sábado, 22 de julho de 2017

Lido: O Rapaz do Tambor

Tal como acontece em A Lata de Conserva, de Mário Dionísio, neste conto de Fernando Namora a escolha do ponto de vista faz toda a diferença. Como na história de Dionísio, também aqui as duras realidades do mundo são apresentadas ao leitor com a subtileza de serem vistas por olhos ingénuos, ainda que essa ingenuidade não nasça do privilégio socioeconómico mas da infância. O Rapaz do Tambor é isso mesmo, um rapaz, cuja infância é ilustrada por um quadro marcial que a família tem em casa e no qual figura em posição de destaque um tambor. Esse tambor fá-lo sonhar (ao ponto de surgir uma tenuíssima sugestão de fantástico perto do início do conto, demasiado ténue para ter alguma relevância) e é com autêntico júbilo que recebe um tambor de presente.

Entretanto, quem não for totalmente ignorante da realidade histórica dos anos 50 portugueses vai percebendo algumas coisas que o rapaz do tambor não percebe. Vai percebendo que o pai é oposicionista, por exemplo, e tem em casa reuniões clandestinas com outros antifascistas. Percebe — mais cedo que o rapaz, que também acaba por perceber — que uma viagem que o pai faz não é viagem nenhuma mas uma temporada passada nos calabouços da PIDE. Percebe que um súbito ambiente de esperança e agitação perto do fim do conto é motivado pela candidatura presidencial de Humberto Delgado. Percebe, enfim, o contexto. Muitíssimo bem entregue, esse contexto.

E depois chega o fim, um violento murro no estômago do leitor, tão congruente com tudo o resto mas ainda assim surpreendente. Um fim que, sozinho, consegue transformar um conto francamente bom num grande conto. Sim, este é um grande conto.

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