sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Lido: Boca da Trompete

Alexandra Pereira regressa com mais dedicatórias, sendo que as deste conto devem ser as primeiras a encontrar sem quaisquer problemas destinatário leitor, uma vez que as dedicadas são duas amigas da autora.

Quanto ao que realmente interessa, Boca da Trompete, assim mesmo no feminino, por estranho que soe, é um conto fantástico bastante surrealista, com uns pozinhos de onírico, ambientado numa estrada perto da Boca do Inferno, Cascais, onde Alexandra Pereira coloca um estranho sucedido: o falecimento por atropelamento ciclista de Dizzy Gillespie, trompetista de jazz (ou pelo menos de um Dizzy Gillespie, trompetista de jazz). E descreve-o com profusão de pormenores e uma galeria castiça de personagens que nele participam ou o testemunham. É isso, aliás, que faz o conto.

E é um bom conto, não só por estar escrito com a habitual competência salpicada de poesia e ironia que Alexandra Pereira costuma mostrar em prosa corrida, mas também porque a história está bem concebida, com um jogo hábil entre aquilo que faz sentido lógico no contexto de uma prosa que se quer realista e os elementos fantásticos, proféticos, que nela se entrelaçam e porque até tem, imaginem só, diálogos bem feitos. Sim. Alexandra Pereira, afinal, sabe criar diálogos em que se sente gente a falar. Diálogos sem purpurinas literatas e com os oralismos terra-a-terra das pessoas reais. Muito bem. Assim é que é.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Man of the Theatre

A revista científica britânica Nature publica regularmente (embora com alguns hiatos) desde 1999 pequenas histórias de ficção científica, muitas delas escritas por autores de relevo no género, um pouco à semelhança do que se fez em Portugal com a Omnia, nos anos 80 (que por sua vez foi inspirada por igual abordagem por parte da americana Omni). Há alguns anos (ver nota), parte destas histórias foi disponibilizada pela revista na web, em ficheiros pdf, e eu descarreguei-os e deixei-os no meu disco à espera de oportunidade ou vontade para lhes pegar e os ler. Durante anos.

(Nota: Hoje, todas estas histórias estão disponíveis no site da revista, não só em html mas também em pdf)

A Man of the Theatre, de Norman Spinrad, é uma dessas histórias, datada de 2005. Ambientada num futuro (naturalmente) em que o teatro está obsoleto, substituído por espetáculos bem mais imersivos em realidade virtual, a história consiste de divagações por parte de um velho homem de teatro, desgostado e revoltado com a decadência da sua arte e decidido a fazer um derradeiro gesto adequadamente dramático para fazer lembrar ao mundo que essa arte existe.

É uma boa história, mas apenas boa. Tem o tal problema típico das histórias que procuram condensar mundos complexos em uma ou duas páginas e por isso acabam por se resumir a uma longa explanação do ambiente para situar o leitor, dedicando pouco ou nenhum espaço a verdadeiro enredo. Histórias assim têm de ser muito bem feitas para terem real impacto, e não creio que esta o seja. Não é má, é interessante, mas falta-lhe algo para chegar ao muito bom.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Lido: Second Sight

Mais uma das pequenas vinhetas de Bruce Holland Rogers, e esta também não teve edição em português. Second Sight é daquelas histórias de horror que parecem servir de ilustração ao célebre adágio "cuidado com o que pedes, porque pode ser-te concedido"... e até está escrita em segunda pessoa e tudo.

O protagonista, você, é alguém que tem um objetivo: ver fantasmas. Para isso, encontra uma loja vazia e espera até que, à meia noite, soa uma voz que lhe explica como o fazer... e avisa que vez fantasmas não é como imagina. Mas o protagonista, você, é obstinado, e faz o que há a fazer para ver fantasmas. E vê fantasmas. E, como tinha sido prevenido, não é como imagina, o que naturalmente tem consequências.

Esta é mais uma historinha inteligente e subtil, bem escrita, precisamente o que quem o conhece espera do autor.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers:

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Lido: O Foguete

Em O Foguete (bibliografia), Ray Bradbury regressa ao puro maravilhamento dos primeiros contos deste livro, mas aqui a abordagem é diferente. Fiorello Bodoni é pobre mas tem o sonho do espaço. Todos na sua família o têm, aliás; aquela vontade de partir e viajar entre os planetas, ver coisas novas, ter uma aventura. Mas Fiorello Bodoni é pobre. Não tem dinheiro para um foguete, e por isso está condenado, ele e toda a família, a permanecer a vida inteira preso à terra. Até que um dia tem uma ideia e gasta nela todas as parcas economias, comprando num ferro-velho um velho foguete avariado.

Este é um conto sobre o poder da imaginação, sobre como, à falta de capacidade para termos as experiências reais, podemos sempre optar por simulações e, com uma ajudinha da imaginação, ficamos felizes na mesma. Se fosse escrito mais tarde, este conto provavelmente contaria com realidades virtuais ou sistemas de imersão, mas é um conto de 1950, e portanto a saída que a personagem de Bradbury encontra para o seu dilema assemelha-se mais a uma atração de feira particularmente sofisticada.

