Desta vez ao domingo, que ontem não me apetecia escrever nem uma linha (acontece, e quando acontece não fale a pena forçar, desde que se possa não o fazer), eis a semana que passou numa penada. Ou em duas ou três.
Trabalho? Acabou. O livro está traduzido, revisto e enviado ao editor, alguns dias antes do prazo terminado. Segue-se, claro, o próximo. 757 páginas de texto miudinho, denso e quase sem margens, que irão ser divididas em dois volumes, cada um, imagino, mais perto das 400 do que das 350.
Ah, sim, e claro que há versejos. Nem podia deixar de haver. O que vale é que é só um. Comprido, mas só um.
O wiki esteve amodorrado. Não passaram de 16 as páginas que se estrearam na última semana, aumentando o total para 16 480.
E quanto a leituras, acabei dois livros e li mais umas coisas.
Com O Povo Branco, terminei O Grande Deus Pã, de Arthur Machen. O conto é capaz de ter sido aquele que mais me agradou de entre os quatro que compõem o livro. Consta de um longo texto "escrito" por uma rapariga adolescente, rodeado por um prólogo e um epílogo que situam o leitor no que toca a quem e o quê é a rapariga. Particularmente bem sucedido é o modo como Machen altera o estilo para dar "voz" à rapariga, e o próprio texto desta é muito interessante, funcionando quase como pot-pourri de contos maravilhosos do folclore britânico, cheio de magia e criaturas fantásticas da floresta. Mesmo muito bom. E é um óptimo fecho para um livro de que acabei por gostar, apesar de por vezes me ter aborrecido bastante, em especial no primeiro conto.
E com Planeta que Nada tem Para Dar, de Olga Larionova, terminei Poção de Marte, antologia de FC&F soviética. O texto de Larionova é uma noveleta de ficção científica que acompanha a exploração de um planeta que vamos aos poucos reconhecendo no espaço, ainda que não no tempo, por parte de uma espécie alienígena metamórfica e totalitária. Apesar da história ter aspectos interessantes, em particular se tivermos em conta o contexto em que foi escrita, não me agradou lá muito. O mesmo posso dizer da antologia como um todo: nem o romance que lhe empresta o título, nem os contos que o acompanham, são propriamente maus. Mas tampouco são bons, antes reúnem aspectos interessantes e falhas num todo que acaba por ser mediano.
Além destes dois livros, li também Curse of the Immortal's Husband, poema de Bruce Boston que não me pareceu lá muito bem conseguido, e dei um bom avanço num romance bastante grosso que já me acompanha há algum tempo.
E é só isto. Para a semana há mais.
domingo, 28 de junho de 2009
sábado, 27 de junho de 2009
Respondam lá a isto
sábado, 20 de junho de 2009
Semana
E pronto, lá se passou mais uma semaninha, entre descanso, um artigo complicado e comprido e (algum) desbaste no email acumulado. E calor, montes de calor, e de mudanças malucas de temperatura também, daquelas que deixam um tipo derreado, sem vontade de fazer nada.
Em todo o caso, sempre se foi fazendo qualquer coisinha, por exemplo, no wiki, que cresceu mais 62 páginas. Tem agora 16 466.
E leu-se também umas coisas, claro. E até se acabou uma delas: o número 324 da revista Asimov's. Não a acabei lendo algo de que valha a pena falar aqui — críticas a livros saídos nos States há uns anos —, mas o número em si é típico da Asimov's: uma ou duas coisas muito boas, mais uma ou duas boas e o resto, quase tudo, suficientemente interessante para fazer com que a revista valha muito a leitura. Pessoalmente, destaco The War on Treemon, de Nancy Kress, e The Ice, de Steven Popkes, como os melhores textos e Etiquette With Your Robot Wife, de Bruce Boston, como o mais divertido.
Noutras leituras, li Cultos da Carga da Ilha do Beijo Picante, de Rhys Hughes, uma excelente prosa metaliterária composta por uma autêntica cebola de histórias metidas dentro umas das outras e em tensão mútua, com uma revolta do leitor lá metida no meio. Achei muitíssimo curiosa a semelhança que esta história de Hughes tem com O Deus das Gaivotas, que escrevi com o meu pai e está publicada na colectânea Por Universos Nunca Dantes Navegados. Hughes faz rebelar-se o leitor enquanto nós sofremos a revolta da personagem, e também vai mais longe do que nós na exploração do absurdo da ideia, mas há mesmo assim muitos pontos de contacto entre as duas histórias. Mal posso esperar que o meu pai leia isto para ver o que diz.
Também li O Sinistro, de Carlos Patati, um misto de ficção científica e horror, com umas ideias bem interessantes, em especial a ideia principal: tatuagens que funcionam como uma espécie de rede neuronal artificial e complementar ao cérebro biológico, e que põem os tatuados em contacto com os monstros lovecraftianos. Mas apesar da ideia interessante, não gostei particularmente da sua concretização, que muito teria sido ajudada por uma revisão atenta ao texto. Há partes incompreensíveis, onde parecem faltar palavras, há erros ortográficos e gralhas, há trechos onde o estilo perde solidez, enfim... é pena.
Também li São Asas, crónica de Saramago sobre uma estátua de Camões, que achei muito esquecível. A crónica, não a estátua.
E li Encontro Nocturno, de Bradbury, outro conto que mistura a ficção científica e o horror, no qual um terrestre, recém-instalado no morto planeta Marte, se encontra com o fantasma de um marciano vindo de um passado em que a sua civilização se mostrava viva e pujante. Ou talvez fosse o marciano a encontrar-se com o fantasma do terrestre vindo do futuro. De uma forma ou de outra, uma coisa é certa: o conto é muitíssimo bom.
O Final do Verão é a outra história de Bradbury que li esta semana. Outra boa história, esta é praticamente mainstream, embora contenha um certo ambiente fantasmagórico, e conta uma escapadela sexual duma jovem geralmente muito composta e aprumada.
Si Tan Solo, de Gerardo Horacio Porcayo, é um poema em prosa sobre o sonho. Não me agradou por aí além.
Por fim, e também em estrangeiro, li The Convert, de Simon Ings, uma noveleta escrita numa linguagem muito rica em metáforas, sobre um homem que recebe como implante um sentido artificial que o informa sobre o fluxo do dinheiro e para isso se associa a um milionário com uma saúde mental algo débil. O mais curioso desta história é passar-se quase toda no Brasil, e por isso aparecerem coisas em português no texto inglês, mas que eu ache isso o mais curioso já mostra que não gostei lá muito do que li. Não gostei da caracterização das personagens, por exemplo, e como isso é boa parte do conto...
E pronto. Para a semana haverá mais.
Em todo o caso, sempre se foi fazendo qualquer coisinha, por exemplo, no wiki, que cresceu mais 62 páginas. Tem agora 16 466.
E leu-se também umas coisas, claro. E até se acabou uma delas: o número 324 da revista Asimov's. Não a acabei lendo algo de que valha a pena falar aqui — críticas a livros saídos nos States há uns anos —, mas o número em si é típico da Asimov's: uma ou duas coisas muito boas, mais uma ou duas boas e o resto, quase tudo, suficientemente interessante para fazer com que a revista valha muito a leitura. Pessoalmente, destaco The War on Treemon, de Nancy Kress, e The Ice, de Steven Popkes, como os melhores textos e Etiquette With Your Robot Wife, de Bruce Boston, como o mais divertido.
Noutras leituras, li Cultos da Carga da Ilha do Beijo Picante, de Rhys Hughes, uma excelente prosa metaliterária composta por uma autêntica cebola de histórias metidas dentro umas das outras e em tensão mútua, com uma revolta do leitor lá metida no meio. Achei muitíssimo curiosa a semelhança que esta história de Hughes tem com O Deus das Gaivotas, que escrevi com o meu pai e está publicada na colectânea Por Universos Nunca Dantes Navegados. Hughes faz rebelar-se o leitor enquanto nós sofremos a revolta da personagem, e também vai mais longe do que nós na exploração do absurdo da ideia, mas há mesmo assim muitos pontos de contacto entre as duas histórias. Mal posso esperar que o meu pai leia isto para ver o que diz.
Também li O Sinistro, de Carlos Patati, um misto de ficção científica e horror, com umas ideias bem interessantes, em especial a ideia principal: tatuagens que funcionam como uma espécie de rede neuronal artificial e complementar ao cérebro biológico, e que põem os tatuados em contacto com os monstros lovecraftianos. Mas apesar da ideia interessante, não gostei particularmente da sua concretização, que muito teria sido ajudada por uma revisão atenta ao texto. Há partes incompreensíveis, onde parecem faltar palavras, há erros ortográficos e gralhas, há trechos onde o estilo perde solidez, enfim... é pena.
Também li São Asas, crónica de Saramago sobre uma estátua de Camões, que achei muito esquecível. A crónica, não a estátua.
E li Encontro Nocturno, de Bradbury, outro conto que mistura a ficção científica e o horror, no qual um terrestre, recém-instalado no morto planeta Marte, se encontra com o fantasma de um marciano vindo de um passado em que a sua civilização se mostrava viva e pujante. Ou talvez fosse o marciano a encontrar-se com o fantasma do terrestre vindo do futuro. De uma forma ou de outra, uma coisa é certa: o conto é muitíssimo bom.
O Final do Verão é a outra história de Bradbury que li esta semana. Outra boa história, esta é praticamente mainstream, embora contenha um certo ambiente fantasmagórico, e conta uma escapadela sexual duma jovem geralmente muito composta e aprumada.
Si Tan Solo, de Gerardo Horacio Porcayo, é um poema em prosa sobre o sonho. Não me agradou por aí além.
Por fim, e também em estrangeiro, li The Convert, de Simon Ings, uma noveleta escrita numa linguagem muito rica em metáforas, sobre um homem que recebe como implante um sentido artificial que o informa sobre o fluxo do dinheiro e para isso se associa a um milionário com uma saúde mental algo débil. O mais curioso desta história é passar-se quase toda no Brasil, e por isso aparecerem coisas em português no texto inglês, mas que eu ache isso o mais curioso já mostra que não gostei lá muito do que li. Não gostei da caracterização das personagens, por exemplo, e como isso é boa parte do conto...
E pronto. Para a semana haverá mais.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Questões de grande velocidade (QGV)
Toda esta confusão de politiquices à volta do TGV fez-me lembrar uma crónica que publiquei em Junho de 2001, há precisamente oito anos, no jornal onde trabalhava. Fui relê-la. Se não fosse pelos algarvios se terem entretanto calado com o TGV, podia escrevê-la hoje.
Não sabem do que estou a falar, pois não? Podia mandar-vos comprar Os Pés e a Cabeça, mas vocês mandavam-me bugiar, e com razão. De modo que aqui a têm. Digam lá se eu não sou um compincha.
Não sabem do que estou a falar, pois não? Podia mandar-vos comprar Os Pés e a Cabeça, mas vocês mandavam-me bugiar, e com razão. De modo que aqui a têm. Digam lá se eu não sou um compincha.
Tudo a Grande Velocidade (TGV)
Não, TGV não significa "tudo a grande velocidade". É uma sigla francesa que vem de "train de grande vitesse", ou seja, "comboio de grande velocidade", ou seja, CGV.
Parece que a coisa atinge um bué (palavra que consta do novo dicionário da língua portuguesa, portanto não me batam) de quilómetros por hora e que se houvesse disso no Algarve nos poria em Lisboa num par de horas, o que é sem dúvida um contraste interessante com as 4 ou 5 que as sacolejadeiras da CP levam actualmente a carregar-nos até ao barco trans-Tejo.
Viva o CGV, então?
Bem, parece que é caro. Há quem diga mesmo que é bué de caro. E parece que por ser assim tão caro só cá chega daqui a uns 20 anos, mais coisa menos coisa, se chegar a chegar cá.
Há umas semanas, vimos os autarcas e empresários algarvios em coro a exigir o CGV, menos os do PSD, que esses nunca fazem coro com os do PS, por uma questão de princípio. Acho bem. É bom manter os princípios.
Mas sabem o que vai acontecer?
Se chegar a ser aprovado o plano que traz o CGV para o Algarve daqui a 20 anos, mais ano menos ano, nem um tostão furado será entretanto investido na melhoria da linha de CPV (Comboio de Pequena Velocidade). Ou seja, ficaremos atolados durante mais vinte anos (mais ano menos ano) no mesmíssimo atoleiro ferroviário em que estamos agora, com um serviço de qualidade fraquinha, lento, sacolejante, incómodo, obsoleto e, feitas as contas a todos os defeitos, caro.
Será que vale a pena?
Não será melhor que se modernize a linha actual, se lhe ponha duas vias, se actualize o material circulante para que entre Faro e Portimão se passe a poder viajar em uma hora e se consiga chegar a Lisboa em 3, e tudo isso já, em vez de ficar mais vinte anos à espera duma miragem de grande velocidade (MGV) que pode ir por água abaixo à primeira contrariedade orçamental?
Como naquele programa chatíssimo da televisão de aqui há anos, você decide.
domingo, 14 de junho de 2009
Semana
Ontem esqueci-me de semanar, no afã de acabar a tradução, semano hoje.
