quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Umas notas sobre festivais de canções

Que soe a pythoniana frase "e agora, algo completamente diferente"!

Quem realmente me conhece sabe que a música é uma parte relevante da minha vida. Em miúdo andei algum tempo a aprender piano (e entretanto esqueci-me de tudo), depois peguei numa guitarra e hoje toco por puro prazer (embora seja recordado de quão mal sempre que ouço tocar alguém que realmente saiba o que fazer com o instrumento), mas o mais relevante é que a música me serviu desde sempre como defesa contra muitas agressões, nomeadamente as sonoras. Quando me entram ruídos esúpidos casa adentro, por exemplo, música alta isola-me deles e permite-me manter a funcionalidade.

Não sei se me posso considerar um melómano, mas definitivamente gosto de música e tenho um gosto solidificado ao longo de muitos anos a ouvir muita coisa. Mais: ao contrário de muita gente que chega a uma certa idade e estagna, deixa de ouvir seja o que for além daquilo que já conhece e ama, eu mantenho a curiosidade intacta e ando sempre a ouvir coisas novas.

E acho que tenho bom gosto. Prefiro música com alguma complexidade, com musicalidade. Música estimulante, que não seja sempre a mesma treta. A que prefiro é o jazz, algum rock, especialmente o progressivo (e, desde recentemente, também prog metal que não abuse dos urros), alguma world music, em particular a que mais se aproxima do jazz (flamenco ao jeito de Paco de Lucia, Piazzolla, muita da música portuguesa que tem o fado como base ou influência mas não se deixa prender no espartilho do fado clássico, etc.), o blues, e também alguma clássica. Mas não só; o meu gosto é bastante eclético e, dependendo do estado de espírito, vai de algumas coisas (poucas) de EDM a algumas das mais bizarras experiências sonoras da música concreta e do free jazz, passando por música popular em oposição à popularucha (conhecem um projeto chamado "a música portuguesa a gostar dela própria"? Adoro aquilo), por hip-hop (mas não esta porcaria monótona e lamurienta que está agora em voga, o trap) e por aí fora.

Notam aqui alguma ausência? O pop. Pois.

Não que não goste de pop, assim, taxativamente. Há ramos do pop que me agradam, especialmente o mais indie ou o mais virado para o rock, acho gente como o Michael Jackson ou o Prince artistas de primeira água, e por aí fora. Mas essas são ilhas no imenso mar de mediocridade que é, e sempre foi, a música que recebeu o rótulo de pop. Música formulaica, toda mais ou menos igual, mais preocupada em seguir tendências, em estar na "crista da onda" comercial, em vender, do que em ser arte. Música feita por executivos da indústria discográfica com o único objetivo de encher mais os bolsos aos executivos da indústria discográfica, mesmo quando usam gente que até sabe de música como ferramentas. Música chiclete, como diriam os Taxi.

E detesto particularmente pimbalhadas, ao ponto de fugir (literalmente de mãos nos ouvidos) quando me aparecem à frente.

Em tempos que já lá vão há tanto tempo que já nem todos os protagonistas estão entre nós, os festivais de canções eram um evento cá por casa. A família reunia-se para assistir, tanto ao nosso como ao internacional e, embora sempre tivesse havido canções melhores e canções piores, era raro o ano em que não saía desses concursos qualquer coisa de realmente relevante. Em tempos em que aquela a que na época se dava o nome de "música ligeira" (nunca percebi qual seria a pesada... o metal?) dominava na rádio e nas TVs, muitas das canções que saíram dos festivais, tivessem ganho ou não, fossem ou não realmente bem feitas, tornavam-se êxitos populares. E passaram por lá muitos nomes sonantes da música, tanto a portuguesa (Simone de Oliveira, Fernando Tordo, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, por aí fora) como internacional (só para dar dois nomes: Abba e Celine Dion).

Mas depois, lá pelo fim dos anos 80, princípio dos 90, a coisa começou a descambar de forma significativa. O festival internacional passou a ser mais celebração do kitsch gay em que o que realmente interessava eram as luzes e o "show", cheia da pior versão do pop (que recebeu o elucidativo rótulo de eurotrash) misturado com canções românticas tão pirosas como as nossas pimbalhadas, do que propriamente espetáculo musical. E o português seguiu-lhe o precipitoso rumo, na afanosa procura de uma canção "festivaleira" o suficiente para resgatar a honra nacional depois de décadas de insucessos na tabela classificativa final. O pimba, mais ou menos disfarçado, tornou-se presença assídua.

E a consequência pessoal foi eu ter virado as costas aos festivais de canções e me manter firmemente de costas voltadas para eles durante quase duas décadas. Para mim era lixo. Muitas vezes ouvi-os de longe (quando não me refugiava em auscultadores e outras músicas), porque não moro sozinho e há cá em casa quem não partilhe da minha repulsa, mas ver nunca mais vi.