É outro conto bastante bom, sim, embora eu o julgue um degrauzinho abaixo dos anteriores. Mas também é mais um conto que me deixa uma certa amargura ao fundo da consciência quando tento perceber para onde foi este otimismo pelo futuro, o que aconteceu à esperança que nestas ficções de Bradbury subsiste mesmo em situações de carência. É mais fácil escrever ficção sombria em ambientes desesperantes? É: o conflito dramático está criado à partida. Mas Bradbury prova (se fosse preciso) que essa não é a única forma de fazer boa FC e boa literatura em geral. E enquanto espécie estamos desesperadamente carentes de algum otimismo, nem que seja na ficção.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 7 de outubro de 2017

Lido: Anthology of European Speculative Fiction

Há cerca de um ano, quando fui pela segunda vez nomeado para um prémio da European Science Fiction Society, escrevi que "tenho alguma simpatia pelo voluntarismo dos prémios da ESFS. [...] Mas a verdade é que a relevância do prémio é praticamente nula, e será sempre nula enquanto não existir mesmo um mínimo de contacto entre o que se vai fazendo no campo da ficção especulativa nos vários países europeus, o que está muito, muito longe de acontecer." Poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que alguém me tivesse vindo mostrar esta Anthology of European Speculative Fiction como prova de que esse mínimo de contacto já existe, o que teria tido como resposta uma rotunda negativa. Não que iniciativas como esta não possam ser semente de qualquer coisa, mas são no máximo só semente, não são a própria coisa. Quando eu falo em "um mínimo de contacto" refiro-me a edições regulares e variadas, mesmo se escassas, de obras de ficção especulativa europeia nas várias línguas da Europa, que possam servir para termos todos alguma noção, ainda que vaga, do que se vai fazendo nos outros países. Uma antologia em inglês não basta, uma publicação regular em inglês como a ISF Magazine, que coeditou este ebook, também não. Poderão ser um início. Mas, como se viu, nem isso terão sido. Parece faltar por completo uma condição determinante para uma iniciativa destas ter alguma hipótese de dar frutos: interesse.

Assim, ficam as obras em si mesmas. E esta, organizada pelo romeno Cristian Tamas e pelo português Roberto Mendes, não é má, até porque inclui alguns bons contos (sobretudo o de Aliette de Bodard e, a alguma distância, o de Jetse de Vries), mas é muito irregular. Muito irregular.

O que me causa mais estranheza são algumas opções tomadas pelos organizadores. Não sei se terá havido constrangimentos relacionados com as histórias que foram propostas para a antologia e com autores que poderiam ter participado mas não quiseram fazê-lo, mas parece-me que uma antologia deste tipo, que tem claramente a ambição de servir de montra internacional do que se faz atualmente na Europa, deveria esforçar-se por apresentar a melhor ficção possível. Não sei se se esforçou e não conseguiu. Mas o facto é que a par de boas histórias, escritas por autores experientes e de qualidade, surgem histórias bastante amadoras, que ainda por cima nem sequer representam adequadamente o que se faz nos respetivos países, o que se comprova por haver aqui histórias muito melhores de autores das mesmas nacionalidades.

E também me causam uma certa estranheza as ausências. Há três autores romenos, duas portuguesas, dois britânicos, um que talvez seja holandês ou belga, um finlandês, um ucraniano e até dois que nasceram nos EUA, um dos quais com nome italiano e a outra com nome, vivência e nacionalidade franceses. Mas onde estão os espanhóis? Os polacos? Os alemães? Os russos? Tudo nacionalidades que, à parte talvez os espanhóis, têm tradições fortes e reconhecidas na ficção especulativa mundial e no entanto não parecem ter mostrado o menor interesse por esta iniciativa. Que é delas? Como é que uma iniciativa como esta pode prescindir de autores destes países?

São questões que me ficaram ao terminar esta leitura. Possivelmente haverá excelentes respostas para elas, mas parece-me que uma mostra da FC&F europeia só ficaria mais forte se fosse mais abrangente e consistente em termos de qualidade.

Por outro lado, como digo sempre que tenho oportunidade, a publicação de uma antologia já vale a pena desde que inclua pelo menos um conto muito bom ou dois ou três "meramente" bons. E esta inclui, portanto ainda bem que existe.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro eletrónico foi distribuído gratuitamente.

Lido: Llegar a la Orilla

Após um início auspicioso, a antologia em que se insere o conto Llegar a la Orilla, de Guillermo Lavín, tinha vindo a desiludir mas com este conto voltou a terreno positivo. Inspirado por Ray Bradbury e pelo ciberpunk, este é um conto bem escrito, ambientado num futuro distópico, sobre um rapaz pobre que tem uma ambição: receber uma bicicleta moderna pelo natal. Mas é pobre: o pai, trabalhador não especializado, ficou viciado anos antes ao ser-lhe implantado um chip que era exigido pelo contrato celebrado com a companhia que o empregava, estoira boa parte do parco dinheiro que ganha para alimentar o vício, e por isso não tem possibilidade de lhe dar o que ele quer. Quando o compreende, decide ser ele a dar um presente ao pai, algo que lhe iria facilitar sobremaneira a vida. Mas como, se não tem dinheiro?

Bem... há sempre uma solução.

É um conto bem escrito, como já tinha dito. Também é um conto bem concebido, com bom ritmo e o tamanho certo para a história que conta, uma ambientação interessante e personagens credíveis, ainda que haja que forçar um pouco a suspensão da descrença para engolir a ideia de chips que causam dependência e entram em curto-circuito ao serem implantados. Aprovado.

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Lido: Escotilha

Foi pura casualidade, mas aparecem aqui na Lâmpada duas opiniões seguidas a contos com ambiente de space opera, pois é precisamente o que Carlos Silva nos traz em Escotilha. Numa espécie de inversão da ideia usada por João Barreiros em vários dos seus contos e que esteve também na génese de Terrarium, a de uma Terra repleta de alienígenas refugiados de regiões mais interiores da galáxia, em êxodo, a fugir de qualquer coisa, Carlos Silva apresenta o início do êxodo da humanidade, expulsa da Terra depois de perder uma guerra com uma espécie alienígena.

O conto é contado da perspetiva de um comandante alienígena, a assistir ao êxodo, e espantado com o facto de uma das naves terrestres de maiores dimensões ser usada para transportar livros. E podia ser um conto mais interessante se o Carlos não tivesse sido obrigado a gastar tanto espaço a despejar informação sobre o cenário para conseguir situar o leitor, servindo-se mesmo de um dos truques mais surrados da FC, ainda que de uma forma razoavelmente subtil, conhecido internacionalmente pela expressão "as you know, Bob". E creio que não teria outra alternativa para encaixar esta ideia num conto tão curto; ou seja, não me parece que o problema esteja na execução mas na própria adequação da ideia a um texto deste tamanho.

