quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Alena McNamara

Com Alena McNamara voltamos aos contos, no caso apenas um e intitulado

As Large as Alone. Trata-se de uma história de fantasia, com toques razoavelmente fortes de horror e notas ainda mais fortes de homoerotismo lésbico, bem escrita, sobre duas irmãs muito jovens que conhecem uma sereia e se apaixonam por ela. Ou talvez apaixonar seja a palavra errada, pois o beijo da sereia cria nelas uma necessidade física, orgânica, de estar com ela.

O conto, como disse, está bem escrito, e mostra originalidade na abordagem ao mito das sereias. No entanto, há nele qualquer coisa de insatisfatório e de esquecível. O final, bastante aberto, não tem impacto. Sabe a pouco. Por outro lado, é um conto que tem em boa quantidade algo que geralmente me agrada bastante: subtileza. E por isso gostei dele. Não muito mas sim, gostei.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Lido: Beterraba: A Vida Numa Colher

Beterraba: A Vida Numa Colher é um álbum de BD do português Miguel Rocha, bastante estranho por vários motivos, o que neste caso é qualidade.

Quando há algum tempo falei da minha relação com a BD, disse que a vertente gráfica do género nunca me interessou muito e que, portanto (embora não por estas palavras), aquilo que menos me sinto qualificado para avaliar num álbum de BD é a sua parte gráfica. E isso levanta-me um problema com este álbum do Miguel Rocha: a vertente gráfica (francamente invulgar... tanto quanto a minha fraca cultura de BD consegue avaliar) é aqui absolutamente fulcral.

A capa dá uma boa ideia do grafismo de todo o álbum: cores fortes, saturadas e muitas vezes inesperadas (céus esverdeados ou vermelhos vivos, por exemplo) e desenhos que parecem apenas esboçados em pinceladas largas, como se se tratasse de pinturas impressionistas, criam uma experiência de leitura muito diferente de toda a BD que eu tinha lido até este álbum. Lê-lo foi, portanto, quase como descobrir um género inteiramente novo. Vou tentar explicar em que medida.

Quando leio um álbum "normal" de BD, os olhos primeiro captam o todo da imagem (mais raramente da página) e de seguida põem-se a saltitar de pormenor em pormenor ou de pormenor em balão. Mas aqui não há muitos pormenores, o que causa uma espécie de corte no processo e leva a uma preponderância maior do texto. Mas ao mesmo tempo, a força da cor chama a atenção para as imagens, afastando-a do texto (e o tipo de letra usado, que não é tão claro como poderia ser, também contribui para isso), o que tem como resultado uma sensação de certa forma paradoxal. E, para mim, um bom bocado incómoda.

Junte-se uma história bizarra, ambientada num lugar não identificado mas com inconfundíveis traços alentejanos, sobre um homem, de alcunha Beterraba, que cisma que dê lá por onde der há de arrancar beterrabas a um terreno estéril e improdutivo, surdo a todos os avisos, numa obstinação inabalável, não só se mergulhando a si na obsessão, mas também à mulher que a dado passo arranja e a uma autêntica ninhada de filhas que a mulher vai pondo no mundo com o passar do tempo, encerrando-se, e a elas, numa espécie de mundo privativo, onírico, fantástico e surreal. De resto, a própria falta de definição das imagens ajuda a tornar toda a história mais onírica, assemelhando-a a um daqueles sonhos de cujas imagens nos lembramos vagamente ao acordar.

Dir-se-ia pelo que acima ficou dito que gostei muito deste álbum, não é? Mas não. Gostei de o ler, é verdade, mas não muito. Em parte por questões de gosto (julgo que a sua qualidade é superior ao prazer que a leitura me causou, consequência de eu preferir a BD mais "limpa"), mas também porque a falta de detalhe de algumas das imagens prejudicou a compreensão das cenas... e por causa de uma calinada que me irritou de tal forma que pus o livro de parte durante vários dias, até a esquecer. Com que então, caro Rocha, os filhos "saem há mãe"? Ugh!

Mas que me parece uma experiência muitíssimo interessante, isso sem dúvida. Mesmo não sendo eu bedéfilo.

Mais um livro comprado.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Jodi McIsaac

Jodi McIsaac é mais uma autora presente nesta antologia com um excerto de romance. No caso dela, o romance intitula-se

Through the Door. Trata-se de uma história de fantasia urbana, centrada numa mulher cujo namorado afirmava que a magia existia, antes de subitamente desaparecer, deixando-a grávida. Anos mais tarde, a filha começa a manifestar poderes mágicos, abrindo o que parecem ser portais para outros mundos. Ou para outros lugares do mesmo mundo.

Com a habitual ressalva sobre os perigos de tirar conclusões a partir de algumas dezenas de páginas de excerto, este não parece ser um mau livro, mas também não é livro cujo início me tenha deixado particularmente curioso. Em parte isso deve-se, julgo, a ser um início demasiado introdutório, sem realmente deixar uma ideia minimamente sólida sobre os caminhos que a autora pretende seguir com desbobinar do enredo. Parece tratar-se de uma história sobre o abandono e a busca pelo pai/namorado ausente, uma história centrada no mistério do desaparecimento e nos problemas originados pelo uso de capacidades mágicas, mas o excerto não é suficiente para o poder afirmar com alguma segurança.

