sexta-feira, 2 de março de 2012

Lido: O Burlington Northern no Sentido Norte-Sul

O Burlington Northern no Sentido Norte-Sul (bib.) é mais um continho de Bruce Holland Rogers cheio de humanidade e de poesia do quotidiano. O protagonista é um tímido, com uma paixão platónica por uma inacessível Christine, à qual tenta chegar por intermédio de um poema. Em tempos há muito idos, essa abordagem talvez tivesse resultado, mas hoje? Ná. E piores ficam as coisas quando o poema compara a mulher amada ao Burlington Northern, um comboio. Que mulher tem a sensibilidade para compreender porquê? Nenhuma, certamente. Sim, há uma deliciosa ironia nesta vinheta que talvez compreendam se a encontrarem no que aqui escrevi.

Lido: O Sol é que Alegra o Dia...

O Sol é que Alegra o Dia... (bib.) é uma noveleta de João Ventura que ficciona a vida e a obra de uma personagem real, o Padre Himalaya, sacerdote católico e inventor português da transição entre os séculos XIX e XX. Na vida real, Himalaya foi pioneiro no aproveitamento da energia solar e inovou no campo dos explosivos, mas as suas invenções não foram aproveitadas. A história de Ventura altera apenas este último (mas fundamental) detalhe, descrevendo o que poderia ter sucedido caso Himalaya tivesse encontrado um ambiente mais recetivo, e tivesse podido desenvolver as suas ideias mais aprofundadamente. Trata-se, portanto, de uma história alternativa com uma abordagem bastante semelhante à que eu próprio segui em Unidade em Chamas, a novela que publiquei na mesma antologia, diferenciando-se apenas no protagonista (no meu caso Bartolomeu de Gusmão) e no grau de proximidade com o ponto de divergência. Ventura começa a sua história ainda antes do ponto de divergência, com Himalaya ainda no seminário, e vai acompanhando a par e passo os desenvolvimentos tecnológicos que dele resultam, ao passo que a minha história se desenrola décadas depois do ponto de divergência que escolhi, já com a tecnologia plenamente desenvolvida.

É escusado dizer, portanto, que esta abordagem à história alternativa e ao retrofuturismo me agrada bastante, especialmente quando bem executada. E Ventura executa-a bem, conseguindo um bom equilíbrio entre o desenvolvimento da história e as informações técnicas sobre os inventos de Himalaya que vai espalhando pelo texto, conseguindo ser até didático sem no entanto se deixar cair em infodumps excessivos e escusados... quase nunca. A única parte que me pareceu excessiva e que eu teria abreviado, ou até retirado, talvez, é o discurso final do protagonista. Fora isso, a noveleta pareceu-me muito bem conseguida, mesmo muito bem conseguida. Nada mais a di...

Bem, há mais uma coisinha a dizer. Nada tem a ver com a qualidade do conto de João Ventura, em nada a belisca. Mas não consegui perceber o que teria esta história de steampunk. Se por um lado ainda bem que ela foi publicada, porque o merece plenamente, por outro, no livro em que veio a público, é um pouco um corpo estranho. E isso pode não ser bom para a avaliação que alguns leitores farão da história.

Mas este leitor ficou bastante satisfeito com ela. E isso é tudo o que (me) importa.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Transignorâncias 3: Para que raio (não) serve aquilo?

Antenota: Para a Lâmpada regressar por completo depois da pausa de janeiro faltava apenas reatar estes artigos mais longos, globalmente intitulados transignorâncias. É agora. E começo por um tema que já aqui foi falado, ainda que não sob este ponto de vista. A coisa dá muito pano para mangas. Tanto que vai daqui sair mais do que uma transignorância. Conto com três, publicadas em semanas sucessivas.


Vamos a isso? Vamos a isso.

No meio do muito lixo que tem sido escrito contra a nova ortografia do português, tanto por gente que não tem qualquer obrigação de saber mais do que o quase nada que sabe sobre a língua, como por quem estaria obrigado a não produzir tanta asneira (por motivos misteriosos, que um dia a ciência talvez consiga desvendar, estes últimos são carinhosamente tratados por alguns de nós como “graçamouras”), há uma objeção que felizmente não é carapuça, porque se fosse os partidários da atualização ortográfica teriam muita dificuldade para a tirar da cabeça.

É que se disserem que a utilidade do acordo ortográfico tem sido pouco e mal explicada só vos poderemos responder com um “pois”. E isso tem consequências nada misteriosas na atitude de parte do público. Se me disserem que tenho de mudar x e y e não me explicarem porquê de forma que eu entenda e aceite, vou chatear-me, ah pois vou. É natural. É humano. Era de esperar. E devia ter sido acautelado.

Para piorar as coisas, há alguns partidários do acordo que parecem estar tão confusos como os graçamouras, e se põem a disparatar quase com o mesmo grau de incompreensão de que estes costumam dar mostras, ainda que de uma forma, em geral, menos carroceira. Isso só aumenta a confusão. Imaginar utilidades facilmente desmascaráveis está ao mesmo nível rasteiro de debate das catástrofes linguísticas que os graçamouras gostam de inventar e, em vez de ajudar a um esclarecimento cabal do que está em causa e se pretende, só aumenta a confusão. Ora, a oposição ao acordo ortográfico medra na confusão e na ignorância. Tentar combatê-los com confusão e ignorância não é só inútil, mas contraproducente.

Daí que fosse bom que a utilidade da atualização ortográfica fosse claramente explicada duma vez por todas. É o que vou tentar fazer aqui, tal como a entendo. Não faço parte da equipa que preparou o AO, logo não sei o que eles tinham em mente, mas sei uma coisinha ou duas sobre esta língua portuguesa que é o meu instrumento de trabalho, tenho um cérebro funcional na cabeça e fiz umas coisas que a esmagadora maioria dos opinadores que por aí pululam não fez: li o acordo de fio a pavio, li vários materiais respeitantes às mudanças ortográficas anteriores do português, informei-me sobre as questões ortográficas por que passaram e continuam a passar outras línguas, devorei, em suma, toda a informação sobre o assunto que me passou pelas mãos. E, mais importante do que tudo o mais, pensei. Coisa rara, bem sei.

Em resultado, não estarei na posse da verdade completa, mas pelo menos faço uma ideia bastante aproximada dos motivos que levaram à maioria das mudanças e sei apontar para os disparates com um grau bastante elevado de segurança.

Vamos lá então. Começando por desmascarar fantasmas.

Têm dito, uns e outros, e com variadas nuances, que a nova ortografia vai mudar a língua. Uns, entre purismos descabidos e uma xenofobiazinha mal disfarçada, afirmam que essa mudança equivale a uma degenerescência e a um abrasileiramento, o que para eles é a mesma coisa, outros que as alterações ortográficas vão reunificar a língua, e que isso a fortalece. Isto entre muitos outros exemplos de mudanças que eles preveem que virão a ser operadas por via ortográfica.

Os exemplos são, de facto, muitos. Mas estão todos errados. Todos.

Porque a ortografia é apenas uma forma de representar a língua em forma escrita e disso não passa.

Fixem bem. E. Disso. Não. Passa.

Antigamente, quando a linguística não era propriamente uma ciência e os linguistas eram uns senhores formados nas faculdades de letras que não só não percebiam nada de ciência como a odiavam com todas as forças, e tinham uma formação e formatação intelectual que punha a palavra escrita acima de toda a evidência, preferindo portanto procurar respostas em calhamaços empoeirados escritos por ilustres antepassados a ir em busca delas ao mundo real, compreendiam-se até certo ponto as ideias feitas sobre influências ortográficas sobre a fala. Até certo ponto; afinal, a vastíssima maioria dos utilizadores e, portanto, manuseadores e alteradores da língua, eram analfabetos, e já nessa época não fazia qualquer sentido que regras sobre como as palavras se deviam escrever influenciassem o modo como a população analfabeta as pronunciava. Mas enfim; apesar desta incoerência de pensamento, justificada com preconceitos de classe que eram na época muito mais fortes do que são hoje (e hoje ainda são fortes demais, em especial em certos meios), é compreensível que tais ideias subsistissem numa disciplina que ainda permanecia no estado pré-científico.