(Parêntese rápido: esse virar de costas teve uma interrupção no ano dos Homens da Luta. Adorei a ideia de mandar os festivais de canções ao tal sítio com aquele gozo descarado dos Homens da Luta e voltei, mais de uma década depois da última vez, a assistir à final nacional e à meia-final eurovisiva em que o Jel e companhia participaram. E sim, a canção era uma porcaria: era precisamente essa a ideia. Fecha parênteses.)

Tudo isto mudou com o Salvador Sobral.

Como aconteceu muitas vezes antes, não assisti às meias-finais do festival da canção de 2017, mas ouvi-as à distância da sala. E ao ouvir a canção do Sobral arrebitei imediatamente as orelhas. Olá?, pensei, música a sério no festival da canção? Que anormalidade é esta? Dias depois voltei a não ver mas ouvi a segunda meia-final, e depois fiz questão de assistir à final, pela primeira vez em longos anos. Além da canção do Salvador e da irmã, claramente a melhor, vi um espetáculo globalmente fraco, como era hábito, com mais duas ou três canções a destacar-se um pouco da mediocridade geral. Mas também vi outra coisa, quando reuni mais informação sobre este novo modelo de festival que a RTP implantou: compositores de créditos firmados, com excelente música no currículo, compositores que, muitas vezes, não eram adequadamente representados pelas canções que levaram a concurso.

E este ano voltei a assistir ao festival da canção, agora com um interesse acrescido, e voltou a acontecer o mesmo. Vi um espetáculo globalmente fraco, com um punhado de canções interessantes lá perdidas no meio e a sensação de que os compositores, e até vários dos intérpretes, não ficaram adequadamente representados por aquilo que ali apresentaram.

Por outro lado, vi gente que não conhecia, ou pelo menos que não conhecia bem. Vi o Janeiro, com uma das melhores canções, vi a Cláudia Pascoal, que não sei se é capaz de compor alguma coisa de jeito e ainda precisa de ganhar experiência mas tem pelo menos todas as condições para se tornar uma intérprete de primeira água, e fico por aqui para não abusar dos exemplos. Há mais.

Ou seja, confirmei a ideia que me tinha ficado do ano anterior: embora o festival em si mesmo possa ser coisa pouco interessante (até pela própria ideia de competição de canções, que é um bom bocado absurda), ele pode servir para descobrir gente nova com interesse, tanto na parte da interpretação como na da composição. Mas para que esse interesse se cumpra seria de toda a conveniência que o festival não se resumisse a si mesmo, isto é, seria necessário que canções, autores e intérpretes tivessem uma vida que o ultrapassasse. Nem sempre acontece; há gente que vi no ano passado e não voltei a ver desde então, por exemplo.

Felizmente hoje há coisas como o spotify. E havendo coisas como o spotify a tarefa de ver o que há, o que ficou para trás, reunir o que houver de mais interessante e divulgá-lo de forma fácil e rápida fica bastante facilitada. Longe vai o tempo em que se queríamos fazer isso tínhamos de conhecer quem tivesse os discos e gravar em cassetes tudo o que interessasse. Agora é uns quantos cliques e já está.



E é precisamente isso o que tenho vindo lentamente a fazer ao longo dos últimos meses. Tenho vindo a ouvir o que está disponível no spotify dos vários artistas envolvidos no festival da canção deste ano e a reunir numa playlist o que me parece mais interessante. Raramente são mesmo as canções apresentadas no festival (mas há casos), e nem sempre gosto mesmo muito do que lá ponho, mas em geral aquilo que está na playlist são coisas que, a meu ver, vale a pena conhecer e dar a conhecer. E ouvir pelo menos de vez em quando.

E sim, há por lá pop.

Comecei pelos intérpretes, porque era mais rápido e mais fácil (há no spotify um disco que reúne todas as canções apresentadas no festival, associadas aos respetivos intérpretes, e basta um clique para seguir para o resto da discografia... que em vários casos não existe), e estou agora a passar a pente grosso os compositores, que me obrigam a algum trabalho de investigação e têm muito mais coisas por onde escolher. Ou seja: esta playlist vai crescer. Devagarinho. E não, não vou encavalitar lá tudo aquilo que me agradar. Gente como o Palma, por exemplo, tem demasiados hinos para uma playlist deste género. Mas alguns não poderão escapar.

Quem se interessar, aqui a tem.

Talvez um dia, havendo tempo e paciência, faça o mesmo para o festival da canção do ano passado. Talvez um dia me atreva até a fazer algo semelhante ao da eurovisão, que é capaz de também esconder algumas pérolas por trás de toda aquela cacofonia tantas vezes desagradavelmente chunga. Talvez. Para já, fiz isto.

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