sobre o livro.

Zero. Não há. Fora do ecossistema do Portal da Literatura, pelo menos. Porque dentro do Portal da Literatura ele aparece em vários sítios. Nos perfis do autor, por exemplo. Sim, que há dois, Manuel Campos e Carlos Campos, ambos com a mesma bio e a mesma foto... ou talvez deva dizer a mesma stock photo. Aliás, os perfis são iguais em tudo, incluindo nas "obras", as quais também sofrem do síndrome de clonagem porque o facto de terem títulos diferentes (a outra "intitula-se" Dia de Sol) não é suficiente para haver alguma diferença nas sinopses. E até há uma "notícia" sobre um prémio, que este tipo teria ganho com A Caminho de Marte, precisamente. E logo o Grande Prémio de Romances e Novelas, hã? Não é para qualquer um. Que esse prémio não exista é um detalhe. Existe é o Grande Prémio de Romance e Novela, singular, onde, sem surpresa, não se encontram os nomes de Carlos Campos ou Manuel Campos em sítio nenhum.

Ou seja, o livro não existe, o autor é uma fraude, e eu só não perdi o meu tempo porque esta minha breve aventura pelas catacumbas da maluquice literária deu esta história que certamente há de fazer alguém rir. E tomar cuidado com o que encontra em sites como o Portal da Literatura, porque é claro que não são dignos de confiança.

E encerro o relato abanando a cabeça e dizendo aos meus botões "Isto há com cada um!..."

terça-feira, 15 de maio de 2018

Lido: Corte

Já cortaste um dedo? Não, não pergunto se já fizeste um corte num dedo; pergunto se já cortaste um dedo, mesmo cortado, todo ele, um minuto era parte do teu corpo e no minuto seguinte deixou de ser, sloch.

Não, pois não?

Pois Fábio Fernandes também não, e isso é muito óbvio neste Corte (bibliografia), uma vinheta em que tenta imaginar como seria, descrevendo com abundância de detalhes, através dos quais procura desesperadamente alcançar o máximo possível de fator choque, o tal corte do tal dedo. É uma tentativa de conto de horror biológico (sim, é um dos subgéneros oficiais do género horror), usando a amputação como força motriz. Mas pela parte que me toca fica-se pela tentativa, sendo incapaz de despertar em mim algum sentimento mais forte que a indiferença. Completa e absoluta.

Não é um mau conto nem está mal escrito ou estruturado. É apenas um conto que me diz um redondinho nada. Um daqueles contos que geram a eloquente resposta de "meh." Felizmente é muito curto.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Lido: Phenomenae

Um escritor com potencial mas ainda incapaz de o realizar por completo precisa frequentemente de um editor, entendendo eu aqui não a pessoa que compra o livro, o publica e distribui, passando para as mãos do autor uma pequena percentagem do preço de venda, mas um editor, alguém capaz de trabalhar o livro em conjunto com o autor e de ajudar a limpar-lhe as arestas. É verdade que a existência dessas pessoas constitui sempre um risco, pois são necessárias algumas características muito específicas para se ser capaz de retirar de um livro e autor o máximo que eles podem dar num dado momento sem se ser intrusivo ao ponto de se começar a substituir a visão artística do autor pela do editor, e não são muitos os que as possuem. Mas sem editor há autores que pura e simplesmente não chegam lá.

Nas últimas décadas, infelizmente, com a mercantilização cada vez maior da indústria editorial, cada vez mais afastada da sua componente cultural e cada vez mais preocupada com o lucro imediato, que afasta do primeiro plano da tomada de decisões a qualidade e a substitui pelo rendimento económico, e também com o surgimento de mecanismos cada vez mais eficientes e/ou predatórios de autoedição, assumida ou encapotada, os editores praticamente desapareceram, substituídos por contabilistas e gente do marketing, quando chegam a ser substituídos por alguém. O resultado são livros como este Phenomenae.

Ricardo Lopes Moura é (ou era; o livro data de 1996 e desde então só parece ter publicado mais um livro, dois anos depois) um escritor com potencial. Neste seu livro de contos há pelo menos uma história realmente boa (Dia do Pai), há uma história eficaz (A Sagração da Primavera), e depois há uma série de outras histórias em que falha qualquer coisa. Na maior parte dos casos, o que falha é consequência de uma mistura de fragilidades no domínio da língua portuguesa, na maioria dos casos facilmente resolúveis com um trabalho de edição atento (ou, em certos casos, uma simples revisão razoavelmente competente), com o uso inadequado ou excessivo de clichés do horror, o que é mais difícil de solucionar e exigiria uma colaboração estreita e possivelmente prolongada entre o escritor e um editor consciente desses clichés.

Mas é muito claro que esse trabalho não existiu. Que o livro foi publicado tal como chegou à editora, eventualmente com alterações mínimas. A consequência é um livro que tem muito mais potencial do que aquilo que apresenta mas o desaproveita ao ponto de se tornar globalmente fraco. A edição acabou por valer a pena por incluir um conto bom, é certo, mas não deixa de ser um bom bocado descoroçoante encontrar aqui tanto potencial mal aproveitado. Descoroçoante, provavelmente, até para o próprio autor, que depois dos dois livros em finais do século passado ainda surgiu até ao princípio deste com algumas traduções em seu nome mas depressa parece ter desistido da literatura, pois desapareceu de circulação.

Enfim... fica o que fica.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi comprado.

domingo, 13 de maio de 2018

Lido: O Vôo do Ranforrinco

Muito recentemente manifestei aqui na Lâmpada, e por mais que uma vez, a minha exasperação com infodumps, aqueles despejos de informação que tão do agrado são de tantos escritores de ficção científica. Cheguei mesmo a apelidá-los de praga. No entanto, também disse que é possível fazê-los bem, pretendendo com isso dizer que há alturas em que eles são usados de uma forma que em vez de jogar em detrimento da obra a melhora. Para tal, dei o exemplo de infodumps particularmente bem escritos mas esse não é o único exemplo que poderia ter dado; podia ter falado também de infodumps que fazem absoluto sentido no contexto da obra.