Mas entretanto, a ciência-a-sério meteu o seu nariz curioso na questão linguística, aprendeu-se um mundo de nova informação e surgiram disciplinas inteiras baseadas parcialmente nas ciências naturais. A biolinguística, a neurolinguística, a pedolinguística até, em parte, a paleolinguística e a sociolinguística, são bons exemplos. E o que estas novidades deixaram claro, comprovado, indiscutível, é que a língua é a fala. Ponto.

Portanto, não será por se alterarem algumas regras na forma de representar a fala que esta vai ser alterada. Tirem o cavalinho da chuva os que falam em reunificação linguística ou os que preveem a chegada iminente dos cavaleiros do apocalipse causada pela supressão de uns cc e de uns pp quando escrevemos certas palavras. Isso não vai acontecer. Nada disso. As pessoas, nos anos mais próximos, vão continuar a falar como até aqui, e as dos vindouros falarão de forma diferente porque a língua, isto é, a forma de falar, vai continuar a mudar como tem vindo a mudar até hoje, tão lenta e irresistível como um glaciar. Poderíamos revolucionar por completo a forma de escrever português, podíamos trocar de alfabeto, podíamos arranjar até formas não alfabéticas de escrever a língua, que esta não mudaria um milímetro que fosse. Isto está comprovado. Mas as velhas ideias custam a morrer.

E antes que me venham com o velho exemplo do sc etimológico, que terá alterado a pronúncia de um conjunto de palavras relativamente numeroso (nascer, descer, etc.), deixem-me dizer-vos duas coisas. Uma: esse é o único exemplo comprovado e indiscutível de uma influência ortográfica sobre a pronúncia das palavras. O único; não há mais. E duas: não foi a ortografia que causou a alteração, mas sim a ignorância e a presunção de uma camada da população.

(Abro um parêntesis para dizer, já agora, que me parece soberanamente ridículo que se apresente um exemplo de uma deturpação da língua ligada à escrita etimológica para contestar que se abandone outros resquícios etimológicos em prol de uma escrita mais baseada na fonética, porque, pasmai senhores!, isso vai deturpar a língua! Fechar parêntesis, abanando a cabeça e sufocando um risinho.)

As línguas mudam oralmente. E há muito que em Portugal existe uma camada de pacóvios de alta e média-alta sociedade, muito mais preocupados com a aparência do que com a substância, que são presas fáceis para modismos disparatados (e se duvidam, leiam Eça). Junte-se as duas coisas, e que temos? Um grupo de gente que se convenceu de que, se se escreve aquele s em nascer, ele tem de ser dito, e toca de alterar a pronúncia. Era um grupo bastante pequeno numa sociedade esmagadoramente analfabeta que pronunciava “nacer” como a língua tende a querer que se pronuncie, mas era também um grupo desproporcionadamente influente. Era dele que saíam os mestres-escola, era dele que saía a maioria dos padres, era dele que saía boa parte da intelectualidade do tempo. E foi assim que a pronúncia dessas palavras mudou: porque essa gente ignorava as correntes profundas da língua, confundiu etimologia com fonética e começou a “corrigir” algo que não queria correção. A culpa não foi da grafia. A culpa foi da ignorância e da tendência muito humana de se dar ouvidos a ignorantes com prestígio social. E a mudança deu-se oralmente. Quando as pessoas ouviram os padres falar. Quando as crianças aprenderam a falar no seio de famílias dessas, e mais tarde no seio das restantes. Quando foram para a escola e foram corrigidas por professores completamente inconscientes de que as correções que estavam a fazer eram disparatadas.

Estamos livres de isso voltar a acontecer?

Evidentemente que não. Mas, e isto é muito importante porque estas alterações nascem de modismos movidos a ignorância, é impossível prever quais se darão no futuro. Não só é impossível prever que modismos surgirão, mas mais impossível ainda é prever quais solidificarão em alterações de longo prazo na pronúncia das palavras, pois a maioria das modas linguísticas tão depressa surge como desaparece sem deixar rasto. Enraízam-se algumas, e à partida ninguém pode adivinhar quais.

Portanto, quando depararem com seja quem for que afirme com toda a certeza que se fizermos isto à língua acontece aquilo, ignorem esse ignorante. É alguém que não sabe nada sobre a língua, que não faz a mais pequena ideia dos motores da sua evolução, que está completamente a leste de tudo isto. Na língua, o máximo que se consegue fazer é analisar o que aconteceu no passado e dizer que, dados os exemplos anteriores, é possível que as condições presentes resultem em x e y. Não certo: possível. E isto funciona tanto melhor quanto mais longo o prazo a que os exemplos se referem. Querem um exemplo para entender melhor? Ei-lo: é muito mais provável que a língua portuguesa continue a desfazer-se de consoantes duplas como vem fazendo há largos séculos, desde a sua separação da raiz latina (provavelmente desde antes, até), do que que a pronúncia separada do s e do c em “nascer” se mantenha por muito mais tempo. Na verdade, não só a pronúncia inadulterada de “nacer” ainda resiste em certas zonas do espaço lusófono, como nas outras o sc tende a fundir-se em x, ouvindo-se frequentemente a palavra a ser pronunciada como “naxer”. Ou “dexer”. Ou “condexender”.

(Outro parêntesis para dizer que ainda bem que o mesmo não aconteceu com a velha sciencia, senão teríamos provavelmente um dia um povo inteiro a falar de xiência, palavra que é, convenhamos, bem mais feia do que ciência.)

Resumindo: não, alterações ortográficas não mudam a língua. Ponto, parágrafo. Não nos porão a falar “brasileiro” nem aos brasileiros a falar “lusitanês”. Não irão fechar mais o português de Portugal nem irão abri-lo. Essas são coisas que só as modas linguísticas podem fazer, e estas podem ter origem em tudo e mais alguma coisa, mas muito em especial na ignorância. E é por isso que o aspeto mais preocupante de toda esta discussão em volta do acordo ortográfico é a brutal ignorância que ela tem revelado, especialmente em certos setores que tinham mais que obrigação de saberem alguma coisinha sobre isto. E é por isso que seria fundamental que quem de facto sabe, em vez de se encerrar nas torres de marfim da academia, interviesse, explicasse, ajudasse a destruir velhas ideias bolorentas encasquetadas nas cabeças pouco arejadas que por aí abundam. Há alguns bons exemplos, mas são insuficientes.

Mas este é só um dos fantasmas que por aí andam. Revela-se de muitas formas diferentes e é exibido com grande frequência, mas é só um. Vamos a outro.

“Ah, e tal, que isto é tudo para fazer negócio.”

Bem, não sejamos ingénuos, sim? A língua portuguesa é fundamental para a economia dos países que a usam. Um estudo feito há uns anos estimou que a língua vale quase 20% do PIB português. Logo, é óbvio que há interesses financeiros envolvidos em tudo isto.

Só que se calhar não são bem os que vocês podem pensar.

Para princípio de conversa, sim, houve editoras que se apressaram a lançar dicionários segundo a nova ortografia, guias disto e daquilo, etc., mas estou aqui capaz de apostar que essas edições tiveram bem menos sucesso do que as editoras estariam à espera. É que toda a informação necessária a quem quer usar bem as novas regras está disponível na net, à distância de um clique. Eu, que trabalho em exclusivo com a nova ortografia já vai para três anos, não tenho um único dicionário com ela. Continuo a usar os dicionários que já tinha, dicionários que obedecem às regras ortográficas instituídas em 1911 e alteradas nos anos 40 e 70 do século passado. Quando estes se estragarem, o que, com o uso que lhes dou, é coisa certa, logo compro novos. Segundo as novas regras.

