A Face Obscura da Lua é um conto de (algum) terror, de Pedro Medina Ribeiro, cujo narrador conta a história de um amigo que conhece em Praga, cidade a que ambos terão chegado em 1883 para estudar. Após concluído o curso, a vida do narrador desenvolve-se calmamente. Mas o amigo mete-se em experiências sobrenaturais com a mulher com quem acaba por casar, e isso vai ter as terríveis consequências que é demasiado fácil prever. Sobre o enredo direi apenas mais uma palavra: licantropismo.
De novo, trata-se de uma história praticamente decalcada de histórias do século XIX, tanto em tema como em atmosfera, e até em estilo literário. Não está mal escrita, não está mal concebida, mas também não é lá muito interessante, porque segue absolutamente à risca fórmulas inventadas há mais de cem anos. Ao contrário da primeira história do livro, que apesar do tom passadista trazia alguma inovação, esta é puro cliché. Não será má, mas também não me parece que seja boa.
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sexta-feira, 8 de junho de 2012
Lido: O Aplaudido Dramaturgo Curado Pelas Pílulas Pink
O Aplaudido Dramaturgo Curado Pelas Pílulas Pink (bib.) é um conto curto de Natália Correia que, como já o título indica, é no fundamental um grande gozo. É contado na primeira pessoa por um narrador que tem a insalubre característica de ser como que perseguido pelo aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink, embora este nunca lhe apareça duas vezes com a mesma cara e trajo. Quando o nosso pobre protagonista menos o espera, pimba, eis que uma qualquer pessoa com que se cruze por acaso se lhe apresenta com a fatídica frase: "Eu sou o aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink." Como está bem de ver-se, o bom do narrador depressa perde a paciência, com resultados menos trágicos do que se poderia supor. Ou mais, dependendo do ponto de vista. É que o aplaudido dramaturgo blá blá blá parece ser mágico. O protagonista até tenta matá-lo e tudo, mas nada parece conseguir afastar de si aquela peste.
Sabem aquelas moscas chatíssimas do fim do verão? É mais ou menos isso.
Se não fosse o tom ligeiro, este conto até podia ser de horror. Mas não, é um conto fantástico, sarcástico, que goza despudoradamente com um certo tipo de intelectual armado aos cágados e mais ou menos medíocre, e até, quiçá, com a própria natureza do divino. Não sendo propriamente uma obra-prima (não gostei particularmente dos diálogos, por exemplo — achei-os um pouco forçados. Não tanto como por vezes acontece em textos portugueses, mas um pouco), parece-me um bom conto e é um conto divertido.
Sabem aquelas moscas chatíssimas do fim do verão? É mais ou menos isso.
Se não fosse o tom ligeiro, este conto até podia ser de horror. Mas não, é um conto fantástico, sarcástico, que goza despudoradamente com um certo tipo de intelectual armado aos cágados e mais ou menos medíocre, e até, quiçá, com a própria natureza do divino. Não sendo propriamente uma obra-prima (não gostei particularmente dos diálogos, por exemplo — achei-os um pouco forçados. Não tanto como por vezes acontece em textos portugueses, mas um pouco), parece-me um bom conto e é um conto divertido.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Lido: Akallabêth
Akallabêth é uma noveleta de J. R. R. Tolkien, forte e assumidamente baseada no mito da Atlântida, que relata uma série de acontecimentos intermédios entre os descritos no Quenta Silmarillion e os dos livros mais conhecidos do autor. Em tom também é algo intermédio, situando-se algures entre o mito de criação, o documento histórico e o conto propriamente dito. Descreve a ascensão e queda dos numenoreanos, habitantes de uma ilha (continente?) situada a oeste da Terra Média, e pertencentes à raça dos homens, mas uns homens especiais, de vidas longas. Estes, originalmente amigos dos elfos, caem quase todos sob a influência de Sauron, o mesmo espírito maligno que vai ter um papel importante n'O Senhor dos Anéis, e isso tem como consequência última a perdição de Númenor.
De novo, compreendo que um fã se delicie com este texto: ele concretiza vários elementos que são apenas entrevistos na trilogia principal do universo tolkieniano e fornece um pouco de história a Sauron, que na trilogia é elemento constante mas sempre muito nebuloso, um perigo presente mas distante e misterioso, truque eficaz, diga-se de passagem, para a construção da sensação de ameaça que está presente ao longo de toda a viagem de Frodo e companheiros.
Mas, como já disse várias vezes, eu não sou um fã. E o maniqueísmo tende a irritar-me sobremaneira, pelo menos em textos que se mostrem como mais que simples lendas, como é o caso. Portanto voltei a não gostar lá muito do que aqui li, e só não gostei menos porque achei interessante a forma como Tolkien integrou os mitos atlânticos na sua narrativa e no seu universo.
Textos anteriores desta publicação:
De novo, compreendo que um fã se delicie com este texto: ele concretiza vários elementos que são apenas entrevistos na trilogia principal do universo tolkieniano e fornece um pouco de história a Sauron, que na trilogia é elemento constante mas sempre muito nebuloso, um perigo presente mas distante e misterioso, truque eficaz, diga-se de passagem, para a construção da sensação de ameaça que está presente ao longo de toda a viagem de Frodo e companheiros.
Mas, como já disse várias vezes, eu não sou um fã. E o maniqueísmo tende a irritar-me sobremaneira, pelo menos em textos que se mostrem como mais que simples lendas, como é o caso. Portanto voltei a não gostar lá muito do que aqui li, e só não gostei menos porque achei interessante a forma como Tolkien integrou os mitos atlânticos na sua narrativa e no seu universo.
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quarta-feira, 6 de junho de 2012
Bradbury
Cada vez me irrita mais a tendência de ignorar por completo as pessoas enquanto elas são vivas e, assim que morrem, desmultiplicarmo-nos em homenagens e, no caso dos artistas, comprar compulsivamente tudo o que mexe e saiu da criatividade do recém-falecido. É tendência muito humana, bem sei, que tem a ver com a também muito humana ilusão de que as coisas de que gostamos são eternas, mas irrita-me e, de vez em quando, chega a repugnar-me. Porque o momento certo para homenagear os artistas que nos dão prazer, o momento apropriado para comprar aquilo que produziram, o momento correto para recomendar a terceiros aquilo que achamos que devemos recomendar é enquanto eles estão vivos e ainda podem usufruir do que lhes podemos dar em troca do que eles nos dão a nós.
Bradbury foi importante para mim, e a sua morte doeu. Não porque fosse inesperada ou chocante: de um homem de 91 anos, e já doente há alguns, não se espera que continue a viver muito mais tempo. Não porque a sinta como uma perda em si mesma: o Bradbury recente era uma sombra do genial escritor de outrora e o seu conservadorismo não lhe permitiu acompanhar a mudança dos tempos. Em muitas coisas, Bradbury manteve-se agarrado ao seu apogeu, em meados do século XX. Não liguem a quem diz que os escritores de ficção científica não são homens como os outros, porque são. Alguns também chegam a um ponto em que se deixam ultrapassar pelo futuro em que passaram a carreira a pensar. E o Bradbury dos últimos anos era assim, nostálgico por um tempo que já não existe, o da sua juventude, e pelo futuro otimista e luminoso que desse tempo se entrevia. Mesmo apesar das nuvens ocasionais. Um futuro ingénuo. Como hoje sabemos, essa luz não se cumpriu.
Não foi, portanto, por isso que a morte de Bradbury me doeu. Foi por um motivo bem mais próximo, bem mais íntimo. Porque o primeiro livro de Bradbury que li, já nem me lembro bem qual (talvez As Máquinas da Alegria, talvez O Homem Ilustrado), foi-me passado para as mãos por um homem de olhos brilhantes de entusiasmo. "Lê isto," disse o meu pai, ainda só com alguns fios brancos no cabelo, a um eu adolescente que acabara de descobrir a ficção científica e de se apaixonar por ela. "Lê isto, que é uma maravilha." E eu li, e era, e a minha paixão pelo género solidificou um pouco mais graças a esse livro, a essa frase e ao brilho daqueles olhos.
Foi por isso que a morte de Bradbury me doeu. Porque com ele morreu mais um pouco do meu pai, morreu um pouco mais do seu entusiasmo, morreram as discussões que, segundo me contou, teve com os intelectuais que constituíam o seu círculo de amigos, tentando infrutiferamente convencê-los, lá pelos anos 50 ou 60, antes de eu sequer estar nos planos do Universo, de que Bradbury era um dos maiores escritores americanos vivos. Ele sempre gostou mais de Bradbury do que eu, e não surpreende que assim fosse: Bradbury era um homem do seu tempo, mas nunca foi do meu.
Quanto ao que eu acho que Bradbury foi, não vou escrever aqui nada. Não vale a pena: fui escrevendo sobre ele ao longo dos anos, enquanto ele ainda estava vivo. Basta-me enviar-vos para esses textos. Ei-los:
No E-nigma:
E é aí que os escritores não são homens como os outros.
Bradbury foi importante para mim, e a sua morte doeu. Não porque fosse inesperada ou chocante: de um homem de 91 anos, e já doente há alguns, não se espera que continue a viver muito mais tempo. Não porque a sinta como uma perda em si mesma: o Bradbury recente era uma sombra do genial escritor de outrora e o seu conservadorismo não lhe permitiu acompanhar a mudança dos tempos. Em muitas coisas, Bradbury manteve-se agarrado ao seu apogeu, em meados do século XX. Não liguem a quem diz que os escritores de ficção científica não são homens como os outros, porque são. Alguns também chegam a um ponto em que se deixam ultrapassar pelo futuro em que passaram a carreira a pensar. E o Bradbury dos últimos anos era assim, nostálgico por um tempo que já não existe, o da sua juventude, e pelo futuro otimista e luminoso que desse tempo se entrevia. Mesmo apesar das nuvens ocasionais. Um futuro ingénuo. Como hoje sabemos, essa luz não se cumpriu.