Creio que o livro talvez seja razoável, mas duvido que passe disso.

Lido: A Morte da "Chota"

A Morte da "Chota" é um conto bastante breve de Castro Soromenho, autor português de quem eu nunca tinha lido nada até agora mas de que talvez venha a ler mais coisas no futuro. É um exemplar curioso de história de um português apaixonado por África e pelas suas culturas e por isso perseguido pelas autoridades coloniais e fascistas. Esta história, de pendor sociológico ou etnográfico, baseia-se na cultura tradicional dos lundas, em Angola, fazendo referência a várias tradições daquele povo enquanto relata uma história de vingança que até se pode ver como feminista. Vasto conteúdo para conto tão pequeno. Muito interessante.

Contos anteriores desta publicação:

sábado, 30 de janeiro de 2016

Abandonado: Espíritos das Luzes

Espíritos das Luzes (bibliografia) é uma bizarra resma de papel, constituída na sua maioria por fragmentos dos escritos de uma série de personagens setecentistas, com Bocage à cabeça, que Octávio dos Santos tenta colar numa historieta que, com uma capa vagamente relacionada com a ficção científica, não passa de exaltação patrioteira das superiores virtudes da lusitanidade.

Ora bem, eu sou um tipo teimoso e curioso. Tenho, desde sempre, uma compulsão pelo virar de página, uma curiosidade por aquilo que espera do outro lado da folha que normalmente só se deixa saciar quando ela é realmente virada e o conteúdo é lido... para ser substituída por curiosidade igual sobre a página seguinte. Mesmo quando um livro é chato, mesmo quando é quase insuportavelmente maçudo, essa curiosidade existe sempre. E o facto é que já tive ótimas experiências por causa dela; sem ela teria deixado a meio o Memorial do Convento, por exemplo, o primeiro Saramago que li e que só me começou a prender lá pela página 100. Essas recompensas que a minha teimosia leitora me proporcionou só a reforçaram, mesmo que na maioria das vezes as primeiras impressões acabem por se revelar acertadas. E portanto faço sempre, mas sempre, um esforço para chegar ao fim dos livros que enceto. Foi assim que li de fio a pavio livros muito, muito maus e é por isso que em quatro décadas de leitor se contam pelos dedos de uma só mão os que deixei a meio por iniciativa própria.

Entra em cena Espíritos das Luzes.

A ideia até é boa (e o exercício literário muito válido), ainda que seja claramente demasiado ambiciosa para a grande maioria dos autores que por aí andam e haja problemas éticos óbvios em usar-se o nome de quem faz a compilação como se fosse autor único de um livro constituído na sua maior parte por textos de terceiros, que ainda por cima já por cá não andam para protestar. Quem pegou nas obras de Jane Austen e lhes acrescentou subtramas fantásticas com zombies, lobisomens ou outras criaturas mais ou menos mitológicas teve pelo menos a decência básica de se colocar como coautor (o que de facto é), não como autor único (o que estaria muito longe de ser) do resultado. Mas a ética, ou a falta dela, fica com quem com ela se revela. A obra é o que é independentemente desse tipo de detalhe.

A obra depende sobretudo da forma como o autor (ou, neste caso, compilador-autor) põe em prática a ideia. E esta, como digo acima, é demasiado ambiciosa para a generalidade dos autores. Não é qualquer um que é capaz de pegar numa quantidade de textos díspares e de construir com eles um todo com alguma coerência. E não, não estou aqui a falar de se ter de ser bom escritor, porque as qualidades necessárias para este tipo de corta-e-cola são umas e as que são indispensáveis para se criar obra original com qualidade são outras, ainda que convenha escrever-se bem quando os textos escolhidos são de autores que escrevem bem para que o contraste não seja demasiado evidente. Duvido muitíssimo que Saramago, Lobo Antunes ou tantos outros autores de primeira ou segunda linha tivessem capacidade, já para não falar de vontade, para pôr mãos a obras destas. Ou seja, caso a coisa fosse bem sucedida e as questões relativas à autoria tivessem solução condigna seria caso de se tirar o chapéu.

Mas a porca, raios a partam, torce o rabo. E torce, e retorce e volta a retorcer.

Começa a torcê-lo com o contraste entre a prosa do Santos e a prosa setecentista. Não só a daquele é claramente mais moderna, o que é naturalíssimo mas não contribui em nada para a coesão do resultado, como é de uma qualidade muitíssimo inferior à da maior parte dos outros autores, em particular da de Bocage, que ainda por cima tem aqui honras de personagem principal.