É este o caso em O Vôo do Ranforrinco (bibliografia), um conto de ficção científica espacial de Gerson Lodi-Ribeiro. Relata uma interessante história de exploração falhada de Marte. Interessante porque os exploradores não são humanos, coisa que o leitor vai descobrindo aos poucos, através de pormenores sucessivos que causam um cada vez maior estranhamento, e porque o motivo do falhanço é totalmente misterioso. A história abarca dois momentos muito diferentes; um, o momento da exploração de Marte, que se situa no passado longínquo, e o outro, o momento do desenlace, localizado num futuro comparativamente imediato (mas mesmo assim a alguns séculos de distância do nosso presente). O conto vai saltitando de um momento para o outro, ou pelo menos entre as personagens pertencentes a cada um desses momentos. E, o que é fulcral, ao passo que no segundo momento usa uma vulgar narrativa em terceira pessoa com diálogos e breves momentos descritivos, no primeiro o tom é bem diferente, consistindo em citações do diário de bordo de uma nave espacial. Ora, a função de um diário de bordo é, precisamente, o registo de informações. E assim ficam justificados os infodumps.

Este conto é um ótimo exemplo de como a FC pode lidar bem com este tipo de estrutura. É através das informações registadas no diário de bordo que ficamos a saber a grande maioria daquilo que constrói a história, ao mesmo tempo que o mistério vai sendo aprofundado, e o que falta é transmitido em diálogos nos quais quem investiga o mistério transmite as informações que conseguiu recolher ou deduzir a pessoas que ignoram essas informações e delas precisam para tomar decisões.

Mantenho que os infodumps são uma praga. Mas na verdade o que os transforma nisso é mais a inabilidade com que são usados por tantos autores do que alguma característica que lhes seja intrínseca. Quando não passam de uma forma preguiçosa de transmitir informações ao leitor raramente prestam; quando são bem pensados e a sua presença é coerente e justificada, podem ser uma mais-valia. E neste caso são-no de forma clara. Este é um conto de FC bastante bom, com infodumps e tudo.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 12 de maio de 2018

Lido: Os Informadores

É raríssimo eu comprar livros por impulso. E sempre foi, pelo menos desde que formei o gosto e comecei a ter uma ideia bastante concreta do que tem o potencial para me agradar e do que não tem. Normalmente primeiro informo-me sobre o livro, ou pelo menos sobre o autor, e só depois compro.

Nos últimos anos, no entanto, as coisas mudaram um pouco de figura. A culpa é do Bibliowiki e da permanente curiosidade que ele gerou sobre se a obra x ou y terá, ou não, cabimento sob o vasto toldo da literatura fantástica, especialmente se tiver ar de ser periférica, caso em que tendo a confiar mais no meu próprio critério do que em critérios alheios.

E daí a compra deste livro. É que no texto de orelha se fala de vampiros... e eu arrebitei logo as ditas-cujas orelhas. Apesar de Bret Easton Ellis ser um nome que não associava de todo ao fantástico e de um título como Os Informadores me parecer ter pouquíssimo a ver com vampirismo. Vai daí, lá veio o livro para casa.

Trata-se de um romance em mosaicos, uma coleção de contos interligados por uma atmosfera comum e ambientados em volta de Los Angeles. São contos sobre a incomunicabilidade humana, sobre a solidão e o isolamento de cada indivíduo na sua própria pele, no seu próprio labirinto. Contos repletos de personagens destruídas, ou talvez simplesmente vazias, que conversam muito mas raramente ouvem sequer uma palavra que os interlocutores dizem, reduzindo-se assim as interações a meros monólogos cruzados.

O fulcro da coisa parece-me evidente: Ellis fala do vazio da vida contemporânea, da futilidade das aspirações burguesas, do egoísmo epidémico, da evasão às realidades por todos os meios possíveis, químicos ou não.

E lá no meio, um dos contos é de facto sobre vampiros, vampiros dos verdadeiros, hemofágicos, imortais e tudo o mais. Que, apesar desse detalhe de serem vampiros, em nada de fundamental se distinguem das pessoas vulgares que protagonizam as outras histórias. As mesmas pessoas que lhes servem de presas.

Ellis não se propôs escrever um livro de literatura fantástica, uma história de vampiros. Não. Estes servem aqui outra função, a de sublinhar o caráter negativo, predatório, canalha, egocêntrico em extremo de toda esta gente. Não há aqui uma personagem que se salve, todas são vampiros em tudo menos nos dentes aguçados. É, parece-me, isto o que ele pretende dizer ao pôr os vampiros em cena. Que o livro acabe por ser mesmo parte da literatura fantástica é portanto efeito secundário. O que não lhe retira nem acrescenta nada, é bom dizer.

O problema é que se torna cansativo. Ao fim da terceira ou quarta história (e elas são treze) o leitor já percebeu a ideia, já sabe mais ou menos o que vai sair da próxima, já conhece as personagens mesmo nunca as tendo visto. O estilo não muda, à parte pequenas e fundamentalmente insignificantes variações, a mundovisão também não, as personalidades idem, os enredos aspas. A mesmice instala-se, interrompida apenas pelo conto protagonizado pelos vampiros, que aparecem um pouco de surpresa, e com ela vem o aborrecimento.

O resultado é um livro que não é mau, que quem goste do estilo decerto irá até considerar bom, mas que não me satisfez o suficiente. Gostei da leitura, não posso dizer o contrário, mas não muito.

Um último detalhe sobre esta edição: a capa que veem ali em cima não é capa, é uma sobrecapa usada para se sobrepor à capa original. Porquê? Porque esta trazia o título de Os Confidentes. Mesmo não sendo a tradução mais aproximada do título original, gera uma camada adicional de ironia e por isso tudo bem... até ao momento em que o livro foi adaptado a filme e este foi distribuído em Portugal com o título de Os Informadores. Lá teve a editora de correr atrás. É deprimente. Mas é assim que o raio do mercado funciona.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Lido: Cometas

Quando o universo dos fãs de uma determinada coisa é grande o suficiente, a especialização surge de forma natural, com cada um a fazer aquilo que mais lhe agrada e/ou o que faz melhor. Em caso limite surge a profissionalização, ainda que seja frequente que um fã continue a agir como tal em setores diferentes da sua área de profissionalização. Quando o universo é pequeno, pelo contrário, é frequente encontrar-se as mesmas pessoas numa série de papéis diferentes. Na ficção científica, o autor é muitas vezes também editor, resenhista, articulista ou até ilustrador, tradutor, etc., e só muito raramente se mostra igualmente competente nessas várias áreas. Quem conheça minimamente bem as FCs lusófonas já deve por esta altura deste texto ter variadíssimos exemplos em mente. E Cesar R. T. Silva é um desses exemplos.