Não foi, portanto, por isso que a morte de Bradbury me doeu. Foi por um motivo bem mais próximo, bem mais íntimo. Porque o primeiro livro de Bradbury que li, já nem me lembro bem qual (talvez As Máquinas da Alegria, talvez O Homem Ilustrado), foi-me passado para as mãos por um homem de olhos brilhantes de entusiasmo. "Lê isto," disse o meu pai, ainda só com alguns fios brancos no cabelo, a um eu adolescente que acabara de descobrir a ficção científica e de se apaixonar por ela. "Lê isto, que é uma maravilha." E eu li, e era, e a minha paixão pelo género solidificou um pouco mais graças a esse livro, a essa frase e ao brilho daqueles olhos.
Foi por isso que a morte de Bradbury me doeu. Porque com ele morreu mais um pouco do meu pai, morreu um pouco mais do seu entusiasmo, morreram as discussões que, segundo me contou, teve com os intelectuais que constituíam o seu círculo de amigos, tentando infrutiferamente convencê-los, lá pelos anos 50 ou 60, antes de eu sequer estar nos planos do Universo, de que Bradbury era um dos maiores escritores americanos vivos. Ele sempre gostou mais de Bradbury do que eu, e não surpreende que assim fosse: Bradbury era um homem do seu tempo, mas nunca foi do meu.
Quanto ao que eu acho que Bradbury foi, não vou escrever aqui nada. Não vale a pena: fui escrevendo sobre ele ao longo dos anos, enquanto ele ainda estava vivo. Basta-me enviar-vos para esses textos. Ei-los:
No E-nigma:
- A Morte é um Acto Solitário
- As Maçãs Douradas do Sol
- Cântico à Humanidade
- Fahrenheit 451
- O Homem Ilustrado
- O Mundo Marciano
- Regresso das Cinzas
- Conduzindo às Cegas
- Crónicas Marcianas
- E também textos sobre contos individuais nestes dois livros, acessíveis através de uma pesquisa
E é aí que os escritores não são homens como os outros.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Lido: A Peste Negra
A Peste Negra (bib.) é uma coletânea de Gomes Leal, composta por um conto e uma noveleta que, embora mostrem alguns elementos em comum, são bastante diferentes um do outro. Gomes Leal é conhecido fundamentalmente como poeta, embora também tenha sido tradutor de alguns dos grandes autores fantásticos do século XIX, e essa queda para a poesia nota-se bastante nestes dois textos, em especial no primeiro. Nada tenho contra o facto; a prosa poética é uma forma tão legítima de escrever como qualquer outra e pode dar origem a obras maiores. Mas não, julgo, quando ofusca tudo o resto, quando se substitui aos outros elementos que devem estar presentes no ato de contar uma história.
E aqui, se nos abstrairmos do burilar das imagens, os textos tornam-se completamente banais. O primeiro, sobretudo, mostra tudo o que de pior existe nos contos românticos (o texto pesado e exageradissimamente sentimental, a adjetivação omnipresente, a inevitabilidade da tragédia, etc.) e, bem espremido, dá muito pouco sumo. E segue tão fielmente as convenções do melodrama que não há a mínima surpresa. A leitura arrasta-se, mesmo num texto que não passa de conto. O segundo, ainda que bastante melhor, volta a perder-se ocasionalmente em frases de efeito e a sua inclusão numa coleção de contos fantásticos parece-me forçada.
Em todo o caso, estas duas histórias são suficientemente diferentes uma da outra para que eu renita em delas concluir que Gomes Leal foi um mau contista. Com base em tão pouco não me atrevo. Mas posso dizer que fiquei sem curiosidade, sem vontade de ler mais. Não gostei deste livro. Está na lista de candidatos à pior leitura do ano e, para já, muito bem posicionado para arrebatar esse duvidoso troféu.
Eis o que achei das duas histórias:
Este livro foi comprado.
E aqui, se nos abstrairmos do burilar das imagens, os textos tornam-se completamente banais. O primeiro, sobretudo, mostra tudo o que de pior existe nos contos românticos (o texto pesado e exageradissimamente sentimental, a adjetivação omnipresente, a inevitabilidade da tragédia, etc.) e, bem espremido, dá muito pouco sumo. E segue tão fielmente as convenções do melodrama que não há a mínima surpresa. A leitura arrasta-se, mesmo num texto que não passa de conto. O segundo, ainda que bastante melhor, volta a perder-se ocasionalmente em frases de efeito e a sua inclusão numa coleção de contos fantásticos parece-me forçada.
Em todo o caso, estas duas histórias são suficientemente diferentes uma da outra para que eu renita em delas concluir que Gomes Leal foi um mau contista. Com base em tão pouco não me atrevo. Mas posso dizer que fiquei sem curiosidade, sem vontade de ler mais. Não gostei deste livro. Está na lista de candidatos à pior leitura do ano e, para já, muito bem posicionado para arrebatar esse duvidoso troféu.
Eis o que achei das duas histórias:
Este livro foi comprado.
Lido: O Practical-Jocker
O Practical-Jocker (bib.), ou O Pratical-Joker, consoante se está a consultar o título no topo da história ou o índice, respetivamente (sim, a sério), é um mundaníssimo conto curto de Luísa Costa Gomes que relata uma saída noturna de uma senhora muito composta, na companhia de uma amiga e de dois desconhecidos, um dos quais tem um gosto algo exagerado por pregar partidas, para grande divertimento do outro. Todos americanos, por algum motivo que não entendi; uma historieta tão banal, sem a mínima especificidade cultural, podia passar-se em qualquer ponto do dito mundo ocidental. Sim, a banalidade deste conto é completa, e não se fica por tema e ambiente, pois também o uso que nele é feito da língua portuguesa não é mais que mediano. Na história que conta não encontrei interesse nenhum (não, as crises existenciais de dondocas em saídas noturnas não me interessam minimamente) e o conto, na publicação em que vem incluído, é um completo erro de casting. Ao terminar a leitura fiquei boquiaberto. Não haveria melhor que isto para publicar? Será isto que para Luísa Costa Gomes é uma história de terror?
De muito longe, o pior conto do livro até agora... e só falta um para acabar.
Contos anteriores desta publicação:
De muito longe, o pior conto do livro até agora... e só falta um para acabar.
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domingo, 3 de junho de 2012
Lido: Disney no Céu Entre os Dumbos
Disney no Céu Entre os Dumbos (bib.) é uma novela de ficção científica de João Barreiros e, diga-se desde já, talvez a melhor das novelas da FC portuguesa. É verdade que a nossa ficção científica não produziu lá muitas novelas ao longo da sua vida, não tão curta como às vezes parece. É certo que sempre pareceu preferir histórias menos extensas, o que se deve em parte às grandes limitações que sempre existiram nos veículos disponíveis para a divulgação de ficções mais longas, mas só em parte, como se comprova com a relativa escassez até de romances, tradicionalmente mais acarinhados pelo público do que a ficção curta. É um facto, até, que o autor mais prolífico nesta extensão é, precisamente, João Barreiros. Mas nada disto tira mérito a este Disney, um texto de qualidade seja qual for o critério usado para a avaliação.
A história acompanha a lenta desagregação de Marklin, um trabalhador ciborgue destacado para um asteroide, enquanto uma criatura alienígena, predatória como todos os ETs de Barreiros e apelidada de "dumbo" por possuir mais ou menos a forma daquela personagem da Disney, lhe vai bebendo as memórias. O dumbo que ataca Marklin é um renegado da sua espécie, uma fêmea paranoica, grávida de uma multidão de milhares de pequenos dumbos, que procura escapar-se ao controlo eugénico obrigatório, usado para limitar a população e evitar que ela expluda a cada geração. Perante ela, Marklin está tão indefeso como um rato encurralado por um gato, embora tente congeminar uma fuga em conluio com um rato holográfico de desenho animado, criado por um dos subsistemas da inteligência artificial do asteroide, que logrou furtar-se ao controlo do dumbo. Mas a desagregação da memória, e da sua própria individualidade, vai dificultar a tarefa.
É um texto imaginativo e escrito em bom ritmo, com diálogos em geral bons, ainda que as tiradas palavrosas tanto do rato holográfico como do dumbo acabem por se tornar um pouco irritantes (o que acontece também noutros textos de Barreiros). E dá pano para mangas, tanto no que toca à relação entre a memória e a individualidade, como nos vários simbolismos mais ou menos ocultos, mais ou menos evidentes, que se podem encontrar na patética impotência do protagonista em confronto com uma fêmea dominadora e com um outro invasor e mortífero. No contexto da obra de João Barreiros, esta novela é fulcral. Não creio que seja possível compreender por inteiro a generalidade das obsessões literárias do autor sem que seja lida.
Contos anteriores desta publicação:
A história acompanha a lenta desagregação de Marklin, um trabalhador ciborgue destacado para um asteroide, enquanto uma criatura alienígena, predatória como todos os ETs de Barreiros e apelidada de "dumbo" por possuir mais ou menos a forma daquela personagem da Disney, lhe vai bebendo as memórias. O dumbo que ataca Marklin é um renegado da sua espécie, uma fêmea paranoica, grávida de uma multidão de milhares de pequenos dumbos, que procura escapar-se ao controlo eugénico obrigatório, usado para limitar a população e evitar que ela expluda a cada geração. Perante ela, Marklin está tão indefeso como um rato encurralado por um gato, embora tente congeminar uma fuga em conluio com um rato holográfico de desenho animado, criado por um dos subsistemas da inteligência artificial do asteroide, que logrou furtar-se ao controlo do dumbo. Mas a desagregação da memória, e da sua própria individualidade, vai dificultar a tarefa.
