terça-feira, 3 de março de 2020

Fernando Correia da Silva: Maresia (#leiturtugas)

Tem sido assim há algumas décadas: sempre que eu acho que se calhar sou capaz de já conhecer toda a ficção científica portuguesa que se foi publicando por aí, seja por a ter lido, seja por dela ter tido conhecimento através de leituras alheias, lá aparece qualquer coisa a desmentir tal convencimento. Normalmente é um conto aqui, outro ali. Mas por vezes são livros inteiros. Incluindo romances. Como este.

Nunca tinha ouvido falar de Fernando Correia da Silva até ter tropeçado neste Maresia, algum tempo antes da editora fechar as portas. Comprei o livro apenas porque a sinopse me chamou a atenção, e todos os leitores sabem como as sinopses por vezes são enganadoras, mas fi-lo sem grande esperança de encontrar aqui algo de interessante, até porque a capa remete mais para um livro de poesia budista do que a alguma coisa que mexa mais de perto com o meu gosto. Mas desta vez a sinopse acertou e a capa não. O livro é um romance de FC, variante distópica. Ou vá, que está na moda: uma distopia. Uma distopia política, mais propriamente.

Estamos, aparentemente, no futuro. Sem que seja explicado como — e não é necessário — uma estranha forma de teocracia tomou conta do país (do mundo?), que agora é governado por mandarins (uma piscadela de olho ao Eça?) sob a autoridade não só nominal mas efetiva do Papa. A teocracia levou de uma forma igualmente misteriosa a uma alteração profunda das relações sociais e sexuais entre homens e mulheres. Os dois sexos vivem agora separados, os homens nas várias estruturas económicas e de poder, as mulheres em gineceus, uma espécie de guetos murados, acompanhadas pelos filhos pequenos de ambos os sexos. A líbido é inexistente... exceto um mês por ano, durante janeiro, altura em que explode com violência. Então, os homens invadem os gineceus, num frenesim de sexo e pancadaria que só termina ao terminar o mês, e aí são recebidos pelas mulheres, que não estão menos irracionais, menos afetadas pelo cio brusco, mas que mesmo assim são sujeitas a todas as formas de indignidades. É a "maresia" do título.

O romance segue a vida de um rapaz inteligente, primeiro no gineceu da mãe, depois como jovem cativado por um dos mandarins, depois como guerreiro, um dos homens de confiança do mandarim, um dos "fortes", por aí fora. Embora a abrangência temporal seja aqui bastante mais vasta, há muito em comum na progressão do protagonista com o bombeiro Montag de Fahrenheit 451, de jovem ingénuo a revolucionário. Porque é nisso que o protagonista de Correia da Silva se transforma: num revolucionário. Alguém que quer acabar com o sistema da maresia e dos gineceus e dos mandarins e do reino da força como único poder verdadeiro, com a própria teocracia de que o papa se serve simplesmente para enriquecer. E não tem nisso mais sucesso do que Montag, pelo menos na aparência, acabando em fuga e perseguido.

Mas não um revolucionário qualquer. Como em muitas outras distopias, também nesta o protagonista é uma espécie de revolucionário conservador, alguém que deseja reverter as alterações políticas e económicas (e neste caso também biológicas) que transformaram a sua sociedade num pesadelo, trazendo-a de volta a um estado próximo da sociedade do autor, encarada como "normal". Contudo, ao mesmo tempo, Fernando Correia da Silva aproveita para criticar alguns elementos da sociedade que temos (a ganância, a exploração dos fracos pelos fortes, ou seja, do homem pelo homem, a desigualdade sexual, etc.) por via do exagero. Com um ponto de vista que se não é marxista dá uns certos ares disso. Mas há neste livro uma certa ambivalência, o que também o aproxima de outras distopias, e também algum desencanto, pois o livro não termina propriamente numa nota de esperança, mesmo que o autor se esforce por deixar entreaberta essa possibilidade.

E é um livro com uma brutalidade intrínseca que chega a fazer lembrar as ficções, também muitíssimo distópicas, de Telmo Marçal. Toda a sociedade se baseia em relações de força bruta, e por isso a violência e a morte violenta estão sempre presentes, a pairar sobre todos. E Correia da Silva usa um estilo narrativo a condizer, com uma prosa seca e despida de qualquer sinal de sentimentalismo, frases curtas e capítulos também curtos, nos quais os acontecimentos são descritos em primeira pessoa pelo protagonista. É o seu ponto de vista que o leitor acompanha, e é à sua forma de encarar o que o rodeia que se vai habituando. Nem sempre é fácil: o tipo pode até ter boas intenções, até pode ser invulgarmente inteligente, mas não deixa de ser um brutamontes, com uma racionalidade muito própria, baseada num conjunto de valores que, no fundo, são aqueles que a educação numa sociedade daquelas lhe deu. Mesmo a sua relação com a mulher que escolhe no fim para compartilhar aquilo a que chama "suave maresia" traz consigo uma frieza e um calculismo que quase arrepiam.

Este é, portanto, um romance interessante de ficção científica portuguesa que parece ter passado completamente ao lado dos leitores habituais do género. Não me lembro de ter visto alguma referência a ele entre 2003, a data de edição, e o momento em que este texto foi publicado. E é pena, até porque entretanto a editora faliu e por isso não sei se ainda é possível encontrar o livro em algum sítio.

Eu ainda consegui comprá-lo, meio por acaso. E ainda bem que o fiz.

2 comentários:

  1. Não conhecia. Porcaria de capa, realmente. Detalhes bibliográficos?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tens aqui a ficha do Goodreads: https://www.goodreads.com/book/show/8538874-maresia

      Eliminar