Não que haja muito a dizer da semana que passou. Foi, como é hábito em mim sempre que um trabalho está com o fim próximo, dedicada quase em exclusivo a dar-lhe esse mesmo fim. Não que tenha terminado por completo, claro, ainda falta a revisão. Mas por qualquer motivo encaro sempre a revisão como um sucedâneo do trabalho verdadeiro. Um sucedâneo importante, sem dúvida, mas sucedâneo mesmo assim.
O wiki cresceu um bocadinho, mas continua bastante parado. Tem agora mais 20 páginas do que há uma semana, e mais 16 404 do que no momento em que nasceu.
E nem as leituras foram abundantes. Antes pelo contrário.
Li A Luz Mais Interior, noveleta de horror de Arthur Machen, de que não gostei tanto como da Novela da Chancela Negra. É mais uma história de investigação sobrenatural, uma daquelas histórias que tipicamente parecem inspiradas pelo velho adágio sobre a curiosidade ter morto o gato. Neste caso não mata, propriamente, mas apenas porque o protagonista recua no último momento depois de ser avisado por uma personagem secundária que não recuou. Está bem escrita, sem dúvida, e bem delineada, mas não me prendeu.
E li Afinador de Pianos, conto de fantasia de Victor Kolupaev que gira em volta de um afinador de pianos muito especial. Magicamente muito especial. O conto leva-o a percorrer uma série de apartamentos afinando os pianos consoante as características das famílias que os possuem e das pessoas que, nessas famílias, mais usam os instrumentos. É um bom conto, apesar de ser bastante capaz de irritar solenemente os leitores que odeiam histórias humanistas.
E foi isto que li esta semana. Até à próxima.
Não que haja muito a dizer da semana que passou. Foi, como é hábito em mim sempre que um trabalho está com o fim próximo, dedicada quase em exclusivo a dar-lhe esse mesmo fim. Não que tenha terminado por completo, claro, ainda falta a revisão. Mas por qualquer motivo encaro sempre a revisão como um sucedâneo do trabalho verdadeiro. Um sucedâneo importante, sem dúvida, mas sucedâneo mesmo assim.
O wiki cresceu um bocadinho, mas continua bastante parado. Tem agora mais 20 páginas do que há uma semana, e mais 16 404 do que no momento em que nasceu.
E nem as leituras foram abundantes. Antes pelo contrário.
Li A Luz Mais Interior, noveleta de horror de Arthur Machen, de que não gostei tanto como da Novela da Chancela Negra. É mais uma história de investigação sobrenatural, uma daquelas histórias que tipicamente parecem inspiradas pelo velho adágio sobre a curiosidade ter morto o gato. Neste caso não mata, propriamente, mas apenas porque o protagonista recua no último momento depois de ser avisado por uma personagem secundária que não recuou. Está bem escrita, sem dúvida, e bem delineada, mas não me prendeu.
E li Afinador de Pianos, conto de fantasia de Victor Kolupaev que gira em volta de um afinador de pianos muito especial. Magicamente muito especial. O conto leva-o a percorrer uma série de apartamentos afinando os pianos consoante as características das famílias que os possuem e das pessoas que, nessas famílias, mais usam os instrumentos. É um bom conto, apesar de ser bastante capaz de irritar solenemente os leitores que odeiam histórias humanistas.
E foi isto que li esta semana. Até à próxima.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
O Bloco e o Algarve
Há algumas coisas na política portuguesa que me causam perplexidade. Bem, minto, há montes de coisas na política portuguesa que me causam perplexidade (e a portuguesa, mesmo assim, é melhor do que outras que há por este mundo fora). Geralmente é uma perplexidade má, do estilo "mas como é que isto é possível, neste mundo e nesta época?!" Mas nalguns casos é uma perplexidade boa. Coisas que não compreendo, mas que me agradam mesmo sem compreender.
Uma dessas coisas é a força que o Bloco de Esquerda tem no Algarve.
O Bloco não tem estruturas locais particularmente visíveis, nenhum dos seus dirigentes de maior relevo é oriundo da região, não há no Algarve nenhum dos factores que costumam associar-se ao Bloco, e, no entanto, olhando para o país todo, vê-se que é no Algarve que o Bloco obtém maior percentagem, praticamente 15%. Só o distrito de Setúbal lhe chega perto, também acima dos 14%. No meu concelho, Portimão, chega mesmo aos 17%, e na freguesia de Portimão, isto é, na cidade propriamente dita, aproxima-se dos 17,5%.
O que é que explica isto? Não faço a mínima ideia. Ou por outra, tenho umas ideias vagas com as quais tenho especulado ao longo dos anos. Já aqui tinha falado delas. Mas, embora Portimão continue a ser dos sítios em que o Bloco tem mais força, este fenómeno bloquista no Algarve estendeu-se agora a todo o litoral. À grande cidade de 300 mil habitantes (dois milhões e meio quando o Verão corre bem aos hoteleiros), com 5 km de largura e 100 km de extensão que é o litoral algarvio nos dias que correm.
Se calhar é isso que explica o Bloco no Algarve. Mas olhem que era coisa que, se eu fosse sociólogo, muito me interessaria estudar.
Já agora, e num aparte, se nas eleições legislativas os resultados do Algarve fossem estes, teríamos uma distribuição de deputados muito interessante:
PSD: 27.39%, 3 deputados
PS: 24.98%, 3 deputados
BE: 14.95%, 1 deputado
CDU: 10.35%, 1 deputado
E de em vez de 8 fossem 9, o partido seguinte a eleger alguém seria o CDS. Giro, não é?
Uma dessas coisas é a força que o Bloco de Esquerda tem no Algarve.
O Bloco não tem estruturas locais particularmente visíveis, nenhum dos seus dirigentes de maior relevo é oriundo da região, não há no Algarve nenhum dos factores que costumam associar-se ao Bloco, e, no entanto, olhando para o país todo, vê-se que é no Algarve que o Bloco obtém maior percentagem, praticamente 15%. Só o distrito de Setúbal lhe chega perto, também acima dos 14%. No meu concelho, Portimão, chega mesmo aos 17%, e na freguesia de Portimão, isto é, na cidade propriamente dita, aproxima-se dos 17,5%.
O que é que explica isto? Não faço a mínima ideia. Ou por outra, tenho umas ideias vagas com as quais tenho especulado ao longo dos anos. Já aqui tinha falado delas. Mas, embora Portimão continue a ser dos sítios em que o Bloco tem mais força, este fenómeno bloquista no Algarve estendeu-se agora a todo o litoral. À grande cidade de 300 mil habitantes (dois milhões e meio quando o Verão corre bem aos hoteleiros), com 5 km de largura e 100 km de extensão que é o litoral algarvio nos dias que correm.
Se calhar é isso que explica o Bloco no Algarve. Mas olhem que era coisa que, se eu fosse sociólogo, muito me interessaria estudar.
Já agora, e num aparte, se nas eleições legislativas os resultados do Algarve fossem estes, teríamos uma distribuição de deputados muito interessante:
PSD: 27.39%, 3 deputados
PS: 24.98%, 3 deputados
BE: 14.95%, 1 deputado
CDU: 10.35%, 1 deputado
E de em vez de 8 fossem 9, o partido seguinte a eleger alguém seria o CDS. Giro, não é?
Resultados
Bem, então os resultados parece que foram mais ou menos assim:
Partido Popular Europeu: 10 deputados;
Partido Socialista Europeu: 7 deputados;
Esquerda Unida Europeia: 5 deputados.
Ou então, vistos de outra forma, foram assim:
Esquerda (PS, BE, CDU, MRPP, PH, POUS): 49.80%
Direita (PSD, PP, PPM, PNR): 40.82%
Voto de protesto (brancos e nulos): 6.63%
Pequeninos que não se sabe muito bem se são esquerda ou direita (MEP, MPT, MMS): 2.76%
Ou então, vistos ainda de outra forma, foram assim:
Centrão (PS, PSD, MEP, MPT, MMS, PH): 61.51%
Esquerda (BE, CDU, MRPP, POUS): 22.74%
Direita (PP, PPM, PNR): 9.13%
Voto de protesto: 6.63%
Ou vistos ainda de uma última forma, foram assim:
Pessoas que se estão nas tintas: 62.95%
Pessoas que se interessam o suficiente pelo país para arrancar o traseiro do sofá: 37.05%.
Bem, OK, não resisto. Só mais uma:
Votos expressos por pessoas: 99.63%
Votos expressos por cavalgaduras xenófobas: 0.37%
Partido Popular Europeu: 10 deputados;
Partido Socialista Europeu: 7 deputados;
Esquerda Unida Europeia: 5 deputados.
Ou então, vistos de outra forma, foram assim:
Esquerda (PS, BE, CDU, MRPP, PH, POUS): 49.80%
Direita (PSD, PP, PPM, PNR): 40.82%
Voto de protesto (brancos e nulos): 6.63%
Pequeninos que não se sabe muito bem se são esquerda ou direita (MEP, MPT, MMS): 2.76%
Ou então, vistos ainda de outra forma, foram assim:
Centrão (PS, PSD, MEP, MPT, MMS, PH): 61.51%
Esquerda (BE, CDU, MRPP, POUS): 22.74%
Direita (PP, PPM, PNR): 9.13%
Voto de protesto: 6.63%
Ou vistos ainda de uma última forma, foram assim:
Pessoas que se estão nas tintas: 62.95%
Pessoas que se interessam o suficiente pelo país para arrancar o traseiro do sofá: 37.05%.
Bem, OK, não resisto. Só mais uma:
Votos expressos por pessoas: 99.63%
Votos expressos por cavalgaduras xenófobas: 0.37%
sábado, 6 de junho de 2009
Semana
Olá a todos, caros nãoseiquantos leitores, aqui o mordomo dos sábados dá-vos as boas vindas a mais um. Isto hoje vai ser rápido, que tenho de ir ali. Onde? Ali.
O livro está cada vez mais quase traduzido. Faltam agora 54 páginas para o fim. Na próxima nota semanal deverei dizer que "o livro está traduzido". Ou então que "o livro acaba-se hoje". Não sei, e mesmo se soubesse não vos diria; afinal há que manter algum suspense nestas coisas.
O wiki, depois de duas semanas parado, mexeu finalmente um tudo-nada. 4 páginas novas, acrescentadas ontem. Não faço prognósticos para a semana; tanto pode voltar ao crescimento rápido como continuar na modorra dos últimos tempos. É com ele.
E agora as leituras.
Uma das coisas que li esta semana foi mais um conto totalmente surreal de Rhys Hughes, Horizonte Eterno, no qual um tal Luís Rodrigues (de onde é que eu conheço este nome? Hm...), navegador, depois de ser lançado borda fora do seu veleiro por piratas, entra numa tórrida relação amorosa com uma deusa e percorre meio mundo em surreais peripécias, entre as quais se destaca o problemático aparecimento de um segundo horizonte, mais próximo de nós do que o original. Divertido, mas de novo senti falta de um fio condutor mais firme para gostar realmente desta história.
Noutra versão da língua portuguesa li Toda Forma de Amor, de Carlos Orsi, um conto de ficção científica com toques de horror sobre uma mulher que tem um encontro poético com uma misteriosa personagem que responde pela alcunha de Grafo. Cheio de ideias sofisticadas sobre matemática, computação e literatura, é um conto explanatório clássico, que até tem uma versão modernizada do cientista louco da velha FC do início do século XX. É um esforço competente e bem desenvolvido, mas confesso que não gostei muito, provavelmente porque põe a ideia à frente de tudo o mais.
Voltando à minha versão do português, li As Palavras, de Saramago, uma crónica que se debruça sobre as palavras (óbvio) e a comunicação em tempos de ditadura. Também não gostei por aí além.
A coisa mais curta que li esta semana foi Os Gafanhotos, de Bradbury, mais um dos tais contos que têm mais importância para o livro do que valor como textos independentes.
E mudando finalmente de língua encontra-se a jóia da semana. The Ice, novela de Steven Popkes, conta a história dum clone clandestino duma lenda do hóquei sobre o gelo. É uma história excelente sobre a identidade e as relações interpessoais, sobre aquilo que somos e até que ponto isso é determinado pelos genes que herdamos ou pelas escolhas que fazemos ao longo da vida. Muito bom.
E pronto, post feito, resta ir ver se não houve alguma gralha a enfiar-se nele à má-fila, etiquetá-lo e clicar em "publicar mensagem".
O livro está cada vez mais quase traduzido. Faltam agora 54 páginas para o fim. Na próxima nota semanal deverei dizer que "o livro está traduzido". Ou então que "o livro acaba-se hoje". Não sei, e mesmo se soubesse não vos diria; afinal há que manter algum suspense nestas coisas.
O wiki, depois de duas semanas parado, mexeu finalmente um tudo-nada. 4 páginas novas, acrescentadas ontem. Não faço prognósticos para a semana; tanto pode voltar ao crescimento rápido como continuar na modorra dos últimos tempos. É com ele.
E agora as leituras.
