segunda-feira, 2 de abril de 2018

Lido: Os Destruidores

Há histórias que falam de uma forma bastante direta dos temas de que pretendem falar. Outras há, no entanto, que preferem abordá-los da maneira mais oblíqua possível. Muitos pensam que estas últimas são preferíveis, argumentando com a necessidade, ou pelo menos a desejabilidade, de deixar a inteligência do leitor preencher os espaços em branco. Já eu, não discordando da ideia de que é de bom tom não tomar os leitores por idiotas, penso que não existe realmente uma abordagem melhor e outra pior, pois tanto uma como a outra podem propiciar tanto obras excelentes como obras péssimas.

Graham Greene, celebrado escritor inglês, opta claramente pela segunda abordagem neste Os Destruidores. Fala-nos o conto de um bando de delinquentes, numa Inglaterra semidestruída pela II Guerra Mundial, pouco tempo depois do fim do conflito. Mas não nos fala do bando em geral, não nos conta o seu dia-a-dia, não nos revela muito da sua dinâmica interna. Opta, antes, por descrever uma operação de destruição sistemática que o bando leva a cabo contra a casa de um pobre desgraçado que teve a sorte de escapar aos bombardeamentos com o lar basicamente intacto. Um pobre desgraçado contra o qual nem parece existir qualquer espécie de animosidade por parte do bando, que no entanto lhe demole a casa no decurso de um fim-se-semana. Literalmente.

Mas Greene está aqui a falar é na falta de sentido da guerra. O trabalho duro do bando, a sua estratégia meticulosa, a forma como lida com os problemas inesperados que surgem, tudo emula de forma bastante clara as operações de um exército. O facto de atacarem a casa de um pobre diabo afirma que quem sofre realmente com a guerra é quem nada tem a ver com ela, quem não a declarou nem a trava. Quem é "dano colateral", esse maravilhoso eufemismo militarista, tão em voga nos últimos tempos. O ataque é profundamente absurdo e destituído de sentido mas, uma vez iniciado, não há como travá-lo o que, mais uma vez, se refere diretamente à própria guerra.

Greene podia ter-nos dito tudo isto de uma forma direta e parece-me que o faria tão bem como o fez desta maneira oblíqua. Foi escritor para isso. Pois o que aqui fez, de facto, foi muito bem feito. O conto é ótimo.

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