Sim, os livros escolares têm de vir com a nova ortografia. Mas acontece que eles mudam todos os anos, ou quase, portanto haveria livros novos com AO ou sem ele. Até pode haver bons motivos para achar esse negócio escandaloso, mas já o era antes do AO, e continuaria a ser se nunca tivesse existido nenhum acordo ortográfico.

Sim, houve livros publicados a explicar a nova ortografia. E também houve livros publicados a contestá-la. Tanto dinheiro estão a fazer alguns dos que a promovem como alguns dos que a combatem e a grande maioria das pessoas envolvidas no debate não tem ganho com ela um tostão furado. Para cronistas que já o eram antes do debate ter início, tradutores que já traduziam na antiga ortografia e continuaram a traduzir na nova, jornalistas que idem aspas, e mais uma série de eteceteras, o facto de se alterar a ortografia foi rigorosamente irrelevante em termos financeiros.

A passagem do tempo é muitas vezes coisa chata. Envelhece-se, ganha-se rugas e cabelos brancos, tem-se desilusões e desapontamentos, morrem-nos entes queridos, quebram-se-nos os corações. Mas também tem as suas vantagens, e uma delas está em poder ver-se o que valiam certas posições e afirmações. Uma que apareceu frequentemente há três ou quatro anos dizia que vinha aí uma invasão de brasileiros, que o AO tinha sido concebido por eles para dominar isto tudo.

A-hã… pooooois… Digam-me, que é deles?

Não sei de nenhum caso de editoras brasileiras que se tenham instalado em Portugal desde a entrada em vigor da nova ortografia. Os casos que conheço são anteriores, alguns muito anteriores (há casos de intercâmbio editorial entre Portugal e o Brasil desde… bem, desde sempre), e nenhum dos mais recentes correu particularmente bem. Pelo contrário, a nossa Leya instalou-se no Brasil depois da nova ortografia, e com toda a força. Tenho aqui um dedo que adivinha que o teria feito mesmo sem AO nenhum; afinal, fez o mesmo em Angola, e por lá, embora tenham assinado o acordo como toda a gente, ainda não o ratificaram, portanto ainda não o puseram em prática.

Ponhamos os pezinhos na terra, sim? O Brasil é muito mais apelativo para as empresas do ramo do que Portugal. Porque enquanto nós definhamos sob a botifarra da troika e do Merkozy, eles lá crescem. Porque enquanto nós temos, com muito boa vontade, uns cinco milhões de leitores, eles lá têm talvez uns quinze ou vinte; lê-se proporcionalmente menos no Brasil, é certo, mas, como a população é muito maior, o total de leitores também é. Porque as nossas empresas têm de depender de distribuidoras para cobrir um país que é maior do que às vezes parece, enquanto eles lá nem precisam de cobrir o seu gigantesco território, porque só nas duas maiores zonas metropolitanas, Rio de Janeiro e São Paulo, vivem alguns 30 milhões de pessoas, mais do que suficientes para dar sustentabilidade a pequenas editoras. Querem mais motivos? Olhem que há.

Portanto, se há interesse em penetrar no outro grande mercado da língua, ele existe muito mais do lado português do que do brasileiro. O Brasil, para Portugal, é importante; Portugal, para o Brasil, nem por isso. E se julgam que o AO tem nisso grande influência, desiludam-se.

Posso dar-vos o meu exemplo pessoal. Sim, é verdade que uma das minhas traduções foi comprada pela Leya Brasil e foi publicada por lá, com grande sucesso comercial. Parece que os livros do Martin têm feito no Brasil tanto sucesso como cá, e também lá andam a competir pelos primeiros lugares dos tops de vendas. Mas a tradução foi adaptada, não foi publicada como cá. E este não foi o primeiro caso de uma tradução portuguesa reutilizada no mercado brasileiro, muito longe disso (é outra das tais coisas que existem desde sempre), nem será o último.

E o impacto que isso teve na minha conta bancária… meh.

Além do mais, os mercados estão separados. Quando se compram os direitos de tradução, compram-se para Portugal ou para o Brasil, não para a língua portuguesa como um todo. Porque apesar de falarmos a mesma língua, falamos dialetos diferentes e isso, como já vimos, não é nenhum ajustamento ortográfico que poderá alterar. Com AO ou sem ele, os livros continuarão a ter maioritariamente uma tradução cá e outra diferente lá. Ou várias; há livros que têm basicamente uma tradução por edição. E isto não acontece tanto por uma questão de interesses financeiros, como de realidades linguísticas.

(Mais um parêntesis para uma ressalva: é muito provável que a entrada em força do digital no setor do livro acabe por alterar esta realidade. Mas, de novo, isso acontecerá com AO ou sem ele.)

E acabámos por chegar a quase três mil palavras (que estabeleci como limite absoluto para estas publicações) só falando de duas coisas para que o AO não serve. Vou deixar por aqui. Talvez ainda volte a esta primeira parte, não sei; talvez não valha a pena, uma vez que a maior parte das pessoas fala de uma qualquer variante do primeiro ponto que abordei, e há outras coisas para as quais se diz que o acordo serve que estão só um pouco ao lado daquilo para que realmente serve. Talvez fale dessas na última parte. Mas por hoje fico-me por aqui. Prometendo continuar, claro.

Transignorâncias anteriores:

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Lido: Génesis - Apocalipse

Génesis - Apocalipse é um conto de ficção científica de Roberto Mendes. Na verdade, trata-se de uma fanfic de Isaac Asimov, mais especificamente da sua (e de Silverberg) obra O Homem Positrónico. Pega no universo criado por Asimov, e até na sua personagem robótica NDR-113, aliás, Andrew Martin, mistura-os com mitologia cristã e sobe a escalas cosmológicas, como aliás o próprio título indica. É contado, de forma bastante exclamativa, por um extraterrestre nunca nomeado (aliás, um extra-universal), à boa maneira do vilão cinematográfico que, antes de fazer maldades aos heróis em apuros, as explica detalhadamente. Nada é mostrado; tudo é contado.

O conto tem algumas ideias interessantes, mas não me agradou. Apesar de Mendes resistir aqui aos excessos líricos em que costumava embarcar, acho muito duvidosa (e na verdade muito desnecessária; as ideias que o conto expressa poderiam perfeitamente, e provavelmente deveriam, ter sido incluídas num universo próprio do autor) a apropriação do universo de Asimov, em especial numa obra que se destina a ser publicada em livro. Ainda por cima, essa apropriação inclui algum desrespeito por certas pedras basilares das histórias de robôs de Asimov: as Três Leis e um firme ponto de vista racionalista. Ou seja: tudo somado, achei fraco.

Lido: A Queda de Roma, Antes da Telenovela

A Queda de Roma, Antes da Telenovela é um conto de FC política, de Luís Filipe Silva, sobre um político da velha guarda mergulhado num admirável mundo novo em que a política propriamente dita foi substituída por tecnocratas que gerem a coisa pública como se de uma empresa se tratasse e o sistema tem como base referendos a propostas colocadas online. Há um pouco mais de sofisticação no sistema, descrito num longo infodump, mas em resumo é isto. O protagonista está convencido de que na busca da eficiência levou a sociedade à perda de visão de futuro, e por isso prepara uma última proposta para acabar a sua carreira em apoteose, um ambicioso plano que, julga ele, poderá devolver à sociedade a chama que lhe falta.

