segunda-feira, 23 de abril de 2018

Lido: O Dia em que Eles Cansaram de Esperar

Há duas ideias particularmente comuns quando se trata de invasões alienígenas. Uma é a do alienígena mau, predatório, que chega à Terra por motivos egoístas, para dar resposta às suas próprias necessidades e não quer saber para nada da população autóctone. Este espelho do ímpeto colonialista europeu é a ideia mais comum, e temos exemplos dela com fartura também na ficção científica lusófona. Vejam-se, por exemplo, tantos dos contos do Barreiros.

A outra, menos frequente que a primeira mas nem por isso rara, é a dos ETs bonzinhos, que nos invadem porque nós somos incapazes de nos governarmos a nós próprios, assim uma espécie de troika interplanetária. É possível argumentar que também esta é espelho do ímpeto colonialista europeu, mas usando desta vez o ponto de vista dos colonialistas — essa ideia de "civilizar os selvagens" era um dos argumentos mais comuns quando se tratava de justificar a opressão colonial. E continua a ser.

É nesta última ideia que O Dia em que Eles Cansaram de Esperar explora.

Embora eu prefira outras abordagens, que também existem, tanto uma como a outra destas duas abordagens mais comuns pode resultar em coisas interessantes, boas ou até muito boas, dependendo de como os autores as exploram. Como sempre, aliás. No abstrato, tudo tem potencial. No concreto é que se vê se esse potencial se cumpre ou não.

Regra geral, há coisas que é bom evitar. Os infodumps são uma dessas coisas. Os longos despejos de informação não em infodump puro mas em diálogo (conhecidos pela expressão inglesa de as-you-know-Bob), são outra. Sermões são outra — há sermões célebres na literatura de língua portuguesa, mas não em obras de ficção (e convém que sejam muitíssimo bem escritos, o que não está ao alcance de qualquer um).

E Renato A. Azevedo não evita nenhuma delas.

O conto, que além do mais não está particularmente bem escrito, inclui um longo sermão sobre a nossa incapacidade para gerirmos a civilização, o as-you-know-Bob é tão evidente que o próprio autor tem necessidade de introduzir no texto uma fala a dar conta dele ("Qual é, Zanin, já sabemos de tudo isso!") e há infodumps em barda com informação sobre os vários tipos de ETs, que não têm surpresa nenhuma para quem já tenha ouvido falar nas teorias da conspiração ufológicas sobre Roswell, abduções e etc. No meio de tudo isto, o enredo principal, uma história de e sobre a resistência aos invasores, quase se perde. Esta história, para ser bem contada, precisaria de ritmo, de ambiência, de personagens sólidas. E este conto não tem nada disso.

É um conto bastante fraco.

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