É um texto imaginativo e escrito em bom ritmo, com diálogos em geral bons, ainda que as tiradas palavrosas tanto do rato holográfico como do dumbo acabem por se tornar um pouco irritantes (o que acontece também noutros textos de Barreiros). E dá pano para mangas, tanto no que toca à relação entre a memória e a individualidade, como nos vários simbolismos mais ou menos ocultos, mais ou menos evidentes, que se podem encontrar na patética impotência do protagonista em confronto com uma fêmea dominadora e com um outro invasor e mortífero. No contexto da obra de João Barreiros, esta novela é fulcral. Não creio que seja possível compreender por inteiro a generalidade das obsessões literárias do autor sem que seja lida.
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Lido: As Pervincas
As Pervincas (bib.), vinheta de Bruce Holland Rogers, é uma brilhante parábola sobre o bem e o mal. Trata-se de um diálogo puro, entre quem conta a parábola e um interlocutor cético. Este, diga-se de passagem, não é lá muito inteligente. Mas a parábola é. Conta a história de dois homens que morrem, um bom e um mau, e mistura à história alguns pozinhos de perlimpimpim fantástico. E mais não digo, senão estrago o prazer a quem ainda for ler. Muito bom. Mesmo.
Lido: Tempo Normal
Tempo Normal (bib.) é uma estranha noveleta de ficção científica, de James Blish, sobre o que acontece a um piloto de testes quando embarca numa viagem interestelar a fim de testar uma nova tecnologia que permite viajar dezenas de vezes mais depressa do que a luz, depois de experiências anteriores terem resultado no desaparecimento de naves e pilotos sem deixar rasto. Toda construída em volta de bizarras distorções temporais, e centrando-se quase até ao fim no raciocínio íntimo do piloto enquanto procura tirar algum sentido do que lhe está a acontecer, a história é curiosa, e mais o é se se tiver em conta que data do já longínquo ano de 1953. E, contrariamente a muitas outras histórias de FC dessa época, continua ainda hoje a funcionar. O fim é um infodump bem construído, um debriefing entre piloto e cientista que serve para situar o leitor sobre o que acabou de ler ao mesmo tempo que funciona como sequência lógica e coerente do acontecido. Um bom conto de um dos meus autores de FC preferidos, portanto.
Lido: A Séance
A Séance é uma noveleta de Pedro Medina Ribeiro construída em volta de uma sessão espírita. E bastante bem construída, diga-se de passagem. O conto é contado na primeira pessoa por alguém que começa logo por dizer-se cético mas com dúvidas no que toca à existência do sobrenatural. O narrador descreve os acntecimentos que terão levado ao surgimento dessas dúvidas na sua visão do mundo, originalmente racionalista, e lança-se numa narração que segue na globalidade os parâmetros da literatura fantástica sobrenaturalista do século XIX, embora com a introdução de reviravoltas de enredo mais características de thrillers modernos. É descrita a sessão espírita que serve de fulcro à história e a sucessão de acontecimentos estranhos ou, mais propriamente, de mortes estranhas, que ela ocasiona.
Como disse, é um conto bastante bem construído e, apesar de falhas pontuais aqui e ali, também bastante bem escrito. Não percebi bem se a adoção do estilo novecentista é característica anacrónica da escrita do autor, se se trata de pastiche e/ou homenagem. É uma dúvida que ficou. Provavelmente os contos seguintes irão esclarecer-me a esse respeito.
Como disse, é um conto bastante bem construído e, apesar de falhas pontuais aqui e ali, também bastante bem escrito. Não percebi bem se a adoção do estilo novecentista é característica anacrónica da escrita do autor, se se trata de pastiche e/ou homenagem. É uma dúvida que ficou. Provavelmente os contos seguintes irão esclarecer-me a esse respeito.
Lido: O Espelho da Marquesa
O Espelho da Marquesa (bib.) é uma noveleta de Gomes Leal que tem muito pouco a ver com o fantástico da coleção em que o livro a que pertence foi incluído. Trata-se de uma história romântica e, claro, trágica, ambientada na alta sociedade lisboeta do século XIX, e contada por um homem que se apaixona perdida mas platonicamente por uma marquesa. Já se sabe que nas histórias tragico-românticas novecentistas raramente as paixões dão bom resultado, especialmente as platónicas, e esta história segue à risca esse padrão; o interesse do protagonista pela mulher vai fazer com que a observe, e esta observação vai levar à revelação de um crime, com as trágicas consequências que é fácil prever.
Apesar do convencionalismo e da linguagem empolada, apesar da previsibilidade do desfecho, apesar, sobretudo, do romantismo de tudo aquilo, acabei por não desgostar por completo desta história porque a forma como o protagonista vai desvendando o crime tem interesse. E está bem escrita, para quem gosta de prosa poética. E Leal consegue aqui fazer com que esta não se intormeta muito no desenrolar da história, ao contrário do que muitas vezes acontece, em especial em autores pouco experientes ou pouco talentosos. E isso também é positivo.
Quanto ao género, há apenas leves alusões ao sobrenatural que talvez permitam incluir esta história na literatura fantástica tal como foi definida por Todorov, embora pessoalmente me pareça que ela tem os dois pés fora do género, com não mais que uma unha dentro. Uma unha cortada rente.
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Apesar do convencionalismo e da linguagem empolada, apesar da previsibilidade do desfecho, apesar, sobretudo, do romantismo de tudo aquilo, acabei por não desgostar por completo desta história porque a forma como o protagonista vai desvendando o crime tem interesse. E está bem escrita, para quem gosta de prosa poética. E Leal consegue aqui fazer com que esta não se intormeta muito no desenrolar da história, ao contrário do que muitas vezes acontece, em especial em autores pouco experientes ou pouco talentosos. E isso também é positivo.
Quanto ao género, há apenas leves alusões ao sobrenatural que talvez permitam incluir esta história na literatura fantástica tal como foi definida por Todorov, embora pessoalmente me pareça que ela tem os dois pés fora do género, com não mais que uma unha dentro. Uma unha cortada rente.
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domingo, 27 de maio de 2012
Lido: O Físico Prodigioso
O Físico Prodigioso (bib.) é uma novela de Jorge de Sena que pega em duas histórias encontradas no Orto do Esposo, uma compilação de lendas portuguesas feita no fim da Idade Média por um monge anónimo, e as combina para criar uma fantasia medieval que...
Mas esperem lá.
Isto foi uma releitura. E eu já tinha escrito sobre esta história há dez anos (e o tempo, irritantemente, passa, caraças!), nos velhos tempos do E-nigma. Uma crítica que continua disponível. Ao reler hoje algumas das velhas críticas que escrevi para o E-nigma dou por mim a torcer o nariz, por um motivo ou por outro. Mas esta poderia tê-la escrito agora mesmo, logo a seguir a reler esta novela de Jorge de Sena. Portanto remeto-vos para lá. É basicamente aquilo.
Só há uma diferença significativa: gostei mais da releitura do que da leitura original. Mergulhei melhor na história, julgo que me apercebi melhor de certas subtilezas. Já não encontro defeitos na conjugação das duas lendas, não que tivesse encontrado muitos para começar. É verdade que, emocionalmente, a história continua a não me entusiasmar muito, mas reafirmo: este é sem dúvida alguma dos melhores exemplos que conheço da literatura fantástica portuguesa. De toda a literatura fantástica, não só da fantasia. Se há textos de leitura obrigatória para quem quiser dizer com propriedade que percebe do fantástico português, este é um deles.
Mas esperem lá.
Isto foi uma releitura. E eu já tinha escrito sobre esta história há dez anos (e o tempo, irritantemente, passa, caraças!), nos velhos tempos do E-nigma. Uma crítica que continua disponível. Ao reler hoje algumas das velhas críticas que escrevi para o E-nigma dou por mim a torcer o nariz, por um motivo ou por outro. Mas esta poderia tê-la escrito agora mesmo, logo a seguir a reler esta novela de Jorge de Sena. Portanto remeto-vos para lá. É basicamente aquilo.
Só há uma diferença significativa: gostei mais da releitura do que da leitura original. Mergulhei melhor na história, julgo que me apercebi melhor de certas subtilezas. Já não encontro defeitos na conjugação das duas lendas, não que tivesse encontrado muitos para começar. É verdade que, emocionalmente, a história continua a não me entusiasmar muito, mas reafirmo: este é sem dúvida alguma dos melhores exemplos que conheço da literatura fantástica portuguesa. De toda a literatura fantástica, não só da fantasia. Se há textos de leitura obrigatória para quem quiser dizer com propriedade que percebe do fantástico português, este é um deles.
sábado, 26 de maio de 2012
Lido: Quenta Silmarillion
O Quenta Silmarillion é um longo texto de J. R. R. Tolkien, do tamanho de um pequeno romance que, embora o título prometa uma "História dos Silmarils" (os quais são três joias radiantes, produzidas por um elfo no início do mundo, e posteriormente roubadas pelo senhor do mal, Morgoth), na verdade relata uma série de episódios da história de "Arda" (o mundo; suponho que o nome provenha da palavra germânica para Terra: Erde) que traçam um esboço, com graus variáveis de nitidez e elaboração, da história dos elfos, dos anões e dos homens no legendário tolkieniano. Por outro lado, boa parte dessa história pode resumir-se a uma longa luta pela posse dos silmarils.
