sexta-feira, 11 de maio de 2018

Lido: Cometas

Quando o universo dos fãs de uma determinada coisa é grande o suficiente, a especialização surge de forma natural, com cada um a fazer aquilo que mais lhe agrada e/ou o que faz melhor. Em caso limite surge a profissionalização, ainda que seja frequente que um fã continue a agir como tal em setores diferentes da sua área de profissionalização. Quando o universo é pequeno, pelo contrário, é frequente encontrar-se as mesmas pessoas numa série de papéis diferentes. Na ficção científica, o autor é muitas vezes também editor, resenhista, articulista ou até ilustrador, tradutor, etc., e só muito raramente se mostra igualmente competente nessas várias áreas. Quem conheça minimamente bem as FCs lusófonas já deve por esta altura deste texto ter variadíssimos exemplos em mente. E Cesar R. T. Silva é um desses exemplos.

Fanzineiro, editor, articulista, crítico, ilustrador, etc., etc., etc., o Cesar mantém ainda hoje uma atividade importante como divulgador e compilador bibliográfico da FC brasileira, mas aqui surge como autor, com o conto Cometas (bibliografia), datado de 1990, que mostra que ninguém é competente em tudo. Ou pelo menos que ninguém nasce ensinado.

Trata-se de uma daquelas histórias que se servem da linguagem da ficção científica mas desrespeitam consistentemente quase todo o conhecimento científico sobre aquilo que lhes serve de tema. Pior, fá-lo de uma forma desajeitada, tentando ser poético mas sem qualidade suficiente no manejo da língua e da narrativa para o conseguir. Conta uma história bastante absurda sobre uns quaisquer seres surgidos num antiquíssimo "planetoide pequeno" que não tinha estrela mas tinha um "cometa-Deus" (um comenta sem estrela... sim) que as criaturas desejam alcançar. Mais umas peripécias entretecidas de misticismo, e... e o conto acaba, deixando no ar a ideia de que o autor não soube bem o que fazer com ele.

É um conto muito mau, este. Muita gente (eu próprio incluído) escreve contos destes quando começa a escrever; alguns depois melhoram, alguns melhoram mesmo muito. Outros não. Mas o que vem depois não altera a qualidade do que ficou para trás. Ou a falta dela.

Conto anterior desta publicação:

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