É um conto interessante, que coloca questões relevantes e que ressoam com demasiada familiaridade em certos aspetos da atual situação política da Europa, apesar das distâncias e das diferenças. Gostei, embora não me tivesse entusiasmado. Compreendo, por exemplo, o velho obsoleto, isolado e algo ludita, em contraponto com uma noosfera praticamente monolítica, como artifício literário necessário para o autor chegar onde quer chegar, mas acho que tem como consequência uma diminuição da verosimilhança global da história. É que não só não me parece crível que alguma vez se atinja uma tal uniformidade de ideias sem alguma espécie de controlo externo dos pensamentos, como o que normalmente acontece é que é quem tem ideias novas a ficar isolado perante um mar de incompreensão, não quem as tem antigas. Quanto mais não seja porque estas são bastante mais familiares do que aquelas, a menos que a sociedade sofra de alguma espécie de violenta amnésia coletiva.

Afinal, até em Fahrenheit 451, os rebeldes da sociedade alienada que Bradbury descreve são um grupo razoavelmente numeroso de pessoas, não um indivíduo isolado.

Todavia, o próprio facto do conto gerar este tipo de reflexões é testemunho da sua qualidade. Não se trata de uma FC de mascar e deitar fora e isso, para mim, é bom.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lido: O Caminho

O Caminho (bib.), de José Régio, é mais um conto onírico dos muitos que me têm passado pelas mãos — e pelos olhos — nos últimos tempos. Contado na primeira pessoa, relata o que faz e pensa o protagonista ao achar-se perdido, a pé, numa estrada rural nas imediações, pensa ele, de Vila Meã. É pesadelo típico. O pobre do homem vai andando estrada fora e, ou não encontra vivalma, ou quem encontra age de forma bizarra, recusando-se a ajudá-lo quando lhes pede indicações para voltar à vila. E a coisa vai-se tornando cada vez mais aterradora até que acontece o que costuma acontecer nos pesadelos: o sonhador acorda.

De novo, não gostei muito. Não há no conto qualquer surpresa, ele progride como os pesadelos progridem sempre, termina como os pesadelos terminam, apesar do final pretender deixar no ar uma certa dúvida. Ou seja: uma vez que compreendemos que o que estamos a ler é um pesadelo, estamos em território conhecido (a menos que nunca se tenha tido um sonho destes, o que é pouco provável) e já estamos à espera do que vem a seguir, mantendo-se apenas em dúvida como decidirá o escritor sair do sonho que relata. E o modo como Régio sai não me parece grande espingarda.

Sim, o conto está bem escrito. Por esse lado não há queixas. Mas não me chegou.

Lido: Déjà Vu

Déjà Vu é um pequeno conto de fantasia do espanhol Antonio Cebrián sobre o que acontece ao chegar-se ao fim da vida. Filosófico, como convém, e algo místico, como talvez fosse evitável, o continho responde a essa derradeira pergunta de uma forma que me pareceu bastante irónica, embora não esteja seguro sobre se a ironia terá sido intencional. Não será grande spoiler se a revelar aqui, suponho, uma vez que está claramente indicada no próprio título. Ao chegar-se ao fim da vida, segundo Cebrián, volta a viver-se a mesma vida. A mesma. Pode mudar-se tudo, mas tudo fica igual. E daí a sensação de déjà vu que nos assalta de vez em quando.

Não gostei por aí além, confesso. Achei a narração na primeira pessoa um bom bocado desastrada, por exemplo, e o tema não me pareceu particularmente bem tratado. Mas isso, lá está, sou eu. Vocês, se quiserem, podem avaliar por vocês mesmos o que acham. Está aqui. Em espanhol, naturalmente. É o primeiro conto.

Lido: A Vingança de Nitocris

A Vingança de Nitocris (bib.) é um conto de Tennessee Williams que leva os leitores ao Antigo Egito e conta uma história de vingança e rebeldia. Em Tebas, um faraó atreve-se a ir contra os costumes religiosos instituídos e torna-se por isso odiado pelos seus súbditos. Do ódio nasce uma conspiração e esta resulta em assassínio; o faraó é morto e os que o mataram coroam a irmã. Mas esta vai fazer cair uma vingança cruel sobre aqueles que lhe mataram o irmão.

É um conto interessante, em particular onde toca as relações entre o poder e a religião, o que faz dele um conto surpreendentemente maduro se tivermos em conta que foi a primeira obra publicada de Tennessee Williams, escrita quando o autor tinha apenas 16 anos. Não o considero um grande conto e, na verdade não concordo lá muito com a sua inclusão em antologias de horror, pois de horror pouco me parece ter: trata-se fundamentalmente de um relato ficcionado de acontecimentos descritos pelo historiador grego Heródoto, ainda que a veracidade desses acontecimentos pareça ser duvidosa. Mas é um interessante prenúncio de uma carreira de sucesso nas letras americanas, isso sem dúvida.

Contos anteriores desta publicação:

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Lido: Postal de São Valentim

Postal de São Valentim (bib.) é uma pequena historinha de Bruce Holland Rogers, em parte trágica, em parte ternurenta, sobre um homem que, para se redimir de erros antigos que acabaram arruinando-lhe o casamento, decide entregar a uma estranha o postal de São Valentim que não entregara à sua ex-mulher. Mas as coisas não correm bem como ele estava à espera; correm bem pior. Ou bem melhor, dependendo do ponto de vista. É outra história praticamente perfeita, em que Rogers mostra toda a sua subtileza e revela vidas inteiras em meia dúzia de palavras. Muito bom.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Lido: O Tesouro da Rainha do Sabá

O Tesouro da Rainha do Sabá (bib.), do meu quase conterrâneo Nuno Júdice (é da terra do meu pai, uma das freguesias aqui do concelho, a uns 6 ou 7 km da cidade), é uma noveleta surrealista e onírica que, apesar de estar bem escrita, não me agradou. Júdice é mais poeta que contista, e isso significa que entre a história e a formosura da frase escolhe sempre esta. Os fãs de escrita automática, aquela escrita em que o escritor vai para onde a pena o leva, sem qualquer controlo sobre o destino, ou sequer sobre a viagem, provavelmente gostarão deste texto. Eu não o sou. O surrealismo de que gosto é um surrealismo controlado, no qual se sente que o autor tem um mínimo de noção do que está a fazer, e quer alcançar com o texto mais do que simplesmente ver onde ele o leva.

Júdice, parece-me, não tem aqui mais interesses do que a viagem propriamente dita. Leva o seu protagonista a deambular pela Primeira Guerra Mundial, por Paris, Berlim e Nápoles, pelo Egito, por aqui e por ali, sem propósitos que cheguem alguma vez a ficar realmente claros, e depois como que abandona o conto sem chegar a pôr-lhe fim. Sim, percebo bem que é essa a natureza dos sonhos, que deles não se espera coerência, que acordamos sempre antes de vermos a palavra FIM a encerrá-los, sempre a meio, que talvez tenha sido emular essa sua natureza o objetivo do autor ao escrever esta história e que, se foi, esse objetivo está plenamente conseguido. Mas compreender tudo isto não me levou a gostar mais da leitura. Para sonhos bastam-me os meus; das histórias que leio quero mais estrutura, mais significado. Quero terminar a leitura com a sensação de que não desperdicei o meu tempo, e foi precisamente com a sensação oposta que acabei de ler este livrinho. A sensação de tempo perdido, de que a leitura não adiantou nem atrasou, que nem me distraiu nada que se visse, nem lucrei com ela coisa alguma. E isso é mau.

Este livro foi comprado.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Lido: Cursed City ("degustação")

Cursed City (bib.) é uma antologia temática brasileira, concebida e organizada por M. D. Amado, cujos autores tiveram de usar como cenário aquele que o organizador concebeu: uma cidadezinha no Velho Oeste americano, situada algures no Texas, onde se cruzam os clichés dos westerns com os das histórias de terror sobrenatural. Não li o livro; li apenas um PDF de "degustação" que a editora disponibiliza nesta página, conjuntamente com outro material relativo ao livro. O PDF inclui dois contos (dos vinte que compõem a antologia) que, suponho, o organizador terá achado representativos do livro como um todo.

