domingo, 13 de Abril de 2014

Lido: A Carta de Ronaldinho

A Carta de Ronaldinho é outro continho de Mia Couto sobre a normalidade e a sua ausência, sobre a imaginação e a realidade, sobre a miséria e sobre o sonho. Conta a história do velho Filipão Timóteo, frequentador de um bar onde ia assistir aos jogos de futebol na televisão que nele não havia. O bar era pobre, quase miserável, um balcão e pouco mais. Nada de aparelhos televisivos, a não ser que contassem os que Timóteo desenhava e nos quais assistia sozinho mas cheio de entusiasmo aos jogos que ele mesmo inventava. E também aqui, como em outros contos, a poesia feliz do endoidecido contrasta com o embaraço dos demais. Também aqui tentam demovê-lo, trazê-lo para a realidade consensual de que se alheara, mas o velho recusa, para o que se apoia numa carta.

É outro bom conto, ainda que me pareça faltar-lhe a eficácia que encontro noutros e embora me tenha parecido algo repetido em tema e abordagem a alguns desses outros. Não foi dos que mais me agradaram, portanto. Mas isso está longe de o tornar mau.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Homem do «BMW»

O Homem do «BMW» é outro texto da Clara Ferreira Alves sobre uma coisa que a irrita. Bastante mais convencional do que a anterior, e também com bastante menos graça, esta crónica muito típica debruça-se sobre um determinado tipo de arrivista novo-rico ou novo-remediado ligado à finança, descendente direto dos yuppies dos anos 80, cuja única ambição na vida é trepar. No sentido português do termo, sublinhe-se, não no brasileiro.

A espécie é repugnante, concordo plenamente. Mas este texto, sendo embora eficaz na sua tentativa de desmontar as criaturas, não me parece bem escolhido para um livro como este. Porque contém alguma ironia, mas escassa. Porque contém pitadas de sarcasmo, mas meras pitadas. Porque contém, sobretudo, doses cavalares de asco. E o asco não é particularmente humorístico, a menos que seja bem mais mal comportado do que Clara Ferreira Alves pretende ou consegue ser. O asco de um Manifesto Anti-Dantas, sim, tem graça. E muita. Este não tem, lamento.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 12 de Abril de 2014

Lido: O Peixe e o Homem

O Peixe e o Homem é mais um continho fantástico de Mia Couto, cheio daquelas coisas que tornam os textos do autor tão saborosos e de que já falei o suficiente ao longo destas histórias, motivo pelo qual falarei apenas da história propriamente dita. É uma história insólita, sobre a normalidade, ou sobre a normalização que a sociedade impõe às pessoas e que algumas decidem ignorar. Um homem, o narrador, é abordado por um outro homem, seu vizinho, que o bairro tem como excêntrico ou louco. Que tem de passear o peixe no lago do parque mas não pode, diz-lhe ele, que se lhe acaba a vida, se o vizinho faz o favor de substituí-lo. E o vizinho, entre vergonhas e embaraços, lá acaba por ceder, tanto ao passeio do peixe, como à transferência da responsabilidade, ou da excentricidade, ou da loucura. Isto, de uma forma muito resumida, pois o conto tem mais conteúdo, ou não fosse inspirado pelo Sermão de Santo António aos Peixes do Padre António Vieira. Muito bom mesmo.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Bom Dia. Eu Queria Comprar um Telemóvel

Bom Dia. Eu Queria Comprar um Telemóvel, que não é título mas sim primeira linha — o texto não tem título — é um exercício de ironia de Clara Ferreira Alves, em forma de diálogo, sobre a complicação que uma pobre cliente que nada percebe de telemóveis e respetivos modelos, planos de pagamentos, cartões de pontos e o diabo a quatro, tem de enfrentar quando chega a uma loja para, simplesmente, comprar um telemóvel. Qualquer telemóvel. De preferência de maneira a poder sair da dita loja pouco tempo depois com o recém-adquirido telemóvel na mão e a funcionar.

Obviamente, não consegue.

Sem que seja nada de superlativo, é um textozinho divertido, entre o conto e o sketch, corrosivo q.b. para com uma certa forma de facilitar a vida ao cliente dificultando-a ao máximo. Há aqui algo de caricatura kafkiana, ainda que Clara Ferreira Alves empregue uma leveza de que em Kafka nem sombra se vislumbra. O leitor, ou pelo menos este leitor, sorri. É o que se pretende.