A consequência é parecer-me que esta história não é das melhores. Para o ser precisaria de mais espaço para respirar.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Lido: O Céu é uma Estrada Aberta

Pode o potencial de um escritor ser avaliado pelo primeiro conto que publica? Quem, por exemplo, leu os primeiríssimos contos de George R. R. Martin, e eu li, certamente concordará comigo que não. Nada nesses contos fazia prever que anos mais tarde ele seria um dos escritores mais interessantes e aclamados do género. Mas é possível que cada caso seja um caso e em alguns casos a resposta seja sim. Dave Wolverton, por exemplo, ajuizando por este seu O Céu é uma Estrada Aberta (bibliografia) inaugural, seria um escritor com grande potencial.

Não que o conto seja excelente, longe disso, mas está entre o razoável e o bom. É decerto melhor e tem mais conteúdo do que os primeiros contos de Martin, pelo menos. Escrito num ambiente de space opera que faz lembrar ora o universo de Star Wars ora o de Duna, é um conto que reflete sobre a moralidade de assassinar um assassino genocida. Wolverton mostra já um domínio seguro da narrativa e a maturidade suficiente para entregar ao leitor a informação necessária, nem a mais, nem a menos, no momento certo. O protagonista é um escravo que trafica uma substância altamente explosiva chamada cobahite, capaz de arrasar continentes inteiros e, embora as restantes personagens me pareçam algo unidimensionais, o protagonista, árabe de um planeta distante, muçulmano, está bem caracterizado e é razoavelmente complexo.

Uma estreia auspiciosa, portanto. E, de facto, desde este conto publicado em 1985 e os dias de hoje, Dave Wolverton tem tido uma carreira razoavelmente produtiva, usando para boa parte da qual o pseudónimo David Farland. Mas não parece ter produzido nada em que realmente se revele o potencial sugerido neste conto. Muitos trabalhos derivativos, na FC (especialmente na space opera) e na fantasia, livros integrados no universo de Star Wars, uma ligação longa com L. Ron Hubbard (é ele o editor de muitas das antologias Writers of the Future) e pouco mais indicam um escritor com sucesso comercial mas sem verdadeira importância. Portanto a resposta à pergunta que abre este texto, se calhar, continua a ser "não."

Seja como for, este conto em particular tem real interesse.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: Cristais Como Nós

Imagem verde e negra ali ao lado e quem está por dentro já sabe: aí vem mais um conto da Alexandra Pereira com mais uma dose de dedicatórias mais ou menos passíveis de encontrarem o alvo, algures nos corredores da vida. Desta feita são dois os contemplados: um Rui Horta que assim de repente não estou a ver quem seja (será o coreógrafo? Na volta...) e um tal Eduardo Agualusa que se lhe antepusermos um José não tem mistério.

O conto é realismo mágico que só não é puro porque o conto contém também elementos razoavelmente fortes de surrealismo. Fazendo jus ao título de Cristais Como Nós (que tem um subtítulo mais misterioso, Aula de Geologia Social), fala de uma família na qual "a mãe é transparente, o pai transparente e o filho cor de vidro" e que vive no Bronx. E aproveita o falar dessa família concreta para descrever todo um mundo transparente que existirá, invisível, a par do opaco.

Contrariamente ao anterior, este conto é bom. Porque não se deixa levar por exageros de lirismo (o qual não deixa de estar presente), porque está carregado de ironia, porque se utiliza da ideia do mundo transparente paralelo para lançar penetrantes alfinetadas à sociedade em que vivemos (teoricamente será àquela em que vivem os habitantes do Bronx, Nova Iorque, mas para todos os efeitos práticos a diferença para a nossa não é grande) e às barreiras entre os grupos sociais. Não fosse a prosa por vezes tão enovelada, poderia mesmo achá-lo muito bom. Não só mas também porque é um daqueles casos de utilização bem sucedida dos mecanismos característicos da literatura fantástica para matutar sobre o presente bem concreto das coisas.

Alexandra Pereira oscila bastante de conto para conto (e quem não oscila?). Este é um ponto alto.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Lido: O Segredo da Masmorra

Quando se fala em fantasia, em especial na sua variante mais ou menos épica, uma das primeiras coisas que vem à mente é a palavra "trilogia". Mas apesar de ser mais ou menos padrão do género a produção de vastíssimos volumes de texto para contar histórias que muitas vezes nem necessitariam deles, quando não se limitam, nos piores casos, a ser cópias levemente alteradas de obras anteriores e igualmente palavrosas, a verdade é que existe fantasia em formatos mais pequenos. Incluindo o conto.

Este O Segredo da Masmorra de uma tal Cinthia Goch que ou muito me engano ou é pseudónimo (na verdade, com brasileiros e os estranhos nomes que às vezes têm nunca se sabe), é um desses contos. Derivativo, pouco original e preocupado apenas com criar cenas de ação e perigo, o que reconheço que está plenamente de acordo com a proposta pulp da publicação em que se insere, o conto começa com um elfo em fuga de uma masmorra de um conde maligno, o qual recebe inesperadamente um estranho companheiro: um outro prisioneiro em fuga, que parece atacado de amnésia.

Ora bem: como quem acompanha a Lâmpada já deve fazer uma vaga ideia por esta altura, eu não gosto de pulp — com poucas exceções. Mas, mesmo sem gostar, consigo distinguir o bom pulp, com histórias bem construídas, bem encadeadas, e personagens que apesar de rasas (no pulp é muitíssimo raro que não o sejam) agem de forma consistente com as situações e as poucas características que os autores lhes incutem, e o mau pulp, em que nada disto acontece.

E esta história de Cinthia Goch está mais perto do segundo do que do primeiro, mesmo sendo o texto em si razoável. Há demasiados acontecimentos gratuitos, demasiado deus ex machina, demasiada conversa em momentos de perigo, que no entanto a autora não consegue fazer com que pareça iminente, e há sobretudo a sensação geral de que estamos perante um texto de uma autora inexperiente não só na escrita mas também na própria leitura. Esta é uma história fraca. Não francamente má, porque não deixa de ter algumas pequenas qualidades, mas fraca.