Continua a torcê-lo com o ambiente pateta que o Santos arranjou para servir de esqueleto à história. Uma coisa destrambelhada sobre o "Planeta Portugal," parte do "Sistema Solar Europa," cheio de outros planetas entre os quais circulam "passarolas interestelares." Portugal, o planeta, tem pelos vistos uma geografia curiosa, subdividindo-se a parte emersa nos continentes Alentejo, Minho, Algarve, Beiras, Açores e por aí fora, separados por oceanos com os imaginativos nomes de Tejo, Douro, Sado, etc. Tudo num gigantismo de sonho de anão complexado. Só para exemplificar, a capital do planeta, chamada — adivinharam — Lisboa, inclui uma Praça do Comércio com "49 quilómetros quadrados de superfície." Uma praça maior que a ilha do Porto Santo. Pois.

Torce-o mais um pouco com os excertos. Como são quase sempre postos na boca de quem os escreveu, como falas, o resultado é um texto descritivo que parece servir de pouco mais do que de ligação ao fragmento seguinte, sem que essa ligação pareça (pelo menos de início) ter por trás algum verdadeiro enredo que a dirija, intercalado por discursos insuportavelmente pomposos. Um exemplo, retirado da página 29: "A escandalosa relaxação em que está vivendo uma grande parte dos eclesiásticos, trajando contra a modéstia, frequentando as casas de jogo, as mulheres prostitutas, e usando chinelas com bicos à jacobina, e fitas à republicana!" Outro, da página 33: "Declaro os sobreditos regulares na referida forma corrompidos, deploravelmente alienados do seu santo instituto, e manifestamente indispostos com tantos, tão abomináveis, tão inveterados e tão incorrigíveis vícios" e por aí fora, numa série de soporíferos arrazoados, de que as "falas" de Bocage se destacam não por serem menos discursivas, mas porque, graças à bem conhecida irreverência do autor, são menos chamativas de bocejos.

Sim, é penoso desbravar este livro.

Mas eu, como já disse, sou um leitor teimoso. Cheguei ao fim de livros tão penosos como este. Qual é, então, a diferença?

A diferença é a incoerência.

Lembram-se da descrição do ambiente? Lembram-se de estarmos num planeta Portugal, parte de um sistema solar Europa, subdividido em continentes com os nomes das províncias? Lê-se isso nas páginas 13 e 14. Pois agora venham comigo até à página 36, onde se pode ler isto, de novo uma arenga de uma das personagens:

"Esta nação [...] tornou os súbditos por igual dependentes do trono e possuidores dos mesmos privilégios. Pequenina, portanto, mas autónoma, e como se sozinha atentasse à segurança e à grandeza da Europa, enquanto esta se dilacerava nas suas divisões, os portugueses conquistavam as costas de África; descobriam os mares e os desertos daquela região inculta; abriam a navegação até às Índias Orientais; ali faziam potentes diversões ao ímpeto dos turcos; talvez fornecendo as luzes, de onde outros se aproveitaram com maior sucesso; acrescentavam a quarta parte à Terra [...]"

E foi aqui que eu fechei definitivamente o livro. A chatice ainda aguento. Alguma estupidez também. Mas quando esta é em tal excesso que sinto a minha inteligência insultada, santa paciência. Há coisas melhores com que gastar a vida.

Estávamos no planeta Portugal, de repente estamos numa "nação". Pequenina, ainda por cima. Estávamos no sistema solar Europa, de repente estamos em outra Europa que se "dilacera nas suas divisões," como se os planetas andassem sempre a fragmentar-se e a reconstruir-se. O planeta (ou será a nação?) Portugal, às tantas, "conquista as costas de África," supõe-se que outro sistema solar, algures. Pelos vistos um sistema solar que se subdivide, não em planetas, mas em mares e desertos. E, de caminho, dão um salto às Índias Orientais, que não se percebe o que é (outro planeta, outro sistema solar?) nem que raio de sentido faz a noção de oriente quando se está a falar em termos astronómicos. E até há uma Terra, vejam só. Não me perguntem é o que é uma Terra quando temos uma história(?) ambientada num planeta Portugal.

Patético.

E no meio disto tudo, Octávio dos Santos é tão mau no que tenta fazer que amontoa citações sem sequer se dar conta de estar também a amontoar incoerências.

Este livro, meus caros, é puro lixo. Pobres árvores que foram abatidas para se transformarem nisto.

E eu ainda o comprei com o meu rico dinheirinho. Não me apanham noutra.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Sean F. Lynch

Sean F. Lynch é mais um autor presente nesta antologia com um só conto

The Cave. Trata-se de uma história de fantasia, ou talvez de horror, sobre um pai e um filho que um belo dia decidem ir em busca de uma gruta de que falava um velho prospetor que lhes aparecera na aldeia a contar histórias em que ninguém acreditava. Eles, no entanto, ficaram com algumas dúvidas. Daí a decisão e, com ela tomada, lá vão eles, acabando mesmo por deparar com a gruta, que decidem explorar.

Mas a gruta é mágica e os dois perdem-se lá dentro, passando aquilo que lhes parece uma eternidade à procura da saída sem nunca a encontrarem. O rapaz cresce e torna-se homem; o pai envelhece. E de saída nem sinal.