Textos anteriores deste livro:

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Lido: O Caminho da Cruz e do Dragão

O Caminho da Cruz e do Dragão (bibliografia) é um conto de ficção científica de George R. R. Martin sobre religião. Ou por outra: sobre o poder da ficção, da imaginação, sobre a capacidade que uma história bem contada tem de capturar mentes e corações e levá-los consigo. Parecem coisas diferentes, mas o que este conto nos diz é que são a mesma coisa, que as religiões, por mais que se armem de verdades e rigores teológicos, por mais que reprimam heresias, não passam de histórias bem contadas, capazes de arrastar multidões. E quem diz religiões, diz outros tipos de narrativas (palavra agora muito em voga) aparentemente exteriores aos "meros" literatura, teatro ou cinema.

Martin fá-lo levando-nos para o futuro distante e para paragens igualmente distantes no espaço. Nesse lugar longínquo no espaçotempo, a religião que hoje conhecemos como catolicismo evoluiu, sofreu mutações e tornou-se multiespecífica, integrando nos seus quadros membros de espécies alienígenas que a humanidade teria encontrado entretanto, mas continuam a haver (mais até do que há hoje) sacerdotes cuja função é controlar heréticos e destruir heresias, por todos os meios que considerem necessário. O protagonista desta história é um desses homens, e a heresia que é encarregado de combater é algo que o vai apanhar de surpresa.

É uma bela história de FC, que eu até traduzi e tudo, ainda que para outra publicação publicada alguns meses depois desta. Para ser sincero, prefiro a minha tradução, mas não desgostei desta. Quanto à história propriamente dita, gostei bastante.

Conto anterior deste livro:

Lido: A Filha de Rappaccini

A Filha de Rappaccini é uma noveleta de horror de Nathaniel Hawthorne que, um pouco à maneira de Frankenstein de Mary Shelley, pode igualmente considerar-se uma história antecessora da ficção científica. Datando como data ainda da primeira metade do século XIX, trata-se de um texto romântico com tudo aquilo que mais me desagrada nos textos românticos. Há neles uma fórmula que desde miúdo me parece muito ridícula: rapaz está calmamente a cuidar da sua vida, rapariga aparece-lhe na frente, rapaz põe nela os olhos e perde-se instantaneamente de amores, e depois ou tudo corre arrebatadoramente bem, ou tudo corre arrebatadoramente mal, entre facas e alguidares.

Sim, Hawthorne segue fielmente a fórmula, e quiçá por isso atribui este texto a um tal M. de l'Aubépine, que se limitaria a traduzir. O protagonista, um certo Giovanni Guasconti, aparece em Pádua para estudar. E pouco depois já está apaixonadíssimo por Beatrice Rappaccini, que vislumbra a deambular pelo jardim de sua casa. Ora, acontece que o pai da donzela é um cientista mais que um pouco louco e mau como as cobras (et voilà a ligação à FC), e tanto o jardim como a própria filha são o seu laboratório, com os quais conduz experiências que alteram a natureza das plantas e da rapariga. E por aí segue a história, com bastante previsibilidade: o jovem cada vez mais obcecado, a rapariga entre o esquiva e o interessada, e aos poucos vai-se descobrindo o que se passa com o jardim e os estapafúrdios porquês do pai da rapariga, após o que toca de atar tudo isto num desfecho à maneira, fim.

Sim, o meu tom é jocoso e este texto provavelmente não merece ser assim alvo de troça. Está bem escrito e a história está bem construída. Quanto à fórmula, é fruta da época; era assim que se escrevia um pouco por todo o Ocidente há cento e muitos anos. É verdade que não gosto, que acho e sempre achei ridículo, mas reconheço que Hawthorne não merece ser gozado. Além disso, há quem goste deste tipo de história e desta forma de as escrever; para esses, esta será mais que provavelmente uma boa história, por mais que para mim não o seja. Pax.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

Lido: Textos Neo-Gnósticos

Textos Neo-Gnósticos, de subtítulo Os Códigos Mistéricos da Quinta Idade, é um volume de textos de António de Macedo com um forte pendor esotérico. Num total de sete, introdução incluída, são textos sobre temas vários que têm uma coisa em comum: a tentativa de explicar pela via "mistérica" uma série de factos e factoides dispersos. Não se trata de ficção, e antes tratasse. O tom é definitivamente ensaístico, e procura mesmo ser académico, chegando a adotar do estilo de referenciação científica num livro que é fundamentalmente anticientífico.

Há nele, evidentemente, disparates com fartura, sendo talvez o mais risível a ideia peregrina de que os símios antropoides não são os ascendentes do homem (é assim que está formulado no livro... sem que fique inteiramente claro se Macedo se refere às espécies atuais, como parece, o que só amplificaria a asneira, se aos antecedentes comuns de todos os Hominidae), mas sim "homens degenerados." Porquê? Porque tal ideia se ajusta melhor à filosofia que defende. E assim pela janela voam séculos de acumulação de conhecimentos, provas fósseis, datações, etc., etc., etc.

