domingo, 11 de fevereiro de 2018

Lido: Habitable Planets for Man

Um exercício de leitura que eu acho curioso e geralmente muito interessante é ler os livros seminais de determinadas disciplinas científicas. Não todos, claro; há alguns que são demasiada areia para a minha camioneta; não me verão tão cedo (bem, mais que provavelmente não me verão nunca) a pegar em The theory of heat radiation de Max Planck, por exemplo. Mas a leitura de livros como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, é para mim um prazer porque conjuga várias das coisas que eu procuro na leitura, faltando-lhe apenas a pura experiência literária (que às vezes até existe; há cientistas e divulgadores de ciência que escrevem verdadeiramente bem): espevita a imaginação, treina o raciocínio, ensina-me coisas que eu não sabia (mesmo quando conheço bastante bem a disciplina há sempre alguma coisa de novo), dá-me uma perspetiva histórica da evolução dos conhecimentos na ciência em causa, por comparação entre os que vêm expressos na obra lida e o que sei sobre o estado contemporâneo da ciência, e por aí fora.

Habitable Planets for Man é um desses livros. Debruça-se sobre a exoplanetologia, ou mais especificamente sobre a parte desta disciplina que se esforça por encontrar planetas habitáveis por seres humanos em volta de outras estrelas, e faz pela primeira vez um apanhado dos conhecimentos científicos disponíveis na sua época, numa tentativa de estimar quantos planetas habitáveis haverá na nossa galáxia, a que distância será provável estar o mais próximo e, em geral, onde deverão estar.

Nota importante: o livro foi escrito em 1962 e publicado em 1964. À época, os únicos exoplanetas que se conhecia eram aqueles criados por escritores e outros autores de ficção científica, e iriam ainda passar-se trinta anos até ser realmente confirmada a existência de planetas em volta de outros astros: a primeira deteção confirmada de um exoplaneta (na verdade foram logo dois) data de 1992, mas estes planetas giram em volta de um pulsar, não de uma estrela normal. Houve que esperar mais três anos pela primeira deteção definitiva de um exopaneta na órbita de uma estrela normal, quando a publicação deste livro já tinha completado o seu 31º aniversário.

É por isso espantoso, e um testemunho da qualidade da especulação teórica disponível à época, que Stephen H. Dole tenha acertado em tanta coisa mesmo apesar da grande quantidade de surpresas com que os cientistas têm vindo a ser brindados nas últimas duas décadas de deteção de exoplanetas. Apesar de se manter preso à noção de sistemas extrassolares semelhantes ao solar, com os planetas terrestres mais perto da estrela e gasosos no sistema exterior, inteiramente dominante até que as primeiras descobertas de "júpiteres quentes" vieram pôr essa teoria de pantanas, Dole consegue fazer uma análise ainda hoje muito aplicável sobre tipos de órbitas que será possível encontrar, as relações entre estas e as massas dos planetas, os tipos de atmosferas, os intervalos de temperatura que o ambiente à superfície comporta, a presença e as quantidades de água ou a sua ausência, o efeito de estufa e a sua influência na habitabilidade, e etc. e etc., sem mesmo se esquecer de analisar casos mais exóticos como o de órbitas excêntricas ou dos planetas em sistemas múltiplos, entre outros, e chegando mesmo ao ponto de rematar o livro com um elogio de natureza quase ambientalista ao planeta Terra e às suas condições, tão propícias à nossa exigência, e a especular sobre as alterações que a humanidade poderia sofrer depois de se instalar em planetas distantes.

Nem toda a informação e teorização aqui contida sobreviveu às descobertas e às reformulações teóricas que estas forçaram, naturalmente. Mas a que sobreviveu é vasta, muito interessante e em geral bastante acessível a leigos, o que é natural se tivermos em conta que Dole escreveu não um livro propriamente dito, mas um relatório, preparado no âmbito do projeto RAND da Força Aérea dos Estados Unidos, o qual deu origem ao célebre think tank militar RAND Corporation. Ele tinha de apresentar a sua informação de forma a que os militares a conseguissem engolir... e isso faz com que ela seja hoje muito legível por qualquer pessoa com alguns conhecimentos mais ou menos básicos de planetologia, mesmo que convenha eles serem um pouco menos básicos se se quiser perceber com alguma segurança que parte do livro ainda está válida hoje em dia (a maior parte) e que parte já não está.

Uma coisa é certa: este livro é muito eficaz em dar ao leitor alguma perspetiva cósmica do nosso lugar no Universo e do quão especial é o nosso planeta. Não que adote a perspetiva pessimista da Terra rara; conclui que os planetas habitáveis deverão ser abundantes na nossa galáxia, estimando em cerca de 50 os planetas habitáveis num raio de 100 anos-luz (relembro que a Via Láctea tem uns 150 mil anos-luz de diâmetro). Mas a listagem das condições ambientais, de órbita, de distância à estrela, de características da própria estrela, de massa do planeta, e etc., e etc., é impecável a transmitir ao leitor como este mundo em que vivemos está tão perfeitamente adaptado a nele vivermos (na verdade é ao contrário; nós é que nos adaptámos perfeitamente a ele. Mas vocês percebem o que quero dizer).

Para fãs de ficção científica, este livro tem além disso o interesse adicional de lhes dar bagagem para poderem avaliar criticamente algumas ideias que surgem nas obras do género, e para escritores que queiram dedicar-se ao género, pelo menos se as histórias que pretendem escrever tiverem alguma componente extraterrestre, é uma leitura que me parece quase indispensável porque pode evitar muitas tolices. Se pertences a algum destes grupos, portanto, recomendo esta leitura; se tens curiosidade pela ciência também. Se não, podes passar adiante sem nenhum problema.

Este livro pode ser obtido legalmente na internet, em PDF, no site da RAND Corporation.

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