domingo, 13 de maio de 2018

Lido: O Vôo do Ranforrinco

Muito recentemente manifestei aqui na Lâmpada, e por mais que uma vez, a minha exasperação com infodumps, aqueles despejos de informação que tão do agrado são de tantos escritores de ficção científica. Cheguei mesmo a apelidá-los de praga. No entanto, também disse que é possível fazê-los bem, pretendendo com isso dizer que há alturas em que eles são usados de uma forma que em vez de jogar em detrimento da obra a melhora. Para tal, dei o exemplo de infodumps particularmente bem escritos mas esse não é o único exemplo que poderia ter dado; podia ter falado também de infodumps que fazem absoluto sentido no contexto da obra.

É este o caso em O Vôo do Ranforrinco (bibliografia), um conto de ficção científica espacial de Gerson Lodi-Ribeiro. Relata uma interessante história de exploração falhada de Marte. Interessante porque os exploradores não são humanos, coisa que o leitor vai descobrindo aos poucos, através de pormenores sucessivos que causam um cada vez maior estranhamento, e porque o motivo do falhanço é totalmente misterioso. A história abarca dois momentos muito diferentes; um, o momento da exploração de Marte, que se situa no passado longínquo, e o outro, o momento do desenlace, localizado num futuro comparativamente imediato (mas mesmo assim a alguns séculos de distância do nosso presente). O conto vai saltitando de um momento para o outro, ou pelo menos entre as personagens pertencentes a cada um desses momentos. E, o que é fulcral, ao passo que no segundo momento usa uma vulgar narrativa em terceira pessoa com diálogos e breves momentos descritivos, no primeiro o tom é bem diferente, consistindo em citações do diário de bordo de uma nave espacial. Ora, a função de um diário de bordo é, precisamente, o registo de informações. E assim ficam justificados os infodumps.

Este conto é um ótimo exemplo de como a FC pode lidar bem com este tipo de estrutura. É através das informações registadas no diário de bordo que ficamos a saber a grande maioria daquilo que constrói a história, ao mesmo tempo que o mistério vai sendo aprofundado, e o que falta é transmitido em diálogos nos quais quem investiga o mistério transmite as informações que conseguiu recolher ou deduzir a pessoas que ignoram essas informações e delas precisam para tomar decisões.

Mantenho que os infodumps são uma praga. Mas na verdade o que os transforma nisso é mais a inabilidade com que são usados por tantos autores do que alguma característica que lhes seja intrínseca. Quando não passam de uma forma preguiçosa de transmitir informações ao leitor raramente prestam; quando são bem pensados e a sua presença é coerente e justificada, podem ser uma mais-valia. E neste caso são-no de forma clara. Este é um conto de FC bastante bom, com infodumps e tudo.

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