Lido: Outsiders

Regressando às pequenas histórias de Bruce Holland Rogers, Outsiders também está inédita em português e, lendo-a, percebe-se razoavelmente porquê: é uma daquelas histórias quintessencialmente americanas, com marcas de oralismo complicadas de traduzir. Passa-se nas montanhas, provavelmente nas Rochosas ou em alguma cordilheira próxima, e a protagonista é uma mulher que vive na região mas não é de lá, tendo-se mudado alguns anos antes. A consequência é estar numa espécie de limbo de aceitação, pois para os verdadeiros locais permanece marcada como forasteira. Até um belo dia em que um grupo de estudantes aparece na terra para estudar umas luzes fantasmagóricas que, diz-se, aparecem naquela zona e ela, ao agir de forma a defender os assuntos e segredos da terra contra o mundo exterior, conquista finalmente a aceitação plena dos demais.

Um conto bastante bom, construído com a delicadeza e subtileza que quem já o leu acaba por esperar de Bruce Holland Rogers. Um conto de um fantástico todoroviano, no sentido em que a existência ou não de fantasmagorias na história está sujeita a interpretação.

Outra história divulgada na newsletter de Bruce Holland Rogers:

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Lido: A Buzina de Neblina

Há na nossa espécie uma curiosa atitude de algo que não é bem paixão mas está entre ela, o assombro e o temor, para com os dinossauros. O exemplo mais óbvio dessa atitude é a popularidade alcançada pelo Parque Jurássico, do Crichton, e sobretudo pela sua adaptação cinematográfica, mas há uma vasta quantidade de obras com os dinossauros como tema, inclusive na ficção de língua portuguesa, por intermédio do Gerson Lodi-Ribeiro e da sua série de FC e história alternativa sobre uma civilização de dinossauros.

Ray Bradbury tem também várias obras com dinossauros como protagonistas ou personagens secundárias e algumas são clássicos absolutos da FC. O conto Um Som de Trovão será certamente a melhor dessas histórias, mas este A Buzina de Neblina (bibliografia) não lhe fica muito atrás.

É um conto muitíssimo bem escrito e melancólico sobre a solidão. Acompanha uma noite especial no ano, num farol, partilhada por dois faroleiros, aquele que está de serviço e o que o vai substituir. O faroleiro efetivo introduz o colega a um fenómeno que tem vindo a acompanhar ao longo dos últimos anos sem o revelar a ninguém porque se o tivesse feito ninguém teria acreditado. Porquê? Porque tem a ver com um monstro que surge vindo dos abismos, atraído pela sereia que o farol usa para alertar os navios durante momentos de nevoeiro cerrado. Provavelmente influenciado pelas histórias à volta do Monstro de Loch Ness e possivelmente também pelas velhas lendas de monstros marinhos contadas por marinheiros desde que existe tal ocupação, o que é nele realmente extraordinário é a forma como Bradbury conduz a narrativa e a enche de poesia sem a tornar pedante ou aborrecida.

Nas histórias de monstros, estes aparecem normalmente para incutir medo no leitor ou na assistência. Nesta história não; o que fica ao terminar-se a leitura é pena. Pena de uma pobre criatura presa na sua solidão de animal fora do seu tempo, desesperadamente à procura de alguma outra criatura da mesma espécie para poder finalmente reproduzir-se. Ano após ano.

Sim, este é um conto magnífico.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Lido: Almanaque Steampunk 2012

Os almanaques são um tipo de publicação caída em desuso que faz todo o sentido ressuscitar no contexto retrofuturista inerente ao steampunk. Misto de revista e livro, têm — os exemplos físicos que conheço, pelo menos — deste a encadernação e daquela o tipo de conteúdo genérico que não se limita à típica sucessão de histórias, por vezes intercaladas por ilustrações, da maior parte das antologias.

O Almanaque Steampunk, aqui na edição de 2012, faz, portanto, todo o sentido. Constituído por contos e por uma série de outros textos que vão do horóscopo ao artigo jornalístico, passando pela crónica de costumes e pelos anúncios, os quais no fundo são quase todos outras tantas obras de ficção curta (contos, portanto) com estruturas incomuns, reproduz fielmente a estrutura dos almanaques de antanho e traz como brinde a publicação de alguns textos de qualidade. Mesmo que inclua também outros bastante fracos.

Mas a sensação que estes textos mais deixaram foi a de potencial desaproveitado, a de que as ideias neles contidas, se bem aproveitadas, dariam textos mais longos muito mais interessantes do que as ficções muito curtas que acabaram por ser mesmo produzidas. Bem sei que a publicação não se prestava a textos mais longos do que os que foram nela publicados, e bem sei também, até por experiência própria, que é mais fácil, que dá uma satisfação mais imediata, gastar um quarto de hora ou meia hora a escrever uma vinhetazinha de uma página ou duas (ou cinco minutos num miniconto) do que gastar dias ou meses às voltas com as complexidades de uma noveleta ou novela (ou até anos, por vezes, no caso de romances) que, ainda por cima, não há nenhuma garantia de acabarem por se ver publicadas e lidas. Mas mesmo assim, o travo que fica é um bocado amargo.

Outra insuficiência desta publicação, que no entanto reconheço ser de difícil solução, é a da incoerência (até ortográfica) entre os vários textos, que destrói a pretendida ilusão de se tratar de publicação feita num virar de século XIX-XX tecnologicamente ultradesenvolvido. Um almanaque deste tipo funcionaria bastante melhor num sistema de universo partilhado do que neste esquema, em que cada autor faz a sua proposta baseada no seu próprio worldbuilding. Quando estes chocam, e fazem-no com frequência, a publicação entra em dissonância e isso faz com que o todo acabe por ser pior do que a soma das partes.