Fanzineiro, editor, articulista, crítico, ilustrador, etc., etc., etc., o Cesar mantém ainda hoje uma atividade importante como divulgador e compilador bibliográfico da FC brasileira, mas aqui surge como autor, com o conto Cometas (bibliografia), datado de 1990, que mostra que ninguém é competente em tudo. Ou pelo menos que ninguém nasce ensinado.

Trata-se de uma daquelas histórias que se servem da linguagem da ficção científica mas desrespeitam consistentemente quase todo o conhecimento científico sobre aquilo que lhes serve de tema. Pior, fá-lo de uma forma desajeitada, tentando ser poético mas sem qualidade suficiente no manejo da língua e da narrativa para o conseguir. Conta uma história bastante absurda sobre uns quaisquer seres surgidos num antiquíssimo "planetoide pequeno" que não tinha estrela mas tinha um "cometa-Deus" (um comenta sem estrela... sim) que as criaturas desejam alcançar. Mais umas peripécias entretecidas de misticismo, e... e o conto acaba, deixando no ar a ideia de que o autor não soube bem o que fazer com ele.

É um conto muito mau, este. Muita gente (eu próprio incluído) escreve contos destes quando começa a escrever; alguns depois melhoram, alguns melhoram mesmo muito. Outros não. Mas o que vem depois não altera a qualidade do que ficou para trás. Ou a falta dela.

Conto anterior desta publicação:

terça-feira, 8 de maio de 2018

Lido: João Esperto

João Esperto é a criaturinha mais idiota que já me passou pelo raio de visão, incluindo neste tanto a vida real como toda a espécie de irrealidades artísticas. E o conto, que desta vez parece não ter sido muito alterado pelos Irmãos Grimm, não é muito melhor. Basicamente uma lengalenga, na qual o João Esperto vai recebendo presente atrás de presente da candidata a noiva (e a paciência que a mulher teve; também não podia bater lá muito bem) disparatando em seguida com todos, sem exceção, é uma historinha muito parva que, curiosamente, parece ter um certo parentesco com a história portuguesa que li imediatamente antes, incluindo o facto de também não haver nesta história nada do típico maravilhoso das histórias populares, a menos que se considere que tamanha estupidez cai no insólito. Pura coincidência, mas engraçado.

A história baseia-se em diálogos, intercalados por curtíssimos parágrafos narrativos onde o protagonista disparata, e o mais interessante nesta história é a nota que (como sempre) lhe sucede, na qual os Grimm republicam um conto semelhante mas bastante mais elaborado, encontrado num livro de outro autor. Também é curiosa a extrema economia de meios narrativos, idêntica à que se encontra na maioria dos contos recolhidos em Portugal pelo Afonso Coelho, o que sugere que não se trata propriamente de defeito dos nossos contos, mas de feitio de (quase) todos.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Lido: Antichristmas

Entre as narrativas de fundo cristão, há um ramo que se dedica a imaginar não o que as divindades ou para-divindades cristãs fazem ou deixam de fazer, mas os atos das forças do mal, sejam elas demónios, sejam elas o Diabo ou o Anticristo. E é um ramo bastante significativo, em especial na literatura de horror.

No caso de José dos Santos Fernandes não é propriamente horror o que apresenta em Antichristmas (bibliografia), mas uma fantasia urbana em boa medida satírica. O título deixa bem claro aquilo de que se trata: sabendo-se que o natal (ou christmas, em inglês) celebra a vinda de Cristo, fácil se torna deduzir que o antichristmas celebra a vinda do Anticristo e que este conto relata essa vinda. E sim, é isso... mais ou menos. Nas entrelinhas, digamos. Porque as linhas, essas, dedicam-se a contar um par de conversas, primeiro entre dois jovens membros de uma organização secreta de adeptos do dito-cujo, e depois entre estes e um tal Sr. Fields, americano, e um dos maiorais da organização.

O conto não é mau. Tem um ritmo interessante e, à parte algumas gralhas, não há muitas incorreções. Mas a história não me despertou grande interesse, não sei bem porquê. Talvez por não a achar suficientemente iconoclasta. Também os diálogos, algo pueris, em particular no início do conto, contribuíram para não ter saído desta leitura lá muito satisfeito. Este conto é razoável, e creio que só isso.

domingo, 6 de maio de 2018

Lido: A Machadinha

Mais uma história recolhida por Adolfo Coelho em Coimbra, este A Machadinha é um conto sobre gente avariada dos carretos. Começa com um casamento camponês, que se vai esvaziando de gente porque as pessoas vão umas atrás das outras à adega ver o que está a demorar as anteriores. E o que é? A machadinha do título, pois está claro, pendurada do teto. Fica tudo a contemplá-la pensando no que poderia acontecer se ela se desprendesse e caísse em cima de alguém. Só o noivo tem juízo, ri-se e raspa-se, partindo de viagem e deparando com gente desaparafusada em todo o lado. Acaba rico, volta para casa, casa com a noiva e despendura a machadinha do teto. Fim.

É um conto muito parvo, este, e sem grande motivo para ser integrado no amplo labirinto da literatura fantástica, ainda que o comportamento de praticamente todas as personagens seja tão insolitamente imbecil que talvez lá entre por essa via, a do insólito. Acaba por ser razoavelmente divertido, à maneira das anedotas parvas, e é esse o principal interesse que tem.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 5 de maio de 2018

Uma HA portuguesa?

A fim de continuar a alimentar o Ficção Científica Literária com material vindo também de fora dos sítios do costume decidi, desde o fim do scoopit (que me servia para isso), manter um conjunto de pesquisas permanentes sobre alguns termos no Google, e um desses termos é "história alternativa". Ora hoje apareceu-me lá este livro, cuja existência desconhecia totalmente. Livro e autor, na verdade; nem Derradeiro Suspiro Real nem José Navarro de Andrade fazem acender alguma luzinha

O livro apareceu-me integrado no catálogo de uma tal Livraria Candelabro, do Porto, e o texto que o acompanha (calculo que seja a sinopse, mas sem certezas) sugere que poderá não ser propriamente história alternativa, mas certamente se aproxima bastante disso:
"E se às primeiras horas da tarde de 4 de Outubro de 1910 o major Paiva Couceiro, num arroubo temerário, tivesse carregado sobre a Rotunda, desbaratado os revoltosos republicanos? É neste postulado que a presente novela se firma para descrever a continuidade e as transformações da Monarquia nos anos seguintes, provavelmente as surpresas seriam muitas e porventura a maior delas todas tivesse sido a inexistencia de grandes variações. A inércia e a entropia costumam ser forças formidáveis, de tal modo que é normal superarem, ofuscarem e subjugarem o poder da imaginação. Talvez assim se possa dizer que esta novela não caiba precisamente no género de história alternativa. O que ela pretende, afinal, será iludir o engenho da ficção com a memória dos factos verídicos".
Os dados do livro, tal como vêm no site, são: Arranha-Céus. Lisboa. 2015. In-8º gr. de 181-IV págs. Br. Parte disto são sinalefas incompreensíveis, mas o resto entende-se.