Como este disparate há outros, mas os mais sérios surgem principalmente a talho de foice, numa espécie de apartes atirados para a página como quem diz "ora tomem lá esta ideia, mas não é disso que eu quero aqui falar." Não temos aqui propriamente um ataque claro à ciência estabelecida, embora haja nestas páginas vários ataques mais ou menos velados ao espírito científico como um todo.

O que não é de surpreender, convenhamos. A ciência, com a sua informação aberta e metodologia clara, composta por dúvida metódica, experimentação e reavaliação das ideias anteriores consoante os resultados da experimentação as confirmem ou não, está nos antípodas conceptuais de todos os ocultismos, da ideia de que a "verdade" (estas "verdades" precisam sempre de aspas) só está ao alcance de um punhado de iluminados aos quais é concedido o dom da revelação dos "mistérios", e isso independentemente de serem deste tipo esotérico ou do mais convencional género teológico. Na ciência, a palavra dos velhos mestres não é nada se não for corroborada pelos dados resultantes da experimentação ou de estudos empíricos; aqui, a palavra dos velhos mestres é tudo, e para realmente a "compreender" é necessário criar monumentais castelos de exegese assentes em coisa nenhuma. Ou por outra: assentes em ideias preconcebidas, que depois vão ser "sustentadas" escolhendo a dedo esta ou aquela passagem de um qualquer cartapácio o mais empoeirado possível, este ou aquele factoide histórico quanto mais obscuro melhor, e deitando fora tudo o resto.

São duas formas opostas de ver o mundo, de reagir a ele e de agir sobre ele. O facto de vocês estarem a ler estas palavras num écran demonstra cabalmente qual é a forma produtiva e qual a estéril.

E no entanto, continuam a escrever-se e a publicar-se livros como este. É dos tais "factos mistéricos" da nossa idade.

E, pior, eles chamam a isto ciências ocultas. Ciências. Que raio de abastardamento de tão nobre palavra!

Ah, mas esperem. Calma lá. O livro não é inteiramente desprovido de interesse. É salvo por duas coisas, uma que provavelmente o salvará para um leque mais vasto de leitores, a outra que só o salva para gente como eu. A primeira é o humor que Macedo emprega com alguma frequência, a suficiente para deixar a pairar uma certa dúvida sobre se alguns dos disparates que aqui escreve são realmente ideias suas ou tentativas de entrar pelas areias movediças do humorismo. A outra são os textos sobre a literatura fantástica portuguesa que, depois de serem bem amanhados e limpos de vísceras esotéricas, acabam por ser alimento razoavelmente suculento para quem se interessa pelo tema. Pena é constituírem uma parcela tão diminuta do conteúdo do livro. Ele poderia ser muitíssimo melhor se assim não fosse.

Sendo como é, resta o suspiro.

Este livro foi-me oferecido pelo autor, julgo que por causa do conteúdo relevante para a FC&F portuguesa. Julgo e não só: espero. Espero que não estivesse a tentar converter-me. Se estava, o tiro saiu violentamente pela culatra.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Lido: O Novo Padre

O Novo Padre é mais um conto de Mia Couto que não é, realmente, sobre um novo padre. Passado no Moçambique colonial, centrado na figura de um colono português, daqueles que, porque afastados das leis e do governo, porque distantes de tudo e transformados por isso na corporização do colonialismo no lugar onde se instalaram, viviam e impunham as leis conforme mais lhes dava jeito, é um conto sobre o racismo e sobre os desmandos de um sistema opressivo que dava ao branco tudo e ao preto deixava apenas a sujeição.

Até que um novo padre chega ao sítio indeterminado em que o conto tem lugar, e subitamente as coisas mudam.

Gostei bastante mais deste conto que do anterior. Aliás, gostei mais deste conto do que da maioria dos que li até agora no livro a que pertence. É um conto duro e incómodo, que Mia Couto consegue contar de uma forma quase suave. Muito bom.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Maria Pedra no Cruzar dos Caminhos

Maria Pedra no Cruzar dos Caminhos é um continho de Mia Couto com uma forte pegada fantástica. O tema, como em tantos outros destes contos, é uma mulher que um belo dia decide, sem que ninguém entenda porquê, ir deitar-se numa encruzilhada, nua, deixando que todos façam com ela o que entendam fazer. E aí fica cinco dias sem que a família, supersticiosa, temendo magias e malignidades, se atreva a ir lá buscá-la. O conto é ambíguo quanto ao que de facto acontece ou deixa de acontecer durante esses dias, como ambíguo é a respeito do que se passa nove meses depois no mesmo local. Mas quanto a isto é menos.

Também este não foi dos contos que mais me agradaram. É bom, mas parece-me que há contos melhores neste livro.