Este, enquanto objeto físico, tem todo o ar de ser coisa magnífica, ideal para aqueles bibliófilos que se deliciam com edições cuidadas. Não é o meu caso. Embora ache que esse é um caminho possível para as editoras combaterem a erosão do digital, interessa-me bastante mais o texto propriamente dito do que aquilo que o rodeia. Desde que os livros não mostrem erros de paginação e apresentem uma mancha gráfica agradável e um tipo de letra legível, dou-me por contente. Portanto, do ficheiro de "degustação" o que me interessa realmente são os contos propriamente ditos. Seria através deles que eu decidiria se teria muito ou pouco interesse em comprar o livro.

E os contos não me pareceram bons. Ambos têm aspetos interessantes, mas em ambos pareceu-me notar escritores ainda pouco experientes, ainda à procura do que para eles funciona ou não funciona. Apesar disso, e como tenho um fraquinho por aquele ambiente que me vem de velhas tardes de domingo passadas a ver televisão, fiquei com curiosidade sobre o modo como os outros autores o teriam explorado e, se fosse brasileiro e tivesse folga no orçamento, era provável que acabasse por comprar esta antologia.

Aqui fica o que achei dos dois contos que constituem o excerto:

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Lido: Just Like Jesse James

Just Like Jesse James (bib.) é um conto curto de Alliah, também ambientado em Cursed City, cidade assombrada do Velho Oeste americano. Aqui, interagindo com criaturas sobrenaturais dos mais variados tipos, o protagonista é Jesse, um humano vulgar que se enamora num piscar de olhos por uma mulher misteriosa que aparece de súbito no saloon onde se embebedava de cerveja. O conto não é propriamente bom. A escrita de Alliah mostra alguma insegurança, natural numa autora ainda em amadurecimento (à data da publicação tinha apenas 19 anos), e no conto fica por explicar aquele súbito enamoramento do protagonista, nada verosímil. Mas o final é bom, genuinamente arrepiante, mostrando que Alliah tem bastante potencial e, com mais experiência, poderá vir a tornar-se numa escritora realmente boa.

Conto anterior desta publicação:

O Gigante, a Curandeira e a Lutadora de Kung-Fu

Lido: Os Dias da Besta

Os Dias da Besta (bib.), de Eric Novello, é uma movimentada noveleta que parte de um acontecimento real, um conflito entre um comandante naval inglês e o Brasil, para construir uma história algo folhetinesca que mistura steampunk, fantasia urbana e horror, e se centra numa série de mortes violentas causadas por um sanguinário metamorfo. A parte steamer da história reside sobretudo numa profusão de sofisticadas engenhocas, que vão desde armas bizarras a autómatos, passando por veículos, lunetas de longo alcance e outras bugigangas, na maioria manejadas pelo herói, um tal Conde de Tunay, misto de inventor, homem de ação e aventureiro. Estas engenhocas são muito pouco verosímeis enquanto objetos tecnológicos, mas o objetivo não é esse; é terem pinta. E isso têm com fartura.

Apesar de não ser grande fã nem da literatura folhetinesca nem desta abordagem ao steampunk (prefiro a via da história alternativa e, dentro desta, a que for mais próxima da ficção científica), li o conto com prazer. Está bem escrito e bem concebido e, dentro dos parâmetros pré-estabelecidos pela abordagem literária que o autor escolheu, funciona bem. Para uma história que se afasta tanto daquilo que eu normalmente aprecio, acabei por gostar bastante mais do que seria de esperar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Lido: Eternidade

Eternidade (bib.), de João Ventura, é um conto curto de fantasia, com toques de terror e vagas roupagens de ficção científica. Contado na primeira pessoa, o protagonista-narrador é uma espécie de espírito protetor de um livro ocultista, cujo conteúdo fornece aos iniciados pistas concretas para chegarem à Luz, assim mesmo, com maiúscula inicial. Estruturalmente, intercala passagens no presente, nas quais se vê o espírito (ou a presença, como ele se intitula) a vigiar um estudioso que se vai aproximando perigosamente da verdade, com relatos de tempos idos, nos quais vai aos poucos sendo contada a história do livro.

Não gostei. Além de este tipo de literatura, centrada em velhos catrapácios ocultistas, em vias herméticas para uma verdade oculta só atingível por empoeirados estudiosos, não me despertar o mais pequeno interesse, achei que Ventura se perde demasiado em longos despejos de informação que tornam o texto pesado. Já li coisas suas muitíssimo melhores.

Lido: Regresso à Cúpula da Pena

Regresso à Cúpula da Pena (bib.), de José Rodrigues Miguéis, é uma daquelas histórias fantásticas que deixam o leitor quase até ao fim a coçar o couro cabeludo, tentando entender onde raio está ali o fantástico. A história, contada na primeira pessoa, centra-se no narrador, de regresso à pátria da juventude duas décadas depois de ter partido, confrontado com uma Lisboa (e arredores) simultaneamente familiar e estranha. E prossegue, em pleno realismo, com um súbito impulso para fazer uma viagem a Sintra, viagem essa que noutros tempos era para ele costumeira. Aí chegado, dá-lhe para subir ao zimbório do Palácio da Pena e daí ver a paisagem, o que faz, apesar das objeções do cicerone. E é então que aparece a estranheza no conto, embora ainda em tom realista. Uma luta entre ele e um desconhecido, empoleirados lá no alto? Ou apenas um sonho? O final revela a verdade. Subtilmente.

É um conto, parece-me, muito bom. Está tão bem escrito como seria de esperar, claro, mas além disso está também muito bem concebido e, embora um leitor experiente nestas coisas fantásticas acabe por adivinhar o que se passa alguns parágrafos antes da revelação final, esta funciona muito bem. Gostei bastante.

Lido: O Gigante, a Curandeira e a Lutadora de Kung-Fu

O Gigante, a Curandeira e a Lutadora de Kung-Fu (bib.), conto de Alfer Medeiros, português radicado no Brasil desde a infância, é basicamente uma história de pancadaria com substrato sobrenatural, passada no Velho Oeste americano. A parte que achei mais interessante no conto é uma certa toada de história contada por um companheiro de bebedeira a outro, talvez num saloon, algures. Infelizmente, Medeiros esquece-se frequentemente de a manter, e com isso quem perde é a sua história. E esta não tem nada de especial. O ambiente está muito bem apanhado mas não foi concebido por ele. O conto está ambientado numa cidadezinha do Velho Oeste chamada Cursed City, que serve de antecâmara do Inferno, e onde se juntam humanos de carne e osso a todos os tipos de criaturas sobrenaturais, ideia que fez parte da proposta da antologia em que este conto se insere e foi, presumo, concebida pelo seu organizador. O conto de Medeiros centra-se nas três personagens que o intitulam, as quais chegam à cidade em busca de vingança. E esta acontece num paroxismo de balas, por entre declarações como "não te lembras de todo o mal causado, vil detrator, mas os justos aqui presentes recordam-se dos atos imundos que propagaste em nossos lares."

Sem este tipo de discurso tonitruante e um pouco ridículo, com mais consistência no uso da voz do narrador, e contado de uma forma que levasse a perceber melhor as motivações das personagens, julgo que poderia ter gostado deste conto. Assim, não gostei. Tem aspetos interessantes, mas não me chegam.

Lido: Imprimátur

Imprimátur, do cubano Ángel Arango, é um continho surreal e poético sobre um homem feito de papel. Consiste na sua maior parte de uma conversa entre este, o seu inventor e uma terceira personagem que se deixa fascinar pelo invento. Não gostei lá muito. O conto pareceu-me muito bem escrito, sim, com um ou dois pormenores de deliciosa subtileza, é certo, mas não achei grande graça à ideia (não tanto à ideia do homem de papel, propriamente, mas ao modo como está enquadrada), e o final soube-me a pouco. Se quiserem, podem lê-lo aqui. É o último conto.