Não vou comprá-lo (já cá tenho demasiados livros por ler), mas aqui fica para o caso de alguém se interessar. E depois diga-me mais coisas sobre o que este livro realmente é, se fizer o obséquio. É que até fiz umas buscas na internet e, embora haja algumas notas sobre o lançamento, vindas em sítios mais ligados ao mainstream literário do que a géneros próximos da HA, há um redondinho zero de opiniões ou de dados mais concretos sobre ele.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Lido: A Menina e o Figo

Esta gente de antigamente tinha mesmo um problema qualquer com as madrastas. E agora que penso nisso, esta prevalência de madrastas maldosas nas histórias infantis, sejam estas de origem portuguesa ou não, é capaz de explicar parte da tendência para o biologismo que ainda infeta o discurso público nos dias que correm: afinal, se as madrastas são necessariamente umas cabras, se as criancinhas não forem criadas pelos pais biológicos as coisas só podem correr mal, certo?

Errado, mas pronto.

Pois a madrasta deste conto recolhido em Coimbra pelo Adolfo Coelho enterra a enteada viva no quintal porque esta cometeu o crime de deixar um pássaro levar um figo que lhe ordenara que guardasse. O que, claro, já explica o título de A Menina e o Figo. Mas claro que como nestas histórias tudo fica bem no fim, há uns milagres, há uns versos declamados, e a madrasta acaba punida pela malfeitoria.

É mais um daqueles contos de uma página ou, como neste caso, um pouco menos, que parecem resumos ou esboços de histórias maiores e que tão comuns são neste livro; contos apressados, nos quais os acontecimentos se atropelam; contos que parecem pedir que alguém pegue neles e os desenvolva. Mesmo apesar dos clichés. Porque tal como estão têm interesse sociológico e pouco mais.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Lido: Saltitantes Sentinelas

A, B e C estão ali (onde? que importa?) há dez mil milhões de anos ou, como se diz nas Américas, dez "bilhões" de anos. E quem diz dez diz vinte. Mas eis que surge alguém, que ninguém entende, uma criatura já não alfabética mas aritmética. E as coisas correm mal.

É mais ou menos disto que trata a vinheta Saltitantes Sentinelas de Luiz Bras, algo de semelhante a FC cósmica com o seu quê de cosmicómica (quem perceber a referência ganha 10 pontos), uma parábola sobre a sobreviência do mais forte. Ou um mero exercício de estilo, se preferirem encará-lo por esse prisma. Seja qual for o ponto de vista, julgo que será pacífico dizer-se que este é um daqueles textos experimentais cujo principal motivo de interesse está precisamente no experimentalismo. Há quem goste, há quem não goste; é a vida.

Eu? Eu estou algures no meio.

Textos anteriores deste livro:

Lido: O Filho do Homem

Se há coisa universal na arte, seja ela qual for, é a imitação servir como forma inicial de formação da personalidade artística. À partida, nada nisso existe de sinistro ou aético; Fulano admira intensamente Sicrano, acha que o que Sicrano faz é maravilhoso, e quando se põe também a fazer tende naturalmente a fazer igual ou parecido, pelo menos até desenvolver voz própria. É em grande parte assim que se criam os movimentos artísticos, os géneros, as correntes, por aí fora.

Se Roberto Schima está aqui no papel de Fulano, o seu Sicrano é claramente Ray Bradbury. A prosa poética está lá, Marte também, a abordagem suave e ternurenta à exploração e à aventura idem aspas. O Filho do Homem (bibliografia) é uma vinheta sobre a busca da vida em Marte, inspirada pelo primeiro grande caso de sucesso na exploração robótica do planeta: a sonda Viking 1. Sucesso técnico, porque a vida que as Viking tentavam encontrar não foi encontrada, o que foi um duro golpe para gerações de fãs de ficção científica, habituados às histórias sobre marcianos pelo menos desde que H. G. Wells criou a sua guerra dos mundos. Como muitos outros, Schima revoltou-se contra a revelação, e arranjou uma maneira de os resultados transmitidos para a Terra poderem não contar a história toda. A ideia dele não faz grande sentido científico, mas o conto está bem concebido e regra geral bem escrito. Não chega aos calcanhares de Bradbury, evidentemente, mas não é mau.

Conto anterior deste livro:

terça-feira, 1 de maio de 2018

Em abril falou-se de...

Os que costumam cá vir já sabem o que é isto, portanto podem passar à frente; para os outros, é uma lista daquilo que, segundo o Ficção Científica Literária, recebeu opiniões ao longo do mês de abril que acabou de chegar ao fim, e há mais informações do que estas disponíveis aqui. E se houver interessados em ver listas semelhantes dos meses anteriores (e, no futuro, dos próximos), basta-lhes ir à tag "leituras fc" e encher a barriga com elas. Mais comentários, como sempre, depois das listas. Vamos a elas? Vamos a elas.