Contos anteriores deste livro:

Lido: Eis o Drácula

Eis o Drácula é um texto de José Alberto Braga que volta a ter graça, apesar de cair por vezes no trocadilho fácil que o autor tanto emprega. À primeira vista parece tratar-se no essencial de uma sequência de factoides sobre os vampiros, tal como eles nos são apresentados nas lendas e, principalmente, na literatura e cinema, e escritos e descritos com doses maciças de ironia. Há nele algumas verdadeiras pérolas. Um exemplo, que até nem é dos melhores: "A exemplo da nossa juventude, o vampiro é famoso por trocar a noite pelo dia". É assim, com tiradas deste género, algumas piores que esta, outras bastante melhores, que as suas duas páginas são gastas até quase ao fim.

Quase.

É que a última frase, seis palavrinhas apenas, transforma este texto num conto fantástico. Num conto fantástico que até tem o seu interesse enquanto tal, apesar do objetico principal ser simplesmente o divertimento do leitor. E isso dá-lhe uma nova dimensão. Deste gostei.

Textos anteriores deste livro:

Lido: A Funerária

A Funerária é uma curta peça de teatro de José Alberto Braga... ou talvez não passe de um sketch. Mas é capaz de ser mesmo peça; afinal, sempre são oito páginas de texto, o que faz dele, e de longe, o mais longo texto presente neste livro.

O tom é macabro. Um homem aparece um belo dia numa agência funerária, gerida por dois sócios chamados Alves, com a intenção de comprar um caixão. Até aí, nada de invulgar. Mas depressa a coisa começa a complicar-se quando o atarantado cangalheiro que o atende percebe não só que o caixão é para o próprio cliente, como que este pretende a morte para o mais breve possível, e o cangalheiro que faça o que for necessário para resolver o assunto. Ou os cangalheiros, ele e o sócio. Nisso, o cliente não é esquisito.

É um texto que realmente tem graça e, não por casualidade, também é um dos (demasiado escassos) textos devidamente desenvolvidos que o livro contém. As duas coisas não estão separadas, longe disso. Aqui temos não só a ideia básica, mas também outras ideias acessórias que se lhe somam, e uma história com princípio, meio, fim e punch line. Tudo no sítio, tudo eficaz.

Assim, sim.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 6 de Abril de 2014

Lido: História, Essa Ficção

História, Essa Ficção é um texto de José Alberto Braga que também não tem grande graça. Na verdade, achei este texto principalmente frustrante, porque Braga tem aqui algumas ideias relacionadas com um certo caráter falso da história (ou pelo menos da história tal como nos é apresentada pela cultura popular) que, bem desenvolvidas, poderiam dar textos interessantes, ainda que misturadas com outras que, mais uma vez, cedem a um certo trocadilhismo fácil e que não vejo como poderiam desenvolver-se melhor. Mas o que é certo é que nem umas nem as outras estão bem desenvolvidas. Há uma opinião, com uma série de frases a servir-lhe de ilustração de uma forma que se calhar nem pretende realmente ser humorística, e nada mais do que isso. Ora...

Textos anteriores deste livro:

Lido: As(os) Noivas(os) de Santo(a) António(a)

As(os) Noivas(os) de Santo(a) António(a) é mais um textículo-barra-missiva de Henrique Monteiro, desta feita endereçado por "um grupo de apoiantes do Sr. Deputado Sousa Pinto" (que, depois de perguntar a si próprio "quem?!", o leitor lá tem uma vacuíssima lembrança de uma estrela cadente do Partido Socialista, um dos muitos carreiristas com mais ambição do que talento que de vez em quando nos entravam casa dentro matraqueando palavreado oco por via televisiva) ao presidente da câmara de Lisboa. Um textículo com uma única característica de monta: é parvo. Piada, nem sombra dela se vislumbra. Aparentemente tenta, a propósito das noivas de Santo António, gozar com alguma proposta que eventualmente terá existido à época para reconhecer formas de organização familiar alternativas ao casamento. Daquelas polemicazinhas que hoje nem se percebem tão pacíficas se tornaram entretanto as soluções encontradas. Imagino que, à época, o conservadorismo troglodita talvez tenha visto nisto alguma graça, mas confesso que tenho de forçar a imaginação quase ao limite para conseguir imaginar tal coisa.

Henrique Monteiro é um completo erro de casting neste livro. Não há qualquer espécie de graça no que dele aqui se apresenta. Um zero total. E a culpa não é apenas dele: os organizadores deviam ter percebido que estes textos estão tão amarrados aos factoides politiquícios do tempo que, mesmo que alguma graça tivessem tido na altura certa, hoje já não têm nem sombra dela, não só mas também porque já ninguém se lembra daquilo a que fazem referência.