Obviamente, para fazer as coisas de outra forma os editores teriam de chamar os autores para trabalharem sobre um conjunto de ideias predefinidas (por eles ou pelos próprios autores) e manter um controlo apertado sobre a pertinência dos vários aportes que sem dúvida lhes chegariam. E isso não é nada fácil, em particular quando não há alguém universalmente respeitado que possa servir de árbitro e juiz como aconteceu na antologia Lisboa no Ano 2000. Sem isso, mais que provavelmente, a alternativa seria entre não fazer e fazer assim. Concordo que é melhor fazer assim. Mas um tipo pode sonhar.

Em suma: é uma antologia (sim, sendo quase tudo ficção eu chamo a isto antologia, mesmo com todas as ambiguidades dos almanaques) com interesse e falhas, que incluiu alguns bons contos, o que só por si faz com que a sua existência valha a pena.

Eis o que achei dos vários textos que constam do livro:

Lido: Dólares para una Ganga

Já o disse e repito-o agora. Ler textos destinados a ser representados não é das atividades que mais me agradem porque lhes costuma faltar boa parte do que constitui a parte literária num texto literário e lhes falta também o que eleva (ou não, conforme) esses textos a outro nível artístico com o trabalho dos outros envolvidos na aplicação prática desse tipo de texto em cinema, vídeo ou teatro.

Por isso não é de espantar que não me tenha agradado por aí além este Dólares para una Ganga. É que não se trata de um conto, mas de um argumento para cinema ou TV. Gabriel González Meléndez, o autor, cria uma história fantástica a roçar de muito perto o horror, centrada numa cartomante e numa mulher que a consulta por causa de um problema que envolve o marido e uma bruxa. Outra bruxa.

A história é bastante banal, o que é mais um motivo para não me ter agradado particularmente, mas julgo que até poderia dar uma curta bastante boa se fosse muito bem transposta para as imagens em movimento. Este é um se bastante grande, no entanto. E como ao ler este texto não se avaliam potencialidades em outros media mas apenas aquilo que está escrito, ele não sai da minha leitura com nota positiva.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 30 de setembro de 2017

Lido: O Tomo de M

Uma das formas clássicas de fazer a fusão entre a forma de contar histórias típica da fantasia e a ficção científica é ambientá-las num futuro distante, no qual um apocalipse qualquer fez regredir a tecnologia e a sociedade a formas de organização medievais ou ainda mais antigas, estando os elementos mágicos da história a cargo de velhos artefactos tecnológicos que, apesar de ainda se encontrarem mais ou menos funcionais, funcionam segundo princípios que as personagens deixaram por completo de conhecer.

Foi isso mesmo o que Ricardo Dias fez com o seu O Tomo de M, um continho interessante no qual um tal Krumm, o Magnífico, invade um templo dos bruxos de antigamente só para roubar um livro que, segundo as histórias, continha toda a sabedoria dos antigos. Não estando particularmente bem escrito, este conto, a escorrer ironia por vários poros, é no entanto francamente engraçado e tem o seu ponto alto no final, quando o leitor percebe o que realmente significa aquele M.

Contos anteriores deste livro:

Lido: As Energias do Amor

Há um tipo de história que, suspeito, os escritores gostam muito mais de escrever do que os seus leitores de ler: histórias sobre escritores, as suas crises existenciais, as suas dúvidas e inseguranças, as suas relações com outros escritores. São quase sempre histórias com uma percentagem de umbigo razoavelmente elevada, isto é, histórias em que a personagem-escritor é um alter-ego pouco disfarçado do escritor-escritor. E deixem-me sublinhar que não estou a falar no ar: eu próprio sou culpado de ter cometido uma história destas, portanto sei o que leva alguém que escreve a fazê-lo: O Deus das Gaivotas. Essa história, escrita em parceria com o meu pai, tem uma personagem rebelde em luta com o escritor que a escreve, e se a personagem rebelde é quase toda do meu velhote, o escritor é quase todo meu.

Serve isto principalmente para explicar que não sou imune à atração que o tema exerce e por isso talvez não seja o mais comum dos leitores quando chega a hora de pensar sobre uma história desse género. Pois é precisamente o que As Energias do Amor (bibliografia) é.

Mas embora o tema seja comum, as roupagens de que se reveste são as mais variadas. O conto das duas gerações de Candeias é uma espécie de exercício fantástico metaliterário. Já Kathe Koja, por seu lado, fez ficção científica. O seu protagonista é um escritor (naturalmente) frustrado (e há tantos neste tipo de história), que está obcecado com uma obra inacabada de um outro escritor, já falecido, ao ponto de se ter decidido a acabá-la, para o que se depara com um problema bicudo: não a compreende bem.

Mas estamos no futuro, e há solução: basta-lhe contactar o falecido, pois neste futuro que Koja nos apresenta existe a possibilidade de criar, antes da morte, uma cópia fiel da personalidade do futuro morto, armazenando-a em computador para poder interagir com os fãs. É um processo caro e raro, e por isso o falecido não está integralmente acessível a toda a gente, o que cria mais uma dificuldade ao nosso protagonista. Escritores, especialmente os frustrados, não costumam ser lá muito abonados. É principalmente isso o que faz mover a primeira parte da história: as iniciativas que o protagonista desenvolve para obter um contacto o mais completo possível com o seu ídolo. A segunda parte é principalmente sobre literatura, especificamente sobre o conteúdo que ela pode ter, e também sobre os limites da existência.

Nunca tinha ouvido falar de Kathe Koja, tendo só depois de ler esta história ficado a saber que é escritora com mais de duas décadas de carreira sólida, mas gostei do que li. É um conto inteligente e bem escrito, embora julgue que se prolonga um tudo-nada em demasia, o que fez com que não me tenha enchido propriamente as medidas. Mas sim, por aqui está aprovada.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Lido: Ana

Uma olhadela ao boneco que aqui está ao lado e o grupinho que está aí e vai acompanhando o que vai sendo publicado neste blogue já sabe duas coisas: que vamos a mais um conto da Alexandra Pereira e que ele vem antecedido de mais uma dedicatória. Desta vez o contemplado chama-se João Botelho, que a malta conhece do cinema e até pode eventualmente ter lido o continho a ele dedicado, e este, o conto, é fantástico.

