segunda-feira, 6 de julho de 2009

Os meninos crescidos

Quando os meninos que ainda não são crescidos fazem asneiras, e estas chegam ao conhecimento dos pais, costumam defender-se apontando para o irmão e dizendo "foi ele". Julgam assim evitar o açoite ou o ir para a cama mais cedo, ou no mínimo obterem companheiro para a desgraça. Às vezes, esta estratégia resulta, e quando os meninos crescem nunca deixam de fazer isso, como bem temos visto, por exemplo, no caso BCP. Ficam assim uns meninos pequeninos em corpo de grande, e continuam a amuar e a dizer "foi ele", ainda que com mais sisudez e gravatas.

Mas há meninos que crescem mesmo. E parte desse crescimento revela-se na capacidade de assumir as asneiras que fazem.

Ao longo do último fim de semana fiz várias.

A primeira, maior e fundamental porque foi a que deu origem às outras foi não ter em nenhum momento parado para pensar "espera lá, rapaz, tu estás doente, com febre, dói-te o corpo, a cabeça e a garganta, sentes-te mal e estás irritável, não achas que devias deixar isto para mais tarde?" Se o tivesse feito, o mais certo seria não reagir quando o Seixas pôs no blogue que "o Jorge Candeias [se dedica] em exclusivo à tradução", como se o Bibliowiki e todo o trabalho que dá não existissem, como se não houvessem aqui mesmo neste blogue, todas as semanas, pequenas opiniões sobre aquilo que vou lendo, em boa parte literatura fantástica, como se não estivesse envolvido no Odisseias Fantásticas. O mais certo teria sido ignorar mais esta pequena provocação como mais uma. Afinal, até quando ele atacou directamente a credibilidade do Bibliowiki só reagi depois de haver insistência, e isso foi muito mais sério do que esta insidiazinha insignificante de há dias.

Mas não. Cometi primeiro a asneira de lhe dar troco e depois a de lhe dar troco duma forma contaminada pelo modo como eu próprio vejo a questão da propalada ausência de público para a FC. De facto, relendo o que ele escreveu agora que já me passou a febre tenho de admitir que "Eu acho espantoso que o Seixas se queixe da ausência de edição de FC em Portugal. Dir-se-ia que ele não tem uma editora..." (o conteúdo do meu tuíto) tem mais a ver com a minha opinião de que se a FC vende pouco é porque as nossas editoras ainda não encontraram forma de chegar aos leitores que andam por aí do que com o que ele realmente escreveu. Eu de facto penso que proclamar a inexistência de público é uma forma fácil de evitar ter o trabalho de o encontrar ou de tentar ocultar o falhanço na estratégia que se segue, quando existe alguma. E essa opinião contaminou de tal forma o modo como li o texto dele que, somando-se à irritação pela provocaçãozinha, e a uma irritação antiga com a Livros de Areia por ter feito aquele que é, de longe, o seu pior trabalho de edição com o único livro de FC que editou (é preciso ter olhos de águia para conseguir ler-se o livro), me levou a algum enviesamento no alvo do tuito. Neste ponto, e apenas neste ponto, o Seixas tem razão.

Seja como for, não me parece que haja alguma justificação para a tempestade que se seguiu, para a chuva de provocações e insultos, cada um mais insidioso do que o outro, e aí o meu maior erro foi ter continuado a alimentá-la, e tê-lo feito durante algum tempo no twitter, com mensagens que nos seus 140 caracteres nunca chegaram nem perto de conseguir transmitir por completo a minha opinião. A questão do amador/profissional, por exemplo, nasceu num tuíto em que eu me interrogava sobre qual era o objectivo da editora porque "ganhar dinheiro não seria", querendo com isto referir-me a dinheiro suficiente para que os editores se tornassem (lá está) profissionais, ou seja, vivessem primordialmente dessa actividade. Ao primeiro estrondo do trovão, devia ter transferido a conversa para o blogue onde tenho todo o espaço do mundo para explicar as minhas ideias até ao fim. Ou antes, devia ter esperado até ficar em condições, com a cabeça livre de febre, dores e comprimidos, para sustentar uma discussão complicada, cheia
de veneno desde o princípio, que só piorou quando o Seixas publicou esta coisa inqualificável, seguida por isto, igualmente inqualificável não tanto pelo desmascarar da desonestidade do Seixas, que assumo por completo e nenhum remorso me causa, mas pela forma completamente bronca como o fiz. Como disse nesse mesmo post, o que não deixa de encerrar uma triste ironia, é precisamente este tipo de merdas (não têm outro nome) que descredibiliza o género e os seus actores, e eu também ganhei para mim um lugarzinho na tal câmara de vácuo.

Prefiro é que seja numa diferente da que o Seixas ocupa, se não se importam. Só por causa cá duns quinhentos...

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