Uma das coisas que li esta semana foi mais um conto totalmente surreal de Rhys Hughes, Horizonte Eterno, no qual um tal Luís Rodrigues (de onde é que eu conheço este nome? Hm...), navegador, depois de ser lançado borda fora do seu veleiro por piratas, entra numa tórrida relação amorosa com uma deusa e percorre meio mundo em surreais peripécias, entre as quais se destaca o problemático aparecimento de um segundo horizonte, mais próximo de nós do que o original. Divertido, mas de novo senti falta de um fio condutor mais firme para gostar realmente desta história.
Noutra versão da língua portuguesa li Toda Forma de Amor, de Carlos Orsi, um conto de ficção científica com toques de horror sobre uma mulher que tem um encontro poético com uma misteriosa personagem que responde pela alcunha de Grafo. Cheio de ideias sofisticadas sobre matemática, computação e literatura, é um conto explanatório clássico, que até tem uma versão modernizada do cientista louco da velha FC do início do século XX. É um esforço competente e bem desenvolvido, mas confesso que não gostei muito, provavelmente porque põe a ideia à frente de tudo o mais.
Voltando à minha versão do português, li As Palavras, de Saramago, uma crónica que se debruça sobre as palavras (óbvio) e a comunicação em tempos de ditadura. Também não gostei por aí além.
A coisa mais curta que li esta semana foi Os Gafanhotos, de Bradbury, mais um dos tais contos que têm mais importância para o livro do que valor como textos independentes.
E mudando finalmente de língua encontra-se a jóia da semana. The Ice, novela de Steven Popkes, conta a história dum clone clandestino duma lenda do hóquei sobre o gelo. É uma história excelente sobre a identidade e as relações interpessoais, sobre aquilo que somos e até que ponto isso é determinado pelos genes que herdamos ou pelas escolhas que fazemos ao longo da vida. Muito bom.
E pronto, post feito, resta ir ver se não houve alguma gralha a enfiar-se nele à má-fila, etiquetá-lo e clicar em "publicar mensagem".
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Olha, olha, cortaram nas taxas
Como diria o outro, porreiro, pá!
Recebi hoje uma mensagenzinha a informar que as taxas suplementares de que falava neste post foram anuladas. Fui ver, e é verdade: os livros estão, na Amazon, ao mesmo preço a que estão na Lulu. O Os Pés e a Cabeça está a $13.49 (€10.72), o Por Universos Nunca Dantes Navegados está a $25.11 (€19.96).
O segundo vale a pena. O primeiro nem por isso.
Recebi hoje uma mensagenzinha a informar que as taxas suplementares de que falava neste post foram anuladas. Fui ver, e é verdade: os livros estão, na Amazon, ao mesmo preço a que estão na Lulu. O Os Pés e a Cabeça está a $13.49 (€10.72), o Por Universos Nunca Dantes Navegados está a $25.11 (€19.96).
O segundo vale a pena. O primeiro nem por isso.
sábado, 30 de maio de 2009
Semana
E o tempo lá continua a minguar, os dias a fundir-se uns nos outros num continuum uniforme, e as semanas passam com a velocidade dum TGV, agora vem aí, e num instante vuuuch, já lá vai.
No livro restam 102 páginas. Duas semanas e picos, ou talvez simplesmente duas semanas, dependendo do estado da cabeça e do efeito que trouxerem os remates da nossa amiga Robin. O desta semana trouxe um poema. O último. Ficou porreiro, parece-me.
O wiki não tugiu nem buliu. Passou uma semana de férias. Às vezes tem de ser.
E no que toca a leituras, também não foram propriamente abundantes.
Li O Reflexo do Espelho, conto de Ray Bradbury com uma atmosfera vagamente mágica sobre as relações de dominância e submissão entre duas gémeas de meia idade. Este é mesmo muito bom.
E li A Novela da Chancela Negra, de Arthur Machen, novela que descreve as investigações de um cientista inglês, o qual descobre um artefacto com estranhas inscrições que lhe vai abrir as portas para algo de tenebroso, tudo contado por uma jovem arrolada por ele para lhe servir de testemunha. Gostei francamente mais do que de O Grande Deus Pã, apesar da estrutura desta história ser mais tradicional. Ressoou melhor cá dentro e manteve-me atento, em vez de me dar sono.
Li também Inspiração, de Victor Kolupaev, um conto fantástico sobre um operário que em tempos idos pintou e passadas décadas regressa ao seu antigo passatempo. Mas quando o quadro é exposto, todos os que o observam vêem coisas diferentes. É interessante, embora não seja memorável.
E li Tudo para Nada, conto surrealista de Rhys Hughes que parte do extravio de um pequeno cão e vai por aí fora com a textura dos sonhos mais desconexos, saltitando de tema em tema com a agilidade dum filme do Daffy Duck, embora sem nenhum do seu frenesim. Interessante, mas falta-lhe um fio condutor mais firme para me agradar mesmo a sério. O onirismo também pode ser excessivo.
E, resumidamente, foi isto. Agora com licença, que tenho aqui umas páginas a chamar por mim.
No livro restam 102 páginas. Duas semanas e picos, ou talvez simplesmente duas semanas, dependendo do estado da cabeça e do efeito que trouxerem os remates da nossa amiga Robin. O desta semana trouxe um poema. O último. Ficou porreiro, parece-me.
O wiki não tugiu nem buliu. Passou uma semana de férias. Às vezes tem de ser.
E no que toca a leituras, também não foram propriamente abundantes.
Li O Reflexo do Espelho, conto de Ray Bradbury com uma atmosfera vagamente mágica sobre as relações de dominância e submissão entre duas gémeas de meia idade. Este é mesmo muito bom.
E li A Novela da Chancela Negra, de Arthur Machen, novela que descreve as investigações de um cientista inglês, o qual descobre um artefacto com estranhas inscrições que lhe vai abrir as portas para algo de tenebroso, tudo contado por uma jovem arrolada por ele para lhe servir de testemunha. Gostei francamente mais do que de O Grande Deus Pã, apesar da estrutura desta história ser mais tradicional. Ressoou melhor cá dentro e manteve-me atento, em vez de me dar sono.
Li também Inspiração, de Victor Kolupaev, um conto fantástico sobre um operário que em tempos idos pintou e passadas décadas regressa ao seu antigo passatempo. Mas quando o quadro é exposto, todos os que o observam vêem coisas diferentes. É interessante, embora não seja memorável.
E li Tudo para Nada, conto surrealista de Rhys Hughes que parte do extravio de um pequeno cão e vai por aí fora com a textura dos sonhos mais desconexos, saltitando de tema em tema com a agilidade dum filme do Daffy Duck, embora sem nenhum do seu frenesim. Interessante, mas falta-lhe um fio condutor mais firme para me agradar mesmo a sério. O onirismo também pode ser excessivo.
E, resumidamente, foi isto. Agora com licença, que tenho aqui umas páginas a chamar por mim.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Books for sale at Amazon!
Um tweet do Luís Filipe Silva chamou-me a atenção para uma novidade interessante: A antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados, que organizámos juntos e ele editou, está agora à venda na Amazon. Isto é interessante por vários motivos. Um deles é que, em princípio, o público potencial do livro se alarga bastante, visto que são muito mais as pessoas com conta na Amazon do que na Lulu. Mesmo apesar da taxa suplementar que a Amazon põe em cima do preço do livro. E recordo (ou informo) que esta antologia contém um conto meu e outro escrito a meias por mim e pelo meu pai. Além duma série de outras histórias porreirinhas.
Outro motivo é que se a PUNDN está na Amazon, talvez também lá esteja outra coisinha que eu cá sei? E uma pequena busca descobre que está, sim senhor.
Refiro-me a Os Pés e a Cabeça, um livrinho de pouco mais de 160 páginas onde reuni as cónicas que publiquei nos tempos em que ganhei a vida como jornalista no jornal Região Sul. Escuso-me a grandes descrições, uma vez que já o tinha descrito aqui, e não tenho grande coisa a acrescentar tanto à descrição, como à avaliação nada comercial que aí faço do livro e aos motivos que me levaram a publicá-lo. A página da Amazon é esta.
(Aliás, descubro agora que a Lulu já me tinha informado de que ia pôr o livro à venda na Amazon. Por email. Mas eu ando muito arredado do email. Duas mil mensagens por tratar são um repelente bastante eficiente. E por isso vão-se acumulando, e acumulando, e acumulando... vou ter de fazer algo a este respeito e depressa.)
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Já anda por aí mais um dos meus
Fantasia épica. E uma fantasia épica que não é pêra doce nenhuma de traduzir. Bem pelo contrário. Este deu-me uma trabalheira dos diabos, e o que se segue continua a dar. Só posso esperar que o resultado seja do agrado de quem compra.
sábado, 23 de maio de 2009
Semana
Bem, e cá estamos. Parece que o último sábado foi ontem ou anteontem, mas pelos vistos não foi. Para onde diabo voa o tempo?
Bem, um sítio para onde ele voa é o trabalho. Com 149 páginas a faltar para o fim, ele vai avançando a um ritmo estável, mas cada página tem um pouco (ou não tão pouco como isso) de tempo nela aninhado, entretecido nas fibras do papel que os leitores folhearão depois do livro publicado (lá para Setembro, acho eu).
Também voa um pouco para o wiki, que engordou mais 30 páginas, somando agora 16 380, ainda que já esteja parado há alguns dias.
E voa também para leituras, que nesta semana até que foram relativamente abundantes.
Para começar, acabei um romance bastante longo, 434 páginas de letra apertadinha: Regresso a Marte, de Ben Bova. Ficção científica, claro. Trata-se duma sequela a outro romance de Bova, intitulado (adivinhem) Marte, que tratava da primeira viagem tripulada ao planeta vermelho. Esta sequela descreve (adivinhem) a segunda viagem tripulada a Marte. Adivinharam? Vocês são mesmo bons nisto! É um original de 1999, de antes dos rovers marcianos e das sondas em órbita que revolucionaram o que sabemos sobre Marte, e como consequência já está algo ultrapassado pelos acontecimentos. Apesar disso é uma leitura interessante, que se lê bem. Não é um grande livro de FC, mas é um livro agradável e honesto, que tem no confronto entre a avidez do lucro e a vontade de preservar o património (natural ou não) o seu ponto mais forte. Gostei.
Mas se pensam que foi o único romance que acabei, desenganem-se, embora o outro faça parte duma colectânea. Falo de Poção de Marte, de Kir Bulitchev, um pequeno romance sobre aquilo que acontece a um grupo de habitantes duma cidadezinha da província soviética quando é descoberto por acaso um subterrâneo secreto onde se guardava uma garrafa com um líquido peculiar lá dentro. Vem a descobrir-se que esse líquido é uma poção da juventude, que terá vindo "de Marte", no dizer das duas misteriosas personagens que a andam a usar há 200 anos. Não é um bom romance. Começa de forma interessante e continua de forma interessante, mas quando nos preparamos para saber o que acontece àquelas pessoas quando partem para Moscovo a fim de tentar colocar a poção ao serviço da ciência, o romance acaba abruptamente com um final apressado, deixando um certo sabor amargo na boca. Em todo o caso vale pelo divertido retrato da cidadezinha e por personagens bastante mais sólidas do que é costumeiro encontrar-se na FC. Razoável, portanto.
E, como sempre, li coisas mais curtas.
O Grande Deus Pã, novela gótica de Arthur Machen, teve, confesso, o condão de me adormecer. OK, está construída duma forma interessante, como uma série de historietas interligadas que se estendem por uma porção de anos. E também consigo compreender a sua relevância no contexto da literatura inglesa da época vitoriana, visto que tem uma forte componente sexual (disfarçada, claro) e mexe não só com o sobrenatural, mas também com o paganismo. De modo que entendo, intelectualmente, o porquê de ser considerada um clássico do horror. Mas, oh, o aborrecimento que me causou! A soneira! A completa ausência duma ligação emocional, qualquer que ela fosse, com este texto!
Madame et Monsieur Isco, é outro conto mainstream de Ray Bradbury, com leves laivos de fantasia, e este nem sequer se pode chamar americana, visto passar-se em Paris. Um jovem "atraente" é contratado pelo dono dum restaurante para fazer companhia a uma jovem "belíssima" numa mesa colocada na montra do estabelecimento e comer gratuitamente. Mas depois ele apaixona-se. É uma história bem construída e, claro, bem escrita. Bom.
Etiquette With your Robot Wife, de Bruce Boston, é um poema muito divertido que também funcionaria bem em formato mini-conto. Para perceberem o estilo, começa assim: "Never tell her she tastes like metal" E continua, por mais umas quantas frases de semelhante catadura. Porreirinho!
A Manhã Verde, de novo de Ray Bradbury, é um bom conto sobre um homem cuja missão na vida é plantar árvores em Marte, para que a rarefeita atmosfera do planeta ganhe mais oxigéneo e ele consiga aí respirar melhor. Olhado como ficção científica, é bastante mau. Olhado simplesmente como literatura, é bastante bom, e o curioso é que funciona lindamente no contexto do livro, que é mais ficção científica do que outra coisa.
Viagens na Minha Terra, de Saramago, é uma crónica que divaga sobre o livro de Garrett com o mesmo título. Nada de especial.