É que há coisas que são intemporais, há coisas que são importantes e há coisas que marcam a memória dos povos. Mas, aparentemente, não é sobre essas coisas que Henrique Monteiro gosta de escrever.

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sexta-feira, 4 de Abril de 2014

Lido: Pedro e a Voz

Pedro e a Voz é mais um texto de Henrique Monteiro, este mais extenso, mas tirando isso muito semelhante ao anterior. Também aqui vamos encontrar uma espécie de missiva, enviada por um tal Pedro a um tal Rui. O Pedro depressa se percebe ser Pedro Santana Lopes, mas a identidade do Rui passou-me por completo ao lado. E não é que interesse, francamente. Pedro relata ao seu amigo Rui (presume-se que seja amigo; afinal trata-o por tu) uma conversa que teria tido com a sua própria consciência, fazendo referências a uma série de tricas da politiqueirice nacional que já estão há muito enterradas no baú das irrelevâncias esquecidas por todos. Por isso, talvez, o total desinteresse que este texto me causou, e a completa ausência de graça que lhe achei.

Nem o português é grande coisa; pelo menos as crónicas do MEC, por mais datadas que estejam, têm na qualidade do português um bom motivo de interesse. Estas só me levam a dizer uma coisa: meh!

Textos anteriores deste livro:

Lido: Quando Cristo Desce à Terra

Quando Cristo Desce à Terra é um textozinho de Henrique Monteiro que, vê-se, tenta ter graça, mas no qual não encontrei nem sombra dela. É curtinho e pretende representar uma missiva enviada por um tal D. Sanches ao ministro da administração interna, e é possível que a sua completa ausência de piada tenha a ver com referir-se a algo tão datado no tempo e no espaço que já está esquecido. Uma piadola do quotidiano, que deixa de fazer sentido quando este se transforma em passado e perde relevância com isso. Talvez. O que é certo é que meh.

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quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Lido: Gosto Muito de Palavrões

Gosto Muito de Palavrões é mais uma divertida crónica de Miguel Esteves Cardoso na qual ele, como o título indica, declara o seu amor pelos palavrões. E explica porquê, com profusão de exemplos, quase todos bem apanhados e melhor pensados. Sim, pensados, que se nota que a crónica não se limita a ser uma coisinha destinada a fazer rir o freguês com a publicação em letra de imprensa (isto saiu originalmente numa revista, acho eu) de um texto eivado de caralhadas. Ou, melhor ainda, de um texto em que a caralhada convive harmoniosamente com frases como "dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação." Há aqui, como se vê, uma certa filosofia do palavrão, bem como algumas reflexões gramaticais, o que na verdade serve não só para pensar um pouco, mas também para tornar o todo mais divertido. Esta é uma grande crónica, ainda que sofra com algo que é comum nas crónicas mais humorísticas do MEC: irem perdendo a piada para o fim. Acontece com esta, tal como acontece com muitas outras, mas isso não chega a ser suficiente para lhe retirar qualidade.

Textos anteriores deste livro:

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

Lido: Finis

Finis (bibliografia) é um imaginativo conto de ficção científica sobre o fim do mundo, escrito em 1906 por Frank L. Pollack. Trata-se de um exemplar curioso de ficção científica com mais de cem anos, que erra quase completa e até quase grotescamente a ciência mas que, tendo em conta o conhecimento científico da época, até talvez se possa considerar ficção científica dura, escrita e publicada antes sequer do género ser individualizado e definido. A ideia básica é simples. O universo, pensava Pollock (ou pelo menos admitia para efeitos literários), não podia ser realmente infinito e as estrelas não podiam estar apenas suspensas no vazio. Tal como a Lua orbita a Terra e a Terra o Sol, este e as demais estrelas deverão orbitar uma qualquer superestrela gigantesca cuja temperatura deverá ser mais quente que a do Sol, na proporção da diferença que existe entre as temperaturas deste e da Terra.

Mas nunca ninguém viu tal estrela. Porquê? Simples: porque a sua luz ainda não teve tempo para chegar até nós.

Até que de repente chega.

O mais interessante deste conto é o facto de seguir fielmente as regras da ficção científica tal como continuou a ser praticada ao longo todo o século que se seguiu. Não por todos os seus praticantes, bem entendido. Mas por muitos.

Isto, claro, apesar de haver também nele inegáveis ressonâncias dos mitos judaico-cristãos sobre o Armagedão. E também aí, na bem sucedida conciliação dessas influências religiosas com a ciência, o conto parece moderno.