Pedimos desculpa por esta interrupção...

... o programa segue dentro de momentos. Literalmente.

Os blogues, particularmente os pessoais, são mesmo assim. Estão sujeitos às oscilações dos seus autores. Às vezes há uma pilha qualquer que se gasta e há que deixá-los de pousio durante uns tempos para que ela recarregue. Escrever todos os dias cansa, disse um dia alguém, e se é escrever o que põe o pão na mesa, mais um pouco escrever cansa. Tanto, que volta e meia há que parar. Há que entrar de férias. Se não do trabalho, pelo menos das escritas adicionais.

Mas todas as férias chegam ao fim. E esta chega hoje ao fim. A Lâmpada regressou, tal e qual como era dantes. Será como se nunca tivesse parado. Até já.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Transignorâncias (2): E o mais importante é?...

Para alguns, é simples: o mais importante na literatura é, sem sinal de sombra de dúvida, o tratamento dado à língua. Tendem a ser fãs de escritores como o Lobo Antunes, a quem elogiam profusamente a pureza da frase ou a qualidade poética das imagens, e parte deles tende também a desprezar com grande empenho toda a literatura (frequentemente esmagada sob o peso de epítetos vários, entre os quais o de subliteratura não será o mais violento) que se preocupa mais com outros aspetos da arte de narrar através de palavras do que propriamente com o encadeamento que estas tomam nas frases.

Mas estes são só um bando no grande aviário dos literatos. Existem também os que se preocupam primordialmente com a história; existem os que têm na mensagem o seu principal foco de interesse; existem aqueles que se deliciam acima de tudo com as personagens, outros ficam de beicinho com a construção de mundos que subjaz às histórias, outros com a imaginação de que o autor dá mostras, outros com a falta dela (sim, há quem prefira a falta de imaginação à imaginação, a adesão às fórmulas à inovação), e etc., e etc., e variadíssimos eteceteras.

Tudo isto estaria muito bem, muito certo, muito correto, muito ainda bem que assim é, se cada um destes bandos não possuísse em si uma fação mais ou menos talibânica e frequentemente muito ruidosa, que reivindica para a sua forma de olhar a literatura a VERDADE, assim mesmo, em maiúsculas e negrito, ao mesmo tempo que lança fatwas contra todas as outras heresias… digo… literaturas.

E depois, claro, seguem-se as guerras santas.

Pessoalmente, enquanto fã de longa data de ficção científica, sou um passaroco que tende a esvoaçar por perto dos bandos da história e da construção de mundos. Ou, dito de um modo mais genérico, sinto-me mais à vontade no superbando do conteúdo do que no da forma. É por isso que só com dificuldade trago Lobo Antunes, mesmo reconhecendo e dando valor à qualidade formal daquilo que produz. É porque o conteúdo dele não me interessa, porque não desenvolve, porque rumina e rerrumina sem sair do mesmo sítio do princípio ao fim dos seus livros. É por isso que detestei os contos que Isabel Cristina Pires incluiu n’A Casa em Espiral. Porque, independentemente de estarem bem escritas ou deixarem de o estar, achei aquelas histórias absolutamente vácuas. Lê-las foi, para mim, pura perda de tempo. E podia dar dezenas de outros exemplos de coisas formalmente boas, ou até muito boas, que não despertam em mim a mais pequena vontade de aplaudir.

Mas estou muito longe de encarar esta preferência como a VERDADE.

Já foi tempo. Entretanto cresci.

Isto voltou a ficar claro esta semana, ao ler o conto de Asimov de que falo uns posts mais abaixo. É um conto que, como disse na opinião sobre ele, corporiza uma abordagem específica à ficção científica. Não se limita a ser cem porcento conteúdo, preocupando-se pouco ou nada com a forma, mas recorre a um tipo específico de conteúdo, a ideia, como força motriz quase exclusiva. Foram contos deste género que levaram alguns a chamar à FC a “literatura das ideias” (expressão que me parece muito disparatada, mas isso ficará para outra altura). E eu, sempre que leio um conto destes, penso com os meus botões: “Daquilo que acabei de ler, que resta quando a ideia se esgotar?”

É que as ideias se esgotam. Esgotam-se quando são tantas vezes usadas que se transformam em clichés. Esgotam-se quando a evolução da ciência, da tecnologia, de qualquer ramo do pensamento humano, as torna obsoletas, coisas do passado. Esgotam-se, em suma, quando deixam de ser válidas. E isso é algo que, temo bem, acaba por acontecer a todas. Nenhuma ideia dura para sempre. Chega um dia em que se descobre que morreu. E que as histórias-ideia baseadas nela morreram com ela.

A não ser que tenham em si alguma coisa além da ideia.

Por exemplo, consideremos outro conto de ficção científica escrito mais ou menos na mesma época, por outro monstro sagrado, o Clarke. A Estrela. Trata este, caso não o conheçam, de um padre cristão que regressa de uma viagem interestelar ao sistema de uma estrela que teria explodido como supernova por volta do ano zero da nossa era, tornando-se assim a Estrela de Belém. O conto tem a ideia, brilhante, e ainda aditivada por aquilo que a expedição descobre a orbitar essa estrela (não vou dizer o que é; leiam o conto, que vale bem a pena). Mas além disso está bem escrito, com uma qualidade de prosa bastante superior à do Asimov. E para além disso, tem um protagonista que, no contexto de um conto, com as limitações inerentes ao formato e à dimensão, está muito bem construído enquanto personagem. É um conto que, posso apostar já aqui, perdurará durante muito mais tempo do que o de Asimov.

Ou consideremos outro ainda, também da mesma época, escrito por mais um dos monstros sagrados da FC, o Bradbury. Virão Chuvas Suaves. É um conto, para os infelizes que não o conhecem, que leva quem o lê por uma viagem pelos automatismos em falha de uma casa automática e que termina com uma das imagens mais terrivelmente belas que a ficção científica alguma vez produziu, esclarecendo o porquê dos automatismos da casa estarem em falha. A ideia, apesar de ótima, talvez não seja tão arrebatadora como as dos outros dois. Mas este conto é eterno. Porque lê-lo é como dançar uma valsa, tal é o ritmo que ele tem. Porque está muito, muito, muito bem escrito. Porque nos fala de um momento da história da nossa civilização, um momento em que havia um medo muito real de que algo como aquilo poderia de facto vir a acontecer, e remete para um outro momento em que algo como aquilo realmente aconteceu, apesar de então ainda não existirem casas automáticas. Dos três, será sem qualquer dúvida este a perdurar por mais tempo. É o mais completo enquanto objeto literário. Além de conteúdo tem também forma. Ambos ótimos.

O que eu quero dizer com isto é que quando os escritores se limitam a explorar uma única faceta da sua arte até podem explorá-la muito bem, até podem ganhar assim o seu público, mas só muito dificilmente chegarão à verdadeira grandeza. Para o fazerem só com a ideia, esta tem de ser absolutamente extraordinária. Se a ideia não for assim tão extraordinária, terão de lhe acrescentar qualquer coisa, personagens, mensagem, worldbuilding, tratamento da linguagem, seja o que for. E se o que acrescentarem também não for assim tão extraordinário, terão de lhe acrescentar mais uma demão, e assim sucessivamente.

