segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Lido: Barnabé

Era uma vez um blogue político. Estava-se no apogeu da blogosfera política, ainda antes de os "jovens turcos" que por ela pululavam terem ganho entrada no mainstream dos vários partidos (perdendo-a depois, alguns deles), e um grupo de cinco homens de esquerda, André Belo, Celso Martins, Daniel Oliveira, Pedro Oliveira e Rui Tavares, resolve criar um blogue coletivo para cascar nos blogues de direita. E fê-lo, chamando-lhe Barnabé e vincando a origem da inspiração para o nome com uma citação da canção homónima do Sérgio Godinho (artista muito querido dos esquerdalhos, como se sabe) como subtítulo. E fê-lo com tal sucesso de mercado que a Oficina do Livro achou por bem publicar em livro uma seleção dos seus posts, o que não deixa de ser irónico para malta que tem no ceticismo quanto ao mercado tal como entendido pelos liberais uma parte significativa do cimento que a une.

O estilo do blogue era aguerrido, polémico e irónico, limitando-se frequentemente os posts a frases curtas que hoje em dia são basicamente coisa de twitter, ainda que também houvesse alguns mais longos e elaborados, verdadeiros artigos de opinião. Era um dos blogues que eu lia com certa regularidade, na época. E que ocasionalmente comentava.

O livro retrata bem o que era o Barnabé-blogue, mas claro que lhe falta um fator muito importante que faz com que não seja de todo a mesma coisa: a interatividade. Porque há blogues e blogues; eles não são todos iguais e nunca foram. Se a natureza de alguns faz com que a troca de ideias com os visitantes que decidem deixar comentários é dispensável ou até desaconselhável, outros vivem em boa parte dessa troca de ideias. E o Barnabé pertencia a este último grupo. A consequência que isso tem é a experiência-livro, quase totalmente passiva, ficar vários degraus abaixo do que foi a experiência-blogue. Os textos podem ser os mesmos, mas o livro é pior que o blogue. Significativamente.

Em especial quando é lido agora, mais de uma década mais tarde. O livro data de 2004, do auge da popularidade do blogue (que desapareceu em 2005, depois de uma das típicas zangas de comadres internas), e inclui posts publicados em 2003 e 2004. Ora, hoje, praticamente todas aquelas polémicas estão mortas ou pelo menos muito bafientas, alguns dos protagonistas desapareceram do radar público e é necessário um esforço de memória para nos tentarmos lembrar de "quem é este gajo?", as ironias e as bocas perderam o ferrão. Ou seja: quase tudo o que na época parecia ser de extrema relevância está reduzido hoje à sua devida importância. Especialmente as tricas blogosféricas.

Passados estes anos, portanto, o livro surge quase como um monumento à completa futilidade de muita da discussão política que se faz em cima do acontecimento, mera poeira no panorama da história. Em retrospetiva, "um milhão de visitas na net", como se proclama orgulhosamente na capa, reduzem-se a muito pouco.

E isto não é caso exclusivo do Barnabé. Leiam qualquer blogue político da época (os que ainda se deixam encontrar, pelo menos) e irão deparar com a mesma irrelevância. Isto quase dá razão ao Facebook, lugar para onde a maioria deste fumo sem fogo se transferiu nos últimos anos (e onde é amplificado por um algoritmo que está a contribuir com todas as forças para a morte da democracia, mas isso é conversa longa e para outro sítio), e que o enterra num fundo de página praticamente irrecuperável horas ou no máximo dias depois de ser produzido. Quase dá razão. Quase.

O que salva este livro, hoje, são alguns posts menos presos às reações epidérmicas à atualidade dos tempos. Posts mais genéricos, com reflexões mais livres dos imediatismos. E também outros posts que, embora se mantenham presos à espuma dos dias, acabam por ter a sorte de esta se ter mantido relevante passados estes anos. A Guerra do Iraque, por exemplo. Mas também algumas — poucas — outras coisas. Nisto, a perspetiva de historiador do Rui Tavares talvez seja a mais útil, embora alguns dos posts dos outros autores também o acompanhem.

Em suma: este é um livro razoável, que dá uma ideia, mas não muito precisa, do que foi o Barnabé-blogue. Não creio que tenha muito interesse enquanto documento histórico; mas não sou historiador e é provável que me engane. Também não creio que tenha muito interesse para quem não tenha vivido a blogosfera da época, pois estou seguro de que muito do que aqui se encontra lhe irá passar bem ao lado. Talvez o tenha para quem é fã dos autores, no todo ou em parte. Mas se calhar irão encontrar mais e melhor deles noutros sítios. Eu não desgostei; mas eu estou na posição razoavelmente especial de leitor regular do blogue e tenho memória pessoal de parte do que aqui se encontra. Vocês? Cada um saberá de si.

Este livro foi uma oferta dos autores. Ou melhor: um prémio. Houve no Barnabé durante algum tempo uma espécie de concurso em que se publicavam ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro, publicadas na imprensa cerca de um século antes, e se pedia aos comentadores para explicarem contemporaneamente o que elas significavam. Eu achei piada à coisa e participei algumas vezes. Com certo sucesso; ganhei com isso um livro... que vim a ler mais de dez anos depois. E assim se faz o tempo.

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