Por fim, Tritões Lunares, de Rhys Hughes, é um conto em que Hughes nos explica que na verdade a Lua é habitada por um povo de tritões ameaçados por pescadores de Saturno, que as crateras na verdade são telescópios e mais uma série de detalhes sobre a verdadeira Lua. Pelo menos a verdadeira tal qual existe na imaginação dele. Weird fiction divertida e bastante bem escrita.
E pronto, foi para isto que o tempo voou. E para mais uma série de coisas de que não serve de nada falar aqui. Quando voar outro período de sete dias, voltaremos a encontrar-nos. Até lá. Ou até algum post "não-semanal" que apareça entretanto. Está planeado, resta saber é se encontrarei tempo para passar dos planos aos bits.
Bem, um sítio para onde ele voa é o trabalho. Com 149 páginas a faltar para o fim, ele vai avançando a um ritmo estável, mas cada página tem um pouco (ou não tão pouco como isso) de tempo nela aninhado, entretecido nas fibras do papel que os leitores folhearão depois do livro publicado (lá para Setembro, acho eu).
Também voa um pouco para o wiki, que engordou mais 30 páginas, somando agora 16 380, ainda que já esteja parado há alguns dias.
E voa também para leituras, que nesta semana até que foram relativamente abundantes.
Para começar, acabei um romance bastante longo, 434 páginas de letra apertadinha: Regresso a Marte, de Ben Bova. Ficção científica, claro. Trata-se duma sequela a outro romance de Bova, intitulado (adivinhem) Marte, que tratava da primeira viagem tripulada ao planeta vermelho. Esta sequela descreve (adivinhem) a segunda viagem tripulada a Marte. Adivinharam? Vocês são mesmo bons nisto! É um original de 1999, de antes dos rovers marcianos e das sondas em órbita que revolucionaram o que sabemos sobre Marte, e como consequência já está algo ultrapassado pelos acontecimentos. Apesar disso é uma leitura interessante, que se lê bem. Não é um grande livro de FC, mas é um livro agradável e honesto, que tem no confronto entre a avidez do lucro e a vontade de preservar o património (natural ou não) o seu ponto mais forte. Gostei.
Mas se pensam que foi o único romance que acabei, desenganem-se, embora o outro faça parte duma colectânea. Falo de Poção de Marte, de Kir Bulitchev, um pequeno romance sobre aquilo que acontece a um grupo de habitantes duma cidadezinha da província soviética quando é descoberto por acaso um subterrâneo secreto onde se guardava uma garrafa com um líquido peculiar lá dentro. Vem a descobrir-se que esse líquido é uma poção da juventude, que terá vindo "de Marte", no dizer das duas misteriosas personagens que a andam a usar há 200 anos. Não é um bom romance. Começa de forma interessante e continua de forma interessante, mas quando nos preparamos para saber o que acontece àquelas pessoas quando partem para Moscovo a fim de tentar colocar a poção ao serviço da ciência, o romance acaba abruptamente com um final apressado, deixando um certo sabor amargo na boca. Em todo o caso vale pelo divertido retrato da cidadezinha e por personagens bastante mais sólidas do que é costumeiro encontrar-se na FC. Razoável, portanto.
E, como sempre, li coisas mais curtas.
O Grande Deus Pã, novela gótica de Arthur Machen, teve, confesso, o condão de me adormecer. OK, está construída duma forma interessante, como uma série de historietas interligadas que se estendem por uma porção de anos. E também consigo compreender a sua relevância no contexto da literatura inglesa da época vitoriana, visto que tem uma forte componente sexual (disfarçada, claro) e mexe não só com o sobrenatural, mas também com o paganismo. De modo que entendo, intelectualmente, o porquê de ser considerada um clássico do horror. Mas, oh, o aborrecimento que me causou! A soneira! A completa ausência duma ligação emocional, qualquer que ela fosse, com este texto!
Madame et Monsieur Isco, é outro conto mainstream de Ray Bradbury, com leves laivos de fantasia, e este nem sequer se pode chamar americana, visto passar-se em Paris. Um jovem "atraente" é contratado pelo dono dum restaurante para fazer companhia a uma jovem "belíssima" numa mesa colocada na montra do estabelecimento e comer gratuitamente. Mas depois ele apaixona-se. É uma história bem construída e, claro, bem escrita. Bom.
Etiquette With your Robot Wife, de Bruce Boston, é um poema muito divertido que também funcionaria bem em formato mini-conto. Para perceberem o estilo, começa assim: "Never tell her she tastes like metal" E continua, por mais umas quantas frases de semelhante catadura. Porreirinho!
A Manhã Verde, de novo de Ray Bradbury, é um bom conto sobre um homem cuja missão na vida é plantar árvores em Marte, para que a rarefeita atmosfera do planeta ganhe mais oxigéneo e ele consiga aí respirar melhor. Olhado como ficção científica, é bastante mau. Olhado simplesmente como literatura, é bastante bom, e o curioso é que funciona lindamente no contexto do livro, que é mais ficção científica do que outra coisa.
Viagens na Minha Terra, de Saramago, é uma crónica que divaga sobre o livro de Garrett com o mesmo título. Nada de especial.
Por fim, Tritões Lunares, de Rhys Hughes, é um conto em que Hughes nos explica que na verdade a Lua é habitada por um povo de tritões ameaçados por pescadores de Saturno, que as crateras na verdade são telescópios e mais uma série de detalhes sobre a verdadeira Lua. Pelo menos a verdadeira tal qual existe na imaginação dele. Weird fiction divertida e bastante bem escrita.
E pronto, foi para isto que o tempo voou. E para mais uma série de coisas de que não serve de nada falar aqui. Quando voar outro período de sete dias, voltaremos a encontrar-nos. Até lá. Ou até algum post "não-semanal" que apareça entretanto. Está planeado, resta saber é se encontrarei tempo para passar dos planos aos bits.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Curtas
Um comentário do Francisco Norega no post aqui de baixo merece, creio, uma resposta "cá em cima" no blogue propriamente dito. Diz ele que as coisas relativamente à ficção curta estão a melhorar nos últimos tempos, com o aparecimento das revistas dedicadas ao género. E eu respondo-lhe que:
Sim, as revistas são fundamentais. Revistas, fanzines, sites, qualquer coisa onde a malta que escreve (porque há malta que escreve; os concursos estão sempre cheios de candidatos — mais sobre isto mais adiante) possa ir publicando. Mas não chega, até porque em geral todos esses veículos têm um círculo de leitores bastante limitado. Mesmo a Bang!: é descarregada por montes de gente mas, por conversas que tenho tido por aí, concluo que é muito pouco lida. A maior parte dos que a descarregam passam os olhos, pensam vagamente em ler ou lêem uma coisa ou outra, e acabam por deixar para depois. É preciso também chegar aos livros, e aqui as editoras são fundamentais e, para que as editoras apostem, é também preciso que o público se mostre interessado em colectâneas e antologias e as compre e comente como faz com os romances.
É que basta passar os olhos pelos blogues que falam de livros e literatura. Quantas vezes se vê referência a livros de contos? É só romances, romances, romances, romances e mais romances. Sagas atrás de sagas. Vejo gente a falar de todas as edições fantásticas da Presença, por exemplo, mas não me lembro de ter visto uma única referência a algo pertencente à colecção A Biblioteca de Babel fora das notas sobre lançamentos. Quando essa colecção é talvez a única colecção de literatura fantástica actualmente em publicação em que se publicam fundamentalmente contos. Do pessoal que vai escrevendo sobre o que vai lendo o único que fala mais de contos do que de romances, que eu saiba, sou eu.
OK, é verdade, podia ser pior. E já foi. Estamos melhor agora, com uma (em breve duas) revistas de contos e mais um ou dois fanzines, ainda que sejam muito baixadas dos sites e pouco lidas, do que estivemos aqui há uns anos, quando não tínhamos nada. Se isto fizer parte de um percurso, tudo do bom e do melhor, aplausos e assobios de entusiasmo. Mas julgo que continua a ser fundamental que quem gosta de contos os promova para desfazer os preconceitos ou desagrados no público que a eles é avesso, e para que a ficção curta volte a ser coligida em colectâneas e publicada pelas nossas editoras.
É que conheço gente com produção dispersa por contos e novelas que não a consegue reunir em livro e publicar. Inclusive alguns dos nossos melhores autores. E isto é francamente mau, e bem pior do que a situação que já houve em Portugal, há coisa de 15 anos, quando saíram dos melhores livros de FC&F que já se escreveram por cá, quase todos livros de contos. Óptimo seria que se voltasse a esse estado de coisas. Duma forma sustentada, de preferência.
Sim, as revistas são fundamentais. Revistas, fanzines, sites, qualquer coisa onde a malta que escreve (porque há malta que escreve; os concursos estão sempre cheios de candidatos — mais sobre isto mais adiante) possa ir publicando. Mas não chega, até porque em geral todos esses veículos têm um círculo de leitores bastante limitado. Mesmo a Bang!: é descarregada por montes de gente mas, por conversas que tenho tido por aí, concluo que é muito pouco lida. A maior parte dos que a descarregam passam os olhos, pensam vagamente em ler ou lêem uma coisa ou outra, e acabam por deixar para depois. É preciso também chegar aos livros, e aqui as editoras são fundamentais e, para que as editoras apostem, é também preciso que o público se mostre interessado em colectâneas e antologias e as compre e comente como faz com os romances.
É que basta passar os olhos pelos blogues que falam de livros e literatura. Quantas vezes se vê referência a livros de contos? É só romances, romances, romances, romances e mais romances. Sagas atrás de sagas. Vejo gente a falar de todas as edições fantásticas da Presença, por exemplo, mas não me lembro de ter visto uma única referência a algo pertencente à colecção A Biblioteca de Babel fora das notas sobre lançamentos. Quando essa colecção é talvez a única colecção de literatura fantástica actualmente em publicação em que se publicam fundamentalmente contos. Do pessoal que vai escrevendo sobre o que vai lendo o único que fala mais de contos do que de romances, que eu saiba, sou eu.
OK, é verdade, podia ser pior. E já foi. Estamos melhor agora, com uma (em breve duas) revistas de contos e mais um ou dois fanzines, ainda que sejam muito baixadas dos sites e pouco lidas, do que estivemos aqui há uns anos, quando não tínhamos nada. Se isto fizer parte de um percurso, tudo do bom e do melhor, aplausos e assobios de entusiasmo. Mas julgo que continua a ser fundamental que quem gosta de contos os promova para desfazer os preconceitos ou desagrados no público que a eles é avesso, e para que a ficção curta volte a ser coligida em colectâneas e publicada pelas nossas editoras.
É que conheço gente com produção dispersa por contos e novelas que não a consegue reunir em livro e publicar. Inclusive alguns dos nossos melhores autores. E isto é francamente mau, e bem pior do que a situação que já houve em Portugal, há coisa de 15 anos, quando saíram dos melhores livros de FC&F que já se escreveram por cá, quase todos livros de contos. Óptimo seria que se voltasse a esse estado de coisas. Duma forma sustentada, de preferência.
sábado, 16 de maio de 2009
Semana
Sábado, e tal, ali ao lado a Rita Redshoes cantarola na TV, enfiada numa farfalhante farpela amarela, e aqui na Lâmpada é altura de mais uma notazinha sobre a semana que passou.
A calma que por aqui houve nas últimas semanas começa a reduzir-se com a aproximação do fim do prazo para a entrega do trabalho. E de mais alguns prazos que, suspeito, vão ser todos furados. O trabalho que paga tem e terá sempre prioridade sobre tudo o resto, e com os sarilhos em que este trabalho que paga me tem metido, o tempo e, pior, a disponibilidade mental para o resto cai a pique. Faltam 197 páginas, o que, ao ritmo a que tenho conseguido avançar, não dá grandes folgas, embora seja perfeitamente possível de cumprir.
Embora no trabalho a calma se tenha reduzido, no wiki não. Continuou a crescer ao ritmo lento que tem sido característico nos últimos tempos, subindo desta vez mais 52 páginas, para 16 350. Algum material brasileiro, algum material português, e também, sem contar para o crescimento no número de páginas, umas tarefazinhas de manutenção.
As leituras continuaram dominadas por romances, e esta semana um deles chegou ao fim. Trata-se de O Sentido Latente, de Nuno Neves. Um romance de estreia de um escritor muito novo e que é excelente como exemplo do mal que faz escrever romances sem passar antes pelo tirocínio dos contos e aprender neles a gerir coisas tão fundamentais como o ritmo de escrita e o desenvolvimento do enredo. Nuno Neves é evidentemente talentoso, e poderá dar coisas válidas à literatura e mesmo à FC portuguesa, desde que não siga por este caminho, desde que se refine como escritor. Porque este livro é mauzinho. Não que esteja mal escrito no que toca apenas ao texto. Não está, embora tampouco esteja particularmente bem. Mas está mal concebido, com elementos de FC que só deixam de ser apenas folclóricos (e com um folclore muito ultrapassado, ainda por cima) lá pela página 100, diálogos que põem investigadores policiais tarimbados a falar como putos do secundário, esfrangalhando por completo a sua credibilidade como personagens, enfim, uma porção de erros de principiante. E é muito desequilibrado como romance, pondo no fulcro da (pouca) acção a investigação policial sobre o assassínio do filho de um magnata da engenharia genética, quando o verdadeiro tema do romance, e o que lhe dá título, é um tal sentido latente, que ocupa uma dúzia de páginas, se tanto.
