terça-feira, 30 de outubro de 2018

Lido: O Príncipe das Palmas Verdes

O Príncipe das Palmas Verdes, um dos muitos contos recolhidos por Adolfo Coelho em Ourilhe, uma minúscula terreola de Celorico de Basto (e não deixa de ser curioso que tanto deste livro tenha vindo de terra tão pequena), é uma das muitas histórias tradicionais, algumas famosíssimas, em que uma pobrezinha acaba casada com um príncipe.

É aí, no entanto, que terminam as semelhanças com histórias como a da Cinderela. A pobrezinha deste conto anda a roubar por necessidade, por não ter o que comer, e é ao fazê-lo que dá com um buraco onde vai encontrar uma mesa posta à semelhança da célebre história dos três ursos e da Caracóis Dourados. Mas aqui não eram ursos os donos da mesa, mas sim "uma pessoa" que a engravida e vem mais tarde a revelar-se o tal Príncipe das Palmas Verdes, que na altura estava enfeitiçado.

Este engravida-a mas acaba por expulsá-la, ainda grávida, obrigando-a a voltar à vida de miséria e a fazer o que for preciso para sobreviver, agora com uma criança nos braços. Mas, claro, histórias destas acabam quase sempre no "e viveram felizes para sempre" e esta, depois de uma série de peripécias, não é exceção.

Mas é uma história interessante. Interessante em boa medida porque, mais uma vez, tem pano para longas mangas de desenvolvimento em histórias maiores e mais elaboradas. Também interessante muito por causa da espécie de moralidade que nela vem incluída. A protagonista é uma boa rapariga com má sorte e comete atos reprováveis porque a vida a força a isso, não porque seja essa a sua natureza imutável. Isto, que segundo tudo indica brota diretamente da forma de estar mais profunda do povo português, está bem longe do puritanismo importado de outras paragens. Posso enganar-me — ainda não as li todas, longe disso — mas parece-me que dificilmente se encontrará uma história assim entre as que foram recolhidas e retrabalhadas pelos Grimm. E isso é para mim muito interessante. Mesmo.

Contos anteriores deste livro:

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