Ficção portuguesa:
  1. Expansão, org. ??
  2. E Se... Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?, de Jonuel Gonçalves
  3. A Coleção Privada de Acácio Nobre, de Patrícia Portela
  4. Shark-Killer, de Bruno Martins Soares (conto)
Ficção brasileira:
  1. Além do Tempo e do Espaço, org. ??
  2. O Dia em que Eles Cansaram de Esperar, de Renato A. Azevedo (conto)
  3. Invasão Retomada, de Marcelo Bighetti (conto)
  4. Mea-Culpa, de Luiz Bras (conto)
  5. Nas Catacumbas, de Luiz Bras (conto)
  6. Olho por Olho, Dente por Dente, de Luiz Bras (conto)
  7. As Aventuras de Honey Bel, de Miguel Carqueija
  8. Infiltrado, de Roberto de Sousa Causo (conto)
  9. O Grande Besouro, de Gian Danton (conto)
  10. Dezoito de Escorpião, de Alexey Dodsworth
  11. Anacrônico, de Antony Magalhães
  12. O Hóspede, de Flávia Muniz (conto)
  13. A Era dos Mortos, vol. 1, de Rodrigo de Oliveira
  14. Guerra Justa, de Carlos Orsi
  15. Perdidão, de Claudio Parreira (conto)
  16. Carta do Futuro, de Ademir Pascale (conto)
  17. Todo o Silício do Mundo..., de Gerson Lodi-Ribeiro (conto)
  18. Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança, de Gerson Lodi-Ribeiro (conto)
  19. Xibalba Sonha com o Oeste, de André S. Silva (conto)
  20. Sol no Coração, de Roberta Spindler (conto)
Ficção internacional:
  1. The Power / O Poder, de Naomi Alderman
  2. Eu, Robô, de Isaac Asimov
  3. Os Próprios Deuses, de Isaac Asimov
  4. The Martian in the Wood, de Stephen Baxter (conto)
  5. Project Mars, de Wernher von Braun
  6. Iron Gold, de Pierce Brown
  7. Kindred - Laços de Sangue, de Octavia E. Butler
  8. A Menina que Tinha Dons, de M. R. Carey
  9. A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares
  10. Rendezvous with Rama, de Arthur C. Clarke
  11. Jogador nº 1 / Ready Player One, de Ernest Cline
  12. Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick
  13. Um Vento à Porta, de Madeleine l'Engle
  14. Uma Dobra no Tempo, de Madeleine l'Engle
  15. Outlander, de Diana Gabaldon
  16. Herland - A Terra das Mulheres, de Charlotte Perkins Gilman
  17. Legado de Sangue, de Claudia Gray
  18. Mil Pedaços de Você, de Claudia Gray
  19. A Mão Esquerda das Trevas / A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin
  20. Um Estranho Numa Terra Estranha, vol. 1, de Robert A. Heinlein
  21. Memória da Água, de Emmi Itäranta
  22. Mago e Vidro, de Stephen King
  23. Justiça Ancilar, de Ann Leckie
  24. Solaris, de Stanislaw Lem
  25. O Chamado de Cthulhu e Outros Contos, de H. P. Lovecraft
  26. Vigilante Noturno / Criaturas da Noite, de Marie Lu
  27. Warcross, de Marie Lu
  28. Às Cegas, de Josh Malerman
  29. As Crônicas de Marte, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  30. Histórias de Vigaristas e Canalhas, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  31. Mulheres Perigosas, org. George R. R. Martin e Gardner Dozois
  32. Santuário dos Ventos, de George R. R. Martin e Lisa Tuttle
  33. O Silêncio das Filhas, de Jennie Melamed
  34. Travelling to Utopia, de Michael Moorcock
  35. Carbono Alterado, de Richard Morgan
  36. O que Restou, de Alexandra Oliva
  37. O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
  38. Encarcerados, de John Scalzi
  39. O Código do Apocalipse, de Alex Scarrow
  40. O Ceifador, de Neal Shusterman
  41. An Incident at the Luncheon of the Boating Party, de Allen M. Steele (conto)
  42. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
  43. Space Opera, de Catherynne M. Valente
  44. Aceitação, de Jeff VanderMeer
  45. Around the World in Eighty Days, de Jules Verne
  46. A Estrada Subterrânea, de Colson Whitehead
  47. False Lights, de K. J. Whittaker
  48. Interferências, de Connie Willis
  49. Regresso a Zero, de Stefan Wul
  50. Thrawn, de Timothy Zahn
  51. Nós, de Evguéni Zamiátin
Não-ficção internacional:
  1. A Cruzada Mascarada, de Glen Weldon
Portanto tivemos, na prática, opiniões a um livro de FC e a um livro de história alternativa portugueses. O livro da Patrícia Portela faz referência à FC e tem interesse por isso, mas não é de FC e nem sequer roça o género, e o do Bruno Martins Soares é um conto em ebook. Ao longo de um mês. Vale a pena tecer mais comentários? Não, pois não?

Do lado brasileiro, houve referências a 20 títulos, seis livros de FC e 14 contos. Parece muito, mas se retirarmos as referências que vieram aqui da Lâmpada restam só 5 livros. Cinco. Mais nada. É melhor que o lado português mas continua a ser miserável, em especial porque quem fez de longe mais referências a material brasileiro durante o mês de abril foi... um português.

(Calhou acumular-se neste período de leituras muitas coisas com FC vindas do Brasil; o material português que tenho lido nos últimos tempos ou é de outros géneros ou é traduzido. E isso não deve mudar tão cedo.)

Este mês tive curiosidade de ir ver se o problema é da plataforma. Isto é, se o facto de o FCL não agregar material fechado em redes sociais, especializadas ou não, poderia contribuir para explicar estas carências. Para tal, dei um salto ao Goodreads para ver quantos comentários existem a alguns livros saídos mais ou menos recentemente. O Crazy Equóides tem... dois. Os mesmos que foram divulgados cá fora. A nova edição do Terrarium tem... um. Também divulgado cá fora. Outros livros publicados este ano ou ainda nem lá estão ou estão com duas ou três avaliações com estrelinhas e zero comentários, e o mesmo se passa com a maioria das edições do ano passado. Portanto não é da plataforma: é verdade que há algumas opiniões que ficam restritas a essas redes mas não são elas a causa do silêncio.

O que mais estranho, francamente, é este não parecer incomodar muita gente, incluindo boa parte dos produtores: não vejo nenhuma iniciativa recente em Portugal (no Brasil é um pouco diferente; há uma ou duas) que tenha o objetivo de mudar esse estado de coisas. Só uma mancheia de teimosos vai resistindo. Se estes se fartarem ou ficarem demasiado ocupados, acabou.

Pensamentos animadores para uma tarde de feriado.

Lido: O Último Homem

Mais uma vez, Luiz Bras apresenta em O Último Homem algo que tanto pode ser encarado como poema quanto como microconto. Um microconto sobre o súbito desaparecimento de toda a gente, deixando uma única pessoa para trás. Um microconto que se resume a cinco frases curtas (na verdade, até dá para contar facilmente as palavras: são 28, fora o título) e no qual aquilo que realmente faz com que funcione é a surpresa da última dessas frases. É um exercício muito interessante de extrema brevidade na manipulação de expetativas e, nesse sentido, é muito bom. E como este texto já vai muito mais longo do que a história a que se refere, fico-me por aqui.