O conto está bastante bem escrito e bastante bem estruturado, de uma forma não linear, tem uma forma gentil de mostrar a dinâmica carinhosa da relação entre pai e filho, mesmo maculada por sentimentos de culpa e pelo desespero, mas aquilo que me despertou maior interesse foi um certo caráter folclórico que nele transparece, como se este conto pouco mais fosse, no fundo, do que uma velha lenda popular, contada durante séculos, de boca em boca, em alguma zona rural remota e não identificada, agora recuperada e desenvolvida por Sean Lynch para se metamorfosear nesta história contemporânea. Por outras palavras: há neste conto qualquer coisa de genuíno, de conto tradicional em versão literária. E isso, nesta altura da minha vida de leitor, interessa-me particularmente.

Lido: O Coelhinho Branco

O Coelhinho Branco é um misto de fábula e lengalenga, protagonizada por um coelhinho que, ao voltar da horta com couves para fazer um caldinho, encontra a casa invadida pela mazona da cabra cabrês, que o ameaça de lhe saltar em cima e o fazer em três. O coelhinho parte então em busca de quem o ajude e, embora a busca na versão aqui contida seja curta, suspeito de que ela poderá ser tão longa quanto se queira e a imaginação consiga, pois é aqui que a história mais se torna lengalenga. Por fim, a ajuda vem do sítio menos previsível, sendo o moral implícito na história o de que na mais humilde criatura existe potência e bravura. E sim, é verdade, tanto se verseja na história que um tipo fica a escrever em rima.

Uma historinha com o seu interesse, mas há melhores.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Piquenique

Piquenique é uma muito curiosa vinheta de ficção científica de Luiz Bras, protagonizada por um tal Ariel, que tem a particularidade de ser vítima de visitas mentais ocasionais por parte de entidades desconhecidas mas mais que provavelmente alienígenas. E não é o único, o que ocasionou alguma convulsão social, muito embora nem todas as pessoas sejam suscetíveis.

O conto descreve a forma como Ariel se defende dos visitantes, ou pesquisadores, ou o que sejam, e é tanto intrigante enquanto ficção de fundo ufológico, quanto divertido. Gostei bastante, sim senhor.

Textos anteriores deste livro:

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Lido: Os Serenins de Queluz

Os Serenins de Queluz é um conto curto de Júlio Dantas que, apesar da chuva de nomes e personalidades citadas, não se prolonga o suficiente para se tornar realmente maçudo. Até é, por vezes, divertido, sendo claramente essa a ideia. Tudo se passa na corte, no palácio de Queluz, numa noite em que a rainha enlouquece entre berros de "ai jesus," e Dantas (sim, esse mesmo que Almada Negreiros manda morrer, pim) traça em quatro páginas um esboço francamente ridículo da corte e da fauna que a povoa. Não se podendo dizer que tenha gostado, tampouco posso dizer que desgostei deste texto. Achei-o razoável, medianamente divertido, bem escrito, ainda que com um estilo pomposo que não me agrada e do tamanho certo para se ler sem mais sequelas.

Contos anteriores desta publicação:

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Lido: O Incesto

O Incesto (bibliografia) é uma novela de Mário de Sá-Carneiro que, à semelhança de Loucura..., começa muito realista mas vai tomando um tom cada vez mais bizarro, mais tenebroso, vai mergulhando mais no horror psicológico, à medida que a tragédia vai fazendo o protagonista perder a razão até um desfecho que, também ele, é idêntico. Sim, as duas histórias têm fortes pontos de contacto. A estrutura é muito semelhante, embora O Incesto seja uma obra mais extensa e, em parte por isso, mais complexa, o enredo também tem semelhanças fortes, e as próprias personagens também.

Mas também há diferenças, claro. Para começar, esta não é uma história testemunhada por um narrador a ela estranho. É uma história com narração em terceira pessoa, cujo protagonista é um dramaturgo de sucesso, cuja vida a novela segue ao longo de várias décadas. Como é da praxe de um certo tipo de romantismo de que Mário de Sá-Carneiro, aparentemente, não gostava muito de se afastar, o fulcro da história são as relações sentimentais do protagonista e as consequências que elas têm.

Primeiro, com uma atriz, por quem se apaixona perdidamente, com quem casa, com quem tem uma filha e por quem é depois abandonado quando a mulher foge com um diplomata austríaco, abandonando-o não só a ele, mas à própria filha.

Depois é a ligação de amor paternal que estabelece com a filha, e que acaba tragicamente encurtada quando a rapariga, quase a fazer-se adulta, fica tuberculosa (e quanta literatura foi escrita, numa certa época, tendo a tuberculose como força motriz de enredos!). Seguem-se as viagens, os sanatórios, o travar conhecimento com outro doente, dinamarquês, que por um acaso do destino tem uma irmã que é sósia quase perfeita da filha do protagonista, e por aí fora.

Fácil é imaginar-se o desfecho desta parte da história, ou não fosse Sá-Carneiro quem é, mas só depois é que esta novela começa realmente a fazer jus ao título. É que a filha do dramaturgo, claro, morre, mas de seguida este decide casar com a sósia dinamarquesa, e a partir daí, como vê na mulher a filha morta, começa a ser dominado por pensamentos cada vez mais perturbadores. O resto da novela é um longo calvário, que acaba por ter o desfecho que é tão omnipresente nas histórias de Sá-Carneiro que as torna previsíveis. Por isso, mas também porque o autor cede demasiadas vezes à tentação de divagar nas páginas desta novela, perdendo-se em pensamentos que por vezes pouco têm a ver com a história que está a contar, este texto não me agradou muito.