Quanto mais romances destes leio mais firme se torna a minha convicção de que é absolutamente fundamental que os escritores que pretendem dedicar-se à FC comecem a "treinar" em ficção curta, porque só na ficção curta podem fazer experiências (e falhar, pois falhar é inevitável por maior que seja o talento que se tem) com um investimento razoável de tempo e esforço. E mais firme se torna a minha convicção de que vale muito mais investir na publicação (as editoras) e leitura (os leitores) de colectâneas e antologias do que de romances como este. É que uma colectânea ou uma antologia raramente termina sem que o leitor tenha gostado, pelo menos um pouco, de alguns dos textos que a compõem. O mesmo não se pode dizer dum livro composto por um único texto. Se é mau, nada o salva.
Pensem nisso, oh vocês que tanto desprezam a ficção curta.
E por falar em contos...
Li também O Sem Título, de Simone Saueressig, um conto curtinho sobre um homem que descobre os textos de Lovecraft e acaba por descobrir um pouco mais do que isso. Não gostei muito, mas também não desgostei. Nasce na Serra de Albarracim, em Espanha, é uma crónica de José Saramago que mais parece uma declaração de amor ao rio Tejo. Embora o tema pouco ou nada me diga, a linguagem deste textozinho é uma delícia. Os Colonos, de Ray Bradbury, é outro dos seus contos muito pequenos que valem mais pelo efeito que têm no livro em que se inserem do que por si próprios. E Golden Bird, de Mary Rosenblum, é uma noveleta de ficção científica sobre um homem particularmente dotado para a engenharia genética que chega à cidade grande, violenta e paranóica, perpetuamente sob a ameaça do bioterrorismo, e aí encontra uma paixão em que a sua ingenuidade de rapaz do campo é posta à prova. Apesar de estar muito bem escrito, é apenas bonzinho, não me parece que passe disso. Acima de razoável, mas falta-lhe qualquer coisa para chegar a ser realmente bom. Ou tem qualquer coisa a mais, talvez; talvez funcionasse melhor, pelo menos a meus olhos, se fosse um pouco mais compacto.
E a semana foi isto. Muito resumidamente, claro.
A calma que por aqui houve nas últimas semanas começa a reduzir-se com a aproximação do fim do prazo para a entrega do trabalho. E de mais alguns prazos que, suspeito, vão ser todos furados. O trabalho que paga tem e terá sempre prioridade sobre tudo o resto, e com os sarilhos em que este trabalho que paga me tem metido, o tempo e, pior, a disponibilidade mental para o resto cai a pique. Faltam 197 páginas, o que, ao ritmo a que tenho conseguido avançar, não dá grandes folgas, embora seja perfeitamente possível de cumprir.
Embora no trabalho a calma se tenha reduzido, no wiki não. Continuou a crescer ao ritmo lento que tem sido característico nos últimos tempos, subindo desta vez mais 52 páginas, para 16 350. Algum material brasileiro, algum material português, e também, sem contar para o crescimento no número de páginas, umas tarefazinhas de manutenção.
As leituras continuaram dominadas por romances, e esta semana um deles chegou ao fim. Trata-se de O Sentido Latente, de Nuno Neves. Um romance de estreia de um escritor muito novo e que é excelente como exemplo do mal que faz escrever romances sem passar antes pelo tirocínio dos contos e aprender neles a gerir coisas tão fundamentais como o ritmo de escrita e o desenvolvimento do enredo. Nuno Neves é evidentemente talentoso, e poderá dar coisas válidas à literatura e mesmo à FC portuguesa, desde que não siga por este caminho, desde que se refine como escritor. Porque este livro é mauzinho. Não que esteja mal escrito no que toca apenas ao texto. Não está, embora tampouco esteja particularmente bem. Mas está mal concebido, com elementos de FC que só deixam de ser apenas folclóricos (e com um folclore muito ultrapassado, ainda por cima) lá pela página 100, diálogos que põem investigadores policiais tarimbados a falar como putos do secundário, esfrangalhando por completo a sua credibilidade como personagens, enfim, uma porção de erros de principiante. E é muito desequilibrado como romance, pondo no fulcro da (pouca) acção a investigação policial sobre o assassínio do filho de um magnata da engenharia genética, quando o verdadeiro tema do romance, e o que lhe dá título, é um tal sentido latente, que ocupa uma dúzia de páginas, se tanto.
Quanto mais romances destes leio mais firme se torna a minha convicção de que é absolutamente fundamental que os escritores que pretendem dedicar-se à FC comecem a "treinar" em ficção curta, porque só na ficção curta podem fazer experiências (e falhar, pois falhar é inevitável por maior que seja o talento que se tem) com um investimento razoável de tempo e esforço. E mais firme se torna a minha convicção de que vale muito mais investir na publicação (as editoras) e leitura (os leitores) de colectâneas e antologias do que de romances como este. É que uma colectânea ou uma antologia raramente termina sem que o leitor tenha gostado, pelo menos um pouco, de alguns dos textos que a compõem. O mesmo não se pode dizer dum livro composto por um único texto. Se é mau, nada o salva.
Pensem nisso, oh vocês que tanto desprezam a ficção curta.
E por falar em contos...
Li também O Sem Título, de Simone Saueressig, um conto curtinho sobre um homem que descobre os textos de Lovecraft e acaba por descobrir um pouco mais do que isso. Não gostei muito, mas também não desgostei. Nasce na Serra de Albarracim, em Espanha, é uma crónica de José Saramago que mais parece uma declaração de amor ao rio Tejo. Embora o tema pouco ou nada me diga, a linguagem deste textozinho é uma delícia. Os Colonos, de Ray Bradbury, é outro dos seus contos muito pequenos que valem mais pelo efeito que têm no livro em que se inserem do que por si próprios. E Golden Bird, de Mary Rosenblum, é uma noveleta de ficção científica sobre um homem particularmente dotado para a engenharia genética que chega à cidade grande, violenta e paranóica, perpetuamente sob a ameaça do bioterrorismo, e aí encontra uma paixão em que a sua ingenuidade de rapaz do campo é posta à prova. Apesar de estar muito bem escrito, é apenas bonzinho, não me parece que passe disso. Acima de razoável, mas falta-lhe qualquer coisa para chegar a ser realmente bom. Ou tem qualquer coisa a mais, talvez; talvez funcionasse melhor, pelo menos a meus olhos, se fosse um pouco mais compacto.
E a semana foi isto. Muito resumidamente, claro.
sábado, 9 de maio de 2009
Semana
Cá estamos de volta à singularidade nestas notas semanais, desta feita uma singularidade muito rápida, pois quando não há muito a dizer é escusado tentar dizer muito.
A tradução lá vai avançando a um ritmo regular, ainda que calmo, sem nada do frenesi que tem acompanhado outras traduções recentes. A carteira não gosta, mas a cabeça agradece. Faltam 243 páginas para chegar ao fim, e em todas elas haverá certamente um problema bicudo qualquer a resolver. Esta autora é assim. Há autores que quaisquer 7 euros por página pagam bem; outros nem 20 fariam justiça ao trabalho que dão.
O wiki também vai avançando a um ritmo regular, ainda que calmo. Nesta fase, tudo é calmo. Neste momento com um total de 16 298 páginas, tem 72 novidades desde a semana passada, e novidade também é que as mais relevantes dessas novidades passaram a ser divulgadas através duma conta própria no twitter. Quem estiver interessado - e quem não estaria? - Pode segui-la em @bibliowiki.
Também calmas têm sido as leituras, muito dedicadas a romances. De tal forma dedicadas a romances, na verdade, que na semana que passou só li um conto: Alguém à Chuva, de Ray Bradbury. Trata-se de uma história melancólica sobre um casal que revisita um local especial do passado do marido, para grande desagrado da mulher, onde ele reencontra alguns fantasmas desse mesmo passado. Fundamentalmente mainstream, só com uns leves toques de fantástico, é agradável de ler, embora desprovido de qualquer rasgo que o pudesse tornar especial.
E nada mais tenho a dizer, portanto calo-me. O silêncio, há quem diga, é a maior das virtudes.
A tradução lá vai avançando a um ritmo regular, ainda que calmo, sem nada do frenesi que tem acompanhado outras traduções recentes. A carteira não gosta, mas a cabeça agradece. Faltam 243 páginas para chegar ao fim, e em todas elas haverá certamente um problema bicudo qualquer a resolver. Esta autora é assim. Há autores que quaisquer 7 euros por página pagam bem; outros nem 20 fariam justiça ao trabalho que dão.
O wiki também vai avançando a um ritmo regular, ainda que calmo. Nesta fase, tudo é calmo. Neste momento com um total de 16 298 páginas, tem 72 novidades desde a semana passada, e novidade também é que as mais relevantes dessas novidades passaram a ser divulgadas através duma conta própria no twitter. Quem estiver interessado - e quem não estaria? - Pode segui-la em @bibliowiki.
Também calmas têm sido as leituras, muito dedicadas a romances. De tal forma dedicadas a romances, na verdade, que na semana que passou só li um conto: Alguém à Chuva, de Ray Bradbury. Trata-se de uma história melancólica sobre um casal que revisita um local especial do passado do marido, para grande desagrado da mulher, onde ele reencontra alguns fantasmas desse mesmo passado. Fundamentalmente mainstream, só com uns leves toques de fantástico, é agradável de ler, embora desprovido de qualquer rasgo que o pudesse tornar especial.
E nada mais tenho a dizer, portanto calo-me. O silêncio, há quem diga, é a maior das virtudes.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
As notas de rodapé, seja onde for
A Helena Pitta dá hoje, no Blogtailors, a sua opinião relativamente às notas de rodapé na tradução. Como é disso que vivo e já tive, naturalmente, de me confrontar com a decisão de colocar, ou não, notas de rodapé nas coisas que traduzo, o título despertou-me o interesse e fui ler.
E dificilmente conseguiria discordar mais.
Um tradutor, tal como um escritor, aliás, é, antes de mais, um leitor. E muitas das opções que toma no seu ofício são, em grande medida, determinadas por aquilo que lhe agrada ver, ou não, naquilo que vai lendo. É evidente, pelo que diz, que a Helena Pitta gosta de ler notas de rodapé, e provavelmente sempre gostou. Gosta de ser arrancada ao fluxo da narrativa e dispersar-se por linhas e mais linhas de letrinhas miudinhas, cheias de informações que considera relevantes. Já eu, detesto.
Oh, bem sei que por vezes são inevitáveis. Quando traduzi O Dilema de Shakespeare (ou Ruled Britannia, no original) vi-me obrigado a explicar trocadilhos intraduzíveis porque, sem a explicação, havia partes da tradução que deixavam de fazer sentido. Também usei as notas de rodapé para deixar ao leitor a possibilidade de ler o original de alguns poemas que surgem no texto e que, naturalmente, traduzi. E, se bem me lembro, houve um único detalhe histórico que achei conveniente explicar. Mas se tivesse usado uma nota de rodapé por cada poema, por cada trocadilho, ou por cada peculiaridade histórica de eventual interesse, provavelmente teria transformado as suas 477 páginas em 774.
De modo que vejo utilidade nas notas de rodapé, não digo que não. Mas só quando são inevitáveis. Quando o tradutor tem de reconhecer as limitações da sua arte e engenho, tem de reconhecer que não é capaz de transformar este ou aquele trecho em português inteligível. É para isso que servem as notas de rodapé, segundo o meu modo de ver as coisas. Para mais nada.
Porque quando se tenta pô-las a fazer mais coisas, cai-se geralmente em ratoeiras que estão sempre prontas a caçar os incautos. Cai-se na ratoeira de mostrar ignorância quando se usam notas de rodapé para explicar coisas que toda a gente sabe, tornando evidente que só o tradutor é que teve de ir à procura daquela informação para conseguir compreender o texto. Cai-se na ratoeira de mostrar arrogância, ao partir-se do princípio que quem vai ler é ignorante sobre o tema da nota. E cai-se na ratoeira de começar a irritar solenemente o leitor que até sabe as coisas que o tradutor acha que não sabe e não está disposto a ser arrancado ao fluxo da narrativa por causa de irrelevâncias. Anos de leitura de argonautas, em que os tradutores achavam, de vez em quando, boa ideia explicar detalhes de física, química ou biologia que aprendi no secundário, e quantas vezes com explicações cheias de erros, levaram-me a nutrir uma salutar antipatia por tais sintomas de falhanço na arte de contar histórias.
Sim, porque, excepto quando se pretende com elas gerar precisamente o tipo de texto dispersivo e fragmentário que as notas originam, o que é em si mesmo um objectivo literário inteiramente válido no qual as notas são também literatura, elas são sempre um sintoma de falhanço. Um bom contador de histórias é capaz de integrar no fluxo da narrativa, e sem perda de interesse para o leitor, todas as informações de que esse leitor necessita para apreciar e compreender aquilo que está a ler. Alguém que tem de recorrer a notas de rodapé para fornecer a informação necessária é alguém que conhece mal a arte que supostamente domina.
