quarta-feira, 18 de abril de 2018

Lido: A Pele do Piolho

A Pele do Piolho é mais uma das historinhas populares recolhidas por Adolfo Coelho que giram em volta de uma princesa casadoira e dos testes que os pretendentes têm de passar para conquistarem a mão da dita. Esta, no entanto, é muito curta, pouco mais de uma página (incluindo uma ameaça em verso), parecendo versão abreviada de história mais desenvolvida, aqui reduzida praticamente ao osso. O título já sugere a história, pois tudo está relacionado com um piolho que se alimentou durante anos da cabeça do rei, com autorização e por vontade deste, sendo morto quando acaba por ficar gigantesco, a fim de se fazer com a sua pele um tambor. Sim, que nestas histórias mágicas os piolhos não têm exosqueletos como quaisquer outros insetos, mas pele como a gente. Ora, é este tambor que vai ser objeto de uma adivinha, e quem conseguir adivinhá-la conquista a mão da princesa. Há uns sussurros clandestinos ao preferido, mas este não ouve bem e o plano corre mal, até porque aparece outro com melhor ouvido a dar a resposta certa, para grande contrariedade da donzela. Mas nada que uma ameaça não resolva, mesmo se em verso, e no fim tudo fica nos conformes, com cada qual no seu lugar.

Não é grande exemplo de história popular e muito menos de ficção, este. À parte a sugestão de girl power que a ameaça incorpora, o único elemento que achei interessante foi a imagem do rei a andar por aí durante meses ou anos com um piolho gigantesco na cabeça. Mais um exemplo da iconoclastia de várias destas histórias portuguesas, ainda que neste caso o enredo a torne ambígua. E por estranho que possa parecer, essa imagem fez-me lembrar A Longa Tarde da Terra, um belo romance de ficção científica do Brian Aldiss. Quem leu esse livro compreenderá porquê.

Contos anteriores deste livro:

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