Por outro lado, está muito longe de ser um texto mau. Está tão bem escrito como seria de supor, naturalmente. Mas além disso, a abordagem feita ao tema do incesto traz consigo pinças e é interessante, mesmo tendo sido inspirada por abordagem semelhante n'A Dama das Camélias, de Dumas Filho, o que Sá-Carneiro reconhece com a vénia de citar até um trecho da adaptação teatral do romance, no francês original. Se não retomasse temas, abordagens, truques narrativos e até desfecho de obras anteriores, eu consideraria esta novela realmente boa. Mas aborrece-me quando os autores se citam demasiado a si mesmos, quando parecem estar sempre a escrever a mesma história, mesmo que o façam de forma excelente. E é o que Sá-Carneiro aqui faz, infelizmente.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 16 de janeiro de 2016

Três fechos em quinze dias? Algo se passa.

Mesmo a encerrar o ano passado, foi o Infinitamente Improvável que encerrou portas, embora o encerramento ainda se tenha prolongado 2016 dentro com a colocação online da versão PDF da derradeira antologia II, no passado dia 3. O zine tinha aparecido em 2012 e, depois de um início razoavelmente movimentado, depressa o material começou a escassear, levando à paralisação de atividades logo em 2013. O fim, em 2015, acontece como pouco mais que uma formalização de um ato já antes consumado.

Dias depois do Infinitamente Improvável, a 8 de janeiro, cerra portas o Quotidianos, um projeto brasileiro que publicava histórias fantásticas ilustradas, baseadas no corriqueiro da vida. Surgido em 2013, começou a dar sinal de desgaste logo em 2014, com uma parte considerável (e crescente) da atividade a ser constituída por republicações de textos já anteriormente publicados. Ao contrário do II, o Quotidianos, além de fechar, vai mesmo desaparecer da rede em meados de fevereiro.

Hoje, 16, é o Ao Sugo, outro projeto brasileiro, que anuncia o fim da sua secção de publicação de ficção online. O percurso é precisamente idêntico: "tivemos uma aderência bastante legal no começo," escrevem eles, "mas, com a falta de material enviado para publicação, julgamos melhor fechar a iniciativa." Não sei bem se o material lá publicado vai ficar online, mas parece que sim. (Adenda de horas mais tarde: afinal não. Destes três projetos, o único que fica online é o Infinitamente Improvável.)

Três fechos de iniciativas de publicação online de ficção científica e fantástico em português, em pouco mais de quinze dias, mostrando todas elas uma curva de interesse por parte dos autores muito semelhante, e cada uma com características distintivas fortes. Pode ser mera coincidência, mas parece-me improvável que seja. Desconfio que isto tem mais a ver com as redes sociais que, como autênticos eucaliptos, estão a secar tudo à volta, e/ou com coisas como o Smashwords, que tornam simples (demasiado simples?) a autoedição de ebooks, mas estou longe de ter certezas.

Se assim for, parece-me uma evolução muito negativa. A internet só se manterá um espaço de liberdade enquanto for um espaço também de diversidade. Os monopólios, sejam do Facebook, sejam do Smashwords, sejam da Amazon, podem parecer muito atrativos a curto prazo, mas a médio e a longo prazo vão acabar por nos estoirar na cara. É fatal como a morte.

Se não for... é o quê? Alguém tem ideias?

Lido: A Formiga e a Neve

A Formiga e a Neve é uma lengalenga que parte de uma formiga ficar com uma pata presa na neve e abala por aí fora, numa cadeia de relações de força que faz lembrar o jogo infantil anglo-saxónico da pedra-papel-tesoura, com a formiga a tentar vergar-se perante a força de sucessivos animais, coisas e fenómenos antropomorfizados, só para estes lhe ripostarem que há qualquer outra coisa, fenómeno ou animal mais forte do que eles.

Até que se chega à morte. E quem diz que não há profundidade metafísica nas histórias populares?

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Lido: Bilhetes

Bilhetes, conto curto de Luiz Bras é uma história paranoica de uma ficção científica distópica e bastante surreal, que tem como protagonista um homem cujo trabalho é vasculhar documentos em busca do número cinco. Aparentemente, se aparecer em algum documento uma sequência de cinco números cinco, isso significa que os engenheiros conseguiram finalmente criar a máquina do tempo, e o trabalho do homem, e de toda a multidão dos seus colegas, consiste em verificar se isso aconteceu. Mas nunca ninguém encontra nenhum número cinco, o que dá origem às mais díspares e subversivas teorias.