Isto, naturalmente, na minha modestíssima opinião.
E dificilmente conseguiria discordar mais.
Um tradutor, tal como um escritor, aliás, é, antes de mais, um leitor. E muitas das opções que toma no seu ofício são, em grande medida, determinadas por aquilo que lhe agrada ver, ou não, naquilo que vai lendo. É evidente, pelo que diz, que a Helena Pitta gosta de ler notas de rodapé, e provavelmente sempre gostou. Gosta de ser arrancada ao fluxo da narrativa e dispersar-se por linhas e mais linhas de letrinhas miudinhas, cheias de informações que considera relevantes. Já eu, detesto.
Oh, bem sei que por vezes são inevitáveis. Quando traduzi O Dilema de Shakespeare (ou Ruled Britannia, no original) vi-me obrigado a explicar trocadilhos intraduzíveis porque, sem a explicação, havia partes da tradução que deixavam de fazer sentido. Também usei as notas de rodapé para deixar ao leitor a possibilidade de ler o original de alguns poemas que surgem no texto e que, naturalmente, traduzi. E, se bem me lembro, houve um único detalhe histórico que achei conveniente explicar. Mas se tivesse usado uma nota de rodapé por cada poema, por cada trocadilho, ou por cada peculiaridade histórica de eventual interesse, provavelmente teria transformado as suas 477 páginas em 774.
De modo que vejo utilidade nas notas de rodapé, não digo que não. Mas só quando são inevitáveis. Quando o tradutor tem de reconhecer as limitações da sua arte e engenho, tem de reconhecer que não é capaz de transformar este ou aquele trecho em português inteligível. É para isso que servem as notas de rodapé, segundo o meu modo de ver as coisas. Para mais nada.
Porque quando se tenta pô-las a fazer mais coisas, cai-se geralmente em ratoeiras que estão sempre prontas a caçar os incautos. Cai-se na ratoeira de mostrar ignorância quando se usam notas de rodapé para explicar coisas que toda a gente sabe, tornando evidente que só o tradutor é que teve de ir à procura daquela informação para conseguir compreender o texto. Cai-se na ratoeira de mostrar arrogância, ao partir-se do princípio que quem vai ler é ignorante sobre o tema da nota. E cai-se na ratoeira de começar a irritar solenemente o leitor que até sabe as coisas que o tradutor acha que não sabe e não está disposto a ser arrancado ao fluxo da narrativa por causa de irrelevâncias. Anos de leitura de argonautas, em que os tradutores achavam, de vez em quando, boa ideia explicar detalhes de física, química ou biologia que aprendi no secundário, e quantas vezes com explicações cheias de erros, levaram-me a nutrir uma salutar antipatia por tais sintomas de falhanço na arte de contar histórias.
Sim, porque, excepto quando se pretende com elas gerar precisamente o tipo de texto dispersivo e fragmentário que as notas originam, o que é em si mesmo um objectivo literário inteiramente válido no qual as notas são também literatura, elas são sempre um sintoma de falhanço. Um bom contador de histórias é capaz de integrar no fluxo da narrativa, e sem perda de interesse para o leitor, todas as informações de que esse leitor necessita para apreciar e compreender aquilo que está a ler. Alguém que tem de recorrer a notas de rodapé para fornecer a informação necessária é alguém que conhece mal a arte que supostamente domina.
Isto, naturalmente, na minha modestíssima opinião.
domingo, 3 de maio de 2009
Semanas
Na semana passada, esqueci-me dela. Por assim dizer. Um tipo esquecer-se duma semana é algo que só está ao alcance dum amnésico de alto gabarito, e não é propriamente o meu caso (ainda?), daí o "por assim dizer". Mas esqueci-me de vir aqui à Lâmpada falar dela, o que talvez se tenha ficado a dever à irreverência e subversão que costumam vir associadas ao 25 de Abril. A consequência é que hoje não falo duma semana, mas sim de duas.
Começando pelo mais importante: tinha um conto quase pronto quando descobri que estava a tentar forçá-lo a ser algo que ele se recusava terminantemente a ser: fantástico. Era eu a empurrá-lo para o irreal, e ele a empacar que nem jerico malcriado. Era eu a tentar introduzir-lhe goela abaixo umas pitadas de fantasia e ele a vomitá-las como se de veneno se tratasse. Foi uma luta com perdedor inevitável, e claro que acabei por ceder. Era inescapável que o conto seguisse o que lhe sai naturalmente das tendências congénitas e, por mais que me entristeça vê-lo assim, vou ter de deixá-lo ser quem é: um mainstreamzito qualquer, que nem a revista Bang! aceitaria publicar. Como vingança, vai ser todo reescrito, de cima a baixo. Já está a ser, aliás.
Seguindo em ordem de importância, tenho aqui um livrito a ser traduzido, ah pois tenho. Uma metade de livro, mais propriamente, que pega na história onde a deixou O Punhal do Soberano, que está previsto que saia daqui a 20 dias. Isto se não decidir dar um salto à feira do livro de Lisboa entretanto, que os livros andam cada vez mais saídos das capas. E neste momento faltam-me 269 páginas para chegar ao último ponto final, que neste caso será um ponto final exuberante como todos os itálicos.
Descendo mais um pouco da escada, o wiki esteve absolutamente imóvel durante cerca de uma semana. Nem tugiu, nem mugiu, o que de qualquer forma nunca faz, visto que não é vaca nenhuma. Mas depois dessas feriazinhas lá voltou a saracotear-se um pouco. Foram 64 páginas novas a somar às que já lá se encontravam, aumentando o total para 16 226. Tudo graças aos meus dedinhos, pois então. Infelizmente, ainda não se descobriu nenhum modo de pôr as boas intenções a trabalhar. Mas consta-me que os cientistas estão a estudar o problema, algures num laboratório da Terra do Nunca. O Peter Pan é que anda chateado com o assunto. É ludita, o raio do puto.
E cá estamos nós no rés-do-chão: os livros. Passei as semanas dedicado quase em exclusivo a romances. Um muito chato, que, portanto, se lê lentamente, outro bastante grande, que, portanto, tem muito para ler, e um terceiro muito russo. Não acabei nenhum, mas felizmente (pois de contrário nada teria para vos dizer) também li isto:
Colheres de Amor em Perigo, de Rhys Hughes, é uma história saltitona e muito surreal sobre colheres, morsas, icebergues, boémios e sereias, e se conseguirem tirar sentido desta salada sem ler o conto contactem o vosso psiquiatra com alguma urgência. Trocando por miúdos, é uma história de amor com uma construção bizarra e por isso mesmo interessante.
Esperando o Fim do Mundo, de Celso Gajo, é um conto lovecraftiano bem mais tradicional, sobre um homem coberto de tatuagens que realiza rituais diários que supostamente evitam o fim do mundo. Supostamente porque ele descobre que na verdade não acredita no que está a fazer, mais ou menos ao mesmo tempo que também descobre o amor duma mulher. Bom, especialmente porque o Gajo (não, não estou a destratá-lo: é mesmo nome) escapa à armadilha que condena à ilegibilidade tantos dos escritores que são fãs de Lovecraft: tentar escrever como o velho Howard Phillips.
E fico-me por aqui. O resto, foi a vida, e isso, lamento, não vos diz respeito.
Começando pelo mais importante: tinha um conto quase pronto quando descobri que estava a tentar forçá-lo a ser algo que ele se recusava terminantemente a ser: fantástico. Era eu a empurrá-lo para o irreal, e ele a empacar que nem jerico malcriado. Era eu a tentar introduzir-lhe goela abaixo umas pitadas de fantasia e ele a vomitá-las como se de veneno se tratasse. Foi uma luta com perdedor inevitável, e claro que acabei por ceder. Era inescapável que o conto seguisse o que lhe sai naturalmente das tendências congénitas e, por mais que me entristeça vê-lo assim, vou ter de deixá-lo ser quem é: um mainstreamzito qualquer, que nem a revista Bang! aceitaria publicar. Como vingança, vai ser todo reescrito, de cima a baixo. Já está a ser, aliás.
Seguindo em ordem de importância, tenho aqui um livrito a ser traduzido, ah pois tenho. Uma metade de livro, mais propriamente, que pega na história onde a deixou O Punhal do Soberano, que está previsto que saia daqui a 20 dias. Isto se não decidir dar um salto à feira do livro de Lisboa entretanto, que os livros andam cada vez mais saídos das capas. E neste momento faltam-me 269 páginas para chegar ao último ponto final, que neste caso será um ponto final exuberante como todos os itálicos.
Descendo mais um pouco da escada, o wiki esteve absolutamente imóvel durante cerca de uma semana. Nem tugiu, nem mugiu, o que de qualquer forma nunca faz, visto que não é vaca nenhuma. Mas depois dessas feriazinhas lá voltou a saracotear-se um pouco. Foram 64 páginas novas a somar às que já lá se encontravam, aumentando o total para 16 226. Tudo graças aos meus dedinhos, pois então. Infelizmente, ainda não se descobriu nenhum modo de pôr as boas intenções a trabalhar. Mas consta-me que os cientistas estão a estudar o problema, algures num laboratório da Terra do Nunca. O Peter Pan é que anda chateado com o assunto. É ludita, o raio do puto.
E cá estamos nós no rés-do-chão: os livros. Passei as semanas dedicado quase em exclusivo a romances. Um muito chato, que, portanto, se lê lentamente, outro bastante grande, que, portanto, tem muito para ler, e um terceiro muito russo. Não acabei nenhum, mas felizmente (pois de contrário nada teria para vos dizer) também li isto:
Colheres de Amor em Perigo, de Rhys Hughes, é uma história saltitona e muito surreal sobre colheres, morsas, icebergues, boémios e sereias, e se conseguirem tirar sentido desta salada sem ler o conto contactem o vosso psiquiatra com alguma urgência. Trocando por miúdos, é uma história de amor com uma construção bizarra e por isso mesmo interessante.
Esperando o Fim do Mundo, de Celso Gajo, é um conto lovecraftiano bem mais tradicional, sobre um homem coberto de tatuagens que realiza rituais diários que supostamente evitam o fim do mundo. Supostamente porque ele descobre que na verdade não acredita no que está a fazer, mais ou menos ao mesmo tempo que também descobre o amor duma mulher. Bom, especialmente porque o Gajo (não, não estou a destratá-lo: é mesmo nome) escapa à armadilha que condena à ilegibilidade tantos dos escritores que são fãs de Lovecraft: tentar escrever como o velho Howard Phillips.
E fico-me por aqui. O resto, foi a vida, e isso, lamento, não vos diz respeito.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Antes que o dia acabe...
Antes que o dia acabe, deixem-me roubar uns segundos ao avanço inexorável do tempo para assinalar algo de que fui recordado pelo serviço público que é este blogue: a Lâmpada faz hoje 6 anos. Para o ano já vai para a escola.
E agora com licença, que vou ali pô-la a soprar velas.
E agora com licença, que vou ali pô-la a soprar velas.
domingo, 19 de abril de 2009
Leitura muito recomendada a todos os interessados no Bibliowiki
Hoje passei a tarde a fazer algo que já planeava fazer há muito, muito tempo, mas que fui adiando por ter dado prioridade à introdução de dados no Bibliowiki. Trata-se de uma página em que o projecto é descrito e algumas das suas características enumeradas, e pretende ao mesmo tempo servir de guia para quem se interessa por ele e responder a algumas dúvidas que têm sido levantadas a seu respeito.
Embora seja ainda um trabalho em curso, julgo ser já de leitura obrigatória para todos os que se interessam pelo projecto, quer desejem colaborar, quer prefiram permanecer na condição de usufrutuário, para ficarem com uma ideia mais concreta sobre o que aquilo é, não é porque nunca foi seu objectivo ser, ou ainda não é.
Gostaria de aproveitar para pedir feedback. Depois de ler aquilo, e tendo em mente que os aspectos mais concretos sobre a edição do wiki ficam para outra página, que dúvidas continuam a ter? O que mais gostariam de saber? Podem responder aqui, ou clicar no link que diz "Corrigir e nova info", para o fazerem no próprio wiki.
Embora seja ainda um trabalho em curso, julgo ser já de leitura obrigatória para todos os que se interessam pelo projecto, quer desejem colaborar, quer prefiram permanecer na condição de usufrutuário, para ficarem com uma ideia mais concreta sobre o que aquilo é, não é porque nunca foi seu objectivo ser, ou ainda não é.
Gostaria de aproveitar para pedir feedback. Depois de ler aquilo, e tendo em mente que os aspectos mais concretos sobre a edição do wiki ficam para outra página, que dúvidas continuam a ter? O que mais gostariam de saber? Podem responder aqui, ou clicar no link que diz "Corrigir e nova info", para o fazerem no próprio wiki.
sábado, 18 de abril de 2009
Semana
Lá se acabou mais uma semana, e mais uma semana muito pouco produtiva, sob todos os aspectos. Eu chamo-lhe recarregar de baterias, que realmente andavam em baixo. Mas se alguém lhe chamar preguiça eu lá terei de baixar os olhos e raspar com o pé na terra, pois então.
