domingo, 1 de agosto de 2010

Lido: Como é que o Ali Veio Para o País Negro

Se acham que Como é que o Ali Veio Para o País Negro é dos "tais" títulos, daqueles títulos que exalam um forte odor a Lorde Dunsany, pois acertaram em cheio. Trata-se de um conto bem mais sombrio do que a maioria dos outros, em que Dunsany mostra a sua veia ecológica e, como é infelizmente comum em muita gente dotada de tal veia, também mostra uma outra, a veia ludita. O Ali do título é um bruxo que vem da Pérsia para Inglaterra a fim de conter um demónio que anda a poluir os ares, os rios e os campos, o demónio do vapor. Mas a sua tarefa é dificultada por ser preciso primeiro convencer quem dele beneficia da necessidade de o conter. Sim, a parábola é clara, e é muitíssimo atual. Só acho pena que o ataque do escritor seja desferido contra a tecnologia como um todo, embora também ache compreensível que assim seja dado o que se sabia na época em que o conto foi escrito. Há praticamente cem anos ainda não estavam muito claros os tremendos benefícios que a tecnologia nos traria, embora já começassem a ver-se os também tremendos problemas que com eles viriam, e não havia nem sinal da tecnologia ecologicamente consciente que hoje se vai a pouco e pouco impondo, muito mais timidamente do que deveria. Neste contexto, o ludismo é natural, suponho. Mas lendo o conto hoje a ressonância com algumas opiniões contemporâneas mal informadas torna-se bastante incómoda.

sábado, 31 de julho de 2010

Lido: Sin Retorno

De regresso à tal página, encontramos no sexto lugar um mini-conto da mexicana Libia Brenda Castro R., intitulado Sin Retorno. É uma historinha de viagem do tempo com uma ideia interessante: a narradora viaja no tempo para assistir a certos acontecimentos de eras pretéritas, em trabalho naquilo que parece ser observação histórica, até que se vê confrontada, em final surpresa, com um efeito que não esperara. Se não seguiram o link para ir ler o conto e se zangam quando se vos conta o fim das histórias parem de ler isto agora mesmo. Estão avisados. OK? Já só temos entre nós os outros? Então pronto, cá vai. O efeito com que a protagonista não contara é que o tempo que passa nos seus estudos no passado, embora não pareça passar para quem permanece no presente, passa para o relógio biológico do seu corpo. Por outras palavras: ela envelhece a um ritmo mais acelerado do que os seus conhecidos. Interessante e bem executado.

Lido: Os Navegadores Solitários

Os Navegadores Solitários, apesar de incluir algumas referências à ficção científica, e até a afirmação de que o autor se gaba de alguma coisa saber sobre o género, é uma crónica de José Saramago totalmente destituída de ficção, científica ou não. É uma crónica realmente crónica na qual Saramago fala de dois tipos diferentes de navegadores solitários. Um desses tipos, aquele que aparece nos jornais e nas televisões, é composto pelos homens (e nos tempos atuais também cada vez mais mulheres) que se lançam ao mar sozinhos nas suas embarcações, a fim de tentarem ir do ponto A ao ponto B, e que geralmente se tornam notícia quando por qualquer motivo se deixa de saber deles. O outro, com quem Saramago faz o paralelo e o contraste, é bem diferente. Navegadores solitários que navegam no mar urbano e a quem ninguém liga, menos que todos a imprensa. É uma crónica condoída, esta, como se pode entrever pelo que aqui digo.

Lido: Eis o Homem

Eis o Homem (bib.) é uma novela de Michael Moorcock, vencedora de um Nebula e geradora de grande controvérsia, como o próprio Moorcock conta na "Nota do Autor" que fecha o volume à maneira de posfácio. Como seria de esperar, aliás. Trata-se de uma história de viagem no tempo cujo protagonista é um psiquiatra amador e falhado, junguiano e cheio de interrogações místicas, que decide viajar até à época de Cristo. A história saltita entre o presente e o passado longínquo, acompanhando alternadamente as discussões entre o protagonista e a namorada, uma cética antirreligiosa, e as deambulações do viajante no tempo pela antiga Palestina em busca de Jesus de Nazaré. Isto numa fase inicial, porque depois o viajante no tempo encontra um Jesus que não é nada do que estava à espera e vai ser confrontado com um dilema: deixar morrer o mito, o que com aquele Jesus seria inevitável, ou servir-lhe de agente?