É-nos apresentada uma ideia de índole científica, até mesmo em ambiente científico como na ficção de laboratório que tão comum tem sido na FC. Depois da ideia apresentada, o conto dedica-se a descrever os acontecimentos que são consequência da sua realidade. Para isso, faz uso de um casal de protagonistas que não perde muito tempo a desenvolver, pois a sua função é simplesmente servir de testemunhas dos acontecimentos. E estes são de dimensão verdadeiramente cósmica.

Apesar de irremediavelmente datado no que à verosimilhança científica diz respeito, mesmo apresentando uma ideia de uma modernidade surpreendente e ainda hoje válida (a de que há partes do universo que não são observáveis porque a luz que emitiram ainda não teve tempo para chegar até nós), trata-se de um conto bastante interessante para quem gosta de conhecer exemplares antigos do género. É, até certo ponto, o meu caso. Por isso, não posso realmente dizer que tenha gostado, mas li-o com interesse.

terça-feira, 1 de Abril de 2014

Lido: Uma Casa Assombrada

Uma Casa Assombrada (bibliografia) é uma vinheta fantástica de Virginia Woolf, que foge um pouco ao padrão do livro em que se insere, como aliás talvez fosse de esperar. Sim, tata-se, talvez, de uma história de fantasmas. Sim, envolve, talvez, uma casa assombrada, onde as portas se fecham sozinhas. Sim, talvez seja uma história sobre um casal de fantasmas que, como todos os fantasmas, estão presos ao passado. Sim. Talvez.

Mas também é possível que não haja mais fantasmas neste conto do que os fantasmas psicológicos que todos vamos gerando ao longo da vida e transportamos connosco. Sombras de velhos amores, de velhos ódios, de velhas paixões, de velhas desilusões. Também é possível que o casal de fantasmas seja apenas isso: velhas sombras existentes unicamente na memória.

Este é, pois, um conto aberto a todas as interpretações, o que faz dele muito todorovianamente fantástico. E sim, é um bom conto, parece-me, embora não um conto memorável.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 30 de Março de 2014

E já há feliz contemplada

Já temos feliz contemplada (é assim que se diz, não é? É obrigatório falar assim nestas coisas de sorteios, não é?) no sorteio de um exemplar de Por Vós lhe Mandarei Embaixadores, livrinho cuja capa está aqui ao lado, cujo site está aqui, e cujos leitores andam por aí, desse lado das internetes e no mundo dito real. Agora vai haver mais uma, a quem endereço os parabéns e os votos de ótimas e divertidas leituras.

Parabéns, pois, à

Regina Gomes Catarino

Quanto a vocês, os outros que não ganharam, ainda há exemplares para venda. Se querem passar umas horas divertidas, é uma sugestão que vos faço.

Lido: A Guardiã da Memória

A Guardiã da Memória (bibliografia) é um romance planetário de Gerson Lodi-Ribeiro ambientado no seu mundo-zoológico de Ahapooka. Este é um planeta que está no centro de de uma série que começou a ser publicada sob o pseudónimo de Daniel Alvarez, um planeta bastante maior que a Terra onde uma misteriosa e poderosa raça alienígena estabeleceu algo de semelhante a uma reserva planetária para espécies inteligentes, permitindo às naves pousar mas impedindo-lhes a partida. Não se trata propriamente de ideia nova; já li várias obras de vários autores, entre contos e romances, que partem desta premissa básica, e a última até foi há relativamente pouco tempo. Mas é altamente redutor (e por isso disparatado) abordar as obras de FC só com base nas suas premissas básicas, e este livro é disso bom exemplo: tem muito mais que a premissa básica.

Muito mais.

No mundo de Ahapooka, as diversas espécies que aí ficam aprisionadas estabelecem as suas próprias culturas, distribuem-se pelos habitats disponíveis e encontram as suas próprias formas de organização social. Umas regridem ao barbarismo, outras continuam a desenvolver-se tecnológica e socialmente. Umas criam estados monoespecíficos e xenofóbicos, outras adotam sociedades abertas e recebem o Outro mais ou menos de braços abertos. O resultado é uma riquíssima manta de retalhos que, de braço dado com a vastidão do próprio planeta, gera possibilidades quase infindáveis para contar histórias.

Esta é apenas uma delas. Protagonizada por uma humana chamada Clara, descendente de uma das principais famílias de uma das nações mais poderosas de todo o planeta, Rhea, e agente secreta desta, conta uma expedição mais ou menos mal sucedida para recuperar um certo esqueleto que poderia levar à reavaliação do lugar da Humanidade no contexto das civilizações tecnológicas da galáxia (a sociedade galáctica está organizada à semelhança da do universo da Elevação, de David Brin, pois as espécies do presente são todas fruto de elevação por parte de espécies mais antigas, e existe uma velha polémica envolvendo a Humanidade, que pode, ou não, ter chegado independentemente à inteligência e à civilização). Mas, mais do que a expedição, conta a fuga de Clara pelos oceanos de Ahapooka, a bordo de um imenso navio construído e tripulado por uma espécie de crustáceos, perseguida por forças militares de uma nação rival de Rhea, e acompanhada por um centauro.