Não que não tenha feito nada. Li os capítulos do próximo livro do Martin que estão disponíveis, quer no último livro (o típico capítulo de chamariz que aparece em todos), quer na web. Depois, escolhi aquele que me pareceu mais interessante, traduzi-o, revi-o e enviei-o à editora. Ou seja: até que o Martin termine e publique A Dance With Dragons, nada mais dele tenho a traduzir.
Isto, claro, se a editora não decidir publicar algum livro fora da série do Gelo e Fogo e não pensar em mim para a tradução. Não se pode dizer que não tivesse a sua piada.
Ah, sim, e também escrevi umas coisas. Tenho um conto quase pronto, o primeiro que escrevo desde há muitos meses. É... bizarro.
O wiki esteve muito parado. Só tem 18 páginas novas desde a semana passada, subindo o total para 16 162. Mesmo tendo em conta que a maior parte do que se fez foi refinamento de material pré-existente, que portanto não entra nas contas das novidades, é pouco.
No que toca a leituras, passei a maior parte da semana a tentar penosamente dar um avanço num romance muito chato, mas ainda li mais umas coisitas. Nomeadamente...
Três crónicas de Saramago. Ninguém se Banha Duas Vezes no Mesmo Rio é um daquelas reflexões filosóficas sobre o tempo e a mudança por que toda a gente já deve ter passado. As Bondosas tem um certo tom neo-realista ao descrever aquilo que terá acontecido à casa de infância da família Saramago. E Cair no Céu é mais um texto umbiguista sobre um momento em que, deitado de costas, o autor se terá deixado dominar pela vertigem do azul. A linguagem é quase sempre saborosa, mas confesso que estas crónicas pouco mais do que isso me estão a dar. A ver vamos o que está para vir.
Li também —E a Lua Continue Assim Brilhante, conto de Bradbury em jeito de western de ficção científica, no qual um dos elementos de mais uma expedição a Marte se decide defensor das cidades mortas do planeta morto, e primeiro deserta, regressando depois para matar os antigos companheiros. É um conto francamente bom se tomado isoladamente, e melhor se torna quando enquadrado na história mais lata a que pertence. É uma das charneiras dessa história.
Por fim, li Four Lawns, um poema razoavelmente longo de Tom Disch. Sabem aqueles textos que se lêem e relêem e nos deixam sem saber o que pensar ou, sequer, se fazem ou não sentido? Pois. Foi o caso.
E é tudo. Até para a semana
Não que não tenha feito nada. Li os capítulos do próximo livro do Martin que estão disponíveis, quer no último livro (o típico capítulo de chamariz que aparece em todos), quer na web. Depois, escolhi aquele que me pareceu mais interessante, traduzi-o, revi-o e enviei-o à editora. Ou seja: até que o Martin termine e publique A Dance With Dragons, nada mais dele tenho a traduzir.
Isto, claro, se a editora não decidir publicar algum livro fora da série do Gelo e Fogo e não pensar em mim para a tradução. Não se pode dizer que não tivesse a sua piada.
Ah, sim, e também escrevi umas coisas. Tenho um conto quase pronto, o primeiro que escrevo desde há muitos meses. É... bizarro.
O wiki esteve muito parado. Só tem 18 páginas novas desde a semana passada, subindo o total para 16 162. Mesmo tendo em conta que a maior parte do que se fez foi refinamento de material pré-existente, que portanto não entra nas contas das novidades, é pouco.
No que toca a leituras, passei a maior parte da semana a tentar penosamente dar um avanço num romance muito chato, mas ainda li mais umas coisitas. Nomeadamente...
Três crónicas de Saramago. Ninguém se Banha Duas Vezes no Mesmo Rio é um daquelas reflexões filosóficas sobre o tempo e a mudança por que toda a gente já deve ter passado. As Bondosas tem um certo tom neo-realista ao descrever aquilo que terá acontecido à casa de infância da família Saramago. E Cair no Céu é mais um texto umbiguista sobre um momento em que, deitado de costas, o autor se terá deixado dominar pela vertigem do azul. A linguagem é quase sempre saborosa, mas confesso que estas crónicas pouco mais do que isso me estão a dar. A ver vamos o que está para vir.
Li também —E a Lua Continue Assim Brilhante, conto de Bradbury em jeito de western de ficção científica, no qual um dos elementos de mais uma expedição a Marte se decide defensor das cidades mortas do planeta morto, e primeiro deserta, regressando depois para matar os antigos companheiros. É um conto francamente bom se tomado isoladamente, e melhor se torna quando enquadrado na história mais lata a que pertence. É uma das charneiras dessa história.
Por fim, li Four Lawns, um poema razoavelmente longo de Tom Disch. Sabem aqueles textos que se lêem e relêem e nos deixam sem saber o que pensar ou, sequer, se fazem ou não sentido? Pois. Foi o caso.
E é tudo. Até para a semana
The stars, my destiny
OK, o título do post é uma brincadeira que reutiliza o título de um belíssimo romande de ficção científica de Alfred Bester, publicado em Portugal em duas traduções diferentes em 1977 e 1985. Ou de um dos títulos, porque teve dois, sendo o outro Tiger! Tiger! Vivamente recomendável. Mas não é disso que vos quero falar; é do Nuno Galopim.
O Nuno Galopim resolveu fazer uma breve visita ao centro russo de treino de astronautas, e eu acho muitíssimo bem, ainda por cima por ter feito também uma brincadeira com o título de outra obra marcante na ficção científica duma certa geração: a série Espaço: 1999.
O que já não me parece bem é ter-lhe chamado "Star City".
Não, Nuno, aquilo não se chama Star City. Se quisermos ser pernósticos e dar-lhe um nome em estrangeiro, então chamemos-lhe pelo seu nome russo: Звёздный городок, o que se poderia transcrever em português como Zviozdni Gorodok. Star City é, tão-só, a tradução inglesa desse nome, e se vamos usar uma tradução pois que se use a portuguesa, já que o resto do texto é em português. Sim, embora Звёздный городок não signifique precisamente Cidade das Estrelas, é esse o nome comum do lugar em português, provavelmente por adaptação da designação inglesa. Portanto é essa a designação que se deve usar em textos portugueses. Cidade das Estrelas, não Star City.
Mesmo no caso de não haver já uma designação comum na nossa língua, nunca seria boa ideia chamar ao lugar Star City. A Rússia não é um país anglófono. Ou se usava a transcrição do russo, ou então traduzia-se directamente para português. E a tradução mais correcta, nesse caso, seria "Vila das Estrelas", visto que cidade em russo é город (gorod), não городок (gorodok). Городок quer dizer, textualmente, "cidadezinha".
Tá bem?
O Nuno Galopim resolveu fazer uma breve visita ao centro russo de treino de astronautas, e eu acho muitíssimo bem, ainda por cima por ter feito também uma brincadeira com o título de outra obra marcante na ficção científica duma certa geração: a série Espaço: 1999.
O que já não me parece bem é ter-lhe chamado "Star City".
Não, Nuno, aquilo não se chama Star City. Se quisermos ser pernósticos e dar-lhe um nome em estrangeiro, então chamemos-lhe pelo seu nome russo: Звёздный городок, o que se poderia transcrever em português como Zviozdni Gorodok. Star City é, tão-só, a tradução inglesa desse nome, e se vamos usar uma tradução pois que se use a portuguesa, já que o resto do texto é em português. Sim, embora Звёздный городок não signifique precisamente Cidade das Estrelas, é esse o nome comum do lugar em português, provavelmente por adaptação da designação inglesa. Portanto é essa a designação que se deve usar em textos portugueses. Cidade das Estrelas, não Star City.
Mesmo no caso de não haver já uma designação comum na nossa língua, nunca seria boa ideia chamar ao lugar Star City. A Rússia não é um país anglófono. Ou se usava a transcrição do russo, ou então traduzia-se directamente para português. E a tradução mais correcta, nesse caso, seria "Vila das Estrelas", visto que cidade em russo é город (gorod), não городок (gorodok). Городок quer dizer, textualmente, "cidadezinha".
Tá bem?
domingo, 12 de abril de 2009
Conto: Ange e Damune
Hoje, em conversa no twitter, este conto veio à baila. A bem dizer, foi trazido à baila por mim, mas uma das minhas interlocutoras manifestou interesse em lê-lo, e eu lamentei mentalmente, não pela primeira vez, que seja tão simples perder a informação presente na web.
É que o conto tinha sido publicado. Foi em 2005, no site Filhos de Atena, antes de alguém ter achado boa ideia hackeá-lo, fazendo assim com que se perdesse toda a informação lá contida. Desapareceram assim da web dois contos meus, este e outro, e mais uma série de textos duma série de gente, dos quais não resta nem sinal, a não ser que algum desses autores tivesse mantido consigo cópia daquilo que lá foi publicando.
Não foi, aliás, caso único. Com o site da Intempol aconteceu algo de muito semelhante, e as dezenas de ficções e não-ficções que lá se encontravam publicadas só puderam ser recuperadas porque parte delas foi arquivada pelo Web Archive. Um desses contos também é meu. E quando David Soares decidiu mudar de blogue, apagando o antigo, também desapareceu um dos meus contos, além de tudo o que o David tinha aí escrito e de um conto de um brasileiro de que não resta rasto, nem de título nem de autor.
Mas pelo menos Ange e Damune regressa hoje à "vida". Agora mesmo.
É que o conto tinha sido publicado. Foi em 2005, no site Filhos de Atena, antes de alguém ter achado boa ideia hackeá-lo, fazendo assim com que se perdesse toda a informação lá contida. Desapareceram assim da web dois contos meus, este e outro, e mais uma série de textos duma série de gente, dos quais não resta nem sinal, a não ser que algum desses autores tivesse mantido consigo cópia daquilo que lá foi publicando.
Não foi, aliás, caso único. Com o site da Intempol aconteceu algo de muito semelhante, e as dezenas de ficções e não-ficções que lá se encontravam publicadas só puderam ser recuperadas porque parte delas foi arquivada pelo Web Archive. Um desses contos também é meu. E quando David Soares decidiu mudar de blogue, apagando o antigo, também desapareceu um dos meus contos, além de tudo o que o David tinha aí escrito e de um conto de um brasileiro de que não resta rasto, nem de título nem de autor.
Mas pelo menos Ange e Damune regressa hoje à "vida". Agora mesmo.
Ange e Damune
— Boa tarde, damun Kahaath — disse-me a secretária, uma mulherzinha minúscula de cornichos cor de rosa, um par de desnecessários e anacrónicos óculos pendurado do nariz, cabelo apanhado no alto da cabeça e umas asas raquíticas e cinzentas a despontar das espáduas. Purgatório típico, híbrida e agarrada aos tiques, manias e modas de quem fora na antevida.
— Os ange estão um pouco atrasados — prosseguiu, mantendo o ar circunspecto de burocrata que o era por ideologia e vocação. — Se desejar, pode esperar na sala. Eles não devem tardar.
Grunhi um assentimento e mostrei-lhe os colmilhos. Não custa ser simpático, e o damune tem em alta conta as relações públicas.
A sala era vasta, dominada por uma longa mesa e decorada com aquilo que no purgatório passa bom gosto: metade repleta de não muito subtis mas bastante banais referências ao andar de baixo, a outra com não mais subtis e não menos banais referências ao de cima. Sentei-me no braço de uma das cadeiras dos ange. Apeteceu-me. Ter-me-ia sentado na cadeira propriamente dita, mas são diabolicamente incómodas, com perdão do trocadilho: nada de buraco para o rabo e umas costas que não lembram ao menino jesus, feitas de três paus verticais, juntos a meio das costas como um tridente. É para os mariconços meterem as asinhas, naturalmente, mas não há damun que se consiga enfiar naquilo, muito embora o design esteja imbuído de uma deliciosa ironia.
Levantei-me. Estava a ficar impaciente, o que era precisamente o que os ange queriam. Os antevivos que ainda pensam que a malta do andar de cima respeita escrupulosamente todas as regras deviam ser convidados para vir assistir a uma destas reuniões. Talvez perdessem as manias.
Impaciência, paciência, pum, pam, pim, tralalá, prilimpimpim, não faz mal esperar assim...
Sentei-me numa cadeira do "meu" lado, uma cadeira decente, depositei a maleta sobre a mesa, abri-a e retirei os documentos. Pus-me a ler, apesar de já os conhecer de trás para a frente.
Demonstrando um timing perfeito, os ange escolheram entrar no momento em que acabava a primeira frase.