Ana, assim se intitula ele, com três letrinhas apenas, é um conto sobre um rapaz ou jovem que chega a casa de uma mulher, descrita longa e poeticamente, em busca de uma outra pessoa com a qual teria trocado correspondência durante algum tempo. Segue-se um diálogo repleto de frases arroubadas, discursivas e, francamente, ridículas como "Desta sorte lhe peço que guarde essa carta com desvelo e não a dê a ninguém, nem mesmo a mim que a escrevi, pois é da Ana e uma afeição recíproca pode ela manter pelos meus escritos, a qual a senhora desconheça" durante o qual vimos a descobrir que a tal Ana que o rapaz diz que ama é filha da mulher com quem dialoga e desapareceu enquanto criatura humana, metamorfoseando-se noutra coisa, o que é, se excetuarmos alguns sinais discretos e ambíguos logo no início do conto, aquilo que o afasta da literatura realista.

Não é conto que faça grande sentido, é um conto com alguns erros que uma revisão eficaz devia ter apanhado (as velas não se "enfonam"; enfunam-se) mas o pior, o que realmente o estraga, são mesmo os diálogos. Depois deste conto e de um par de outros que ficaram para trás, solidificou-se em mim uma certeza: Alexandra Pereira devia ser proibida de escrever diálogos porque quando os escreve a qualidade dos seus contos despenca. Há uma linha fina entre a prosa poética e a prosa ridiculamente empolada (os ingleses chamam-lhe "purple prose"), que os bons escritores não ultrapassam e os maus sim. Alexandra Pereira não costuma ultrapassá-la... mas quando se põe a escrever diálogos ultrapassa-a sempre, porque aparentemente não sabe (ou não quer saber, o que talvez seja pior) que em diálogo escrito em discurso direto essa linha é bastante mais recuada do que no texto descritivo, narrativo ou até em diálogos expressos em discurso indireto.

Consequência: este conto é mau.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 24 de setembro de 2017

Lido: Ghost Writer

Há já um ror de anos, Bruce Holland Rogers usou um sistema de newsletter (para quem é novinho e/ou só conhece o facebook, é um sistema que envia com maior ou menor regularidade um email aos seus assinantes) para enviar pequenos contos aos fãs. Não sei ao certo quantos foram, pois julgo que não apanhei a coisa desde o início, mas sei que recebi nove. A alguns li na altura; outros não cheguei a ler, por falta de tempo e por não gostar de ler no écran do computador (e ainda não gosto; mas agora há tablets, e é diferente), mas juntei todos num pdf, e deixei-os à espera. Alguns vieram a ser traduzidos mais tarde e publicados em Portugal. Ghost Writer não foi um deles.

Trata-se de uma vinheta de horror que brinca com os dois significados da expressão ghost writer, a literal, de um escritor fantasma, e a mais comum, que designa aquelas pessoas discretamente contratadas para escrever os livros pretensamente escritos por figuras públicas ou por alguns autores particularmente populares e prolíficos.

E o horror está precisamente aí, pois ao protagonista desta história aplicam-se os dois significados da expressão, depois de o homem que o contratou para escrever a sua autobiografia, um falso xamã que entretanto parece ter aprendido umas coisinhas, o ter assassinado e anos mais tarde invocado do mundo dos mortos. Uma bela historinha, que tem um problema: é complicada de traduzir por depender tanto da ambiguidade da expressão inglesa que a titula.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Lido: O Fim do Começo

Há muito em comum entre F de Foguete e este O Fim do Começo (bibliografia). Para começar, e acima de tudo, o maravilhamento com o espaço e o futuro, com as grandes coisas que a humanidade quase se diria estar destinada a fazer no seu trajeto para fora do útero terrestre. Também o ponto de vista que, embora não seja idêntico, é semelhante; quando em F de Foguete o ponto de vista é o de um jovem que anseia por partir para o espaço até que parte, neste conto é o da família que fica para trás, o pai e a mãe (Desse mesmo jovem? De algum outro? Pouco importa, no fundo), entre o entusiasmado e o preocupado, mas a certamente a rebentar de orgulho. E a identificação de vários começos. O começo da vida adulta dos jovens astronautas é, em ambos os contos, clara parábola para o começo da vida adulta da nossa espécie, corporizado pelo início da sua expansão para fora do planeta-natal.

Porque é isso o que Ray Bradbury realmente faz com estes dois contos. A partida para o espaço é como a primeira aventura fora da casa paterna, os foguetões que desaparecem no azul do céu são como a partida dos filhos do seio familiar, rumo à independência e ao que o futuro lhes trouxer. Em ambos, esta ideia vive bem forte. Mas a forma diferente como é concretizada realça não só as semelhanças mas também as diferenças. Este conto não é tão bom como o primeiro, em parte por ser menos subtil, mais claro na sua premissa, digamos, ideológica, em parte por afastar a atenção do verdadeiro protagonista: o jovem que se vai embora rumo ao espaço. Aqui, acompanhamos a espera dos pais pelo momento da descolagem do foguete que levará o filho a uma estação espacial cuja descrição faz lembrar a que vimos no filme 2001, uma Odisseia no Espaço. Trepidante? Sim. Mas é uma trepidação interna às personagens, e não se comparará, sem dúvida, com a trepidação do próprio jovem.

Apesar disso, o conto é bom. E, lá está, dele se pode também dizer o que eu disse do outro. A FC precisa de mais histórias assim, a escorrer esperança de todas as linhas. O mundo precisa de mais histórias assim.

Conto anterior deste livro:

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Lido: Adeus, Portugal!

O grande problema da sátira é só funcionar quando quem a faz traz algo de novo e não se limita a repetir o que outros já antes disseram, e o enorme problema das sátiras que têm como alvo Portugal e as supostas características do país e do povo até tem nome e tudo: Eça. É que contam-se pelos dedos de uma mão os que tentam satirizar Portugal enquanto país habitado por gente bizarra, cheia de esquisitas características só suas, e não acabam por parecer uns imitadores de terceira categoria porque Eça de Queiroz já o fez há mais de cem anos e já disse tudo e muito melhor do que quase todos. Paula de Lemos tentou juntar-se a esse ultra seleto grupo. Ficou bem longe. Bem longe.

Adeus, Portugal! é uma sátira, escrita em jeito de alegoria, sem personagens propriamente ditas mas povoada por "portuguesíssimos" tipos humanos (ou melhor: caricaturas de), mesmo chamando-se um deles Vladimir e outra Quixota. Uma novela fantástica que tem como alvo principal a burocracia e os burocratas, ou melhor, esse núcleo de todos os males da nação que é o funcionário público. Sim, porque toda a gente sabe que isto sem funcionários públicos, sem instituições, era o paraíso.

O resultado, apesar de haver quem goste (o júri do Prémio Manuel Teixeira Gomes de 2002, por exemplo, que lhe deu o primeiro prémio) é perfeitamente lamentável. As piadinhas sem graça arrastam-se ao longo das 76 páginas da novela, repetitivas, cansativas, acabando por se tornar insuportáveis muito antes do fim. A ideia básica percebe-se à terceira página, até porque em nada se distingue daquelas conversas de café ou de facebook prenhas de niilismo e ignorância que todos estamos fartos de conhecer, servindo as 70 e tantas que se seguem de pouco mais que reforço para os duros de entendimento que não perceberam logo às primeiras. Sim, porque o enredo, que até existe, é totalmente secundário no meio de tudo isto.

A melhor coisa que posso dizer deste livro é que a língua portuguesa não sai dele maltratada. Para mim é pouco, pouquíssimo. Mas há aqueles para quem basta. E há também gente com um sentido de humor diametralmente oposto ao meu, malta que acha graça aos Donos Disto Tudo, que a mim só raramente conseguem despertar um ténue sorriso (ou conseguiam, quando ainda perdia tempo a tentar ver o programa). É possível que essa malta ache este livro hilariante, o mais gargalhante regabofe desde os trocadilhos dos Malucos do Riso. Provavelmente haverá por aí pessoas em quem o humor (consegui resistir a pôr aspas, sou o maior) de Paula de Lemos ressoa.

Em mim é que não ressoa, de todo. Ler este livro foi um penoso exercício de paciência e teimosia. Felizmente é curto. Há que agradecer as pequenas benesses.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Lido: Y3K

Há um tipo de texto que me desagrada sobre todos os outros. Aqueles textos pretensiosos, carregadinhos de vontade de ser o que não são, armados em carapaus de corrida. Na literatura aparecem muito pelas mãos de autores medíocres, que dominam mal a sua arte e não sabem dela o suficiente para realmente conseguirem alcançar os efeitos que pretendem alcançar. E se falo aqui de literatura, como é óbvio, falo de toda, sem excluir aquele seu ramo chamado ficção científica.

Nos anos 80 e 90 do século passado (e ainda hoje, a bem dizer), o ciberpunk deu origem a muitos textos desse género, porque a fusão de drogas com realidades virtuais que tão típicas são (umas e outras) do subgénero cria as condições ideais para esse tipo de escritor tentar criar textos alucinatórios, cheios de experimentalismo. Alguns desses textos, muito poucos, até acabaram por resultar bem. Os outros...

Os outros são como este. Escrito em segunda pessoa por nenhum motivo discernível (além da tentativa de ser inovador, claro), é um texto de FC que não é ciberpunk mas é claríssimo ter sido fortemente influenciado pelo subgénero, tendo como protagonista um viciado numa droga camada Zombie que aparentemente faz uma viagem no tempo. Mas como o texto está escrito em segunda pessoa, é como se fosse o leitor o viciado em Zombie, o leitor o viajante no tempo, e logo até ao longínquo ano 3000, (não é spoiler; já está no título de Y3K) apesar de encontrar lá tecnologia perfeitamente reconhecível para um leitor do final dos anos 90, e gente a falar uma língua absolutamente percetível, absurdo que só não são maiores porque fica a pairar no ar a hipótese, bastante mais provável, de tudo não passar de efeitos da tal droga. Tudo numa prosa que está sempre mais preocupada em arredondar frases e criar atmosferas (que até cria, mas basta-lhe uma página para isso) do que em criar um enredo com pés e cabeça. Não é bom quando isso acontece.

Ou seja e resumindo, Jesús de León Serratos, apesar de nem escrever mal, tentou na minha opinião dar um passo maior do que a perna. E estatelou-se. Acho este conto bastante fraco.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Portas do Conhecimento

Este Portas do Conhecimento é outro conto curioso e, embora pareça, não se baseia, uma vez mais, no velho cliché dos livros enquanto portais entre mundos. Não. Há uma pequena variante ao cliché, que não revelarei aqui porque não vale a pena e pode considerar-se spoiler. Uma pequena variante que também não é propriamente original mas em todo o caso evita que este conto de um Luís Corujo de quem eu nunca tinha lido nada siga um caminho demasiado previsível.

O conto leva-nos à Torre do Tombo, que o protagonista assalta de uma forma demasiado rápida e eficaz para ser realmente credível mas que a brevidade do conto (a qual fazia parte da proposta; não é por acaso que todos os contos desta antologia ocupam meras duas ou três páginas) torna inevitável. A ideia é encontrar qualquer coisa muito antiga de que anda à procura há muito tempo. Não ficamos a saber o quê nem propriamente o que acontece; o final do conto é aberto, apesar de conter uma sugestão de desfecho. Fica uma certa sensação de sabor a pouco, uma certa ânsia por informação adicional, mas este não é dos finais em aberto que o parecem ser por se ter esgotado ao autor o que dizer.  E como o resto do conto também está bem estruturado e razoavelmente bem escrito, a opinião final é positiva. Não é obra-prima nenhuma mas é um conto com interesse.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Lido: Renascimento

Renascimento (bibliografia), de Nancy Kress, não é propriamente um conto sobre renascimento. É um conto profundamente literário, mais um, muito bem escrito de uma forma sinuosa que vai entregando ao leitor a informação necessária para compreender a história sem lha enfiar à pressão goela abaixo com os famigerados infodumps de demasiada FC (e não só), mostrando que Kress tem um domínio invulgar do ritmo e da construção narrativa.

E sim, trata-se de ficção científica, ainda que durante boa parte do conto nem pareça muito. Há referências oníricas a criaturas mitológicas, nomeadamente grifos, há questões financeiras e guerras familiares causadas em parte por essas questões, há uma gravidez atípica, pois o bebé é um ser único, humano mas alterado por engenharia genética como nenhum outro. No fim, há um pouco de terror anunciado. Não há é personagens simpáticas. Pelo contrário, é cada uma mais antipática que as outras, dos pais da criança que parecem muito mais interessados em dinheiro e na fama que advém da originalidade do rebento do que no futuro deste, à protagonista-narradora, mãe e sogra daqueles, uma insuportável dondoca de sociedade, cínica, sarcástica e hipercrítica com tudo e todos, e que importa que seja frequente ter razão na crítica? Quem goste de se identificar com personagens é capaz de passar aqui um mau bocado, pelo menos se tiver boa opinião de si.

Como não é propriamente identificação o que eu procuro na literatura, essa parte pouco me afetou. O conto é realmente bom, complexo, bastante bem escrito e melhor concebido, uma crítica à forma superficial e egocêntrica com que tantas vezes se decide trazer crianças ao mundo. E um aviso contra a tentação de aplicar de forma irresponsável as potencialidades das ciências da vida. Aprovado.

Contos anteriores desta publicação:

Lido: A Respiração

É isso mesmo, caríssimos. Voltámos à Alexandra Pereira e às dedicatórias. E desta vez, para variar, não é uma mas logo duas para que não nos queixemos de escassez. Uma a um famoso, o Doutor (assim mesmo, por extenso) Miguel Lobo Antunes, e outra a um desfamoso, um tal "Miguel em Coimbra".

E o conto da vez, A Respiração, é sobre um refugiado alemão da II Guerra Mundial. Trata-se praticamente de um estudo de personagem, quase sem enredo e com o final em aberto (de novo excessivamente, a meu ver), escrito numa prosa se não poética pelo menos poetizada, com alguns achados linguísticos bastante interessantes mas também com aquele ar de coisa que se autocompraz no malabarismo das palavras que tantos textos deste género parecem mostrar. E que tão pouco me agrada.

E além disso...

Antigamente, a literatura estava cheia de histórias que se pretendiam contos de sucedidos verdadeiros, relatados por forma a proteger a identidade dos protagonistas, para o que os escritores se socorriam de uma série de técnicas das quais a mais óbvia era substituir nomes por iniciais. O século XX desembaraçou-se dessa espécie de engano, dessa maneira de tentar fazer o que é falso parecer mais verdadeiro por via de uma ocultação desnecessária de identidades. Porquê? Porque essa técnica para promover a suspensão da descrença é, convenhamos, bastante tosca e há formas melhores, mais sofisticadas, até mais eficazes, de alcançar esse objetivo. Mas a verdade é que ainda vão aparecendo aqui e ali umas histórias anacrónicas que se valem do mesmo truque, por ultrapassado que ele esteja. Esta é uma dessas histórias. E também isso me desagrada.

Tudo somado, esta é na minha opinião mais uma história que não ultrapassa o razoável.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 17 de setembro de 2017

Lido: F de Foguete

Ler hoje este conto escrito há longuíssimos 74 anos chega a ser deprimente. Porque Ray Bradbury sempre foi melhor quando escrevia histórias repletas de sentido de maravilha, e esta é uma dessas histórias. Mas é uma história cheia de um sentido de maravilha que hoje amargou de tal forma que lê-se este F de Foguete (bibliografia), lê-se o que se sonhava há três quartos de século, e não é possível evitar pensar-se no tanto que ficou pelo caminho e no tanto de sonho que não se cumpriu.

Bradbury põe-nos a assistir às vidas e conversas de adolescentes (dois em especial) repletos de sonhos, com a imaginação cheia de espaço e foguetões, ansiosos por ser escolhidos entre a multidão para também eles subirem para fora do planeta, onde a humanidade (ou só os EUA, não fica claro; Bradbury tendia a misturar as duas coisas... como tantos outros escritores americanos, de resto) desbrava ativa e energicamente novas fronteiras, sabendo que isso só acontece aos melhores, sabendo que as probabilidades não são muitas, mas cheios de sonhos na mesma. E depois um deles é escolhido. E depois o outro.

E lendo isto hoje, comparando este futuro de Bradbury com o nosso presente que com toda a certeza está muito mais adiantado no tempo do que o futuro que ele imaginou, comparando o programa de recrutamento maciço e uma geração inteira de olhos postos nas estrelas com o minúsculo punhado de astronautas que a nossa realidade engloba e a indiferença, quando não é hostilidade aberta, com que fatias assustadoramente grandes da sociedade encaram a exploração espacial e os esforços para fazer o Homem aprender pelo menos a viver no espaço circunterrestre, é quase inevitável que se instale o desânimo e uma certa saudade por um futuro que nunca existiu.

O maravilhamento que a ficção científica pode trazer faz uma falta imensa à nossa sociedade. Mas ela recusa-o. Uma imensa maioria ignora e rejeita a FC e entre aqueles que não o fazem as preferências atuais recaem claramente sobre a que é sombria, distópica, sem esperança. Falta-nos a luz do maravilhamento com as possibilidades que o futuro pode abrir. Seria uma luz que nos poderia guiar. É uma luz que este conto tem com abundância. E é uma luz que está quase extinta.

Recomendo a leitura deste conto. É antigo, e não o esconde. Mas mantém-se relevante. E está escrito com a habitual qualidade de Bradbury.