segunda-feira, 16 de abril de 2018

Lido: A Máquina de Joseph Walser

Uma vida não é uma máquina. Prova disso é a minha, que a meio da leitura deste livro (e não só deste; não era o único que eu estava a ler nessa altura) resolveu encher-se de cambalhotas que levaram a que passasse a ler pouco ou nada e a ter passado longos meses sem lhe pegar. De todo. Isso teve um efeito curioso: quando voltei à leitura não me lembrava de quase nada do que tinha ficado para trás e tive de ir folhear umas quantas páginas para tentar perceber outra vez quem raio era aquele chato do Walser e o que andava a fazer ali. Não é vulgar: costumo ter uma memória bastante vívida daquilo que leio, pelo menos a médio prazo (a longo prazo a história é outra), bastando-me pegar num livro e recomeçar a lê-lo, mesmo depois de um mês de pausa, para me lembrar do que aconteceu até aí. Mas este foi uma exceção.

Isto, ao mesmo tempo que é sintoma de um certo desinteresse por esta história e por estas personagens, que senti do princípio ao fim, também é causa, pelo menos parcial, de alguma dificuldade para chegar ao substrato do romance. Talvez assim não fosse se já antes tivesse tido contacto com a escrita, os temas e a filosofia a eles subjacente de Gonçalo M. Tavares. Mas esta foi, ainda por cima, a primeira vez que li algo dele, portanto era tudo novo para mim. Mas vamos por partes.

A Máquina de Joseph Walser passa-se num país não identificado da Europa Central, por alturas de uma guerra também não identificada mas com todo o ar de ser a primeira ou a segunda das mundiais. O protagonista, Joseph Walser, é um chato. Um indivíduo miudinho, repleto de rotinas e banalidades mesmo naquilo em que é excêntrico. Trabalha numa fábrica, a controlar uma máquina, também ela misteriosa porque nunca se chega a saber para que serve e o que faz. Além disso tem uma coleção de pequenas peças mecânicas, que analisa, mede e classifica com meticulosidade mecânica. E tem um jogo semanal de cartas com os amigos (amigos?). E tem uma mulher, que obviamente não ama porque é pessoa alheia a essa coisa estranha chamada sentimento. Tudo muito organizadinho. Teutonicamente organizadinho. Ja.

O orabolas da coisa é que às tantas rebenta uma guerra e a cidade do bom do Walser é ocupada, o que lhe vai perturbar as rotinas. Chatice com consequências, até para a sua integridade física, até para a integridade do seu casamento.

Tudo isto (que na verdade não é muito) escrito com uma prosa enxuta e de qualidade, capítulos curtos divididos em subcapítulos que por vezes nem uma página ocupam. Não fiz as contas, mas não me surpreenderia se esta obra nem chegasse às 40 mil palavras que nas convenções dos prémios de FC separam as novelas dos romances. E esta teia de brevidades é boa, pelo menos para mim: é o que faz com que, apesar do desinteresse no chato do Walser e na história dele, da sua máquina e das suas manias, o livro acabe por se deixar ler bem. Apesar do desinteresse e do desagrado que me causa um certo ludismo que me pareceu encontrar em Tavares, uma ideia de que é na máquina que reside a raiz de todas as desumanizações, da guerra às traições domésticas, passando pelas políticas, uma ideia de que a tecnologia é, no fundo, coisa daninha, coisa que subverte a condição humana.

Esses desinteresse e desagrado são os principais motivos para esta não ter sido leitura que me tenha agradado por aí além. Tavares é um bom narrador mas isso não me chega, e este livro deixou-me basicamente indiferente. Mas não posso deixar de reconhecer que é inteiramente possível que as vicissitudes pessoais que acompanharam esta leitura sejam um fator relevante para esta opinião menos favorável. Posso simplesmente ter lido este livro em má altura. Acontece.

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