Sublinho, porque julgo ser necessário, que aqui os termos são quase inteiramente intermutáveis. Não importa qual das facetas se usa como exemplo, pois todas elas poderiam servir. Comecei pela ideia como poderia ter começado pelas personagens ou por qualquer outro dos eteceteras com que abri este texto. E só está ali o quase, as facetas só não são mesmo inteiramente intermutáveis, porque julgo haver algumas mais fundamentais do que outras, isto é, algumas cuja ausência, ou cuja presença abaixo de uma quantidade mínima, é capaz de estragar até as mais talentosas explorações das demais. Para mim, sem uma competência mínima no manejo da língua em que se escreve, por exemplo, nada resulta. Sem um mínimo de conteúdo, tudo é perda de tempo. E eis a resposta à pergunta que intitula este texto. O mais importante é o que é imprescindível, aquilo que, quando está ausente, faz com que o edifício desmorone. Para mim, essas coisas são a competência no uso da língua e o conteúdo. Sem isso presente, pelo menos até certo ponto, nada feito. Sem isso presente, nem vale a pena começar.

Para o leitor que sou, são essas as fundações da literatura que me interessa. Havendo esse mínimo de competência no uso da língua e esse mínimo de conteúdo pode-se então começar a adicionar outras coisas, a tornar o edifício cada vez mais alto e complexo. Personagens, mais competência no uso da língua, enredo, umas ideias espalhadas aqui e ali, mais competência no uso da língua, coisas mais imponderáveis, mais fantasmagóricas, mais subjetivas, como o sentido de maravilha, ritmo, descrições, mais competência no uso da língua, cenário e assim por diante. Por outras palavras, pode-se ir acrescentando qualidade global através de sucessivos incrementos em todas estas qualidades parcelares.

No extremo, chegamos à literatura ideal, aquela que me agrada mesmo. Esta possui tudo isto. Não só ideias, não só personagens, não só novidade, não só qualidade no manejo do português (ou seja de que língua for, entre aquelas que eu entendo), não só enredo, não só isto ou aquilo. Tudo. É raro, mas já tenho lido coisas assim. E, antes que perguntem, em vários géneros, incluindo aquele saco de gatos chamado mainstream literário.

Transignorâncias anteriores:

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lido: Reencontro

Reencontro (bib.) é um conto curto de horror (ou algo assim) de Diogo Falcão que esteve bastante longe de me agradar. Começa logo por o texto propriamente dito não me convencer por completo. Não é mau, mas podia ser melhor, e tem alguns pormenores que beiram o ridículo. Um exemplo destes últimos, provavelmente o pior: às tantas alguém "baba-se pela boca". Pois por onde haveria de se babar?! Pelas orelhas?!

Acresce a isto uma história pouco firme, que começa como uma simples noite de copos para depois entrar numa espiral de criaturas malfazejas de uma forma que me pareceu bastante gratuita, até que para de repente. Mesmo de repente. Aquilo nem final em aberto é. Ainda virei a página para ver o que ainda aí viria, mas a página seguinte está em branco.

Enfim, achei este continho bastante fraco.

Conto anterior desta publicação:

Morella

Leituras de 2011

Em 2011, voltei a ler bastante menos do que costumava ser hábito em mim. O principal motivo para isso foi não ter lido praticamente nada durante os três primeiros meses do ano, mas também contribuiu ter tido entre mãos um número invulgarmente elevado de livros volumosos, incluindo dois com mais de 900 páginas cada. Mas mesmo assim, li mais do que há dois anos. Na verdade, tirando três anos que passei fora do país e tinha dificuldade em arranjar leituras em português, 2009 deve ser o ano em que menos li desde que me tornei leitor a sério, no início da adolescência.

Este ano, as leituras foram menos ecléticas do que no ano passado, com menos mainstream e muito mais fantasia. Mas vamos às listas.

Os livros propriamente ditos, lidos por lazer mas todos comentados na Lâmpada ao longo do ano, não passaram de 18 e, entre estes, 12 têm qualquer coisa de ficção científica. A lista completa é a seguinte:

1- O Livro das Configurações, de Mário Cabral (novela de fantasia mística);
2- O Jardim de Infância, de Geoff Ryman (romance de ficção científica);
3- O Homem que Perdeu o Cérebro, do Repórter X (contos de aventuras e mistério);
4- Una Luz en la Noche, de Daniel Mares (dois romances de ficção científica);
5- Golfinho de Júpiter, de Mary Rosenblum / Pela Sombra Morrerão, de Carla Ribeiro (uma novela de ficção científica e outra de horror);
6- Pago Para Esquecer, de Philip K. Dick (contos principalmente de ficção científica);
7- Novas Cosmicómicas, de Italo Calvino (contos surrealistas com toques de ficção científica);
8- O Lagarto do Âmbar, de Maria Estela Guedes (noveleta fantástica com toques de ficção científica);
9- E Outros Belos Contos de Natal, organizado por Miguel Neto (contos humorísticos, muitos deles fantásticos, sobre o Natal);
10- Imaginários 2, organizado por Tibor Moricz, Saint-Clair Stockler e Eric Novello (contos de fantasia, ficção científica e terror);
11- A Canção de Kali, de Dan Simmons (romance de horror);
12- Os Marcianos Divertem-se, de Fredric Brown (romance satírico de ficção científica);
13- O Homem que Via o Futuro, de Clifford D. Simak (contos de ficção científica);
14- Uma Récita do Roberto do Diabo, de Júlio César Machado (conto fantástico);
15- Darwinia, de Robert Charles Wilson (romance de ficção científica);
16- História de Portugal, Director's Cut, de Renato Carreira (livro de humor);
17- 15 Histórias de Ficção Científica, organizado por Bertrand Solet e Maria Adelaide Couto Viana (contos de ficção científica);
18- A Mão Esquerda das Trevas, de Ursula K. Le Guin (romance de ficção científica).

A acrescentar aos livros li também revistas, que funcionam praticamente como se fossem antologias periódicas e portanto também contam para o total. E já tinha dito isto no ano passado. São mais 4:

19- Ficções, nº 16 (contos mainstream e fantásticos);
20- Mundos, nº 1 (contos de ficção científica);
21- Asimov's, nº 325 (contos de ficção científica);
22- Samizdat, Especial 1 (contos de ficção científica).

Este ano, li vários livros por motivos laborais que, no entanto, não teria sido obrigatório ler. Refiro-me aos volumes já publicados de As Crónicas de Gelo e Fogo, que reli para voltar a entrar no mundo martiniano, antes de deitar mãos à nova tradução. Lembrar-me de como traduzi certas coisas, voltar ao ambiente de escrita e história, etc. São mais 8:

23- A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
24- A Muralha de Gelo, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
25- A Fúria dos Reis, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
26- O Despertar da Magia, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
27- A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
28- A Glória dos Traidores, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
29- O Festim dos Corvos, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
30- O Mar de Ferro, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica).

Por fim, e de novo tal como no ano passado, também li alguns livros por obrigação laboral, mas este ano foram só 2, ainda que ambos bem gordos. Na verdade, foram os dois livros mais extensos do ano. Ei-los:

31- A Dance with Dragons, de George R. R. Martin (romance de fantasia épica);
32- Fool's Fate, de Robin Hobb (romance de fantasia).

Este ano não me é tão fácil decidir o livro do ano como foi no ano passado. Tirando destas contas as minhas traduções (aí, A Glória dos Traidores destaca-se), tenho um trio de livros de que gostei particularmente: A Canção de Kali, A Mão Esquerda das Trevas e A Dance With Dragons. Não foram muitos mais os que me agradaram mais do que a média; nisso, o ano não foi famoso, até por causa da relativa escassez da escolha, mas posso citar o Darwinia, as Novas Cosmicómicas e Os Marcianos Divertem-se. Provavelmente por esta ordem.

Quanto aos piores do ano, houve dois que se destacaram dos demais: O Livro das Configurações e O Lagarto do Âmbar. Somando-se a estes dois o nº 1 do Mundos, fico com um triozinho de leituras que me desagradaram bastante, seguido de não muito longe pelo Samizdat, Especial 1.