Claro, como bem sabia Saramago, que tocar na figura mítica de Cristo cria problemas aos escritores que a tal se atrevem. Caem-lhes os zelotas todos em cima. Este livro, portanto, não é nada aconselhado a quem está convicto da realidade do mito e não gosta de o ver beliscado. Católicos intransigentes, fiquem bem longe dele. Para os outros, entre os quais me incluo, é um livro no mínimo interessante, embora eu tenha de confessar que gostei mais da primeira vez que o li, em inglês, do que desta releitura em português.

Lido: Elvis le Rouge

Elvis le Rouge, tradução francesa de Red Elvis, é uma noveleta de Walter Jon Williams que acompanha a vida e carreira dum Elvis alternativo. Mesmo para quem, como eu, não sabe muito sobre a vida e carreira de Elvis Presley (não sou da geração certa, suponho), é fascinante acompanhar o modo como Williams mostra o efeito que têm as influências sobre o trajeto de vida das pessoas e, em última análise, sobre o próprio desenvolvimento histórico das nações e da espécie. Elvis, aqui, é um rebelde não apenas social e de costumes, como foi na vida real, mas também político. O Elvis verdadeiro, apesar de inevitavelmente ter contactado com as realidades do mundo do trabalho assalariado, dada a sua origem humilde, estava demasiado embrenhado na cultura conservadora e furiosamente religiosa do Sul dos EUA para poder, por si só, ganhar ideias de esquerda. Mas aqui, o Elvis alternativo de Williams é influenciado por um rapaz oriundo da proletária Chicago, seu companheiro de rock and roll, que já de lá vem com uma forte consciência de classe e orientação política bem apontada para a esquerda. E o desenvolvimento subsequente, não só das ideias de Elvis, como da sua própria carreira, vai ser em boa parte determinado por esse encontro e influência. Uma história muito interessante que só peca, a meu ver, pelo final surpresa que achei muito desnecessário e destrói boa parte daquilo que o conto vai construindo, voltando a atirar para a esfera da idiossincrasia pessoal aquilo que vinha sendo atribuído desde o início à das influências sociais. Bem sei que muitos fãs de FC&F se pelam por finais inesperados, e que por isso acharão a história melhor precisamente por ter um final inesperado, mas neste caso em concreto achei que esse final acabou por diminuir a história, e isso, obviamente, não é bom.

Mas a história, como um todo, é. Bastante boa mesmo.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Lido: A Mão de Midas

Esta mania que têm de dar a coletâneas o título de contos nelas incluídos dá nisto: títulos repetidos aqui na Lâmpada. A Mão de Midas é mais um desses títulos, e aqui fala-se da coletânea.

Trata-se de um conjunto de cinco histórias, bastante diferentes umas das outras, e algumas, parece-me, muito inadequadas para serem incluídas numa coleção de literatura fantástica. Mas são quase todas bastante boas, em especial, paradoxalmente ou talvez não, as que menos fantástico contêm. Não será por acaso que Jack London se tornou conhecido sobretudo pelas suas histórias sobre a natureza bravia da região subártica americana e não pelos contos fantásticos e de proto ficção científica que publicou. Pelo menos para o meu gosto e para a minha maneira para olhar a literatura, histórias como A Lei da Vida ou Face Perdida são muito melhores do que A Sombra e o Clarão.

Mas em geral esta é uma boa coletânea, que representa bem a diversidade de estilos, temas e abordagens que o autor seguiu ao longo da sua carreira, e a sua versatilidade. O que achei de cada uma delas pode ser lido clicando nas seguintes ligações:

- A Casa de Mapuhi
- A Lei da Vida
- Face Perdida
- A Mão de Midas
- A Sombra e o Clarão

domingo, 25 de julho de 2010

Lido: A Sombra e o Clarão

A Sombra e o Clarão é outro conto de Jack London, e finalmente temos aqui algo que está como peixe na água numa coleção de literatura fantástica. Trata-se de um conto de ficção científica (ou melhor, de proto-FC) que descreve as nefastas consequências de uma rivalidade antiga entre dois amigos/inimigos de infância, cada um mais brilhante do que o outro. No esforço constante para superarem o adversário, acabam ambos por dedicar-se à busca da invisibilidade. Um deles dedica-se ao estudo da ausência da luz, da sua absorção pelo negro absoluto; o outro ao da transparência igualmente absoluta. O narrador, um amigo de ambos que desde sempre teve o papel de moderar os excessos dos amigos e contemporizar, vai acompanhando o desenvolvimento das investigações e acaba por ser testemunha do desenlace de toda a história.

