segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Lido: O Fim do Sr. Y

O Fim do Sr. Y (bib.), de Scarlett Thomas, é um romance fantástico sobre uma jovem com o curioso nome de Ariel Manto que mergulha numa estranha aventura através da qual vai acabar por conhecer a verdadeira natureza do Universo.

Tudo começa com um livro, intitulado, precisamente, O Fim do Sr. Y. Manto, que é uma personagem curiosa, polifacetada e até certo ponto contraditória (o que é um dos motivos de interesse do livro), é uma doutoranda e o objeto do seu doutoramento é um obscuro autor oitocentista, um tal Lumas, que terá escrito, entre outras obras, O Fim do Sr. Y, um livro maldito e dificílimo de encontrar porque (quase?) todos os seus exemplares foram destruídos. Segundo a lenda, quem ler este livro até ao fim desaparece sem deixar rasto... o que terá acontecido ao próprio Lumas, aliás.

E o que também aconteceu a Burlem, o orientador de doutoramento da protagonista, ele próprio estudioso de Lumas.

Previsivelmente, Manto encontra um exemplar do livro e, também previsivelmente, isso vai trazer-lhe problemas sérios. Mas a previsibilidade termina aí. O tipo de sarilhos em que ela se mete é inesperado, e toda a sequência da história a partir desse ponto também o é.

Este livro pode ser visto como ficção filosófica. São inúmeras as menções a filósofos pós-estruturalistas, em especial Derrida, Baudrillard e Heidegger, e as ideias que Thomas utiliza na conceção do seu universo ficcional parecem ter tudo a ver com o trabalho desses filósofos. Não sou competente para avaliar quão fielmente — a filosofia formal está longe de ser o meu forte. Mas, em resumo, quando Manto lê o livro de Lumas e decide experimentar uma receita homeopática que vem nas suas páginas e que dá acesso, segundo o livro afirma, a uma tal "Troposfera" que interliga todas as criaturas vivas, penetra numa espécie de universo paralelo que vai desvendando aos poucos e que se vai assemelhando cada vez mais a algo saído dos manuais da filosofia pós-moderna. A realidade, acaba Manto por descobrir, não passa de uma construção consensual da consciência, humana e não só. Com tudo o que isso implica.

Trata-se, também, de um romance com forte ligação à ficção científica, o que só surpreenderá quem ignorar como a melhor FC tende a ser profundamente filosófica, ainda que seja raro sê-lo de uma forma tão óbvia como neste livro. Há referências claras à série Matrix, por exemplo, e há mais que algo de dickiano nas peripécias de Manto e na própria filosofia subjacente à história. Afinal, a noção de que a realidade não é algo de fiável, antes está sujeita às contingências da consciência humana, é tão central na obra de Dick como neste livro. Incluindo o seu pendor místico; parte da filosofia que Thomas aqui usa vai ter ramificações religiosas relevantes.

O livro é concetualmente complexo, e é nas conceções que reside o seu inderesse principal. Literatura de ideias mais que de personagens ou de enredo, ainda que este e a protagonista estejam também bem conseguidos. As personagens secundárias são, pelo contrário, algo bidimensionais, o que não chega a constituir defeito, antes é característica. Afinal, todas elas são olhadas desde o ponto de vista da protagonista — o romance é narrado na primeira pessoa — e isso não permite grande exploração das profundezas ocultas das suas personalidades. Só mostram ao leitor o que a protagonista consegue ver, e assim é que deve ser numa narrativa construída desta forma.

Só não gostei particularmente dos MIUDOS. Sim, não me esqueci do caps lock ligado; é mesmo assim, em maiúsculas. São, com os homens que os controlam, os vilões da história, personalidades residuais geradas por um projeto americano ultra-secreto, que Thomas usa para fornecer um elemento de ameaça que não me pareceu realmente necessário nem bem ligado ao resto. Uma espécie de Agentes Smith do Matrix em versão menos transcendente. Não me convenceram. E, ao contrário da filosofia que também não me convenceu — muito longe disso — mas achei bastante bem trabalhada, deixaram-me com uma certa sensação de incompletude, de que falta neles qualquer coisa de importante.

À parte esse pormenor não tão menor assim, o livro é bastante bom. Surpreendeu-me pela positiva; quando peguei nele não estava à espera de algo tão profundo. E é sempre bom quando isso acontece.

Este livro foi comprado.

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