E é isso. Para o ano, provavelmente, haverá mais.

Lido: A Mão Esquerda das Trevas

A Mão Esquerda das Trevas (bib.) é um magnífico romance de ficção científica de Ursula K. Le Guin. Pertencente à série Hainish, conjunto de histórias independentes, unidas por terem lugar no mesmo universo ficcional, e à qual pertence também um dos meus livros favoritos seja de que género for, Os Despojados, este romance planetário ambienta-se num planeta remoto e frio (adequadamente apelidado de Inverno), no qual se desenvolveu um ramo da Humanidade com uma característica única: a divisão entre sexos não existe. Em vez de serem durante uma vida inteira homens ou mulheres, como é hábito, os indivíduos passam a maior parte do tempo como seres andróginos e assexuados, um pouco como as crianças, entrando de vez em quando numa espécie de cio, o kemmer, durante o qual se tornam muito mais subjugados pela motivação sexual do que nós. Durante esse período, um dos parceiros desenvolve características de um dos sexos e induz no outro as características do sexo oposto, permitindo-se assim a reprodução.

Ao planeta que serve de cenário chega um emissário dos mundos unidos no Ecuménio, uma espécie de confederação comercial e filosófica de planetas humanos, a fim de avaliar a capacidade e a vontade dos povos de Inverno virem a aderir a essa confederação. Emissário esse que é, está bom de ver-se, um humano como nós. Ou seja: uma aberração aos olhos dos habitantes de Inverno.

Com este material de base, Ursula Le Guin constrói uma fascinante especulação sociológica sobre como se desenvolveria uma (ou várias) sociedade sem ter subjacente a dicotomia de género que domina as nossas, e como essas sociedades encarariam o súbito desafio que é tomar consciência de que lá fora, entre as estrelas, existem dezenas de planetas ocupados por uma humanidade diferente da sua. Para isso, conta a história quer através dos olhos do emissário, quer através dos de um seu aliado local, que quando o romance começa ocupa um alto cargo no governo de uma das principais protonações do planeta mas rapidamente cai em desgraça e é obrigado a exilar-se.

É também uma história de descoberta dos limites da humanidade, do substrato comum que une esses dois homens (o emissário pensa no seu aliado como homem, embora este só o seja no sentido de "membro da espécie humana") apesar das suas diferenças. E também é uma história de sobrevivência, pois boa parte do fim do romance conta a longa travessia de um dos grandes glaciares do planeta que os dois amigos fazem depois do exílio não ter corrido lá muito bem.

A Mão Esquerda das Trevas é um livro e peras, de uma época em que ainda se conseguia contar uma história complexa e inteligente em menos de 300 páginas. Muito bom.

Este livro foi comprado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Lido: Para Leste

Para Leste (bib.) é um conto curto de Bruce Holland Rogers que descreve uma viagem que uma família faz para leste, no carro, depois do último negócio do pai ter ido à falência. Trata-se de um conto quintessencialmente americano, um daqueles contos de estrada que há tanto tempo permanecem na psique americana e até chegaram várias vezes ao cinema. O mais curioso nestas histórias é muitas vezes o contraponto e o contraste entre o intimismo dos pequenos mundos que rodeiam os viajantes e a vastidão das paisagens por onde esses pequenos mundos nómadas vão passando. Isso existe neste conto, mas também nele existe algo que me fez lembrar agudamente dos contos americanos de Ray Bradbury: poesia. Uma poesia contida, mais presente nos gestos do que nas palavras com que esses gestos nos são revelados, mas muito real. Para ela contribui que a história seja contada sob o ponto de vista do filho do casal, na primeira pessoa, um filho que já é suficientemente velho para se aperceber do que implica a família ficar sem meios de subsistência, mas ainda suficientemente novo para ficar empolgado com a aventura que a viagem traz consigo. É um belo conto, sim senhor.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Lido: A Extinção das Espécies

A Extinção das Espécies (bib.) é uma noveleta retrofuturista de Carlos Orsi que acompanha a viagem de um certo e determinado jovem cavalheiro, nunca nomeado mas inglês, a bordo de um navio chamado Beagle, ao longo da costa oriental da América do Sul, com escalas no Brasil e na Argentina. Já sabem quem é? Claro: Charles Darwin. Porém, ao contrário do que aconteceu com o "nosso" Charles Darwin, este não se deixa seduzir pelas espantosas adaptações dos animais e plantas ao seu meio, antes mergulha a sua insaciável curiosidade na análise de uns curiosos autómatos auto-replicantes, com os quais toma contacto pela primeira vez no Rio de Janeiro mas cujo potencial só compreende por completo quando chega à Patagónia argentina. Máquinas prodigiosas, que obtém a energia que as alimenta diretamente do sol através da exploração de um tal "efeito Waldman-Ingolstadt", que retira do nosso astro uma tal "vis viva" que pode ser transformada com grande eficiência em eletricidade. Com base nisto, Orsi desenvolve uma história muito bem construída e cheia de referências, que especula sobre as utilizações e consequências do desenvolvimento de nanotecnologia autorreplicante antes mesmo de ter sido criada uma teoria evolucionária para os seres vivos. Mais: embora esta noveleta seja inteiramente satisfatória enquanto história independente, abre portas para a criação de histórias adicionais no rico universo ficcional que delineia.

Dá para ver que gostei muito desta noveleta? Pois gostei, sim senhor. Achei-a excelente. Entre a melhor ficção curta que li no ano passado.

Lido: 15 Histórias de Ficção Científica

15 Histórias de Ficção Científica (bib.) é um livro já velhote, pertencente a uma coleção juvenil da Verbo que reunia em cada livro 15 pequenas histórias, ficcionais ou não, sobre um tema comum. Aqui, o tema é a ficção científica, ainda que com um pendor fortemente francófono, uma vez que se trata de uma adaptação de uma coletânea francesa, e também bastante mais dedicada à proto-ficção científica, do início do século XX e do século XIX, principalmente, mas também contendo um texto que nos chegou daqueles tempos antigos em que Roma era a grande superpotência do planeta. Também é, em grande medida, uma antologia destinada a abrir o apetite dos jovens para outras coisas. Atesta-o a grande percentagem de excertos de romances que contém, devidamente identificados com a obra de que foram extraídos, como que a dizer "vá, meu jovem, agora vai à procura do resto."

E posso dizer que, mesmo passados todos estes anos, e mesmo tendo já lido a maioria dos livros de onde foram retirados os excertos, a tática continuou a mostrar-se eficaz. Apeteceu-me reler alguns e sobre outros, que nunca li, fiquei curioso.

Provavelmente deviam continuar a fazer-se edições como esta hoje em dia. Talvez fosse uma boa maneira de voltar a criar público para a FC, desde tenra idade.

Outra forma de encarar este livro é como uma boa introdução, não à FC como um todo, mas àquela literatura que lhe serviu de raiz. Porque inclui os "papás" Wells e Verne, porque inclui outros autores antigos. E porque a maioria dos bons textos da antologia pertence justamente a estes autores. Os fracos, que também existem, pertencem invariavelmente a autores mais recentes. Da nossa FC é que o leitor fica apenas com uma pálida ideia. O conto português que vem incluído, da Natália Correia, mais ou menos contemporâneo à edição, talvez seja representativo da FC que se fazia na época em Portugal, mas pouco ou nada tem a ver com os trabalhos mais recentes, dada a tradicional amnésia geracional de que a nossa FC sempre padeceu.

Em suma, quem procura FC moderna não a encontra aqui, obviamente. Mesmo quem procura a FC da época em que este livro foi editado pouca encontra, e a que encontra está muitos furos abaixo da melhor. Mas o livro não deixa de ter o seu interesse, principalmente histórico.

Eis o que achei dos 15 textos:
Este livro foi comprado em segunda mão.