É um conto interessante, e só não o achei realmente bom porque me fez lembrar demasiado O Homem Invisível, de H. G. Wells, publicado alguns anos antes de London escrever esta sua história, e também porque o autor cometeu um erro lógico importante: é certo que no negro absoluto toda a luz é absorvida. Mas um objeto que fosse pintado com uma tinta totalmente absorvente seria perfeitamente visível desde que houvesse alguma luz a incidir sobre aquilo que rodeia esse objeto. O objeto propriamente dito talvez não se visse, mas ver-se-ia na perfeição o seu contorno, por contraste. E só não existe luz nas noites mais encobertas, que tornam tudo invisível. Esse erro, grave porque o desaparecimento através do absoluto negrume é um dos pilares do enredo, destruiu a suspensão da descrença aqui para este leitor, e não lhe permitiu desfrutar convenientemente do conto. É pena, até porque, como seria de esperar, o conto está bem escrito.

Lido: A Mão de Midas

A Mão de Midas é um conto de Jack London que descreve, num estilo parcialmente epistolar, a chantagem que um grupo terrorista ou anarquista faz a um magnata. Enquanto este não ceder ao grupo (autodenominado A Mão de Midas, daí o título) o montante exigido ir-se-ão sucedendo assassínios. É um conto que se situa algures entre o policial e o horror psicológico e se debruça ao mesmo tempo sobre a culpa e sobre as relações de poder na sociedade americana de há 100 anos, muito semelhantes, aliás, às que existem hoje em todo o mundo ocidental. Porque A Mão de Midas assassina, é certo, mas se o magnata pagasse não assassinaria, e por isso atribui-lhe a responsabilidade pelos assassínios. E porque este, apesar de todo o poder que o dinheiro e o prestígio social lhe conferem, é impotente para travar os crimes que vão sendo cometidos devido à sua teimosia em não ceder. Um conto muito interessante e, por motivos óbvios, muito relevante nos dias que correm. E também um conto que finalmente justifica, ainda que marginalmente, a sua inclusão numa coleção de literatura fantástica.

sábado, 24 de julho de 2010

Lido: O Retrato Oval

O Retrato Oval (bib.), de Edgar Allan Poe, é um conto curto de horror que acompanha um cavalheiro ferido, cujo criado arromba um castelo para lhe fornecer abrigo por uma noite. No castelo, o cavalheiro vai encontrar uma autêntica exposição de artes plásticas, incluindo até um volume que como que serve de catálogo, descrevendo e comentando os quadros. Um dos quadros, meio escondido num nicho, chama-lhe particularmente a atenção: o retrato oval do título. E é a descrição que se faz dele no tal volume que incute ao protagonista, com toda a força, o sentimento de horror.

Uma releitura completamente nova, esta. Quero com isto dizer que não me lembrava nada deste conto, apesar de ter a certeza de já o ter lido (nunca li este livro, mas li outro onde este conto está presente). Talvez pela sua extrema brevidade — não chega às 4 páginas — mas também talvez por não me ter agradado muito. Agora, pelo menos, não agradou. Sim, está bem escrito. Mas toda a situação me pareceu demasiado forçada, e a descrição do quadro torna desde o início o desfecho previsível, o que não seria particularmente grave se não fosse o facto dele estar concebido para obter um efeito de surpresa. Tudo somado, achei o conto mediano, não mais do que isso.

Lido: O Gato que Aprendeu a Falar

O Gato que Aprendeu a Falar (bib.) é um conto curto de H. H. Munro, escritor inglês mais conhecido por Saki e pelas prosas humorísticas que deu à pena. E é o que este conto é. Uma muito divertida historinha sobre um gato que uma espécie de cientista conseguiu pôr a falar como se de pessoa se tratasse. Ou por outra: sobre o que um gato (esse gato) teria a dizer caso falasse, e com que felina arrogância e altivez. Ou por outra: sobre todos os segredos e hipocrisias humanos, que o gato ouve sem que isso a ninguém cause preocupações porque, em princípio, os gatos não falam e não podem ir repetir o que ouviram e contar o que viram a ouvidos inconvenientes. Sim, as coisas não correm lá muito bem com a dádiva da fala concedida ao gato. Mas isso já é estar a contar a história em demasia.

Lido: Em Busca do Livro de Areia

Em Busca do Livro de Areia é um conto de Rhys Hughes que, como aliás acontece com todo o livro de que faz parte, ostenta bem visível a influência direta de Jorge Luis Borges. O Livro de Areia, criação do escritor argentino, é um livro que, além de outras características, é infinito, ou pelo menos tem tantas páginas quantos os grãos de areia que há no mundo (daí o nome). E é esse objeto que ressurge neste conto de Rhys Hughes, indo parar às mãos do seu protagonista e narrador lituano, um tal Jazeps Zemzaris. Este, contudo, animado de um invejável espírito prático, resolve fazer uso do livro de uma forma muito pouco literária, servindo-se para isso de algumas características do conceito matemático do infinito. Mas nem tudo corre exatamente como ele estava à espera, e por culpa própria.

O conto é excelente, de caras o melhor do livro até agora. Um conto inteligente, cerebral e rigoroso que não se esquece de se deixar escrever bem. Falta-lhe componente emocional, claro, o que pode afastar alguns leitores. Mas não é esse o objetivo. O conto está concebido como um exercício intelectual, e como tal é muito, muito bom.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Lido: O Segredo do Mar

O Segredo do Mar é outro dos pequenos contos do Lorde Dunsany. Desta feita o protagonista é um homem que pretende ficar a saber um segredo que só lhe pode ser contado por um velho marinheiro, bêbado e de língua tão porca como nestas histórias costumam ser os velhos marinheiros. Mas o segredo é-o muito, o homem tem a língua bem presa a esse respeito e por isso, para tentar soltá-la, o protagonista mune-se de uma garrafa de ferro cheia de um vinho mágico que terá obtido junto dos gnomos. E o conto segue por aí fora, entre a ansiedade de um e a bebedeira do outro, até chegar ao fim, que é quando uma delas acaba. Não vos direi qual nem porquê. Mas digo que foi outro conto de que gostei muito. Deixei-me embalar por ele quase como que pelas ondas do mar. Balançando. Balançando.

Lido: O Saque à Cidade de Loma

O Saque à Cidade de Loma é um conto do Lorde Dunsany que nos fala do que acontece aos sobreviventes de um grupo de índios que decidiu atacar a cidade de Loma, não fortificada porque se ergue numa montanha e é de dificílimo acesso, através apenas de caminhos precipitosos. Os sobreviventes, quatro, transportam o saque: um tesouro de esmeraldas, rubis, coisas em prata e de outros tipos de minerais preciosos e deuses de ouro... e um último item que não sabem que trazem consigo. É um conto fantástico desprovido da ironia tão comum nos contos de Dunsany, mas muito bem escrito e concebido embora, talvez, o final saiba um pouco a pouco por ser tão previsível. De todas as formas, pareceu-me ser um bom conto.

Lido: Precisión

Precisión, outro conto muito curto que pode ser lido na mesma página dos anteriores (é o quinto) e que foi escrito pelo argentino Carlos Daniel Joaquín Vázquez, em contraste com o anterior não me agradou. Conta uma historieta de paradoxo que me pareceu mal resolvida, prendendo-se em demasia nos detalhes cosmológicos daquilo que é necessário para viajar no tempo (e no espaço) com a precisão necessária. Por mais interessantes que esses detalhes sejam em si mesmos (e sê-lo-ão para alguns leitores, não serão nada para outros, naturalmente), ocupar mais de metade do conto com uma explicação, que ainda por cima é inevitável que não passe da superfície dada a escassez do espaço, não me parece nada boa ideia.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Lido: Todo Cambia

Todo Cambia, do espanhol Angel E. López Esteve, é uma história muito interessante de viagem no tempo, que joga com os paradoxos inerentes duma forma que eu nunca tinha visto. Talvez seja melhor irem lê-la primeiro (é a quarta), porque não estou bem a ver como poderei falar dela sem estragar surpresas. Ou então parem a leitura aqui. Estão avisados? Ótimo. A história começa de uma forma banal, um casal de cientista e amante que se prepara para testar pela primeira vez uma máquina do tempo. E é o que fazem, mas quando chegam ao futuro desaparece a banalidade. Deparam com um mudo isntável, em mutação constante, um mundo em que o uso das máquinas do tempo leva a constantes reajustes na realidade, o que implica permanentes aparecimentos e desaparecimentos ou simples mudanças. E depois o fim está tamém muito bem conseguido. Um belo continho.

Lido: Ciclicidad

Ciclicidad, do argentino Sergio Gaut vel Hartmann, é um continho de ficção científica que, apesar de ter lá subjacente a viagem no tempo, não é propriamente sobre isso. Passa-se no futuro longínquo, após a extinção da humanidade, e mostra-nos uma conversa entre um robô barman, robô esse que tinha sido criado pelo homem muito tempo antes, e um extraterrestre bebedolas, pertencente a uma espécie que desenvolveu tecnologia para viajar no tempo. O melhor do conto, para mim, é o final. Irónico e forte, e por isso mesmo não vo-lo vou desvendar. Leiam-no, se quiserem. É o terceiro conto que está nesta página.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Lido: Graça e Desgraça de Mestre Gil

E para terminar esta ronda por textos de José Saramago, Graça e Desgraça de Mestre Gil é outra crónica-mesmo-crónica na qual ele faz uma defesa algo dúbia de Gil Vicente, chamando-lhe génio da literatura portuguesa mas insinuando que ele perde na comparação com dramaturgos oriundos de outros povos (o que não deixa de ser verdade, embora ele seja mais antigo do que a maior parte dos termos de comparação; já estava morto quando Shakespeare nasceu, por exemplo), e explicando o homem e o seu tempo, com compreensão pelas suas contradições (que também explica). E realmente é bizarro que Gil Vicente seja tão pouco representado. Chamam-lhe pai do teatro português (e do teatro em português) mas depois ignoram-no quase por completo. Por contraste, Shakespeare está sempre em palco lá na Anglofonia. Enfim, o costume por estas plagas.

Lido: «A Nua Verdade»

«A Nua Verdade» é uma (outra) crónica de José Saramago, mas desta vez é mesmo crónica, sem qualquer ficção lá misturada apesar de ele dizer que "de vez em quando, não fica mal ao cronista subir para a Máquina do Tempo, mover as alavancas adequadas e instalar-se no passado". Mas embora seja crónica, talvez seja mais certo chamar-lhe homenagem. Uma homenagem que Saramago presta a Fernão Lopes, "cronista da nua verdade", como lhe chama, e claramente um dos seus heróis. Bonito.

Lido: Carta de Ben Jonson aos Estudantes de Direito que Representaram Volpone

Carta de Ben Jonson aos Estudantes de Direito que Representaram Volpone é outro pequeno conto de José Saramago, e uma vez mais é fantástico. Como o título indica, trata-se de uma carta que terá sido escrita pelo dramaturgo Ben Jonson a um grupo de estudantes que terão representado uma das suas peças. O teatro não é a minha onda, bem longe disso, e portanto tive de ir ver quem era o homem e que peça é essa tal Volpone. Esta, é uma comédia sobre a ganância e a luxúria; aquele é um cavalheiro inglês, contemporâneo de Shakespeare. Quanto à carta, depois de explicar que o trabalho dos fantasmas dos dramaturgos mortos é andar pelo mundo a assistir às representações que se vão fazendo das peças que escreveram (ideia fantástica em si mesma... e aqui "fantástica" e tem dois significados diferentes), a carta dá efusivos parabéns aos tais estudantes por terem feito da peça uma coisa tão diferente e ao mesmo tempo tão igual. Desconhecendo como desconheço a encenação específica a que Saramago se refere, não me custa muito adivinhar que a terão adaptado à situação portuguesa da época, usando-a como arma de combate político antifascista. E que é aí que Saramago quer chegar através do seu uso do fantástico.

Lido: Manuscrito Encontrado Numa Garrafa

Manuscrito Encontrado Numa Garrafa é um pequeno conto surrealista de José Saramago em que ele ou o seu protagonista encontra uma garrafa a boiar no lago do Rossio e, num impulso, a apanha. Lá dentro, está um papel com uma mensagem, sem assinatura nem remetente: "socorro". Mas, por trás da primeira cortina, este conto-crónica serve para Saramago dar expressão à sua sensação de opressão, pois cria um ambiente paranoico, cheio de homens a ler jornais que, quando o protagonista se põe em movimento, atravessam ruas ainda lendo os jornais, ou outros que olham fixamente para montras e o perseguem trazendo consigo essas mesmas montras e sem delas tirarem os olhos. É um conto-crónica que, através dos artifícios do fantástico, diz ao leitor: "A PIDE interessou-se por mim". Um apelo, talvez. Quiçá um pedido de ajuda. Ou então uma denúncia encapotada.

Lido: Face Perdida

Face Perdida, de Jack London, é outro erro de casting. Trata-se de um conto que encontra um aventureiro polaco, depois de atravessar toda a Rússia europeia e asiática perseguido pelas autoridades do Czar, na Rússia americana, o Alasca, prisioneiro de uma tribo de índios que não gostam nada dele e pretendem matá-lo. E com bons motivos, como acabamos por ficar a saber. Porque o nosso aventureiro, por nobres que tivessem sido os motivos iniciais que o levaram a entrar em choque com o Czar (London não o afirma, mas sugere-o), acabou por se juntar a alguns exemplares da pior escumalha que a Terra tem para oferecer e fez das piores coisas que um homem pode fazer. Tudo isto ficamos nós a saber numa longa recapitulação da vida passada, à semelhança do que acontece em A Lei da Vida e, tal como aí, o fim é a morte. E tal como aí, o conto, incluído num livro especificamente concebido para uma coleção de literatura fantástica, é inteiramente realista, sem o mais pequeno sinal de fantástico, seja ele qual for. Nem mesmo o horror, ainda que seja disso que mais se aproxima. Nada.

Mas, de novo, é um bom conto. No fim torna-se algo previsível, mas é um bom conto, que me conseguiu absorver com grande eficácia.

Lido: Ligeia

Ligeia (bib.) é um romanticíssimo conto de Edgar Allan Poe que conta uma história de tragédia, amor e morte, à boa maneira romântica, mas com um lado fantasmagórico. A história, contada na primeira pessoa e muitíssimo bem escrita, apresenta Ligeia como o verdadeiro amor do narrador, um opiómano. Ligeia é duma beleza transcendental; Ligeia é duma inteligência tal que não se encontra noutras mulheres; Ligeia é um modelo de perfeição, mas é também uma mulher doente que acaba por morrer deixando o narrador desfeito em pó, como ele diz. Mas um homem não é de ferro, e aquele volta a casar, agora com uma tal Rowena, mulher que detesta... e que adoece, também ela, e acaba por morrer. Mas ao contrário de Ligeia, que quando morre fica morta, no velório de Rowena esta agita-se e como que ressuscita, mostrando ao marido os olhos de Ligeia.

Aquilo que mais me impressionou nesta história foi a sua qualidade literária. Nunca gostei do tom excessivamente sentimental da prosa romântica, que não raro borda a lamechice (ou nela penetra a fundo) e por isso não consegui realmente gostar deste conto, mas que ele está otimamente escrito é inegável. E tem outra coisa boa: há várias interpretações possíveis para vários pontos do enredo. É possível, por exemplo, ver na doença e morte de Rowena uma vingança do fantasma de um primeiro amor, e mesmo essa vingança pode ter várias explicações possíveis. Quem gosta de dissecar este tipo de coisa tem aqui um pratinho cheio. Só histórias de qualidade conseguem tal feito.

Lido: Aquela Face

Aquela Face (bib.) é um conto de E. F. Benson sobre uma mulher que, após anos a ter um sonho recorrente, e no momento em que esses perturbadores ataques oníricos redobram de intensidade, descobre, num retrato com duzentos anos de idade, o rosto do homem que lhe assombra os sonhos. É mais uma história de fantasmas, mas esta escapa (até certo ponto) ao cliché da casa assombrada que gerou e continua a gerar centenas de histórias mais ou menos góticas, se não for mesmo milhares. A senhora, para se recompor, vai de férias, e é nas férias que encontra o fantasma, o que não deixa de fazer também pairar no ar um certo saborzinho, uma certa sugestão a aventura erótica de verão à beira-mar. Pareceu-me ser um conto bastante bom: bem estruturado e bem desenvolvido, com um possível subtexto que lhe aumenta o interesse, e suficientemente diferente do habitual para não ser completamente previsível.

Conto: O Eterno Otimista

Nota: tinha publicado isto originalmente seguindo o estilo geral do blogue. Mas depois achei que ficava melhor usando o estilo dos contos, e aqui está.

O Eterno Otimista

A função dele era ser o eterno otimista. O gajo que dizia sempre que as coisas iam correr o melhor possível, e que explicava porquê, econtrando essa explicação entre suposições e aquilo a que por falta de termo melhor se deu o nome de pensamento positivo. Quando se olhava ao espelho da mente, quando pesava os prós e os contras dessa sua condição, a conclusão a que chegava era sempre igual. Seja, suspirava. Alguém tem de desempenhar esse papel, e se não há mais ninguém pois que seja eu.
Até que o dia chegou em que o peso de tudo o que teve de ficar calado para que ele conseguisse desempenhar o seu papel deixou de se contentar em entortar-lhe os ombros. Começou por uma racha num ladrilho à entrada da cozinha, mesmo junto ao seu pé direito. Depois outra, perpendicular à primeira, que não viu por lhe passar uma tangente aos calcanhares. E de súbito, antes de ter tempo de se dar conta do que estava a acontecer, viu-se soterrado, submerso em camadas após camadas de pensamentos silenciados, os sedimentos de várias vidas, cercado de negrume e poeira.
Tentou gritar, sem sucesso. Tentou empurrar nas nada se movia. Tentou atingir a superfície emitindo raios de desespero, mas se alguns conseguiu produzir foram defletidos pelas rochas e desfizeram-se em ecos intraduzíveis. Acabou por desistir, por se resignar à espera, e foi-se lentamente transformando em fóssil na esperança de que um dia, milhões de anos mais tarde, algum longínquo descendente dos descendentes da sua espécie, acabasse por encontrá-lo e lhe arranjasse um lugar num museu qualquer, com um letreiro a dizer numa língua que nem conseguia imaginar "Fóssil de otimista, antropoceno".
E aquilo que lhe ocupa o espírito é a angústia de não saber como foram os outros capazes de sobreviver sem que lá estivesse ele sempre a dizer que as coisas iam correr o melhor possível, explicando porquê através de explicações encontradas entre suposições e aquilo a que por falta de um termo melhor se deu o nome de pensamento positivo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Lido: Asimov's nº 321-322

Este número 321-322 da Asimov's é um dos números duplos que a revista costuma publicar no Outono, aumentando o número de páginas e abrindo espaço para a publicação de mais um pouco de tudo. E este é, também, um número que achei muito bom, pois dos oito contos, noveletas e novelas que contém só duas não me despertaram suficientes motivos de interesse. Os dois poemas também não, mas esses são tão pequenos que mal contam. De resto...

De resto, houve histórias que me encheram completamente as medidas, como War, Ice, Egg, Universe, de G. David Nordley, ou The Clear Blue Seas of Luna, de Gregory Benford, houve histórias que, não me tendo propriamente enchido as medidas, me agradaram bastante, como With Caesar in the Underworld, de Robert Silverberg, At Dorado, de Geoffrey A. Landis, ou The Hidden Place, de Ian McDonald, e até houve histórias que me deixaram a pensar, como Stories For Men, de John Kessel. Seis em oito é altamente satisfatório em qualquer publicação, e ainda para mais com o bónus de me ter apresentado quatro novos autores, alguns dos quais, como o G. David Nordley, foram agradabilíssimas surpresas.

E mesmo nos contos mais fracos não houve assim nada de bradar aos céus. Nada de francamente mau. São apenas contos mais fracos. De modo que, tudo somado, acabou por ser uma revista cuja leitura redundou em franco proveito. Sim senhor.

Quem quiser saber o que achei dos contos e poemas individuais, aqui tem a respetiva listinha:

- With Caesar in the Underworld
- At Dorado
- War, Ice, Egg, Universe
- The Little Cat Laughed to See Such Sport
- The Hidden Place
- The Clear Blue Seas of Luna
- The Intergalactic Host Program
- A Slow Day at the Gallery
- Stories For Men
- The Unexpected Unexplained