Eram três. Saudámo-nos com simpatia. Eu mostrei-lhes os colmilhos, eles mostraram-me as bochechas e adejaram as asas, adequadamente brancas e penugentas. Penojentas, diria eu se alguém me perguntasse. Mas ninguém pergunta, pois a moda dos ange é dos ange, só dos ange e ai de quem se intrometa. Lá em baixo conhecemo-los por paneleirotes, por uma questão de tradição, mas a verdade é que se não fossem as asas e o ar bochechudo de querubins, aqueles três até escapavam do cliché efeminado. Um trazia um mohawk e um piercing na asa esquerda, outro era tão barbudo quanto a sua compleição permitia, ostentando uma valente penugem no queixo, e só o terceiro era mais tradicional, mas mesmo esse trazia uma túnica tão curta que mais parecia uma camisa, metida displicentemente para dentro de um par de calças. Aquelas asas repugnantes é que eram, por si só, um atentado ao bom gosto.
— Damun Kahaath, certamente? — disse o do mohawk. Mostrei os colmilhos e grunhi. O angi prosseguiu:
— Sou o angi Fuiriri, este é o angi Toriti e este o angi Patatati. Estamos aqui para tratar do caso do senhor Costa Maclaren, não é verdade? Deve ser rápido. Dada a documentação que recolhemos, não nos opomos a que no-lo leve lá para baixo, embora, como sabe, seja nosso dever salvar o máximo de almas que for possível. Infelizmente, somos constantemente confrontados com situações em que, para nosso grande pesar, nos vemos impedidos de exercer esse desígnio dadas as falhas irremediáveis que as almas apresentam à chegada aos nossos serviços. Suponho que esteja de acordo?
O mohawk engana, pensei. Este gajo é tão chato como todos os outros, safa!
— Não — resmunguei. — Não estou nada de acordo. Pelo contrário, acho que o Maclaren é material vosso. De caras.
Os ange pareceram chocados. Genuinamente. Deviam estar à espera que isto fosse favas contadas.
— Desculpe?! — disse o da penugem quando recuperou a fala (O Toriti? Patatati? Bah, não importa).
— Naturalmente. Temos aqui provas concludentes da sua intrínseca bondade — insisti, sacudindo o maço de papéis — e não podemos aceitar gente dessa lá em baixo, de modo algum.
Os ange entreolharam-se e dois levaram as mãos à raiz dos cabelos encaracolados. O terceiro respondeu-me.
— Desculpe, caro colega, mas não me parece que seja possível encontrar nesta alma motivos de redenção. Afinal de contas, o Maclaren fez dois desfalques e assaltou uma drogaria, que diabo... oh! Perdão!...
Soltei uma baforada de fumo das narinas, querendo com isso dizer que por mim podiam falar mal do chefe à vontade.
— Por amor à família — expliquei — por amor à família. O Maclaren tinha uma mãezinha doente, como sabem, padecendo de um caso grave de esquizofrenia paranóide e uma filha aleijadinha...
— Porque ele lhe deu uma surra quando ela tinha três anos! — interrompeu um dos ange. Não lhe fiz caso e continuei a ladainha.
— Aleijadinha, coitada, necessitando de cuidados permanentes e caros que o nosso amigo não podia comportar. — Sou o maior, pensei, comigo a jogar o jogo deles estes três palhaços não têm a mínima hipótese.
— Mas e as vítimas... a propriedade privada... — exasperou-se o da túnica — o que os actos do Macdonald causou nas vidas dos inocentes que atacou!...
— Inocentes? Quais inocentes? — Escolhi uns maços de folhas e atirei-lhos através da mesa. — Têm aí os vossos "inocentes". São todos clientes nossos, salvo a Cátia Castilho, que ainda está anteviva mas já tem um ficheiro lá em baixo bastante agradável e sem dúvida acabará por juntar-se-nos mais cedo ou mais tarde. O Maclaren não só roubou pela família, como escolheu muito bem quem roubava...
— ... ou teve uma sorte diabólica — resmungou o da barbinha, folheando os documentos. Desta vez nem se incomodou em pedir desculpa: estava a ficar zangado. Óptimo!
— Seja — disse o do mohawk, pondo os documentos de lado. — Aceitemos por agora que os roubos são inconclusivos. Isso não invalida o facto de que o Costa Maclaren assassinou duas pessoas a sangue-frio. Como pode sugerir que acolhamos um assassino lá em cima?
Reprimi a tentação de responder que não seria o primeiro. Não seria bom para a negociação. Em vez disso, escolhi uma tangente.
— Qual é o valor que se preza mais lá por cima?
— Como?
— Que é que vocês mais prezam? Qual o valor que está no topo da vossa escala?
— O amor?
— Tá bem, o amor, mas que amor? Isto é, o amor a quê?
— Não percebo onde quer chegar, damun.
— É ou não é verdade que lá em cima o valor supremo é o amor ao vosso chefe? O amor ao que é transcendente? Àquilo que não é humano?
— Bem, sim, mas...
— E é ou não é verdade que é bem aceite lá por cima fechar os olhos a pecadilhos menores quando eles são resultado e consequência desse amor?
— Não propriamente. Nós...
— Não? Então aquilo que você disse no começo da nossa conversa é mentira?
— Como?! Os ange nunca mentem, damun! Nós...
— Desculpe. Mas julgo tê-lo ouvido dizer que é "vosso dever salvar o máximo de almas que for possível". Disse isto, não disse?
— Disse e é verdade! O nosso...
— Certo. E, segundo a última versão do manual operativo dos agentes ange, que os vossos serviços amavelmente nos ofereceram, capítulo terceiro, parágrafo 54, alínea f, cito, "os dilemas e casos omissos devem ser resolvidos a favor da alma sempre que sejam resultado, no todo ou em parte, de amor transcendente ao não humano". Confirmam que citei correctamente, não confirmam?
— Confirmo, sim. Mas se nos deixar argumentar e não nos interromper gostaríamos de salientar que não vemos nenhuma relação entre esse ponto do nosso regulamento e o caso em análise.
— Ah, mas ela existe. Conhecem o caso da cadelinha?
— O caso da cadelinha?!
— Sim, a cadelinha que o Costa Maclaren teve em criança.
— Ah, sim claro. Uma tragédia. Pobre animal.
— Exacto. Pois bem, os nossos serviços psicométricos determinaram, sem margem para dúvidas que no momento de ambos os assassínios o Maclaren evocou a sua cadelinha. Têm aqui os resultados da análise. Ora bem, o que isto significa é que no momento dos assassínios ele não estava em nenhum estado que nos interesse a nós e, bem pelo contrário, se encontrava em pleno êxtase místico, repleto de amor, defendido do pecado por um sentimento que, ainda por cima, obedece às determinações do vosso manual operativo. Segundo os vossos regulamentos, aqueles actos não têm peso e a alma deve ser, como vocês dizem, salva.
Quando me calei os ange olhavam-me de boca aberta e breves lampejos de fúria no mais fundo dos olhos. Provavelmente continham-se para não arrancar a fina camada de bondade e compreensão com que se vestiam todos os dias de manhã e desatar aos palavrões e aos socos na mesa. Quanto a mim, também me continha mas para não me rir. O nó estava atado. E não tinha maneira de ser desatado.
— Isto é, isto é... — acabou por gaguejar o da barba — isto é altamente irregular.
Não disse nada. Limitei-me a mostrar os colmilhos.
O do mohawk estudava a análise psicométrica, provavelmente à procura de falhas. Chato mas inteligente, pensei, mas não vais encontrar nada: não te preparaste suficientemente bem para um caso que pensaste que ia ser apenas rotina e não vais ser capaz de ver para lá dos resultados mais óbvios. Acabou por colocar o documento sobre a mesa e olhar-me, de bochechas rosadas e um tremor pouco saudável nas asas.
— Parece estar tudo em ordem, realmente. Parece que não temos outro remédio senão aceitá-lo... quer dizer — corrigiu rapidamente — teremos todo o gosto em salvar mais esta alma dos tormentos lá de baixo, para maior glória do andar de cima. Como sabe, vivemos imersos em compaixão, o que este caso comprova à saciedade.
Pois, pois, pensei, lá por baixo damos outros nomes a esse tipo de compaixão. Mas disse apenas:
— Assinamos?
— Com certeza.
Fui o último a sair. Os ange esgueiraram-se a toda a pressa assim que puseram um trio de rabiscos ilegíveis no documento de entrega da alma do Maclaren ao andar de cima, levando consigo a sua cópia e a que se destina aos serviços de encaminhamento do Purgatório. Muito simpáticos. Arrumei a minha tralha com todo o vagar. Tinha sido fácil, afinal de contas. E muito divertido.
Quanto ao Costa Maclaren, era um pulha, um canalha, um javardolas da pior espécie. Merecia o inferno sete vezes. Mas para ele, ficar lá em baixo seria como passar a eternidade num parque de diversões. Agora lá em cima... no meio dos chatos todos do universo...
Danação eterna!
Quase que tive pena do homem.
Quase.
Em vez disso, soltei por fim a gargalhada que trazia atravessada. Saiu bastante diabólica. Foi uma boa gargalhada.
sábado, 11 de abril de 2009
Semana
Um pouco mais tarde do que o que é hábito (tenho estado cá com uma preguiça... mas não. Chamemos-lhe "recarregar de baterias". Isso), eis-me aqui a falar da semana que passou.
Passou e com ela foi-se uma avaria na net que já andava a chatear há quase uma semana, mas que foi piorando aos poucos até me deixar quase completamente desligado na terça-feira. O mais chato das avarias nem são as avarias: é o tempo imenso que se perde a fazer experiências nisto e naquilo até que o técnico decida finalmente chegar, e passar depois algumas horas, também ele, a fazer experiências nisto e naquilo enquanto um tipo fica de lado, de braços cruzados, a ver. O que é ainda pior do que perder tempo pessoalmente com experiências.
Mas enfim, lá se foi a avaria, e com ela foi-se um modem e veio outro.
No que toca a trabalho daquele que se executa para ganhar a vida, a semana foi gasta a ler o próximo livro, e já lá vi mais daquelas chaticezitas que me perseguem as traduções: poemas e trocadilhos, um exemplar de cada, que irão querer dizer dois dias de muito trabalho e muito pouco rendimento da espécie que se põe no banco. Não ocupam uma mão-cheia das 315 páginas que ainda estão por fazer, mas deviam valer por umas 10 ou 15.
O wiki esteve razoavelmente activo, com 73 novidades que fizeram crescer o total de artigos para 16 144. Material brasileiro antigo e traduções portuguesas recentes, principalmente.
E como acontece sempre que tenho leituras laborais a fazer, as de lazer ficaram um pouco postas de lado. Mas ainda li umas coisitas. De Bradbury, li Aquele Velho Cão Deitado Sobre a Poeira, um conto algo surrealista sobre uma visita ao circo, cujo interesse reside sobretudo na linguagem. Não gostei lá muito, confesso. Já gostei mais de A Sereia de Curitiba, de Rhys Hughes, um conto sobre um viajante que conhece uma sereia uma certa noite no carnaval de Curutiba. Conhece e apaixona-se ao ponto de a seguir quando ela parte da cidade, de comboio, a cavalo, de bicicleta, através de todos os meios de transporte que consegue arranjar. Não será nenhuma obra-prima, mas é um conto fantástico interessante.
E, tirando o que avancei num par de romances, o que li esta semana resumiu-se a isto. Até à próxima.
Passou e com ela foi-se uma avaria na net que já andava a chatear há quase uma semana, mas que foi piorando aos poucos até me deixar quase completamente desligado na terça-feira. O mais chato das avarias nem são as avarias: é o tempo imenso que se perde a fazer experiências nisto e naquilo até que o técnico decida finalmente chegar, e passar depois algumas horas, também ele, a fazer experiências nisto e naquilo enquanto um tipo fica de lado, de braços cruzados, a ver. O que é ainda pior do que perder tempo pessoalmente com experiências.
Mas enfim, lá se foi a avaria, e com ela foi-se um modem e veio outro.
No que toca a trabalho daquele que se executa para ganhar a vida, a semana foi gasta a ler o próximo livro, e já lá vi mais daquelas chaticezitas que me perseguem as traduções: poemas e trocadilhos, um exemplar de cada, que irão querer dizer dois dias de muito trabalho e muito pouco rendimento da espécie que se põe no banco. Não ocupam uma mão-cheia das 315 páginas que ainda estão por fazer, mas deviam valer por umas 10 ou 15.
O wiki esteve razoavelmente activo, com 73 novidades que fizeram crescer o total de artigos para 16 144. Material brasileiro antigo e traduções portuguesas recentes, principalmente.
E como acontece sempre que tenho leituras laborais a fazer, as de lazer ficaram um pouco postas de lado. Mas ainda li umas coisitas. De Bradbury, li Aquele Velho Cão Deitado Sobre a Poeira, um conto algo surrealista sobre uma visita ao circo, cujo interesse reside sobretudo na linguagem. Não gostei lá muito, confesso. Já gostei mais de A Sereia de Curitiba, de Rhys Hughes, um conto sobre um viajante que conhece uma sereia uma certa noite no carnaval de Curutiba. Conhece e apaixona-se ao ponto de a seguir quando ela parte da cidade, de comboio, a cavalo, de bicicleta, através de todos os meios de transporte que consegue arranjar. Não será nenhuma obra-prima, mas é um conto fantástico interessante.
E, tirando o que avancei num par de romances, o que li esta semana resumiu-se a isto. Até à próxima.
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