Textos anteriores deste livro:

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Lido: Estratégias de Combate

A ficção científica é um género vasto, seja em abordagens, seja em temáticas, estilos, por aí fora. Tão vasto, na verdade, que justifica plenamente a ideia de que se alguém diz que não gosta de ficção científica isso significa apenas que nunca a leu em suficiente quantidade e/ou variedade, pois se o tivesse feito certamente encontraria algum cantinho na FC que lhe agradaria. E, inversamente, não deve haver nenhum fã do género que goste de todo e qualquer tipo de ficção científica que lhe apareça à frente.

No meu caso tendo a não gostar de space opera, embora já tenha encontrado algumas exceções, space operas que apesar de o serem me agradaram. Por vários motivos que não cabem aqui, pois dariam um texto de opinião bastante extenso e isto é uma opinião que se pretende curta sobre um conto também ele curto. Um conto de space opera.

O título, Estratégias de Combate (bibliografia), é autoexplicativo. Estamos no espaço, em guerra, numa reunião das chefias militares de uma das duas frotas em confronto, na qual se delineia a estratégia para a vitória. O fulcro da história é precisamente essa estratégia, e o conto divide-se basicamente entre uma primeira parte em que ela é concebida e uma segunda em que é executada. Carlos André Moraes (Moraes? Ou Mores?) utiliza para isso uma prosa direta e eficaz, de que não se pode dizer que é de grande qualidade mas a que também não é possível chamar má. O ritmo da prosa também não é mau. Mas...

... mas eu achei o conto absolutamente desinteressante. Não há nele uma personagem que seja mais que esboçada, usa, como só podia usar (inovação num conto tão curto com um cenário tão vasto não é propriamente fácil), clichés de space opera mais que batidos, as estratégias parecem-me inverosímeis, mas mesmo que não parecessem só me despertariam indiferença, enfim, não há nele nada que me interesse.

É para mim credível que apreciadores de space opera tenham uma opinião diferente mas eu, que não o sou, achei esta história bastante fraca.

Lido: Mea-Culpa

A esmagadora maioria dos textos deste livro de Luiz Bras vagueia por territórios fronteiriços entre a ficção científica e uma espécie de fantástico fortemente inspirado por Borges, ocasionalmente com pitadas de outras coisas. Mas Mea-Culpa não. Mea-Culpa é um conto/poema furioso que ataca com violência a classe política brasileira, reduzida a um monte de chupamerdas e comebostas. Só uma frase parece arrancar este texto a um ataque inteiramente opinativo e realista à classe política de Brasília, na qual o protagonista confessa ter aceitado subornos na "regulamentação do uso da brain-net". Uma frase? Uma palavra, isso sim: brain-net. E bastará um termo ciencioficcional para transformar este texto em FC? Não creio. Mas basta para o pôr na fronteira.

Se é bom? Não, não julgo que seja. Como desabafo está ótimo, mas como literatura Bras tem muito melhor.

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domingo, 29 de abril de 2018

Lido: O Hóspede

Um dos problemas nas antologias temáticas (ou de um determinado género; também acontece) é por vezes incluírem contos que são claramente histórias escritas sem o tema em mente, vagamente adaptadas para se encaixarem na proposta. Isso não é problema em si mesmo; a adaptação de histórias a temas é uma forma de criação literária tão válida como outra qualquer, desde que essa adaptação não subverta aquilo que serviu de impulso criador inicial. Mas acaba por se tornar problemático quando essas histórias acabam piores do que começaram ou quando funcionam mal em contexto. E é muito frequente que isso aconteça.

O Hóspede é um conto de horror bastante clássico e razoavelmente bem concebido. Inspira-se de forma muito evidente em filmes B norte-americanos, segue um inspetor da polícia que vai investigando uma série de crimes bizarros, sangrentos e muito incompreensíveis, e inclui até o tradicional maniqueísmo e menções ao diabo ou a demónios, tradicionais nas histórias de horror sobrenatural. Na verdade, se é certo que não fica firmemente estabelecido que os acontecimentos descritos na história são de cariz sobrenatural, o enredo e várias passagens do texto tornam esta explicação mais lógica do que a ideia de invasão alienígena implícita no tema da antologia. Se este conto não estivesse incluído nesta antolgia, de facto, o mais certo seria tal ideia nem passar pela cabeça do leitor. E isso dimini tanto a história, por não cumprir a contento a proposta, como a publicação, por incluir uma história como esta.

Flávia Muniz tem culpa? Afinal, ela escreveu a história que quis escrever, a história que a inspiração lhe sugeriu, mantendo-se na sua zona de conforto literário. Não é nada que se possa contestar, pois não?

Não, não é. Não há qualquer culpa a atribuir a Muniz por ter escrito a história que quis escrever; isso nem faria qualquer sentido. Mas ela tem outra culpa: a de ter proposto tal história para uma publicação que não se lhe adaptava, culpa essa partilhada com Ademir Pascale, que a aceitou.

A história em contexto é fraca, portanto. Mas e isoladamente? Ou incluída num contexto mais adequado?

Bem, está, como eu já disse, razoavelmente bem concebida. Também está razoavelmente bem escrita, num português que não ultrapassa o razoável mas contada com mão segura e de ritmo agradável. A mim não causa nenhuma daquelas emoções que o horror tenta causar, mas o certo é que são muitíssimo raras as histórias que o fazem; peculiaridades pessoais. Portanto é uma história razoável, parece-me. Uma daquelas histórias medianas inspiradas mais pelo cinema do que pela literatura, e sofrendo com isso mas não o suficiente para se tornar realmente má ou medíocre.

Pena é vir publicada na publicação errada.

Contos anteriores deste livro:

Lido: An Incident at the Luncheon of the Boating Party

Depois de uma fantasia urbana e de algo entre o weird fiction e a fantasia rural, Allen M. Steele é o responsável por trazer a ficção científica a este número da F&SF. Mais especificamente, uma história de viagem no tempo.

Por vezes acusa-se aqueles que se dedicam à ficção científica de produzirem mero escapismo autorreferencial, totalmente desenraizado do ambiente cultural que não se confine aos limites do género. Há que admitir que em certos casos essa acusação tem razão de ser; uma parte da FC é em grande medida isso mesmo, voltada para dentro, para os seus próprios tropos, tendências e clichés e indiferente ao que se passa à sua volta. Mas acusar todo o género disso é sinal de ignorância ou má-fé, porque muitas outras obras não podiam ser mais diferentes desse retrato.