Mais uma vez bem escrito, este conto tem um ambiente opressivo que faz lembrar o de 1984, ainda que atenuado por uma ideia base e, até certo ponto também, por uma execução divertidas. Não gostei tanto dele como de alguns dos primeiros, mas é um conto interessante.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Marina J. Lostetter

Marina J. Lostetter aparece nesta antologia com três contos, a saber:

Sojourn for Ephah. Um conto de ficção científica de futuro distante, muito interessante nos conceitos e bastante profundo em termos teológicos, protagonizado e narrado por um tal Padre Thomas, um dos padres de serviço na Catedral da Nossa Senhora dos Céus, que nada mais é do que uma nave espacial pousada durante algum tempo num planeta distante. A história desencadeia-se quando, nos degraus da catedral, surge de repente uma estranha criatura — Ephah — que vai provocar uma autêntica revolução no pacato dia-a-dia eclesiástico. Muito iconoclasta relativamente à teologia católica, na qual se inspira de forma clara, Marina Lostetter consegue, apesar disso, desfazê-la e refazê-la com pinças, apresentando um curioso conceito de deus e contando uma história que é também sobre amor, intolerância e fanatismo. Aqui o velho ateu aprova.

Master Belladino's Mask. Este é um conto de fantasia, protagonizado por uma rapariga — Melanie — que procura a máscara de um curandeiro famoso para tentar curar a mãe muito doente. É que, no universo ficcional que Lostetter aqui nos apresenta, as máscaras trazem consigo não só os conhecimentos como as próprias personalidades daqueles que as inspiraram e ela tem a esperança de que o Mestre Belladino, mesmo reduzido a máscara, seja capaz de fazer alguma coisa, por seu intermédio, para salvar a vida à sua mãe. Mas a máscara do Mestre Belladino é cara e a sua personalidade não é bem aquela com que a jovem contava, o que cria uma porção de problemas e torna a ideia muito incerta. Este é outro conto bastante bom. Bem escrito, sim, mas sobretudo muito bem concebido.

The Prayer Ladder. Outro conto de fantasia, este talvez inspirado pela velha história do feijoeiro mágico. Aqui vamos encontrar uma escada de orações que, de cinco em cinco anos, é subida por um escolhido, que parte carregado com um saco contendo as orações dos aldeões mas nunca mais regressa. Supostamente, ao chegar ao topo da escada encontrará o Céu, onde poderá entregar as orações a quem de direito, que irá conceder metade. Só que desta vez o protagonista e narrador é um rapaz — Damien — só com um braço, o que cria novas dificuldades. O conto narra a ascensão e o que acontece depois, entrecortado por breves explicações sobre os vários aspetos daquela mitologia. O pior dos três contos, parece-me ainda assim ser bom. Marina Lostetter é uma escritora cheia de imaginação que trabalha muito bem as suas histórias.

Lido: Palavras Para o Velho Abacateiro

Palavras Para o Velho Abacateiro, a última e a maior das histórias deste livro, é uma história melancólica sobre a despedida de um tempo de sol e descoberta: a infância. Muitíssimo bem escrita, usa a violência meteorológica como complemento simbólico do momento em que, como Ondjaki escreve, "no corpo da criança um adulto começou a querer aparecer," motivo também para ser esta a história escolhida para fechar o livro. A partir daquele momento, subentende-se, "os da rua dele" irão passar a ser outros e a vida vai mudar para sempre. À casa velha, a do abacateiro, outra se irá seguir, e o momento é doloroso, como não poderia deixar de ser.

Não sei bem se esta será a melhor das histórias do livro, mas é uma história muito boa, que certamente está entre as melhores e, ao rematar o livro num ponto alto (ainda por cima imediatamente antecedido de outro ponto alto), mostra a inteligência do autor. Isto foi realmente bem feito, caro Ondjaki. Sim senhor.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Lido: O Caminheiro

O Caminheiro é uma história de Leopold von Sacher-Masoch, sim, esse mesmo Masoch, que devia ser de leitura obrigatória para quem gosta de usar o adjetivo panfletário para tentar denegrir histórias com princípio, meio, fim, enredo, enfim, essas coisas de que se faz a ficção. É que esta, sim, é uma história panfletária. Sem enredo propriamente dito, quase se limitando a uma longa arenga do caminheiro a que o título se refere, esta história explana, de forma claramente abonatória, as ideias básicas que estão subjacentes à seita dos caminheiros, uma seita da ortodoxia russa que defende ideias muito peculiares sobre a sociedade e a vida, levando os crentes ao nomadismo e ao eremitismo.

O que passa por enredo limita-se a duas páginas usadas para situar o leitor no ambiente, antes do encontro com o caminheiro, e depois algumas linhas no fim, depois deste se ir embora, quando o narrador, impressionado, semi-convertido, fica a matutar. O resto é uma longa descrição dos males do mundo. E, embora eu até concorde com a maioria dos reparos do caminheiro, achei que ler esta história foi um ato quase... masoquista. Quase. Sê-lo-ia mesmo se ela fosse mais longa.

Vamos combinar uma coisa? Panfletário é isto. O resto é ficção com conteúdo. Pode ser?

