quarta-feira, 25 de abril de 2018

Lido: Performance

Publicação portuguesa temática em que o tema seja a guerra e não tenha nenhuma história sobre a guerra colonial seria coisa francamente bizarra. No caso deste número da Ficções, cabe a José Martins Garcia representar esse tema. É autor de que eu nunca tinha lido nada, de quem nem sequer tinha ouvido falar, o que de resto está explicado no texto de contracapa do volume quando se afirma que ele é "hoje muito injustamente desleixado". Desleixado parece realmente ser, agora se o é injustamente ou não, não sei. Só sei que por este Performance me parece que a injustiça não é lá muito grande, mas há que reconhecer que um conto é largamente insuficiente para formar uma opinião sobre um autor.

O conto foi publicado logo em 1974, assim que se abriram as portas da liberdade, a qual incluiu poder-se finalmente falar e escrever sobre a guerra colonial coisas que fossem além da propaganda patrioteira do velho regime. Isto é relevante, não só pela frescura do tema no momento de criação da obra, mas também porque esta me fez lembrar bastante, se não no enredo certamente no ambiente, o filme do Coppola Apocalypse Now. Ora acontece que este filme data de cinco anos mais tarde, portanto não existem aqui inspirações cruzadas; terão sido paralelas.

Sim, o tema é o mesmo: a guerra e a loucura a ela inerente, a sua ausência de sentido. No conto de Garcia segue-se um alferes miliciano que é destacado para um posto militar no meio do mato, provavelmente em Angola. Já não vai lá muito bom da cabeça e ao chegar depara com um sítio de doidos, onde ninguém diz coisa com coisa, e destrambelha de vez, se calhar demonstrando a sensatez das chefias em terem-no destacado para o sítio certo. Além do mais, não há equipamento e o que há não funciona: o contingente está reduzido a uma pressão de ar. E às tantas é atacado à metralhadora.

A ideia podia ter dado uma história ótima. O problema é que Garcia a arrasta ao longo de demasiadas páginas (quase 30), diluindo em palavreado desnecessário, sobretudo diálogos absurdos, o impacto que o conto podia ter tido e tornando-o cada vez mais aborrecido à medida que o leitor se vai apercebendo de que nada mais obterá desta história assim que entenda a ideia de base, o que acontece muito antes das 30 páginas. Logo a história não é ótima. Nem sei mesmo se poderei considerá-la boa. Acho que está ali entre um razoável mais e um bom menos, mesmo apesar de a ter comparado ao Apocalypse Now, que é um filme do caraças.

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