domingo, 29 de abril de 2018

Lido: O Hóspede

Um dos problemas nas antologias temáticas (ou de um determinado género; também acontece) é por vezes incluírem contos que são claramente histórias escritas sem o tema em mente, vagamente adaptadas para se encaixarem na proposta. Isso não é problema em si mesmo; a adaptação de histórias a temas é uma forma de criação literária tão válida como outra qualquer, desde que essa adaptação não subverta aquilo que serviu de impulso criador inicial. Mas acaba por se tornar problemático quando essas histórias acabam piores do que começaram ou quando funcionam mal em contexto. E é muito frequente que isso aconteça.

O Hóspede é um conto de horror bastante clássico e razoavelmente bem concebido. Inspira-se de forma muito evidente em filmes B norte-americanos, segue um inspetor da polícia que vai investigando uma série de crimes bizarros, sangrentos e muito incompreensíveis, e inclui até o tradicional maniqueísmo e menções ao diabo ou a demónios, tradicionais nas histórias de horror sobrenatural. Na verdade, se é certo que não fica firmemente estabelecido que os acontecimentos descritos na história são de cariz sobrenatural, o enredo e várias passagens do texto tornam esta explicação mais lógica do que a ideia de invasão alienígena implícita no tema da antologia. Se este conto não estivesse incluído nesta antolgia, de facto, o mais certo seria tal ideia nem passar pela cabeça do leitor. E isso dimini tanto a história, por não cumprir a contento a proposta, como a publicação, por incluir uma história como esta.

Flávia Muniz tem culpa? Afinal, ela escreveu a história que quis escrever, a história que a inspiração lhe sugeriu, mantendo-se na sua zona de conforto literário. Não é nada que se possa contestar, pois não?

Não, não é. Não há qualquer culpa a atribuir a Muniz por ter escrito a história que quis escrever; isso nem faria qualquer sentido. Mas ela tem outra culpa: a de ter proposto tal história para uma publicação que não se lhe adaptava, culpa essa partilhada com Ademir Pascale, que a aceitou.

A história em contexto é fraca, portanto. Mas e isoladamente? Ou incluída num contexto mais adequado?

Bem, está, como eu já disse, razoavelmente bem concebida. Também está razoavelmente bem escrita, num português que não ultrapassa o razoável mas contada com mão segura e de ritmo agradável. A mim não causa nenhuma daquelas emoções que o horror tenta causar, mas o certo é que são muitíssimo raras as histórias que o fazem; peculiaridades pessoais. Portanto é uma história razoável, parece-me. Uma daquelas histórias medianas inspiradas mais pelo cinema do que pela literatura, e sofrendo com isso mas não o suficiente para se tornar realmente má ou medíocre.

Pena é vir publicada na publicação errada.

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