Compreendo o fascínio que este texto exerce sobre os fãs mais dedicados de Tolkien. Afinal, nele se explicam muitas coisas que são só entrevistas n'O Senhor dos Anéis e n'O Hobbit e todo o substrato histórico-mitológico destas obras, mais elaboradas enquanto tal, é aqui bastante desenvolvido. Imagino que, para um verdadeiro fã, ler este livro seja como abrir uma arca de tesouro e remexer entre moedas, colares e anéis reluzentes. Mas eu não sou fã de Tolkien. O mundo que criou não me fascina, há nele subjacente uma filosofia conservadora, ludita, que colide de frente com a minha forma de encarar o mundo. Se consigo compreender que, para um fã, possa ser uma delícia desenterrar minúcias e estabelecer ligações entre um episódio e outro, e entre estes e os livros principais, a verdade é que para mim não é. Eu poderia gostar desta história se ela realmente funcionasse como história. Mas não me parece que funcione. Ao contrário dos textos anteriores do livro, que imitavam eficazmente mitos da criação, e funcionavam enquanto textos literários precisamente por causa desse mimetismo, que ia dos temas gerais à toada da linguagem e ao caráter poético do texto, o Quenta Silmarillion é um texto híbrido e indefinido. Aqui parece um relato histórico, ali já toma tons de mitologia, acolá é como um conto, com enredo e diálogos e um fio condutor mais sólido.
E depois, há todos aqueles nomes. Que me perdoem os fãs, que provavelmente encaram com prazer e antecipação cada viagem ao glossário para descortinar que nome é aquele, quem é, onde fica, se é nome élfico ou humano, e desenterrar mais uma pitadinha de história, mas a mim falta por completo a paciência para passar toda a leitura para trás e para a frente, aos saltos entre história e glossário. Toda a leitura, pois as referências aos mais díspares locais e personagens são uma constante ao longo de todo o texto. E há trechos em que isso se agrava. Há trechos do Quenta Silmarillion que, para mim, são uma insuportável e impenetrável floresta de nomes, todos semelhantes uns aos outros, com as suas terminações em -on, -ir ou -in. Sim, bem sei que Tolkien era linguista e que em termos linguísticos faz todo o sentido haver coerência nas terminações. Mas com tantos nomes, tão empilhados uns em cima dos outros (metaforicamente, pois há parágrafos que contêm um ou dois nomes por linha, mas também literalmente, visto que há personagens e regiões designadas por dois e três nomes, inteiramente diferentes uns dos outros), essa coerência redunda em confusão.
Creio que se nota demasiado que o Quenta é composto por uma mistura de notas destinadas à construção do mundo ficcional em que Tolkien ambientou as suas histórias e de esboços pouco detalhados de histórias que nunca chegou a escrever. Que é um texto cujo principal objetivo era a orientação (e o divertimento) do escritor, não a divulgação pública. Que, provavelmente, fazia muito mais sentido para o próprio Tolkien do que fará para qualquer dos seus leitores; sei por experiência própria que, por mais notas que quem escreve faça sobre os universos ficcionais que cria, boa parte do que liga e dá sentido a essas notas nunca chega a sair da cabeça. Por isso houve alguns episódios de que quase gostei, mas em geral, do todo, não consegui gostar.
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Compreendo o fascínio que este texto exerce sobre os fãs mais dedicados de Tolkien. Afinal, nele se explicam muitas coisas que são só entrevistas n'O Senhor dos Anéis e n'O Hobbit e todo o substrato histórico-mitológico destas obras, mais elaboradas enquanto tal, é aqui bastante desenvolvido. Imagino que, para um verdadeiro fã, ler este livro seja como abrir uma arca de tesouro e remexer entre moedas, colares e anéis reluzentes. Mas eu não sou fã de Tolkien. O mundo que criou não me fascina, há nele subjacente uma filosofia conservadora, ludita, que colide de frente com a minha forma de encarar o mundo. Se consigo compreender que, para um fã, possa ser uma delícia desenterrar minúcias e estabelecer ligações entre um episódio e outro, e entre estes e os livros principais, a verdade é que para mim não é. Eu poderia gostar desta história se ela realmente funcionasse como história. Mas não me parece que funcione. Ao contrário dos textos anteriores do livro, que imitavam eficazmente mitos da criação, e funcionavam enquanto textos literários precisamente por causa desse mimetismo, que ia dos temas gerais à toada da linguagem e ao caráter poético do texto, o Quenta Silmarillion é um texto híbrido e indefinido. Aqui parece um relato histórico, ali já toma tons de mitologia, acolá é como um conto, com enredo e diálogos e um fio condutor mais sólido.
E depois, há todos aqueles nomes. Que me perdoem os fãs, que provavelmente encaram com prazer e antecipação cada viagem ao glossário para descortinar que nome é aquele, quem é, onde fica, se é nome élfico ou humano, e desenterrar mais uma pitadinha de história, mas a mim falta por completo a paciência para passar toda a leitura para trás e para a frente, aos saltos entre história e glossário. Toda a leitura, pois as referências aos mais díspares locais e personagens são uma constante ao longo de todo o texto. E há trechos em que isso se agrava. Há trechos do Quenta Silmarillion que, para mim, são uma insuportável e impenetrável floresta de nomes, todos semelhantes uns aos outros, com as suas terminações em -on, -ir ou -in. Sim, bem sei que Tolkien era linguista e que em termos linguísticos faz todo o sentido haver coerência nas terminações. Mas com tantos nomes, tão empilhados uns em cima dos outros (metaforicamente, pois há parágrafos que contêm um ou dois nomes por linha, mas também literalmente, visto que há personagens e regiões designadas por dois e três nomes, inteiramente diferentes uns dos outros), essa coerência redunda em confusão.
Creio que se nota demasiado que o Quenta é composto por uma mistura de notas destinadas à construção do mundo ficcional em que Tolkien ambientou as suas histórias e de esboços pouco detalhados de histórias que nunca chegou a escrever. Que é um texto cujo principal objetivo era a orientação (e o divertimento) do escritor, não a divulgação pública. Que, provavelmente, fazia muito mais sentido para o próprio Tolkien do que fará para qualquer dos seus leitores; sei por experiência própria que, por mais notas que quem escreve faça sobre os universos ficcionais que cria, boa parte do que liga e dá sentido a essas notas nunca chega a sair da cabeça. Por isso houve alguns episódios de que quase gostei, mas em geral, do todo, não consegui gostar.
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sexta-feira, 25 de maio de 2012
Lido: Titus: O Herdeiro de Gormenghast
Titus: O Herdeiro de Gormenghast (bib.) é um longo romance de Mervyn Peake, cujo qualificativo mais acertado é bizarro. Titus é, como o título português explica logo à partida, o herdeiro do Conde Sepulchrave Groan, e o seu nascimento, a par do aparecimento de um jovem arrivista cínico e sem escrúpulos, vai abalar a imutável rotina da vida do castelo de Gormenghast e respetivos domínios. Este é um imenso e surreal labirinto de pedra, uma caricatura de castelo que ultrapassou em muito as proporções normais. E é habitado por uma fauna humana não menos caricatural e surreal, disforme de corpo, espírito e atitudes. Um cozinheiro imensamente gordo, imensamente nojento, o seu arqui-inimigo, imensamente magro, com membros de aranhiço, duas gémeas deficientes mentais e incapazes de expressar emoções, seja com os rostos, seja com as vozes, um médico que só consegue falar com discursos convolutos e intercalados de gargalhadinhas, a condessa que por nada se interessa a não ser gatos e pássaros, e etc. E etc. E etc.
Tudo isto é descrito com uma riqueza de pormenores também ela bizarra, e de tal forma excessiva que, ao longo das densas 400 e tal páginas que o livro comporta é pouco o que acontece. Subtraindo a este volume as elaboradas descrições que contém, será fácil não ultrapassar 50 páginas, e será com dificuldade que se chegará às 100. É provável, porque é possível entrevê-lo aqui e ali, que essa riqueza de detalhe descritivo corresponda no original a uma riqueza semelhante no tratamento dado à língua inglesa. Mas a sensação que fica ao ler a edição portuguesa é que para lhe fazer realmente justiça a tradução teria de ser impecável, exemplar. E não é.
Valerá a pena falar da história? Esta parece ser aquilo que menos importa a Peake. Embora a personagem titular seja o herdeiro, apesar do livro começar praticamente com o seu nascimento, este pouco aparece, e na verdade pouca relevância tem no relativamente escasso enredo do livro. O verdadeiro protagonista (além do castelo propriamente dito, entenda-se), quem faz avançar a história, é Steerpike, o tal canalha sem escrúpulos que vai manipulando tudo e todos para ir subindo na rígida hierarquia do castelo. E, basicamente, a história resume-se a isso: o que Steerpike faz, com quem fala, que cordelinhos manipula, com quem trava amizades de conveniência, quem apunhala pelas costas, figurativamente falando, sim, mas não só.
Assim descrito, Steerpike soa a um daqueles vilões simpáticos e com frequência verosímeis que muitos leitores adoram odiar. Mas desengane-se quem esperar encontrar algo de credível ou verosímil neste livro. As personagens são de tal forma distorcidas que nelas muito pouco resta de humano. Os locais, as tradições, tudo, enfim, como que tem embutido um daqueles espelhos de feira, que criam versões aberrantes do que é refletido. Por conseguinte, leitores que precisem de descobrir alguma forma de identificação com as personagens terão a vida difícil, quando não mesmo impossível. Duvido que algum destes leitores consiga gostar deste livro, por mais que se esforce. Outros, os que se deliciam com descrições, aqueles para os quais o surrealismo é uma virtude, os fãs de coisas bizarras, provavelmente gostarão.