Não por um centauro dos que conhecemos da mitologia, entenda-se. Gerson Lodi-Ribeiro escreve aqui ficção científica da dura, procurando manter sempre a verosimilhança científica. O seu centauro (que pertence, aliás, apenas a uma de várias espécies centauroides presentes no planeta) é adequadamente alienígena, inclusive no seu ciclo vital, pois passa por uma metamorfose semelhante às dos nossos insetos, após a qual emerge sob uma forma humanoide. E este facto é fulcral em toda a história.

Há quem tenha chamado erótico a este romance. Parece-me uma designação bastante desadequada. Embora exista sexo com certa fartura, pois Clara acaba por se envolver com o centauro de uma forma que acaba por constituir um dos eixos centrais da narrativa, na verdade encontrei nele muito pouco erotismo. Para mim, este romance é principalmente uma história de amor. Uma história de amor como só na ficção científica se pode criar. Uma história de amor que procura explorar os limites da humanidade e as formas que espécies inteligentes têm de lidar com o preconceito. Em A Guardiã da Memória há preconceitos de todos os tipos. Há o preconceito contra relacionamentos afetivos e sexuais interespecíficos. Há uma espécie em cuja biologia só as fêmeas são inteligentes e portanto não consegue conceber a noção de machos racionais, levando a um preconceito de género extremado. Há outros preconceitos de género. Há preconceitos quanto ao que leva, ao certo, a decidir-se que um sexo é "macho" e outro "fêmea" e, na sequência disso, há também preconceitos relacionados com a homossexualidade. Há preconceitos xenofóbicos. Há preconceitos sobre o estilo de vida que cada indivíduo escolhe para si. E por aí fora.

É a exploração de todos estes níveis de preconceito que Lodi-Ribeiro pretende realmente fazer. O sexo não é fulcro, mas consequência, uma mera ferramenta que ele usa porque vários dos preconceitos que lhe interessam têm um cariz sexual mais ou menos evidente. Este livro é, no fundamental, uma história sobre como o eu se relaciona com o outro, em especial se esse outro é diferente. Ou se à primeira vista parece diferente. Porque quem sabe se por trás de carapaças, tentáculos, géneros confusos e complexos, um sem-fim de pequenas e grandes estranhezas, não se esconderá um substrato de comunidade? Um substrato até, quem sabe, suficiente para servir de base ao florescimento de afetos?

É esta a exploração que Gerson Lodi-Ribeiro faz neste livro. Não se trata de um livro de ação, embora tenha alguma ação (não muita, há que dizê-lo, e bastante espaçada), em várias homenagens razoavelmente claras a Júlio Verne. Não se trata de um livro erótico, embora haja nele sexo com uma certa abundância. Trata-se de uma exploração profunda do preconceito, das suas raízes, das suas consequências, da coragem que ultrapassá-lo por vezes exige, e de como ele é ultrapassado às vezes quase sem se dar por isso. E nisso, e por isso, é um livro francamente bom.

Este livro foi-me oferecido pelo autor.

terça-feira, 25 de Março de 2014

Lido: O Cúmplice

O Cúmplice (bibliografia), conto curto de ficção científica dura, de Vernor Vinge, é uma história que tem hoje em dia o interesse de nos mostrar como se imaginava há já quase meio século a invenção da computação gráfica tridimensional. Não exatamente como ela é feita hoje, claro, mas como processo automatizado por completo, capaz de transformar as palavras de um livro diretamente em imagem de síntese.

Ler hoje este conto é curioso por causa da estranha mistura que contém entre aquilo em que a previsão acerta e em que falha rotundamente. Mas não passa disso, em especial nesta tradução que chega a ser dolorosa por ser evidente que o tradutor não percebeu patavina do que estava a ler. Não é qualquer pessoa que pode traduzir ficção científica, e este conto demonstra-o na perfeição. A tradução, sozinha, conseguiu transformar um conto que parece ser pelo menos razoável num disparate pegado. Se é difícil avaliar as ideias do conto através dela, avaliá-lo literariamente torna-se totalmente impossível. A única coisa que se pode avaliar é o resultado final. E este é quase de fugir.

Contos anteriores desta publicação:

segunda-feira, 24 de Março de 2014

E se eu vos oferecesse um livro?

E se eu vos oferecesse destes livrinhos? Não a todos, evidentemente, mas a um de vocês, a alguém bem escolhido pelas regras arcanas dos geradores de números aleatórios?

Sabem que mais? Acho boa ideia.