Exemplos abundam, e este An Incident at the Luncheon of the Boating Party é um deles. Conta, na primeira pessoa, a história de uma investigadora de um tal Centro de Pesquisa do Cronoespaço que viaja pelo espaçotempo até perto da Paris de finais do século XIX numa missão de baixo risco para investigar as circunstâncias que rodearam a criação de um quadro famoso, conhecido em inglês como Luncheon of the Boating Party e em português como O Almoço dos Barqueiros. O artista? Pierre-Auguste Renoir. Imagens do quadro encontram-se facilmente em qualquer pesquisa pelo título no Google, mas os preguiçosos podem encontrar uma reprodução, por exemplo, no site do Smithsonian.

A história é divertida, cheia de ritmo, não muito complexa no que à ficção científica diz respeito (e menos ainda no que toca a histórias de viagem no tempo, que às vezes conseguem ser autênticos novelos) e portanto absolutamente compreensível por qualquer leitor minimamente competente, apesar de explorar um dos paradoxos possíveis nos ciclos temporais. Mas é acima de tudo uma claríssima homenagem a Renoir e à sua arte.

Na verdade, das três primeiras histórias deste número da revista, esta é de longe a mais consciente e aberta ao exterior, culturalmente falando. A isso soma-se um enredo bem construído e bastante bem escrito, com tudo no sítio certo, além de uma dose razoável de bom humor, e o resultado é um conto francamente bom.

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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Lido: Infiltrado

Escrever ficção na segunda pessoa é um exercício delicado. Ao contrário da primeira pessoa, que transmite a ideia de que o acontecido é experimentado em primeira mão pelo narrador (ou pelo menos ele pretende que assim se pense), e abre possibilidades narrativas interessantes, ou da terceira, mais comum, em que a ideia é algo como "terá acontecido a alguém, mas entre mim, narrador, e esse alguém há alguma distância", a escrita na segunda pessoa implica que aquele a quem acontecem os casos descritos é o leitor. E isso, se por vezes faz pleno sentido como por exemplo na história de Geoffrey Landis de que falei aqui, de outras mais parece puro artifício sem grande razão de ser.

Neste Infiltrado, de Roberto de Sousa Causo, estamos em grande medida, parece-me, perante a segunda situação. E aviso desde já que para explicar porquê vou ter de dar SPOILERS. Começa agora.

A história contada é a de um agente alienígena infiltrado na sociedade terrestre, em missão de recolha de informações preliminar a uma invasão. Está sob plena perseguição, muito próximo da morte, e procura não só fugir aos perseguidores mas chegar a tempo a um aparelho revitalizador que o possa salvar. Infelizmente para ele, alguém se antecipou e o aparelho está vazio. Resta uma segunda opção: um portal de teletransporte oculto noutra divisão, capaz de o fazer sair rapidamente da Terra, mas o problema é que o seu corpo está em plena falência. Conseguirá?

É um conto tenso, cheio de ação do princípio ao fim, com bom ritmo e um bom equilíbrio entre essa ação e a necessidade de transmitir ao leitor a informação necessária para o compreender. Por outras palavras, sem infodumps. A opção pela segunda pessoa, parece-me, é uma tentativa de fazer o leitor sentir mais intensamente o perigo em que o ET se encontra... só que isso é um contrassenso no contexto de um conto sem espaço para se compreender as motivações do protagonista (tem página e meia), no qual a generalidade dos leitores torce naturalmente pela "equipa" adversária.

Ou seja, não creio que essa opção faça grande sentido neste conto. É uma experiência interessante, sim, mas o resultado da experiência não é muito bom: o conto ficaria melhor quer na primeira pessoa, quer na terceira. Mas mesmo assim, está longe de ser um mau conto. Nem é apenas razoável: é razoavelmente bom, dos pontos altos (mas não o mais alto) desta antologia.

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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Lido: Performance

Publicação portuguesa temática em que o tema seja a guerra e não tenha nenhuma história sobre a guerra colonial seria coisa francamente bizarra. No caso deste número da Ficções, cabe a José Martins Garcia representar esse tema. É autor de que eu nunca tinha lido nada, de quem nem sequer tinha ouvido falar, o que de resto está explicado no texto de contracapa do volume quando se afirma que ele é "hoje muito injustamente desleixado". Desleixado parece realmente ser, agora se o é injustamente ou não, não sei. Só sei que por este Performance me parece que a injustiça não é lá muito grande, mas há que reconhecer que um conto é largamente insuficiente para formar uma opinião sobre um autor.

O conto foi publicado logo em 1974, assim que se abriram as portas da liberdade, a qual incluiu poder-se finalmente falar e escrever sobre a guerra colonial coisas que fossem além da propaganda patrioteira do velho regime. Isto é relevante, não só pela frescura do tema no momento de criação da obra, mas também porque esta me fez lembrar bastante, se não no enredo certamente no ambiente, o filme do Coppola Apocalypse Now. Ora acontece que este filme data de cinco anos mais tarde, portanto não existem aqui inspirações cruzadas; terão sido paralelas.

Sim, o tema é o mesmo: a guerra e a loucura a ela inerente, a sua ausência de sentido. No conto de Garcia segue-se um alferes miliciano que é destacado para um posto militar no meio do mato, provavelmente em Angola. Já não vai lá muito bom da cabeça e ao chegar depara com um sítio de doidos, onde ninguém diz coisa com coisa, e destrambelha de vez, se calhar demonstrando a sensatez das chefias em terem-no destacado para o sítio certo. Além do mais, não há equipamento e o que há não funciona: o contingente está reduzido a uma pressão de ar. E às tantas é atacado à metralhadora.

A ideia podia ter dado uma história ótima. O problema é que Garcia a arrasta ao longo de demasiadas páginas (quase 30), diluindo em palavreado desnecessário, sobretudo diálogos absurdos, o impacto que o conto podia ter tido e tornando-o cada vez mais aborrecido à medida que o leitor se vai apercebendo de que nada mais obterá desta história assim que entenda a ideia de base, o que acontece muito antes das 30 páginas. Logo a história não é ótima. Nem sei mesmo se poderei considerá-la boa. Acho que está ali entre um razoável mais e um bom menos, mesmo apesar de a ter comparado ao Apocalypse Now, que é um filme do caraças.

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terça-feira, 24 de abril de 2018

Lido: Perdidão

Não se fala o suficiente da eficácia na literatura; devia falar-se mais. Quando os textos literários fazem precisamente aquilo que pretendem fazer são eficazes e pelo menos essa qualidade têm, mesmo quando não têm mais nenhuma. Há outros textos que, pelo contrário, até podem ter todas as qualidades do mundo mas não conseguem cumprir aquilo que se propõem alcançar.

Esta questão da eficácia é particularmente importante em textos ultracurtos, onde não há espaço para grandes elaborações de enredo, caracterização e etc. E é precisamente um texto desses que Claudio Parreira apresenta aqui.

Perdidão é uma historinha de pouco mais de meia página que pretende usar uma invasão alienígena para divertir e para fazer crítica social. Os ETs de Parreira aterram no Brasil e o seu protagonista e narrador é um videirinho, sempre atento às oportunidades que se lhe apresentam. No caso, uma nave espacial novinha em folha, ali mesmo à sua frente, à mão de semear. Nem é preciso pensar duas vezes, não é?

Este é um continho muitíssimo eficaz. É francamente divertido e surra com um certo carinho a espécie de burro que retrata. Sim, que só um idiota acharia boa ideia gamar uma nave espacial alienígena, cujo funcionamento se desconhece por completo. As coisas correm mal, evidentemente. E também isso é divertido.

Só o discurso direto da narração não é muito credível: é português demasiado correto. Mas aceita-se: neste tipo de coisa há que arranjar um equilíbrio qualquer entre a fidelidade à personagem e a inteligibilidade. Parreira preferiu esta última; eu, enquanto português, até agradeço.

Em suma: um bom conto.

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Lido: Sol no Coração

Meus caros, devo dizer-lhes com toda a exasperação: os infodumps são uma praga.

A sério: cada vez tenho menos paciência para eles. Sim, é verdade, há exemplos desta forma de despejar informação sobre o leitor que são pequenas obras de arte. Só que para o serem precisam de estar mesmo muito, muito bem escritos, e, regra geral, escritor que é capaz de escrever assim tão bem prefere transmitir a informação necessária de outras formas. A consequência é que a generalidade dos infodumps que aparecem na ficção vêm imbuídos de graus variáveis de tosquice, raramente transmitem apenas a informação rigorosamente necessária, nem mais, nem menos (o que também seria desejável), cortam quase sempre o ritmo às narrativas e em geral diminuem, por vezes significativamente, a qualidade global das histórias em que são enfiados.

Sim, Sol no Coração (bibliografia) da Roberta Spindler também sofre com essa praga. Muito.

A ideia está cheia de potencial. Num futuro não identificado, a tecnologia das nanomáquinas está plenamente desenvolvida, e as pessoas têm vidas mais longas e mais saudáveis graças a milhões de minúsculos robôs que lhes correm pela corrente sanguínea e corrigem o que há para corrigir, alimentados por microplacas solares que lhes são implantadas como se fossem tatuagens. Não imediatamente, assim que nascem, pois é necessário que o organismo atinja um certo grau de desenvolvimento. Mas durante a infância. E claro que há pessoas renitentes ao procedimento.

Nesse futuro, um casal discute a operação do filho, entre a renitência de um e o entusiasmo da outra. Há uma carga dramática razoável, pois o miúdo é sobrevivente de uma leucemia e condicionado por esse facto (uma forma talvez demasiado óbvia de puxar ao sentimento), e também há traumas pessoais metidos ao barulho. E há infodumps.

Pois.

Os infodumps são suficientes para este conto não ser lá muito bom. E teria sido tão fácil integrá-los de forma mais interessante na narrativa! Bastaria contar esta história sob o ponto de vista da criança e deixá-la ainda ingénua, ainda desconhecedora dos detalhes da tecnologia e desejosa de aprender, até para saber melhor o que a aguardava. Mas não: Spindler escolheu os pais como protagonistas e reduziu o conto a uma discussão entre os dois, quase sem qualquer ação exterior a essa discussão. É pena. E quando a isso se soma um português correto mas pouco mais do que isso, mais simples que inspirador, o resultado é um dos piores contos desta antologia.

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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Lido: O Dia em que Eles Cansaram de Esperar

Há duas ideias particularmente comuns quando se trata de invasões alienígenas. Uma é a do alienígena mau, predatório, que chega à Terra por motivos egoístas, para dar resposta às suas próprias necessidades e não quer saber para nada da população autóctone. Este espelho do ímpeto colonialista europeu é a ideia mais comum, e temos exemplos dela com fartura também na ficção científica lusófona. Vejam-se, por exemplo, tantos dos contos do Barreiros.

A outra, menos frequente que a primeira mas nem por isso rara, é a dos ETs bonzinhos, que nos invadem porque nós somos incapazes de nos governarmos a nós próprios, assim uma espécie de troika interplanetária. É possível argumentar que também esta é espelho do ímpeto colonialista europeu, mas usando desta vez o ponto de vista dos colonialistas — essa ideia de "civilizar os selvagens" era um dos argumentos mais comuns quando se tratava de justificar a opressão colonial. E continua a ser.

É nesta última ideia que O Dia em que Eles Cansaram de Esperar explora.

Embora eu prefira outras abordagens, que também existem, tanto uma como a outra destas duas abordagens mais comuns pode resultar em coisas interessantes, boas ou até muito boas, dependendo de como os autores as exploram. Como sempre, aliás. No abstrato, tudo tem potencial. No concreto é que se vê se esse potencial se cumpre ou não.

Regra geral, há coisas que é bom evitar. Os infodumps são uma dessas coisas. Os longos despejos de informação não em infodump puro mas em diálogo (conhecidos pela expressão inglesa de as-you-know-Bob), são outra. Sermões são outra — há sermões célebres na literatura de língua portuguesa, mas não em obras de ficção (e convém que sejam muitíssimo bem escritos, o que não está ao alcance de qualquer um).

E Renato A. Azevedo não evita nenhuma delas.

O conto, que além do mais não está particularmente bem escrito, inclui um longo sermão sobre a nossa incapacidade para gerirmos a civilização, o as-you-know-Bob é tão evidente que o próprio autor tem necessidade de introduzir no texto uma fala a dar conta dele ("Qual é, Zanin, já sabemos de tudo isso!") e há infodumps em barda com informação sobre os vários tipos de ETs, que não têm surpresa nenhuma para quem já tenha ouvido falar nas teorias da conspiração ufológicas sobre Roswell, abduções e etc. No meio de tudo isto, o enredo principal, uma história de e sobre a resistência aos invasores, quase se perde. Esta história, para ser bem contada, precisaria de ritmo, de ambiência, de personagens sólidas. E este conto não tem nada disso.

É um conto bastante fraco.

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