Se eu gostei? Não. A leitura deste livro foi-me francamente penosa. Terminei-o por pura teimosia, e por saber que por vezes há surpresas agradáveis no fim dos livros. Já tive algumas. Mas não foi aqui o caso, embora sensivelmente a partir de meio as coisas melhorem um pouco e comecem finalmente a acontecer algumas... bem... coisas. Contudo, fiquei na dúvida sobre qual teria sido a minha reação se tivesse lido o livro em inglês. Acho provável que tivesse gostado bastante mais dele, muito embora nunca pudesse chegar sequer perto de se tornar um dos meus livros preferidos. É demasiado... poeirento.
Este livro foi comprado.
Tudo isto é descrito com uma riqueza de pormenores também ela bizarra, e de tal forma excessiva que, ao longo das densas 400 e tal páginas que o livro comporta é pouco o que acontece. Subtraindo a este volume as elaboradas descrições que contém, será fácil não ultrapassar 50 páginas, e será com dificuldade que se chegará às 100. É provável, porque é possível entrevê-lo aqui e ali, que essa riqueza de detalhe descritivo corresponda no original a uma riqueza semelhante no tratamento dado à língua inglesa. Mas a sensação que fica ao ler a edição portuguesa é que para lhe fazer realmente justiça a tradução teria de ser impecável, exemplar. E não é.
Valerá a pena falar da história? Esta parece ser aquilo que menos importa a Peake. Embora a personagem titular seja o herdeiro, apesar do livro começar praticamente com o seu nascimento, este pouco aparece, e na verdade pouca relevância tem no relativamente escasso enredo do livro. O verdadeiro protagonista (além do castelo propriamente dito, entenda-se), quem faz avançar a história, é Steerpike, o tal canalha sem escrúpulos que vai manipulando tudo e todos para ir subindo na rígida hierarquia do castelo. E, basicamente, a história resume-se a isso: o que Steerpike faz, com quem fala, que cordelinhos manipula, com quem trava amizades de conveniência, quem apunhala pelas costas, figurativamente falando, sim, mas não só.
Assim descrito, Steerpike soa a um daqueles vilões simpáticos e com frequência verosímeis que muitos leitores adoram odiar. Mas desengane-se quem esperar encontrar algo de credível ou verosímil neste livro. As personagens são de tal forma distorcidas que nelas muito pouco resta de humano. Os locais, as tradições, tudo, enfim, como que tem embutido um daqueles espelhos de feira, que criam versões aberrantes do que é refletido. Por conseguinte, leitores que precisem de descobrir alguma forma de identificação com as personagens terão a vida difícil, quando não mesmo impossível. Duvido que algum destes leitores consiga gostar deste livro, por mais que se esforce. Outros, os que se deliciam com descrições, aqueles para os quais o surrealismo é uma virtude, os fãs de coisas bizarras, provavelmente gostarão.
Se eu gostei? Não. A leitura deste livro foi-me francamente penosa. Terminei-o por pura teimosia, e por saber que por vezes há surpresas agradáveis no fim dos livros. Já tive algumas. Mas não foi aqui o caso, embora sensivelmente a partir de meio as coisas melhorem um pouco e comecem finalmente a acontecer algumas... bem... coisas. Contudo, fiquei na dúvida sobre qual teria sido a minha reação se tivesse lido o livro em inglês. Acho provável que tivesse gostado bastante mais dele, muito embora nunca pudesse chegar sequer perto de se tornar um dos meus livros preferidos. É demasiado... poeirento.
Este livro foi comprado.
Lido: Manequins do Horror
Manequins do Horror (bib.) é o mais conhecido conto de terror de Robert Bloch. Colin, o protagonista, é um louco que vive internado num hospício, no qual se dedica a fazer pequenas esculturas de barro como terapia ocupacional. Pequenas esculturas obsessivamente detalhadas de corpos humanos, completas com órgãos internos, vasos sanguíneos, tudo. Mas quando os médicos decidem que aquela terapia ocupacional talvez não esteja a ter o resultado pretendido e tentam acabar com ela, as coisas precipitam-se. É um conto muito bem concebido, inspirado nos velhos mitos judaicos sobre golems, e constrói com grande eficácia um crescendo de tensão até ao desenlace final, adequadamente horrível e não tão previsível como a princípio se poderá supor. Embora já tenha lido histórias com vários pontos de contacto com esta, creio que nenhuma é mais antiga (esta data de 1937) e em nenhuma o aumento de tensão ao longo do conto está tão bem conseguido. Gostei.
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Steampunk: o que há num nome?
Andei muito tempo com cócegas para escrever um post sobre o que raio é, ao certo, o steampunk, mas a preguiça falta de tempo livre falou mais alto. Hoje, contudo, conjugaram-se dois acontecimentos que me libertaram um pouco os dedos e a massa cinzenta: acabei a última tradução (guardem os foguetes, que ainda me falta revê-la) e apareceu-me nos feeds um link para uma página que mostra fotografias de umas tais "esculturas de aranha steampunk". Deixando de parte o desconfortável facto de algumas das ditas aranhas terem seis patas em vez das oito que são de praxe em qualquer aracnídeo que se preze (a única exceção é o Homem-Aranha, mas isso é, suponho, por ser um híbrido... e sim, estou a gozar), a questão é que várias dessas esculturas são apenas bonecos articulados, sem rigorosamente nada que faça lembrar por mais remotamente que seja o steampunk... a não ser que, agora, tudo quanto seja mecânico tenha obrigatoriamente de levar com o rótulo de steampunk na testa.
E bem sei que este post não vai servir de nada. Bem sei que a força de quem encara o steampunk como uma simples estética e não vai mais fundo do que isso é irresistível. Bem sei que para a grande maioria steampunk é latão, couro, goggles e rodas dentadas e disso não passa. Mas como o facto de saber que para muita gente ficção científica é Star Wars e Star Trek nunca me desencorajou de tentar explicar que não é, não será uma coisa tão insignificante como a força dos números que me demoverá de explicar o que eu acho que steampunk realmente é.
Para isso, mergulhemos num pouco de história.
O termo, inicialmente, pretendeu ser uma paródia sem mais pretensões. Parodiava o ciberpunk (daí o elemento "punk" no nome), e foi inicialmente usado para identificar um conjunto restrito de obras algo limítrofes entre a FC e a fantasia, que tinham em comum ambientar-se em versões alteradas da era vitoriana e serem inspiradas pelo trabalho de grandes autores de ficção científica do século XIX e do início do século XX, em particular Júlio Verne e H. G. Wells. Mas o livro que pôs o termo nas bocas do mundo e que, a meu ver, definiu uma versão algo mais "pura" de steampunk foi The Difference Engine, de Bruce Sterling e William Gibson, não por acaso dois dos principais cultores do ciberpunk.
Ora, The Difference Engine é em vários aspetos diferente das obras a que o termo foi inicialmente aplicado. Trata-se de um romance de história alternativa sem elementos fantasiosos, que postula um desenvolvimento mais precoce de certas tecnologias e desenvolve as consequências que esse desenvolvimento teria sobre a sociedade da época. Da época vitoriana, sim, mas parece-me mais relevante pensar nela como a época do vapor, na qual as tecnologias que seriam predominantes a partir do século XX estavam apenas no começo. Afinal, o género chama-se steampunk, não victorianpunk.
E é aqui que o steampunk que me interessa realmente vai beber, à abordagem seguida por Sterling e Gibson. Encolho os ombros à estética, viro costas aos corpetes e estou-me nas tintas para o período concreto em que as histórias se passam. Interessam-me duas coisas: a predominância do vapor no que faz mover (literalmente) a sociedade e uma abordagem de história alternativa na qual a precocidade do desenvolvimento tecnológico é fundamental. Ou, por outras palavras, interessa-me que as histórias sejam retrofuturistas e movidas a vapor.
Sim, histórias retrofuturistas e movidas a vapor, se tiverem como cenário a esfera anglófona, acabam por cair com grande frequência na época vitoriana. Acabam por obedecer à tal estética dominada por couro e latão, cheia de cartolas e goggles e maquinaria com os mecanismos visíveis do exterior. Mas, para mim, isso é mera consequência, não o centro da coisa. Até porque se o fosse limitaria o steampunk à esfera anglófona e condenaria quem quer escrever histórias steampunk na esfera lusófona a macaquear o que os outros fazem e/ou a ambientá-las em territórios de língua inglesa ou em mundos dominados pelo Império Britânico.
Sim, esse é um caminho possível. Porque não? Mas, por outro lado, porque raio haveremos de estar limitados a ele?
Como seria uma revolução industrial com início na esfera lusófona, por exemplo? Seria certamente movida a vapor, porque era essa a única fonte energética disponível para revolucionar os meios de produção antes do século XIX. E aqui, nestas duas frases que esboçam um cenário de história alternativa (ou, na verdade, muitos cenários possíveis), reside toda a ideia steampunk tal como foi redefinida por The Difference Engine: temos o retrofuturismo de uma revolução industrial precoce e deslocada no espaço, e temo-la movida a vapor. Mas há algumas coisas que não temos.
Não temos, por exemplo, nada de vitoriano. Com uma revolução industrial nossa, todos os equilíbrios de poder na Europa seriam bem diferentes. A importância do Império Britânico reduzir-se-ia, e uma rainha Vitória, se chegasse a existir, teria muito menos impacto do que teve na história real, e um impacto bem mais restrito à esfera anglófona. As modas seriam diferentes, porque seria um país de clima mais quente a servir-lhes de motor; a própria tecnologia também, pois esta depende não só do período histórico, como dos materiais disponíveis para serem manuseados. Ou seja, toda a estética seria bem diferente... mas o ambiente seria na mesma steampunk. Porque é retrofuturista. E porque a tecnologia predominante é o vapor. Ponto.