Portanto é o que vou fazer. Vou oferecer um exemplar a alguém que tenha gostado da página dedicada ao livro no Facebook. O prazo de recolha de nomes termina às 15 horas do próximo sábado, dia 29 de março. Hora de Portugal continental.

As regras são simples: todos os nomes que lá encontrar a essa hora serão importados para uma folhinha excel, e a cada um será atribuído um número aleatório. Depois serão ordenados do maior para o menor. O livro será oferecido ao maior de todos, exceto se não conseguir contactá-lo (em princípio, contactarei por mensagem direta, no facebook) nas 24h seguintes, caso em que passará para o seguinte, e assim sucessivamente. Em princípio, o sorteio será realizado ainda no sábado. Divulgarei os cinco primeiros nomes na página, para estarem atentos às mensagens, e aqui na Lâmpada será divulgado o nome do vencedor.

Detalhe: o exemplar a sortear é o número 5.

Outro detalhe: aqueles que já compraram o livro terão o triplo das hipóteses de ganhar um segundo exemplar, embora seja na mesma preciso estarem ligados à página. Ou seja: o seu nome será acrescentado três vezes à lista. Depois, poderão fazer do livro o que quiserem: oferecê-lo, oferecer o exemplar original, vendê-lo, ficar com os dois, seja o que for.

Isto há que apaparicar a clientela, não é?

Vá, quem quiser o livro já sabe. E quem quiser ter hipóteses melhoradas de o ganhar, só tem de mo comprar entretanto. O que é uma ótima ideia: mesmo que não o ganhe, poderá na mesma desfrutar dele. Só vantagens.


Lido: A Floração da Estranha Orquídea

A Floração da Estranha Orquídea é uma igualmente estranha história de R. G. Macready, a única, aliás, que o autor publicou. Tudo começa convencionalmente. Um homem suficientemente rico para não ter de trabalhar mas suficientemente medíocre para não ter nada em que gastar o tempo a não ser o cultivo de orquídeas, arranja um belo dia um exemplar que pode, ou não, ser algo de novo. Planta-o, a orquídea germina e desenvolve-se exalando um odor intenso e enjoativo... que quase tem terríveis consequências. Até aqui tudo bem; parece que estamos perante um típico conto de horror em que o perigo vegetal que é marca desta antologia toma a forma de uma orquídea predatória. Mas de repente, o protagonista original é esquecido, e a história transforma-se num relato de um jornalista que terá visitado a propriedade de um cientista, encontrando aí a aventura da sua vida e outro monstro vegetal mais monstruoso ainda do que o primeiro. E depois a história acaba sem sequer chegar perto de acabar, como se o autor se tivesse farto dela ou ficado sem saber bem como concluí-la.

O resultado é francamente mau. E irritante, porque há aqui uma série de boas ideias, mas estão concretizadas de uma forma tão desajeitada que o conto não tem ponta por onde se lhe pegue... e nada é mais irritante do que o desperdício de boas ideias. Este podia ter sido um bom conto de horror. Também podia ter sido um bom conto de ficção científica (os elementos estão lá, na segunda parte). Mas em vez disso é uma mixórdia sem pés nem cabeça.

Enfim... venha o próximo.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Mendigo Sexta-Feira Jogando no Mundial

O Mendigo Sexta-Feira Jogando no Mundial é um ternurento continho de Mia Couto sobre um mendigo, apelidado de Sexta-Feira, que se apresenta no hospital com dores verdadeiras, ao contrário das habituais dores inventadas que lhe costumam servir de pretexto para obter um pouco de calor humano. Ternurento, mas ao mesmo tempo duríssimo, pois as dores do mendigo são resultado de uma luta por aquilo que considera ser os seus direitos de utilizador do espaço público da sua cidade, uma luta à qual o futebol serve de pretexto e combustível. Claro que Sexta-Feira acaba derrotado, por isso a visita ao hospital. Mas ao mesmo tempo sai vitorioso pelo simples facto de ter lutado.

Do texto de Mia Couto já não vale a pena falar; é igual a si próprio. Mas neste conto é particularmente eficaz e contundente à sua maneira sinuosa. Muito bom.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 23 de Março de 2014

Lido: Glosa a Dylan

Glosa a Dylan é mais um textozinho dificilmente classificável de José Alberto Braga, embora o título explique mais ou menos de que se trata. Pois parece que Bob Dylan terá dito um belo dia uma certa frase, e Braga decidiu pegar nela e glosá-la. Oito vezes. Até aqui tudo bem. O chato é que nenhuma das glosas tem qualquer graça. Nem a mínima sombra dela. E por isso, esta Glosa a Dylan é dos textoszitos mais desinteressantes de todo o livro.

Textos anteriores deste livro: