sábado, 9 de setembro de 2017

Lido: Se Ha Perdido una Niña

A principal utilidade de termos genéricos como "ficção especulativa" reside em enquadrar facilmente obras que de outra forma seria muito difícil de classificar. Se Ha Perdido una Niña, conto multipremiado de Alberto Chimal, é uma dessas obras.

Fala-nos de uma tal Ilse e da forma como ela se perdeu para a família, tudo visto através dos olhos do tio, que também foi responsável por colocá-la no caminho da perdição, por assim dizer. Porquê? Porque num belo dia se esqueceu do aniversário da jovem sobrinha, e portanto de lhe comprar um presente, tendo de improvisar qualquer coisa à última hora. Por ironia do destino, a improvisação consistiu num livro com o título do conto, escrito por uma escritora russa, Galina Demikina, e publicado em espanhol em 1982 pela Editorial Progresso, da URSS.

Cabe aqui um aparte para esclarecer que sim, o livro (uma fantasia infantil) e a autora existem mesmo e que a Editorial Progresso era uma das várias editoras soviéticas (também havia a Ráduga e a Mir, pelo menos) cuja atividade editorial consistia em parte em traduzir e publicar livros soviéticos em outras línguas, não só para consumo dos estudantes nacionais dessas línguas mas também para venda no estrangeiro.

Ora o que faz Chimal com este livro? Pois deixa a sua protagonista fascinada ao ponto de querer escrever à autora, o que vai ter um tal impacto na sua vida e crescimento que acabará, anos depois, por a levar a viajar para uma espécie de universo alternativo, no qual a URSS (e o seu regime político, naturalmente) nunca deixou de existir.

E consegue escrever um conto excelente, muito bem escrito, muito bem concebido, metaliterário, pois o enredo da sua história mimetiza em grande medida o enredo do livro de Demikina (este é sobre uma menina que viaja para um mundo fantástico ignorado de, e aparentemente fechado a, todos os demais, o que é mais ou menos o que Ilse acaba por fazer), e situado algures entre a fantasia e a ficção científica. A homenagem ao livro original e à sua autora é clara, a ironia é forte logo desde o primeiro parágrafo, onde o narrador nos diz que como fez um semestre de letras muita gente julga que gosta de ler, e o comentário ou reflexão política também não está ausente.

O início desta antologia é realmente bom.

Contos anteriores deste livro:

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