E é por isso que me parece um erro que se centre a definição de steampunk em coisas tão volúveis como a estética ou em períodos históricos concretos, o vitoriano ou outro qualquer. A do steampunk ou a de qualquer outro subgénero retrofuturista. Centremo-las na tecnologia dominante. E demos aos autores a liberdade de inovar, não os tentemos cerrar em estreitas baias espaçotemporais.
Porque, se por um lado é verdade que não é o género que determina aquilo que é escrito, por outro não é menos verdade que é muitas vezes o género que determina aquilo que é publicado, e onde, especialmente nos dias que correm, em que as oportunidades de publicação de ficção curta estão muito ligadas a antologias temáticas. Por mais livres que os escritores queiram ser, acabam por ter de se resignar a seguir o tema proposto, ou pura e simplesmente a renunciar à participação. E se isso é por vezes inevitável, no caso dos vários "punks" retrofuturistas não é. Basta seguir o caminho desbravado por Gibson e Sterling.
Sigamo-lo, pois.
E bem sei que este post não vai servir de nada. Bem sei que a força de quem encara o steampunk como uma simples estética e não vai mais fundo do que isso é irresistível. Bem sei que para a grande maioria steampunk é latão, couro, goggles e rodas dentadas e disso não passa. Mas como o facto de saber que para muita gente ficção científica é Star Wars e Star Trek nunca me desencorajou de tentar explicar que não é, não será uma coisa tão insignificante como a força dos números que me demoverá de explicar o que eu acho que steampunk realmente é.
Para isso, mergulhemos num pouco de história.
O termo, inicialmente, pretendeu ser uma paródia sem mais pretensões. Parodiava o ciberpunk (daí o elemento "punk" no nome), e foi inicialmente usado para identificar um conjunto restrito de obras algo limítrofes entre a FC e a fantasia, que tinham em comum ambientar-se em versões alteradas da era vitoriana e serem inspiradas pelo trabalho de grandes autores de ficção científica do século XIX e do início do século XX, em particular Júlio Verne e H. G. Wells. Mas o livro que pôs o termo nas bocas do mundo e que, a meu ver, definiu uma versão algo mais "pura" de steampunk foi The Difference Engine, de Bruce Sterling e William Gibson, não por acaso dois dos principais cultores do ciberpunk.
Ora, The Difference Engine é em vários aspetos diferente das obras a que o termo foi inicialmente aplicado. Trata-se de um romance de história alternativa sem elementos fantasiosos, que postula um desenvolvimento mais precoce de certas tecnologias e desenvolve as consequências que esse desenvolvimento teria sobre a sociedade da época. Da época vitoriana, sim, mas parece-me mais relevante pensar nela como a época do vapor, na qual as tecnologias que seriam predominantes a partir do século XX estavam apenas no começo. Afinal, o género chama-se steampunk, não victorianpunk.
E é aqui que o steampunk que me interessa realmente vai beber, à abordagem seguida por Sterling e Gibson. Encolho os ombros à estética, viro costas aos corpetes e estou-me nas tintas para o período concreto em que as histórias se passam. Interessam-me duas coisas: a predominância do vapor no que faz mover (literalmente) a sociedade e uma abordagem de história alternativa na qual a precocidade do desenvolvimento tecnológico é fundamental. Ou, por outras palavras, interessa-me que as histórias sejam retrofuturistas e movidas a vapor.
Sim, histórias retrofuturistas e movidas a vapor, se tiverem como cenário a esfera anglófona, acabam por cair com grande frequência na época vitoriana. Acabam por obedecer à tal estética dominada por couro e latão, cheia de cartolas e goggles e maquinaria com os mecanismos visíveis do exterior. Mas, para mim, isso é mera consequência, não o centro da coisa. Até porque se o fosse limitaria o steampunk à esfera anglófona e condenaria quem quer escrever histórias steampunk na esfera lusófona a macaquear o que os outros fazem e/ou a ambientá-las em territórios de língua inglesa ou em mundos dominados pelo Império Britânico.
Sim, esse é um caminho possível. Porque não? Mas, por outro lado, porque raio haveremos de estar limitados a ele?
Como seria uma revolução industrial com início na esfera lusófona, por exemplo? Seria certamente movida a vapor, porque era essa a única fonte energética disponível para revolucionar os meios de produção antes do século XIX. E aqui, nestas duas frases que esboçam um cenário de história alternativa (ou, na verdade, muitos cenários possíveis), reside toda a ideia steampunk tal como foi redefinida por The Difference Engine: temos o retrofuturismo de uma revolução industrial precoce e deslocada no espaço, e temo-la movida a vapor. Mas há algumas coisas que não temos.
Não temos, por exemplo, nada de vitoriano. Com uma revolução industrial nossa, todos os equilíbrios de poder na Europa seriam bem diferentes. A importância do Império Britânico reduzir-se-ia, e uma rainha Vitória, se chegasse a existir, teria muito menos impacto do que teve na história real, e um impacto bem mais restrito à esfera anglófona. As modas seriam diferentes, porque seria um país de clima mais quente a servir-lhes de motor; a própria tecnologia também, pois esta depende não só do período histórico, como dos materiais disponíveis para serem manuseados. Ou seja, toda a estética seria bem diferente... mas o ambiente seria na mesma steampunk. Porque é retrofuturista. E porque a tecnologia predominante é o vapor. Ponto.
E é por isso que me parece um erro que se centre a definição de steampunk em coisas tão volúveis como a estética ou em períodos históricos concretos, o vitoriano ou outro qualquer. A do steampunk ou a de qualquer outro subgénero retrofuturista. Centremo-las na tecnologia dominante. E demos aos autores a liberdade de inovar, não os tentemos cerrar em estreitas baias espaçotemporais.
Porque, se por um lado é verdade que não é o género que determina aquilo que é escrito, por outro não é menos verdade que é muitas vezes o género que determina aquilo que é publicado, e onde, especialmente nos dias que correm, em que as oportunidades de publicação de ficção curta estão muito ligadas a antologias temáticas. Por mais livres que os escritores queiram ser, acabam por ter de se resignar a seguir o tema proposto, ou pura e simplesmente a renunciar à participação. E se isso é por vezes inevitável, no caso dos vários "punks" retrofuturistas não é. Basta seguir o caminho desbravado por Gibson e Sterling.
Sigamo-lo, pois.
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quinta-feira, 24 de maio de 2012
Lido: Alefestra
Alefestra (bib.) é um conto curto de Bruce Holland Rogers que vai buscar inspiração à mitologia greco-romana para contar a história de Alefestra, uma antiga segunda lua que nos tempos antigos giraria em volta do nosso planeta, e portanto, como todos os objetos celestes do tempo, também uma deusa de direito próprio, que se terá apaixonado pela Terra e por isso se transformou em gente, ou talvez em espírito de beleza. É um bom conto, ternurento e ecológico, muito poético, mas não é dos meus preferidos, não sei bem porquê. Talvez por ser tão descritivo. Talvez por não fugir muito dos clichés das histórias baseadas em velhas lendas greco-romanas, que são numerosas e bastante exaustivas. Seja por que motivo for, tudo indica que esta história não me perdurará na memória.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Lido: A Peste Negra
A Peste Negra (bib.), conto fantástico de Gomes Leal, é uma daquelas histórias de que eu não consigo gostar nem com uma pistola apontada à cabeça. Romanticíssimo, pleno de sentimentalismo e frases de efeito que até poderão ser muito redondinhas, muito poéticas, mas nada adiantam para a história que aqui se conta, relata uma tragédia de faca e alguidar sobre um homem que se perde de amores por uma moribunda, atacada da peste negra do título, e depois como que absorve a doença, passando a levar consigo a tragédia para onde quer que vá. O desfecho, claro, é tenebroso, e portanto previsível mesmo tendo o autor tentado criar um final surpreendente.
Não, mil vezes não. Isto está mais ou menos precisamente nos antípodas do que me agrada ler. Quem tiver um gosto oposto ao meu é possível que adore.
Não, mil vezes não. Isto está mais ou menos precisamente nos antípodas do que me agrada ler. Quem tiver um gosto oposto ao meu é possível que adore.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Lido: Ensaio Sobre a Lucidez
Ensaio Sobre a Lucidez (bib.), é o primeiro (e julgo que único, se bem que, não os tendo ainda lido todos, não arrisque afirmá-lo) romance de José Saramago que funciona como sequela direta de uma obra anterior, ao ponto de apresentar algumas das mesmas personagens do Ensaio Sobre a Cegueira. Os acontecimentos deste livro desenrolam-se na mesma cidade, capital de um país imaginário com inquietantes semelhanças com Portugal, alguns anos depois dos do primeiro Ensaio, e há, entre os dois, uma relação quase de yin-yang, que aliás já está expressa nos próprios títulos. A cegueira branca do primeiro livro é aqui substituída por outro tipo de brancura, a brancura do voto, provocada por uma generalizada recusa por parte do eleitorado em pactuar com uma classe política que não responde às suas ansiedades e desejos e por isso comparece em massa a uma eleição, não para votar num dos três partidos em compita (o PDE, da Esquerda, pequenino, o PDM, do Meio, grande mas minoritário, e o PDD, da Direita, no governo), mas para lhes voltar costas, votando em branco.
A primeira parte do romance mostra a perplexidade dos governantes com o que está a acontecer, e é, a meu ver, a parte menos interessante. Mas quando o governo decide, como forma de punir os habitantes da capital, abandoná-la, retirando-se não só a si, mas a todos os instrumentos de autoridade do Estado, deixando-a isolada, entregue a si própria (embora mantendo-a fornecida dos produtos e serviços necessários à vida quotidiana), o romance começa a ganhar interesse, e maior ele se torna quando sobe à ribalta um grupo de três polícias, encarregados de investigar o grupo que o Ensaio Sobre a Cegueira acompanhou, depois de um dos membros desse grupo ter denunciado os restantes por intermédio de uma carta onde insinuava que eles seriam responsáveis pela "epidemia" de votos em branco.
O resultado é que este romance vai em crescendo, do início ao fim, e, na verdade, as páginas mais tremendas, mais terríveis, mais bem conseguidas, são as últimas. É uma alegoria fantástica, claro. Já o Ensaio Sobre a Cegueira o era, embora pudesse perfeitamente ser também visto como um livro de ficção científica. Neste segundo Ensaio, contudo, o caráter alegórico acentua-se e a ligação à FC esmorece bastante. Se no primeiro Ensaio tudo era rigorosamente credível, se havia uma sensação de verosimilhança em tudo o que era descrito, se a cegueira branca, cuja origem nunca é explicada, se espalha com a clássica propagação de qualquer epidemia, neste segundo Ensaio não. Aqui, temos um sobressalto cívico em que participa de forma espontânea uma parcela significativa da população. Ora, se é credível que uma epidemia de origem desconhecida se espalhe como é próprio das epidemias espalhar-se, se é mesmo credível que essa epidemia se cure sozinha depois da doença chegar ao fim do seu ciclo, como acontece a qualquer doença benigna, já não parece nada verosímil que oitenta porcento da população de uma cidade decida de um momento para o otro voltar costas à sua classe política e votar em branco. Porque nada separa mais as pessoas umas das outras do que as ideias que têm na cabeça. E porque estas têm muitas vezes raízes suficientemente profundas para resistirem até à mais óbvia das evidências.
E esta inveromilhança básica, parece-me, mina todo o romance e reduz o impacto que ele poderia ter. Porque Saramago pretende mostrar como um regime na aparência democrático tem no seu seio as raízes do totalitarismo, como os líderes, privados da autoridade convencional que o voto confere, facilmente resvalam para a autoridade da força, como a decência corre riscos fatais quando confrontada com canalhas. E mostra, com eficácia crescente ao longo do romance. Mas a inverosimilhança da base, do início de tudo, faz com que o leitor encare o resto com dúvidas. Se o que dá origem ao romance não permite suspender a descrença com eficácia, mais difícil se torna suspendê-la com o resto. E isso, a meu ver, diminui o impacto do livro. Diminui a sua eficácia enquanto questionamento da realidade em que vivemos.
Por outro lado, a partir de uma certa altura os acontecimentos vão-se desenrolando com a inexorabilidade de um acidente ferroviário, e o comissário de polícia que se transforma em protagonista é uma das grandes personagens de Saramago. A segunda metade do livro é, realmente, muito boa, e o final, então, é soberbo. Ensaio Sobre a Lucidez não será dos melhores livros do seu autor, e decididamente não é um romance perfeito. Mas é um bom livro. Poderia ser melhor? Julgo que sim. Mas é bom.
Este livro foi comprado.
A primeira parte do romance mostra a perplexidade dos governantes com o que está a acontecer, e é, a meu ver, a parte menos interessante. Mas quando o governo decide, como forma de punir os habitantes da capital, abandoná-la, retirando-se não só a si, mas a todos os instrumentos de autoridade do Estado, deixando-a isolada, entregue a si própria (embora mantendo-a fornecida dos produtos e serviços necessários à vida quotidiana), o romance começa a ganhar interesse, e maior ele se torna quando sobe à ribalta um grupo de três polícias, encarregados de investigar o grupo que o Ensaio Sobre a Cegueira acompanhou, depois de um dos membros desse grupo ter denunciado os restantes por intermédio de uma carta onde insinuava que eles seriam responsáveis pela "epidemia" de votos em branco.
O resultado é que este romance vai em crescendo, do início ao fim, e, na verdade, as páginas mais tremendas, mais terríveis, mais bem conseguidas, são as últimas. É uma alegoria fantástica, claro. Já o Ensaio Sobre a Cegueira o era, embora pudesse perfeitamente ser também visto como um livro de ficção científica. Neste segundo Ensaio, contudo, o caráter alegórico acentua-se e a ligação à FC esmorece bastante. Se no primeiro Ensaio tudo era rigorosamente credível, se havia uma sensação de verosimilhança em tudo o que era descrito, se a cegueira branca, cuja origem nunca é explicada, se espalha com a clássica propagação de qualquer epidemia, neste segundo Ensaio não. Aqui, temos um sobressalto cívico em que participa de forma espontânea uma parcela significativa da população. Ora, se é credível que uma epidemia de origem desconhecida se espalhe como é próprio das epidemias espalhar-se, se é mesmo credível que essa epidemia se cure sozinha depois da doença chegar ao fim do seu ciclo, como acontece a qualquer doença benigna, já não parece nada verosímil que oitenta porcento da população de uma cidade decida de um momento para o otro voltar costas à sua classe política e votar em branco. Porque nada separa mais as pessoas umas das outras do que as ideias que têm na cabeça. E porque estas têm muitas vezes raízes suficientemente profundas para resistirem até à mais óbvia das evidências.
E esta inveromilhança básica, parece-me, mina todo o romance e reduz o impacto que ele poderia ter. Porque Saramago pretende mostrar como um regime na aparência democrático tem no seu seio as raízes do totalitarismo, como os líderes, privados da autoridade convencional que o voto confere, facilmente resvalam para a autoridade da força, como a decência corre riscos fatais quando confrontada com canalhas. E mostra, com eficácia crescente ao longo do romance. Mas a inverosimilhança da base, do início de tudo, faz com que o leitor encare o resto com dúvidas. Se o que dá origem ao romance não permite suspender a descrença com eficácia, mais difícil se torna suspendê-la com o resto. E isso, a meu ver, diminui o impacto do livro. Diminui a sua eficácia enquanto questionamento da realidade em que vivemos.
Por outro lado, a partir de uma certa altura os acontecimentos vão-se desenrolando com a inexorabilidade de um acidente ferroviário, e o comissário de polícia que se transforma em protagonista é uma das grandes personagens de Saramago. A segunda metade do livro é, realmente, muito boa, e o final, então, é soberbo. Ensaio Sobre a Lucidez não será dos melhores livros do seu autor, e decididamente não é um romance perfeito. Mas é um bom livro. Poderia ser melhor? Julgo que sim. Mas é bom.
Este livro foi comprado.
domingo, 13 de maio de 2012
Lido: O Último Parente de Justino
O Último Parente de Justino (bib.) é uma vinheta de Jaime Rocha que, tirando o fim, me agradou bastante. Justino, o protagonista, sofre de uma estranha enfermidade: passa catatónico a maior parte do tempo, regressando à vida e atvidade normais, durante breves períodos, apenas quando lhe morre um parente. Assim vai sobrevivendo durante gerações, nessa espécie de vida intermitente movida a morte, até que se lhe acaba a família direta. E é então que se dá o desfecho. É uma ideia curiosa, que me pareceu bem executada (exceto o final, que achei demasiado abrupto), embora o conto me pareça mais fantástico do que propriamente de terror. Mas isso não passa de taxonomia. Gostei.
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sábado, 12 de maio de 2012
Lido: Melros de Asa Vermelha
Melros de Asa Vermelha (bib.) é uma belíssima vinheta fantástica de Bruce Holland Rogers, a qual descreve o surgimento de uma espécie de melro norte-americano, cujos machos são negros com asas vermelhas (daí o nome) e cujas fêmeas são simplesmente castanhas, a partir da mais inesperada das origens: corações humanos que, fartos de viverem abafados no mundo empresarial da sociedade moderna, resolvem sair dos peitos, ganhar vida própria.
Foi muito curiosa a coincidência de ler esta história logo a seguir à do Yoss, com a qual há tantos paralelos. E Rogers sai-se muito melhor, julgo que em boa parte por ter escolhido a abordagem certa. Esta historinha é uma delícia.
Foi muito curiosa a coincidência de ler esta história logo a seguir à do Yoss, com a qual há tantos paralelos. E Rogers sai-se muito melhor, julgo que em boa parte por ter escolhido a abordagem certa. Esta historinha é uma delícia.
Lido: El Efecto Cibeles
El Efecto Cibeles é um bizarro conto de ficção científica do cubano Yoss. Muito contado e pouco mostrado, violando assim um mandamento sagrado para alguns leitores (não este; este tende a preferir os mostrados mas não desdenha um bom contado de vez em quando), o conto traça uma situação de cataclismo anunciado, que possivelmente terá na génese mão alienígena, embora haja explicações alternativas.
E que situação é essa?
Bem... é uma estranhíssima doença que faz com que aos afetados caiam os órgãos genitais, externos e internos, da parte mecânica à gonadal. A queda só acontece quando os infelizes se aproximam de extensões de água, e depois de se verem de repente privados dos pénis e testículos, ou das vaginas, úteros e ovários, mais respetivos canais de ligação, caem num coma ao qual, dias mais tarde, se segue a morte. Quanto ao aparelho sexual, esse, ganha vida autónoma e parte, lagos e oceanos fora, em busca de parceiros reprodutivos. Eu avisei que a coisa era bizarra. Só mesmo lendo, realmente.
Será um bom conto? Um mau conto? Bem, eu gosto de como o Yoss escreve. Gosto do estilo, gosto do ritmo. Neste conto gosto da ironia. Mas também acho que às vezes exagera. E se calhar também usa por vezes as técnicas do género errado para as histórias que quer contar. Esta ideia, por exemplo, talvez ganhasse se não tivesse sido revestida de ficção científica. Daria um bom conto surrealista, absurdista, de um fantástico mais tradicional. Mas ficção científica? Não me parece.
E que situação é essa?
Bem... é uma estranhíssima doença que faz com que aos afetados caiam os órgãos genitais, externos e internos, da parte mecânica à gonadal. A queda só acontece quando os infelizes se aproximam de extensões de água, e depois de se verem de repente privados dos pénis e testículos, ou das vaginas, úteros e ovários, mais respetivos canais de ligação, caem num coma ao qual, dias mais tarde, se segue a morte. Quanto ao aparelho sexual, esse, ganha vida autónoma e parte, lagos e oceanos fora, em busca de parceiros reprodutivos. Eu avisei que a coisa era bizarra. Só mesmo lendo, realmente.
Será um bom conto? Um mau conto? Bem, eu gosto de como o Yoss escreve. Gosto do estilo, gosto do ritmo. Neste conto gosto da ironia. Mas também acho que às vezes exagera. E se calhar também usa por vezes as técnicas do género errado para as histórias que quer contar. Esta ideia, por exemplo, talvez ganhasse se não tivesse sido revestida de ficção científica. Daria um bom conto surrealista, absurdista, de um fantástico mais tradicional. Mas ficção científica? Não me parece.
Lido: A Erva Vermelha
A Erva Vermelha (bib.), de Boris Vian, é um daqueles romances dificilmente classificáveis com que de vez em quando nos deparamos. Trata-se de um romance bastante curto, cujo protagonista é Wolf, uma espécie de engenheiro que constrói ou opera uma máquina que viaja no tempo, aparentemente não o físico mas pelo menos o psíquico, o tempo mental, subjetivo, existente na cabeça de cada um de nós, e que tem como objetivo apagar recordações.
Ficção científica?
O ambiente geral, o cenário, é, realmente, de ficção científica. Wolf vive numa sociedade futurista, e viaja por uma série de realidades subjetivas com grandes semelhanças com as realidades virtuais que tão bem conhecemos do ciberpunk e de obras correlatas. Até está presente a indefinição entre o que é real e o que não é, tão comum na obra de Philip K. Dick e noutra FC mais recente. E isto é de assinalar, em especial tendo em conta que o original deste livro data de 1950.
No entanto, o romance afasta-se claramente da FC quando o olhamos mais de perto. O caráter difuso da trama, o modo como o autor se intromete por vezes nela explanando preocupações próprias, ultrapassando personagens e até a própria trama e substituindo-se a elas, o surrealismo sem peias de longos trechos, aqueles diálogos indiretos, muito à francesa, que quem tenha assistido a filmes franceses dos anos 50 e 60 certamente conhece bem, tudo isso afasta este livro da FC, e principalmente da FC americana que se fazia na época.
E isso é bom? Mau?
A resposta depende, obviamente, dos leitores. Este que aqui escreve tem de confessar que não saiu da leitura impressionado. Tentei gostar, fiz um esforço honesto, mas as preocupações e as iconoclastias do Boris Vian dos anos 50 estão demasiado coladas ao seu tempo para resultarem comigo, nesta segunda década do século XXI (o meu pai teria certamente gostado mais deste livro do que eu, só por causa disto). As iconoclastias já há muito não o são, e, não o sendo, salta demasiado à vista o que o surgimento delas na história tem de artificial. Nunca se chega a perceber porque quer o bom do Wolf deitar as memórias fora e uma das coisas que me parecem mais interessantes nesse ato, isto é, a exploração de até que ponto ao deitar as memórias fora não estará a deitar-se a si próprio, a deixar de ser ele mesmo, nem sequer é abordada. Há sexo, talvez escandaloso em 1950, mas hoje quase puritano. Gastam-se páginas e páginas a descrever a dinâmica de dois casais de namorados nos quais não encontrei interesse nenhum. E etc.
Fica a impressão de um livro escrito ao sabor das mutáveis marés do dia-a-dia, nos intervalos da boémia. De bocados de vida real nele enxertados sem que o autor tenha parado para pensar até que ponto fazem sentido no contexto em que os enfiou. De um puzzle de peças que não se ajustam bem umas às outras.
Haverá decerto quem goste. Eu, nem por isso.
Este livro foi comprado.
Ficção científica?
O ambiente geral, o cenário, é, realmente, de ficção científica. Wolf vive numa sociedade futurista, e viaja por uma série de realidades subjetivas com grandes semelhanças com as realidades virtuais que tão bem conhecemos do ciberpunk e de obras correlatas. Até está presente a indefinição entre o que é real e o que não é, tão comum na obra de Philip K. Dick e noutra FC mais recente. E isto é de assinalar, em especial tendo em conta que o original deste livro data de 1950.
No entanto, o romance afasta-se claramente da FC quando o olhamos mais de perto. O caráter difuso da trama, o modo como o autor se intromete por vezes nela explanando preocupações próprias, ultrapassando personagens e até a própria trama e substituindo-se a elas, o surrealismo sem peias de longos trechos, aqueles diálogos indiretos, muito à francesa, que quem tenha assistido a filmes franceses dos anos 50 e 60 certamente conhece bem, tudo isso afasta este livro da FC, e principalmente da FC americana que se fazia na época.
E isso é bom? Mau?
A resposta depende, obviamente, dos leitores. Este que aqui escreve tem de confessar que não saiu da leitura impressionado. Tentei gostar, fiz um esforço honesto, mas as preocupações e as iconoclastias do Boris Vian dos anos 50 estão demasiado coladas ao seu tempo para resultarem comigo, nesta segunda década do século XXI (o meu pai teria certamente gostado mais deste livro do que eu, só por causa disto). As iconoclastias já há muito não o são, e, não o sendo, salta demasiado à vista o que o surgimento delas na história tem de artificial. Nunca se chega a perceber porque quer o bom do Wolf deitar as memórias fora e uma das coisas que me parecem mais interessantes nesse ato, isto é, a exploração de até que ponto ao deitar as memórias fora não estará a deitar-se a si próprio, a deixar de ser ele mesmo, nem sequer é abordada. Há sexo, talvez escandaloso em 1950, mas hoje quase puritano. Gastam-se páginas e páginas a descrever a dinâmica de dois casais de namorados nos quais não encontrei interesse nenhum. E etc.
Fica a impressão de um livro escrito ao sabor das mutáveis marés do dia-a-dia, nos intervalos da boémia. De bocados de vida real nele enxertados sem que o autor tenha parado para pensar até que ponto fazem sentido no contexto em que os enfiou. De um puzzle de peças que não se ajustam bem umas às outras.
Haverá decerto quem goste. Eu, nem por isso.
Este livro foi comprado.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Lido: A Espada Encantada
A Espada Encantada (bib.) é um conto clássico de terror, de Rui Zink, que parte de uma história verdadeira de crime, provável loucura e violência e a ficciona recorrendo ao sobrenatural e ao apagamento da fronteira entre sonho e realidade. A história centra-se num rapaz que é atormentado por terrores noturnos provocados por um monstro, que aparentemente está relacionado com uma espada de brinquedo, do He-Man. A família, preocupada mas sem grande sensibilidade para as necessidades do filho, tenta resolver o problema o melhor que pode e sabe. Mas não é o suficiente, e tudo vai acabar mal.
É daqueles contos que se leem, não parecem maus, mas se depressa se esquecem, não causam impacto. Tem coisas que me pareceram bem feitas (o fim, por exemplo), mas também outras que me pareceram gratuitas e desnecessárias (por exemplo: o filho, a páginas tantas é levado a um psiquiatra, o qual como que é contagiado pelos pesadelos do rapaz, mas isto não parece ter nenhuma relevância para o desenlace da história) ou até contraproducentes (Rui Zink tem uma forte veia de humorista, e não parece ser capaz de evitar introduzir no que escreve pequenas notas irónicas... o que em geral está muito bem e só enriquece, mas quando se pretende que um texto tenha uma atmosfera pesada e terrorífica a ironia torna-se descabida). E está em geral bem escrito, apesar de algum excesso na adjetivação, em particular no início.
Ou seja: pareceu-me um conto mediano. Não mais do que isso.
Contos anteriores desta publicação:
É daqueles contos que se leem, não parecem maus, mas se depressa se esquecem, não causam impacto. Tem coisas que me pareceram bem feitas (o fim, por exemplo), mas também outras que me pareceram gratuitas e desnecessárias (por exemplo: o filho, a páginas tantas é levado a um psiquiatra, o qual como que é contagiado pelos pesadelos do rapaz, mas isto não parece ter nenhuma relevância para o desenlace da história) ou até contraproducentes (Rui Zink tem uma forte veia de humorista, e não parece ser capaz de evitar introduzir no que escreve pequenas notas irónicas... o que em geral está muito bem e só enriquece, mas quando se pretende que um texto tenha uma atmosfera pesada e terrorífica a ironia torna-se descabida). E está em geral bem escrito, apesar de algum excesso na adjetivação, em particular no início.
Ou seja: pareceu-me um conto mediano. Não mais do que isso.
Contos anteriores desta publicação:
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Lido: O Rico e a Bela
O Rico e a Bela (bib.) é mais uma pequena vinheta de Bruce Holland Rogers que só é fantástica na medida em que a exemplaridade da história lhe confere uma atmosfera de surrealismo e bizarria. Trata de um casal, ele rico, ela bela, que se juntam por isso mesmo, ele ser rico e ela bela, mas nunca se satisfazem, ela com a riqueza dele, ele com a beleza dela. Assim, vão-se incentivando vida fora a aumentar a riqueza do parceiro e a beleza da parceira, e acabam por se transformar em títeres sem vida própria, reduzidos às respetivas obsessões. É um continho que denuncia a superficialidade do que na vida não é importante, mas que depressa se torna previsível e não tem boa parte da habitual subtileza do autor. Acabei por isso por gostar, mas não muito.
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