Contos anteriores desta publicação:

domingo, 10 de janeiro de 2016

Lido: História da Carochinha

História da Carochinha é o primeiro dos contos populares recolhidos por Adolfo Coelho, o que só pode ser adequado visto também ser, provavelmente, o mais popular de todos os contos tradicionais do nosso país. Meio fábula, meio lengalenga, esta história, que foi popularizada nos tempos modernos pelas suas versões infantis, ganha aqui na versão original (ou pelo menos numa delas) um tom um pouco diferente. Foi precisamente isso o que mais me intrigou, e começo já a suspeitar que será isso o que maior interesse terá, para mim, ao longo da leitura deste livro. Nesta História da Carochinha há uma irreverência para com os poderosos, no caso o rei, e sobretudo um potencial para o horror que a generalidade das pessoas que conhece as versões limpas produzidas para miúdos não deverá conhecer por inteiro. É que não é só a queda do João Ratão no caldeirão; há mais.

Imagino que seja desnecessário falar da história propriamente dita, não é? Todos sabem o que acontece à Carochinha e aos seus pretendentes.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Lido: Introspecção

Introspecção é um curtíssimo poema de Luiz Bras, meio horrendo, meio surrealista, sobre um homem que faz uma autópsia (bem... em vivo é capaz de se chamar biópsia) a si mesmo. E este texto já vai bem maior que o poema, portanto vou concluir já acrescentando apenas que é mais um bom texto, embora de uma forma diferente dos que o precederam.

Textos anteriores deste livro:

Lido: O Sexto Sentido

O Sexto Sentido (bibliografia) é um conto curto de Mário de Sá-Carneiro sobre telepatia. Muito clássico na estrutura, muito típico do seu tempo, é narrado na primeira pessoa por um narrador que recebe de um amigo informações sobre si e sobre a sua vida. No caso, o amigo possui no cérebro "um órgão novo", que lhe dá a capacidade de ler os pensamentos e emoções alheias, e o conto consiste, basicamente, de uma série de conversas nas quais este, em vias de enlouquecer, vai explicando ao narrador o pesadelo que é viver com tal capacidade.

É um tema que foi tratado com alguma frequência tanto na literatura fantástica propriamente dita como na de ficção científica, portanto estas ideias não são propriamente novas para um leitor experiente, mas estamos perante um conto de 1909 e bastante bem escrito que, ainda por cima, foge ao típico desfecho suicidário de tantas das prosas iniciais de Sá-Carneiro, ainda que a loucura continue nele presente. É bastante bom, este conto.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Nós Chorámos Pelo Cão Tinhoso

Nós Chorámos Pelo Cão Tinhoso é uma das melhores destas historinhas do Ondjaki. Descreve, com uma subtileza de pinças, um momento numa aula de português em que os miúdos, e muito em particular Ndalu, o narrador, são postos a ler um texto que já conhecem e os impressiona, intitulado "Nós Matámos o Cão Tinhoso." O tema do texto é precisamente esse, uma espécie de caçada a um cão tinhoso, seguida da morte do animal. Mas há quem se apiede do bicho. Há quem se comova.

Muito bom, este continho. Muito bom mesmo.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Lido: O Quarto Azul

O Quarto Azul é um conto mundano de Prosper Mérimée, claramente escrito para divertir damas e cavalheiros da alta nobreza nos salões do tempo (segunda metade do século XIX). Conta a história de uma escapadinha de dois amantes, que partem de Paris, de comboio, para irem passar juntos um idílico fim-de-semana algures na província, longe de esposos e esposas e de olhares indiscretos, só para se verem perseguidos por uma série de azares centrados num misterioso e desconhecido cavalheiro inglês que, por calhar seguir na mesma direção e nos mesmos transportes, acaba por praticamente se lhes juntar numa companhia indesejada.

É um conto leve e superficial, com o seu interesse para quem gosta do género. Não é o meu caso, confesso, ainda que o conto talvez me tivesse divertido se não fosse a obsessão da tradutora por notas de rodapé: conseguiu enfiar 20, maioritariamente desnecessárias, numa história de 18 páginas. Achei razoável, não mais do que isso.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Lido: 2014 Campbellian Anthology - Stant Litore

Com Stant Litore regressamos aos autores presentes nesta antologia com excertos de romances. O dele intitula-se:

The Zombie Bible: No Lasting Burial. O título composto significa, como poderão adivinhar, que No Lasting Burial é apenas uma parte de uma série. Na verdade, é a quarta e última parte da série The Zombie Bible, o que é curioso se tivermos em conta que esta antologia se destina a divulgar os potenciais candidatos ao prémio Campbell, o qual premeia autores novos. Portanto com pouca obra, supostamente. E vai aparecer aqui um excerto de um quarto romance de uma série?

Estranho mas verdadeiro: é que Litore publicou os quatro romances da série quase de uma assentada, em 2012 e 2013.

Quanto ao excerto, leva-nos à Galileia romana, pouco depois de Cristo, e ao lago salgado que também ostenta esse nome, onde pescadores têm problemas em prosseguir a pesca porque os cadáveres que, segundo os ritos fúnebres locais, eram atirados à água, começam a vir enredados nas redes... vivos.

Ou melhor, mortos-vivos.

Com a costumeira ressalva de que o autor pode levar esta história por variadíssimos caminhos depois dos dois capítulos que aqui apresenta, uns melhores que outros, o excerto parece mostrar uma história com interesse, embora não o suficiente para me deixar realmente curioso.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Lido: Pierre-Auguste Renoir, Meu Pai

Pierre-Auguste Renoir, Meu Pai é um livro sobre a vida (principalmente) e a obra (bastante menos) do pintor conhecido apenas como Renoir, escrito pelo filho, Jean Renoir, conhecido por mérito próprio como cineasta e que aqui demonstra também um talento considerável para escrever.

Como já escrevi algures mais para trás, não sou grande fã de biografias. Li algumas, mas o panegírico do grande homem (ou o ataque às suas falhas de caráter no caso de muitas das não autorizadas) a que elas tendem a resumir-se, enche-me de tédio. Por isso, depressa perdi o interesse pelo género, dedicando-me a outras leituras. Talvez tenha simplesmente calhado deparar inicialmente com algumas biografias más; bem sabemos que os primeiros contactos com um género formam, e muitas vezes deformam, a opinião que mais tarde teremos sobre ele. Talvez. Afinal, agora que passados muitos anos voltei a ler uma biografia gostei muito dela.

Por outro lado, talvez não. É que esta é uma biografia muito especial, um livro escrito por um filho sobre o seu pai. Interessa-se, portanto, menos pelo homem público do que pelo homem íntimo, aquele que nem os amigos especiais conhecem, só a família. Descreve-lhe a vida, as realizações, os sucessos, as deambulações e as frustrações, mas sem nunca perder a âncora do núcleo familiar. E é um ato de amor, puro e simples. O amor do filho pelo pai extravasa de cada linha, mesmo (ou sobretudo) quando se refere aos seus defeitos, às ideias ou atitudes com que talvez nem concorde. E além disso, não só Renoir foi uma pessoa interessante, como o livro está bastante bem escrito.

Vem na capa deste livro a seguinte citação do Sunday Times: «Tão delicioso quanto brilhante — uma obra-prima.» Eu olho sempre para estas citações com uma saudável dose de desconfiança: são escolhidas a dedo, por vezes inventadas, com a expressa intenção de vender mais livros. No entanto, desta vez concordo. Embora tenha de reconhecer que é possível que isso se deva em parte mais a mim do que ao livro propriamente dito, pois a relação pai-filho me toca num ponto sensível, a verdade é que achei mesmo o livro delicioso e brilhante.

Esta foi uma das maiores surpresas das minhas leituras no ano que passou.

E não posso dizer como este livro me veio parar às mãos: pura e simplesmente não me lembro, embora tenha a vaga ideia de o ter ganho num concurso.

Lido: Fast-Forward

Fast-Forward é uma bizarra historinha cosmológica de Luiz Bras que — julgo — tem como ponto de partida a ideia de que o Universo, depois de uma fase de expansão, atinge um ponto de equilíbrio e depois começa a encolher até culminar no inverso do Big Bang, o Big Crunch, e de que durante o encolhimento o próprio fluxo do tempo se inverte. Julgo, só julgo, porque o conto (que, na verdade, é quase um poema... ou é mesmo um poema) é muito mais virado para subentendidos do que para entendidos, para sugestões do que para afirmações. E no meio de tudo há um crime.

É mais um bom conto, mas do qual não gostei tanto como dos anteriores.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Lido: Bando de Dois

Bando de Dois é um álbum de banda desenhada do brasileiro Danilo Beyruth sobre um par de cangaceiros que, depois de uma batalha com uma patrulha de soldados, são os únicos sobreviventes do seu bando. Um deles fica ferido e, num delírio, recebe ordens do fantasma do chefe do bando, para os "libertar". A partir daí, a história transforma-se numa aventura muito semelhante a um western, pois os dois sobreviventes decidem que a ordem delirante significa que terão de se apropriar das cabeças dos companheiros mortos, que a patrulha leva consigo em caixas a fim de as expor como prova de sucesso, e enterrá-las. Isso vai dar lugar a uma série de peripécias que, despidas de um certo sabor nordestino, poderiam perfeitamente fazer parte de uma história do Velho Oeste americano. Mas uma história do Velho Oeste que nunca se afasta muito do horror. Há aparições de almas do outro mundo, por mais sonhadas que sejam, há várias imagens cadavéricas, como a da capa, e há um final que é praticamente apocalíptico.

Da BD brasileira só conhecia algumas coisas do Maurício de Sousa e um projeto de BD do universo da Intempol, do Octávio Aragão (já vos disse que não sou bedéfilo) e, também por ser tão diferente de ambos esses contactos anteriores, gostei bastante deste álbum. Abriu-me mais os horizontes.

Mas não foi só isso. Achei também a história francamente bem contada e gostei muito da arte, limpa e clara à maneira da BD que mais li e de que mais gostei, a franco-belga. Ao contrário da de Crumb, diga-se, que tem um ar atulhado que não me agrada particularmente.

Não me pronuncio sobre o enquadramento deste álbum na BD brasileira, por motivos óbvios, mas ele inclui duas páginas de uma introdução que fazem, basicamente, isso mesmo. Também por isso é bom.

Este livro foi comprado.